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quinta-feira, 23 de junho de 2022

 

O evento climático raro "triplo" La Niña parece provável - o que o futuro reserva?

Lixo e móveis danificados empilhados em uma estrada inundada em 03 de março de 2022 em Brisbane, Austrália.

La Niña contribuiu para inundações no leste da Austrália no início deste ano. Crédito: Peter Wallis/Getty

Um evento de La Niña em andamento que contribuiu para inundações no leste da Austrália e secas exacerbadas nos Estados Unidos e na África Oriental pode persistir até 2023, de acordo com as últimas previsões. A ocorrência de dois invernos consecutivos de La Niña no Hemisfério Norte é comum, mas ter três seguidos é relativamente raro. Um 'mergulho triplo' La Niña - com duração de três anos seguidos - aconteceu apenas duas vezes desde 1950.

Este La Niña particularmente longo é provavelmente apenas um pontinho aleatório no clima, dizem os cientistas. Mas alguns pesquisadores estão alertando que as mudanças climáticas podem tornar as condições semelhantes à La Niña mais prováveis ​​no futuro. “Estamos aumentando as chances desses eventos triplos acontecerem”, diz Matthew England, oceanógrafo físico da Universidade de Nova Gales do Sul em Sydney, Austrália. A Inglaterra e outros estão agora trabalhando para reconciliar as discrepâncias entre os dados climáticos e os resultados dos principais modelos climáticos – esforços que podem esclarecer o que está reservado para o planeta.

Mais eventos de La Niña aumentariam a chance de inundações no sudeste da Ásia, aumentariam o risco de secas e incêndios florestais no sudoeste dos Estados Unidos e criariam um padrão diferente de furacões, ciclones e monções nos oceanos Pacífico e Atlântico, além de a outras mudanças regionais.

La Niña e sua contraparte, El Niño, são fases do El Niño-Oscilação Sul (ENSO) que ocorrem a cada dois a sete anos, com anos neutros no meio. Durante os eventos do El Niño, os ventos habituais do Pacífico que sopram de leste a oeste ao longo do Equador enfraquecem ou invertem, fazendo com que a água quente jorre para o leste do Oceano Pacífico, aumentando a quantidade de chuva na região. Durante o La Niña, esses ventos se fortalecem, a água quente se desloca para o oeste e o leste do Pacífico fica mais frio e seco.

Os impactos são de grande alcance. “O Pacífico tropical é enorme. Se você mudar a precipitação, isso terá um efeito cascata no resto do mundo”, diz Michelle L'Heureux, cientista física do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) em College Park, Maryland. Durante os anos de La Niña, o oceano absorve calor em suas profundezas, de modo que as temperaturas globais do ar tendem a ser mais baixas.

Onda de frio

O atual La Niña começou por volta de setembro de 2020 e tem sido leve a moderado na maior parte do tempo desde então. A partir de abril de 2022, intensificou-se, levando a uma onda de frio sobre o leste do Oceano Pacífico equatorial, não vista naquela época do ano desde 1950. “Isso é bastante impressionante”, diz England.

A última previsão da Organização Meteorológica Mundial, divulgada em 10 de junho, dá uma chance de 50 a 60% de La Niña persistir até julho ou setembro. Isso provavelmente aumentará a atividade de furacões no Atlântico, que atinge o leste da América do Norte até novembro, e diminuirá a temporada de furacões no Pacífico, que afeta principalmente o México. O Centro de Previsão Climática da NOAA previu uma chance de 51% de La Niña no início de 2023.

O estranho, diz L'Heureux, é que este La Niña prolongado, ao contrário de mergulhos triplos anteriores, não veio depois de um forte El Niño, que tende a acumular muito calor oceânico que leva um ou dois anos para dissipar 1 . “Eu continuo me perguntando, onde está a dinâmica para isso?” diz L'Heureux.

Correlação climática

As grandes questões que permanecem são se as mudanças climáticas estão alterando o ENSO e se as condições de La Niña se tornarão mais comuns no futuro.

Pesquisadores notaram uma mudança no ENSO nas últimas décadas: o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)mostra que fortes eventos de El Niño e La Niña foram mais frequentes e mais fortes desde 1950 do que nos séculos anteriores, mas o painel não conseguiu dizer se isso foi causado pela variabilidade natural ou pelas mudanças climáticas. No geral, os modelos do IPCC indicam uma mudança para estados mais parecidos com o El Niño à medida que as mudanças climáticas aquecem os oceanos, diz o modelador climático Richard Seager, do Observatório da Terra Lamont-Doherty da Universidade de Columbia em Palisades, Nova York. Surpreendentemente, diz Seager, as observações mostraram o oposto ao longo do último meio século: à medida que o clima aqueceu, uma língua de águas ressurgintes no leste do Oceano Pacífico equatorial permaneceu fria, criando mais condições semelhantes à La Niña 2 .

Alguns pesquisadores argumentam que o registro é simplesmente muito escasso para mostrar claramente o que está acontecendo, ou que há muita variabilidade natural no sistema para os pesquisadores identificarem tendências de longo prazo. Mas também pode ser que os modelos do IPCC estejam faltando algo grande, diz L'Heureux, “o que é um problema mais sério”. Seager acha que os modelos estão realmente errados e que o planeta experimentará mais padrões semelhantes a La Niña no futuro 3 . “Mais e mais pessoas estão levando isso um pouco a sério que talvez os modelos sejam tendenciosos”, porque eles não capturam essa água fria do leste do Pacífico, diz Seager.

Injeção de água fria

A Inglaterra tem outra explicação possível para o motivo pelo qual os modelos do IPCC podem estar errando as condições futuras do tipo La Niña. À medida que o mundo aquece e a camada de gelo da Groenlândia derrete, espera-se que sua água fresca e fria reduza a velocidade de uma correia transportadora dominante de correntes oceânicas: a Circulação Meridional do Atlântico (AMOC). A maioria dos cientistas concorda que a corrente AMOC desacelerou nas últimas décadas 4 , mas não concordam sobre o porquê, ou quanto diminuirá no futuro.

Em um estudo publicado na Nature Climate Change em 6 de junho , England e seus colegas modelam como um colapso do AMOC deixaria um excesso de calor no Atlântico Sul tropical, o que desencadearia uma série de mudanças na pressão do ar que, em última análise, fortaleceriam o comércio do Pacífico ventos. Esses ventos empurram a água quente para o oeste, criando assim mais condições semelhantes à La Niña. Mas a Inglaterra diz que os modelos atuais do IPCC não refletem essa tendência porque não incluem as complexas interações entre derretimento do manto de gelo, injeções de água doce, correntes oceânicas e circulação atmosférica. “Continuamos adicionando sinos e assobios a esses modelos. Mas precisamos adicionar as camadas de gelo”, diz ele.

