Fósseis de pacas gigantes descobertos em Minas Gerais são atribuídos a espécie extinta
Achado ajuda a compreender melhor a fauna que viveu na América do Sul há mais de 30 mil anos
© JORGE BLANCO

Apesar
das semelhanças, espécie de paca extinta (acima) era muito maior que a
paca que conhecemos hoje. Alguns indivíduos poderiam ter mais de 17 kg
Em 2006, durante escavações na Gruta Cuvieri, em Lagoa Santa, Minas
Gerais, o biólogo Elver Mayer se deparou com centenas de fragmentos de
dentes e ossos fósseis, incluindo crânios e mandíbulas. Ele os encontrou
no fundo de um abismo de oito metros de profundidade em meio aos restos
mortais de outras espécies de mamíferos. À época aluno de iniciação
científica no curso de ciências biológicas do Centro Universitário
Fundação Santo André, em São Paulo, Mayer pensou ter encontrado os
esqueletos de uma espécie comum de paca. Somente em 2014, já no
doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
reavaliou melhor os fragmentos, verificando que os fósseis, na verdade,
pertenciam a uma espécie extinta de paca de grande porte, chamada
Cuniculus rugiceps.
A conclusão se deu após o pesquisador comparar os fragmentos
encontrados a partir de 2006 com os exemplares de pacas extintas
descritos entre 1837 e 1839 pelo naturalista dinamarquês Peter Lund. Em
colaboração com o biólogo Leonardo Kerber, da Universidade Federal de
Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que visitou a coleção de Lund na
Dinamarca e coletou dados sobre as espécies extintas, Mayer pôde
comparar as amostras e descrever os crânios, mandíbulas e dentes
encontrados na Gruta Cuvieri, verificando que se tratava da espécie
C. rugiceps.
No mesmo período, o biólogo descobriu na coleção paleontológica da
Fundação Museu do Homem Americano, no Piauí, dois dentes que pertenciam à
mesma espécie de paca encontrada em Lagoa Santa. O achado permitiu a
ele fazer o primeiro registro da espécie fora da região de Lagoa Santa,
ampliando em mais de 1.500 quilômetros ao norte a distribuição da
espécie identificada, conforme descreveu em um artigo publicado na
revista
Acta Palaeontologica Polonica, junto com o
bioantropólogo Walter Neves, coordenador do Laboratório de Estudos
Evolutivos e Ecológicos Humanos do Instituto de Biociências da
Universidade de São Paulo (USP).
© JORGE BLANCO

Representação artística de fósseis de pacas de grande porte encontrados na Gruta Cuvieri, em Lagoa Santa, Minas Gerais
A espécie extinta assemelha-se muito às pacas conhecidas hoje. Ambas
têm câmaras formadas pelos arcos zigomáticos — contato entre ossos que
formam a parte inferior da órbita ocular, na região da bochecha — que
lhes permitem se comunicar com o interior da boca. Dessa forma, os sons
emitidos pelos animais eram amplificados ao ressoarem nessas cavidades
ósseas, tornando-se ainda mais intensos. “É possível também que essas
estruturas fossem usadas como reservatório para o transporte de
alimentos”, diz Mayer.
No entanto, a característica que mais chamou a atenção dos
pesquisadores diz respeito ao tamanho dos bichos. Os ossos da espécie
extinta eram até 30% maiores do que os da paca atual. “Fizemos uma
estimativa do peso da espécie extinta e o resultado indicou que os
indivíduos poderiam superar os 17 quilogramas (kg), enquanto que o peso
das espécies viventes chega, no máximo, a 12 kg.” Os pesquisadores não
sabem exatamente o período em que essa espécie habitou aquela região.
“Com a datação que temos dos sedimentos é possível dizer que os
indivíduos que encontramos na Gruta Cuvieri viveram há mais de 30 mil
anos”, afirma Mayer.
Outro aspecto interessante relacionado à descoberta é que os fósseis
encontrados possivelmente eram de animais que morreram em razão de
acidentes. Os pesquisadores suspeitam que eles entravam na caverna à
procura de abrigo, água e sais minerais depositados nos sedimentos.
Nessas ocasiões, devido à topografia irregular da caverna e à falta de
luz, os bichos provavelmente se acidentavam. Em muitos casos os animais
caiam em abismos ou fissuras. Assim, a topografia da Gruta Cuvieri
funcionava como uma armadilha natural. “O fato de termos encontrado no
fundo da caverna esqueletos de pacas extintas e de outros mamíferos de
médio e grande porte relativamente completos é uma forte evidência da
ocorrência deste processo”, diz Mayer.
Segundo ele, os achados contribuem para um melhor entendimento da
fauna do final Quaternário (desde 2,5 milhões de anos atrás até os dias
de hoje), um período de grandes mudanças ambientais, extinções e marcada
pela chegada dos seres humanos na América do Sul.
Artigo científico
MAYER, E.L.
et al. Taxonomic, biogeographic, and taphonomic reassessment of a large extinct species of paca from the Quaternary of Brazil.
Acta Palaeontologica Polonica. 2016.