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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

 A história evolutiva dos dentes

Até que ponto conservamos as características de nossos antepassados? E o que nossos dentes podem dizer sobre nós?

 

As Teorias da Evolução não são novidade para ninguém. Todos aprendemos desde os tempos de escola que somos “descendentes” dos macacos. 

 

Ao longo das eras, os seres vivos precisaram se adaptar ao meio ambiente para garantirem sua sobrevivência. Será que, depois de tantos anos de existência, nossos dentes continuam da mesma maneira que eram na pré-história? 

 

Nem tudo mudou

 

A maioria das pessoas possui a ideia de que carregamos muito pouco das características de nossos ancestrais. Entretanto, muitas coisas são mantidas.

 

Durante a pré-história, a dentição era muito mais utilizada do que hoje em dia, o que não é novidade. Os alimentos eram mais duros, nem sempre eram cozidos, mais difíceis de mastigar e, consequentemente, exigiam um esforço maior da dentição.

 

Para que os dentes pudessem cumprir bem seu papel de cortar e triturar os alimentos, bem como suas funções paramastigatórias, a arcada dentária encontrava-se no padrão denominado “alternação”. Nesse padrão, cada dente inferior relaciona-se diretamente com o superior de mesmo número e com o dente ao lado deste.

 

Mesmo com a mudança na função dos dentes hoje em dia – já que antes eles também eram utilizados para perfurar e rasgar, e não apenas mastigar e triturar – o padrão de dentição utilizado pelos homens da pré-história permanece o mesmo. É uma das heranças que carregamos de nossos ancestrais. 


Arcadas em padrão "alternação"

 

A dentição do ser humano e dos outros primatas é bastante parecida. Assim como o homem, o chimpanzé também possui 32 dentes divididos em duas arcadas de 16 cada um. A arcada dentária do primeiro hominídeo – surgido há mais de 4 milhões de anos – possui grandes semelhanças com a do Homo sapiens, quando levamos em consideração o número de dentes. 

 


Comparação das arcadas dentárias de chimpanzé,
do hominídeo A. afarensis e do Homem moderno.

 

Onde estão as diferenças

 

É claro que com o passar dos anos nossa dentição sofreu algumas mudanças, ela não permanece a mesma há 4 milhões de anos. Podemos citar, entre as diferenças existentes, os dentes caninos. 

 

Os homens não possuem os caninos acentuados desde cedo, como acontece com os chimpanzés – e com outras espécies de primatas – que utilizam esses dentes para competir entre os membros do grupo e impor dominância. 

 

Tanto os caninos como os outros dentes dos seres humanos costumam ser menores e menos especializados, prova de uma sociedade menos competitiva, pelo menos nesse quesito. Eles foram diminuindo ao longo da evolução dos hominídeos, desde o Australopithecus anamensis até o Homo sapiens.

 

Outro ponto marcante na arcada dentária dos seres humanos são os molares com cinco saliências ou coroas, enquanto os mesmos dentes nos macacos apresentam apenas quatro.

 

A mandíbula dos seres humanos também é menor quando comparada à dos macacos. A diminuição do tamanho da mandíbula coincide com o início da utilização do fogo, que passou a exigir um esforço menor da arcada dentária. 

 

Se não fosse a utilização do fogo, nossa estrutura dentária nos manteria restritos a uma dieta de frutos e outros alimentos fáceis de mastigar. O fogo nos permitiu ter uma dieta mais variada, inclusive com carnes e grãos duros. 

 

O caminho das pesquisas

 

A evolução dos dentes ao longo da História é um assunto bastante pesquisado. Só no Brasil – que não é um país tão rico em fósseis quando comparado a países como Chile, Argentina ou Mongólia – são inúmeras as pesquisas que abordam esse assunto. 

 

O professor Sérgio Line da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) é um dos grandes nomes quando se fala em pesquisas nessa área. Nos últimos 10 anos, Sérgio tem se dedicado ao estudo das estruturas dos dentes, principalmente o esmalte. 

 

Os estudos do professor da FOP o levaram a descobrir que as bandas presentes no esmalte dos dentes são únicas para cada pessoa. Ou seja, cada ser humano possui sua impressão digital e sua impressão dental (Clique aqui para conhecer mais sobre essa técnica)

 


Sequência de identificação de impressão dental.

 

Além de servir como fonte de identificação de cada indivíduo, a análise do esmalte dentário pode ajudar, e muito, a descobrir o período ao qual o ser vivo em questão pertence.

 

A partir de seus estudos, Sérgio Line chegou à conclusão que alguns mamíferos herbívoros que viveram há mais de 60 milhões de anos só conseguiram aumentar de tamanho graças a uma adaptação no esmalte dos dentes. 

 

Após a extinção dos dinossauros, os mamíferos passaram a colonizar o planeta. Sem seus piores predadores, eles passaram a viver mais e, consequentemente, ficaram maiores. Isso exigiu que esses animais consumissem mais energia.

