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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Pesquisadores isolam bactéria que produz plástico a partir do metano

14 de abril de 2017

Elton Alisson | Agência FAPESP – Das águas turvas e poluídas do Sistema Estuarino de Santos pode emergir uma solução para produzir por meio de um processo sustentável um polímero (plástico) que pode ter alto valor agregado.


Pesquisadores isolam bactéria que produz plástico a partir do metano Bactéria encontrada no Sistema Estuarino de Santos produz biopolímero ainda não caracterizado (imagem: RCGI)

 Um grupo de pesquisadores ligados ao Centro de Capacitação e Pesquisa em Meio Ambiente (Cepema) da Universidade de São Paulo (USP) isolou naquela região do litoral sul paulista uma bactéria capaz de produzir um biopolímero – polímero produzido por processo biotecnológico.

A descoberta foi feita durante um projeto realizado no âmbito do Centro de Pesquisa para Inovação em Gás Natural (Research Centre for Gas Innovation RCGI) – apoiado pela FAPESP e pela Shell por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).

“Ainda não caracterizamos o polímero produzido pela bactéria, mas nossas análises indicam que é bem diferente dos relatados na literatura científica”, disse Elen Aquino Perpétuo, professora do Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do projeto, à Agência FAPESP

A pesquisadora e os colegas Bruno Karolski, também pesquisador do Cepema-USP, e a doutoranda Letícia Cardoso iniciaram há cerca de um ano um projeto visando desenvolver processos biotecnológicos utilizando microrganismos para mitigação de metano (CH4) e dióxido de carbono (CO2), amplamente presentes no gás natural.

A fim de desenvolver a pesquisa eles começaram a prospectar bactérias chamadas de metanotróficas – que têm a capacidade não só de consumir, mas também de transformar metano e metanol em polímeros como o polihidroxibutirato (PHB): um polímero da família dos polihidroxialcanoatos (PHA) com características físicas e mecânicas semelhantes às de resinas sintéticas como o polipropileno.
Desenvolvido com apoio da FAPESP, o PHB é produzido no Brasil por uma indústria nacional em Serrana, no interior de São Paulo, a partir do açúcar da cana – um substrato 30% mais caro que o metanol.
“A ideia da nossa pesquisa é utilizar um substrato mais barato do que o açúcar – neste caso, o metano e o metanol – para produzir o PHB e viabilizar comercialmente sua produção por uma rota biológica”, explicou Aquino.

Durante o trabalho de bioprospecção, em que coletaram amostras em três diferentes pontos do Sistema Estuarino de Santos, os pesquisadores depararam com duas bactérias que têm essa capacidade de transformar o metano em biopolímeros.

A primeira é a Methylobacterium extorquens – que é produtora de PHB –, e a segunda a Methylobacterium rhodesianum, que transforma o metano no outro tipo de polímero ainda não caracterizado.

“Não havia nenhum relato de que a Methylobacterium rhodesianum acumula um polímero”, afirmou Aquino.

Maior produção
Os pesquisadores também constataram que essas bactérias isoladas de sistemas naturais produzem mais polímero que as cepas comerciais, cultivadas em laboratório, como as dos gêneros Methylobacter sp. e Methylocystis sp, com as quais trabalharam na fase inicial do projeto para realizar os primeiros testes e validar a metodologia.

Sem controlar parâmetros como temperatura, pH e agitação, a Methylobacterium extorquens isolada do ambiente marinho, por exemplo, acumula 30% de seu peso seco em polímero.

“Essa diferença de produção de polímero por essas bactérias é devido às pressões que sofrem em ambientes naturais, onde estão expostas a condições adversas de temperatura, salinidade, pressão, marés e a poluentes”, apontou Aquino. “Por isso, elas precisam ser mais resistentes do que as cepas cultivadas em laboratório e ter maior reserva energética para sobreviver”, explicou.

De acordo com a pesquisadora, os microrganismos metanotróficos produzem biopolímeros quando há excesso de fonte de carbono e limitação de algum nutriente.
Sob essas circunstâncias, essas bactérias armazenam o carbono em grânulos de polímeros de polihidroxialcanoatos como reserva energética.

“No início, achou-se que esses grânulos de reserva eram lipídeos [óleos]”, disse Aquino. “Mais tarde descobriu-se que, na verdade, eles pertencem ao grupo dos polihidroxialcanoatos e que podem ser usados para produzir polímeros de origem biológica e biodegradáveis, entre outras vantagens em comparação aos polímeros produzidos por via petroquímica”, afirmou.
Uma vez que esses microrganismos precisam de metano como substrato para produzir biopolímero, os pesquisadores escolheram locais onde há maior abundância do gás para bioprospecção.
A primeira escolha foi o reservatório da Usina Hidrelétrica de Balbina, no Amazonas (AM). E o segundo local – escolhido para efeito de comparação – foi o Sistema Estuarino de Santos.
As amostras colhidas no Sistema Estuarino de Santos, contudo, mostraram-se mais interessantes do que as de Balbina, contou Aquino.

“Como conseguimos isolar muitos microrganismos em Santos, começamos a trabalhar com eles e adiamos o processamento das amostras coletadas em Balbina”, disse. “Mas pretendemos retomar nas próximas semanas as análises das amostras de Balbina, que apresentam uma grande diversidade de microrganismos”, afirmou.

Viabilidade comercial

Além de caracterizar o polímero produzido pela Methylobacterium rhodesianum, os pesquisadores pretendem avaliar agora se ela é economicamente viável para produzir um biopolímero.
Para que a rota biológica seja viável economicamente, a bactéria tem que ser capaz de acumular 60% de seu peso seco em polímero. Esse cálculo é feito levando-se em conta a produção de PHB a partir do açúcar, explicou Aquino.

