Dança da chuva
A escassez de água que alarma o país tem relação íntima com as florestas
MARIA GUIMARÃES |
Edição 226 - Dezembro de 2014
© LÉO RAMOS

Alterações
no volume e periodicidade das precipitações e mau uso dos aquíferos
estão entre os fatores que secam os canos de parte do Brasil.
A Amazônia não é apenas a maior floresta tropical que restou no
mundo. Esse sem-fim de verde entrecortado por rios serpenteantes de
tamanhos e cores variados também não se limita a ser a morada de uma
incrível diversidade de animais e plantas. A floresta amazônica é também
um motor capaz de alterar o sentido dos ventos e uma bomba que suga
água do ar sobre o oceano Atlântico e do solo e a faz circular pela
América do Sul, causando em regiões distantes as chuvas pelas quais os
paulistas hoje anseiam. Mas o funcionamento dessa bomba depende da
manutenção da floresta, cuja porção brasileira, até 2013, perdeu 763 mil
quilômetros quadrados (km
2) de sua área original, o
equivalente a três estados de São Paulo. Antonio Donato Nobre,
pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), não
aponta o dedo para culpados. O que importa para ele é reverter esse
processo e não apenas zerar o desmatamento, mas recuperar a floresta. No
relatório
O futuro climático da Amazônia, divulgado no fim de
outubro, ele deixa claro que o único motivo para não se tomarem
providências imediatas para reduzir o desmatamento é desconhecer o que a
ciência sabe. Para ele, o caminho é conscientizar a população. “Agora é
um bom momento porque as torneiras estão secando”, afirma.
No relatório, elaborado a partir da análise de cerca de 200 trabalhos
científicos, ele mostra que a cada dia a floresta da bacia amazônica
transpira 20 bilhões de toneladas de água (20 trilhões de litros). É
mais do que os 17 bilhões de toneladas que o rio Amazonas despeja no
Atlântico por dia. Esse rio vertical é que alimenta as nuvens e ajuda a
alterar a rota dos ventos. Nobre explica que os mapas de ventos sobre o
Atlântico mostram que, no hemisfério Sul e a baixas altitudes, o ar se
move para noroeste na direção do equador. “Na Amazônia a floresta desvia
essa ordem”, diz. “Em parte do ano, os ventos alísios carregados de
umidade vêm do hemisfério Norte e convergem para oeste/sudoeste,
adentrando a América do Sul.”
Essa circulação viola um paradigma meteorológico que diz que os
ventos deveriam soprar das regiões com superfícies mais frias para
aquelas com superfícies mais quentes. “Na Amazônia, o ano todo eles vão
do quente, o Atlântico equatorial, para o frio, a floresta”, explica.
Uma parceria com os russos Anastasia Makarieva e Victor Gorshkov, do
Instituto de Física Nuclear de Petersburgo, tem ajudado a explicar do
ponto de vista físico os fenômenos meteorológicos da Amazônia. Em artigo
publicado em fevereiro de 2014 no
Journal of Hydrometeorology,
eles afirmam, com base em análises teóricas confirmadas por observações
empíricas, que o desmatamento altera os padrões de pressão e pode
causar o declínio dos ventos carregados de umidade que vêm do oceano
para o continente. O grupo analisou os dados de 28 estações
meteorológicas em duas áreas do Brasil e viu que os ventos que vêm da
floresta amazônica carregam mais água e estão associados a maiores
índices de chuvas do que ventos que partem de áreas sem floresta e
chegam à mesma estação.
Isso acontece, segundo os pesquisadores, por causa da bomba biótica
de umidade, uma teoria proposta pela dupla russa em 2007 para explicar a
dinâmica de ventos impulsionada por florestas. Essa ideia completa a
descrição feita pelo climatologista José Antonio Marengo, à época
pesquisador do Inpe, de como a Amazônia exporta chuvas para regiões mais
meridionais da América do Sul. A teoria da bomba biótica aplica uma
física não usual à meteorologia e postula que a condensação da água,
favorecida pela transpiração da floresta, reduz a pressão atmosférica
que suga do mar para a terra as correntes de ar carregadas de água.

