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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

 

Uma expedição à serra do Imeri, montanha inexplorada na Amazônia brasileira

Pesquisadores identificaram animais e plantas isolados pela altitude, o que pode ajudar a elucidar parentescos entre espécies de áreas altas do norte da América do Sul


Vista do acampamento da expedição de novembro: o mais alto é o pico do Imeri, com 2.362 metros, norte do estado do Amazonas, próximo à fronteira com a Venezuela

Herton Escobar / USP Imagens


É difícil chegar à serra do Imeri, no norte do Amazonas, próximo à fronteira com a Venezuela. Com altitude de até 2.450 metros (m) e ocupadas por campos com bromélias, paredões rochosos e árvores cercadas por neblina, essas montanhas aparentemente nunca tinham sido visitadas por pessoas e devem abrigar espécies desconhecidas de animais e plantas. Foi lá que os pesquisadores (ver box) – 12 do Brasil, um da Espanha e outro da França – passaram 11 dias em novembro, em uma expedição científica realizada em conjunto com o Exército brasileiro.

Os biólogos coletaram centenas de exemplares, parte deles representantes de espécies aparentemente nunca descritas, e reuniram informações com as quais pretendem ver os parentescos entre os animais e plantas dessa e de outras áreas altas do Brasil.

“Em quase 40 anos de viagens de campo, nunca encontrei uma proporção tão grande de prováveis espécies novas”, conta o zoólogo Miguel Trefaut Rodrigues, da Universidade de São Paulo (USP) e líder da expedição. Em seu laboratório, uma semana depois de voltar da viagem, ele mostrou à reportagem de Pesquisa FAPESP dezenas de potes de vidro, com lagartos e pererecas. Dois lagartos são semelhantes a exemplares do gênero Riolama coletados em 2017 em uma expedição que ele liderou ao pico da Neblina, 90 quilômetros (km) ao sudeste.


As botânicas Rafaela Forzza (camiseta branca) e Lúcia Lohmann (blusa azul), auxiliadas pelo cabo Marcio Junior da Silva Garcia, descem por cordas em direção aos locais de coletaHerton Escobar / USP Imagens
A serra do Imeri e o pico da Neblina integravam um extenso planalto formado por rochas areníticas que ocupava boa parte do chamado escudo das Guianas antes do soerguimento dos Andes. Sua erosão, ao longo de milhões de anos, ajudou a formar os solos das florestas de regiões baixas adjacentes, deixando muitas espécies de animais e plantas ilhados nos picos, montanhas aplainadas ou tabulares, os chamados tepuis, como o da Neblina, e serras isoladas. O zoólogo Taran Grant, da USP, coletou no Imeri uma espécie de perereca do gênero Myersiohyla e viu semelhanças com as do gênero Hyloscirtus, que vivem nos ambientes montanhosos distantes mais de mil quilômetros nos Andes da Colômbia.

Os lagartos eram capturados durante o dia, em armadilhas ou à mão, geralmente entre pedras ou nas árvores à noite, enquanto dormiam, e os sapos à noite. Grant, com sua equipe, saía à noite, seguindo as pererecas pelas vocalizações até vê-las às margens de riachos. “Quatro pererecas e uma cecília, um tipo de anfíbio, talvez sejam espécies novas”, avalia Grant.

Ambiente inóspito
Poucas espécies se adaptaram ao solo pobre e pedregoso e às variações diárias médias de 20 graus Celsius (°C) do alto da serra do Imeri. Por isso, a diversidade lá é bem menor que na floresta baixa vizinha. São espécies endêmicas, ou seja, aquelas isoladas que, em muitos casos, só existem naquela região.


“Encontramos poucas espécies para a maior parte das famílias de plantas coletadas, indicando que essas linhagens se diversificaram pouco na serra ou deram origem a espécies já extintas”, comenta a botânica Lúcia Lohmann, da USP, especializada em cipós da família das Bignoniáceas. “Por outro lado, a serra parece representar o berço de muitos grupos botânicos.” Segundo ela, é possível que diferentes famílias de plantas com flores e frutos, as angiospermas, tenham surgido ali e depois chegado à Mata Atlântica e a porções mais baixas da Amazônia, onde se diversificaram bastante.