“O que se espera agora é avaliar se é melhor negócio investir na produção desse biopolímero, que ainda não foi caracterizado, ou no aumento do rendimento da produção de PHB, que já é conhecido comercialmente e tem um mercado estabelecido”, disse a pesquisadora.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Pesquisadores criam método que permite detectar Zika em sangue de transfusão

05 de fevereiro de 2016

Karina Toledo | Agência FAPESP – Um método para detectar a presença do vírus Zika no sangue usado em transfusões foi desenvolvido no âmbito de um projeto apoiado pela FAPESP e coordenado por José Eduardo Levi, chefe do Departamento de Biologia Molecular da Fundação Pró-Sangue/Hemocentro de São Paulo – instituição ligada à Secretaria de Estado da Saúde e à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

De acordo com o pesquisador, inicialmente, a metodologia seria indicada apenas para a triagem de bolsas de sangue destinadas a gestantes ou a transfusões intrauterinas (nas quais o sangue é transfundido diretamente no feto). A iniciativa é medida de precaução, já que não existe confirmação de que a transmissão transfusional do vírus represente risco ao feto.

“No caso do Zika, a grande preocupação é com grávidas e fetos. Achamos que não seria boa ideia, nesses casos, usar sangue com risco de ter o vírus. Nossa proposta foi fazer um teste para ser usado em um pequeno número de bolsas de sangue – 0,16% do estoque do banco de sangue – destinado a esse público-alvo. Pretendemos começar a aplicar o teste no Hemocentro de São Paulo logo após o Carnaval”, afirmou.
Desde o início da epidemia de Zika no Brasil, em 2015, pelo menos dois casos de transmissão por meio de transfusão sanguínea foram confirmados no Hemocentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), interior de São Paulo.
Em relação à dengue, já é conhecida a possibilidade de ocorrer transmissão transfusional. Segundo Levi, estima-se que até 1% dos doadores de sangue – nos períodos de pico epidêmico – sejam positivos para o vírus da dengue no momento da doação, mas não é feita nenhum tipo de triagem laboratorial.
“Isso nunca foi considerado um problema, pois, na maioria das vezes, o receptor do sangue nem sequer chega a desenvolver a doença. No Brasil, nunca foi detectado um caso grave de dengue transfusional. Esse primeiro receptor contaminado com Zika em Campinas também não apresentou sintomas da doença, embora tenha sido confirmada a presença do vírus em seu sangue (o segundo paciente morreu em decorrência dos ferimentos por arma de fogo que levaram à necessidade de transfusão).

De maneira geral, ainda não há evidências de que o vírus Zika seja algo problemático do ponto de vista transfusional, com exceção das grávidas”, explicou o pesquisador. "Não temos evidência, por exemplo, de que o Zika adquirido pela via transfusional possa causar microcefalia, mas acreditamos que exista uma alta probabilidade de que isso ocorra."
Levi também é professor do Instituto de Medicina Tropical da USP e integra a chamada Rede Zika – grupo articulado de maneira emergencial no último mês de dezembro, sob a coordenação do professor Paolo Zanotto, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, para tratar de questões relacionadas à epidemia de Zika e aos crescentes casos de microcefalia associados.
“Já estava em andamento um projeto, apoiado pela FAPESP, dedicado à prevenção da transmissão transfusional da malária no Estado de São Paulo. Em dezembro, solicitamos um recurso adicional que foi usado no desenvolvimento do teste para detectar o vírus Zika”, contou Levi.
A metodologia alia um método de biologia molecular conhecido como PCR (reação em cadeia da polimerase) em tempo real a protocolos desenvolvidos no Centro de Controle de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, para detecção do vírus Zika.

“O protocolo do CDC sugere alguns reagentes específicos, primers e sondas, já testados e aprovados para detecção do vírus Zika usando PCR em tempo real. Fizemos algumas adaptações nesse protocolo aqui no Hemocentro de São Paulo”, contou.
A validação do método foi feita com controles positivos (isolados do vírus cultivados em laboratório que servem para confirmar se o que está sendo detectado é de fato o vírus Zika) fornecidos por pesquisadores da Rede Zika.

“Depois validamos também no plasma do receptor contaminado por transfusão – gentilmente cedido pelo dr. Marcelo Addas, do Hemocentro da Unicamp. Como obtivemos sucesso, já distribuímos o método para a Rede Zika, para quem quiser usar”, contou Levi.

Diante da falta de evidências sobre a importância de triar todo o sangue doado para a presença do vírus Zika, avaliou Levi, não haveria possibilidade e/ou necessidade de incluir o teste na rotina de todos os bancos de sangue do país.
“Estamos observando atentamente a evolução dos casos e, se forem surgindo evidências de que isso é necessário, vamos batalhar para obter mais recursos. Por enquanto o que entendemos prudente é triar apenas essa pequena parcela”, avaliou.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Biotecnologia pode contribuir para preservação da água (23/03/2015)
Água

Dia 22 de março diversas ações em diferentes pontos do mundo abordaram um tema que é sinônimo de vida: a água. Criado pela ONU (Organização das Nações Unidas), o Dia Mundial da Água é uma oportunidade para lançar luz sobre a importância de preservar esse recurso fundamental e de envolver a sociedade na reflexão sobre a escassez de água potável.
Diminuir o uso, preservar e reaproveitar são medidas necessárias, da produção agrícola à indústria, do consumo doméstico à esfera pública.