Os
fundamentos da influência da condensação sobre os ventos foram
apresentados em artigo publicado em 2013 por Anastasia e Gorshkov, em
parceria com Nobre e outros colaboradores, na
Atmospheric Chemistry and Physics,
uma das revistas mais importantes da área. Por meio de uma série de
equações, eles mostram que o vapor de água lançado à atmosfera pela
transpiração da floresta gera, ao condensar, um fluxo capaz de propelir
os ventos a grandes distâncias.
De acordo com Nobre, a nova física da
condensação proposta por eles gerou, ainda durante a revisão do artigo,
uma controvérsia com meteorologistas, que debateram o assunto
furiosamente em
blogs científicos com a intenção de derrubar a
principal equação do trabalho. Não conseguiram e o trabalho foi
publicado. O pesquisador do Inpe explica a polêmica. “É uma física que
atribui à condensação, um fenômeno básico e central do funcionamento
atmosférico, um efeito oposto ao que se acreditava”, diz. “Será
necessário reescrever os livros didáticos da área.”
Para dar a dimensão da dificuldade de diálogo entre físicos teóricos e
meteorologistas, Nobre lembra que a física desenvolve um entendimento
dos fenômenos atmosféricos a partir de leis fundamentais da natureza,
enquanto a meteorologia o faz, em grande parte, com base na observação
de padrões do clima do passado, cuja estatística é absorvida em modelos
matemáticos. Tais modelos representam bem as flutuações climáticas
observadas, mas apresentam falhas quando há alterações significativas no
padrão.
É o caso agora, quando um novo contexto – ocasionado por
desmatamento, mudanças globais no clima ou outros fatores – gera
fenômenos climáticos inesperados para certas regiões, como chuvas mais
torrenciais e secas mais extensas. A teoria física acerta onde
extrapolações do passado erram, por isso é preciso, segundo ele,
construir novos modelos climatológicos que recoloquem a física no centro
dos esforços da meteorologia.
O momento agora é crucial porque o clima amazônico vem mudando. Secas
importantes nessa região marcaram os anos de 2005 e 2010. “Antes a
Amazônia tinha a estação úmida e a mais úmida, agora há uma estação
seca”, diz Nobre. Os danos dessas secas na floresta não foram
aniquiladores porque ela consegue se regenerar, mas o acúmulo dos danos
aos poucos erode essa capacidade. Um efeito importante que já se
observa, previsto há 20 anos por modelos climáticos, é um prolongamento
da estação seca, que tem prejudicado a produção agrícola em porções do
estado do Mato Grosso. A grande preocupação é que se chegue a um ponto
de não retorno, em que a floresta já não consiga produzir chuva
suficiente para suprir nem a si própria. Trabalhos de modelagem que
levam em conta clima e vegetação indicam que esse ponto será atingido
quando 40% da área original de floresta for perdida, um número que não é
unânime. Segundo o relatório de Nobre, 20% da floresta já foi cortada e
outros 20%, alterados a ponto de terem perdido parte de suas
propriedades.
© GERARD MOSS / PROJETO RIOS VOADORES

Rios voadores: correntes de vapor-d’água que se formam sobre a floresta amazônica exportam chuvas para a região Sul do Brasil
Se a teoria da bomba biótica estiver correta, os efeitos desse ponto
de não retorno devem ser mais graves do que a savanização proposta pelo
climatologista Carlos Nobre, irmão mais velho de Antonio (
ver Pesquisa FAPESP nº 167).
“Se a floresta perder a capacidade de trazer a umidade do oceano, a
chuva na região pode cessar por completo”, diz o Nobre caçula. Sem água
para sustentar uma savana, o resultado poderia ser uma desertificação na
Amazônia. Se isso ocorrer, o cenário que ele infere para o Sul e o
Sudeste do país poderia ser semelhante ao de outras regiões na mesma
latitude: tornar-se um deserto.