Um exemplo é Brocchinia hechtioides, uma bromélia que cobre os solos encharcados da serra do Imeri, identificada por Rafaela Forzza, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e participante da expedição. “É uma espécie de bromélia carnívora, com apenas dois registros no país”, diz ela. “Apesar de termos encontrado uma única espécie do gênero Brocchinia, é uma espécie abundante nos campos de altitude da serra e constitui uma das linhagens mais antigas de Bromeliaceae, família de plantas particularmente diversa na Mata Atlântica.” As 1.200 amostras de 220 espécies de plantas coletadas serão distribuídas entre especialistas do Brasil e de outros países que irão colaborar na identificação desse material.

“Por serem um grupo que entrou na América do Sul mais tardiamente que outros de animais e plantas, considerando o tempo geológico, os pequenos mamíferos foram provavelmente os últimos grupos de animais a ficar isolados no topo da serra e ali se especializarem”, conta o zoólogo Alexandre Reis Percequillo, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP. Em uma avaliação preliminar, o marsupial, as três espécies de roedores e as três de morcegos que ele e a bióloga Ana Paula Carmignotto, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), coletaram são parecidos com os do pico da Neblina.


Além de coletar plantas e animais, alguns pesquisadores fizeram experimentos. O zoólogo Agustin Guerrero, também da USP, colocava répteis e anfíbios em uma caixa acoplada a resistências térmicas e os aquecia até eles saírem. A temperatura de saída indicava locais quentes demais para a sobrevivência dessas espécies.

“Os répteis e anfíbios do Imeri têm baixa tolerância a temperaturas altas, já que todos saíram da caixa a menos de 34 °C”, observou Guerrero. “Eles estariam em perigo se seus refúgios aquecessem até essa temperatura.”

Chuva e lama
Antes da expedição, os pesquisadores treinaram embarque e desembarque do helicóptero por içamento, para eventuais emergências — que não aconteceram. Um grupo de 22 militares acompanhou a expedição e transportou biólogos e equipamento em oito viagens de helicóptero.


A expedição desembarcou em uma área de solo bastante úmido a 1.900 m de altitude. Por essa razão, o helicóptero que os havia transportado apoiava de leve no solo para não afundar na lama. A equipe militar tentou em vão descobrir um acesso por terra, mas nem os indígenas Yanomami, originários da região, sabiam como chegar ao alto da serra, por causa do relevo íngreme.

No primeiro dia no acampamento, o grupo abriu três trilhas com cerca de 1 km cada uma, algumas tão íngremes que só se caminhava com o apoio de uma corda. Três pesquisadores machucaram costelas, olhos e ombros e foram tratados pela equipe médica do Exército. A água das chuvas incessantes e a lama invadiam as barracas. A vida só melhorava um pouco quando o sol aparecia.

Patógenos
O general Sinclair Mayer, chefe do escritório de Campinas do Sistema Defesa Indústria e Academia de Inovação (Sisdia), órgão do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, um dos organizadores da expedição, ressaltou a importância de conhecer novas áreas do território brasileiro por meio de expedições como essa. Em uma reunião no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, em 16 de dezembro, ele destacou os estudos sobre patógenos feitos pelo parasitologista Bruno Fermino, da USP, que coletou amostras de sangue de anfíbios, lagartos, aves, mamíferos e insetos hematófagos e afirma ter encontrado novas espécies de protozoários do gênero Trypanosoma.


Esses protozoários existem há mais de 100 milhões de anos, podem ter infectado os dinossauros e hoje vivem em todas as classes de vertebrados, de peixes a mamíferos. “Espécies coletadas no pico da Neblina e outras na Venezuela podem ser aparentadas, parecidas com os ancestrais de milhões de anos atrás”, diz Fermino. Em seres humanos, T. cruzi causa a doença de Chagas e T. brucei, a doença do sono.

Colaboração
“A expedição não teria sido possível sem o Exército. Todos foram muito cuidadosos com nossa segurança e interessados no que fazíamos”, reconhece Rodrigues. O físico Paulo Muzy, do IEA, contou no encontro de dezembro que a parceria entre a USP e o Exército começou em 2015, para viabilizar a viagem ao pico da Neblina. Especialista em aves, o biólogo Luís Fábio Silveira, do Museu de Zoologia da USP, gostou da parceria: “Os militares foram muito prestativos, até saíam à noite para nos ajudar a descer uma escarpa por corda e fazer coletas”. Silveira coletou 56 exemplares de aves aparentemente exclusivas da região. A maioria é pequena, com penas marrons, e vive em uma região com poucos recursos alimentares.

