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sexta-feira, 28 de junho de 2024

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"Antes que desapareçam: salvando as populações da natureza – e a nós mesmo"

Antes que eles desapareçam
  • Antes que eles desapareçam ISBN: 9781421449692 Capa dura, novembro de 2024 Disponível para encomenda
    £25.00
    # 264776
Preço: £25,00
Sobre este livro Conteúdo Avaliações de clientes Biografia Títulos relacionados

Sobre este livro

Conservacionistas lendários mostram-nos que ainda temos o poder de prevenir consequências críticas da sexta extinção neste livro revolucionário.

Podemos salvar animais e ecossistemas ameaçados no meio de uma extinção em massa? A resposta é um sim retumbante! – e Before They Vanish nos mostra como. No seu novo livro ambicioso, apaixonado e sábio, os cientistas conservacionistas Paul R. Ehrlich, Gerardo Ceballos e Rodolfo Dirzo exortam-nos a mudar o nosso pensamento em vez de baixarmos a cabeça, lamentando as perdas que a humanidade enfrenta. Esta visão abrangente de um aspecto crucial, mas muitas vezes esquecido, da conservação – a extinção da população – impele-nos para um caminho novo e esperançoso.

Enquanto a extinção de espécies descreve o desaparecimento global de tipos inteiros de organismos, a extinção de populações representa a perda de elementos geográficos fundamentais das espécies. Os autores argumentam que os conservacionistas colocaram demasiada ênfase na extinção de espécies inteiras, que ocorre de forma suficientemente gradual para que apenas a detectemos nos casos mais graves, altura em que uma acção significativa pode ser impossível. Ao mudar o foco para a identificação de ameaças de extinção a um nível mais localizado da população, podemos intervir de forma mais rápida e eficaz para prevenir declínios mais amplos – e a eventual extinção de espécies inteiras. Esta mudança representa um passo crítico para salvar estas espécies em extinção; a detecção e intervenção precoces podem ser a nossa última e melhor esperança para conter a maré desta crise global.


Usando exemplos do mundo dos vertebrados, invertebrados, plantas, fungos e microorganismos, os autores explicam o conceito de extinção populacional, suas causas e consequências, e como evitar a destruição em massa das criaturas incríveis e únicas com quem compartilhamos nosso planeta. . Este apelo à ação é uma leitura obrigatória para qualquer pessoa preocupada em salvar espécies ameaçadas e em perigo, o nosso mundo natural – e a nós próprios.

Conteúdo

Prefácio / Jared Diamond
Prefácio
Capítulo 1. Das Origens à Extinção
Capítulo 2. A Sexta Extinção em Massa
Capítulo 3. Mamíferos Perdidos e Desaparecidos
Capítulo 4. Canções de pássaros que desapareceram e estão em declínio
Capítulo 5. A Crise Silenciosa: Outros Vertebrados
Capítulo 6. Vítimas Ignoradas: Invertebrados
Capítulo 7. Verde Desaparecido: Plantas – Nosso Tesouro Esmeralda
Capítulo 8. Micróbios: um mundo oculto
Capítulo 9. Defaunação
Capítulo 10. Drivers de Extinção
Capítulo 11. Declínio da Natureza: Os Custos
Capítulo 12. A cura: uma pílula agridoce

Notas
Referências
Índice de Nome Padrão e Científico
Índice de assuntos

Avaliações de Clientes

Biografia

Paul R. Ehrlich é Professor Emérito de Estudos Populacionais do Bing no Departamento de Biologia e presidente do Centro de Biologia da Conservação da Universidade de Stanford. Ele é o autor de A Bomba Populacional e Naturezas Humanas: Genes, Culturas e a Perspectiva Humana .

Gerardo Ceballos , um dos principais ecologistas do mundo, é professor do Instituto de Ecologia da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Ele estabeleceu mais de vinte áreas protegidas no México e é autor ou co-autor de mais de 55 livros. Ehrlich e Ceballos são co-autores de A Aniquilação da Natureza: Extinção Humana de Pássaros e Mamíferos .