Antonio Nobre não se arrisca a falar muito sobre São Paulo. “Meu
relatório é sobre a Amazônia.” Mas ele acredita que a seca por aqui não
independe do que acontece no Norte. Em sua opinião, foi possível
devastar boa parte da mata atlântica sem sentir uma redução nas chuvas
porque a Amazônia era capaz de suprir a falta de água na atmosfera
local. Mas isso já não parece acontecer mais.
Ele aproveita o ensejo
para sugerir que não apenas a floresta amazônica, mas também a que
acompanhava a costa de quase todo o Brasil precisa ser recuperada
imediatamente. Se não for por outro motivo, o esgotamento a que chegaram
as represas que alimentam boa parte da população paulista deveria
bastar como argumento.
A exportação de água desde a Amazônia para outras regiões do Brasil,
sobretudo o Sudeste e o Sul, é uma realidade, por meio do fenômeno
conhecido como rios voadores (
ver Pesquisa FAPESP nº 158).
Um indício dessa linha direta foram as intensas chuvas no sudoeste da
Amazônia no início de 2014, praticamente o dobro do volume habitual, ao
mesmo tempo que São Paulo passava pelo pior momento de uma seca
histórica. “A chuva ficou presa em Rondônia, no Acre e na Bolívia por
causa de um bloqueio atmosférico, algo como uma bolha de ar que impedia a
passagem da umidade. Isso criou uma estabilidade atmosférica, inibiu a
formação de chuvas e elevou as temperaturas”, conta Marengo, agora
pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres
Naturais (Cemaden). Ele é coautor de um artigo liderado por Jhan Carlo
Espinoza, do Instituto Geofísico do Peru, que está em processo de
publicação pela
Environmental Research Letters e é parte dos resultados do programa Green Ocean (GO) Amazon, que tem apoio da FAPESP.
Não é possível, porém, afirmar o quanto essa relação determina a
estiagem paulista. “Ainda não se sabe calcular quanto das chuvas do
Sudeste vem da Amazônia nem quanto chega aqui trazido por frentes frias
vindas do Sul, pela umidade carregada por brisas marinhas ou pela
evaporação local”, diz. Para ele, o desmatamento pode ter um impacto no
longo prazo, mas ainda é impossível dizer se ele está relacionado com a
seca atual. “O Sudeste pode não virar um deserto”, pondera, “mas os
extremos climáticos podem se tornar mais intensos”. Estudos usando
modelos climáticos criados pelo grupo de Marengo já previam uma
redistribuição do total das chuvas, com um volume muito grande em poucos
dias e estiagens mais prolongadas, algo que já tem sido observado no
Sudeste e no Sul do país nos últimos 50 anos.
Além desse efeito a distância, em escala nacional, a relação entre
vegetação e recursos hídricos também se dá numa escala mais local, de
acordo com o engenheiro agrônomo Walter de Paula Lima, professor da
Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade
de São Paulo (USP) e coordenador científico do Programa Cooperativo de
Monitoramento Ambiental em Microbacias (Promab) do Instituto de
Pesquisas e Estudos Florestais. Em seus estudos sobre o efeito das
florestas (ou sua remoção) em microbacias hidrográficas, ele mostrou que
a mata ciliar, que acompanha os cursos de água, ajuda a manter a boa
saúde de pequenos rios. “O sistema Cantareira, que abastece São Paulo, é
formado por milhares de microbacias”, conta. “As que estão mais
degradadas não contribuem para o manancial.” Essa avaliação, porém,
carece de dados experimentais concretos. Segundo Lima, para se saber
exatamente o efeito das matas ciliares nos mananciais seria necessário
estudar uma microbacia experimental em que se possa medir propriedades
dos cursos d’água com e sem a proteção de floresta, sem que haja outros
fatores envolvidos. Um quadro praticamente inatingível.
Uma experiência prática que reforça a importância de se preservar as
matas ciliares para a manutenção dos recursos hídricos é relatada pelo
biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, da Esalq, especialista em recuperação
de florestas nativas. Ele conta que há 24 anos a água desapareceu da
microbacia de Iracemápolis, município no interior paulista. A prefeitura
buscou ajuda na Esalq, e o grupo de Rodrigues implementou um projeto de
conservação de solo da microbacia e de recuperação da mata ciliar que
deveria estar ali. “Fui lá recentemente e levei um susto”, conta o
pesquisador. O nível da represa está um pouco mais baixo, mas tem água
suficiente para continuar abastecendo Iracemápolis, que teve sua
população triplicada nesse período. “Toda a região está com problemas de
falta de água, mas Iracemápolis não.”
