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quinta-feira, 2 de junho de 2022

 

Antigos assentamentos "impressionantes" descobertos na Amazônia


Vista aérea de uma ilhota florestal nos Llanos de Moxos, Santa Ana del Yacuma, Beni, Bolívia.

Pesquisadores descobriram antigos centros urbanos em montes florestais na Bacia Amazônica boliviana. Crédito: Roland Seitre/Nature Picture Library

Misteriosos montes no canto sudoeste da Bacia Amazônica já foram o local de antigos assentamentos urbanos, descobriram os cientistas. Usando uma tecnologia de sensoriamento remoto para mapear o terreno a partir do ar, eles descobriram que, a partir de cerca de 1.500 anos atrás, os antigos amazônicos construíram e viveram em centros densamente povoados, com pirâmides de terra de 22 metros de altura, cercadas por quilômetros de altitude estradas.

A complexidade desses assentamentos é “impressionante”, diz o membro da equipe Heiko Prümers, arqueólogo do Instituto Arqueológico Alemão com sede em Berlim.

“Esta é a primeira evidência clara de que havia sociedades urbanas nesta parte da Bacia Amazônica”, diz Jonas Gregorio de Souza, arqueólogo da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, ​​Espanha. O estudo se soma a um crescente corpo de pesquisas que indicam que a Amazônia – que se pensava ter sido uma selva intocada antes da chegada dos europeus – era o lar de sociedades avançadas bem antes disso. A descoberta foi publicada em 25 de maio na Nature 1 .

Uma mudança de pensamento

Os humanos vivem na Bacia Amazônica – um vasto sistema de drenagem fluvial aproximadamente do tamanho do território continental dos Estados Unidos – há cerca de 10.000 anos. Os pesquisadores pensavam que antes da chegada dos europeus no século XVI, todos os amazônicos viviam em pequenas tribos nômades que tinham pouco impacto no mundo ao seu redor. E embora os primeiros visitantes europeus descrevessem uma paisagem repleta de cidades e aldeias, os exploradores posteriores não conseguiram encontrar esses locais.

O assentamento abaixo: imagem Arial de um local na Bolívia mostrando um antigo centro urbano sob vegetação densa.

Fonte: Ref. 1

No século XX, os arqueólogos ainda não confirmaram os rumores e argumentaram que o solo pobre em nutrientes da Amazônia era incapaz de sustentar a agricultura em larga escala e que teria impedido civilizações tropicais - semelhantes às encontradas na América Central e no sudeste da Ásia — de origem na Amazônia. Na década de 2000, no entanto, a opinião arqueológica estava começando a mudar. Alguns pesquisadores sugeriram 2 que concentrações extraordinariamente altas de plantas domesticadas, juntamente com trechos de solo extraordinariamente rico em nutrientes que poderiam ter sido criados por pessoas, podem indicar que os antigos amazônicos de fato moldaram seu ambiente.

A hipótese ganhou força quando, em 2018, arqueólogos relataram 3 centenas de grandes montes geométricos que foram descobertos por causa do desmatamento no sul da floresta amazônica. Essas estruturas sugeriam antigas sociedades organizadas capazes de prosperar em um local por anos - mas faltavam evidências diretas de assentamentos.

Em 1999, Prümers começou a estudar um conjunto de montículos na parte boliviana da Bacia Amazônica, fora da densa floresta tropical. Lá, uma infinidade de montes cobertos de árvores se ergue acima de uma área de planície que inunda durante a estação chuvosa.

Escavações anteriores revelaram que essas 'ilhas florestais' continham vestígios de habitação humana, incluindo os restos da misteriosa cultura Casarabe, que apareceu por volta de dC 500 indicando que um assentamento permanente já ocupou a área. Os pesquisadores também encontraram túmulos, plataformas e outros indícios de uma sociedade complexa. Mas a vegetação densa dificultou o uso de métodos convencionais para pesquisar o local.

O que está abaixo

Na década de 2010, uma técnica chamada lidar – uma tecnologia de sensoriamento remoto que usa lasers para gerar uma imagem 3D do solo abaixo – entrou em voga entre os arqueólogos. Em 2012, um levantamento Lidar de um vale em Honduras ajudou a redescobrir uma antiga cidade pré-colombiana que supostamente existia na área. A selva havia superado completamente o assentamento desde que foi abandonado no século XV, tornando praticamente impossível ver do ar sem lidar.

Prümers e seus colegas aproveitaram o lidar em 2019, quando voaram um helicóptero equipado com a tecnologia em seis áreas próximas a locais confirmados como ocupados pelo povo Casarabe. A equipe conseguiu mais do que esperava, com o LIDAR revelando o tamanho e a forma de 26 assentamentos, incluindo 11 que os pesquisadores não estavam procurando – uma tarefa monumental que levaria 400 anos para ser pesquisada por meios convencionais, diz Prümers.

Dois dos centros urbanos cobriam uma área de mais de 100 hectares – três vezes o tamanho da Cidade do Vaticano. As imagens do LIDAR revelaram compostos murados com amplos terraços subindo 6 metros acima do solo. Pirâmides cônicas feitas de terra se erguiam acima de uma extremidade dos terraços (veja 'O assentamento abaixo'). As pessoas provavelmente viviam nas áreas ao redor dos terraços e viajavam ao longo das calçadas que ligavam os locais uns aos outros.

“Temos essa imagem da Amazônia como um deserto verde”, diz Prümers. Mas dado que as civilizações surgiram e prosperaram em outras áreas tropicais, ele observa: “Por que algo assim não deveria existir aqui?”

Os mistérios permanecem

Por que esses assentamentos foram abandonados após 900 anos ainda é um mistério. A datação por radiocarbono revelou que o Casarabe desapareceu por volta de 1400.

Prümers aponta que as imagens do lidar revelaram reservatórios nos assentamentos, talvez indicando que essa parte do mundo nem sempre foi úmida – uma mudança ambiental que pode ter afastado as pessoas. No entanto, registros consistentes de pólen revelam 4 que o milho (milho) foi cultivado na área continuamente por milhares de anos, indicando práticas agrícolas sustentáveis.

No mínimo, a descoberta de sociedades amazônicas há muito perdidas “muda a perspectiva geral que as pessoas têm da arqueologia amazônica”, diz Eduardo Neves, arqueólogo da Universidade de São Paulo, no Brasil. A exploração madeireira e a agricultura atuais na Bacia Amazônica quase certamente estão destruindo importantes sítios arqueológicos que ainda não foram descobertos, diz ele, mas um interesse crescente pela arqueologia amazônica pode levar à proteção de lugares vulneráveis.

Essas descobertas também contrariam a narrativa de que os povos indígenas eram habitantes passivos da Bacia Amazônica antes da chegada dos europeus. “As pessoas que moravam lá mudaram a paisagem para sempre”, diz Neves.

Natureza 606 , 16-17 (2022)

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-01458-9

Atualizações e correções

  • Correção 26 de maio de 2022 : Uma versão anterior desta história dizia que existem centenas de montes cobertos de árvores que se erguem acima de uma área de planície na Amazônia boliviana. Algumas estimativas sugerem que há muito mais do que isso.

Referências

  1. Prümers, H., Betancourt, CJ, Iriarte, J., Robinson, M. & Schaich, M. Nature https://doi.org/10.1038/s41586-022-04780-4 (2022).

    Artigo   Google Scholar  

  2. Neves, E. G. & Heckenberger, M. J. Annu. Rev. Anthropol. 48 , 371–388 (2019).

    Artigo   Google Scholar  

  3. de Souza, JG et al. Natureza Comum. 9 , 1125 (2018).

