Na iminência de uma nova extinção?
Dados inquietantes indicam que a sexta extinção em massa de
espécies que habitam a Terra não está mais prestes a acontecer. Na
verdade, ela já começou. E o ser humano é o principal responsável por
esse declínio, dizem pesquisadores.
Por:
Henrique Kugler
Publicado em 24/07/2014
|
Atualizado em 25/07/2014
Vivemos uma onda global de perda de biodiversidade,
impulsionada pela ação humana, e a tendência histórica é que os
mamíferos de maior porte, como a anta, sejam extintos mais rapidamente.
(foto: Mauro Galetti).
Bem-vindo à sexta extinção em massa. Para quem ainda estava na dúvida, vale uma olhadinha na última edição da revista
Science:
pesquisadores concluem que a valiosa biodiversidade da Terra está sendo
dizimada de maneira implacável – não pelos recorrentes processos
naturais de extinção; e sim pelas atividades antropogênicas.
É verdade que, na natureza, espécies surgem e desaparecem a todo
instante. Mas, de quando em quando, esses eventos assumem proporções
drásticas.
E o que é, afinal, uma extinção em massa? Não há consenso sobre as
especificidades técnicas desse conceito, mas, em princípio, assume-se
que seja um evento no qual, em uma janela de tempo relativamente breve,
constata-se o desaparecimento de pelo menos 75% das espécies de um
determinado grupo.
Já houve cinco grandes extinções em massa na Terra. Saiba mais sobre elas na linha do tempo interativa abaixo:
“Desde
o início das navegações, por volta do século 16, o ser humano levou à
extinção 322 espécies de vertebrados”, contabiliza o biólogo Mauro
Galetti, do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista
(Unesp). “Nos últimos 40 anos, diversas espécies já tiveram suas
populações reduzidas em até 30%, e tudo indica que essa taxa deve
aumentar”, complementa o pesquisador. Ele foi um dos autores do
estudo publicado na Science, liderado pelo biólogo Rodolfo Dirzo, da Universidade de Stanford (EUA). A publicação é parte de uma
série especial que a revista preparou sobre o tema.
A propósito,
outro trabalho publicado recentemente na
Nature
já antecipara diagnóstico semelhante. De acordo com seu autor, o
biólogo Anthony Barnosky, da Universidade da Califórnia (EUA), o caso
dos répteis é emblemático: os últimos cinco séculos foram pano de fundo
para a extinção plena de quase 50% das espécies desse grupo taxonômico.

- Elevado número de
espécies de mamíferos, anfíbios e aves passa por processo de extinção no
sudeste asiático, na Amazônia e nos Andes, como mostra o mapa. Esses
animais também têm altas taxas de extinção na Europa e na América do
Norte, onde, de modo geral, há menor número de espécies. (imagem: Félix
Pharand-Deschênes, Clinton Jenkins, IUCN/Birdlife International/
Science)
Se o cenário é dramático para os animais vertebrados, melhor sorte
não tem sido reservada aos invertebrados. “Analisamos o declínio
populacional desse grupo e, nos 67% de espécies monitoradas, a queda
chegou a 45% ao longo das últimas décadas”, diz Galetti.
“Pesquisadores já constataram que a velocidade de extinções provocadas pela
ação antropogênica
tem sido mil vezes superior à velocidade com que esse processo
ocorreria naturalmente”, acrescenta o biólogo da Unesp. De acordo com a
literatura científica, existem atualmente entre 5 e 9 milhões de
espécies animais no planeta. “Estamos perdendo algo em torno de 11 mil a
58 mil delas a cada ano.”
Defaunação, muito prazer
Esse declínio populacional acelerado é um processo que a comunidade
científica chama de defaunação. “A mídia e o público leigo bem conhecem o
termo 'desmatamento', mas pouco é alertado sobre os efeitos da
'defaunação' em nosso planeta”, comenta Galetti.
Galetti: “Tudo indica que já estamos vivenciando a sexta extinção em massa”
Os dados recém-publicados na
Science clamam por mais atenção
para a preservação da diversidade do mundo animal. “Tudo indica que já
estamos vivenciando a sexta extinção em massa”, assegura Galetti. E o
Homo sapiens
não é mera testemunha ocular. Ele é a causa provável do desaparecimento
de boa parte das espécies que estão atualmente em franco declínio
populacional. Desmatamento, crescimento desordenado, caça ilegal... São
inumeráveis as atividades antropogênicas reputadas como provocadoras do
atual cenário de defaunação.
“Uma de nossas maiores preocupações, por incrível que pareça, ainda é
a caça ilegal”, diz o biólogo da Unesp. Segundo o pesquisador, a
prática ainda acontece com espantosa frequência na Amazônia, no
Pantanal, no cerrado e na mata atlântica. “Só na Amazônia, 60 milhões de
animais são mortos a cada ano.” Em geral, são mamíferos abatidos para
consumo ou comércio: antas, veados, macacos...