Michael Mann, climatologista da Universidade Estadual da Pensilvânia em State College, também argumentou 2 que a mudança climática diminuirá o AMOC e criará mais condições semelhantes ao La Niña. Ele diz que o estudo mostra como esses dois fatores podem reforçar um ao outro. Fazer com que os modelos reflitam melhor o que está acontecendo no oceano, diz Seager, “continua sendo um tópico de pesquisa muito ativo”.

“Precisamos entender melhor o que está acontecendo”, concorda L'Heureux. Por enquanto, ela acrescenta, se, como e por que o ENSO pode mudar “é um mistério muito interessante”.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-01668-1

Referências

  1. Iwakiri, T. & Watanabe, M. Sei. Rep. 11 , 17465 (2021).

    PubMed Artigo Google Scholar 

  2. Mann, ME Proc. Natl Acad. Sci. EUA 118 , e2112797118 (2021).

    PubMed Artigo Google Scholar 

  3. Seager, R., Henderson, N. & Cane, M. J. Clim. 35 , 4571-4584 (2022).

    Artigo Google Scholar 

  4. Boers, N. Nature Clim. Alteração 11 , 680–688 (2021).

    Artigo Google Scholar 

  5. Orihuela-Pinto, B., Inglaterra, MH & Taschetto, AS Nature Clim. Altere https://doi.org/10.1038/s41558-022-01380-y (2022).

    Artigo Google Scholar 

terça-feira, 3 de julho de 2018

Pesquisa traça 2 mil anos da história das chuvas no Brasil

03 de julho de 2018


Peter Moon  |  Agência FAPESP – Entre 1500 e 1850, a Europa esteve imersa na chamada Pequena Era do Gelo, período no qual as temperaturas médias no hemisfério Norte eram consideravelmente inferiores às atuais.
Até agora os efeitos daquela queda de temperatura sobre o clima da América do Sul eram pouco conhecidos, mas um novo estudo mostra que, nos séculos 17 e 18, o clima do sudoeste do Brasil era mais úmido que o atual, por exemplo. Ao mesmo tempo, o clima do Brasil do Nordeste era mais seco. O estudo foi feito a partir da análise de rochas de cavernas em Mato Grosso do Sul e em Goiás.

Pesquisa traça 2 mil anos da história das chuvas no Brasil Registros isotópicos obtidos em cavernas revelam como variou a distribuição de chuvas no país durante mudanças climáticas globais que afetaram a Europa na Idade Média (imagem: Novello e outros / Geophysical Research Journal) 
 
 Os mesmos registros de cavernas brasileiras revelaram que, entre os anos 900 e 1100, durante a chamada Anomalia Climática Medieval – período em que o clima no hemisfério Norte era mais quente do que o atual –, o clima era mais seco no Brasil.

Trata-se de uma das primeiras evidências a constatar uma relação entre as mudanças climáticas observadas durante a Pequena Era do Gelo e a Anomalia Climática Medieval no hemisfério Norte e alterações no padrão de chuvas sobre a América do Sul.

Publicado em artigo no Geophysical Research Journal, o trabalho tem como autores o físico Valdir Felipe Novello e o geólogo e professor Francisco William Cruz, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), ao lado de colaboradores brasileiros, norte-americanos e chineses, e integra o projeto PIRE-CREATE, apoiado pela FAPESP.
“Trabalhamos em diversas escalas de tempo. Há estudos que investigam o paleoclima há dezenas ou centenas de milhares de anos. No novo estudo, investigamos alterações climáticas durante os últimos dois milênios”, disse Cruz.
Novello, primeiro autor do artigo, destaca que “há evidências abundantes de que o clima no hemisfério Norte era mais frio durante a Pequena Era do Gelo”. São evidências históricas e culturais, como relatos escritos ou pinturas de época exibindo o frio na Europa do século 17, por exemplo.
A essas evidências se somam outras, como os registros de gases aprisionados há séculos no gelo de geleiras na Groenlândia, o registro de isótopos preservados no lodo do fundo de lagos e lagoas ou ainda a análise dos anéis de crescimento das árvores.

“Um problema que se enfrenta para investigar os paleoclimas do hemisfério Sul é a ausência de dados históricos ou culturais. Na Idade Média, antes da era dos descobrimentos, nem os incas nem as diversas nações indígenas possuíam escrita. O mesmo ocorria entre as tribos africanas e os aborígenes australianos”, disse Novello.

“Some-se a isso o fato de que nos trópicos quase não há geleiras, à exceção daquelas no alto dos Andes. Daí que precisamos encontrar outros métodos de análise para descobrir como era o clima do passado na América do Sul. No grupo do professor Cruz, viajamos pelo Brasil coletando amostras de rochas no interior de cavernas. A composição dos isótopos de oxigênio no carbonato de cálcio depositado ao longo de séculos e milênios para formar espeleotemas [estalagmites e estalactites] indica se o clima era mais seco ou mais úmido no passado”, disse.

Isótopos da seca e da chuva

Para entender como foi que Novello detectou os períodos de maior ou menor umidade no paleoclima brasileiro, antes é necessário explicar como se chegou aos resultados. O trabalho é baseado na análise isotópica do oxigênio das moléculas de carbonato de cálcio dos espeleotemas das cavernas.
Isótopos são variantes de um elemento químico. Enquanto todos os isótopos de um dado elemento compartilham o mesmo número de prótons, cada isótopo difere dos outros em seu número de nêutrons. Assim, o elemento químico oxigênio tem em seu núcleo 8 prótons e 8 nêutrons, no caso do oxigênio 16 (16O). Já no caso do oxigênio 18 (18O), são 8 prótons e 10 nêutrons.

“Há, na natureza, aproximadamente um átomo de oxigênio 18 para cada mil átomos do oxigênio 16”, explicou Novello. Como o oxigênio 18 é mais pesado do que o 16, quando começa a chover as moléculas de água com o oxigênio 18 precipitam primeiro.

Em consequência, ocorre uma elevação relativa da quantidade de oxigênio 16 na nuvem de chuva em relação à quantidade de oxigênio 18, agora necessariamente menor – dado que a maior parte do oxigênio 18 original precipitou como chuva. “Quando chove muito, muda a isotopia da chuva”, disse.
Para saber como tal mudança no regime de chuvas pode ser aferida em climas passados, Novello e Cruz recorreram ao registro da relação oxigênio 16/18 preservado no carbonato de cálcio dos espeleotemas das cavernas.

Quando a chuva cai em regiões de Carste, ou seja, aquelas formadas por rochas carbonáticas (como o calcário), ocorre a formação de cavernas. A água pluvial entra em contato com o gás carbônico (CO2) dissolvido no ar e no solo. O resultado dessa reação química é uma água ligeiramente ácida, que vai penetrando no solo até chegar às rochas calcárias subterrâneas.

