Mostrando postagens com marcador abelha africanizada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador abelha africanizada. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de julho de 2018

Substâncias relacionadas à ferocidade em abelhas são descobertas: Instituto de Biociências de Rio Claro estuda os insetos desde sua fundação, há 60 anos
 
Peter Moon - Agência Fapesp
 
16/07/2018
 
Pesquisadores paulistas podem ter descoberto a razão pela qual as abelhas africanizadas são tão ferozes. Eles rastrearam substâncias químicas presentes em níveis mais elevados no cérebro de abelhas africanizadas, em comparação com abelhas melíferas e dóceis criadas por apicultores. 
De acordo com estudo publicado no Journal of Proteome Research, tais compostos químicos podem fazer com que abelhas menos agressivas se tornem ferozes. 
Os mesmos compostos haviam sido detectados no cérebro de moscas e camundongos, nos quais eles parecem regular a alimentação e a digestão. Esse é um exemplo de como o comportamento evolui em diferentes espécies usando mecanismos moleculares semelhantes.
A pesquisa foi feita pela equipe do professor Mario Sérgio Palma no Centro de Estudo dos Insetos Sociais do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro. O trabalho tem apoio da FAPESP por meio de um Projeto Temático que integra o programa BIOTA-FAPESP. A linha de pesquisa está relacionada ao estudo do complemento de proteínas dos sistemas animais.
“Estudamos a composição das proteínas dos sistemas glandulares de vespas, abelhas, formigas, aranhas e escorpiões. Determinamos as funções individuais de cada proteína e suas interações moleculares, além de suas estruturas moleculares. Isso inclui os venenos desses animais, bem como sistemas de comunicação química por compostos químicos e a neuroquímica da regulação do comportamento dos artrópodes via sistema nervoso”, disse Palma à Agência FAPESP. 
O estudo visou investigar o mecanismo de produção de neuro-hormônios no cérebro de abelhas. Neuro-hormônios são compostos químicos responsáveis pela regulação do sistema nervoso, com implicações na mediação dos comportamentos sociais desses insetos.
“Queríamos estudar a origem e o metabolismo das proteínas precursoras dos neuropeptídeos no cérebro de abelhas, para entender como eram produzidos tais hormônios. Desejávamos também identificar as regiões do cérebro responsáveis pelas ações daqueles compostos. Para isso, utilizamos o imageamento espectral por espectrometria de massas”, explicou Palma. 
A técnica permite identificar compostos químicos dentro de tecidos, sem necessidade de extratos celulares. O imageamento também permite conhecer a região do cérebro onde tais hormônios estão agindo. “Podemos conhecer a estrutura química dos neuropeptídeos e mapear as regiões do cérebro onde eles agem”, disse. 
Os experimentos foram feitos no apiário do Instituto de Biociências da Unesp, em Rio Claro. “Praticamente todas as nossas colônias são de abelhas africanizadas”, disse Palma. “Trabalhamos com abelhas africanizadas há mais de 20 anos, uma vez que o Departamento de Biologia do Instituto de Biociências da Unesp estuda esses insetos desde sua fundação, há 60 anos.”
Os favos foram levados para o laboratório, onde os indivíduos recém-emergidos foram identificados e marcados com tintas não tóxicas. Após a devolução dos favos às colmeias no apiário, aguardou-se que as abelhas marcadas atingissem a idade desejada para a realização do experimento. 
Quando isso ocorreu, os favos retornaram novamente ao laboratório e as abelhas marcadas com tintas coloridas foram coletadas e utilizadas em experimentos de agressividade.
As abelhas foram colocadas em arenas de observação. Alvos com o formato de esferas de 5 centímetros de diâmetro e recobertas de camurça negra foram penduradas por uma corda diante de cada arena, de modo que, ao serem balançadas, as esferas invadissem a arena onde se encontravam as abelhas marcadas.
“Vários comportamentos de alerta e agressão foram realizados pelas abelhas. Tais comportamentos foram observados e registrados pelos pesquisadores”, disse Palma.