O próximo objetivo de Rodrigues, aos 69 anos, é fazer coletas na serra de Tulu-Tuloi, cerca de 200 km ao nordeste do Imeri, também no estado do Amazonas. “Existe ali outro conjunto de serras, isoladas do Imeri pelo vale do rio Padauari, que constituem outro experimento evolutivo natural”, diz ele. “Como populações da mesma espécie, quando isoladas, se modificam e podem originar espécies novas, perguntamo-nos se ali não haveria outro núcleo de endemismos [espécies únicas] com parentesco no Imeri.”

Os 14 pesquisadores que participaram da expedição
IB-USP: Miguel Trefaut Rodrigues, Taran Grant, Agustin Camacho Guerrero, Lúcia Garcez Lohmann, Renato Sousa Recoder, Leandro João Carneiro de Lima Moraes; do ICB-USP: Bruno Rafael Fermino; Esalq-USP: Alexandre Reis Percequillo; UFSCar: Ana Paula Carmignotto; MZ-USP: Luís Fábio Silveira, Igor Ferreira de Alvarenga; JBRJ: Rafaela Campostrine Forzza; CNRS, França: Antoine Fouquet; Sem filiação acadêmica: José Mario Beloti Ghellere.

Projeto
Filogeografia comparada, filogenia, modelagem paleoclimática e taxonomia de répteis e anfíbios neotropicais (nº 11/50146-6); Modalidade Programa Biota; Pesquisador responsável: Miguel Trefaut Rodrigues; Investimento R$ 6.183.134,96.




quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Pesquisadores monitoram emissões de gases do efeito estufa na Caatinga

20 de outubro de 2016


Diego Freire  |  Agência FAPESP – Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) monitoraram duas regiões da Caatinga, uma de mata nativa e outra de pasto, e concluíram que as mudanças do uso do solo na área de estudo não apresentaram impacto significativo nas emissões de gases do efeito estufa no bioma.
Verificaram também que as emissões na Caatinga são relativamente baixas quando comparadas com as de outros biomas. Entretanto, por ser uma região densamente povoada e, portanto, sujeita a grandes alterações humanas, é difícil determinar, segundo os pesquisadores, as tendências de emissões.
Pesquisadores monitoram emissões de gases do efeito estufa na Caatinga Iniciativa do Inpe com apoio da FAPESP é pioneira na medição de emissões de nitrogênio, dióxido de carbono e metano no bioma (foto: Wikimedia Commons) 
 
 A pesquisa "Impactos de mudanças climáticas sobre a cobertura e uso da terra em Pernambuco: geração e disponibilização de informações para o subsídio a políticas públicas", coordenada por Jean Pierre Henry Balbaud Ometto, foi realizada com o apoio da FAPESP no âmbito do Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.

“Trata-se de estudos de medição das emissões de gases do efeito estufa a partir do solo nessa região. O objetivo foi investigar se o uso da terra e as consequentes mudanças na cobertura do solo alteram os ciclos biogeoquímicos e as emissões de gases do efeito estufa na Caatinga, que abrange uma área de 844.453 km² do território brasileiro: um bioma de grande biodiversidade endêmica e com outras características particulares que o fazem exclusivamente brasileiro”, disse Ometto.

As medições foram realizadas em 2013 e 2014 no município pernambucano de São João. De acordo com os resultados do monitoramento, as emissões de óxido nitroso (N2O) e de dióxido de carbono (CO2) foram significativamente superiores às de metano (CH4) na Caatinga durante o período estudado, mas não houve diferenças consideráveis entre as medições na área de vegetação nativa e naquelas sob cobertura de pasto. Por outro lado, as condições de temperatura e de umidade do solo impactaram significativamente as alterações das emissões de gases.

