Pesquisadores desenvolvem técnica para criação em massa de abelhas sem ferrão
16/12/2013
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Abelhas sem ferrão, como a jataí (
Tetragonisca angustula) e a uruçu (
Melipona scutellaris), são reconhecidas como importantes polinizadoras de diversas culturas agrícolas, como berinjela, morango, tomate e café.
Uma das principais limitações para utilizá-las para essa finalidade,
no entanto, é a dificuldade em produzir colônias em quantidade
suficiente para atender à demanda dos agricultores, uma vez que a
maioria dessas espécies apresenta baixo número de rainhas.
Método
será testado em lavouras de morango – uma das 30 culturas agrícolas
beneficiadas pela polinização por esse tipo de inseto (FFCLRP/USP)
Mas uma nova técnica que pode ajudar a superar essa limitação foi desenvolvida por um grupo de pesquisadores, que criou
in vitro rainhas de uma dessas espécies de abelha: a
Scaptotrigona depilis, conhecida popularmente no Brasil como mandaguari.
O estudo foi feito por cientistas da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa), em parceria com colegas da Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade
de São Paulo (USP) e da Universidade Federal Rural do Semiárido
(Ufersa), campus de Mossoró (RN).
Resultado de um
trabalho de doutorado, realizado com Bolsa da FAPESP, a técnica foi descrita na edição de setembro da revista
Apidologie e será testada em campo nos próximos anos por meio de um
projeto realizado com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP.
“Conseguimos desenvolver uma metodologia de produção artificial de rainhas da espécie
Scaptotrigona depilis,
que demonstrou ter uma aplicação fantástica para a criação em larga
escala dessa espécie de abelha, a fim de atender à demanda dos
produtores agrícolas”, disse Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa
Amazônia Oriental, em Belém (PA), e autor do estudo, à
Agência FAPESP.
De acordo com o pesquisador, que realizou doutorado na FFCLRP sob
orientação da professora Vera Lucia Imperatriz-Fonseca, a mandaguari
está mais presente na região Sudeste do Brasil e pertence a um gênero de
abelhas – o
Scaptotrigona – que está sendo revisto e do qual,
além dela, fazem parte mais oito espécies que ocorrem em todo o país e
possuem ferrão atrofiado.
As colônias dessas espécies de abelhas são compostas, em média, por
10 mil operárias – cada uma com cerca de 5 milímetros – e são regidas
por uma única rainha-mãe, com cerca de 1,5 centímetro e capacidade de
pôr ovos.
A fim de aumentar o número de colônias de espécies desse gênero de
abelha – que, além de polinizadora, também produz mel, pólen e própolis
–, criadores brasileiros têm utilizado uma técnica pela qual se divide
uma colônia ao meio para originar outra com uma nova rainha.
Mas só é possível utilizar o método para multiplicar as colônias da
maioria das espécies de abelhas sem ferrão uma vez por ano, afirmou
Menezes. “Com essa técnica, para produzir 50 mil colônias de jataí e
polinizar cerca de 3,5 mil hectares de morango, seria preciso ter 50 mil
abelhas rainhas”, estimou.
“O morango é uma das culturas agrícolas que dependem de polinização
com menor área de cultivo no Brasil. Imagine quantas abelhas rainhas
precisaríamos para polinizar lavouras de tomate, cuja área de plantação é
bem maior”, comparou.
Nova técnica
Para aumentar a produção de rainhas e de colônias de mandaguari,
Menezes desenvolveu durante seu doutorado, realizado entre 2006 e 2010,
uma técnica pela qual fornece a larvas recém-nascidas da abelha uma
quantidade seis vezes maior de alimento do que o inseto está acostumado a
ingerir. Dessa forma, todas as abelhas fêmeas superalimentadas se
tornam rainhas.
De acordo com Menezes, 97,9% das abelhas rainhas produzidas por esse
método sobreviveram e foram capazes de pôr ovos e formar colônias
in vitro. O tamanho delas pode ser igual ao de rainhas “naturais” se receberem quantidades de alimento larval suficiente, apontou.
“Otimizamos essa técnica de produção
in vitro de abelhas
rainhas, temos um protocolo muito bem definido e conseguimos produzir a
quantidade de insetos que for necessário”, afirmou.
Atualmente, ele e os demais participantes do projeto de pesquisa
aprimoram o sistema de alimentação artificial das larvas do inseto, em
que usam dieta à base de soja em substituição ao alimento natural, para
alimentar o número de colônias produzidas.
As abelhas são criadas em estufa, com temperatura controlada, e
protegidas de inimigos naturais. “Com o avanço dessas novas técnicas de
produção
in vitro de rainhas de abelhas sem ferrão estamos
testando a possibilidade de produzir dez colônias filhas a partir de uma
mãe por ano. Com isso, daríamos origem a um método viável de produção
de colônias”, disse Menezes.
