O mais antigo primata fóssil
Paleontólogos acabam de anunciar a descoberta do primata
mais antigo do mundo, que, com aproximadamente 55 milhões de anos,
revela os hábitos dos primeiros representantes desses mamíferos. O
estudo é destaque na coluna de Alexander Kellner.
Por:
Alexander Kellner
Publicado em 14/06/2013
|
Atualizado em 14/06/2013
Representação artística do ‘Archicebus achilles’ em seu
hábitat natural, em meio a árvores. A descoberta do primata mais antigo
pode ajudar a reconstruir a história evolutiva desses mamíferos. (fonte:
Xijun Ni, IVPP, Chinese Academy of Sciences)
Desde Charles Darwin (1809-1882), sabemos que a espécie humana faz
parte do grupo dos primatas, que reúne, entre outros, orangotangos,
chimpanzés e lêmures. Até pelo parentesco relativamente próximo, sempre
houve grande interesse em entender como ocorreu a evolução desses
mamíferos, particularmente do grupo denominado Haplorhini, dividido em
társios e antropoides. Estes últimos reúnem os macacos do velho e do
novo mundo, incluindo os hominídeos.
O grande problema, no entanto, é a escassez de registros fósseis, que
poderiam auxiliar na compreensão de como surgiram e viviam os primeiros
representantes dos primatas. Pesquisadores chineses e norte-americanos,
liderados por Xijun Ni, do Institute of Vertebrate Paleontology and
Paleoanthropology de Pequim, na China, acabam de fazer um achado
espetacular: o primata mais antigo do mundo. A descrição da nova
espécie, descoberta em rochas cuja idade gira em torno de 55 milhões de
anos, acaba de ser
destaque na prestigiosa revista Nature.

- Reconstrução
tridimensional do ‘Archicebus achilles’. Pequeno, o exemplar cabe na
palma de uma mão. (foto: Paul Tafforeau/ ESRF e Xijun Ni/ Chinese
Academy of Sciences)
Na palma da mão
Um exemplar único de um animal de pequenas proporções é como podemos nos referir ao
Archicebus archilles.
Aliás, o nome por si só já é bem sugestivo, unindo ‘arche’, que em
grego significa início, e ‘cebus’, termo que se refere aos macacos de
cauda longa. Além de Achilles, herói da mitologia grega, uma alusão à
construção particular do calcanhar dessa nova espécie.
O crânio tem apenas 25 milímetros, o tamanho médio da cabeça de uma
escova de dente. O dorso, com 71 milímetros, regula com o comprimento de
um dedo indicador de uma pessoa adulta. A cauda, com mais de 130
milímetros e 30 vértebras, é bastante longa comparada ao resto do corpo.
Todo o fóssil, que foi encontrado torcido, cabe na palma de uma mão.
O material é tão pequeno que os pesquisadores utilizaram uma nova tecnologia de obtenção de imagens conhecida como
luz síncrotron,
que se vale de uma radiação eletromagnética gerada por elétrons, com
ampla aplicação em diferentes áreas, tais como farmacologia e
nanobiologia.

- Crânio do ‘Archicebus’, fóssil e imagem realizada com luz síncrotron. (fonte: Xijun Ni et al/ Nature)
O exemplar é proveniente da região conhecida como Jingzou, na
província de Hubei, na parte central da China. As camadas onde foi
encontrado possuem uma idade que varia de 55,4 a 54,8 milhões de anos. O
fóssil foi encontrado ao se partir uma rocha, preservando molde e
contramolde.
Entre as feições diagnósticas,
Archicebus se diferencia dos
demais primatas por aspectos observados em sua dentição, como a
orientação perpendicular do dente canino superior. Além disso, possui o
focinho bem curto e as pernas e os pés relativamente longos. A órbita,
abertura na cabeça onde se aloja o globo ocular, é proporcionalmente
pequena, sugerindo que a nova espécie seria um animal diurno.
Modo de vida
O mais surpreendente para os pesquisadores foi o fato de
Archicebus
possuir tanto características de antropoides como de társios. As
feições dos pés e seu grande tamanho comparado ao restante do corpo,
sobretudo da região metatarsal (ossos que ficam entre os dedos e o
tornozelo), são similares às formas antropoides.

- Os pés do ‘Archicebus’,
com os ossos metatarsais (entre o tornozelo e as falanges) bem
alongados, similares às formas antropoides. (fonte: Xijun Ni et al/
Nature)
Já a dentição lembra feições encontradas nos társios. Aliás, os pesquisadores estabeleceram que o
Archicebus
seria um társio bem basal, mostrando que a divergência entre os
tarsiformes e os antropoides é mais antiga do que se supunha. Segundo
Xijun Ni, tal fato, um tanto inesperado, abre um novo leque de
possibilidades para se interpretar como viveram os primeiros primatas.
De acordo com suas feições anatômicas,
Archicebus e formas
aparentadas deveriam ter desenvolvido a maior parte de suas atividades
durante o dia. Eram arborícolas, se locomovendo entre as árvores,
possivelmente saltando de galho em galho. Como alimentação, nada de
frutos: os seus dentes, comparados com espécies recentes, sugerem que
eles se alimentavam de insetos!
E eram pequenos. O peso de
Archicebus não passava de 30
gramas. Segundo os pesquisadores, o achado na China sugere que os
primeiros primatas deveriam ser semelhantes à espécie recente de
lêmure-rato-pigmeu (
Microcebus myoxinus)

- Os pesquisadores
acreditam que os primeiros primatas deveriam se assemelhar ao
lêmure-rato-pigmeu (‘Microcebus myoxinus’), um dos menores primatas
atuais. (foto: Wikimedia Commons/ Bikeadventure)
Naturalmente, todos sabem que mais achados são necessários para
confirmar essa hipótese. Porém, acho sempre fascinante descobertas como a
do
Archicebus, pois elas nos permitem um novo olhar sobre uma pequena parte da história evolutiva dos primatas.
Novamente a China e os Estados Unidos, por intermédio de um
investimento substancial e constante para o desenvolvimento das
pesquisas paleontológicas, nos brindam com mais este achado.