As emissões foram significativamente menores durante as estações secas. Isso porque a matéria orgânica, a disponibilidade de nutrientes e a atividade microbiana são minimizadas em condições de solo muito seco. Já a ocorrência de chuva estimula atividades microbiológicas e o aumento das emissões de CO2 e N2O.

“A exposição direta da superfície do solo à radiação solar altera sua dinâmica microbiológica em virtude das altas temperaturas, o que influencia as emissões de gases do efeito estufa. A umidade do solo também é essencial para a emissão desses gases, especialmente do nitrogênio, pois a atividade microbiana no solo e a decomposição da matéria orgânica dependem da disponibilidade hídrica”, disse Eráclito Sousa Neto, do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Inpe.

Mas ele alerta para outras variáveis que podem impactar as emissões. “As variáveis ambientais de temperatura e umidade do solo são importantes reguladores das emissões de gases; no entanto, a variabilidade elevada do clima e das precipitações, típica da Caatinga, associada a alterações antrópicas dificulta determinar as tendências de emissões para o bioma”, disse Sousa Neto.
Segundo os pesquisadores, os resultados do monitoramento revelaram que as emissões de gases do efeito estufa na região estudada são muito baixas, porque se trata de um sistema de dinâmica relativamente lenta, mas nem por isso são menos importantes.

“Quando se comparam as emissões da Caatinga com as de outros biomas, elas são relativamente baixas por conta de fatores como a dinâmica de decomposição do solo, a disponibilidade hídrica e uma cobertura vegetal menos pujante em termos de quantidade de carbono. No entanto, áreas áridas e semiáridas estão representadas em todos os continentes, cobrindo uma região importante do planeta e, geralmente, largamente ocupadas por atividades humanas, como o pastoreio e a agricultura de pequena escala, com processos antrópicos históricos e intensos”, disse Ometto. “A Caatinga brasileira integra esse cenário, que não deve ser ignorado.”

Dessa forma, as emissões relativas à mudança de uso do solo ou à dinâmica da decomposição da matéria orgânica podem não ser significativas em termos comparativos, mas a cobertura global da área associada à ocupação humana evidenciam sua importância.
“A modelagem atmosférica global indica, com certa consistência, que o Nordeste brasileiro deve enfrentar ainda mais períodos de seca intensa. Estamos falando de um número muito grande de pessoas que dependem da atividade agrícola e da pecuária de pequena escala, com uma perspectiva de sofrer impactos de secas mais frequentes e prolongadas, o que nos exige avanços científicos sobre as dinâmicas do funcionamento dos ecossistemas, dos sistemas de produção e da integração de diversos processos ambientais pelos ciclos bioquímicos. A Caatinga, em especial, passa por longos períodos naturais de seca que causam perdas nas colheitas e na produtividade da pecuária, tendo um impacto grave sobre a população”, disse Ometto.

Terras áridas e semiáridas cobrem aproximadamente 41% da superfície da Terra.

Os resultados do monitoramento do bioma pelos pesquisadores do Inpe estão no artigo Land cover changes and greenhouse gas emissions in two different soil covers in the Brazilian Caatinga, publicado pela revista Science of the Total Environment e disponível em dx.doi.org/10.1016/j.scitotenv.2016.07.095.

Assinam o artigo Kelly Ribeiro, Eráclito Rodrigues de Sousa Neto, João Andrade de Carvalho Junior, José Romualdo de Sousa Lima, Rômulo Simões Cezar Menezes, Paulo José Duarte Neto, Glauce da Silva Guerra e Jean Pierre Henry Baulbaud Ometto.

terça-feira, 20 de maio de 2014

A origem do cerrado

Histórias evolutivas divergentes dão formas distintas às savanas atuais e afetam possíveis respostas a mudanças climáticas 

MARIA GUIMARÃES | Edição 219 - Maio de 2014
© CEZARY WOJTKOWSKI / TIPS / GLOW IMAGES
A fauna de grande porte, como estas manadas de zebras  e gnus no Parque Nacional de Ngorongoro, na Tanzânia, reduz  a campo parte da paisagem africana
A fauna de grande porte, como estas manadas de zebras e gnus no Parque Nacional de Ngorongoro, na Tanzânia, reduz a campo parte da paisagem africana

Árvores pequenas e retorcidas, às vezes com a casca dos troncos transformada em carvão pela passagem do fogo, em meio a um tapete de capim. Quem já viu logo reconhece o cerrado, a savana brasileira. Na África e na Austrália, os dois outros continentes em que o bioma é característico, as savanas formam paisagens muito parecidas. Mas a semelhança é superficial, já que o cerrado tem uma biodiversidade maior a ponto de estar na lista de 34 áreas no mundo com maior riqueza de espécies, e sob ameaça de extinção – os hotspots.

