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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Novas espécies de salamandra gigante são os maiores anfíbios do mundo

Novas espécies de salamandras gigantes - Andrias sligoi - pintura de arquivos ZSL. Crédito: ZSL
 
New species of giant salamander is world's biggest amphibian 
Usando DNA de espécimes de museus coletados no início do século 20, pesquisadores da ZSL (Sociedade Zoológica de Londres) e do Museu de História Natural de Londres identificaram duas novas espécies de salamandra gigante - uma das quais eles suspeitam ser o maior anfíbio do mundo.
 
As salamandras gigantes chinesas, agora classificadas como ameaçadas de extinção, já foram comuns em toda a região central, sul e leste da China.  

Eles já foram considerados uma ( Andrias davidianus ). No entanto, novas análises de 17 históricos de e de salamandras selvagens desafiam essa suposição.
 
O artigo, publicado hoje (17.09.2019) na revista Ecology and Evolution , encontrou três linhagens genéticas distintas em salamandras de diferentes sistemas fluviais e China.  

Essas linhagens são suficientemente diferentes geneticamente para representar separadas: Andrias davidianus , Andrias sligoi e uma terceira espécie que ainda não recebeu seu nome.
 
Uma das espécies recentemente identificadas, a salamandra gigante do sul da China ( Andrias sligoi ), foi proposta pela primeira vez na década de 1920 com base em uma salamandra incomum do sul da China que vivia na época no zoológico de Londres. A ideia foi abandonada, mas foi confirmada pelo estudo de hoje. A equipe usou o mesmo animal, agora preservado como espécime no Museu de História Natural, depois de viver 20 anos no zoológico, para definir as características das novas espécies.
 
A outra nova espécie sem nome, de Huangshan (montanhas amarelas), ainda é conhecida apenas a partir de amostras de tecido e ainda não foi formalmente descrita.
 
O autor principal do estudo, Professor Samuel Turvey, do Instituto de Zoologia da ZSL, disse: "Nossa análise revela que as espécies de salamandras gigantes chinesas divergiram entre 3,1 e 2,4 milhões de anos atrás. Essas datas correspondem a um período de formação de montanhas na China, à medida que o platô tibetano subia". rapidamente, o que poderia ter isolado populações gigantes de salamandras e levado à evolução de espécies distintas em diferentes paisagens.
 
O declínio nos números selvagens chineses de salamandras gigantes tem sido catastrófico, principalmente devido à recente superexploração de alimentos. Esperamos que esse novo entendimento da diversidade de espécies chegue a tempo de apoiar sua conservação bem-sucedida, mas são necessárias medidas urgentes para proteger quaisquer populações viáveis ​​de salamandras gigantes que possam permanecer.
 
Atualmente, as salamandras são amplamente movimentadas pela China, para translocação de conservação e para fazendas que atendem ao mercado de alimentos de luxo da China. Os planos de conservação devem agora ser atualizados para reconhecer a existência de várias espécies de salamandras gigantes, e o movimento desses animais deve ser proibido para reduzir o risco de transferência de doenças, competição e hibridação genética ".
 
As salamandras gigantes chinesas são os maiores anfíbios do mundo. Os autores sugerem que a recém-descoberta salamandra gigante da China Meridional - que pode atingir quase dois metros - é a maior das três e, portanto, a maior das 8.000 espécies de anfíbios que existem hoje.
 
A ZSL trabalha na China para proteger salamandras gigantes em estado selvagem e para aumentar seu perfil por meio de nossa exposição no zoológico de Londres, onde os tratadores receberam quatro jovens em setembro de 2016. As salamandras foram apreendidas pela Border Force após uma tentativa de importá-las ilegalmente. Uma das salamandras, chamada Professor Lew, mudou-se para um tanque de última geração na Casa de Répteis do Zoológico, onde os visitantes podem ficar cara a cara com um dos gigantes da natureza. Os outros três estão sendo tratados nos bastidores. Os guardiões acabarão apresentando outro animal ao professor Lew como companheiro e os dois restantes poderão se mudar para um zoológico diferente, pois os adultos são altamente territoriais e precisam ser alojados em recintos separados.
 
Melissa Marr, pesquisadora de PHD do Museu de História Natural de Londres, acrescentou: "Essas descobertas ocorrem em um momento em que são necessárias intervenções urgentes para salvar gigantes chinesas na natureza. Nossos resultados indicam que medidas de conservação sob medida devem ser adotadas para preservar a genética. integridade de cada espécie distinta. Nossa pesquisa também destaca o papel central que as coleções do Museu de História Natural podem desempenhar na conservação de espécies criticamente ameaçadas ".

sexta-feira, 29 de março de 2019

Fungo dizimou populações de 501 espécies de anfíbios no mundo Levantamento foi feito por pesquisadores de 16 países e divulgado na Science. Autores afirmam se tratar da maior perda de biodiversidade atribuível a um único patógeno em toda a história (foto: espécies do gênero Atelopus, como a da foto, foram as mais afetadas / Luis Felipe de Toledo)

Fungo dizimou populações de 501 espécies de anfíbios no mundo

28 de março de 2019

Karina Toledo  |  Agência FAPESP – Um fungo microscópico de hábitos aquáticos é o responsável pela maior perda de biodiversidade atribuível a um único patógeno em toda a história, afirmaram cientistas na revista Science nesta quinta-feira (28/03).

Causador de uma doença infecciosa conhecida como quitridiomicose, o microrganismo provocou, nos últimos 50 anos, declínio nas populações de pelo menos 501 espécies de anfíbios. Em alguns casos, as espécies ficaram restritas a menos de 10% da sua distribuição original. Acredita-se que 91 delas tenham sido completamente extintas.