Rodolfo Dirzo , um dos principais cientistas conservacionistas do mundo, é Professor Bing de Ciências Ambientais nos Departamentos de Biologia e Ciência de Sistemas Terrestres da Universidade de Stanford e membro sênior do Woods Institute for the Environment.

 

Críticas da mídia

"Ao ler este excelente livro, apreciaremos a maneira como dezenas de milhões de espécies evoluíram juntas ao longo de 4,5 bilhões de anos em nosso planeta, levando à grande extinção de hoje. Altamente recomendado!"
– Peter H. Raven, Universidade de Washington em St.

"Este trabalho magnífico e meticuloso é uma ode à vida. Escrito pelos maiores especialistas da atualidade em perda de biodiversidade, este é um texto científico na sua forma mais verdadeira."
– Sir Partha Dasgupta, Universidade de Cambridge

"Este livro lindamente escrito e ilustrado mostra como todos nós fazemos parte da natureza e tudo o que temos a perder com o declínio no número até mesmo de organismos comuns. Os autores traçam um caminho esperançoso para harmonizar as pessoas e a natureza - e um papel para todos."
– Gretchen C. Daily, Universidade de Stanford

"Este livro nos conecta profundamente com a incrível diversidade de formas de vida com as quais compartilhamos este planeta. Enfrentar a perda de populações de espécies requer uma mudança urgente em direção ao envolvimento de formas significativas, atenciosas e recíprocas com populações de espécies comuns e raras. Este livro representa um convite convincente para fazê-lo."
– Patricia Balvanera, Universidade Nacional Autônoma do México


" Before They Vanish é mais do que apenas um livro; é um apelo às armas. Exorta-nos a confrontar a nossa própria cumplicidade na destruição da biodiversidade e a tomar medidas significativas para salvaguardar as maravilhas do nosso planeta para as gerações vindouras. Com o seu prosa eloquente e otimismo inabalável, este livro é um testemunho do poder do conhecimento, da compaixão e da ação coletiva diante da adversidade."
– Cristina Mittermeier, fotógrafa/conservacionista/cofundadora da SeaLegacy

 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Com floresta, sem fauna

Declínio de populações de animais é um problema tão sério quanto o desmatamento
REINALDO JOSÉ LOPES | Edição 223 - Setembro de 2014


© CÉLIO HADDAD/UNESP
Os anfíbios, como a perereca Phasmahyla cochranae, são muito sensíveis a mudanças ambientais
Os anfíbios, como a perereca Phasmahyla cochranae, são muito sensíveis a mudanças ambientais.

A divulgação anual dos números do desmatamento é crucial para estimar a ameaça a esses biomas, mas traça um retrato incompleto da situação. Mesmo em áreas não desmatadas, a defaunação – como é conhecida a diminuição acentuada da população de animais – avança a passos largos, representando um problema tão importante e difícil de controlar quanto o desmate, segundo um artigo publicado em julho deste ano na revista Science.

O trabalho, coordenado pelo mexicano Rodolfo Dirzo, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, tem entre seus coautores Mauro Galetti, do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro, colaborador de longa data da equipe norte-americana. A revisão na Science reforça o que Galetti e seus colegas no Brasil têm demonstrado nos últimos anos, em especial na mata atlântica: o crescente empobrecimento faunístico dos ecossistemas. “São áreas não desmatadas que estão vazias de animais, inicialmente por causa da pressão da caça, que continua muito presente, mas também por uma série de outros fatores como o corte do palmito juçara, uma importante fonte de alimento para a fauna”, afirma Galetti. O grupo liderado por Dirzo calcula que, no mundo todo, as espécies de vertebrados tenham perdido, em média, pouco menos de um terço de sua população dos anos 1970 para cá.