A novidade é que as savanas dos três continentes também diferem em como respondem ao fogo, à umidade e à temperatura, conforme um grupo internacional, com a participação de brasileiros, mostrou em janeiro na revista Science a partir de dados compilados em mais de 100 estudos realizados em 2.154 áreas de savana na América do Sul, na África e na Austrália.

Além da importância para compreender o funcionamento desse ambiente, os achados são essenciais para a criação de modelos que prevejam a reação das savanas às mudanças climáticas e estimem a sua capacidade de amenizar essas alterações ao remover carbono do ar.
“Conseguimos ver um papel aparente da história evolutiva na determinação da dinâmica contemporânea do bioma”, diz Caroline Lehmann, da Universidade de Edimburgo, na Escócia. Essa visão mais abrangente é para ela a conclusão mais empolgante do trabalho que coordenou. As diferenças parecem acontecer porque a savana é relativamente jovem: deve ter surgido entre 3 milhões e 8 milhões de anos atrás. Nessa época, os continentes já estavam separados havia um bom tempo e suas floras e faunas tinham acumulado diferenças marcantes. As espécies de árvores presentes, com uma dominância de mirtáceas (família que inclui a pitanga, a goiaba, a jabuticaba e o eucalipto) na Austrália e de leguminosas na África, são distintas em fenologia – a periodicidade com que produzem flores e frutos –, resistência ao fogo, crescimento e arquitetura. Já o cerrado, a mais diversa das savanas, não tem uma família botânica predominante.

Um olhar mais atento sobre os fatores ambientais que regem esses ecossistemas revelou que eles estão por trás de diferenças funcionais. Na África e na Austrália, as chuvas e a temperatura têm um efeito forte em aumentar a frequência do fogo, já que propiciam o crescimento de capins. Em menor intensidade, esses fatores também afetam o tamanho das árvores. Na América do Sul essas relações são muito fracas, tanto no Brasil como na Venezuela, onde também há vegetação savânica. A variação de um continente para o outro surpreendeu os pesquisadores, que esperavam uma homogeneidade maior. “Em retrospecto, parece bastante óbvio quando se considera a diversidade na arquitetura e na fenologia das árvores nessas regiões”, reflete Caroline.
© THOMAS SCHOCH / WIKIMEDIA COMMONS
Com pouca água para agricultura, na Austrália as savanas são mais preservadas
Com pouca água para agricultura, na Austrália as savanas são mais preservadas

O importante é que essa variação significa que não é possível usar um único modelo para prever qual será, por exemplo, a biomassa de árvores em determinadas condições ambientais, ou como a vegetação reagirá a mudanças na temperatura global. Uma particularidade do cerrado é ter evoluído num ambiente mais úmido do que as outras savanas. “Nos outros continentes, sob o mesmo clima em que aqui há cerrado, já haveria floresta”, exemplifica a engenheira florestal Giselda Durigan, do Instituto Florestal do Estado de São Paulo em Assis, interior paulista, coautora do estudo.

As particularidades da África também se devem à grande variedade de herbívoros de tamanho avantajado – como elefantes, antílopes ou zebras, com suas manadas populosas – cuja voracidade vegetariana impede a sobrevivência das mudas de árvores e torna muito mais comum o campo dominado por capins. 

“A ausência da megafauna na América do Sul é em grande parte responsável pela diversidade do cerrado”, diz Giselda.