Nesse sentido, a biotecnologia se soma a outros esforços, podendo colaborar de forma significativa para a prevenção de uma crise hídrica maior. Possibilitar aos agricultores acesso às tecnologias permite o uso mais eficaz da água disponível. Sementes mais produtivas, que necessitam de menos insumos, são inovações que estão em consonância com os preceitos de sustentabilidade.

A biotecnologia pode dar outras contribuições para a preservação da água. Pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por exemplo, está identificando genes que fazem com que algumas plantas absorvam metais pesados em grande quantidade. “Uma vez desvendado esse mecanismo genético, é possível superexpressar esses genes, desenvolvendo variedades transgênicas com alta capacidade de absorção para serem utilizadas na recuperação de solos e águas contaminadas”, explica Adriana Brondani, diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB).

Tolerância a estresse hídrico
Outro exemplo é o desenvolvimento de plantas tolerantes à seca. No Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) saiu na frente e já têm sementes de soja em estágio avançado de testes no campo. Os pesquisadores trabalham com 15 construções gênicas, das quais cinco já estão em campos experimentais da Embrapa, com autorização da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). “Manifestar a característica de tolerância à seca é um processo complexo, pois envolve o estudo de diferentes rotas metabólicas”, afirma Alexandre Nepomuceno, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja. Os resultados obtidos são promissores e a mesma tecnologia está sendo transferida também para cana-de-açúcar, milho, algodão, café e braquiária.
Na safra 2013/14, quando a região Sul sofreu muito com a seca, uma das variedades transgênicas de soja teve aumento de 13,5% na produtividade quando comparada com similares sem o gene. Durante o período, choveu muito pouco na fase mais crítica do desenvolvimento da planta (44mm entre janeiro e fevereiro, quando a média histórica é superior a 300mm) e as temperaturas foram extremas, chegando a marca de 40°C. Também foram realizadas simulações com seca drástica em condições reais de campo, com utilização de telhados móveis, chegando-se a resultados ainda melhores: 44% de aumento de produtividade da soja geneticamente modificada (GM) em relação a mesma variedade sem o gene. A expectativa da Embrapa é que em breve os testes de campo com a nova soja sejam levados para outras regiões do país.

Biorremediação das águas
No que diz respeito ao reaproveitamento de recursos hídricos, a utilização de microrganismos selecionados e multiplicados por meio da biotecnologia tem se mostrado promissor. Fabricio Drumond, COO (Chief Operations Officer) da SuperBAC, empresa que desenvolve esse tipo de bactéria, afirma que diversos setores utilizam soluções biotecnológicas no tratamento de efluentes no Brasil. O resultado dessa estratégia é a diminuição do consumo, pois muitas das águas retornam para os processos de produção, além da preservação de mananciais, já que a água segue limpa para o descarte. “Entender cada vez mais quais são os melhores agentes para cada aplicação e a forma mais eficiente de utilizá-los nos fará ampliar a adesão a essa tecnologia”, avalia Drumond.

Além de tratar efluentes, os chamados consórcios de bactérias também são aplicados para despoluir aquíferos. Rio Sena em Paris (França), Tâmisa em Londres (Reino Unido), Tejo em Lisboa (Portugal), Cuyahoga em Cleveland (EUA), Cheonggyecheon e Han, em Seul (Coreia do Sul), Reno na Europa e Canais de Copenhague na Dinamarca, são exemplos de recuperação via agentes biológicos. No Brasil, projetos com a utilização de bactérias despoluentes já foram testados no rio Pinheiros, em São Paulo, e estão aguardando aprovação.   “Acredito que a biotecnologia pode revisitar revoluções como a agrícola e industrial, modernizando processos e fazendo as atividades serem ainda mais sustentáveis”, pondera Fabricio Drumond.
Fonte: Redação CIB

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Em dia com a Ciência

Árvores transgênicas podem contribuir para a bioeconomia (13/01/2014)
Alamo300x200Testes de campo com árvores de álamo geneticamente modificadas (GM) realizados em Zwijnaarde, Bélgica, mostram que estas plantas são mais eficientes na conversão de madeira em açúcar. O processo de bioconversão é facilitado em virtude da quantidade alterada de lignina – molécula que confere rigidez, impermeabilidade e resistência às árvores – nos vegetais transgênicos. Os açúcares obtidos a partir deste processo podem ser usados como matéria-prima para produtos como biopásticos e bioetanol.
Os resultados dos testes foram publicados na edição online da revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) de 30 de dezembro de 2013. Neste experimento, os cientistas “desligaram” o gene que codifica a enzima CCR, fundamental para a produção da lignina. Essa modificação genética resultou na supressão da molécula de maneira distinta nas árvores. Segundo um dos pesquisadores do projeto Wout Boerjan, as plantas modificadas de cor mais avermelhada possuem maior potencial para a bioconversão. “A biossíntese de lignina é muito complexa e nosso objetivo agora é estabilizar a supressão desta molécula em todas as árvores”, revela Boerjan.
Em 2014, novos testes de campo serão realizados em Wetteren, também na Bélgica, nos quais serão avaliados álamos geneticamente modificados para a supressão de outra enzima. O objetivo é conseguir um desempenho mais uniforme em todas as plantas. A expectativa dos cientistas é que a produtividade de etanol por árvore aumente entre 50 a 100%.
Fonte: PNAS e Science Daily, Janeiro de 2014

Em dia com a Ciência

Cientistas brasileiros desenvolvem novo método de análise genética (14/01/2014)
 
 
Cana-AA-300x200Um grupo de pesquisadores brasileiros da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e do Instituto Agronômico (IAC) de Campinas, em colaboração com colegas da Austrália e dos Estados Unidos, desenvolveu uma metodologia de análise do genoma de plantas poliploides (com mais de dois conjuntos de cromossomos do mesmo tipo e origem).