Alguns vertebrados são atingidos de forma mais severa – mais de 40% das espécies de anfíbios, por exemplo, são consideradas ameaçadas, ante 17% das aves.
É natural que o declínio dos vertebrados seja acompanhado de forma mais assídua tanto pelos pesquisadores quanto pelo público. São, para começar, muito mais visíveis do que a maioria dos invertebrados, e muitos pertencem a espécies consideradas carismáticas, que protagonizam campanhas conservacionistas e acabam se tornando conhecidas. O levantamento publicado na Science, no entanto, reuniu também dados disponíveis sobre invertebrados, chegando à conclusão de que a situação deles provavelmente também inspira preocupação.

Cerca de dois terços dos invertebrados monitorados perderam em média 45% de sua população. “A verdade é que precisamos de mais dados, mas não acho que esse número esteja superestimado”, diz Galetti. “O que acontece é que esses declínios se referem, em geral, a invertebrados que costumavam ser muito abundantes e, por isso, eram acompanhados em trabalhos de campo. O cenário provavelmente seria pior se espécies naturalmente mais raras entrassem na conta.”
© FÁBIO COLOMBINI
Maior herbívoro da mata atlântica, a anta é um agente importante na dispersão de sementes
Maior herbívoro da mata atlântica, a anta é um agente importante na dispersão de sementes.

Efeito dominó

Além das consequências mais óbvias da escassez de animais, como o risco de extinção, a defaunação preocupa porque pode desencadear uma série de efeitos dominó ecológicos: a perda de espécies-chave tende a afetar diversos outros animais e plantas, com repercussões que podem comprometer tanto o funcionamento normal de um ecossistema quanto os serviços ambientais que ele proporciona aos seres humanos, como a fertilidade do solo ou a abundância de água potável.

O efeito é mais óbvio com predadores do topo da cadeia alimentar, como as onças. Sua presença impede que predadores menores sobrepujem os demais, resultando numa diversidade maior desses “súditos” dos felinos.
Herbívoros de grande e médio porte, por sua vez, são os principais responsáveis por dispersar sementes de frutos grandes (as antas desempenham esse papel com maestria), além de atuar também como “arquitetos”, abrindo clareiras e amassando plantas jovens. Até a abundância de anfíbios depende, em alguma medida, do pisoteio das margens de cursos d’água pelos grandes herbívoros, já que esse processo abre depressões onde rãs e sapos podem se abrigar.

Para qualquer tipo de fauna, porém, a situação na mata atlântica não parece ser das melhores. Num trabalho publicado em julho do ano passado na Biological Conservation, Galetti e colegas mapearam a situação de quatro espécies icônicas do bioma: o maior predador (a onça-pintada), o maior herbívoro (a anta), o maior devorador de sementes (a queixada) e o maior dispersor arbóreo de sementes (o muriqui, maior macaco das Américas). Analisando dados de quase 100 locais diferentes, eles chegaram à conclusão de que em 88% dos remanescentes da floresta não há mais nenhuma dessas espécies, e em 96% dos casos pelo menos uma delas está ausente. O pior é que, de acordo com o grupo da Unesp, menos de 20% dos fragmentos remanescentes da mata seriam adequados para abrigar o quarteto de espécies-chave.
A situação não melhora muito quando se analisa um leque mais amplo de espécies de grande e médio porte. Num estudo publicado em 2012 na PLoS ONE, do qual participaram Gustavo Canale, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), e Carlos Peres, da Universidade de East Anglia (Reino Unido), a equipe avaliou a presença de 18 espécies de mamíferos (incluindo, além dos citados acima, tamanduás, tatus e bugios, entre outros) em quase 200 fragmentos de mata atlântica, espalhados por três estados (Minas Gerais, Bahia e Sergipe). Resultado: só quatro das 18 espécies, em média, ainda ocorrem em fragmentos de até 5 mil hectares. E, mesmo em pedaços de mata com área maior do que isso, só sete espécies costumam ocorrer juntas.
© RAIMUNDO PACCÓ / FOLHAPRESS
Macacos grandes como os bugios têm desaparecido de alguns lugares devido à caça excessiva
Macacos grandes como os bugios têm desaparecido de alguns lugares devido à caça excessiva
Nos poucos lugares em que esses animais ainda existem, o temor dos biólogos é de que machos e fêmeas teriam dificuldade para encontrar parceiros. A redução da população também aumentaria o risco de cruzamentos entre parentes próximos, gerando filhotes com problemas congênitos ou dificuldade para resistir a doenças. Os dados disponíveis a respeito das onças-pintadas no bioma sugerem um cenário desse tipo, diz o geneticista Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. “Claramente há uma redução da diversidade, e os fragmentos também vão ficando diferenciados entre si, provavelmente um resultado de intensa deriva genética [perda aleatória de variação]”, afirma (ver Pesquisa FAPESP nº 215).