Além dos vários comportamentos agressivos, alguns indivíduos também ferroaram os alvos. Ao fazê-lo, ficaram presos nos alvos por meio do ferrão, que possui fisgas e não pode ser retirado. Esses indivíduos foram coletados, imediatamente congelados em nitrogênio líquido e dissecados. Seus cérebros foram retirados e fatiados. As fatias foram utilizadas nos estudos de análise proteômica – área de biotecnologia que estuda o conjunto de proteínas expressas em uma célula ou tecido.
A equipe da Unesp também coletou abelhas operárias que permaneceram dentro das colmeias durante os ataques, para poder compará-las às outras operárias mais agressivas.
Todas as amostras foram analisadas dentro dos tecidos. Depois elas foram analisadas com o uso de radiação laser, que promove a ionização das proteínas e peptídeos. Esses foram analisados no espectrômetro de massa, capaz de identificar pequenas cadeias de proteínas ou peptídeos, permitindo conhecer sua estrutura química.
“Quando do preparo das amostras na forma de fatias de cérebro, o instrumento cria um padrão virtual de orientação espacial dentro de cada tecido, que permite correlacionar a presença de espectros típicos de cada molécula analisada com a posição espacial dentro do tecido. Assim, identificam-se as moléculas e ao mesmo tempo estimam-se suas concentrações e determina-se sua localização”, disse Palma.
“No final, geram-se imagens dos cortes histológicos, na forma de topografia molecular, e mapas de contorno, assinalando-se as extensões e limites de cada diferente região do cérebro”, disse. 
original-02abelha.jpg
Compostos químicos identificados por pesquisadores da Unesp podem explicar por que abelhas menos agressivas se tornam ferozes. Estudo foi publicado no Journal of Proteome Research (operária de Apis mellifera ferroando o alvo de camurça durante os ensaios de agressividade / fotos: Iago Bueno da Silva/Unesp)

Hormônios e agressão 
Sobre a diferença encontrada entre as abelhas capturadas fora da colmeia e as que permaneceram lá dentro, Palma ressalta que não se trata de local, mas de diferenças observadas entre as abelhas operárias que realizam os vários comportamentos de alarme e agressão (principalmente ferroar o alvo) e aquelas que não se tornam agressivas (mesmo quando estimuladas). 
“O cérebro das abelhas não agressoras apresentou proteínas precursoras intactas, na forma sua não ativa, isto é, que não está estimulando comportamentos agressivos”, disse. 
Por outro lado, o cérebro das abelhas agressoras apresentou somente as formas maduras dessas proteínas. São pedaços menores e ativos das proteínas precursoras, gerados pela ação de enzimas conhecidas como proteases. Esses pedaços menores ainda passam por processo de modificações químicas para se tornarem ativos. Assim se formam os neuropeptídeos ativos, que determinarão o comportamento agressivo nas abelhas. Neuropeptídeos são hormônios que regulam o cérebro e outros tecidos para adaptar o organismo a realizar um conjunto de comportamentos. 
“Na prática, isso significa que os neuropeptídeos sinalizam ao organismo para realizar funções metabólicas, fisiológicas e/ou farmacológicas, preparando o indivíduo para executar um ou mais conjuntos de comportamentos. No caso em estudo, o conjunto de comportamentos foi relacionado à agressão”, disse Palma
“Os neuropeptídeos que encontramos existem com pequenas diferenças estruturais em vários insetos, mas até então eram pouco caracterizados química e funcionalmente. Nas abelhas agressoras, as funções de tais neuropeptídeos foram regular o metabolismo energético, ativar os mecanismos de vigilância e coordenação espacial de voo e estimular a produção de feromônios de alarme”, disse. 
Quando os pesquisadores observaram que os neuropeptídeos estimulavam o comportamento agressivo, eles resolveram sintetizar esses compostos em laboratório, para então injetá-los em operárias jovens – abelhas que supostamente ainda não estavam preparadas para executar comportamentos agressivos. 
“O resultado foi que algum tempo após terem recebidos aplicações dos neuropeptídeos essas operárias passaram a executar comportamentos agressivos. Elas passaram inclusive a ferroar os alvos”, disse o coordenador do Projeto Temático FAPESP.   