Muitas plantas de grande importância econômica são poliploides, a exemplo da batata, trigo, algodão e cana-de-açúcar. Ainda assim, o entendimento dos processos genéticos destas espécies ainda é limitado. Enquanto os seres humanos herdam duas cópias de cada um de seus 23 pares de cromossomos, um do pai e outro da mãe, as plantas polipoides têm uma composição genética mais complexa, com várias cópias de cada cromossomo e numerosas variantes de cada gene. Por essa razão, é mais difícil entender como as características são transferidas e como funcionam os genes.


A nova metodologia mistura o uso de marcadores moleculares com uma análise genético-estatística inovadora para determinar a estrutura genética e genômica de poliploides complexos, como a cana-de-açúcar. Segundo a cientista da Unicamp, uma das autoras do estudo, Anete Pereira de Souza, da Unicamp, a pesquisa deve contribuir para construir mapas genéticos moleculares que possibilitariam identificar a localização exata de genes de interesse nos cromossomos. O melhoramento genético da cana-de-açúcar, cultura econômica e socialmente importante para o Brasil, poderá se beneficiar da descoberta.
A análise genômica da cana demonstrou que o número de cópias de cada gene da planta pode variar de 6 a 14. “Esta poliploidia da cana e de outras plantas é resultado de sua evolução e domesticação ao longo de milhares de anos, que as tornaram mais produtivas e adaptadas a diferentes condições de plantio”, explicou Anete.


Os resultados do projeto realizado no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN) foram publicados em dezembro na Scientific Reports – revista de acesso aberto editada pelo grupo Nature.
Fonte: Scientific Reports, Janeiro de 2014

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Sobre ratos, transgênicos e queimas de arquivo

Em sua coluna de dezembro, Jean Remy Guimarães comenta a decisão de uma revista científica de retirar estudo já publicado que apontou riscos da exposição a milho geneticamente modificado e pesticida para a saúde em testes com ratos. 
 
Por: Jean Remy Guimarães
Publicado em 27/12/2013 | Atualizado em 27/12/2013
Sobre ratos, transgênicos e queimas de arquivo
Estudo mostrando que ratos expostos a um tipo de milho transgênico e seu herbicida associado desenvolviam problemas de saúde foi retirado um ano após a publicação por “não ser conclusivo”. (foto: Agência de Notícias do Acre/ Flickr – CC BY 2.0) 
 
Em coluna de setembro de 2012, comentei o artigo do professor Gilles-Eric Séralini, publicado na Food and Chemical Toxicology. Esse estudo, realizado ao longo de dois anos, mostrava que ratos expostos ao milho transgênico NK603 e ao Roundup, seu herbicida associado, desenvolviam diversos tumores, além de problemas renais e hepáticos.

Pois, acredite se quiser, o estudo foi retirado pela própria revista, pouco mais de um ano após sua publicação.
Segundo as normas dessa revista (e da esmagadora maioria delas), os únicos critérios que podem levar à decisão de retirar um trabalho publicado na mesma são: falha ética, plágio, publicação anterior em outro veículo ou ainda conclusões não confiáveis, seja por fraude ou erro de boa-fé (erro de cálculo, erro experimental).

No entanto, o editor-chefe da revista, Wallace Hayes, em carta de 19/11/2013 ao primeiro autor, informa a intenção de retirar o estudo da revista, esclarecendo que o fato não se deve a fraude ou sinais de deformação intencional dos dados.
O motivo alegado seriam as “legítimas preocupações relativas ao reduzido número de animais em cada grupo (dez ratos), assim como à escolha da linhagem de ratos utilizada nos testes”. O estudo teria sido ainda retirado devido a seu caráter “não conclusivo”.

A acusação de não conclusividade é parte do cinto de utilidades de todos os lobbies
corporativos incomodados por estudos que ousem duvidar da inocuidade de seus produtos
Note que nenhum dos motivos apresentados se enquadra nos critérios de exclusão explicitados nas normas da revista, o que motivou ríspidos protestos do professor Séralini e equipe, além de promessas de medidas legais. Lembre também que os testes toxicológicos realizados pelas próprias indústrias para licenciar seus produtos, transgênicos ou não, duram apenas três meses (contra os 24 do estudo do professor Séralini), e seus grupos experimentais contêm tipicamente… dez ratos.
A acusação de não conclusividade é parte do cinto de utilidades de todos os lobbies corporativos incomodados por estudos científicos que ousem duvidar da inocuidade de seus produtos. Se dependêssemos de estudos que provem com 100% de certeza que a exposição a chumbo, benzeno, amianto ou produtos de combustão é prejudicial à saúde, estaríamos todos respirando um ar pior que o de Londres no pico da revolução industrial e fumando em elevadores, ônibus, cinemas, escritórios e consultórios. Mas as corporações são assim: quando lhes convém, aceitam 95% de certeza, quando não, nem 100% são o bastante.

As más línguas juram que a decisão da revista se deve à recente inclusão, em seu comitê editorial, do biólogo Richard Goodman, professor da Universidade de Nebraska (EUA) e ex-funcionário da Monsanto. Pode até ser, mas nem precisava disso, pois breves buscas sobre o currículo dos demais membros do comitê revelam que vários deles têm ou tiveram estreitos laços com empresas de tabaco ou agroquímicas (sementes e pesticidas).