As florestas afetam a saúde dos recursos hídricos por meio de sua
influência nas chuvas, mas também tem importância a sua relação com as
águas subterrâneas. O engenheiro Edson Wendland, professor no
Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP de São Carlos, estuda
justamente o que acontece com a recarga do aquífero Guarani quando o
cerrado é substituído por culturas como pastagem, cana-de-açúcar,
cítricos ou eucalipto. O trabalho tem sido feito na bacia do Ribeirão da
Onça, no município de Brotas, interior paulista, estudada desde os anos
1980.
Por meio de poços de monitoramento e estações climatológicas, a ideia
é detalhar, antes que não sobre mais vegetação original de cerrado por
ali, como se dá a recarga do aquífero Guarani sob diferentes regimes de
uso do solo. “Não é possível gerenciar o que não se conhece”, diz
Wendland sobre uma das fontes de água subterrânea mais importantes do
Brasil. O aquífero é uma camada porosa de rochas na qual se infiltra a
água das chuvas, depois liberada lentamente para os rios. Essa diferença
de tempo entre o abastecimento e a descarga, consequência do trajeto
lento da água pelo meio subterrâneo, é o que garante perenidade aos
rios, que dependem dessa poupança hídrica.
© LÉO RAMOS

No fim de novembro o sistema Cantareira tinha água no reservatório Paiva Castro…
O grupo de Wendland tem mostrado, por exemplo, que a disponibilidade
de água diminui quando se substituem as pequenas árvores retorcidas do
cerrado, adaptadas a viver sob estresse hídrico, por eucaliptos, que
consomem bastante água e em poucos anos atingem o tamanho de corte.
Medições feitas entre 2004 e 2007 mostram que as taxas de recarga têm
relação íntima com a intensidade da precipitação e o porte das culturas
agrícolas nessa região onde o cerrado está praticamente extinto, de
acordo com artigo aceito para publicação nos
Anais da Academia Brasileira de Ciências.
Isso não significa, porém, que os eucaliptos sejam vilões
incondicionais. O impacto de árvores de grande porte depende, em parte,
da profundidade do aquífero no ponto em que estão plantadas. Segundo
Lima, os mais de 20 anos de monitoramento contínuo feito pelo Promab
mostraram que a relação entre espécies florestais e água não é
constante. “Onde a disponibilidade é crítica, um elemento novo pode
secar as microbacias”, explica. “Mas onde o balanço hídrico e climático é
bom, a diminuição de água nem é sentida.” Essas conclusões deixam claro
que é necessário fazer um zoneamento de onde se pode plantar e onde a
prática seria nociva, um planejamento que não existe no Brasil.
Para Wendland, a importância de entender a relação entre o cerrado e
os aquíferos é crucial porque as nascentes da maioria das grandes bacias
hidrográficas do país estão no domínio desse bioma. Além da importância
como recurso hídrico, algumas dessas bacias – do Paraná, do Tocantins,
do Parnaíba e do São Francisco – são as principais fornecedoras de água
para geração de energia elétrica no Brasil.
Em pouco mais de meio século, metade da área do cerrado foi desmatada
e deu lugar a atividades agrícolas. Para avaliar o efeito dessa
alteração no uso do solo sobre a disponibilidade hídrica, o doutorando
Paulo Tarso de Oliveira, do grupo de São Carlos, fez um estudo usando
dados de sensoriamento remoto em toda a área desse bioma. Com os
sensores, é possível avaliar não só a alteração da vegetação, mas também
quantificar as precipitações, os índices de evapotranspiração pelas
plantas e estimar a variação de armazenamento de água. Segundo artigo
publicado em setembro de 2014 na
Water Resources Research, os dados indicam uma redução do escoamento por causa de atividades agrícolas mais intensas.