Origem da ferocidade
A agressividade em abelhas é desencadeada como parte do mecanismo de defesa da colônia. Tal comportamento se inicia com um conjunto de estímulos físicos e químicos como movimentos bruscos, sons agudos, cores escuras e odores fortes, geralmente associados à presença de intrusos, invasores ou predadores da colônia. Isso desencadeia uma reação em cascata de uma série de processos metabólicos e fisiológicos, para suportar os insetos agressores a executar os comportamentos de alarme e agressão.
“Aparentemente, a primeira reação a tais estímulos leva à maturação dos precursores dos neuro-hormônios no cérebro das abelhas, conduzindo à formação dos neuropeptídeos maduros, que são distribuídos em concentrados e regiões específicas do cérebro”, disse Palma.
“Atuando nos neurônios dessas regiões, esses neuropeptídeos ativam uma série de processos metabólicos e fisiológicos, que resultam nos comportamentos de alarme e agressão e culminam com a ferroada”, disse. 
Os precursores dos neuropeptídeos estão prontos no cérebro das operárias adultas. Mas enquanto elas ainda são jovens tais precursores não são clivados, não podendo resultar em neuropeptídeos maduros ou ativos. 
No entanto, quando as operárias alcançam entre 15 e 20 dias de idade, elas já contam com ferramentas moleculares para catalisar a maturação dos precursores. Daí que, na presença de estímulos físico-químicos ameaçadores, os neuropeptídeos em seus cérebros serão instantaneamente ativados, e as operárias passarão a demonstrar comportamento agressivo.
“Quando injetamos os neuropeptídeos sintéticos em suas formas maduras, as operárias jovens passaram a dispor do neuropeptídeos maduros, que em poucos minutos passaram a ativar as transformações metabólicas e fisiológicas, tornando tais indivíduos aptos a exercer comportamentos agressivos”, disse Palma.
O artigo MALDI Imaging Analysis of Neuropeptides in Africanized Honeybee (Apis mellifera) Brain: Effect of Aggressiveness, de Marcel Pratavieira, Anally Ribeiro da Silva Menegasso, Franciele Grego Esteves, Kenny Umino Sato, Osmar Malaspina e Mario Sergio Palma, está publicado em https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.jproteome.8b00098.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016


Sequencializado genoma da abelha africanizada
Pesquisa é publicada pela Unesp e pela York University, de Toronto, Canadá
[21/11/2016]
Um trabalho de pesquisa desenvolvido por pesquisadores do Núcleo de Ensino, Ciência e Tecnologia em Apicultura Racional (NECTAR) da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, câmpus de Botucatu, e York University, de Toronto, no Canadá, conseguiu sequenciar a totalidade do genoma da abelha africanizada (híbrido com forte presença nas Américas, desde o norte da Argentina ao sul do Canadá) e identificar todas variantes em relação ao genoma de Apis mellifera já descrito.
Parte deste estudo foi publicado pelo periódico Scientific Data, do grupo Nature, na forma de um artigo científico intitulado “A variant data set for the Africanized honeybee, Apis melífera”. (Confira em http://www.nature.com/articles/sdata201697)
O trabalho representa parte da Tese de Doutorado em Zootecnia de Samir Moura Kadri, orientado pelo professor Ricardo de Oliveira Orsi, do Departamento de Produção Animal da FMVZ, e coorientado pelo professor Amro Zayed, da Faculty of Sciences, York University. Contatos do pesquisador: orsi@fmvz.unesp.br ou (14) 3880-2946/(14) 9-9729-8380.
A pesquisa foi financiada pela Fapesp e pelo Discovery Grant from the Natural Sciences and Engineering Research Council of Canada (NSERC).
A pesquisa
A abelha africanizada (AHB) é um híbrido da espécie de Apis melífera originada a partir do cruzamento entre indivíduos de subespécies africanas , importadas para o Brasil e soltos acidentalmente no município paulista de Rio Claro, na década de 1950, com populações das subespécies europeias (Apis  mellifera mellifera, A. m. carnica, A. m. ligustica e A. m. caucasia)que habitavam o país naquela época. Além de serem indicadas para a produção de produtos apícolas, as abelhas africanizadas têm o comportamento defensivo em relação à sua colônia como uma de suas características mais significativas.