“Consideramos essa quantificação conservadora, pois o patógeno provavelmente causou o declínio de muitas outras espécies ainda desconhecidas pela ciência. Esse fenômeno pode ser particularmente relevante na região neotropical [que compreende a América Central, incluindo parte do México e dos Estados Unidos, todas as ilhas do Caribe e a América do Sul], onde há muitas espécies não descritas”, disse Benjamin Scheele, pós-doutorando na Australian National University, na Austrália, e primeiro autor do artigo à Agência FAPESP.

Os pesquisadores estimam que pelo menos 6,5% das espécies conhecidas de anfíbios sofreram declínios causados pelo fungo.
“É um número muito alto. Temos registros de patógenos desde a época dos dinossauros e, com certeza, podemos afirmar que essa é a pior doença a acometer a vida selvagem em todos os tempos”, disse Luís Felipe de Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coautor do estudo.

Toledo e sua aluna Tamilie Carvalho são os únicos brasileiros a integrar o grupo de 42 pesquisadores de 16 países que conduziu o levantamento. O trabalho contou com apoio da FAPESP.
As conclusões apresentadas no artigo se baseiam em uma extensa revisão da literatura e também em consultas feitas a especialistas de todo o mundo e à Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, na sigla em inglês).
“No panorama global apresentado no artigo, o Brasil tem destaque negativo: pelo menos 50 espécies ou populações foram afetadas, sendo que 12 foram extintas e 38 sofreram declínio. Algumas populações já dão indício de recuperação, enquanto outras permanecem desaparecidas”, contou Toledo.

A Mata Atlântica, segundo o pesquisador da Unicamp, foi o bioma mais afetado no país. A grande maioria dos registros de extinção vai do Espírito Santo ao Paraná.
“Existem alguns pontos em que sabidamente sumiram muitas espécies, como Boraceia [litoral norte de São Paulo], Serra dos Órgãos [Rio de Janeiro], Itatiaia [na divisa entre Rio de Janeiro e Minas Gerais] e Caparaó [divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo]. Mas isso não quer dizer que outras regiões não sofreram impacto. Simplesmente não tínhamos uma amostragem tão boa como a da Mata Atlântica”, disse Toledo.

Doença fatal
A quitridiomicose é causada por duas espécies de fungo do gênero Batrachochytrium. O B. salamandrivorans afeta apenas as salamandras e nunca foi registrado no Brasil. Já o B. dendrobatidis é encontrado em todos os continentes e acomete os três grupos de anfíbios: anuros (sapos, rãs e pererecas), salamandras e cobras-cegas, ou cecílias.

O patógeno se aloja nas células da pele dos indivíduos adultos, prejudicando a respiração e levando-os à morte por parada cardíaca. Em girinos, o fungo parasita a região do bico e dos dentículos, dificultando a alimentação e comprometendo o crescimento.
Segundo o levantamento divulgado na Science, o grupo dos anuros – onde estão 89% das espécies anfíbias – foi o que sofreu o maior número de declínios severos (93%) por ser também o mais abundante. As regiões tropicais da Austrália e das Américas Central e do Sul foram as mais afetadas, enquanto Ásia, África, Europa e América do Norte apresentam número “notavelmente baixo” de declínios.
As principais vítimas foram as espécies de distribuição geográfica restrita, com corpo grande, moradoras de regiões úmidas e com hábitos aquáticos perenes – uma vez que os esporos do Batrachochytrium são liberados na água e conseguem nadar até infectar outro hospedeiro (veja vídeo a seguir).

Segundo Toledo, alguns gêneros de anuros se mostraram particularmente suscetíveis à infecção, como é o caso do Atelopus – com espécies ocorrendo entre a América Central e a América do sul, desde a Costa Rica até a Amazônia brasileira.
“O pico dos declínios aconteceu nos anos 1980, como mostramos em um artigo anterior, e a doença só foi descoberta em 1998. Isso prejudicou os trabalhos de mensuração do impacto, pois quando percebíamos as espécies declinando ou sendo extintas não tínhamos ideia do motivo”, disse Toledo.
A hipótese defendida pela maior parte dos especialistas, divulgada em 2018 também na Science, é que uma linhagem virulenta do fungo originária da Ásia tenha chegado à América Central no último século e se disseminado para o continente sul-americano. Acredita-se que o processo tenha sido favorecido pelo transporte de anfíbios – tanto para consumo humano, quanto para o mercado de bichos de estimação.

“Na Mesoamérica, onde acreditamos que os anfíbios não tinham contato prévio com o fungo, muitas espécies foram totalmente dizimadas. No Brasil, onde a doença existe desde o século 19, pelo menos, alguns animais já haviam desenvolvido resistência e o impacto parece não ter sido tão grande”, disse Toledo.

No artigo mais recente, os cientistas afirmaram que a “letalidade sem precedentes de uma única doença que afeta uma classe inteira de vertebrados destaca a ameaça de disseminação de novos patógenos em um mundo globalizado”.

Para os autores, políticas de biossegurança efetivas e a redução imediata no comércio de vida selvagem são “urgentemente necessárias” para reduzir o risco de disseminação de novos patógenos.
“Como a mitigação da quitridiomicose na natureza permanece incerta, novas pesquisas e monitoramento intensivo com tecnologias emergentes são necessários para identificar mecanismos de recuperação de espécies, bem como desenvolver novas ações de mitigação para espécies em declínio”, disse Scheele.
O artigo Amphibian fungal panzootic causes catastrophic and ongoing loss of biodiversity, de Ben C. Scheele et al, pode ser lido em http://science.sciencemag.org/cgi/doi/10.1126/science.aav0379.