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… enquanto a seca era evidente no Jacareí/Jaguari
O desmatamento e o uso agrícola do solo têm importância, mas Wendland
afirma que o maior problema para a recarga do aquífero hoje é a redução
nas chuvas. “O aquífero supre a falta de precipitação por dois ou três
anos, depois já não consegue manter o escoamento de base nos rios”, diz.
Nos últimos anos as precipitações da estação chuvosa foram abaixo da
média, o que diz os resultados observados. Explica também, segundo ele,
fenômenos alarmantes como o esgotamento da principal nascente do rio São
Francisco, que permaneceu seca por cerca de três meses e só voltou a
jorrar água no final de novembro.
O desafio do gerenciamento das águas subterrâneas, que representam
98% da água doce do planeta, tem outras particularidades em zonas
urbanas, onde pode ser um recurso crucial. Segundo o geólogo Ricardo
Hirata, do Instituto de Geociências (IGc) da USP, 75% dos municípios
paulistas são abastecidos, em parte ou completamente, por essas águas.
Isso inclui cidades importantes do estado, com destaque para Ribeirão
Preto, onde elas servem a 100% dos mais de 600 mil habitantes. Na escala
nacional, outras cidades completamente abastecidas por águas
subterrâneas são Juazeiro do Norte, no Ceará, Santarém, no Pará, e
Uberaba, em Minas Gerais, de acordo com o livro
Águas subterrâneas urbanas no Brasil, em processo de publicação pelo IGc e pelo Centro de Pesquisa em Águas Subterrâneas (Cepas).
Surpreendente nas cidades é que a água perdida pelo abastecimento
público vai parar no aquífero. “A impermeabilização do solo diminui a
penetração da água da chuva, mas as perdas compensam e superam essa
redução e o saldo é uma recarga maior onde há cidades, em comparação com
outras áreas”, explica Hirata. “Se analisarmos a água de um poço
qualquer em São Paulo, metade será do aquífero e metade da Sabesp.” Ele
estima que a capital paulista tenha quase 13 mil poços, todos
particulares, muitos ilegais. “Existe uma legislação para gerenciamento
desse recurso, mas ela não é seguida”, conta.
Um problema causado pelas cidades é a contaminação dos aquíferos por
nitrato, devido a vazamentos no sistema de esgotos. Como a
descontaminação é cara, os poços afetados acabam abandonados. Nas
cidades em que são usados para abastecimento público, a solução é
misturar água poluída à de poços limpos para que a qualidade total seja
aceitável. “Em Natal não há mais água suficiente para mesclar”, alerta
Hirata. O subterrâneo é fonte de 70% da água na capital potiguar.
Outro tipo de poluição importante vem da indústria, como a causada
pelos solventes organoclorados. O geólogo Reginaldo Bertolo, também do
IGc e diretor do Cepas, estuda como esse poluente se comporta no
aquífero abaixo de Jurubatuba, na zona Sul paulistana, uma região
industrial desde os anos 1950. “É um contaminante de difícil
comportamento no aquífero”, conta. Nessa rocha dura, onde a água corre
em fraturas, o composto mais denso do que a água se aprofunda e só para
quando chega a um estrato impermeável. “São produtos tóxicos e
carcinogênicos.” A poluição impede o uso da água subterrânea numa região
onde a demanda é forte.
Em colaboração com pesquisadores da Universidade de Guelph, no
Canadá, o grupo de Bertolo está mapeando esses poluentes para entender
como ele se comporta e propor estratégias para eliminá-lo do aquífero.
Para isso, o próximo passo é usar um sistema desenvolvido pelos
canadenses para retirar amostras da rocha e instalar poços de
monitoramento especiais. “O equipamento permite coletar água de mais de
20 fraturas diferentes numa mesma perfuração”, afirma. “Vamos fazer um
modelo matemático para reproduzir o que acontece e fazer prognósticos.”