A rocha calcária é insolúvel em água de pH neutro, mas dissolve em presença de água ácida (pH ligeiramente negativo), o que leva à formação das cavidades subterrâneas naturais a que damos o nome de cavernas.
Os pesquisadores explicam que a formação de espeleotemas ocorre quando a água da chuva que penetrou no solo (carregando carbonato de cálcio) atinge o teto da caverna. O gotejar lento e contínuo ao longo de milhares de anos vai precipitando o carbonato de cálcio dissolvido em cada gota na forma de espeleotemas, que acaba por se acumular no teto da caverna formando estalactites e no piso da caverna formando estalagmites.

O carbonato de cálcio que porventura não precipitou no teto da caverna é depositado em seu piso em camadas que dão forma às chamadas estalagmites. Os espeleotemas preservam a assinatura isotópica do oxigênio da chuva que caiu na época da deposição de cada camada de carbonato de cálcio.
“Ao analisar os isótopos de oxigênio no carbonato de cálcio dos espeleotemas, a partir da razão encontrada entre o oxigênio 16 e o 18 consegue-se inferir se o clima era mais seco (relativamente mais 18) ou mais úmido (relativamente menos oxigênio 18) quando do momento da deposição de determinada camada de calcário”, disse Novello.
“Então, por exemplo, em uma região onde chove muito, a tendência é achar nos espeleotemas uma sequência de camadas com quantidade relativamente menor de oxigênio 18. Inversamente, em regiões de clima seco, a pouca chuva que cai tem relativamente mais oxigênio 18. Essa água, ao penetrar no solo e dissolver o carbonato de cálcio, acaba por formar espeleotemas com uma quantidade relativamente maior de oxigênio 18”, disse.

Datação das rochas e análise isotópica

Valdir Novello coletou amostras de rocha de duas estalagmites da gruta Jaraguá, em Bonito (MS), e de estalagmites das grutas São Bernardo e São Mateus, localizadas no Parque Estadual de Terra Ronca, em Goiás.
Na gruta Jaraguá foram coletadas duas amostras de duas estalagmites diferentes. Uma delas mede 13 centímetros e, de acordo com o método de datação urânio/tório, cresceu continuamente por 800 anos, entre 1190 e 2000, o que abarca o período da Pequena Era do Gelo (entre 1500 e 1850). A segunda amostra, com 28 centímetros, se formou continuamente entre os anos 442 e 1451, englobando a Anomalia Climática Medieval (entre 900 e 1100).

Em Goiás, Novello coletou na gruta São Bernardo uma amostra de rocha com 37 centímetros, cobrindo o período entre os anos 1123 e 2010, o que engloba a Pequena Era do Gelo. Da gruta São Mateus saiu uma amostra com 17 centímetros, acumulada no intervalo de tempo entre 264 e 1201, o que compreende o período da Anomalia Climática Medieval.

O perfil de oxigênio 18 nas amostras da gruta Jaraguá exibe uma leve tendência em direção a valores mais leves de oxigênio entre os anos 400 e 1400, o que sugere um clima levemente úmido no território do Brasil central daquele período (que abarca a Anomalia Climática Medieval no hemisfério Norte).
Depois de 1400, os valores do oxigênio 18 nas amostras da gruta Jaraguá começam a declinar até 1770, sinalizando o aumento da umidade durante o período, que corresponde à Pequena Idade do Gelo no hemisfério Norte. Posteriormente, a tendência é invertida e os valores aumentam novamente até 1950, sinalizando a queda da umidade desde então.

O registro de oxigênio 18 do Brasil central baseado nas estalagmites das grutas São Bernardo e São Mateus, em Goiás, não apresenta uma tendência. O registro mostra alguns eventos úmidos abruptos, como os períodos úmidos prolongados entre 680 e 780 e entre 1290 e 1350, e eventos úmidos mais curtos ocorrendo por volta de 1050, 1175 e 1490.

Por outro lado, o período úmido documentado no registro da gruta Jaraguá durante a Pequena Era do Gelo, entre 1500 e 1850, é consistente com as condições úmidas favorecidas pela passagem da chamada Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que é uma faixa de nebulosidade de orientação noroeste/sudeste que se estende desde o sul da região amazônica até a região central do Atlântico Sul.
“A Zona de Convergência do Atlântico Sul é a massa de nebulosidade responsável pela ocorrência de chuvas prolongadas na região Sudeste. Os isótopos contam toda a história dessa massa úmida andando pelo continente”, disse Novello.

“Sabe aqueles dias em que chove bastante em São Paulo? Sempre que chove cinco dias seguidos é porque a nebulosidade da Zona de Convergência do Atlântico Sul está estacionada sobre São Paulo. A grande seca de 2014 foi causada pela não formação da Zona de Convergência do Atlântico Sul naquele ano”, disse Cruz.

Em um trabalho anterior, feito com registros isotópicos das grutas do município de Iraquara, na Bahia, Novello havia inferido que, durante a Pequena Idade do Gelo, no Nordeste – portanto fora da Zona de Convergência do Atlântico Sul – prevalecia um clima mais seco.

“Os dados dos espeleotemas de Bonito, quando associados a dados paleoclimáticos peruanos conhecidos, indicam que, durante a Pequena Era do Gelo, a Zona de Convergência do Atlântico Sul estacionava com maior frequência mais a sudoeste, sobre uma faixa de terra que vai do Peru até São Paulo, passando pelo Mato Grosso do Sul. Por outro lado, os dados das grutas de Goiás e de Iraquara sugerem que, durante a Pequena Era do Gelo, a Zona de Convergência do Atlântico Sul não chegou a Goiás, à Bahia e ao Nordeste. A Zona de Convergência do Atlântico Sul estacionou toda na região sudoeste. Com isso, o Nordeste ficou mais seco”, disse Novello.

Embora os registros das duas grutas de Goiás (e outras três grutas) não exibam uma mudança significativa na proporção média de oxigênio 18 durante o período da Anomalia Climática Medieval e durante o intervalo de tempo da Pequena Era do Gelo, eles mostram uma forte variabilidade na escala de tempo decenária e centenária durante o período de transição da Anomalia Climática Medieval para a Pequena Era do Gelo (entre 1100 e 1500).

Resumindo, os registros dos espeleotemas investigados por Novello e por Cruz indicam que, durante o período de clima mais quente no hemisfério Norte (a Anomalia Climática Medieval), o clima por aqui era mais seco, e que durante a Pequena Era do Gelo do hemisfério Norte o clima no sudoeste do Brasil era mais úmido, enquanto no Brasil central e no Nordeste eram mais secos.
“Quando comparamos nossos dados com outros dados isotópicos da América do Sul, verificamos a existência de outros períodos mais secos no passado. A chuva não foi muito bem distribuída nos últimos 1600 anos”, disse Cruz.