Sem os grandes herbívoros – aqui muitas vezes representados pelo gado –, o que mantém aberta a fisionomia do cerrado é o fogo. Quando não há queimadas, as árvores crescem, se multiplicam e inibem a germinação e o desenvolvimento de espécies endêmicas, que não toleram a sombra. Sem fogo e sem pastejo, o próprio capim pode prejudicar os brotos que precisam de luz. Um exemplo de como a fauna e as queimadas são parte integrante do ecossistema apareceu na pesquisa que Giselda vem realizando na Estação Ecológica de Santa Bárbara, no interior paulista. Ela encontrou uma planta com menos de 10 centímetros de altura que descobriu ser um exemplar de Galium humile, da família do café, uma espécie que não era coletada no estado desde 1918. O curioso é que o achado se deu justamente numa área que nas últimas décadas foi muito sujeita a incêndios e ao uso como pastagem. “A flora e a fauna do cerrado dependem da passagem do fogo”, alerta Giselda. “No Brasil vamos ter que aprender a usá-lo como ferramenta de manejo, agora que a lei prevê a prática para o bem do ecossistema.”

Investigações como a do grupo de Giselda foram a base para o artigo publicado na Science, que reúne dados de muitos outros grupos de pesquisa. “É um tipo de estudo que ganha em abrangência, mas perde em detalhe”, comenta Giselda. Ela foi convidada para a reunião na Austrália que formou o grupo de trabalho em 2009, mas não pôde participar por conflitos de agenda: estava naquele país no mesmo momento, mas em outro evento. A única representante brasileira era, por isso, a engenheira florestal Jeanine Felfili, da Universidade de Brasília (UnB). Mas logo em seguida Jeanine não sobreviveu a um acidente vascular cerebral, e parte de sua contribuição foi concretizada por Ricardo Haidar, à época seu estudante de mestrado. Mesmo assim, em 2013 uma primeira versão do artigo foi recusada pela revista por ter poucos dados sul-americanos. Caroline então procurou Giselda, que nesse momento não só estava disponível como acabara de participar de um extenso levantamento sobre o cerrado e tinha todos os dados necessários na cabeça e no computador. “Muitos dos dados estavam em artigos em português ou mesmo ainda em teses”, conta a brasileira. Por isso, na prática eram invisíveis para os estrangeiros.

De olho no futuro

Com a sua contribuição o estudo se tornou mais representativo, com modelos estatísticos mais robustos para estimar o efeito de cada uma das variáveis sobre a biomassa da savana. Esses modelos também buscam prever o que pode acontecer com o porte das savanas diante das mudanças previstas no clima das próximas décadas. Ao considerar um aumento de quatro graus Celsius (°C) na média anual de temperatura, o estudo mostrou diferenças marcantes entre os modelos globais e regionais de alteração na biomassa das savanas. Na África, por exemplo, o modelo que não distingue continentes prevê uma leve redução na biomassa, enquanto o específico indica que haverá um aumento. Para a América do Sul, o modelo regional prevê, nesse cenário, uma redução de biomassa bem maior do que aquela prevista pela simulação global.
© FOTO EDUARDO CESAR / INFOGRÁFICO ANA PAULA CAMPOS
As cascas espessas das árvores do cerrado são essenciais para resistir ao fogo
As cascas espessas das árvores do cerrado são essenciais para resistir ao fogo

“Os mapas de biomassa prevista derivados de nossos modelos estatísticos são adequados para propósitos ilustrativos”, relativiza Caroline. “Mas, na verdade, as pessoas exercem uma influência enorme nos padrões atuais de biomassa por meio de desmatamento, agricultura, pecuária e derrubada seletiva.” Ela imagina, por isso, que haja bastante descompasso entre as previsões dos modelos e o que realmente acontece. E destaca o cerrado, que tem passado por transformações muito mais extensas do que as outras savanas, devido ao uso para a agropecuária, e já perdeu quase metade de seu território.
Mas antecipar o que as mudanças ambientais causarão nas savanas ainda é impossível, não só pela incerteza quanto ao que acontecerá no clima de cada continente. O problema é especialmente complexo para esses ecossistemas por sua enorme diversidade entre os continentes e dentro de cada um deles. O estudo se concentrou nas savanas mais típicas, que têm uma divisão mais ou menos equilibrada entre árvores e capins. Mas em cada um dos continentes o bioma pode ser desde um capinzal até uma floresta mais densa de árvores altas, com um estrato herbáceo esparso. “O aumento nas concentrações de CO2 atmosférico deve afetar de forma diferente os capins tropicais e as árvores, mudando o equilíbrio competitivo entre essas plantas centrais do sistema”, explica Caroline. Os efeitos serão variáveis conforme a região. “Posso dizer que nossa falta de compreensão de como os sistemas de savana podem responder à mudança climática é uma falha de conhecimento crítica que deveria ser levada a sério.” Para ela as savanas, que cobrem cerca de 20% da superfície terrestre do planeta, devem ser estudadas com tanto afinco quanto a Amazônia e outras florestas tropicais.
Intrigada com a relação fraca entre as variações de temperatura e chuva e a vegetação do cerrado, Giselda acredita que encontrará respostas abaixo da superfície. As características físicas do solo têm forte influência sobre a disponibilidade de água para as plantas, que precisam dessas reservas para enfrentar os períodos de estiagem. “Quando o solo é argiloso, uma seca de quatro meses é sentida pelas plantas como se durasse apenas dois meses”, explica. Isso acontece porque a argila consegue reter água em maior quantidade e por mais tempo do que a areia. “Mas quando há argila demais a água fica retida de tal maneira que as plantas não conseguem captar.” As condições ideais para o desenvolvimento das plantas, portanto, envolvem um equilíbrio sutil dos componentes do solo, que é mais variável de um ponto a outro do cerrado do que nas outras savanas.

