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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Caatinga tem 182 animais ameaçados; no país, quase 10% dos monitorados estão sob risco de extinção

Araras, onças e periquito-cara-suja estão entre os animais do bioma que podem desaparecer.

Por Patrícia Figueiredo, G1

Animais em extinção no Brasil — Foto: Roberta Jaworski/G1 Animais em extinção no Brasil — Foto: Roberta Jaworski/G1 
Animais em extinção no Brasil — Foto: Roberta Jaworski/G.

Pelo menos 1.173 espécies de animais vivem sob risco de extinção no país atualmente. Há outros dez animais que existiam no Brasil e que já desapareceram completamente do território nacional. Os dados são do Instituto de Conservação da Biodiversidade Chico Mendes (ICMBio). O órgão publicou em janeiro a mais recente edição do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção 2018. A versão anterior do relatório havia sido publicada há mais de dez anos, em 2008.
Não é possível comparar o número de espécies ameaçadas em 2018 com os registrados anteriormente porque a abrangência da pesquisa foi maior na edição recém-lançada. De 2008 para 2018, 716 espécies passaram a integrar a lista de ameaçados e 170 saíram. Em 2008 eram analisadas 1.400 espécies e, agora, são 12.254. 

Desses mais de 12 mil animais, 9,7% foram classificados em algum nível de ameaça. De acordo com o ICMBio, das 1.173 espécies ameaçadas no país, 724 estão nas duas categorias mais críticas, com risco alto ou extremamente alto de extinção. 

A Mata Atlântica é o bioma que acolhe maior número de espécies ameaçadas, tanto em números absolutos quanto em proporcionais à riqueza dos ecossistemas. São 1.026 animais ameaçados que vivem ali, sendo que 428 deles são endêmicos, ou seja, só existem em regiões de Mata Atlântica.
A Caatinga abriga ao todo 182 animais ameaçados. Desses, 46 existem apenas nesse bioma. Um deles é a arara-azul-de-lear, que é alvo de ações de preservação no Raso da Catarina e está sendo reinserida na natureza no Boqueirão da Onça, na Bahia. 

A arara-azul-de-lear se tornou símbolo da biodiversidade do sertão junto com felinos como a onça-parda e a onça-pintada. As onças quase desapareceram do semiárido nos últimos anos, principalmente por causa da expansão de atividades agropecuárias que, segundo pesquisadores, já devastaram mais de 50% da vegetação nativa.
Retorno de arara quase extinta na caatinga mostra os desafios da conservação de espécies
Retorno de arara quase extinta na caatinga mostra os desafios da conservação de espécies
Esses mascotes fazem companhia na lista a outros representantes menos conhecidos do bioma. É o caso, por exemplo, dos periquitos-cara-suja. Encontrados na região da Serra do Baturité, no Ceará, eles são capturados por caçadores quando ainda estão nos ninhos e acabam abastecendo as feiras cearenses de venda ilegal de animais silvestres.
Antes encontrada em diversos locais do Nordeste, a espécie sofreu um declínio populacional e acabou incluída na lista de animais em perigo de extinção. A tendência só se reverteu com o trabalho de ONGs que fazem campanhas de conscientização e ações de reprodução em cativeiro.

Classificações de risco

Há oito classificações usadas para analisar o risco de extinção de um animal. O termo “ameaçado” é adequado para designar apenas três dessas categorias: Criticamente em Perigo, Em Perigo e Vulnerável.
Conheça os níveis de ameaça de espécies animais:
  1. Extinto: usada apenas quando não há nenhuma dúvida razoável de que o último indivíduo da espécie já morreu.
  2. Extinto Na Natureza: animal não existe mais na sua área de distribuição original mas ainda pode haver exemplares criados em cativeiro ou em outros habitats.
  3. Criticamente Em Perigo: é a designação mais elevada de risco. Nela estão os animais que enfrentam perigo extremamente elevado de extinção na natureza.
  4. Em Perigo: são animais que, segundo os pesquisadores, enfrentam risco muito alto de extinção e que provavelmente vão desaparecer em um futuro próximo.
  5. Vulnerável: enfrentam risco alto de extinção na natureza a menos que as circunstâncias que ameaçam a sua sobrevivência e reprodução melhorem.
  6. Pouco Preocupante: usada para espécies que são abundantes e amplamente distribuídas.
  7. Não Avaliado ou Não Aplicado: espécies consideradas inelegíveis para avaliação em nível regional.
  8. Dados Insuficientes: faltam dados adequados sobre a distribuição e abundância da espécie.
Essa catalogação de risco é utilizada não apenas no Brasil mas em todo o mundo. Ela segue o padrão criado pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) em 1964.