Pequenas grandes mudanças

No caso dos vertebrados pequenos e dos invertebrados, os danos ecológicos da perda de fauna são claros. Um exemplo é o papel de insetos como polinizadores, em especial as muitas espécies de abelhas – não é por acaso que o declínio das colmeias pelo mundo tem sido fonte de preocupação para agricultores.
No caso dos anfíbios, bem vulneráveis a perturbações ambientais, há registros de declínios populacionais dramáticos em regiões como os Andes e a América Central. Nesses casos, dois fatores podem estar atuando numa sinergia perversa: mudanças climáticas, que esquentam os ambientes frescos e úmidos preferidos pelos anfíbios, e o fungo Batrachochytrium dendrobatidis, que se dá bem nessas condições e pode levar muitas dessas espécies ao desaparecimento.

Boa parte da diversidade remanescente dos anfíbios da mata atlântica se concentra em áreas montanhosas e relativamente mais frias, onde o B. dendrobatidis foi identificado na década passada, o que levou os especialistas a temer uma repetição do cenário dos Andes. Por enquanto, contudo, a situação está se revelando mais complexa, diz a zoóloga Vanessa Kruth Verdade, da Universidade Federal do ABC.
“Os resultados indicam que cada espécie responde de maneira diferente às alterações climáticas. Além disso, descobriu-se que a linhagem do fungo no Brasil é antiga, anterior aos declínios, o que levanta questões sobre a sua importância como causador dos declínios em território nacional”, explica. Embora haja dados sobre perdas populacionais de diversas espécies de anfíbios no país, dimensionar o problema e entender suas causas ainda é um desafio pela falta de dados históricos sobre essas populações e de conhecimento de sua variação natural, afirma Vanessa. De qualquer maneira, o que está claro é que a defaunação acaba fortalecendo o círculo vicioso de empobrecimento da mata. “Ela retroalimenta negativamente o sistema por meio da depauperação da vegetação arbórea, como consequência da desestruturação das comunidades ecológicas”, diz ela.

Um exemplo claro desse fenômeno vem de um grupo inusitado de invertebrados, popularmente conhecidos como besouros rola-bostas. Como o nome sugere, eles comem fezes e usam o excremento produzido por grandes mamíferos para seus ninhos. Em outra pesquisa publicada na Biological Conservation em 2013, Galetti e seus colegas mostraram que, em áreas defaunadas da mata atlântica, uma série de mudanças afetam os besouros coprófagos: a diversidade de espécies desses insetos cai, assim como o tamanho dos besouros, enquanto o número absoluto de indivíduos aumenta. Não se trata de mera curiosidade, porque essas alterações podem ter impacto considerável na maneira como a matéria orgânica é reciclada no solo da mata e, portanto, no crescimento das plantas e numa série de outros parâmetros.

Reconstruindo comunidades
Para Galetti, esses resultados deixam claro que é preciso repensar as ações de recuperação ambiental. “Hoje, existem muitos projetos de criação de corredores ecológicos, plantando árvores, mas reconstituir a fauna é imprescindível, porém muito mais difícil”, explica.

