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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Estudo amplia de 39 para 74 os modos de reprodução conhecidos dos anfíbios e cria nova classificação Pererecas-marsupiais como a Fritziana goeldii carregam os ovos nas costas e depositam os girinos em água acumulada em bromélias ou ocos de bambu, onde eles concluem o desenvolvimento (foto: Edelcio Muscat)

Estudo amplia de 39 para 74 os modos de reprodução conhecidos dos anfíbios e cria nova classificação

08 de outubro de 2021

André Julião | Agência FAPESP – Estudo brasileiro publicado na revista Salamandra evidencia como os anfíbios são animais versáteis no que diz respeito a modos reprodutivos: seus ovos e larvas podem se desenvolver de pelo menos 74 formas diferentes.

Assinado por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o artigo compila dados disponíveis na literatura especializada e coletados pelos autores ao longo de décadas de estudo. Além disso, propõe um novo sistema de classificação dos modos reprodutivos para toda essa classe de animais composta por anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas), salamandras e cecílias (cobras-cegas).

“O sistema de classificação anterior, que dava conta só de anfíbios anuros, indicava a existência de 39 variações. Esse número já é impressionante e muito superior ao de outros vertebrados, como répteis, mamíferos e aves, mas ainda não mostrava a real diversidade reprodutiva dos anfíbios como um todo”, explica Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e coordenador do estudo, que tem como primeiro autor o doutorando Carlos Henrique Luz Nunes-de-Almeida.

No total, foram analisadas estratégias de 2.171 espécies de anfíbios, incluindo 80% das famílias desses animais existentes no mundo. O subgrupo dos anuros, composto de sapos, rãs e pererecas e com 7.315 espécies conhecidas, é o mais diverso e teve 2.012 espécies representadas no estudo. Não à toa, contabiliza 71 modos de reprodução, 56 deles exclusivos.

Além da diversidade, o fato de transitarem entre ambientes terrestres e aquáticos fez com que os anuros desenvolvessem as mais variadas estratégias reprodutivas. Em várias espécies de sapos-pipa (gênero Pipa), por exemplo, as fêmeas carregam os ovos nas costas no meio aquático e os filhotes saem prontos para a vida na água, sem que haja uma fase de girino.

No caso das pererecas-marsupiais (gênero Fritziana), as fêmeas, que são arborícolas, também carregam os ovos nas costas, mas na hora do nascimento de suas larvas procuram água acumulada em bromélias ou ocos de bambu, onde depositam os girinos, que concluem o desenvolvimento nesses ambientes aquáticos.

Endêmica da Serra do Japi, no Estado de São Paulo, a rãzinha-da-correnteza (Hylodes japi) deposita os ovos numa câmara subaquática construída no leito de pequenos riachos, comportamento antes registrado apenas em peixes (leia mais em: agencia.fapesp.br/22809).

Algumas espécies podem usar como ninho a água acumulada em bromélias, plantas carnívoras ou em ouriços da castanha-do-pará caídos no chão da floresta amazônica, como a perereca-de-alcatrazes (Scinax alcatraz), o sapinho Microhyla borneensis, de Bornéu, e o sapinho-da-castanha (Rhinella castaneotica), respectivamente (leia mais em: agencia.fapesp.br/23949).

“O estudo tem impacto em várias áreas. Não só para a história natural e o comportamento animal, mas também na compreensão da evolução dos anfíbios. Ele contribui ainda com futuros trabalhos de conservação e ecologia, pois mostra como espécies de anfíbios podem ser dependentes de certos hábitats e mesmo de outras espécies, como plantas. Uma lagoa que seca ou a extinção de uma bromélia, por exemplo, podem representar o fim de algumas espécies de sapos”, exemplifica Célio Fernando Baptista Haddad, professor do Instituto de Biociências da Unesp, em Rio Claro, coautor do estudo e responsável pela classificação anterior, publicada em 2005.