Espécies mais ameaçadas

Não existe um ranking dos animais mais ameaçados do Brasil. Para defensores do meio ambiente, colocar a lista em uma ordem determinada de prioridade seria prejudicial aos esforços de conservação da biodiversidade.
“As três categorias que compõem o nível de ameaça já constituem um ranking: espécies Criticamente em Perigo estão mais ameaçadas do que as que recebem o selo Vulnerável, por exemplo”, diz o pesquisador Márcio Martins, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP).
A IUCN afirma que as todas as espécies classificadas com o mesmo selo têm risco de extinção igual. Envolvido na coordenação de alguns grupos de pesquisadores do Livro Vermelho, Martins, avalia que ranquear as espécies pode favorecer aquelas que têm mais apelo entre os humanos, como os mamíferos.
“As listas de animais ameaçados devem ser feitas da maneira mais cientifica e fria possível. Dentro das categorias que já existem não é correto fazer diferenciação porque isso partiria de argumentos subjetivos. É nessa hora que a paixão fala mais alto que a razão”, diz Márcio Martins, do IB-USP.
A partir das listas de animais ameaçados são elaboradas desde campanhas de conscientização de ONGs até políticas públicas nacionais. A principal política de conservação natural do ICMBio são os planos de ação nacional, que identificam populações em risco e seus ambientes naturais para propor intervenções do poder público. Graças a essas ações algumas espécies conseguem ter sua chance de extinção diminuída ou até mesmo sair das listas do Livro Vermelho.
Conheça a história de cinco espécies cujo risco de extinção diminuiu nos últimos anos:
Ícone de campanhas de preservação ambiental, o mico-leão-dourado foi parar até na nota de R$ 20  — Foto: Nadine Doerlé/Pixabay Ícone de campanhas de preservação ambiental, o mico-leão-dourado foi parar até na nota de R$ 20  — Foto: Nadine Doerlé/Pixabay 
Ícone de campanhas de preservação ambiental, o mico-leão-dourado foi parar até na nota de R$ 20 — Foto: Nadine Doerlé/Pixabay 

Mico-leão-dourado
 
Mascote de diversas campanhas de preservação ambiental, o mico-leão-dourado melhorou seu status de conservação nos últimos anos mas ainda corre risco de extinção. A espécie é classificação com risco alto na última lista de animais ameaçados. O maior perigo para esse animal que quase foi extinto nos anos 1970 é o desmatamento de seu bioma natural, a Mata Atlântica. A febre amarela também coloca em risco algumas populações.
Ameaçado por doenças e pela caça, veado-campeiro vive em pequenos grupos de até seis indivíduos — Foto: Cláudio Timm/VC no TG Ameaçado por doenças e pela caça, veado-campeiro vive em pequenos grupos de até seis indivíduos — Foto: Cláudio Timm/VC no TG 
Ameaçado por doenças e pela caça, veado-campeiro vive em pequenos grupos de até seis indivíduos — Foto: Cláudio Timm/VC no TG 

Veado-campeiro
Natural do Cerrado, o veado-campeiro teve sua população diminuída nos anos 1980 porque fazendeiros acreditavam que ele era responsável por espalhar febre aftosa. A espécie era, na verdade, vítima da doença: muitos animais acabaram morrendo por conta do contato com gado contaminado. Depois que um espaço especial foi criado para a espécie no Parque Nacional das Emas, em Goiás, outros estados também criaram iniciativas de preservação. No Livro Vermelho de 2018 sua classificação de risco caiu para vulnerável.
  Sapinho-admirável-de-barriga-vermelha quase foi extinto por conta da construção de uma hidrelétrica — Foto: Divulgação/UFRGS 
Sapinho-admirável-de-barriga-vermelha quase foi extinto por conta da construção de uma hidrelétrica — Foto: Divulgação/UFRGS 
 
Sapinho-admirável-de-barriga-vermelha
 
O pequeno anfíbio, descrito pelos cientistas pela primeira vez em 2006, existe apenas ao longo de um trecho de 700 metros do rio Forqueta, no município de Arvorezinha, no Rio Grande do Sul. A reduzidíssima área de distribuição da espécie levou-a a condição de criticamente em perigo de extinção. Em 2014, o sapinho-admirável-de-barriga-vermelha quase acabou extinto por conta da criação da Pequena Central Hidrelétrica de Perau de Janeiro. A obra ia deixar submerso todos os seus 700 metros de habitat. Graças à ação de pesquisadores e autoridade ambientais, abdicou-se do empreendimento em favor da espécie.
  Jararaca-de-alcatrazes vive em um sub-bosque da Mata Atlântica — Foto: Carlos Alberto Coutinho / TG 
Jararaca-de-alcatrazes vive em um sub-bosque da Mata Atlântica — Foto: Carlos Alberto Coutinho / TG 