Zonas de convergência

“Existe uma coerência entre as mudanças climáticas na América do Sul e os dados climáticos do hemisfério Norte. O clima da Terra está todo conectado. Se houver anomalias nas regiões de alta latitude, isto irá refletir nos trópicos”, disse Cruz.
De acordo com Novello, “quando olhamos os dados do paleoclima durante a Pequena Era do Gelo vemos mais frio por aqui, mas os padrões de chuva mudaram. Daí se constata que se o clima esfria no hemisfério Norte, chove mais no hemisfério Sul. A convergência da umidade acaba vindo para o sul. Inversamente, quando o clima aquece no hemisfério Norte, chove menos no hemisfério Sul”.

“Nas regiões equatoriais do planeta existe uma banda de nebulosidade chamada Zona de Convergência Intertropical. Ela se localiza onde a superfície do mar está mais quente. Tal região mais quente cria uma zona de baixa pressão para onde converge toda a umidade, caindo assim mais chuva”, disse Novello.

Durante a Pequena Era do Gelo, quando era maior o diferencial entre o clima mais frio ao norte e o clima ameno ao sul, os ventos que convergiam desde o hemisfério Norte para a Zona de Convergência Intertropical carregavam mais umidade do que fazem atualmente. Isso contribuía para o aumento de nebulosidade na Zona de Convergência Intertropical, que por sua vez avançava sobre o equador no sentido leste-oeste, saindo do Atlântico e penetrando na Amazônia, onde começava a chover torrencialmente. Era quando todo o oxigênio 18 acumulado nas nuvens precipitava.

“O esfriamento do Atlântico Norte durante a Pequena Era do Gelo intensificou os ventos alísios de nordeste, o que favoreceu o transporte de umidade para a Amazônia. É o contrário do que ocorre nos anos em que os alísios de nordeste são menos intensos, que tendem a ser anos mais secos”, disse Cruz.

Uma vez que a nebulosidade da Zona de Convergência Intertropical atinge a Amazônia, ela contribui para alimentar a Zona de Convergência do Atlântico Sul com umidade mais rica em oxigênio 16. Aí então, a Zona de Convergência do Atlântico Sul avança na direção noroeste-sudeste,
atravessando o Brasil em direção ao Atlântico Sul.
Quando as nuvens permanecem saturadas de umidade, chove muito ao longo do trajeto da Zona de Convergência do Atlântico Sul. Trata-se de uma chuva com maior relação de oxigênio 16. A maior prevalência desse isótopo é que acaba sendo registrada nos espeleotemas.

Durante a Anomalia Climática Medieval, o clima mais quente no hemisfério Norte formou uma zona de baixa pressão para onde convergiram ventos úmidos do Atlântico Sul. “A Zona de Convergência Intertropical se deslocou mais para o norte. A América do Sul ficou toda seca”, disse Cruz.
O artigo Two millennia of South Atlantic Convergence Zone variability reconstructed from isotopic proxies (https://doi.org/10.1029/2017GL076838), de V. F. Novello, F. W. Cruz, J. S. Moquet, M. Vuille, M. S. de Paula, D. Nunes, R. L. Edwards, H. Cheng, I. Karmann, G. Utida, N. M. Stríkis e J. L. P. S. Campos, está publicado em https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1029/2017GL076838.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Atmosfera líquida

Pesquisa revela detalhes sobre as propriedades das partículas de aerossóis da Amazônia e aponta para impactos causados pela poluição em Manaus. Mudança na composição atmosférica pode alterar a dinâmica de chuvas da região. 
 
Por: Iara Pinheiro
Publicado em 26/01/2016 | Atualizado em 26/01/2016
Atmosfera líquida
Umidade relativa do ar elevada na região amazônica é apontada como um dos motivos por trás da descoberta de que partículas aerossóis são majoritariamente líquidas na área. (foto: BM Explorer/www.bbmexplorer.com) 
 
As primeiras medições sobre o impacto da cidade de Manaus no funcionamento do ecossistema amazônico trouxeram resultados surpreendentes. O experimento, fruto de uma colaboração internacional entre pesquisadores de Brasil, Estados Unidos e outros países constatou que partículas de aerossóis na atmosfera amazônica são constituídas majoritariamente por partículas líquidas, e não sólidas, como esperado. A natureza das partículas auxilia nos processos de formação de gotas de nuvens. Graças à descoberta, será possível fazer previsões mais precisas sobre as chuvas na região. A iniciativa trouxe ainda informações importantes sobre os impactos da urbanização da zona metropolitana de Manaus na atmosfera da floresta amazônica.

Partículas de aerossóis são componentes da atmosfera responsáveis pela formação de nuvens e parte do controle da radiação solar que chega à superfície terrestre. Com base em levantamentos anteriores realizados em florestas boreais, modelos climáticos consideravam que essas partículas eram sólidas na região amazônica. No entanto, o estudo publicado em dezembro na revista Nature Geoscience mostra que o estado físico dos aerossóis na Amazônia é 80% líquido.

Segundo o trabalho, a diferença deve-se a várias razões, entre elas a umidade relativa do ar, bastante elevada na região. Outros fatores que influenciam o estado das partículas são os compostos orgânicos voláteis que as formam. Em florestas boreais, os compostos orgânicos voláteis que formam as partículas são majoritariamente terpenos, enquanto, na Amazônia, as partículas são formadas a partir do isopreno.
Região Metropolitana de Manaus
Estudo comprovou que a poluição resultante do processo de urbanização da Região Metropolitana de Manaus afeta composição atmosférica, com aumento de partículas sólidas.(foto: Ronald Woan/Flickr CC BY 2.0)
A liquidez das partículas interfere diretamente na atmosfera amazônica e é responsável por um funcionamento mais dinâmico se comparado a locais com maior concentração de partículas sólidas, como as florestas boreais da Finlândia. “As reações químicas que acontecem entre uma partícula líquida e a atmosfera são mais eficientes do que em fase sólida. A dissolução dos compostos é mais rápida e, como os componentes são solúveis, são mais eficientes para formar gotas de nuvem”, explica o físico brasileiro Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), que participou do estudo.

Influência da urbanização

O levantamento sobre os aerossóis faz parte do projeto GoAmazon2014/15, voltado à compreensão dos efeitos da urbanização da zona metropolitana de Manaus na atmosfera amazônica. Para avaliar a composição física das partículas, foram realizadas coletas em diferentes pontos do estado do Amazonas: alguns em áreas remotas livres de poluição, entre 50 e 120 quilômetros ao norte de Manaus, outros no município de Manacapuru, área urbana localizada 110 quilômetros a sudoeste da capital. A conclusão foi que a fração de partículas sólidas aumentou quando houve contato com a poluição.
Para avaliar a composição física das partículas, foram realizadas coletas em diferentes pontos do estado do Amazonas. A conclusão foi que a fração de partículas sólidas aumentou quando houve contato com a poluição.
 