O primeiro e óbvio passo é fazer valer a legislação que proíbe a caça, destaca ele, mas igualmente importante talvez fosse considerar reintroduções de animais levando em conta o papel ecológico de cada um deles no bioma. “Os projetos são pensados em termos da ameaça para aquela espécie em particular. Dependendo da situação, porém, talvez outra espécie fosse igualmente interessante. É claro que é importante recuperar a população do mico-leão-dourado, mas em alguns casos talvez reintroduzir outro frugívoro tenha o mesmo efeito”, compara. Seriam, em outras palavras, “pacotes ecológicos”, incluindo um herbívoro de grande porte, outro de médio porte, predadores pequenos e grandes, por exemplo? “Sim, mas isso teria de ser feito passo a passo – os herbívoros primeiro, por exemplo, depois os carnívoros. É um processo lento de refaunação que teremos que fazer.”

Projeto

Efeitos de um gradiente de defaunação na herbivoria, predação e dispersão de sementes: uma perspectiva na mata atlântica (nº 2007/03392-6); Pesquisador responsável Mauro Galetti (Unesp); Modalidade Projeto Temático; Investimento R$ 692.437,03 (FAPESP).

Artigos científicos

DIRZO, R. et al. Defaunation in the anthropocene. Science. v. 345, n. 6195, p. 401-06, 25 jul. 2014.

CULOT, L. et al. Selective defaunation affects dung beetle communities in continuous Atlantic rainforest. Biological Conservation. v. 163, p. 79-89. jul. 2013.

JORGE, M. L. S. P. et al. Mammal defaunation as surrogate of trophic cascades in a biodiversity hotspot. Biological Conservation. v. 163, p. 49-57. jul. 2013.

CANALE, G. et al. Pervasive defaunation of forest remnants in a tropical biodiversity hotspot. PLoS One, v. 7, n. 8, e41671. 14 ago. 2012.

sábado, 26 de julho de 2014

Na iminência de uma nova extinção?

Dados inquietantes indicam que a sexta extinção em massa de espécies que habitam a Terra não está mais prestes a acontecer. Na verdade, ela já começou. E o ser humano é o principal responsável por esse declínio, dizem pesquisadores. 
 
Por: Henrique Kugler
Publicado em 24/07/2014 | Atualizado em 25/07/2014
Na iminência de uma nova extinção?
Vivemos uma onda global de perda de biodiversidade, impulsionada pela ação humana, e a tendência histórica é que os mamíferos de maior porte, como a anta, sejam extintos mais rapidamente. (foto: Mauro Galetti).
 
Bem-vindo à sexta extinção em massa. Para quem ainda estava na dúvida, vale uma olhadinha na última edição da revista Science: pesquisadores concluem que a valiosa biodiversidade da Terra está sendo dizimada de maneira implacável – não pelos recorrentes processos naturais de extinção; e sim pelas atividades antropogênicas.
É verdade que, na natureza, espécies surgem e desaparecem a todo instante. Mas, de quando em quando, esses eventos assumem proporções drásticas.
E o que é, afinal, uma extinção em massa? Não há consenso sobre as especificidades técnicas desse conceito, mas, em princípio, assume-se que seja um evento no qual, em uma janela de tempo relativamente breve, constata-se o desaparecimento de pelo menos 75% das espécies de um determinado grupo.