Algumas espécies têm mais facilidade para se adaptar, pois desenvolveram mais de uma estratégia para a reprodução. Esse é o caso do sapo Physalaemus spiniger, endêmico do Brasil, que pode se reproduzir de três formas distintas. A depender das condições locais, o casal pode fazer um ninho de espuma numa lagoa, no chão úmido da floresta ou dentro de uma bromélia.

Essa plasticidade pode ser uma vantagem em cenários de mudanças climáticas, por exemplo. Se as lagoas usadas secam ou as bromélias são extintas, em tese a espécie poderia sobreviver trocando de um modo para outro. Porém, a maioria das espécies, que contam com apenas um dos 74 modos reprodutivos, é considerada ameaçada por alterações no ambiente e no clima (leia mais: agencia.fapesp.br/23217).

Diversidade

O novo sistema de classificação leva em conta 11 características. Considera, por exemplo, se ocorre postura de ovos ou diretamente das larvas ou filhotes; se os ovos são postos diretamente no local, em ninhos de espuma ou de bolhas produzidos pelo próprio anfíbio.

Os ovos podem ser carregados no corpo do animal, postos em ambiente aquático (rios, riachos, poças, lagoas, água acumulada em plantas) ou na terra (em pedras, encostas e mesmo em cupinzeiros). O sistema considera ainda se ocorre algum cuidado parental, como alimentação dos filhotes pelo pai ou pela mãe. As cecílias progenitoras das espécies Boulengerula taitanus e Siphonops annulatus, por exemplo, alimentam seus filhotes com a própria pele.

“A diversidade de modos de reprodução surgiu por pressões seletivas, como competição e predação. Uma lagoa, por exemplo, é um ambiente muito perigoso, cheio de predadores, como peixes, larvas de libélula e outros girinos carnívoros. Quando uma espécie consegue desovar fora da lagoa, numa folha pendurada acima dela, os ovos podem escapar de todos aqueles predadores aquáticos e o girino cai na água quando estiver pronto”, exemplifica Toledo.

Algumas espécies simplesmente pularam a fase larval e nem sequer saem da terra durante todo o ciclo de vida. A superfamília Brachycephaloidea, com mais de 1.100 espécies, entre elas o sapinho-pingo-de-ouro (Brachycephalus rotenbergae), se reproduz pelo chamado desenvolvimento direto. O filhote nasce do ovo como uma miniatura do adulto, pronto para a vida no chão da floresta, sendo suprimida a fase de girino.

Por conta de tamanha diversidade e das constantes descobertas, os pesquisadores ressaltam que o trabalho não é definitivo. Pelo contrário, a publicação abre caminho para que novos modos reprodutivos sejam descritos não só para os anfíbios, como para os outros vertebrados. A ideia é que o sistema possa incluir peixes, répteis, mamíferos e aves – e até mesmo ser adaptado para acrescentar novos grupos e modos de reprodução.

O trabalho é resultado de diferentes projetos de pesquisa ao longo dos anos, muitos deles apoiados pela FAPESP (08/50325-5, 11/51694-7, 14/23388-7, 19/18335-5, 13/50741-7, 14/50342-8).

O artigo A revised classification of the amphibian reproductive modes, de Carlos Henrique Luz Nunes-de-Almeida, Célio Fernando Baptista Haddad e Luís Felipe Toledo, pode ser lido em: www.salamandra-journal.com/index.php/home/contents/2021-vol-57/2054-nunes-de-almeida-c-h-l-c-f-b-haddad-l-f-toledo-1/.

 

sexta-feira, 29 de março de 2019

Fungo dizimou populações de 501 espécies de anfíbios no mundo Levantamento foi feito por pesquisadores de 16 países e divulgado na Science. Autores afirmam se tratar da maior perda de biodiversidade atribuível a um único patógeno em toda a história (foto: espécies do gênero Atelopus, como a da foto, foram as mais afetadas / Luis Felipe de Toledo)

Fungo dizimou populações de 501 espécies de anfíbios no mundo

28 de março de 2019

Karina Toledo  |  Agência FAPESP – Um fungo microscópico de hábitos aquáticos é o responsável pela maior perda de biodiversidade atribuível a um único patógeno em toda a história, afirmaram cientistas na revista Science nesta quinta-feira (28/03).