Para chegar a este resultado, os especialistas utilizaram um jato de partículas com amostras de aproximadamente 50 a 150 nanômetros (tamanho aproximado de um décimo de um fio de cabelo) e dois detectores regulados de acordo com a umidade relativa do ar na região. Como as partículas líquidas têm maior aderência ao colidir com uma superfície, o estudo comparou as partículas que permaneceram na superfície do primeiro detector e aquelas que ricochetearam e bateram no segundo detector – sendo, portanto, sólidas. “O que medimos foi a razão entre as partículas que ricocheteavam versus as partículas originais [que aderiram ao primeiro detector]. Com isso sabemos qual fração das partículas originais eram efetivamente líquidas”, detalha Artaxo.

A explicação para a diferença de estado físico das partículas aerossóis dentro e fora do ambiente urbano está relacionada aos gases orgânicos envolvidos em sua emissão. “Como as fontes emissoras são distintas, várias propriedades das partículas são alteradas: composição química, tamanho, forma, fase, e, consequentemente, suas propriedades ópticas, isto é, como elas interagem com a radiação solar”, afirma a física Márcia Yamasoe, do Departamento de Ciência Atmosféricas da USP, destacando que a frota veicular movida a diesel é a principal fonte de emissão sólida destas partículas na atmosfera – um dado preocupante, já que o ritmo de urbanização na região amazônica não dá mostras de desaceleração. Se a poluição será grande o suficiente para alterar a formação de nuvens e a dinâmica das as chuvas? Só o tempo dirá.

Iara Pinheiro
Especial para a CH Online

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Resumo de geografia: Tipos climáticos

15/09/2015

Fatores como latitude, altitude, maritimidade, continentalidade, pressão atmosférica e influência das correntes marítimas também ajudam a definir os dez tipos principais de climas do mundo. Veja a seguir as peculiaridades de cada um:
Polares: é o clima com as menores temperaturas do planeta: no inverno, ela permanece em torno de -30ºC e, no verão, a média é de 4ºC. está presente no extremo norte do Canadá, da Rússia e do Alasca, em parte da península Escandinava e na Antártica. A umidade relativa do ar é alta entre 70% e 80%, mas a precipitação, bastante reduzida: cerca de 100 milímetros de neve acumulados ao ano.

Temperados: Apresentam as quatro estações bem definidas. Há diferenças entre os locais próximos e os que estão longe do mar. E se dividem, basicamente, em:
 - Temperado Mediterrâneo: É o clima predominante no sul da Europa, golfo do México e sudeste da China, entre outras regiões. Os verões são quentes e secos – a temperatura chega a 30ºC – e os invernos, moderados e com um pouco de chuva. As mínimas de temperatura podem atingir 0ºC.
- Temperado Continental: Também de latitudes médias, o temperado continental está presente nas áreas interiores da América do Norte, da Europa e do leste da Ásia. O inverno é muito rigoroso e o verão quente - as médias de temperatura são -5ºC e 24ºC, respectivamente. As chuvas são escassas, sobretudo no inverno. É interessante notar que, apesar de estarem ambos nas mesmas latitudes, os climas temperados oceânico e continental são muito diferentes, por causa da distância em relação ao mar. No temperado continental, é a continentalidade que justifica a umidade relativa do ar mais baixa e a grande amplitude térmica anual.

- Temperado Oceânico: Presente nas regiões de litoral das latitudes médias, como o oeste e noroeste da Europa. As chuvas são abundantes durante o ano e as temperaturas não sofrem muita variação - os invernos são frios (média de -3ºC) e os verões, frescos (média de 15ºC). A proximidade com o mar (maritimidade) é um fator de influência nesse clima: a água, que demora mais para se aquecer e, depois, para se esfriar, mantém a amplitude térmica baixa no continente. As chuvas bem distribuídas no decorrer do ano também se devem à umidade da região litorânea, que recebe as massas de ar do oceano.

Tropical: Fica nas áreas entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio, cobrindo grande parte do território brasileiro e do continente africano, Índia, península da Indochina e norte da Austrália. O clima é quente, com média anual superior a 20ºC. As chuvas são intensas no verão e, no estante do ano, ocorrem mais nas regiões próximas ao mar. No Sudeste Asiático, destacam-se as chuvas de monções, tempestades torrenciais provocadas pelo vento úmido que sopra do oceano. Quando começa o verão, o continente se esquenta rapidamente, formando uma zona de baixa pressão, e as massas de ar do oceano trazem as chuvas; essa dinâmica, comum em outros pontos do planeta, tem maiores proporções nessa região em virtude da vastidão da terra (o continente asiático) e de mar (os oceanos Índico e Pacífico) envolvida no fenômeno.
Equatorial: Quente e úmido durante o ano todo, está presente na região da linha do Equador e nas áreas de baixa latitude, como a América Central, a Indonésia, a região central da África e o norte do Brasil. A umidade relativa do ar é elevada, com média anual de 90%, e a chuva é abundante durante o ano todo. A temperatura também é alta e estável, com média anual de 25ºC ;

Subtropical: É o clima das regiões ao sul do trópico de Capricórnio: sul de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A quantidade de chuva não varia muito durante o ano, mas as temperaturas mudam bastante: o inverno é frio e o verão, quente.

Tropical Árido:  Ocorre em regiões como o Saara, o centro da Austrália, norte do México e sul dos EUA. O índice pluviométrico é baixíssimo: a média anual de precipitação é inferior a 250 milímetros, o equivalente a cerca de um mês de chuva no clima equatorial. A umidade relativa do ar também é muito baixa, cerca de 40%. A amplitude térmica diária é elevada: de dia a temperatura ultrapassa os 40ºC e, à noite, chega a graus negativos.

Continental árido: Clima seco, presente nas regiões temperadas: Ásia Central (Cazaquistão, no interior da China e Mongólia), Patagônia e planalto oeste das Montanhas Rochosas (EUA). A precipitação é tão escassa quanto a do clima tropical árido, abaixo dos 250 milímetros por ano, mas, diferentemente deste, a temperatura apresenta grande variação no decorrer do ano: no verão, a média é de 17ºC e, no inverno, de -20ºC.

Montanhoso: Ocorre nas cadeias de montanhas ao redor do globo: áreas elevadas dos Andes, Montanhas Rochosas, Alpes e Himalaia. É um clima frio, com temperatura que diminui 6ºC a cada mil metros de altitude. Acima dos 2 mil metros há neve constante. A umidade relativa do ar varia conforme o lado da cadeia: a média é de 90 do lado do vento (barlavento), caindo para até 30 do lado contrário (sotavento). A quantidade de precipitação também é variável, chegando a 2 mil milímetros por ano nas regiões tropicais.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Tipos climáticos - atendendo pedidos!