Jararaca-de-alcatrazes 
 
Encontrada apenas na Ilha de Alcatrazes, no litoral paulista, esta serpente foi considerada criticamente em perigo de extinção porque a ilha, onde funciona uma base militar da Marinha, era usada há trinta anos para a prática de exercícios de tiro de canhão. Depois de insistentes pedidos de ambientalistas, a Marinha brasileira anunciou o fim dos exercícios em 2013. Pesquisadores acreditam que, com o fim da principal ameaça, a jararaca de Alcatrazes deve mudar de categoria de risco na próxima edição do Livro Vermelho.
  Peixe-royal-gramma é muito procurado por aquaristas por suas cores chamativas — Foto: Wikimedia 
Peixe-royal-gramma é muito procurado por aquaristas por suas cores chamativas — Foto: Wikimedia 

Peixe-royal-gramma
 
O peixe grama, espécie ornamental marinha intensamente capturada para o comércio aquarista, apareceu pela primeira vez na lista de espécies ameaçadas em 2003. A inclusão teve efeitos práticos: sua caça foi proibida pelo Ministério do Meio Ambiente, o que permitiu um aumento populacional nos últimos anos. No Livro Vermelho de 2018 o pequeno peixe aurirroxo não figura mais na lista de ameaçados.

Entenda o Livro Vermelho

O Livro Vermelho do ICMBio é a relação oficial de animais ameaçados da fauna brasileira. Participaram de sua elaboração 1.270 pesquisadores de mais de 250 instituições do Brasil e do exterior. 

No final de 2014 foram publicadas listas de espécies ameaçadas pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). São os dados dessas listas que alimentam o Livro Vermelho 2018. 

Enquanto os documentos do MMA destacam apenas a classificação de risco de cada espécie, o livro traz fichas detalhadas com mais informações para cada animal ameaçado. Esses dados ajudam biólogos a entender de onde surgem as ameaças e como combatê-las. 

As informações do livro do ICMBio são enviadas para a IUCN para compor a lista vermelha internacional. A versão global mais recente é de 2012 e contabilizou 19.817 espécies ameaçadas de extinção em todo o mundo, entre animais e vegetais.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Menos mata, menor deslocamento
 
Em matas fragmentadas, dispersão espacial do mico-leão-dourado cai de oito para 2 km
Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação (LEEC) - UNESP
20/06/2018
 
O mico-leão-dourado, um dos símbolos da biodiversidade da Mata Atlântica, sofre com a fragmentação das florestas e tem sua movimentação e fluxo gênico reduzidos. É o que reporta um estudo recém publicado na revista “Biological Conservation”, uma das principais revistas de conservação no mundo. O estudo ocorreu na Bacia do Rio São João, estado do Rio de Janeiro, e foi realizado por pesquisadores da UENF, Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), UNESP e UFSCar.
O mico-leão-dourado, Leontopithecus rosalia, é um primata endêmico da Mata Atlântica. Sua área de ocorrência é restrita à remanescentes florestais na Bacia do Rio São João, que fica no estado do Rio de Janeiro, em uma região altamente fragmentada. A espécie quase foi extinta na década de 80, quando menos de 400 indivíduos ocorriam em vida livre. Hoje, há mais de 3200 indivíduos vivendo na natureza, graças a um projeto de conservação atualmente liderado pela AMLD, UENF e seus parceiros.
Para salvar a espécie da extinção foram realizadas as seguintes ações: (1) a reintrodução de micos nascidos em cativeiro para a vida livre e (2) a translocação de grupos sociais isolados em fragmentos florestais no litoral do Rio de Janeiro para a Reserva Biológica da União. Até momento, porém, permanecia uma questão em aberto que dificultava o avanço dos programas de conservação: O mico-leão-dourado é capaz de dispersar por áreas abertas, tais como estradas e pastagens?
“Entender como o mico-leão-dourado se dispersa através da paisagem é importante para a elaboração de medidas de restauração florestal”, comenta Andréia Magro Moraes, pesquisadora da UENF e pós-doc da UNESP, responsável pelo estudo. “Por diversas vezes, a implementação de corredores florestais que facilitam o movimento dos animais pode demandar um alto investimento financeiro e a desão social. Por isso, é importante que os elementos da paisagem que representam barreiras para a dispersão de uma espécie, sejam identificados”, complementa Moraes.
Do mesmo modo, a distância em que um elemento da paisagem impede a dispersão, também deve ser quantificada. Uma vez restabelecida a conectividade entre os remanescentes florestais, os organismos são capazes de se dispersar com mais facilidade na paisagem, garantindo o fluxo gênico interpopulacional e permitindo sua persistência na região.
Ferramentas e metodologia de pesquisa
 