Com o projeto apoiado pelo Programa PIPE, da FAPESP, os pesquisadores
pretendem reunir essas técnicas em um sistema único de produção de
colônias e testá-lo em campo. Em uma segunda fase, eles vão avaliar qual
o efeito dos principais agrotóxicos utilizados hoje na cultura do
morango sobre as abelhas.
Para isso, associaram-se à empresa produtora de agentes biológicos
Promip, situada no município paulista de Engenheiro Coelho, onde foram
construídas cinco estufas climatizadas para plantio de morango.
As abelhas serão introduzidas nessas estufas e expostas aos dez
agrotóxicos mais utilizados para combater pragas que atacam a cultura do
morango, com o intuito de avaliar qual o efeito de cada produto,
individualmente, na sobrevivência das abelhas e na existência das
colônias.
A partir dos resultados, os pesquisadores pretendem elaborar uma
lista de recomendações para os agricultores sobre quais cuidados tomar
ao utilizar um determinando agrotóxico, de modo que não mate as abelhas,
ou indicar quais predadores naturais podem ser utilizados no lugar de
agrotóxicos para eliminar pragas que atingem as lavouras de morango,
como o ácaro rajado.
“Queremos ter ao final do projeto uma lista de recomendações para
falar com embasamento e segurança ao agricultor que, se ele utilizar
abelhas para a realização de polinização, não poderá utilizar
determinados agrotóxicos”, disse Menezes.
Testes de eficácia
Os pesquisadores também avaliam o aumento na produtividade com a
introdução de abelhas sem ferrão para a polinização em diversas culturas
agrícolas.
No caso do morango, por exemplo, a medida aumentou entre 20% e 40% a
produtividade agrícola – dependendo da variedade – e diminuiu em até 80%
a má formação de frutos, afirmou Menezes.
Uma inflorescência – com diversas microflores juntas –, a flor do
morango é visitada por diversos grupos de abelhas – incluindo as com
ferrão e espécies “solitárias”. Quando várias abelhas voam e pousam
sobre essa inflorescência, elas realizam a polinização dessas
microflores e fazem com que o fruto seja bem formado, redondo e vistoso.
Já quando poucas abelhas visitam a flor do morango, elas realizam a
polinização de apenas uma parte da inflorescência, fazendo com que os
frutos fiquem deformados, segundo Menezes.
“No passado, esse tipo de má formação do morango era associado à
trips – uma praga que ataca o fruto – e, por essa razão, os agricultores
aplicavam mais pesticida para combatê-la e acabavam matando mais
abelhas e prejudicando a produtividade da cultura agrícola”, contou.
Em princípio os testes em campo serão feitos com a mandaguari porque
ela se mostrou mais resistente à multiplicação. E, inicialmente, as
colônias de mandaguaris serão introduzidas em lavouras de morango porque
é a cultura sobre a qual eles possuem maior conhecimento sobre o
benefícios do uso de abelhas sem ferrão como polinizadoras.
A ideia, no entanto, é expandir a aplicação para outras culturas, as
quais já se sabe que o processo de polinização por abelhas confere
frutos maiores, com mais sementes e sabor e cor mais acentuados. “Há
cerca de 30 culturas agrícolas que sabemos que podem ser beneficiadas
pela polinização das abelhas sem ferrão”, estimou Menezes.
“Já estamos fazendo testes preliminares com algumas delas, como o
tomate, em São Paulo, e com o açaí, em Belém do Pará, utilizando uma
abelha sem ferrão do mesmo gênero da mandaguari, mas de uma espécie
diferente e muito parecida com ela”, contou.
Para introduzir as abelhas nas lavouras da cultura selecionada, as
colônias artificiais são mantidas confinadas, durante três a seis meses,
até que a população seja composta por, no mínimo, 3 mil abelhas.
Com esse número, a colônia é levada à noite para a lavoura, com
condições de temperatura amenas, e colocada sobre um cavalete para que
os insetos sejam liberados para voar sobre a plantação e realizar a
polinização.
Algumas das vantagens da utilização desse tipo de abelha para
realizar a polinização, segundo Menezes, é que elas possuem raio de voo
menor – de 900 metros, contra 2,5 quilômetros das abelhas com ferrão.
Por isso, têm maior chance de atingir a cultura-alvo para
polinização. “Como o raio de voo das abelhas com ferrão é maior, se
encontrarem outra planta florindo durante sua trajetória elas pousam
nela, em vez de na cultura-alvo”, explicou.
“É mais difícil as abelhas sem ferrão se dispersarem durante o trajeto”, comparou.
O artigo
An advance in the in vitro rearing of stingless bee queens(doi: 10.1007/s13592-013-0197-6), de Menezes e outros, pode ser lido por assinantes da revista
Apidologie em
www.apidologie.org/ ou em
http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs13592-013-0197-6.