Já houve cinco grandes extinções em massa na Terra. Saiba mais sobre elas na linha do tempo interativa abaixo:



“Desde o início das navegações, por volta do século 16, o ser humano levou à extinção 322 espécies de vertebrados”, contabiliza o biólogo Mauro Galetti, do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Nos últimos 40 anos, diversas espécies já tiveram suas populações reduzidas em até 30%, e tudo indica que essa taxa deve aumentar”, complementa o pesquisador. Ele foi um dos autores do estudo publicado na Science, liderado pelo biólogo Rodolfo Dirzo, da Universidade de Stanford (EUA). A publicação é parte de uma série especial que a revista preparou sobre o tema.
A propósito, outro trabalho publicado recentemente na Nature já antecipara diagnóstico semelhante. De acordo com seu autor, o biólogo Anthony Barnosky, da Universidade da Califórnia (EUA), o caso dos répteis é emblemático: os últimos cinco séculos foram pano de fundo para a extinção plena de quase 50% das espécies desse grupo taxonômico.
Mapa de extinções
Elevado número de espécies de mamíferos, anfíbios e aves passa por processo de extinção no sudeste asiático, na Amazônia e nos Andes, como mostra o mapa. Esses animais também têm altas taxas de extinção na Europa e na América do Norte, onde, de modo geral, há menor número de espécies. (imagem: Félix Pharand-Deschênes, Clinton Jenkins, IUCN/Birdlife International/ Science)
Se o cenário é dramático para os animais vertebrados, melhor sorte não tem sido reservada aos invertebrados. “Analisamos o declínio populacional desse grupo e, nos 67% de espécies monitoradas, a queda chegou a 45% ao longo das últimas décadas”, diz Galetti.
“Pesquisadores já constataram que a velocidade de extinções provocadas pela ação antropogênica tem sido mil vezes superior à velocidade com que esse processo ocorreria naturalmente”, acrescenta o biólogo da Unesp. De acordo com a literatura científica, existem atualmente entre 5 e 9 milhões de espécies animais no planeta. “Estamos perdendo algo em torno de 11 mil a 58 mil delas a cada ano.”

Defaunação, muito prazer

Esse declínio populacional acelerado é um processo que a comunidade científica chama de defaunação. “A mídia e o público leigo bem conhecem o termo 'desmatamento', mas pouco é alertado sobre os efeitos da 'defaunação' em nosso planeta”, comenta Galetti.
Galetti: “Tudo indica que já estamos vivenciando a sexta extinção em massa”
Os dados recém-publicados na Science clamam por mais atenção para a preservação da diversidade do mundo animal. “Tudo indica que já estamos vivenciando a sexta extinção em massa”, assegura Galetti. E o Homo sapiens não é mera testemunha ocular. Ele é a causa provável do desaparecimento de boa parte das espécies que estão atualmente em franco declínio populacional. Desmatamento, crescimento desordenado, caça ilegal... São inumeráveis as atividades antropogênicas reputadas como provocadoras do atual cenário de defaunação.
“Uma de nossas maiores preocupações, por incrível que pareça, ainda é a caça ilegal”, diz o biólogo da Unesp. Segundo o pesquisador, a prática ainda acontece com espantosa frequência na Amazônia, no Pantanal, no cerrado e na mata atlântica. “Só na Amazônia, 60 milhões de animais são mortos a cada ano.” Em geral, são mamíferos abatidos para consumo ou comércio: antas, veados, macacos...

Tiro no próprio pé

A pergunta pode parecer ingênua, mas é necessária: por que, afinal, devemos nos importar com o desaparecimento de espécies animais? “Não é apenas porque os bichos são ‘bonitinhos’; é porque eles fornecem serviços ambientais imprescindíveis à sobrevivência de nossa espécie”, responde Galetti. “Nosso trabalho alerta que o declínio da população animal tem notável impacto sobre o bem-estar da própria humanidade”, destaca.

Exemplos disso não faltam. Um caso clássico é o da onça (Panthera onca), predador que regula, entre outras coisas, a população de capivaras nas regiões onde vive.

O que poucos sabem é que a capivara carrega o carrapato-estrela (Amblyomma cajennense), um inoportuno aracnídeo que provoca a temida febre maculosa – doença infecciosa grave e potencialmente fatal para o ser humano. “Há muitos casos em São Paulo”, situa Galetti.