    Artigo   Google Scholar  

  4. Carson, JF et ai. Holoceno 25 , 1285-1300 (2015).


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  • domingo, 30 de outubro de 2016

    América aquática

    Degradação de hábitats pode ameaçar estabilidade da maior diversidade de peixes do mundo
    ANDRÉ JULIÃO | ED. 248 | OUTUBRO 2016
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    © FOTOS: LÉO RAMOS , FEITAS NO AQUÁRIO DE SÃO PAULO
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    A América do Sul tem uma diversidade de peixes ainda maior do que se pensava. Enquanto há menos de 20 anos era considerada exagerada a estimativa de 8 mil espécies, as mais de 100 descrições de novas espécies por ano na última década permitem agora estimar a ictiofauna do continente em cerca de 9 mil espécies. 

    Dessas, um número relativamente baixo, entre 4 e 10%, está ameaçado de extinção, enquanto na América do Norte e Europa as taxas são de 27 e 37%, respectivamente. Aqui, porém, o avanço do desmatamento, da urbanização, do barramento de rios, entre outros fatores, ameaça esse relativo conforto. É o que mostra o artigo do biólogo Roberto Reis, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), publicado em uma edição especial do Journal of Fish Biology lançada em julho, que traz dados inéditos acerca da conservação de hábitats aquáticos: não só de rios e do mar, mas também de manguezais, estuários, lagoas costeiras, lagos e riachos.

    Mais sensíveis a alterações provocadas pelo homem do que grandes corpos d’água, os estuários são importantes locais de reprodução e berçário de peixes que vivem nos rios ou no mar. Além disso, lagoas e riachos abrigam espécies endêmicas que, por não existirem em outro lugar, podem ser extintas quando esses hábitats são alterados. “Especialmente na costa do Nordeste e Sudeste do Brasil, muitas lagoas nem sequer mapeadas se converteram em brejos ou secaram completamente por conta da drenagem e do assoreamento, tornando impossível saber se havia espécies endêmicas”, diz a bióloga Ana Cristina Petry, do Núcleo em Ecologia e Desenvolvimento Socioambiental de Macaé, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

    Em colaboração com uma equipe de pesquisadores do Piauí a Mar del Plata, na Argentina, Ana Cristina compilou dados de 103 lagoas na costa atlântica do continente, que somaram cerca de 5.400 quilômetros quadrados (km2) de superfície e um número variável de espécies: de apenas uma até 76. Uma informação alarmante é que cerca de 80% das lagoas investigadas estão fora de unidades de conservação. “As lagoas costeiras prestam serviços ecossistêmicos importantes como locais de reprodução e crescimento não só para peixes marinhos e de água doce, como para insetos, anfíbios, répteis e aves, além de serem locais de pesca”, explica. Várias das lagoas estudadas ao longo de décadas sofreram profundas modificações em área e diversidade de espécies.

    Uma ameaça é a introdução de espécies exóticas, que competem por alimento e áreas de reprodução com as nativas e causam desequilíbrio ao sistema. Nas pequenas lagoas costeiras nordestinas, com menos de 1 km2 de área, essas forasteiras representam 50% das espécies.

    Outros ambientes aquáticos sensíveis à ação humana são os riachos. Com dimensões menores que os rios, eles estão normalmente próximos à floresta, e os organismos que vivem em suas águas dependem do alimento que ela fornece na forma de folhas, frutos e insetos. Alguns riachos formam microbacias independentes das grandes bacias hidrográficas e são ainda mais ameaçados pelo desmatamento e pela poluição. É o caso do rio Mato Grosso, que apesar do nome é um riacho e fica no Rio de Janeiro. A bióloga Rosana Mazzoni, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), analisou a fauna de três diferentes trechos desse riacho: um bem preservado, com águas transparentes e sem penetração de luz por conta da copa fechada das árvores, um segundo com a floresta parcialmente removida e o terceiro totalmente desmatado, com bastante incidência de luz e águas turvas devido ao excesso de algas e à erosão das margens.
    © FOTOS: LÉO RAMOS , FEITAS NO AQUÁRIO DE SÃO PAULO
    Pirarucu: pesca controlada na Amazônia, embora não se saiba quantas espécies estão ameaçadas
    Pirarucu: pesca controlada na Amazônia, embora não se saiba quantas espécies estão ameaçadas

    Impacto
     
    A bióloga e seus colaboradores detectaram diferenças significativas entre os locais na densidade de peixes e seu padrão alimentar. Enquanto cinco espécies de peixes estão presentes em cada um dos três locais, a área sem floresta favoreceu a ocorrência de animais tolerantes a sedimentos, no caso o cascudinho-pintado (Hypostomus punctatus) e o limpa-vidro (Parotocinclus maculicauda), duas espécies de cascudo. Além disso, enquanto na área preservada a principal fonte de alimento dos peixes eram invertebrados como larvas, nas partes desmatadas essa dieta era substituída por detritos, matéria orgânica e algas – que se tornam abundantes na ausência de cobertura florestal, devido à incidência maior de luz para fotossíntese. “Pelo menos nesse caso a remoção da floresta não eliminou espécies, que conseguiram se adaptar”, diz Rosana. “No entanto, a densidade de algumas varia bastante de acordo com as condições locais.” Da mesma forma que os cascudos estão presentes em maior quantidade em áreas degradadas, os lambaris Astyanax taeniatus e Characidium vidali, abundantes na área preservada, vão se tornando mais raros à medida que aumenta o desmatamento.

    O biólogo Mário Barletta, editor da edição especial do Journal of Fish Biology e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), chama a atenção para a necessidade de embasar as políticas de conservação em dados científicos, algo que nem sempre é feito. “O desenvolvimento econômico é necessário, mas ele sempre deve levar em conta o impacto que causa no ambiente”, recomenda. Barletta se refere principalmente às grandes obras de infraestrutura, cuja realização nem sempre é precedida de pesquisa. Em um dos casos em que isso ocorreu, ele conseguiu fazer o levantamento da fauna de uma área de estuário antes, durante e depois de uma dragagem para a construção de um terminal portuário no complexo estuarino da baía de Paranaguá, no Paraná. Transição entre rio e mar, o gradiente de salinidade dos estuários favorece peixes e crustáceos.
    A dragagem, retirada de sedimentos do fundo, ocorre em áreas portuárias para aumentar a profundidade e permitir que grandes navios possam atracar. “O acúmulo de sedimentos no fundo ocorre, em parte, porque as margens dos rios foram desmatadas. A floresta faz o trabalho de segurar esse material e não deixar que ele vá para a água”, explica Barletta. Sem vegetação ao redor, algum tempo depois de feita a dragagem, ela pode voltar a ser necessária, pois o sedimento tende a acumular-se no leito outra vez.

    No estudo do estuário da baía de Paranaguá, importante área de pesca artesanal e local de reprodução e berçário de peixes marinhos e estuarinos, espécies importantes economicamente como a betara (Menticirrhus americanus) e a pescada-branca (Cynoscion leiarchus) praticamente desapareceram durante e logo depois da obra. Ao mesmo tempo, atraídos pelos animais mortos, os bagres Cathorops spixii e Aspistor luniscutis aumentaram em até 10 vezes em densidade durante a obra. Barletta e outros pesquisadores envolvidos na pesquisa concluíram, portanto, que as dragagens devem ser feitas entre o final da estação chuvosa e início da seca, quando não há atividade reprodutiva na área. “Graças ao estudo prévio, determinamos a melhor época para realizar a obra e reduzir o impacto”, conta.
    © FOTOS: LÉO RAMOS , FEITAS NO AQUÁRIO DE SÃO PAULO
    Tambaqui: diversidade genética pode ser alterada por interferências na Bacia Amazônica
    Tambaqui: diversidade genética pode ser alterada por interferências na Bacia Amazônica