Inimigo infiltrado

Diante disso, a maior surpresa talvez não seja a retirada do artigo do professor Séralini dessa revista, mas sim a sua publicação inicial. Afinal, esses setores de atividade não se caracterizam por um histórico de relações harmoniosas com a ciência em geral e a toxicologia em particular.
Mas sabe como é: se você não pode vencer o inimigo, junte-se a ele. Ou infiltre-se. E é precisamente o que as corporações vêm se esmerando em fazer: nuclear todas as instâncias decisórias relevantes para seus interesses, sejam elas nacionais ou multilaterais, incluindo as próprias instituições científicas, como as revistas. Blogues, colunas ou matérias publicadas em qualquer meio de difusão que mencionem as palavras-chave sensíveis ao setor são também imediatamente detectadas, deflagrando uma blitzkrieg impiedosa visando à desmoralização e, portanto, eliminação da ameaça.
Rótulo de transgênico
O congresso brasileiro se prepara para votar pela suspensão da obrigatoriedade da rotulagem de produtos contendo transgênicos. (foto: Vinicius Santana/ Wikimedia Commons)
Se você acha que isso é teoria da conspiração, experimente estudar efeitos sanitários ou ambientais de qualquer coisa que seja produzida por uma entidade com CNPJ e concluir, mesmo que com apenas 95% de certeza, que eles não são inócuos. Você poderá, como o professor Séralini, ser acusado na web de pertencer a um movimento sectário cristão, e entrevistarão suas ex-colegas de jardim de infância, que revelarão que, sim, você grudava suas melecas embaixo da mesa e não trocava de cueca todo dia.

Esta coluna é testemunha privilegiada desse estado de coisas. Embora pouco otimistas e frequentemente ácidos, os textos aqui publicados raramente suscitam comentários de leitores, a menos que tenham como foco temas sensíveis para setores corporativos, como efeitos de pesticidas, transgênicos, emissões de carbono. Colunas sobre esses temas geram invariavelmente reações iradas, repetitivas, mas sempre instrutivas. Mas quem sabe resolvem ficar quietos desta vez, só para me contradizer?

Cientificamente, a suspensão da rotulagem só faria sentido se tivéssemos 95% de certeza que os transgênicos são inócuos à saúde
E enquanto não vêm a público os dados de novos estudos de longa duração sobre os efeitos de transgênicos, recomendados pela Agência Europeia de Segurança Sanitária da Alimentação, do Ambiente e do Trabalho (ANSES), o congresso dos 'Estados Unidos do Brasil' se prepara para votar uma resolução suspendendo a obrigatoriedade de rotulagem de produtos contendo transgênicos.
Cientificamente, a suspensão da rotulagem só faria sentido se tivéssemos 95% de certeza que os transgênicos são inócuos à saúde.
Temos mesmo, ou seria só queima de arquivo?

P.S.: Feliz ano novo, de preferência com uma ceia orgânica. Você nunca vai conseguir, se não tentar.

Jean Remy Davée GuimarãesInstituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Introdução - Alelos Múltiplos e Biotecnologia

Mini- cruso - por Marcus V. Cabral

01102012174606g34-mod.jpg O sangue apresenta vários constituintes como o plasma constituído por água


Sangue
O sangue é um tecido conjuntivo produzido na medula óssea dos ossos chatos, vértebras, quadril, crânio, costelas e osso esterno que circula pelo sistema vascular sanguíneo e serve para manutenção da vida do organismo. Um indivíduo adulto apresenta em média cinco litros de sangue circulante no seu corpo, variando de acordo com o peso.

O sangue apresenta vários constituintes como o plasma constituído por água, sais e vitaminas que constituem cerca de 55% do volume sanguíneo; e dos elementos figurados do sangue que são as hemácias, leucócitos e plaquetas, constituindo os 45% restantes do volume do sangue.

O plasma é um líquido de cor amarelo claro, constituído de 90% de água, 1% de substâncias inorgânicas (como potássio, sódio, ferro, cálcio), 7% de proteínas plasmáticas (albumina, imunoglobulinas e fibrinogênio), e cerca de 1% de substâncias orgânicas não protéicas. Proteínas, açúcares, gorduras e sais minerais encontram-se dissolvidos na água. O plasma é responsável pela circulação de elementos nutritivos necessários à vida celular.

As plaquetas são fragmentos celulares de vida curta responsáveis pelo processo de coagulação. Os leucócitos ou células de defesa são chamados de glóbulos brancos, possuem funções relacionadas à defesa do organismo contra “corpos estranhos”.

As hemácias são chamadas de glóbulos vermelhos ou eritrócitos e apresentam vida média de 120 dias. Sua função é transportar o oxigênio dos pulmões para todo o organismo.

Sistema ABO e Grupos Sanguíneos
Os grupos sanguíneos são constituídos por antígenos que são a expressão de genes herdados da geração anterior. Quando um indivíduo apresenta determinado antígeno significa que ele herdou o gene de um ou de ambos os pais, e que este gene poderá ser transmitido para a próxima geração.

Os grupos sanguíneos são herdados independentemente entre si. O sistema ABO, foi descoberto por Karl Landsteiner, em 1900, e baseia-se no estudo das diferenças sorológicas individuais, ou seja, na definição do tipo sanguíneo de cada indivíduo.

 Landsteiner demonstrou que ao colocar em contato hemácias de certos indivíduos com o soro sanguíneo de outros, em alguns casos havia aglutinação das hemácias formando grumos visíveis a olho nu.

A aglutinação é decorrente da reação entre antígenos e anticorpos. Antígenos são “corpos estranhos“ que penetram num determinado organismo. A defesa desse organismo aos corpos estranhos ocorre através dos anticorpos, que funcionam como defesa do organismo, a fim de neutralizar os antígenos. Quando um anticorpo reage ao antígeno provoca aglutinação (um grumo).