Por: Prof. Marcus Cabral

Fatores como latitude, altitude, maritimidade, continentalidade, pressão atmosférica e influência das correntes marítimas também ajudam a definir os dez tipos principais de climas do mundo. Veja a seguir as peculiaridades de cada um:

Polares: é o clima com as menores temperaturas do planeta: no inverno, ela permanece em torno de -30ºC e, no verão, a média é de 4ºC. está presente no extremo norte do Canadá, da Rússia e do Alasca, em parte da península Escandinava e na Antártica. A umidade relativa do ar é alta entre 70% e 80%, mas a precipitação, bastante reduzida: cerca de 100 milímetros de neve acumulados ao ano.

Temperados: Apresentam as quatro estações bem definidas. Há diferenças entre os locais próximos e os que estão longe do mar. E se dividem, basicamente, em:
 - Temperado Mediterrâneo: É o clima predominante no sul da Europa, golfo do México e sudeste da China, entre outras regiões. Os verões são quentes e secos – a temperatura chega a 30ºC – e os invernos, moderados e com um pouco de chuva. As mínimas de temperatura podem atingir 0ºC.
- Temperado Continental: Também de latitudes médias, o temperado continental está presente nas áreas interiores da América do Norte, da Europa e do leste da Ásia. O inverno é muito rigoroso e o verão quente - as médias de temperatura são -5ºC e 24ºC, respectivamente. As chuvas são escassas, sobretudo no inverno. É interessante notar que, apesar de estarem ambos nas mesmas latitudes, os climas temperados oceânico e continental são muito diferentes, por causa da distância em relação ao mar. No temperado continental, é a continentalidade que justifica a umidade relativa do ar mais baixa e a grande amplitude térmica anual.
- Temperado Oceânico: Presente nas regiões de litoral das latitudes médias, como o oeste e noroeste da Europa. As chuvas são abundantes durante o ano e as temperaturas não sofrem muita variação - os invernos são frios (média de -3ºC) e os verões, frescos (média de 15ºC). A proximidade com o mar (maritimidade) é um fator de influência nesse clima: a água, que demora mais para se aquecer e, depois, para se esfriar, mantém a amplitude térmica baixa no continente. As chuvas bem distribuídas no decorrer do ano também se devem à umidade da região litorânea, que recebe as massas de ar do oceano.

Tropical: Fica nas áreas entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio, cobrindo grande parte do território brasileiro e do continente africano, Índia, península da Indochina e norte da Austrália. O clima é quente, com média anual superior a 20ºC. As chuvas são intensas no verão e, no estante do ano, ocorrem mais nas regiões próximas ao mar. No Sudeste Asiático, destacam-se as chuvas de monções, tempestades torrenciais provocadas pelo vento úmido que sopra do oceano. Quando começa o verão, o continente se esquenta rapidamente, formando uma zona de baixa pressão, e as massas de ar do oceano trazem as chuvas; essa dinâmica, comum em outros pontos do planeta, tem maiores proporções nessa região em virtude da vastidão da terra (o continente asiático) e de mar (os oceanos Índico e Pacífico) envolvida no fenômeno.

Equatorial: Quente e úmido durante o ano todo, está presente na região da linha do Equador e nas áreas de baixa latitude, como a América Central, a Indonésia, a região central da África e o norte do Brasil. A umidade relativa do ar é elevada, com média anual de 90%, e a chuva é abundante durante o ano todo. A temperatura também é alta e estável, com média anual de 25ºC ;

Subtropical: É o clima das regiões ao sul do trópico de Capricórnio: sul de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A quantidade de chuva não varia muito durante o ano, mas as temperaturas mudam bastante: o inverno é frio e o verão, quente.

Tropical Árido:  Ocorre em regiões como o Saara, o centro da Austrália, norte do México e sul dos EUA. O índice pluviométrico é baixíssimo: a média anual de precipitação é inferior a 250 milímetros, o equivalente a cerca de um mês de chuva no clima equatorial. A umidade relativa do ar também é muito baixa, cerca de 40%. A amplitude térmica diária é elevada: de dia a temperatura ultrapassa os 40ºC e, à noite, chega a graus negativos.

Continental árido: Clima seco, presente nas regiões temperadas: Ásia Central (Cazaquistão, no interior da China e Mongólia), Patagônia e planalto oeste das Montanhas Rochosas (EUA). A precipitação é tão escassa quanto a do clima tropical árido, abaixo dos 250 milímetros por ano, mas, diferentemente deste, a temperatura apresenta grande variação no decorrer do ano: no verão, a média é de 17ºC e, no inverno, de -20ºC.

Montanhoso: Ocorre nas cadeias de montanhas ao redor do globo: áreas elevadas dos Andes, Montanhas Rochosas, Alpes e Himalaia. É um clima frio, com temperatura que diminui 6ºC a cada mil metros de altitude. Acima dos 2 mil metros há neve constante. A umidade relativa do ar varia conforme o lado da cadeia: a média é de 90 do lado do vento (barlavento), caindo para até 30 do lado contrário (sotavento). A quantidade de precipitação também é variável, chegando a 2 mil milímetros por ano nas regiões tropicais.

sábado, 24 de janeiro de 2015

A temperatura na Terra e o "efeito estufa"

A fina camada gasosa que forma a nossa atmosfera isola a Terra de temperaturas extremas. Ela mantém o calor dentro da atmosfera e também bloqueia a passagem da maior parte da radiação ultravioleta proveniente do Sol, impedindo-a de atingir a superfície terrestre.
on temperatura da terra 1
A temperatura mais fria até hoje registrada na Terra foi obtida pela sonda Vostok em julho de 1983, no continente Antártico, –88º Celsius. Já a mais quente até hoje registrada na Terra foi obtida na Líbia, continente africano, em setembro de 1922, 58º Celsius.

Podemos então dizer que as temperaturas na Terra variam no intervalo entre –88º Celsius e 58º Celsius, o que equivale a um intervalo entre 185 K e 311 K, respectivamente.

A pequena quantidade de dióxido de carbono que existe permanentemente na atmosfera terrestre é extremamente importante para a manutenção da temperatura na superfície do nosso planeta via efeito estufa.
A atmosfera da Terra permite que uma parte da radiação infravermelha incidente sobre a superfície do planeta escape de volta para o espaço. No entanto, parte desta radiação é refletida pelas camadas inferiores da atmosfera de volta para a superfície do planeta. Ocorre então o efeito estufa, que aprisiona calor nessa atmosfera.