    Plástico
     
    Mesmo quando a época de reprodução dos peixes é respeitada, uma ameaça crescente afeta o início da vida desses animais: a presença de plástico nos corpos d’água. Em outro estudo publicado no mesmo volume, Barletta procurava determinar as espécies presentes nos manguezais do estuário do rio Goiana, na costa de Pernambuco, de acordo com as fases da lua. Segundo o biólogo, estudos de populações de peixes normalmente levam em conta escalas de tempo de meses a anos, raramente ciclos lunares ou períodos de dias e semanas. No entanto, é nesses intervalos curtos que se percebe uma relação mais direta entre o ambiente e seus recursos (alimentação, abrigo, proteção de predadores e outros comportamentos).
    Além de quantificar as espécies, em todas as áreas analisadas foram encontrados micro e macroplásticos (pedaços menores e maiores do que 5 milímetros, respectivamente), em densidades similares às dos ovos e larvas da terceira espécie mais abundante, a sardinha (Rhinosardinia bahiensis). Na lua minguante, quando há menos zooplâncton (larvas e animais muito pequenos), é justamente o período em que se encontra mais microplástico, resultado da degradação de garrafas pet, sacolas, cordas e redes de pesca pelo sol e pela água.
    A presença
     desse lixo nos manguezais é especialmente preocupante, pois nesses ambientes larvas, filhotes de peixe e de outros animais aquáticos vivem até chegar numa idade segura para migrar para um rio, estuário ou mar. “Como o microplástico divide o hábitat com os peixes e as larvas, ele pode ser ingerido e entrar na cadeia trófica, junto com os poluentes contidos nele como cádmio, cobre e zinco”, explica Barletta. Isso significa que os poluentes não só ficarão nos seres que comerem o microplástico como passarão para os predadores destes e, sucessivamente, para os que se alimentarem deles, chegando aos seres humanos.
    © FOTOS LÉO RAMOS, FEITAS NO AQUÁRIO DE SÃO PAULO
    Pirarara: dieta inclui outros peixes, aumentando o risco de contaminação por mercúrio
    Pirarara: dieta inclui outros peixes, aumentando o risco de contaminação por mercúrio

    Pesca
     
    Por essa razão, projetos de conservação precisam levar em conta o fator humano. O pirarucu (Arapaima sp.), por exemplo, apesar de ter a pesca proibida no Amazonas, é largamente comercializado naquele estado. Uma solução possível é o chamado manejo comunitário. O biólogo Thiago Petersen, atualmente doutorando no Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), acompanhou de perto a recuperação da população de pirarucus da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, um dos poucos lugares onde o peixe, que vive em lagos, pode ser pescado no Amazonas.

    “No manejo é feita a contagem da população de pirarucus de cada lago, em seguida cria-se um plano de gestão com a comunidade, no qual se definem quais lagos terão pesca para comercialização, para consumo da comunidade e em quais não se pode pescar”, diz Petersen. Em locais onde esse modelo de gestão existe há mais tempo, como a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, também no Amazonas, é permitida a retirada de até 30% da população por ano. Em áreas que estão começando a fazer uso do manejo, como a Piagaçu-Purus, é estipulado um limite mais conservador, entre 8 e 10%. O esforço deu resultado nesse caso: de 2008, quando o manejo foi implementado, até 2014, o aumento das populações de peixe variou de 62 a 99%.

    Apesar de algumas tentativas bem-sucedidas de preservação, Leandro Castello, coautor do artigo sobre pirarucus e professor do Virginia Polytechnic Institute and State University, nos Estados Unidos, alerta que faltam informações para saber com mais precisão quantas espécies estão ameaçadas. “Na Amazônia, por exemplo, a degradação desses ecossistemas é relativamente baixa, mas isso está mudando rapidamente e é uma questão de tempo até que o panorama seja completamente alterado”, afirma. Um dos fatores que afetam diretamente os peixes amazônicos são as hidrelétricas. “Eles até passam pelas barragens para pôr os ovos na parte alta do rio”, conta Roberto Reis. “Quando os ovos estão descendo o rio e chegam a um lago de hidrelétrica, porém, acaba a correnteza e eles afundam para a parte sem oxigênio e morrem. Os que restam acabam sendo comidos pelos milhões de piabas que habitam os reservatórios.”

    Artigos científicos
     
    REIS, R. E. et al. Fish biodiversity and conservation in South America. Journal of Fish Biology. v. 89, p. 1-16. jul. 2016.

    LOBÓN-CERVIÁ, J. et al. Effects of riparian forest removal on the trophic dynamics of a Neotropical stream fish assemblage. Journal of Fish Biology. v. 89, p. 50-64. jul. 2016.

    BARLETTA, M. et al. Effects of dredging operations on the demersal fish fauna of a South American tropical–subtropical transition estuary. Journal of Fish Biology. v. 89, p. 890-920. jul. 2016.

    LIMA, A. R. A. et al. Changes in the composition of ichthyoplankton assemblage and plastic debris in mangrove creeks relative to moon phases. Journal of Fish Biology. v. 89, p. 619-40. jul. 2016.

    PETERSEN, T. A. et al. Recovery of Arapaima sp. populations by community-based management in floodplains of the Purus River, Amazon. Journal of Fish Biology. v. 89, p. 241-48. jul. 2016.

    PETRY, A. C. et al. Fish composition and species richness in eastern South American coastal lagoons: Additional support for the freshwater ecoregions of the world. Journal of Fish Biology. v. 89, p. 280-314. jul. 2016.

    segunda-feira, 27 de julho de 2015

    A terceira margem do rio

    Matéria orgânica transportada pelo Amazonas viaja por quase 600 quilômetros no Atlântico e chega ao Caribe
    PABLO NOGUEIRA | ED. 233 | JULHO 2015
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    A cada ano, o rio Amazonas transporta até 27 milhões de toneladas de matéria orgânica terrestre para regiões do Atlântico distantes da costa. São compostos produzidos pelas queimadas e também restos de plantas, animais e seres vivos microscópicos da floresta que chegam ao rio levados pelo vento e pela chuva. As águas do Amazonas se encarregam de lançar todo esse material no oceano, onde serve de alimento para os organismos marinhos. A quantidade de matéria orgânica, estimada agora por pesquisadores brasileiros e norte-americanos, é tamanha e avança tanto mar adentro que surpreendeu os especialistas.

    Nesse trabalho, publicado na Global Biogeochemical Cycles, os pesquisadores também analisaram as transformações por que passa a matéria orgânica à medida que a água do rio se mistura à do oceano. Sozinho, o Amazonas responde por 15% a 20% do volume de água doce despejada nos oceanos do planeta. Suspensa ou dissolvida em suas águas, a matéria orgânica coletada na bacia amazônica chega ao Atlântico na altura da ilha de Marajó, no Pará. No oceano, a coluna de água doce (pluma) vinda do rio alcança 600 quilômetros de extensão e até 200 quilômetros de largura. De 2010 a 2012, cerca de 40 pesquisadores realizaram três cruzeiros à América do Sul e coletaram amostras de água em centenas de pontos distribuídos entre Óbidos, no Pará, a 800 quilômetros da foz do rio, e a região de Barbados, já no Atlântico Norte, depois de a pluma do Amazonas viajar por quase 600 quilômetros rumo ao Caribe, empurrada por correntes da costa brasileira. “As pesquisas sobre a pluma e o rio eram feitas separadamente”, conta a oceanógrafa norte-americana Patricia Yager, pesquisadora da Universidade da Geórgia e coordenadora desse projeto, o River-Ocean Continuum of the Amazon (Roca). “O objetivo do Roca é pensar o sistema de forma integrada”, diz.
    Usando um espectrômetro de massa de resolução ultraelevada, os pesquisadores identificaram ao menos 4,4 mil compostos orgânicos na pluma do Amazonas. São moléculas formadas por quatro elementos químicos (carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio) que se combinam em proporções variadas. À medida que as águas do rio avançam para o oceano, esses compostos sofrem sucessivas transformações: são degradados por bactérias e outros microrganismos (biodegradação) ou pela luz (fotodegradação) e podem também gerar moléculas mais complexas. Embora ocorram simultaneamente, alguns processos são mais intensos em certos trechos do percurso.