A incompatibilidade sanguínea entre alguns indivíduos observada através da aglutinação por Landsteiner, explicou porque alguns doentes apresentam choques após transfusão de sangue. No soro (plasma) existem anticorpos naturais (aglutininas) e antígenos (aglutinogênios) determinados geneticamente. Os anticorpos dos grupos sanguíneos já estão presentes no soro independentemente da presença de algum antígeno, sendo chamados de aglutininas.

Os antígenos do grupo sanguíneo, por sua vez, chamados de aglutinogênios, são polissacarídeos (polímeros de açúcar) presentes na superfície dos glóbulos vermelhos. São formados por dois diferentes polissacarídeos o A e o B. Ambos são produzidos a partir de uma substância precursora, modificada por um produto enzimático de cada alelo dos genes chamados IA ou IB. Já o grupo sanguíneo AB possui um gene A e um gene B, tendo sido um herdado da mãe e o outro do pai. Seu genótipo é AB (IAIB) não possuindo anticorpos ou aglutininas correspondentes. No grupo O, o gene O é herdado tanto da mãe quanto do pai. O genótipo desse grupo é OO (ii).

O sistema ABO é constituído de três genes (A, B e O) e três alelos (IA, IB e i), podendo qualquer um dos três ocupar o loco ABO em cada elemento do par de cromossomos responsáveis por este sistema. Os genes não codificam diretamente seus antígenos específicos, mas enzimas com função de transportar açúcares específicos, para uma substância precursora produzindo os antígenos ABO.

Indivíduos do grupo sanguíneo A apresentam na membrana plasmática da hemácia o aglutinogênio a que têm a função de antígeno quando introduzida em indivíduos de grupos sanguíneos diferentes. No soro desses indivíduos ocorrem aglutininas anti-b, ou seja, anticorpos que reajam contra o tipo sanguíneo B. Assim, indivíduos do grupo sanguíneo B apresentam na membrana plasmática da hemácia o aglutinogênio b e a aglutinina anti-a no soro.

Indivíduos do grupo sanguíneo AB possuem os antígenos a e b na membrana plasmática da hemácia e ausência das aglutininas anti-a e anti-b, portanto não possuem anticorpos correspondentes. Indivíduos do grupo sanguíneo O não possuem os antígenos a e b na membrana plasmática da hemácia, mas apresentam as aglutininas anti-a e anti-b.

 Os tipos sanguíneos O e AB só apresentam um possível genótipo, sendo eles respectivamente: (ii) e (IAIB). Já os tipos sanguíneos A e B apresentam, cada um, dois possíveis genótipos. Quando o indivíduo herda de seus pais um gene O e um gene A, apenas o gene A se manifesta produzindo antígeno a e aglutinina anti-b. O genótipo desse indivíduo é AO (IAi). Um indivíduo do tipo sanguíneo A também pode apresentar o genótipo AA (IAIA), decorrente da herança do gene A de cada um dos pais. Nesse caso, também haverá produção do antígeno a e aglutinina anti-b.

O indivíduo com sangue do tipo B pode apresentar dois genótipos, BO (IBi) e BB (IBIB). Nos dois casos haverá produção do antígeno b e aglutinina anti-a. A diferença dos dois tipos sanguíneos está nos genes herdados pelos pais. Assim, quando o indivíduo herdar de seus pais um gene O e um gene B, apenas o gene B se manifestará, determinado o genótipo BO (IBi). E quando o indivíduo herdar de seus pais o mesmo gene B seu genótipo será BB (IBIB).

Em testes laboratoriais os indivíduos AO e AA; BO e BB não são diferenciados. Considera-se tipo sanguíneo A para os indivíduos AO e AA, e tipo sanguíneo B para indivíduos BO e BB.

Os testes para determinar os grupos sanguíneos envolvem dois soros, o anti-a e o anti-b, e uma pequena amostra (duas gotas) de sangue do indivíduo. A amostra sanguínea é colocada numa lâmina, de tal modo que as duas gotas estejam separadas na lâmina. Então, são pingados os soros anti-a e anti-b, cada um numa gota de sangue. A ocorrência de aglutinação nas gotas de sangue indica a presença de antígeno e determina o tipo sanguíneo.

Existem quatro possibilidades de reação entre as amostras sanguíneas e os soros anti-a e anti-b.

Tipo Sanguíneo B
Na primeira lâmina as hemácias não reagiram com o soro anti-a e aglutinaram em presença do soro anti-b. Por isso, o sangue é considerado do tipo B.

Tipo Sanguíneo A
Na segunda lâmina as hemácias aglutinaram em presença do soro anti-a e não reagiram com o soro anti-b. Por isso, o sangue é considerado do tipo A.

Tipo Sanguíneo O
Na terceira lâmina as hemácias não reagiram nem com o soro anti-a, nem com o soro anti-b, significando que não apresentam nenhum dos dois antígenos em suas membranas. Por isso, o sangue é considerado do tipo O.

Tipo Sanguíneo AB
Na quarta lâmina as hemácias aglutinaram em presença dos dois soros, anti-a e anti-b. Isto significa que possuem polissacarídeos A e B em suas membranas. Por isso, o sangue é considerado do tipo AB.

 Os grupos sanguíneos são determinados por alelos múltiplos, logo os genótipos possíveis são mais numerosos. Em caracteres condicionados por alelos múltiplos os indivíduos têm dois genes localizados num par de cromossomos homólogos, porém há mais de duas qualidades de alelos.

