O primeiro peixe-voador
Restos de uma nova espécie encontrados em rochas de 230
milhões de anos na China reacendem discussão sobre os motivos que
levaram esses animais a desenvolver o voo planado. O tema é abordado por
Alexander Kellner em sua coluna deste mês.
Por: Alexander Kellner
Publicado em 09/11/2012
|
Atualizado em 08/12/2012 por Marcus Cabral
Reconstrução da nova espécie de peixe-voador em vida. (ilustração: Xu et al/ Proc. R. Soc. B)
Um peixe-voador fóssil! Sinceramente, nunca tinha me deparado com
esse tema antes e agradeço a um estudante por ter chamado minha atenção
para ele ao me enviar o trabalho de Guang-Hui Xu, do Instituto de
Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia, em Pequim (China).
Esse pesquisador chinês liderou uma equipe que acaba de publicar na
prestigiosa
Proceedings of the Royal Society B a
descrição de uma nova espécie de peixe-voador que é o mais antigo representante desse grupo encontrado até agora.
Os peixes-voadores são animais exclusivamente marinhos.
Existem
apenas dois grupos:
Os
Exocoetidae e os
Thoracopteridae. Destes, apenas o
primeiro possui representantes atuais e reúne cerca de 50 espécies
viventes. Aliás, o peixe-voador é um prato culinário muito apreciado em
diversos países, como o Japão, e é também o símbolo nacional de
Barbados!
Além das espécies recentes, esse grupo possui cerca de uma dezena de
representantes fósseis. O mais antigo deles foi descoberto em camadas do
Eoceno (cerca de 40 milhões de anos atrás).
A capacidade de voar dos dois grupos existentes
de peixes-voadores evoluiu de forma independente e em tempos totalmente
distintos
Já o grupo dos Thoracopteridae é bem mais antigo e não tem formas
viventes. Até a descoberta de Xu e sua equipe, os únicos fósseis eram
provenientes de depósitos do Triássico Superior (aproximadamente 220
milhões de anos atrás) localizados na Europa, mais especificamente na
Áustria e na Itália.
Interessante salientar que, do ponto de vista evolutivo, os
Thoracopteridae e os Exocoetidae não estão proximamente relacionados,
sendo o primeiro grupo bem mais primitivo (ou basal) que o segundo. Esse
fato demonstra que a capacidade de voar desses peixes evoluiu de forma
independente e, o mais curioso, em tempos totalmente distintos.
A nova espécie
Voltando ao trabalho de Xu e colaboradores, a nova espécie de
peixe-voador, que pertence ao grupo dos Throracopteridae, foi denominada
de
Potanichthys xingyiensis. O número de exemplares é bastante
pequeno: apenas dois, ambos encontrados em depósitos do Triássico Médio
(Landiniano), formados há aproximadamente 230 milhões de anos (Formação
Falang), na província de Guizhou, na região sul da China. Essa espécie
é, portanto, o registro mais antigo de um peixe-voador de que se tem
notícia, o que por si só já é um fato muito interessante para os
pesquisadores da área.

- Fóssil de ‘Potanichthys xingyiensis’ encontrado em depósitos de 230 milhões de anos na China. (foto: Xu et al/ Proc. R. Soc. B)
Potanichthys era relativamente pequeno: atingia um
comprimento total de 153 milímetros (menos de um palmo). Como todo
peixe-voador, ele tinha as nadadeiras peitorais extremamente alongadas,
com tamanho correspondente a pouco mais de 40% do comprimento total do
seu corpo. Sua cabeça era grande, maior do que a dos demais
peixes-voadores, uma característica importante da nova espécie. Possuía
16 dentes cônicos e relativamente pequenos. Ao contrário de muitos
peixes, inclusive outros voadores, era praticamente desprovido de
escamas – tinha apenas quatro colunas verticais na região da nadadeira
caudal.
Para que voar?