    Próximo à foz do Amazonas, bactérias digerem as moléculas orgânicas complexas e reaproveitam açúcares, aminoácidos e lipídeos. Já no oceano algas microscópicas extraem os subprodutos contendo nitrogênio, como aminoácidos e ureia. Passada a plataforma continental, uma faixa de 80 quilômetros a partir da costa, as águas se tornam menos turvas e a luz solar ajuda a degradar compostos orgânicos complexos.

    Do complexo ao simples

    Essas transformações biológicas e fotoquímicas deixam traços detectáveis nas amostras de água. No material vindo do rio, a proporção de hidrogênio é menor do que a de carbono, indicando que ali as moléculas orgânicas são mais complexas. Nas amostras coletadas no mar, a situação se inverte e a proporção de hidrogênio supera a de carbono, sinal de moléculas orgânicas mais simples, resultado da degradação das complexas.

    Esses dados ajudam a entender o que acontece no nível químico e biológico. “A proporção menor de hidrogênio e maior de carbono nos compostos encontrados no rio sugere contribuição de material terrestre, caracterizado pela presença de anéis aromáticos [formados por seis átomos de carbono]”, conta Patricia Yager. Esses anéis, segundo a pesquisadora, são mais difíceis de ser degradados, em especial pelas bactérias marinhas.
    Já a proporção de hidrogênio e carbono das amostras de água da pluma coletada no mar indica a presença de compostos alifáticos, formados por longas cadeias abertas de carbono. Esses compostos são indicativos da ação das algas, que, ao realizar fotossíntese, transformam moléculas pequenas de carbono em moléculas maiores, mais fáceis de serem digeridas e fonte de energia para as bactérias marinhas.

    Apesar da ação de microrganismos e da luz solar, uma grande quantidade de matéria orgânica terrestre resiste às transformações e viaja muito além da foz do Amazonas. Em períodos de alta descarga, mais de 70% da matéria orgânica terrestre transportada pelo rio é encontrada próximo à Guiana Francesa. Nos períodos mais secos essa proporção diminui para 50%. Convertidos em números absolutos, esses dados sugerem que a pluma do Amazonas lança entre 13 milhões e 21 milhões de toneladas – em algumas ocasiões 27 milhões de toneladas – de matéria orgânica terrestre no Atlântico. “Essas estimativas podem conter vieses, causados pela heterogeneidade da pluma ou por sua vasta extensão”, pondera a oceanógrafa brasileira Patricia Medeiros, primeira autora do artigo da Global Biogeochemical Cycles.

    Estudos feitos nos Estados Unidos indicam que 50% do material orgânico terrestre transportado pelo rio Mississipi é degradado perto da costa. “Sabemos que a degradação rápida ocorre no Mississipi e em outros rios. Ficamos surpresos que ela não ocorra no Amazonas”, diz Patricia Medeiros.
    A brasileira tem duas hipóteses para explicar como tanta matéria orgânica do Amazonas alcança mar aberto. “Como grande parte da degradação ocorre durante o transporte no próprio rio, é possível que o material que chega ao oceano seja mais resistente”, diz. Outra possível explicação é a velocidade do transporte. Estima-se que no Mississipi o material orgânico demore meses para ir da foz ao mar aberto. No Amazonas, esse percurso é feito em 30 a 60 dias, tempo insuficiente para a degradação da matéria orgânica terrestre.

    Artigo científico

    MEDEIROS, P. M. et al. Fate of the Amazon River dissolved organic matter in the tropical Atlantic Ocean. Global Biogeochemical Cycles. v. 29, p. 677-90. 25 abr. 2015.

    segunda-feira, 22 de setembro de 2014

    O passado remoto de um grande rio

    Erosão dos Andes pode ter unido antigas bacias hidrográficas e formado o Amazonas
    NELDSON MARCOLIN | Edição 223 - Setembro de 2014
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    © LÉO RAMOS
    O grande rio do Norte do Brasil, o maior do mundo: agora correndo para leste
    O grande rio do Norte do Brasil, o maior do mundo: agora correndo para leste.

    O debate sobre a origem do rio Amazonas continua tão vasto quanto o próprio rio, o maior do mundo, com 7 mil quilômetros (km) de extensão e 20 km de largura na altura de Manaus. Depois de uma equipe do Rio de Janeiro ter concluído, com base em fósseis de peixes, que há 2,5 milhões de anos um esboço do rio Amazonas corria para oeste e desaguava em uma área hoje árida do Caribe (ver Pesquisa Fapesp nº 216), um geofísico de São Paulo apresenta uma nova possível explicação para a formação do rio e da bacia Amazônica, sugerindo que suas águas já fluíam para leste há muito mais tempo, há cerca de 10 milhões de anos

    De acordo com essa proposta, obtida por meio de uma simulação matemática da evolução do terreno e do depósito de sedimentos na região, o rio Amazonas teria tomado seu sentido atual, de oeste para leste, não só em consequência de alterações no interior da Terra que desencadearam um soerguimento da porção oeste da Amazônia, de acordo com a abordagem tradicional, mas também como resultado da movimentação da própria superfície terrestre. Um aumento na erosão das cordilheiras andinas pelas intempéries teria criado o declive que se estende dos Andes à Ilha de Marajó e por onde hoje escorre um quinto das águas fluviais do planeta.

    “Mostrei que a própria dinâmica da erosão e sedimentação teria sido capaz de modificar a drenagem da região”, afirma o geofísico Victor Sacek, professor da Universidade de São Paulo (USP), que detalhou essa hipótese em um artigo publicado on-line em julho na revista Earth and Planetary Science Letters. Suas conclusões convergem com as do geólogo Paulo Roberto Martini, cuja equipe estabeleceu em 2008 o rio Amazonas como o mais extenso do mundo (ver Pesquisa Fapesp nº 150). “A rapidez com que os Andes crescem e a erosão que o Amazonas provoca na cordilheira são monumentais”, diz Martini. “O rio transporta para o mar o equivalente a mais de um Pão de Açúcar inteiro de sedimentos por mês.”
    Para entender essa hipótese, é preciso rever a evolução da paisagem na região. Há 24 milhões de anos, no início do período geológico conhecido como Mioceno, as nascentes dos rios do norte da América do Sul não ficavam nos Andes, como hoje, mas em relevos bem menos expressivos a oeste, que dividiam as águas da região em duas bacias hidrográficas distintas. A leste do divisor de águas, os rios desciam em direção à atual foz do Amazonas. A oeste, os rios seguiam na direção oposta, rumo a bacias aos pés dos Andes, e alimentavam imensos lagos e pântanos, que formavam uma área alagada 20 vezes maior que o atual pantanal mato-grossense, conhecido como Sistema Pebas.
    A geóloga Carina Hoorn, da Universidade de Amsterdã, Holanda, com base em rochas e fósseis colhidos à margem de rios, argumenta que as bacias separadas pelo Arco Purus teriam começado a se fundir há 16 milhões de anos. Desse modo, o rio Amazonas e sua bacia teriam ganho sua extensão atual durante os 6 milhões de anos seguintes, quando a inclinação do relevo do norte do continente fez a água dos lagos entre os Andes e o Arco Purus começar a fluir por rios preferencialmente para leste. A equipe do geólogo Jorge de Jesus Figueiredo, da Petrobras, depois de coletar e analisar amostras de rochas em poços de sondagem no fundo do mar próximo à foz do Amazonas, chegou a conclusões que reforçaram a hipótese de Carina.

    A região norte da América do Sul e o rio Amazonas ganharam as feições atuais também em consequência da interação das placas litosféricas, que Sacek estuda desde o doutorado, concluído em 2011. No litoral oeste da América do Sul, a placa de Nazca, que forma o assoalho do oceano Pacífico, colide com a placa continental sul-americana. Como resultado, a placa oceânica, mais fina e densa que a continental, mergulha sob o continente em direção à chamada astenosfera, uma camada do interior da Terra tão quente que suas rochas se comportam como um líquido espesso, que flui lentamente ao longo de milhares de anos. “A raiz dos Andes cresce e afunda, ao mesmo tempo que seus picos sobem”, diz Sacek. “Isso porque as placas litosféricas flutuam sobre a astenosfera como icebergs flutuam no mar, com apenas uma pequena ponta visível sob a superfície. A crosta continental tem em média de 30 a 40 km de espessura, enquanto nos Andes pode passar de 70 km, embora a altura das montanhas não ultrapasse 7 km.”