A pesquisa de Kadri procurou identificar os chamados SNPs (polimorfismos de nucleotídeo simples), variações ou mutações na sequência de DNA que afetam somente uma base, adenina (A), timina (T), citosina (C) ou guanina (G) na sequência de DNa genômico. Os SNPs são transmitidos de uma geração a outra e podem ser utilizados como marcadores moleculares para uma população. “É possível buscar um poliformismo na sequencia do genoma e associar a uma população com uma característica que predefinimos para estudar sua presença numa determinada espécie”, explica Kadri.
O projeto analisou o comportamento defensivo de 117 enxames de apicultores comerciais do município paulista de Iaras. Em seguida, foram coletadas abelhas operárias de cada um destes enxames. Essa etapa do trabalho foi realizada com a colaboração da equipe do Instituto de Biotecnologia (IBTEC) da Unesp de Botucatu.
Num segundo momento, foi feita em parceria com o professor Zayed, a partir de uma Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE) da Fapesp, que permitiu que Kadri ficasse 8 meses no Canadá, onde foi extraído o DNA genômico das abelhas.O pesquisador separou 12 abelhas operárias de cada um dos 15 enxames com maior comportamento defensivo e 12 de cada um dos 15 com menor comportamento defensivo, analisando assim o genoma de 30 colônias de abelhas africanizadas.
A partir destes indivíduos, de forma inédita, no Centre for Applied Genomics, em Toronto, foi feito o sequenciamento completo de genoma da abelha africanizada. O sequenciamento da totalidade do genoma das abelhas teve uma cobertura de 20.25, ou seja, para cada amostra foram feitas 20.25 medições garantindo a exatidão e confiabilidade estatística do estudo.
As informações geradas pelo trabalho são inéditas. Até então, o que existia armazenado no banco de dados National Center for Biotechnology Information (NCBI), refere-se polimorfismos identificados em partes aletórias do genoma das abelhas africanizadas e não da totalidade encontrado no genoma.
Resultados
A pesquisa de brasileiros e canadenses obteve mais de três milhões e seiscentos mil polimorfismos, carreados como marcadores genéticos do híbrido africanizado. Desses, mais de 155 mil poliformismos estão no interior de cerca de 11 mil genes do genoma da abelha africanizada de uma forma que afetam a síntese dos aminoácidos. “Na prática, isso e leva a diferenças morfológicas e principalmente comportamentais entre as abelhas africanizadas e a Apis mellifera da linhagem dos Estados Unidos. Tais diferenças são claramente expressas pelo genoma”, explica Kadri.
O artigo publicado pela Scientific Data se refere às posições que os polimorfismos e os genes afetados por eles ocupam dentro do genoma. “Foi a primeira vez que foram sequenciados e analisados todos os polimorfismos existentes na totalidade do genoma da abelha africanizada”.
Os dados obtidos foram depositados pela equipe de pesquisadores na base de dados de SNPs no NCBI e no Scientific Data, do grupo Nature. Os 27 gigabytes de dados obtidos constituem-se no maior e mais completo banco de dados que existe até hoje relacionado ao genoma de abelha africanizada.
Essas informações poderão ser utilizadas por pesquisadores do mundo todo em trabalhos nas mais diversas áreas envolvendo abelhas africanizadas, como melhoramento, evolução, controle populacional, entre outras. “Hoje todos os estudos que são feitos utilizam como padrão o genoma sequenciado nos Estados Unidos. A partir de agora, os pesquisadores que quiserem trabalhar com abelhas africanizadas saberão que é preciso observar que existem várias diferenças que podem gerar alterações de resultados caso seja utilizado o genoma padrão”.
Para o professor Orsi, a publicação da pesquisa numa periódico do grupo Nature faz jus à qualidade do trabalho realizado e deve projetar seus resultados internacionalmente. “É um orgulho para toda nossa equipe e para o Programa de Pós-Graduação em Zootecnia da FMVZ. O trabalho deve se tornar uma referência nacional e internacional para estudos com a abelhas africanizadas”.
Assessoria de Comunicação e Imprensa