 


Pampatério - tatu gigante que habitou o planeta 
   há 60 milhões de anos.

 

Como a alimentação é a principal fonte de aquisição de energia, a dentição passou a ser mais exigida e foi necessária uma adaptação para suportar o desgaste. Foi justamente para suportar esse desgaste que o esmalte dos dentes desses mamíferos era composto por bandas verti-cais, enquanto o mais comum são bandas horizontais. 

 

As bandas verticais no esmalte são mais resistentes à abrasão, além de retardarem o desgaste dentário. Essa é uma adaptação bastante rara, já que, com exceção do rinoceronte, todos os mamíferos encontrados hoje em dia apresentam bandas horizontais. 

 

Esse estudo realizado por Sérgio Line juntamente com a professora Lílian Paglarelli Bergqvist da UFRJ foi publicado na revista norte-americana Journal of Vertebrate Paleontology, em dezembro de 2005. Ainda há muito a ser pesquisado e, quanto mais caminhamos, mais chegamos à conclusão de que, por trás dos dentes, há muito mais informações do que pensamos.

domingo, 18 de outubro de 2020

 

Solucionado o enigma do dente do siso

A diminuição do terceiro molar em nossa espécie deriva de um mecanismo universal entre os mamíferos.

A caveira de um “Homo ergaster” do Quênia, incluída no estudo.
A caveira de um “Homo ergaster” do Quênia, incluída no estudo.David Hocking


Para que eles existem? Aparecem tão tarde que já não fazem falta alguma, e isso quando aparecem. Às vezes, eles se escondem de forma intrincada, enriquecendo os dentistas, ou empurram os outros dentes causando dor e machucados. São os dentes do siso. Quem os inventou? Qual foi a força evolutiva que teve a ideia de bolar esse estorvo buco-dental? Fez o mesmo mal com o nosso cérebro? Este é o enigma evolutivo dos dentes do siso e que acaba de ser solucionado por cientistas australianos. A resposta, em resumo: nós, humanos, não somos nem mesmo os únicos que tem isso.

Nossos ancestrais, os hominídeos (homininos, tecnicamente), tinham um terceiro molar decente: até quatro vezes maior do que o nosso, e com uma superfície plana obviamente adaptada para mastigar. Nunca se entendeu muito bem como essa obra-prima da natureza se deteriorou a ponto de produzir o nosso dente do siso, embora não tenham faltado hipóteses elaboradas sob medida para explica-lo: ora as mudanças de dieta, ora este ou aquele avanço cultural, ou, em todos os casos, algumas teorias que delegam à seleção natural a árdua tarefa de destruir um dente sem mexer muito nos outros. E que, é claro, são exclusivas da evolução humana, sem precedentes nos 600 milhões de anos de história animal.

A bióloga do desenvolvimento Kathryn Kavanagh, da Universidade Massachusetts em Dartmouth, propôs em 2007 um modelo teórico do desenvolvimento da dentição nos mamíferos. Ela se baseava em dados obtidos com ratos e explicava os resultados, que eram bastante complicados, com um modelo simples de “inibição em cascata”: quando um dente se desenvolve, emite sinais que ativam ou reprimem os seus vizinhos, e a proporção entre esses dois sinais determina o tamanho dos dentes vizinhos.

Um dos colegas de Kavanagh naquele trabalho, Alistair Evans, da Universidade Monash em Victoria (Austrália), lidera hoje uma pesquisa publicada pela Nature em que aquele modelo se estende aos hominídeos. O estudo revela que o modelo da inibição em cascata de Kavanagh pode explicar desde a degeneração do terceiro molar nos australopitecos até o modesto e incômodo dente do siso que oprime o Homo sapiens.

Nossos ancestrais tinham um terceiro molar decente: até quatro vezes maior do que o nosso, e com uma superfície plana obviamente adaptada para mastigar

Nos hominídeos mais primitivos — os mais próximos do chimpanzé, como os ardipitecos, australopitecos e parantropos —, a variação do tamanho e das formas relativas dos molares é meramente em função da posição: os dentes tendem a crescer mais na parte posterior da boca, o que provoca o gigantismo do terceiro molar, e as proporções entre alguns dentes e outros são constantes, sem que o tamanho global da dentição no seu conjunto importe muito.

No entanto, há cerca de dois milhões de anos, com o surgimento do nosso gênero (Homo), essas regras gerais se alteraram um pouco: os tamanhos relativos dos dentes passaram a depender do tamanho global da dentição. Isso fez com que a redução do tamanho global da dentição, que é própria da modernidade evolutiva, causasse uma diminuição desproporcional do terceiro molar. Ou seja: o dente do siso seria explicado pela existência de um mecanismo geral, que não precisou exigir coisas muito esquisitas para transformar o terceiro molar em um estorvo ridículo.

De um ponto de vista dental, deixamos de ser vítimas de uma evolução cruel e passamos a ser vítimas da simplicidade matemática. Um avanço e tanto.