    O espessamento da crosta devido ao choque entre as placas tectônicas, além de erguer os Andes, observa Sacek, tem outro efeito sobre o relevo a leste da cordilheira. O peso da crosta mais espessa ao lado puxa as regiões aos pés dos Andes, criando o leito de bacias sobre as quais, durante o Mioceno, se depositavam os sedimentos trazidos pelas águas descendo tanto dos Andes quanto do interior do continente. Até esse ponto, os especialistas geralmente concordam. “À medida que a placa de Nazca afundou mais sob a placa sul-americana, os Andes e suas regiões vizinhas passaram a flutuar sobre uma astenosfera mais profunda e viscosa”, diz a geofísica Grace Shephard, da Universidade de Oslo, Noruega. Em 2010, Grace, com colegas dos Estados Unidos, apresentou uma reconstituição das mudanças na astenosfera abaixo do continente, mostrando que as correntezas de rocha fluida teriam força suficiente para soerguer as bacias vizinhas dos Andes, inclinando todo o terreno subandino e amazônico na direção leste.

    Erosão nos Andes

    Com uma abordagem oposta, Sacek desconsiderou o efeito da astenosfera e usou o modelo matemático que já havia adotado no doutorado para simular as transformações no relevo provocadas pelo balanço entre o soerguimento dos Andes, a erosão de suas rochas pelas águas da chuva e dos rios e o transporte e deposição dos sedimentos criados pelas águas, que Grace ignorou. Como o efeito de todos esses processos juntos em uma escala continental ao longo de milhões de anos é extremamente complexo para ser calculado com detalhes realistas, ele teve de encontrar um equilíbrio entre fazer um modelo muito complexo, mas confuso, ou muito simplista, incapaz de representar a natureza adequadamente. “Não foi fácil”, diz.

    Como ainda há grande incerteza sobre a rapidez com que os Andes cresceram e com que eficiência a erosão desgastava suas rochas e as águas transportavam seus sedimentos, Sacek testou diversos valores numéricos em suas simulações. Independentemente dos números que inserisse no computador, porém, as simulações da história geológica dos últimos 35 milhões de anos reproduziam a reversão do rio Amazonas. À medida que os Andes se tornavam uma barreira para a umidade soprada por ventos vindos do Atlântico, o aumento das chuvas no flanco leste da cordilheira aumentava também a quantidade de sedimento transportado montanha abaixo. Em algum momento, os sedimentos depositados soterravam completamente as bacias ao lado dos Andes, criando a suave inclinação a leste observada na Amazônia atualmente. Uma das simulações indicou que a bacia amazônica teria se formado há cerca de 10,5 milhões de anos, como defendido por Carina. O modelo matemático, porém, falhou ao simular a evolução do Sistema Pebas, os lagos e pantanais espalhados entre os Andes e o Arco Purus, indicando épocas e lugares diferentes dos obtidos pelos geólogos.

    Grace chamou de “impressionante” o trabalho de Sacek, mas notou que apenas o modelo que ela e outros pesquisadores fizeram, levando em conta os efeitos da astenosfera, conseguem formar corretamente o Sistema Pebas. “Permanece o desafio de combinar melhor os fenômenos geológicos da superfície terrestre com os do interior do planeta”, diz ela. “Esses processos não são mutuamente exclusivos.” Para a geóloga Dilce Rossetti, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a origem do Amazonas deve permanecer aberta ainda por muitos anos. “Os dados obtidos até agora são muito poucos e pontuais para fazer extrapolações”, afirma. “As datações dos sedimentos ainda não são totalmente confiáveis e as unidades de diferentes períodos geológicos precisam ser melhor mapeadas.”

    Carina, da Holanda, duvida que novos dados mudem suas próprias conclusões a respeito do Amazonas. “Os dados da foz do Amazonas são bastante claros e outros registros no Suriname e na Venezuela confirmam a existência de um sistema de rios nascendo nos Andes no final do Mioceno”, diz. Dilce observou que a história pode ser ainda mais complicada. Segundo ela, os sedimentos andinos das amostras estudadas por Figueiredo desaparecem em amostras colhidas mais acima no poço. “Nem ele nem eu sabemos explicar por que isso acontece”, ela reconhece. A região amazônica continua intrigando, surpreendendo e fascinando (ver reportagem sobre as primeiras fotos da Amazônia na página 86).
    © BIBLIOTECA NACIONAL
    O curso do Amazonas, de Nicolas Sanson: precisão reconhecida
    O curso do Amazonas, de Nicolas Sanson: precisão reconhecida
    Mapa resgatado
    O curso do Amazonas, de Nicolas Sanson:  precisão reconhecida
    Um trabalho que se julgava apenas digno de curiosidade, o Le cours de la rivière des Amazones, elaborado em 1656 pelo cartógrafo francês Nicolas Sanson, foi finalmente reconhecido como um dos primeiros mapas científicos da região amazônica. Jorge Pimentel Cintra, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), e um de seus estudantes, Rafael Henrique de Oliveira, desconsideraram a crítica do geógrafo francês Charles- -Marie de La Condamine de que o mapa teria sido feito “baseado somente em informações históricas”, compararam as coordenadas geográficas adotadas com as atuais e reconheceram que o mapa foi feito com acurácia, do melhor modo possível para a época.

    “Nossa hipótese é de que esse mapa era um rascunho, que Sanson usava como base para fazer atlas mundiais”, diz Cintra. Em um artigo publicado na Acta Amazonica, ele e Oliveira listam 14 outros mapas feitos a partir do trabalho de Sanson. Publicado apenas em 1680, 13 anos depois da morte de Sanson, cartógrafo real da França, o mapa apresenta povoamentos, cadeias de montanhas e poucos afluentes do Amazonas, expondo um erro comum na época, que só foi detectado em 1707, ao indicar a nascente do rio próxima a Quito, no Equador. Outro equívoco, associado ao erro da nascente, foi considerar como parte do Amazonas os rios Coca e Napo, que, hoje se sabe, são seus afluentes.

    Cintra e Oliveira consideram o mapa de Sanson um pouco mais preciso que outro, concluído um ano antes, em 1655, o Magni Amazoni fluvii, do engenheiro militar francês Blaise François Pagan, o conde de Pagan. Os dois mapas se baseiam nas informações de um relato de Cristobal de Acuña, jesuíta espanhol que desceu o rio desde o Equador em 1639 acompanhando o explorador português Pedro Teixeira. “Olhei para o relato de Acuña, publicado em 1641, refiz os cálculos e conferi as latitudes e longitudes dos dois mapas”, afirma Cintra. “Nos pontos em que eu tive dúvida, Sanson e Pagan também tiveram, porque as informações não eram claras.”
    Carlos Fioravanti
    Projeto
    Evolução tectônica, climática e erosional em margens convergentes: uma abordagem numérica (n. 2011/10400-0); Modalidade Pós-doutorado; Pesquisador responsável Victor Sazek (IAG-USP); Investimento R$ 147.351,39 (FAPESP).

    Artigos científicos

    CINTRA, J. P.; OLIVEIRA, R. H. de. Nicolas Sanson e seu mapa: o curso do rio Amazonas. Acta Amazonica. v. 44, n. 3, p. 353-66. 2014.

    HOORN, C. et al. Amazonia through time: andean uplift, climate change, landscape evolution, and biodiversity. Science. v. 330, p. 927-31. 2010.