Uma curiosidade natural de todo mundo é entender por que um peixe
‘aprende’ a voar. Bem, voar não seria o termo mais correto. Precisamos
fazer aqui uma grande ressalva. Apesar de voarem, eles não possuem
‘asas’, e sim nadadeiras peitorais, que, ao contrário das dos demais
peixes, são bem desenvolvidas, com uma base rígida e ramificações que
aumentam sua área de contato com o ar.
Também é importante salientar que esses peixes não batem as
nadadeiras, como fazem as aves e os morcegos com as suas asas! O voo
desses animais é do tipo planado, ou seja, a partir de uma impulsão dada
pelos batimentos de sua cauda, eles propulsionam seu corpo acima da
superfície da água e planam por, em média, 50 metros.
Grosso modo,
lembram um avião planador, sendo que, de vez em quando, tocam a
superfície da água com a cauda para ganhar maior propulsão. Existem
registros, segundo Guang-Hui Xu, de voos de aproximadamente 400 metros!
Nada mau para um peixe...
Veja no vídeo abaixo o voo de um peixe-voador
O que intriga os cientistas é o motivo de eles terem desenvolvido
essa estratégia. Uma das ideias propostas seria a de que o voo, mesmo
planado, facilitaria a migração das diferentes espécies de um local para
outro. Apesar de ser uma hipótese inicialmente interessante, estudos
fisiológicos determinaram que o ato de voar, mesmo de forma planada, é,
digamos, caro para o animal, já que consome muita energia.
Logo veio uma segunda hipótese: voo de fuga! Se você vai gastar muita
energia, tem que valer a pena. E nada melhor do que continuar vivo,
correto? Assim, pesquisadores propuseram que os peixes-voadores,
sobretudo os do grupo Exocoetidae, teriam desenvolvido essa estratégia
para fugir de predadores. Nos dias de hoje, estes são formados,
particularmente, pelos golfinhos.
No caso de
Potanichthys e outros membros do grupo de
peixes-voadores basais, apesar da não existência de golfinhos na época
em que viveram, havia outros grandes predadores, que poderiam vê-los
como uma boa refeição. Nos depósitos triássicos da China, onde a nova
espécie foi descoberta, são encontrados, por exemplo, diversos répteis
marinhos e também outros peixes maiores. Assim, pode-se imaginar que
seria uma boa vantagem para o
Potanichthys escapar desses predadores planando sobre os oceanos do passado!
O estudo dos colegas chineses discute ainda outros aspectos da vida
dos peixes-voadores. Considerando que atualmente esses peixes vivem
apenas em águas relativamente quentes, com mais de 20 ºC, eles levantam a
hipótese de que, em todos os depósitos onde peixes-voadores foram
encontrados, a temperatura da água dos ambientes que existiram ali no
passado deveria ser semelhante.

- Peixe-voador momentos
após sua decolagem. Atualmente esses animais vivem apenas em águas
relativamente quentes. (foto: U.S. National Oceanic and Atmospheric
Administration)
Os autores ainda fizeram uma boa distinção entre os peixes-voadores
verdadeiros, ou seja, os que realmente poderiam planar, dos falsos
peixes-voadores. O importante, segundo Xu e colegas, não é ter
nadadeiras peitorais bem desenvolvidas, mas sim uma nadadeira caudal
assimétrica, com a parte de baixo bem grande, de forma a dar uma melhor
propulsão ao animal.
Diante desse trabalho, pode-se constatar que os cientistas chineses
continuam realizando grandes descobertas – e não apenas sobre
dinossauros ou aves extintas, grupos que renderam grande reconhecimento
às suas pesquisas. Além disso, é bacana ver um país valorizar os seus
museus e realizar investimentos expressivos na pesquisa científica,
incluindo o estudo dos fósseis. Naturalmente, isso não acontece por
acaso e é fruto da militância de sociedades científicas que incentivam a
livre expressão e participação dos seus associados, todos lutando para a
melhoria das condições de pesquisa na paleontologia. Será que podemos
ter esperanças?
Alexander KellnerMuseu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências