Rincossauro "torto" é descrito após 40 anos
06 de maio de 2016
Peter Moon | Agência FAPESP – O mais recente
troféu da paleontologia brasileira não é um dinossauro, mas uma espécie
até então desconhecida de rincossauro, um réptil herbívoro pertencente à
linhagem ancestral dos crocodilos e das aves. A novidade ganhou o nome
de
Brasinorhynchus mariantensis.
O brasinorrinco viveu no Rio Grande do Sul há cerca de 238 milhões de
anos, em meados do Triássico, período imediatamente anterior ao do
surgimento dos dinossauros. Quando os primeiros dinossauros apareceram
nos pampas, cerca de 7 milhões de anos depois, sabe-se que por lá
pastavam manadas de rincossauros, porém nenhum deles parecido com o
brasinorrinco.
Com base em crânio coletado nos anos 1970, pesquisadores da UFRGS, USP e Unesp publicam a descrição do Brasinorhynchus mariantensis, réptil herbívoro pertencente à linhagem ancestral dos crocodilos e das aves (fotos: divulgação)
Isto o torna a um só tempo o mais antigo e o mais bizarro exemplar de
rincossauro da América do Sul, além de ser o primeiro exemplar a
dividir afinidades inequívocas com os rincossauros que pastavam na
África, mais uma evidência da união dos continentes austrais no
supercontinente Gondwana.
O trabalho de descrição é de autoria dos paleontólogos Cesar Schultz,
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Max Langer, da
Universidade de São Paulo (USP), e Felipe Montefeltro, da Universidade
Estadual Paulista (Unesp).
O artigo publicado no
Paläontologische Zeitschrift é resultado de um estudo que conta com apoio da FAPESP por meio do Projeto Temático "
The origin and rise of dinosaurs in Gondwana (late Triassic - early Jurassic)".
A nova espécie foi descrita com base em um crânio um tanto deformado
coletado nos anos 1970. “Sabia da existência daquele crânio desde 1980,
quando entrei no Setor de Paleovertebrados da UFRGS. Comecei a olhar com
mais atenção para aquele ‘rincossauro torto’ a partir de 1987, quando
comecei o doutorado”, contou Schultz.
“Na época, estudava o modo como a fossilização típica do período
Triássico do Rio Grande do Sul deformava alguns fósseis, a ponto de
fazer com que pertencessem a táxons diferentes. Entretanto, aquele
crânio, apesar de estar claramente comprimido lateralmente, não era de
modo algum semelhante aos outros rincossauros gaúchos que já
conhecíamos. Era mais comprido do que largo, exatamente o oposto à
morfologia craniana dos rincossauros mais comuns no Rio Grande, mais
largos do que compridos”, disse.
Schultz conta que o fóssil do brasinorrinco foi achado em Mariante,
um distrito do município de Venâncio Aires (RS) e quase foi descartado,
pois havia muitos outros rincossauros. Mas os paleontólogos resolveram
retirar o fóssil, que saiu inteiro e foi levado para um laboratório.
Em 1991, Schultz incluiu em sua tese de doutorado os primeiros estudos sobre os espécimes do
Brasinorhynchus. “Fiz uma descrição preliminar”, disse.
Em 1995, Schultz, já como orientador do Curso de Pós-Graduação em
Geociências da UFRGS, teve Max Langer como seu primeiro orientando de
mestrado, sendo que o projeto deste, é claro, acabou se dirigindo aos
rincossauros. Entretanto, o objetivo de Max não era a descrição
anatômica de novos espécimes, mas a análise filogenética dos
rincossauros.
Desse modo, o então conhecido “rincossauro de Mariante” foi analisado
junto com os demais, mas não teve a sua publicação formal concluída.
Essa tarefa foi repassada a um novo estudante de mestrado, alguns anos
depois. Este iniciou o trabalho, mas acabou se desinteressando. Com
isso, o brasinorrinco voltou mais uma vez para a prateleira e lá
permaneceu por quase 20 anos.
Nesse meio tempo, Felipe Montefeltro realizou seu mestrado, sob
orientação de Langer. Durante o trabalho de Montefeltro, novamente o
“rincossauro de Mariante” foi citado e usado nas comparações, embora
seguisse sem ter ainda a sua própria identidade formal.
Camaradagem argentina
Em 2016, esta longa novela científica chega finalmente à sua
conclusão. “Colegas argentinos me avisaram que encontraram um animal
semelhante e que já haviam começado a descrevê-lo. Como eles sabiam da
existência desse fóssil brasileiro, disseram que aguardariam nossa
descrição ser publicada para publicar a deles”, disse Schultz,
destacando o exemplo de camaradagem científica do grupo argentino.
“Nós três nos reunimos e fizemos um esforço concentrado de pesquisa
para descrever e publicar o trabalho o mais rápido possível,” explica o
mineiro Langer, chefe do Laboratório de Paleontologia da USP de Ribeirão
Preto.
“O brasinorrinco deve ter tido o tamanho de um porco grande. Com o
rabo, teria uns 3 metros de comprimento. Seu crânio, afilado, estreito e
alto, lembra um pouco o crânio de um cavalo”, disse Langer.
Como todos os rincossauros, o brasinorrinco possuía um bico (
rhynchus,
em grego) ósseo que empregava para abocanhar e cortar a vegetação, como
se fosse uma faca. Seus dentes eram diminutos, próprios para macerar o
alimento. “Na fauna atual, não há animais com esse tipo de dentição”,
explicou Langer.
No Triássico médio, os pampas eram lar de animais que pareceriam
muitos estranhos aos nossos olhos. Não eram dinossauros, nem mamíferos,
nem crocodilos, lagartos, tartarugas ou aves. Todas essas formas de vida
ainda estavam por evoluir.
Quem dominava aquela antiga paisagem eram répteis primitivos. No
registro fóssil do Rio Grande do Sul no Triássico médio, há 238 milhões
de anos, havia de um lado os dicinodontes e cinodontes. Estes últimos
foram possivelmente os ancestrais de todos os mamíferos.
Do outro lado estavam os arcossauromorfos, de cuja linhagem evoluíram
os crocodilos e as aves. Os rincossauros pertenciam a esse grupo,
juntamente com o maior predador da época, um terrível carnívoro do
tamanho de um grande crocodilo, o
Prestosuchus.
Já no registro fóssil gaúcho do Triássico superior, há 231 milhões de anos, os dicinodontes desaparecem, assim como o
Prestosuchus.
Mas os rincossauros, ao contrário, se tornam abundantes. É nesse
momento que surge, de forma ainda tímida, um novo grupo de animais
destinado a dominar o planeta pelos 150 milhões de anos seguintes.
Eram os primeiros dinossauros, cujos exemplares mais antigos são
achados na Argentina e no Rio Grande do Sul. E cujas primeiras formas
carnívoras se alimentavam, provavelmente, de rincossauros.
O artigo
A new rhynchosaur from south Brazil (Santa Maria Formation)
and rhynchosaur diversity patterns across the Middle-Late Triassic
boundary (doi: 10.1007/s12542-016-0307-7 ), de Cesar Leandro Schultz, Max Cardoso Langer e Felipe Chinaglia Montefeltro, publicado no
Paläontologische Zeitschrift, pode ser lido em:
link.springer.com/article/10.1007%2Fs12542-016-0307-7.