A frequência dos quatro tipos de sangue A, B, AB e O apresentam distribuição variada dentro da população brasileira.

O tipo sanguíneo mais frequente entre a população brasileira é o tipo O, e o menos frequente é o tipo AB.

Transfusão Sanguínea

A transfusão de sangue é uma prática médica na qual um indivíduo recebe sangue de um outro indivíduo. A transfusão sanguínea é usada frequentemente em pessoas que sofreram intervenções cirúrgicas, traumatismos, hemorragias, e em geral, em pessoas que tenham sofrido grande perda de sangue.

Na transfusão de sangue leva-se em conta o efeito das hemácias do doador sobre o plasma do receptor. Indivíduos do grupo O são considerados doadores universais, pois não apresentam aglutinogênios a e b nas hemácias, dessa maneira indivíduos do grupo A, B e AB não irão sofrer reação de aglutinação ao receberem sangue do grupo O. No entanto, esse grupo apresenta as aglutininas anti-a e anti-b, e por isso só podem receber sangue de indivíduos do mesmo grupo. Logo, o grupo O pode doar sangue para todos os outros grupos (A, B e AB), mas só pode receber do seu próprio grupo (O).

Indivíduos do grupo AB são considerados receptores universais, pois não apresentam as aglutininas anti-a e anti-b no plasma, dessa maneira esses indivíduos não irão sofrer reação de aglutinação ao receberem sangue dos outros grupos (A, B e O). Entretanto, esse grupo apresenta os dois aglutinogênios a e b nas hemácias, impedindo o grupo de doar para outros grupos. O grupo AB pode receber de todos os grupos, mas só pode doar para o próprio grupo.

Tanto o grupo A quanto o B podem receber sangue do grupo O e de seu próprio grupo; e podem doar sangue para o grupo AB e para seu próprio grupo. Assim sendo, indivíduos do tipo sanguíneo A podem doar para indivíduos do tipo AB e A, e recebem de indivíduos dos tipos O e A. Indivíduos do tipo sanguíneo B podem doar para indivíduos do tipo AB e B, e recebem de indivíduos dos tipos O e B.

 Durante muito tempo as pessoas tinham receio de doar sangue e de aceitar a transfusão, por medo de perderem seu sangue e de contraírem alguma doença infecto-contagiosa. A quantidade de sangue doada é de 450 mL, e um indivíduo adulto apresenta cerca de 5 litros de sangue circulantes no seu organismo. Além disso, o sangue é um tecido vivo que constantemente é reposto. Quem doa sangue não diminui sua capacidade sanguínea e nem fragiliza seu corpo. Ao doar sangue é necessário fazer uma série de testes que indentificam doenças contagiosas, prevenindo o receptor da transfusão.

Embora a ciência já tenha desenvolvido alguns protótipos de sangue artificial, a fase de teste para esses produtos ainda não acabou. Por esse motivo a doação sanguínea é muito importante e essencial para salvar vidas daqueles que por algum motivo necessitam da transfusão de sangue. Os 450 mL de cada doação podem s.alvar até quatro vidas.

Para doar sangue o doador precisa ter entre 18 e 65 anos, mais de 50 Kg, não estar em jejum, ter dormido bem antes da doação e estar em boas condições de saúde. Homens podem doar no máximo quatro vezes ao ano, com intervalos mínimos de 60 dias. Mulheres podem doar no máximo três vezes ao ano, com intervalos mínimos de 90 dias. No caso de doadores com idade de 60 a 65 anos a frequência de doação cai para duas vezes ao ano com intervalos mínimos de seis meses.

Pessoas com gripe ou febre; grávidas ou amamentando; que tenham ingerido bebida alcóolica no dia da doação; que tenham feito tatuagem ou piercing nos últimos 12 meses e que tenham feito endoscopia nos últimos 12 meses, não podem doar sangue dentro dessas condições.

São realizados testes gratuítos para habilitar os doadores. Logo, indivíduos que apresentem tais doenças não podem NUNCA doar sangue. Os testes são os seguintes:
- de Chagas;
- de HIV;
- de hepatites B e C;
- de Sífilis;
- de HTLV I /II.

O sangue doado passa por um processo chamado fracionamento, no qual é sempre separado em vários componentes e cada paciente receberá aquela parte que seu organismo necessita.

01102012174606g34-mod.jpg O sangue apresenta vários constituintes como o plasma constituído por água
 
Auto-Hemoterapia
A auto-hemoterapia é uma técnica simples, baseia-se na retirada de sangue venoso do paciente e, logo imediatamente este sangue é aplicado na região intramuscular convencional (músculo do braço ou das nádegas). Os defensores da auto-hemoterapia alegam que a técnica estimula o sistema imunológico do organismo por considerar o sangue reinjetado como um “corpo estranho”.•.

A técnica foi descoberta empiricamente em 1912 por um médico da universidade de Paris. Em 1940 o Dr. Jesse Teixeira, um grande cirurgião de tórax, brasileiro, descobriu o mecanismo de ação da auto-hemoterapia, comprovando assim cientificamente seu uso para tratar inúmeras doenças. Seu trabalho foi publicado e premiado, em 1940, na Revista Brasil– Cirúrgico do Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (vol. II, março de 1940, número 3, páginas 213 – 230). O trabalho desenvolvido pelo médico baseou-se na formação de uma bolha na coxa de pacientes, a partir da aplicação de uma substância irritante. Após o procedimento o médico fez a contagem dos macrófagos antes da auto-hemoterapia, na qual a cifra foi de 5% Após a auto-hemoterapia a cifra subiu a partir da 1ª hora chegando após 8 horas a 22%. Manteve-se em 22% durante 5 dias e finalmente declinou para 5% no 7º dia após a aplicação.