O efeito estufa eleva a temperatura da superfície da Terra cerca de 35º C acima do que ela teria se ele não existisse. Assim, graças ao efeito estufa a temperatura da Terra vai de um frígido –21º C para um confortável +14º C.
Sabemos que sem o efeito estufa os oceanos congelariam e a vida na Terra, tal como a conhecemos, seria impossível.
A atmosfera do nosso planeta é dividida verticalmente em quatro camadas. Essa divisão baseia-se na temperatura encontrada nelas.
on temperatura da terra 2Deslocando-nos da superfície da Terra para cima, vemos que as camadas atmosféricas se dividem da seguinte forma:
  • Troposfera (com a sua tropopausa)
  • Estratosfera (com a sua estratopausa)
  • Mesosfera (com a sua mesopausa)
  • Termosfera
A troposfera e a tropopausa são conhecidas como atmosfera inferior.
As regiões da estratosfera e mesosfera, juntamente com a estratopausa e a mesopausa, são chamadas de atmosfera média.
A região da termosfera, ou seja a região da atmosfera que está acima da mesopausa, é chamada de atmosfera superior.
Vejamos separadamente as propriedades de cada uma das regiões em que dividimos a atmosfera terrestre:

Troposfera

A troposfera é a região mais baixa da atmosfera da Terra (ou da atmosfera de qualquer planeta).
O nome troposfera provém da palavra grega tropos que significa "rodar", "misturar". Ela é a parte mais densa da nossa atmosfera e todos os processos físicos que determinam o clima da Terra e a formação de nuvens ocorrem nessa região.
Algumas das características da troposfera:on temperatura da terra 3
  • Ela se estende da superfície da Terra, seja ela sólida ou líquida, até uma altitude média de cerca de 12 quilômetros. No entanto, a troposfera não possui sempre a mesma altura. Próximo aos pólos ela alcança apenas cerca de 7 quilômetros de altura enquanto que no equador ela chega a 17 quilômetros.
  • As dimensões da troposfera também variam devido a condições climáticas.
  • A pressão varia de 1000 a 200 milibar.
  • A temperatura geralmente diminui com o aumento da altitude até alcançarmos a tropopausa que é o topo da troposfera.
  • A média da temperatura próxima à superfície é de cerca de 15o C mas chega a valores tão baixos quanto -57o C na tropopausa.
  • A troposfera termina no ponto onde a temperatura quase não varia ou não varia mais com o aumento da altitude. Essa área, conhecida como tropopausa marca a transição da troposfera para a estratosfera.
  • A concentração de umidade diminui com a altitude até chegar à tropopausa.
  • O ar é muito mais seco acima da tropopausa, na estratosfera.
  • O calor do Sol que aquece a superfície da Terra é transportado para cima na sua maior parte por convecção e é misturado por correntes ascendentes e descendentes.
  • A troposfera é formada por cerca de 70% de N2 e 21% de O2.
  • A densidade de moléculas é cada vez mais baixa à medida que vamos para maiores altitudes. Essa é a razão pela qual não conseguimos sobreviver nas regiões mais altas da troposfera pois ali não existe suficiente O2 para o nosso organismo.

Estratosfera

A estratosfera começa logo acima da troposfera e possui as seguintes características:
  • Ela se estende da parte superior da troposfera, a cerca de 17 quilômetros de altitude, até atingir 50 quilômetros de altitude.
  • Comparada com a troposfera a estratosfera é seca e menos densa. Ela se caracteriza pela quase ausência de nuvens. Somente as nuvens mais altas, os cirrus, cirroestratus e cirrocumulos, estão na estratosfera inferior.
  • A temperatura na estratosfera aumenta gradualmente com a altitude até atingir –3º C. Isso ocorre devido à absorção da radiação ultravioleta proveniente do Sol.
  • A camada de ozônio, que absorve e espalha uma grande quantidade da radiação ultravioleta proveniente do Sol, está localizada na estratosfera. Ela impede que essa radiação atinja a superfície da Terra. Assim, o ozônio, um isótopo do oxigênio, é crucial para a sobrevivência dos seres vivos na Terra.
  • 99% daquilo que chamamos de "ar" está localizado na troposfera e na estratosfera.
  • A estratopausa é a região que separa a estratosfera da camada seguinte, a mesosfera.

Mesosfera

A mesosfera começa logo acima da estratosfera, a cerca de 17 quilômetros de altitude, e se estende até 85 quilômetros de altitude, início da chamada ionosfera. A mesosfera possui as seguintes características:
  • Na mesofera a temperatura outra vez diminui, rapidamente, à medida que nos deslocamos para altitudes cada vez maiores. Ela chega a atingir valores tão baixos quanto -93o C.
  • Os elementos químicos existentes nessa região estão em estados excitados uma vez que eles absorvem diretamente a energia proveniente do Sol.
  • A mesopausa separa a mesosfera da camada seguinte, a termosfera.

Termosfera

A termosfera começa logo acima da mesosfera e se estende até a altitude de 600 quilômetros, que consideramos ser o espaço exterior. Ela possui as seguintes propriedades:
  • Na termosfera a temperatura aumenta novamente à medida que vamos para altitudes cada vez maiores. As temperaturas nessa região podem ser tão altas quanto 1727o C. Isso ocorre devido à energia incidente do Sol.
  • As reações químicas ocorrem muito mais rapidamente do que na superfície da Terra.
  • A termosfera inclui a exosfera e parte da ionosfera. Abaixo mostramos resumidamente as dimensões de cada camada atmosférica e qual o comportamento da temperatura em cada uma delas.
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Observatório Nacional 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Chuvas do passado

15/09/2014
Por Salvador Nogueira
Revista Pesquisa FAPESP – A seca pela qual está passando o Estado de São Paulo em 2014 surpreendeu a todos e está colocando em risco o abastecimento de água na capital paulista e nos municípios vizinhos. Prevista com mais antecedência, talvez permitisse adotar medidas para manter os reservatórios mais bem abastecidos.

O trabalho de um grupo internacional de pesquisadoras pode, no futuro, ajudar a calcular com maior precisão variações de chuva e umidade na América do Sul e auxiliar a agir mais cedo.

Estudo estima temperaturas da superfície do Atlântico Sul nos últimos 12 mil anos e sua conexão com as precipitações no continente sul-americano (Nasa)

O estudo, publicado em junho na Scientific Reports, combinou estimativas de temperatura no passado e modelagem matemática para reconstruir a temperatura da superfície do Atlântico Sul nos últimos 12 mil anos. Além de estabelecer com maior precisão o clima no período, o trabalho pode ajudar a compreender a dinâmica entre as temperaturas no oceano e a umidade no continente.