Os modelos produzidos no estudo da Science para estudar a relação entre fatores ambientais e a biomassa arbórea levaram em conta os teores de carbono e de areia numa camada de 50 centímetros de profundidade. O carbono serve como medida da matéria orgânica ou do conteúdo em nutrientes do solo, e a areia como estimativa de sua capacidade de retenção de água. Mas esses indicadores são insuficientes, de acordo com Giselda, e foram escolhidos por estarem disponíveis sobre as savanas de todo o planeta.
Ao dar indicações das variáveis ambientais importantes para as savanas, o estudo aponta direções importantes para trabalhos futuros. Giselda imagina o que seria necessário para se ter uma compreensão melhor da complexa relação entre o solo, o clima e o cerrado: uma rede de pesquisa com grupos trabalhando em toda a extensão do bioma, cavando trincheiras em várias profundidades para examinar o solo e relacionar suas propriedades com o porte e outras características da vegetação.

Artigo científico
 
LEHMANN, C. E. R. et al. Savanna vegetation-fire-climate relationships differ among continents. Science. v. 343, n. 6.170, p. 548-52. 31 jan. 2014.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Cerrado



Estados: Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, parte de Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal.

Área: 196.776.853 hectares

Tipos
: Cerradão, cerrado típico, campo cerrado, campo sujo, e campo limpo.

Unidades
: São várias as Unidades de Conservação no Cerrado, classificadas em Parques Nacionais, Estações Ecológicas, Refúgios da Vida Silvestre, Reservas Biológicas, Áreas de Proteção Ambiental, Áreas de Relevante Interesse Ecológico, Florestas Nacionais, Reservas Extrativistas e Reservas Particulares do Patrimônio Natural, totalizando 3.725.790,00 hectares.

Mapa
O Cerrado é a segunda formação vegetal do Brasil, ocupando 23,1% do território nacional. É constituído por árvores relativamente baixas, esparsas, disseminadas em meio a arbustos, subarbustos e uma vegetação baixa constituída, em geral, por gramíneas.

O solo é ácido e de baixa fertilidade, com altos níveis de ferro e alumínio. Sua topografia é plana e suavemente ondulada. A altitude está entre 300 e 600 m acima do nível do mar. Possui um longo período de seca, com precipitação média anual entre 1.200 e 1.800 mm. A temperatura média anual fica em torno de 22 a 23ºC.

A flora possui mais de 10.000 espécies de plantas, sendo 4.400 endêmicas. A fauna apresenta 837 espécies de aves; 180 de mamíferos; 150 espécies de anfíbios, das quais 45 endêmicas; 120 espécies de répteis, das quais 45 endêmicas; 1.200 de peixes e apesar dos invertebrados serem pouco conhecidos, estimativas sugerem uma riqueza em torno de 90.000 espécies.

Atualmente 45% da área do Domínio do Cerrado já foram transformadas em pastagens e área agrícolas, é de extrema importância que sejam criadas novas Unidades de Conservação.
Fauna

Lobo-guará

Flora


Buriti