Bertolo alerta que é importante mapear melhor as águas subterrâneas e
analisar sua qualidade, porque é um recurso que pode ser complementar
nas cidades. “A água subterrânea é um recurso pouco conhecido.” A
engenheira Monica Porto, da Escola Politécnica da USP, não acredita que
seja possível expandir muito o uso dessas águas na Região Metropolitana
de São Paulo. Em sua opinião, para ir além dos cerca de 10 metros
cúbicos por segundo (m
3/s) extraídos dos milhares de poços existentes, seriam necessários milhares de novas perfurações. “Mas esses 10 m
3/s não podem faltar, precisamos cuidar deles.”
Monica, que já foi presidente e ainda integra o conselho consultivo
da Associação Brasileira de Recursos Hídricos, pensa em maneiras de
assegurar a segurança hídrica para a população. Faltar água está, de
fato, entre as coisas mais graves que podem acontecer numa cidade.
“Somos obrigados a trabalhar com uma probabilidade de falha muito
baixa.” Segundo ela, em 2009 o governo paulista encomendou a uma empresa
de consultoria um estudo sobre o que precisaria ser feito para garantir
o suprimento de água. O estudo ficou pronto em outubro de 2013, já em
meio à mais importante crise hídrica da história do estado. Monica
explica que é impossível considerar a Grande São Paulo de forma isolada,
porque não há mais de onde tirar água sem disputar com vizinhos. Por
isso, o estudo abrange a megametrópole, que engloba mais de 130
municípios e uma população de 30 milhões de pessoas.
As obras necessárias à melhoria da segurança hídrica já começaram,
com um sistema para recolher água do rio Juquiá, no Vale do Ribeira, que
deve ficar pronto em 2018. Está em fase de licenciamento ambiental a
construção das barragens de Pedreira e Duas Pontes, que devem abastecer a
região de Campinas. “Manaus e Campinas são as únicas cidades do Brasil
com mais de um milhão de pessoas que não têm reservatório de água”,
conta Monica. Não faz falta a Manaus, às margens do rio Amazonas, mas
faz a Campinas, que depende do sistema Cantareira. Ela, que em casa “faz
das tripas coração” para economizar água, afirma que a crise atual é
importante para conscientizar a população sobre a necessidade de se
reduzir o consumo. Também ressalta a importância do conjunto de medidas
que precisará ser revisto em caráter emergencial. “Temos que aprender
pela dor”, diz Monica, que costuma brincar que é melhor que não chova
muito para não afastar a instrutiva crise. “Mas, se não chover muito em
breve, vou parar de brincar: precisa chover.”
Projetos
1. Entendimento das causas dos vieses que determinam o início
da estação chuvosa na Amazônia nos modelos climáticos usando observações
do GoAmazon e chuva (
13/50538-7);
Pesquisador responsável José Antonio Marengo Orsini (Cemaden);
Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa – GoAmazon;
Investimento R$ 57.960,00 (FAPESP).
2. Estabelecimento do modelo conceitual hidrogeológico e de transporte e
destino de compostos organoclorados no aquífero fraturado da região de
Jurubatuba, São Paulo (
13/10311-3);
Pesquisador responsável Reginaldo Antonio Bertolo (IGc-USP);
Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa;
Investimento R$ 502.715,27 (FAPESP).
Artigos científicos
MAKARIEVA, A. M.
et al.
Why
does air passage over forest yield more rain? Examining the coupling
between rainfall, pressure and atmospheric moisture content.
Journal of Hydrometeorology. v. 15, n. 1, p. 411-26. fev. 2014.
MAKARIEVA, A. M.
et al.
Where do winds come from? A new theory on how water vapor condensation influences atmospheric pressure and dynamics.
Atmospheric Chemistry and Physics. v. 13, p. 1039-56. 25 jan. 2013.
ESPINOZA, J.
et al.
The extreme 2014 flood in South-western Amazon basin: The role of tropical-subtropical South Atlantic SST gradient.
Environmental Research Letters. v. 9, n. 12. 8 dez. 2014.
WENDLAND, E.
et al.
Recharge contribution to the Guarani Aquifer System estimated from the water balance method in a representative watershed.
Anais da Academia Brasileira de Ciências. no prelo.
OLIVEIRA, P. T. S.
et al.
Trends in water balance components across the Brazilian Cerrado.
Water Resources Research. v. 50, n. 9, p. 7100-14. set. 2014.