    SACEK, V. Drainage reversal of the Amazon River due to the coupling of surface and lithospheric processes. Earth and Planetary Science Letters. v. 401, p. 301-12. 2014.

    sexta-feira, 12 de setembro de 2014

    Sobre florestas e águas

    Preservação de áreas naturais é fundamental para a conservação de recursos hídricos e, consequentemente, para o bom desempenho da agricultura brasileira. 
     
    Por: Henrique Kugler
    Publicado em 11/09/2014 | Atualizado em 11/09/2014
    Sobre florestas e águas
    Rio Tiputini, na Amazônia equatoriana. O ciclo hidrológico da bacia amazônica está associado aos níveis de precipitação no resto do país. (foto: Flickr/ Andreas Kay – CC BY-NC-SA 2.0)
    Segundo a maioria dos cientistas, a agricultura e a própria segurança hídrica do Brasil serão beneficiadas caso o país faça uma importante lição de casa: cuidar das nascentes e preservar as florestas.
    As florestas têm papel essencial na conservação e na purificação das águas. É na vegetação, e também nos solos e nos organismos, que fica retida boa parte da água que vem com as chuvas. Esse ciclo funciona como um grande filtro natural – e eventuais poluentes que estejam na água vão ficando pelo caminho quando ela transita por aquele ecossistema. Quando essa água chegar aos rios, ou quando retornar à atmosfera em forma de chuva, estará de certa maneira purificada.

    Scanavaca: Se a floresta for cortada, a precipitação na cordilheira dos Andes e na porção meridional do continente sul-americano tende a ser reduzida
    Veja-se o caso emblemático da floresta amazônica, que absorve a água da chuva que vem do oceano. “Ela funciona como uma bomba de sucção: puxa água do oceano Atlântico para o continente e a mantém na floresta”, explica o engenheiro florestal Laerte Scanavaca, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Meio Ambiente), em Jaguariúna (SP).

    É exatamente essa água, gerenciada pelo ciclo hidrológico da bacia amazônica, que acaba sendo distribuída entre a cordilheira dos Andes e a porção meridional do continente sul-americano. Pesquisadores acreditam que essa divisão é equilibrada: 50% da água vão para a cordilheira; e os demais 50% rumam para o sul.
    “Isso significa que, se a floresta for cortada, a precipitação nessas regiões tende a ser reduzida”, diz Scanavaca. É incorreto atribuir um nexo de causalidade direta entre o desflorestamento amazônico e a queda dos níveis de precipitação do Centro-oeste e Sudeste brasileiros, por exemplo. Entretanto, não é errado supor que pode haver uma relação íntima entre tais processos.
    Floresta amazônica
    Trilha em meio à Amazônia peruana. As florestas exercem papel decisivo no armazenamento e purificação das águas. (foto: Flickr/ CIFOR – CC BY-NC 2.0)
    De qualquer modo, a preservação de áreas naturais pode trazer não apenas benefícios ambientais, como também econômicos. Scanavaca estima que, para cada hectare de floresta amazônica preservada, há um potencial de arrecadação de R$100 mil por ano com o desenvolvimento e comércio de fármacos; e de R$20 mil por ano com a extração de sementes e frutos por meio do manejo sustentável da floresta.
    “Abrimos mão disso e ‘ganhamos’ R$250 por hectare ao ano com soja, e R$300 por hectare ao ano com pecuária”, calcula o pesquisador. “Além de ser muitas vezes resultado de um crime ambiental, isso é uma falta de inteligência sem precedentes.”

    Agricultura sem desmatamento

    Do ponto de vista do produtor agrícola, pode parecer um contrassenso falar em preservação de florestas para o bom desempenho da agricultura. Isso porque não falta quem faça coro ao remoído argumento de que, para suprir nossa demanda alimentar nas próximas décadas, teremos que, inevitavelmente, desflorestar novas áreas para novos cultivos.

    Mas um estudo recém-publicado no periódico Global Environmental Change confirma que o Brasil pode atender à sua demanda alimentar, pelo menos até 2040, sem derrubar uma árvore a mais sequer. Basta aproveitar melhor a área destinada à pecuária, que hoje corresponde a 75% das terras agricultáveis brasileiras – enquanto a lavoura ocupa apenas 25%.
    O Brasil pode atender à sua demanda alimentar, pelo menos até 2040, sem derrubar uma árvore a mais sequer.
     
    “Criamos hoje, em média, uma cabeça de gado por hectare, quando poderíamos criar três”, calcula o autor do estudo, o economista Bernardo Strassburg, do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

    Strassburg garante que, se aproveitássemos apenas metade do potencial dessas terras subutilizadas em prol do plantio, daríamos conta não apenas da demanda alimentar do país para as próximas décadas, mas também das demandas futuras por agrocombustíveis e por recursos madeireiros.

    Análises do próprio Ministério da Integração Nacional (MIN) indicam que “75% das necessidades futuras para alimento nas próximas décadas podem ser atendidas pelo aumento do nível de produção das fazendas de baixa produtividade”.
    Argumentos não faltam para que a agricultura se concilie com a preservação das florestas.

    Este é o quarto texto da série especial ‘Terra e água’, publicada esta semana na CH On-line.

    quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

    Fósseis de Bagre - Passagem para o Caribe

    Fósseis de bagres sugerem que o rio Amazonas desaguava no norte da Venezuela e Colômbia há cerca de 2,5 milhões de anos 

    MARCOS PIVETTA | Edição 216 - Fevereiro de 2014
    © ORANGEL AGUILERA
    Região árida de Urumaco, na Venezuela
    Região árida de Urumaco, na Venezuela

    Exemplares de espécies extintas de três gêneros de bagres  encontradas em áreas desérticas do noroeste da América do Sul podem ser uma evidência fóssil dos últimos tempos em que o ancestral do rio Amazonas tinha um curso muito diferente do atual: desaguava no Caribe.

    Os vestígios dessas antigas formas de peixes de água doce foram achados em rochas sedimentares das formações geológicas La Victoria, Villavieja, Urumaco, Castilletes e San Gregorio, no norte da Colômbia e Venezuela. Hoje essa zona é árida, não tem rios e a localidade andina exibe altitude de até 3.300 metros. Segundo um artigo publicado em setembro de 2013 na revista PLoS One, os bagres faziam parte da fauna de um proto-Amazonas que cortava áreas que agora fazem parte do território desses dois países e apresentam semelhanças anatômicas com espécies vivas de peixes da bacia amazônica.

    Até por volta de 2,5 milhões de anos atrás, o embrião do hoje maior rio do mundo tinha um braço que nascia no meio da Amazônia e corria para o oeste do continente, onde se juntava com outro trecho que fluía para o norte da América do Sul (ver mapa). De acordo com essa hipótese, esse segundo braço, que rumava para a porção mais setentrional do continente, atravessava a região entre a bacia de Maracaibo, na Venezuela, e o rio Magdalena, na Colômbia, e desaguava no sul do Caribe. “O Amazonas parecia um grande pântano, com um fluxo lento de água”, afirma o paleontólogo venezuelano Orangel Aguilera, da Universidade Federal Fluminense (UFF),  principal autor do estudo. “A biodiversidade da região, como a conhecemos hoje, ainda não tinha surgido.”