A auto-hemoterapia virou a coqueluche do momento. Existem vídeos explicativos sobre a técnica sendo vendidos e distribuídos na internet. Muitas pessoas estão se submetendo à auto-hemoterapia depois de assistir o vídeo. E muitas pessoas já se submetem à técnica há muitos anos. A técnica promete melhorar o sistema imunológico e até a cura de doenças como câncer e AIDS.

Muitos pacientes comprovaram os benefícios que a auto-hemoterapia proporciona, restabelecendo assim a saúde. Diante de tanta polêmica, a Secretaria de Saúde de Olinda, no estado do Pernambuco, está desenvolvendo de maneira experimental a auto-hemoterapia. Testes com pessoas estão sendo realizados pelo próprio secretário da saúde João Veiga, médico, responsável pela aplicação das injeções. Das pessoas submetidas a terapia até o momento, 90% afirmaram ter tido melhoras no estado de saúde.

Entretanto, muitos médicos condenam esse tratamento e acreditam que essa melhora pode ser decorrente do próprio curso da doença, ou ainda, consideram que a terapia pode funcionar como “efeito placebo”. O efeito placebo apresenta efeitos terapêuticos devido aos efeitos fisiológicos da crença do paciente de que está sendo tratado. O efeito placebo é considerado como um fator psicológico, devido a um efeito real causado pela crença ou por uma ilusão subjetiva.

Especialistas afirmam que o uso do tratamento pode causar danos à saúde do paciente. Entre os riscos, está o de abscessos (acúmulo de pus) e, consequentemente infecção generalizada no organismo que se dá através da via sanguínea.

No final do mês de março de 2007, a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (SBHH) diante dos questionamentos recebidos relacionados à prática de auto-hemoterapia, divulgou um comunicado contra. No dia 13 de abril de 2007, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) divulgou uma nota técnica também contra realização do procedimento.

De acordo com a SBHH “não existe na literatura médica, tanto nacional quanto internacional, qualquer estudo com evidências científicas sobre o referido tema” e “por não existirem informações científicas sobre o referido procedimento, são desconhecidos os possíveis efeitos colaterais e complicações desta prática, podendo colocar em risco a saúde dos pacientes a ela submetidos”. O comunicado é assinado pelo presidente (2007) da SBHH, Dr. Carlos Chiattone e proíbe aos médicos a utilização dessa prática terapêutica não reconhecida cientificamente.

A nota técnica da ANVISA afirma que "Este procedimento não foi submetido a estudos clínicos de eficácia e segurança, e a sua prática poderá causar reações adversas, imediatas ou tardias, de gravidade imprevisível".

O item 7 da nota técnica a ANVISA informa: "O procedimento 'auto-hemoterapia' pode ser enquadrado no inciso V, Art. 2º do Decreto 77.052/76, e sua prática constitui infração sanitária, estando sujeita às penalidades previstas no item XXIX, do artigo 10, da Lei nº. 6.437, de 20 de agosto de 1977".

A ANVISA informa que a fiscalização dessa prática é de responsabilidade dos conselhos de medicina. Por não existir nenhuma comprovação científica sobre a eficácia da técnica a ANVISA está com um grupo de estudo para dar um parecer oficial sobre auto-hemoterapia.

O comunicado e a nota técnica sobre a auto-hemoterapia divulgados pelo SBHH e ANVISA, respectivamente, podem ser encontrados por inteiros nos sites:

http://www.sbhh.com.br/home/imunoterapia.htm
http://www.anvisa.gov.br/sangue/informes/01_130407.htm


O médico conselheiro do Conselho Regional de Medicina Rui Tavares ressalta que o médico registrado no conselho que praticar ou ensinar essa técnica vai sofrer sanções. E aqueles que realizam a técnica e não são médicos estão enquadrados em prática ilegal de medicina.

O procedimento e o acesso são fáceis. A técnica é simples de baixo custo financeiro (de 10 a 20 reais por aplicação) e estava sendo realizada em farmácias e por alguns técnicos laboratoriais, assim como por estudantes de enfermagem e farmácia.

Os defensores da auto-hemoterapia afirmam que o procedimento traz muitos benefícios aos pacientes, como a potencialização do sistema imunológico através da estimulação do sistema retículo endotelial; a ativação das funções do macrófago (apresentam papel importante na remoção de restos de células e de elementos intercelulares alterados); desintoxicação e revitalização do organismo (já que aumenta número de leucócitos nos órgãos abdominais, e assim, incrementa as funções orgânicas e os processos de desintoxicação); e prevenção de doenças, partindo do princípio que todas as doenças são causadas por uma deficiência do sistema imunológico.

Sistema MN
A espécie humana apresenta, além do sistema ABO, o sistema MN. No sistema MN dois antígenos são encontrados nas hemácias: m e n. Assim, indivíduos que apresentam o antígeno m são do grupo M, aqueles que apresentarem o antígeno n são do grupo N, e os indivíduos que apresentarem os dois antígenos (m e n) nas suas hemácias pertencem ao grupo MN.

O sistema MN não tem influência nas transfusões sanguíneas, já que pessoas que recebem sangue diferente do seu, quanto ao sistema MN, apresentam baixa produção de anticorpos e sensibilização quase nula. Por isso, no caso de transfusões de sangue o sistema MN não é levado em conta, e sim o sistema ABO e o fator RH. O sistema MN é utilizado na medicina legal nos casos de exclusão de paternidade.

Para esse sistema existem dois alelos: LM e LN que funcionam como alelos mendelianos simples, sem dominância.