Logo, a relação é clara: dizimar a população de onças em um determinado bioma significa aumentar as chances de sermos contaminados por uma doença que pode nos levar à morte. Ainda existe um bom número de onças vagando pela Amazônia e pelo Pantanal. “Mas, em toda a mata atlântica, o número de espécimes já não passa de 50”, ressalta o pesquisador. Por isso, a onça é considerada um animal funcionalmente extinto: com número tão reduzido de indivíduos, a espécie não é mais capaz de exercer seu papel ecológico no ecossistema.
Macaco mono-carvoeiro
Habitante da mata atlântica, o macaco mono-carvoeiro (‘Brachyteles arachnoides’) é o maior primata da América. Ele e outros grandes primatas têm desaparecido dos ecossistemas tropicais. (foto: Pedro Jordano)
Outro exemplo é o do mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia). Sua preservação é mais que um mero ato de benevolência – pois, na verdade, esse primata é um eficiente dispersor de sementes. E essas sementes são a gênese de uma rica vegetação que, por sua vez, servirá de filtro biológico para proteger rios e córregos que, em última instância, serão fonte de água potável.
“Nas florestas do estado do Rio de Janeiro, o mico-leão-dourado foi quase extinto”, lembra Galetti. Mas, graças a um bem-sucedido projeto de refaunação, foi possível recriá-lo em cativeiro e reinseri-lo em seu hábitat. Hoje, após três décadas de esforço, mais de mil macaquinhos vivem nas matas de onde estavam prestes a desaparecer. “É muito mais barato proteger esse primata do que investir em sistemas complexos para despoluir nossa água”, garante o biólogo da Unesp.
Falando nisso, poucos atentam para o papel importante que exercem anfíbios como sapos e pererecas. Eles regulam a população de algas. Portanto, também são essenciais para a manutenção da qualidade da água.
Galetti: Não restam dúvidas de que o declínio da população animal afeta o ser humano das mais diversas maneiras, desde a economia até a transmissão de doenças.
 
E quanto aos insetos?

A defaunação de abelhas por causa de doses mortíferas de inseticidas – principalmente na Europa – tem deixado pesquisadores de cabelo em pé. Galetti explica: “Insetos polinizam 75% da produção agrícola do mundo; a redução na fauna de abelhas e outros polinizadores pode prejudicar a produção de alimentos.”
Ainda no terreno da agricultura, animais como morcegos e pássaros também controlam diversos tipos de pragas que podem arruinar plantações. “Nos Estados Unidos, os serviços ambientais prestados por esses predadores é estimado em 45 bilhões de dólares ao ano”, diz Galetti. “Não restam dúvidas de que a defaunação afeta o ser humano das mais diversas maneiras, desde a economia até a transmissão de doenças”, conclui.

Dívida ecológica: recuperação de espécies

Não adianta apenas preservar áreas naturais ou reflorestar territórios outrora degradados. É preciso que esses locais recuperem a biodiversidade animal. Por isso, são cada vez mais comuns os projetos de refaunação – que se baseiam, essencialmente, na reinserção de espécies ameaçadas em seus hábitats originais. A estratégia foi tema de outro artigo publicado no especial da Science.

Há diversos casos de sucesso no mundo. O do mico-leão-dourado, no Rio de Janeiro, é um deles. Na Europa, também se fala muito em iniciativas do tipo. Escoceses conseguiram recuperar, após um declínio populacional crítico provocado pela caça, os porcos selvagens – que exercem por aquelas bandas papel importante ao dispersar sementes e arar o solo.

E quanto à ideia – temerosa, segundo alguns – de reviver espécies já extintas por meio de técnicas de DNA? É o que cientistas chamam de desextinção (do inglês, de-extinction). O tema tem sido exaustivamente debatido ao longo dos últimos meses. Mas nada sugere que estejamos próximos de um consenso ético a respeito do assunto. “Há um detalhe", lembra Galetti. "Mesmo se resgatada artificialmente, uma espécie que desapareceu há tanto tempo pode não conseguir voltar a exercer seu papel ecológico na natureza.”