Tiro no próprio pé
A pergunta pode parecer ingênua, mas é necessária: por que, afinal,
devemos nos importar com o desaparecimento de espécies animais? “Não é
apenas porque os bichos são ‘bonitinhos’; é porque eles fornecem
serviços ambientais imprescindíveis à sobrevivência de nossa espécie”,
responde Galetti. “Nosso trabalho alerta que o declínio da população
animal tem notável impacto sobre o bem-estar da própria humanidade”,
destaca.
Exemplos disso não faltam. Um caso clássico é o da onça (
Panthera onca),
predador que regula, entre outras coisas, a população de capivaras nas
regiões onde vive.
O que poucos sabem é que a capivara carrega o
carrapato-estrela (
Amblyomma cajennense),
um inoportuno aracnídeo que provoca a temida
febre maculosa – doença
infecciosa grave e potencialmente fatal para o ser humano. “Há muitos
casos em São Paulo”, situa Galetti.
Logo, a relação é clara: dizimar a população de onças em um
determinado bioma significa aumentar as chances de sermos contaminados
por uma doença que pode nos levar à morte. Ainda existe um bom número de
onças vagando pela Amazônia e pelo Pantanal. “Mas, em toda a mata
atlântica, o número de espécimes já não passa de 50”, ressalta o
pesquisador. Por isso, a onça é considerada um animal funcionalmente
extinto: com número tão reduzido de indivíduos, a espécie não é mais
capaz de exercer seu papel ecológico no ecossistema.

- Habitante da mata
atlântica, o macaco mono-carvoeiro (‘Brachyteles arachnoides’) é o maior
primata da América. Ele e outros grandes primatas têm desaparecido dos
ecossistemas tropicais. (foto: Pedro Jordano)
Outro exemplo é o do
mico-leão-dourado (
Leontopithecus rosalia).
Sua preservação é mais que um mero ato de benevolência – pois, na
verdade, esse primata é um eficiente dispersor de sementes. E essas
sementes são a gênese de uma rica vegetação que, por sua vez, servirá de
filtro biológico para proteger rios e córregos que, em última
instância, serão fonte de água potável.
“Nas florestas do estado do Rio de Janeiro, o mico-leão-dourado foi
quase extinto”, lembra Galetti. Mas, graças a um bem-sucedido projeto de
refaunação, foi possível recriá-lo em cativeiro e reinseri-lo em seu
hábitat. Hoje, após três décadas de esforço, mais de mil macaquinhos
vivem nas matas de onde estavam prestes a desaparecer. “É muito mais
barato proteger esse primata do que investir em sistemas complexos para
despoluir nossa água”, garante o biólogo da Unesp.
Falando nisso, poucos atentam para o papel importante que exercem
anfíbios como sapos e pererecas. Eles regulam a população de algas.
Portanto, também são essenciais para a manutenção da qualidade da água.
Galetti: Não restam dúvidas de que o declínio da população animal afeta o ser humano das mais
diversas maneiras, desde a economia até a transmissão de doenças.
E quanto aos insetos?
A defaunação de abelhas
por causa de doses mortíferas de inseticidas
– principalmente na Europa – tem deixado pesquisadores de cabelo em pé.
Galetti explica: “Insetos polinizam 75% da produção agrícola do mundo; a
redução na fauna de abelhas e outros polinizadores pode prejudicar a
produção de alimentos.”
Ainda no terreno da agricultura, animais como morcegos e pássaros
também controlam diversos tipos de pragas que podem arruinar plantações.
“Nos Estados Unidos, os serviços ambientais prestados por esses
predadores é estimado em 45 bilhões de dólares ao ano”, diz Galetti.
“Não restam dúvidas de que a defaunação afeta o ser humano das mais
diversas maneiras, desde a economia até a transmissão de doenças”,
conclui.
Dívida ecológica: recuperação de espécies
Não adianta apenas preservar áreas naturais ou reflorestar
territórios outrora degradados. É preciso que esses locais recuperem a
biodiversidade animal. Por isso, são cada vez mais comuns os projetos de
refaunação – que se baseiam, essencialmente, na reinserção de espécies
ameaçadas em seus hábitats originais. A estratégia foi tema de
outro artigo publicado no especial da
Science.
Há diversos casos de sucesso no mundo. O do mico-leão-dourado, no Rio
de Janeiro, é um deles. Na Europa, também se fala muito em iniciativas
do tipo. Escoceses conseguiram recuperar, após um declínio populacional
crítico provocado pela caça, os porcos selvagens – que exercem por
aquelas bandas papel importante ao dispersar sementes e arar o solo.
E quanto à ideia – temerosa, segundo alguns – de reviver espécies já
extintas por meio de técnicas de DNA? É o que cientistas chamam de
desextinção (do inglês,
de-extinction). O tema tem sido
exaustivamente debatido ao longo dos últimos meses.
Mas nada sugere que estejamos próximos de um consenso ético a respeito
do assunto. “Há um detalhe", lembra Galetti. "Mesmo se resgatada
artificialmente, uma espécie que desapareceu há tanto tempo pode não
conseguir voltar a exercer seu papel ecológico na natureza.”