Para entender como o mico-leão-dourado se dispersa em uma paisagem fragmentada, o estudo usou ferramentas de genética da paisagem e medidas de fluxo gênico. O DNA de 201 micos-leões-dourados de 48 grupos sociais foi extraído de amostras de pelos e investigado. A coleta das amostras de pelos – uma tarefa que exige muita experiência, pois envolve o contato direto com os animais na natureza – foi realizada por profissionais experientes da AMLD. “Nesses 30 anos temos realizado muitos estudos com o mico. É gratificante ver que nossas milhares de horas de campo tem sido recompensadas com os avanços científicos e novas oportunidades para a espécie”, comenta Andréia Martins especialista de campo da AMLD.
As amostras de pelos foram enviadas para o Laboratório de Biodiversidade Molecular e Conservação da UFSCar, onde foram extraídos todos os DNAs para possibilitar as análises genéticas.“Caracterizar geneticamente os micos nos permite conhecer as semelhanças e diferenças de suas populações. Essas semelhanças e diferenças nos dão um indicativo de como esses animais estão se movendo ou não pela paisagem”, reporta Pedro Galetti, professor da UFSCar e responsável pelas análises genéticas.
Até onde o mico consegue chegar?
Após caracterizar geneticamente os animais, foram realizadas as análises espaciais. Utilizando um arsenal de mapas, imagens e ferramentas computacionais sofisticadas como o LSCorridors (do inglês “Landscape Corridors”), foram simulados corredores ecológicos para compreender como os micos estão se dispersando pela Bacia do Rio São João. Com o resultado, foi observado que os micos-leões-dourados se movem mais frequentemente dentro de seu território e vizinhança por distâncias em torno de 2 km. Porém, se a paisagem estiver bem conectada e for permeável para seu movimento, eles podem alcançar longas distâncias de dispersão, por volta de 8 km.
“Temos observado que a conectividade da paisagem é um dos fatores mais importante para a conservação da biodiversidade em regiões fragmentadas” comenta Milton Ribeiro, do Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação da UNESP, e também autor do artigo. “Desta forma, se estamos juntos na luta pelo mico, temos que fazer muito mais, como restaurar conexões importantes entre os principais remanescentes e garantir que as principais estradas que cruzam a região permitam o fluxo de indivíduos” complementa Ribeiro.
Além da estrutura da paisagem, o manejo populacional realizado pela AMLD, que inclui medidas de reintrodução e translocação, também influenciou a estrutura genética populacional do mico-leão-dourado. Assim, os resultados dessa pesquisa indicam que o fluxo gênico mediado pelo homem (manejo) pode aumentar a variabilidade genética interpopulacional. No entanto, se as populações de micos permanecerem isoladas, devido aos efeitos da fragmentação do habitat, todos os esforços de conservação empenhados para garantir sua viabilidade populacional ao longo do tempo podem ser perdidos. Barreiras para a conectividade da paisagem tais como estradas com intenso tráfego, rios, perímetros urbanos, estradas pavimentadas simples, pastagens, agricultura, entre outros fatores, têm dificultado a dispersão dos micos-leões dourados, nessa ordem de intensidade. Assim, é esperado que alguns elementos da paisagem afetem mais drasticamente a dispersão dos micos-leões-dourados, enquanto que outros podem permitir o fluxo de indivíduos em curtas distâncias (por exemplo, até 100 m no pasto).
Dentre as principais ameaças para o mico destaca-se a duplicação da BR-101, que já divide populações importantes de micos e de muitas outras espécies. Com sua duplicação, muito provavelmente, as populações ao norte e sul da BR-101 serão isoladas permanentemente, o que pode comprometer todo um trabalho de conservação da espécie. Em uma parceria AMLD-UENF-ICMBio e a empresa que gerencia a rodovia, foram propostas “passagens de fauna” em pontos importantes para o fluxo do mico, buscando assim, minimizar os impactos sobre aespécie.
“Cabe saber agora, se tanto o mico como outras espécies utilizarão tais passagens” comenta Carlos Ruiz-Miranda, professor da UENF e um dos principais pesquisadores do mico-leão-dourado. Atualmente, o projeto Mico-Leão-Dourado teve um projeto de longo prazo aprovado pela Petrobras,que permitirá compreender se as passagens funcionarão ou não. “Monitorar o uso dessas travessias está entre nossas principais tarefas para os próximos anos e quantificar a eficiência dessas passagens é um de nossos objetivos”, finaliza Ruiz.