Causador de uma doença infecciosa conhecida como quitridiomicose, o microrganismo provocou, nos últimos 50 anos, declínio nas populações de pelo menos 501 espécies de anfíbios. Em alguns casos, as espécies ficaram restritas a menos de 10% da sua distribuição original. Acredita-se que 91 delas tenham sido completamente extintas.

“Consideramos essa quantificação conservadora, pois o patógeno provavelmente causou o declínio de muitas outras espécies ainda desconhecidas pela ciência. Esse fenômeno pode ser particularmente relevante na região neotropical [que compreende a América Central, incluindo parte do México e dos Estados Unidos, todas as ilhas do Caribe e a América do Sul], onde há muitas espécies não descritas”, disse Benjamin Scheele, pós-doutorando na Australian National University, na Austrália, e primeiro autor do artigo à Agência FAPESP.

Os pesquisadores estimam que pelo menos 6,5% das espécies conhecidas de anfíbios sofreram declínios causados pelo fungo.
“É um número muito alto. Temos registros de patógenos desde a época dos dinossauros e, com certeza, podemos afirmar que essa é a pior doença a acometer a vida selvagem em todos os tempos”, disse Luís Felipe de Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coautor do estudo.

Toledo e sua aluna Tamilie Carvalho são os únicos brasileiros a integrar o grupo de 42 pesquisadores de 16 países que conduziu o levantamento. O trabalho contou com apoio da FAPESP.
As conclusões apresentadas no artigo se baseiam em uma extensa revisão da literatura e também em consultas feitas a especialistas de todo o mundo e à Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, na sigla em inglês).
“No panorama global apresentado no artigo, o Brasil tem destaque negativo: pelo menos 50 espécies ou populações foram afetadas, sendo que 12 foram extintas e 38 sofreram declínio. Algumas populações já dão indício de recuperação, enquanto outras permanecem desaparecidas”, contou Toledo.

A Mata Atlântica, segundo o pesquisador da Unicamp, foi o bioma mais afetado no país. A grande maioria dos registros de extinção vai do Espírito Santo ao Paraná.
“Existem alguns pontos em que sabidamente sumiram muitas espécies, como Boraceia [litoral norte de São Paulo], Serra dos Órgãos [Rio de Janeiro], Itatiaia [na divisa entre Rio de Janeiro e Minas Gerais] e Caparaó [divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo]. Mas isso não quer dizer que outras regiões não sofreram impacto. Simplesmente não tínhamos uma amostragem tão boa como a da Mata Atlântica”, disse Toledo.

Doença fatal
A quitridiomicose é causada por duas espécies de fungo do gênero Batrachochytrium. O B. salamandrivorans afeta apenas as salamandras e nunca foi registrado no Brasil. Já o B. dendrobatidis é encontrado em todos os continentes e acomete os três grupos de anfíbios: anuros (sapos, rãs e pererecas), salamandras e cobras-cegas, ou cecílias.

O patógeno se aloja nas células da pele dos indivíduos adultos, prejudicando a respiração e levando-os à morte por parada cardíaca. Em girinos, o fungo parasita a região do bico e dos dentículos, dificultando a alimentação e comprometendo o crescimento.
Segundo o levantamento divulgado na Science, o grupo dos anuros – onde estão 89% das espécies anfíbias – foi o que sofreu o maior número de declínios severos (93%) por ser também o mais abundante. As regiões tropicais da Austrália e das Américas Central e do Sul foram as mais afetadas, enquanto Ásia, África, Europa e América do Norte apresentam número “notavelmente baixo” de declínios.
As principais vítimas foram as espécies de distribuição geográfica restrita, com corpo grande, moradoras de regiões úmidas e com hábitos aquáticos perenes – uma vez que os esporos do Batrachochytrium são liberados na água e conseguem nadar até infectar outro hospedeiro (veja vídeo a seguir).