    O rio só teria conseguido mudar seu trajeto, perder seu braço que ia para o norte e passar a correr para o leste, como é seu curso atual, após o fim do longo processo de soerguimento da porção mais setentrional dos Andes. A consolidação da grande cadeia de montanhas teria empurrado as águas do Amazonas para longe de sua porção caribenha, que secaria para sempre e se tornaria uma zona árida, e feito o fluxo do rio romper barreiras que impediam seu acesso à parte centro-oriental da Amazônia brasileira. Dessa forma, o novo trajeto do Amazonas no sentido leste teria se tornado suficientemente forte para ultrapassar duas áreas marcadas por baixas elevações naturais  e abrir seu leito rumo ao Atlântico.
    © PLOS ONE
    Fósseis dosbagres do proto-Amazonas
    Fósseis dos bagres do proto-Amazonas

    Para o americano John Lundberg, curador da seção de ictiologia da Academia Natural de Ciências da Universidade Drexel, da Filadélfia, os fósseis de bagres resgatados na Colômbia e na Venezuela reforçam a ideia de que a desembocadura do Amazonas foi, no passado remoto, o noroeste do continente sul-americano.  Segundo ele, os geólogos suspeitam, desde os anos 1950, que houve uma grande paleoconexão entre o Amazonas ocidental e o Orinoco, o maior rio venezuelano, que desaguava no Caribe. “Também são bem conhecidas as relações de parentesco entre muitos peixes, répteis e mamíferos aquáticos que hoje vivem nas bacias dos rios Amazonas, Orinoco, Magdalena e Maracaibo”, diz Lundberg, autor que também assina o trabalho na PLoS. “Elas sugerem que havia interconexões fluviais antes da ascensão dos Andes na Colômbia e na Venezuela.”

    Polêmica

    Embora venha ganhando evidências e adeptos na comunidade científica nas últimas décadas, a hipótese de que o antigo Amazonas fluiu para o norte e teve foz caribenha permanece polêmica. Há quem acredite que o rio nunca tenha seguido um curso assim. Mesmo entre os defensores da ideia de que existiu uma conexão entre o proto-Amazonas e o noroeste da América do Sul, uma questão permanece sem uma resposta definitiva: até quando essa passagem para o Caribe se manteve aberta? O momento em que o rio começou a correr para o Atlântico é uma espécie de atestado de nascimento do Amazonas atual.
    O trabalho recente capitaneado por Aguilera e Lundberg fornece uma resposta ousada para essa polêmica. Baseados na idade estimada dos sedimentos em que foram encontrados os fósseis de bagre, os pesquisadores sustentam que o Amazonas reverteu seu curso mais tardiamente do que outros autores afirmam. Para o pesquisador da UFF, o Amazonas deixou de banhar a região entre a bacia de Maracaibo e o rio Magdalena somente entre o final da época geológica denominada Plioceno e o início do Pleistoceno, há cerca de 2,5 milhões de anos. Boa parte dos trabalhos sobre o tema costuma situar o desaparecimento dessa conexão caribenha entre 12 e 8 milhões de anos atrás, quando a elevação dos Andes na Venezuela e Colômbia entrava em seu momento derradeiro. A ascensão final da grande cadeia montanhosa teria rearranjado o sistema de drenagem no noroeste do continente, cortado o braço setentrional do Amazonas e pavimentado seu caminho para o leste. Aguilera também acredita que isso tenha ocorrido, só que mais tardiamente do que se supunha.

    Estudiosa dos paleorrios da Amazônia, a geóloga Dilce Rossetti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), considera válida e coerente a hipótese defendida no trabalho publicado na Plos. Mas afirma que a origem do curso atual do Amazonas é um tema complexo, ainda sem dados definitivos e incontestáveis. “Não há  consenso nem de que o Amazonas corria para o norte no passado”, diz Dilce. A existência de fósseis de bagres amazônicos não significa necessariamente que o rio esteve ligado ao noroeste da América do Sul até esse período.

    A conexão com o norte da Venezuela e Colômbia pode ter desaparecido antes dos 2,5 milhões de anos atrás e deixado como resquício uma pequena bacia local, já desmembrada do grande rio Amazonas. De acordo com essa interpretação, os novos fósseis de bagres descobertos seriam então remanescentes dessa bacia secundária e independente, que, com o tempo, desapareceu e deu lugar a uma paisagem desértica – e não diretamente das águas de um proto-Amazonas que corriam para o norte do continente.

    Artigo científico
     
    AGUILERA, O. et al. Palaeontological evidence for the last temporal occurrence of the ancient western Amazonian river outflow into the Caribbean. PLoS ONE. 13 set. 2013.

    quarta-feira, 5 de setembro de 2012

    Pesquisa sobre anêmonas de tubo sugere que América do Sul teve “mar interno”

    05/09/2012
    Por Fábio de Castro
    Agência FAPESP – Depois de estudar por quatro anos o processo evolutivo de diversificação de um grupo de anêmonas de tubo do Atlântico Sul, um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) obteve um resultado inesperado: o estudo biológico acabou contribuindo para reforçar a teoria geológica de que, há cerca de 10 milhões de anos, a bacia Amazônica era ocupada por um mar interno que ligava o Caribe ao Uruguai.

    Estudo sobre processo evolutivo de diversificação de organismos marinhos reforça teoria geológica de que há 10 milhões de anos existia uma língua de oceano que cortava o continente desde o Caribe até o Uruguai, cobrindo toda a bacia Amazônica (ilustração: Science)

    O estudo, publicado na revista PLoS One, teve o objetivo inicial de identificar, por meio de análises genéticas e moleculares, em que momento da evolução ocorreu a diferenciação entre duas espécies de anêmonas de tubo do gênero Isarachnanthus, do grupo Ceriantharia presentes no oceano Atlântico.
    Os resultados mostraram, no entanto, que o cenário mais provável para a diferenciação das duas espécies – e de uma terceira existente no oceano Pacífico – seria coerente com a chamada teoria da “rota marinha da Amazônia no Mioceno médio”.

    Segundo essa teoria, um passagem marinha ligava o Caribe à região atual da costa do Uruguai, entre 9 milhões e 11 milhões de anos atrás, cortando ao meio o continente. A maior parte do Brasil atual, nesse período conhecido como Mioceno médio, teria sido uma ilha separada do resto da América do Sul por uma língua de oceano.

    O artigo foi elaborado por pesquisadores dos departamentos de Zoologia e de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências (IB) da USP, da Fundação Carmabi de Curaçao (Antilhas Holandesas) e do Instituto de Biodiversidade e Dinâmicas de Ecossistemas da Universidade de Amsterdam (Holanda).

    O estudo teve apoio da FAPESP por meio do projeto “Sistemática, ciclo de vida e padrões reprodutivos de medusas”, realizado no âmbito do BIOTA-FAPESP e coordenado por André Morandini, também autor do artigo e professor do IB-USP.
    De acordo com o primeiro autor do artigo, Sérgio Stampar, que realiza pós-doutorado no Departamento de Zoologia do IB-USP sob supervisão de Morandini, há pelo menos 50 anos não surgiam estudos novos sobre as anêmonas de tubo Isarachnanthus no Brasil, por causa da dificuldade de se realizar coletas de espécimes desse grupo, que só é encontrado à noite, no substrato marinho.

    “Nossa ideia, quando começamos este estudo, foi retomar as pesquisas sobre esse grupo esquecido de cnidários. Fizemos a coleta em várias regiões do oceano Atlântico e conseguimos grande quantidade do organismo. Além dos estudos morfológicos de praxe, começamos a fazer a análise genética dessas anêmonas de tubo, que ainda não havia sido realizada”, disse Stampar à Agência FAPESP.
    Segundo Stampar, as análises filogenéticas indicavam que, há cerca de 16 milhões de anos, só existia uma espécie da anêmona de tubo, ancestral a todas as Isarachnanthus tratadas no trabalho, que ocorria no Atlântico Norte, provavelmente na latitude da saída do mar Mediterrâneo. Essa espécie possivelmente atravessou o oceano e chegou até o Caribe.