O grupo liderado por Ilana Wainer, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), observou que o aumento da temperatura na porção norte do Atlântico Sul, próximo à linha do equador, esteve associado a um maior volume de chuvas onde hoje é o Nordeste brasileiro e a menos chuvas no Sudeste nos últimos 12 mil anos. Inversamente, o Nordeste enfrentou períodos de secas mais severas e o Sudeste de mais chuvas quando a temperatura no sul do Atlântico esteve mais elevada.

O que melhor explicou a variação climática nesses 12 mil anos, segundo as pesquisadoras, foi um padrão de distribuição de temperaturas no Atlântico Sul semelhante ao observado hoje, com períodos em que a temperatura das águas superficiais era mais alta ao norte e outros em que eram mais elevadas ao sul.
Os pesquisadores dão o nome de Dipolo Subtropical do Atlântico Sul ao padrão de distribuição de temperaturas em que o oceano parece ter um polo mais quente e outro mais frio – com a inversão ocasional. “Caso tenha existido nesses 12 mil anos, esse fenômeno pode ter influenciado de modo importante a distribuição das chuvas no continente”, diz a meteorologista Luciana Figueiredo Prado, coautora do estudo e aluna de doutorado de Ilana Wainer no IO-USP.

Essa conclusão é, até certo ponto, surpreendente. Até então se atribuía a variação no volume de chuvas na América do Sul principalmente à influência do fenômeno El Niño, flutuações na temperatura das águas superficiais do Pacífico que ocorrem em períodos curtos (15 a 18 meses). Mas alguns trabalhos já haviam mostrado que o El Niño não explica totalmente as alterações no regime de chuvas atual da América do Sul. Parte dessa variação (cerca de 20%) parece decorrer das mudanças de temperatura na superfície do Atlântico Sul.

Por essa razão, embora a seca de 2014 em São Paulo esteja atrelada ao El Niño, Ilana acredita que essa não seja a história toda. “Mostramos que as condições do Atlântico Sul também são importantes para definir os cenários de precipitação na América do Sul”, diz a pesquisadora. “E isso não deve ser ignorado.”
Leia a reportagem completa em http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/08/21/chuvas-passado/.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Por que furacão “Katrina” ?

Todos os furacões que ocorrem nos países voltados para o oceano Atlântico Norte recebem um nome próprio. O que pouca gente sabe é que o nome de um furacão é escolhido com antecedência.
Na verdade, especialistas elaboraram uma lista de nomes, metade masculinos e metade femininos, que são repetidos a cada seis anos. Quando um furacão parece estar se formando sobre o oceano, a lista do ano é consultada para que lhe seja dado um nome. Esse nome é escolhido por ordem alfabética. Dessa forma, pelo nome, descobrimos qual número corresponde à letra inicial e podemos saber se aquele é o primeiro, o segundo ou o terceiro furacão do ano.

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Nome dos furacões para o Atlântico Norte de 2012 a 2016. Fonte: NOAA (2011).

Se, por acaso, o número de furacões ultrapassar o número de nomes da lista, serão utilizadas letras do alfabeto grego, como alfa, beta, gama etc., como aconteceu no ano de 2005. No passado, os furacões recebiam o nome do santo do dia em que ocorreu, ou do mais próximo.

A prática de batizar os furacões com nomes próprios começou a partir de 1950, quando os especialistas passaram a identificar o fenômeno por meio das imagens de satélites e todos os furacões passaram a receber nomes femininos. O primeiro, por exemplo, foi chamado de Able.
Essa prática, no entanto, gerou muita confusão. Os meteorologistas, então, modificaram a regra. Assim, desde 1979, os nomes se revezam entre femininos e masculinos. Quando um furacão é devastador, seu nome é retirado da lista para sempre.
Desde que começou a ser usada, 67 nomes já foram retirados da lista. O primeiro a deixar a lista foi Hazel, em 1954, e os últimos foram Dennis, Katrina, Rita, Wilma e Stan, todos provenientes da violenta temporada de furacões de 2005.
Afirma-se que o aquecimento global vai aumentar a frequência de furacões, apesar de no passado ocorreram furacões tão ou mais intensos que os atuais. No site do National Hurricane Center, NOAA (EUA), encontra-se uma lista de furacões mais letais da história.

 Tudo a ver
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Qual a diferença entre um tornado e um furacão? Como são formados os desertos? Para a respostas destas perguntas entre tantas outras relacionadas a climatologia, leia o livro “Cliamtologia fácil” de Ercília torres. A professora e pesquisadora do Departamento de Geografia e Coordenadora do Laboratório de Climatologia Geográfica – LCGea da Universidade de Brasília reune nesta obra as perguntas feitas por seus alunos durante seus mais de 15 anos de experiência no ensino de Climatologia.

domingo, 27 de julho de 2014

CLIMAS DO BRASIL

Clima:
Para classificar um clima, devemos considerar a temperatura, a umidade, as massas de ar, a pressão atmosférica, correntes marítimas e ventos, entre muitas outras características. A classificação mais utilizada para os diferentes tipos de clima do Brasil assemelha-se a criada pelo estudioso Arthur Strahler, que se baseia na origem, natureza e movimentação das correntes e massas de ar.

De acordo com essa classificação, os tipos de clima do Brasil são os seguintes: 

Clima Subtropical: presente na região sul dos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Caracteriza-se por verões quentes e úmidos e invernos frios e secos. Chove muito nos meses de novembro à março. O índice pluviométrico anual é de, aproximadamente, 2000 mm. As temperaturas médias ficam em torno de 20º C. Recebe influência, principalmente no inverno, das massas de ar frias vindas da Antártida.

Clima Semi-árido: presente, principalmente, no sertão nordestino, caracteriza-se pela baixa umidade e pouquíssima quantidade de chuvas. As temperaturas são altas durante quase todo o ano.

Clima Equatorial: encontra-se na região da Amazônia. As temperaturas são elevadas durante quase todo o ano. Chuvas em grande quantidade, com índice pluviométrico acima de 2500 mm anuais.

Clima Tropical: temperaturas elevadas (média anual por volta de 20°C), presença de umidade e índice de chuvas de médio a elevado.

Clima Tropical de altitude: ocorre principalmente nas regiões serranas do Espirito Santo, Rio de Janeiro e Serra da Mantiqueira. As temperatura médias variam de 15 a 21º C. As chuvas de verão são intensas e no inverno sofre a influência das massas de ar frias vindas pela Oceano Atlântico. Pode apresentar geadas no inverno.

Clima Tropical Atlântico (tropical úmido): presente, principalmente, nas regiões litorâneas do Sudeste, apresenta grande influência da umidade vinda do Oceano Atlântico. As temperaturas são elevadas no verão (podendo atingir até 40°C) e amenas no inverno (média de 20º C). Em função da umidade trazida pelo oceano, costuma chover muito nestas áreas.