Segundo Toledo, alguns gêneros de anuros se mostraram particularmente suscetíveis à infecção, como é o caso do Atelopus – com espécies ocorrendo entre a América Central e a América do sul, desde a Costa Rica até a Amazônia brasileira.
“O pico dos declínios aconteceu nos anos 1980, como mostramos em um artigo anterior, e a doença só foi descoberta em 1998. Isso prejudicou os trabalhos de mensuração do impacto, pois quando percebíamos as espécies declinando ou sendo extintas não tínhamos ideia do motivo”, disse Toledo.
A hipótese defendida pela maior parte dos especialistas, divulgada em 2018 também na Science, é que uma linhagem virulenta do fungo originária da Ásia tenha chegado à América Central no último século e se disseminado para o continente sul-americano. Acredita-se que o processo tenha sido favorecido pelo transporte de anfíbios – tanto para consumo humano, quanto para o mercado de bichos de estimação.

“Na Mesoamérica, onde acreditamos que os anfíbios não tinham contato prévio com o fungo, muitas espécies foram totalmente dizimadas. No Brasil, onde a doença existe desde o século 19, pelo menos, alguns animais já haviam desenvolvido resistência e o impacto parece não ter sido tão grande”, disse Toledo.

No artigo mais recente, os cientistas afirmaram que a “letalidade sem precedentes de uma única doença que afeta uma classe inteira de vertebrados destaca a ameaça de disseminação de novos patógenos em um mundo globalizado”.

Para os autores, políticas de biossegurança efetivas e a redução imediata no comércio de vida selvagem são “urgentemente necessárias” para reduzir o risco de disseminação de novos patógenos.
“Como a mitigação da quitridiomicose na natureza permanece incerta, novas pesquisas e monitoramento intensivo com tecnologias emergentes são necessários para identificar mecanismos de recuperação de espécies, bem como desenvolver novas ações de mitigação para espécies em declínio”, disse Scheele.
O artigo Amphibian fungal panzootic causes catastrophic and ongoing loss of biodiversity, de Ben C. Scheele et al, pode ser lido em http://science.sciencemag.org/cgi/doi/10.1126/science.aav0379.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

[Herpetology • 2018] Brasilotyphlus dubium • A New Species of Brasilotyphlus (Gymnophiona: Siphonopidae) from mountains in Roraima state, northern Brazil and A Contribution to the Knowledge of the Relationship Between Microcaecilia and Brasilotyphlus


Brasilotyphlus dubium 
Correia, Nunes, Gamble, Maciel, Marques-Souza, et al., 2018
Abstract 
A third species of Brasilotyphlus, a siphonopid caecilian, is described based on six specimens from two twin mountains in Roraima state, northern Brazil. Brasilotyphlus dubium sp. nov. differs from all other congeners in having a combination of 123–129 primary annuli and 9–16 secondary annular grooves. The first molecular data were generated and analyzed for Brasilotyphlus, and the genus was recovered as monophyletic and nested within a paraphyletic Microcaecilia. The extent of genetic and taxonomic sampling, and moderate phylogenetic support are not considered sufficient enough to place Brasilotyphlus in the synonymy of Microcaecilia.

 Key words: Brazil, caecilians, phylogeny, taxonomy
 Brasilotyphlus dubium sp. nov. Specimen from the type series in life in dorsal view.  
Brasilotyphlus dubium sp. nov.
Etymology. The epithet dubium means “dubious”, reflecting our doubt whether or not Brasilotyphlus should be considered a synonym of Microcaecilia. For nomenclatural purposes, the species epithet is considered a noun in apposition.
 Larissa L. Correia, Pedro M. S. Nunes, Tony Gamble, Adriano O. Maciel, Sergio Marques-Souza, Antoine Fouquet, Miguel T. Rodrigues and Tami Mott. 2018. A New Species of Brasilotyphlus (Gymnophiona: Siphonopidae) and A Contribution to the Knowledge of the Relationship Between Microcaecilia and BrasilotyphlusZootaxa. 4527(2); 186–196.  DOI:  10.11646/zootaxa.4527.2.2