    “Descobrimos que a espécie do Brasil, Isarachnanthus nocturnus, do ponto de vista genético, era mais próxima à espécie existente no Pacífico, Isarachnanthus bandanensis, do que da que existe no Atlântico norte, Isarachnanthus maderensis. Isso nos deixou surpresos, porque achávamos que as duas espécies do Atlântico teriam mais proximidade entre si”, disse Stampar.
    A princípio, a espécie do Atlântico Sul, tendo se diferenciado em tempos mais recentes, poderia ter alcançado regiões mais meridionais pela costa da América do Sul, carreada pela corrente. Mas isso não seria possível, porque os estudos geológicos mostram que já naquela época as correntes eram geradas, como hoje, do sul para o norte. Portanto, elas devem ter passado por outra via.
    “É praticamente impossível que essas anêmonas de tubo tenham vindo pelo Atlântico. No entanto, as análises moleculares e de DNA que fizemos permitiram estimar que os organismos chegaram ao Atlântico Sul há cerca de 8 milhões ou 9 milhões de anos. Essa data coincide com as especulações da geologia sobre a existência de um mar interno que cortava a América do Sul. É muito provável que essa tenha sido a rota das anêmonas”, explicou Stampar.

    Outros organismos

    A rota marinha teria ligado a região onde hoje é o Caribe, na costa da Venezuela, à região onde hoje é o Uruguai, estendendo-se por todo continente sul-americano, cobrindo as regiões onde hoje estão o Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Acre. Quando esse mar interno se fechou, as anêmonas que haviam chegado ao Atlântico Sul teriam ficado isoladas e se diferenciado em outra espécie.
    “O processo geológico explicaria o isolamento dessas anêmonas, que teria permitido a diferenciação da espécie nocturnus quando o mar interno se fechou e a população ficou segregada no Atlântico Sul”, disse Stampar.

    “Mais tarde, a espécie bandanensis pode ter surgido por processo semelhante: as anêmonas de tubo da espécie nocturnus, provenientes do Atlântico Sul, depois de chegar ao Caribe, teriam passado pelo Pacífico, porque não havia barreira entre os oceanos. Depois do fechamento do istmo do Panamá, há 4 milhões de anos, elas ficaram segregadas e se diferenciaram na espécie do Pacífico”, disse.
    Embora tenha reforçado a teoria da rota marinha da Amazônia, as conclusões ainda são especulativas, segundo Stampar, já que o estudo foi realizado com um só grupo de organismos.

    “No entanto, o trabalho mostrou que vale a pena procurar outros organismos que sigam o mesmo padrão. Meu pós-doutorado está em grande parte relacionado a essas pesquisas – principalmente a partir do estudo de outros cnidários como águas-vivas, que são a especialidade do nosso grupo e, em tese, têm características diferentes de dispersão”, afirmou.

    O artigo Evolutionary Diversification of Banded Tube-Dwelling Anemones (Cnidaria; Ceriantharia; Isarachnanthus) in the Atlantic Ocean, de Sergio Stampar e outros, pode ser lido na PLoS One em www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0041091


    quinta-feira, 26 de julho de 2012

    Por que os ambientalistas odeiam a tilápia

    Um dos peixes cujo consumo mais aumenta no mundo tem um lado obscuro pouco conhecido por quem aprecia sua carne branca e suave. No Brasil, projeto de lei traz polêmica à tona

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    Vanessa Barbosa
    Exame.com - 19/07/2012

    Conta uma famosa passagem bíblica que, com apenas cinco pães e dois peixes, Jesus alimentou uma multidão de cinco mil pessoas. Estudiosos acreditam que os pescados, capturados por Pedro, eram tilápias, por ser o tipo mais encontrado no Mar da Galileia, em Israel. Do “milagre da multiplicação” originou-se o termo “St. Peter’s Fish” (Peixe de São Pedro), que dá nome a um dos produtos cujo consumo mais aumenta no mundo, impulsionado pela popularização nos EUA, na União Europeia e na China.

    Foi num lance prodigioso de avanços comerciais e técnicos que a produção global de Tilápia mais do que dobrou na última década, passando de 1,5 milhões de toneladas em 2003 para 3,2 milhões de toneladas em 2010, devido principalmente à expansão da aquicultura. Nativo da África, esse peixe “invasor” foi trazido para o Brasil na década de 70. O animal, de carne suave e firme, se adaptou tão bem em nossas águas que, atualmente, representa, ao lado da carpa, outra espécie exótica, mais de 60% do cultivo de pescados em viveiro em todo o país.

    Apesar do sucesso indiscutível, a produção ainda está longe de ser sustentável – o que explica a repulsa que gera nos defensores das causas ambientais. Uma série de estudos associa a criação de tilápias à riscos potenciais ao meio ambiente, que vão desde a deterioração da qualidade das águas à disseminação de parasitas. Consideradas as “galinhas aquáticas”, por serem fáceis de criar e crescerem rápido, as tilápias são comumente mantidas em ambiente natural dentro de tanques-rede no meio de lagos e rios.

    Para turbinar a produtividade, elas recebem uma ração especial à base de cereais (como soja e milho) e hormônios de reversão sexual durante os primeiros 20 dias de vida. Além de garantir aumento de peso, essa alimentação transforma a maior parte da população de peixes em machos - que crescem quase três vezes mais do que as fêmeas.

    O problema reside no que vem depois da digestão. Segundo Nilton Rojas, do Instituto de Pesca de São José do Rio Preto, restos de ração, fertilizantes e excretas dos animais levam ao acúmulo excessivo de resíduos que aumentam o aporte de nitrogênio e fósforo na água, podendo desencadear o processo de eutrofização - quando corpos d´água adquirem uma coloração turva ficando com níveis baixíssimos de oxigênio pela proliferação de algas, comprometendo, assim, a estabilidade do ecossistema aquático.

    "Esse processo de poluição também chamado de "adubação" impede a entrada de luz, facilita a proliferação de algas e dificulta a sobrevivência de outros seres vivos no meio", explica. A sedimentação da água também pode dar ao peixe um gosto ou sabor indesejável.

    Como se resolve isso? Com regulamentações para uma produção sustentável da tilápia no Brasil, defende o pesquisador. Rojas ressalta que a ausência de regras nessa seara pode ameaçar não apenas o cultivo do pescado, mas as próprias comunidades que, em regiões como o semiárido, dependem dessa água para consumo próprio. "Se não tiver água de boa qualidade, muito além dos prejuízos à atividade, é o futuro dos recursos hídricos que fica comprometido", adverte.

    UM PROJETO DE LEI POLÊMICO

    Pela Câmara dos Deputados corre um projeto de lei que promete apimentar a discussão sobre a produção dessa espécie exótica por aqui. De autoria do deputado Nelson Meurer (PP-PR), o PL 5.989/09 quer liberar a criação de tilápias e carpas em tanques nos reservatórios de hidrelétricas.

    O texto defende que a medida - a ser adotada de forma compulsória para proprietários ou concessionários de represas - seria uma maneira de gerar renda para comunidades afetadas e compensar os impactos ambientais gerados pelas usina (entre eles o de reduzir a quantidade de peixes nas águas represadas).

    A proposta atrai críticas de parte da comunidade científica, que adverte sobre os riscos dos peixes escaparem. "Não tem como confinar esses animais numa gaiola. Fizemos um levantamento em Furnas, que tem autorização para cultivar tilápia, e todos os criadores disseram que os peixes escapam", afirma Fernando Pelicice, especialista em ecologia dos peixes, da Universidade Federal do Tocantins.

    "Se for aprovado, esse projeto pode disseminar mais um elemento de perturbação [uma espécie exótica] em áreas já extremamente sensibilizadas pelas próprias hidrelétricas", alerta. Há ainda o risco de introduzir a espécie invasora em regiões onde elas não estão presentes, como na Amazônia, acrescenta. Segundo o pesquisador, ao escapar das redes e invadir o ecossistema aquático, as tilápias podem levar parasitas estranhos e introduzir doenças no meio.

    O especialista ressalta que o mesmo esforço e atenção dispensados à tilápia deveria ser dado a peixes nativos do Brasil, como os da Bacia Amazônica, que estão claramente em desvantagem. Segundo o boletim estatístico mais recente do Ministério de Pesca e Aquicultura, em 2010, a produção de tambaqui, tambacu, pirarucu e pacu somou cerca de 97,5 mil toneladas, enquanto a tilápia alcançou 155 milhões de toneladas, sozinha.