Origem e diversidade genética de tangerinas, laranjas e limões
MARIA GUIMARÃES |
Edição 221 - Julho de 2014
© LÉO RAMOS

Quem
está acostumado a consumir laranjas, tangerinas e limões à venda nos
supermercados pode ter uma surpresa prazerosa no Centro de Citricultura
Sylvio Moreira em Cordeirópolis, no interior paulista. Entre pequenas
árvores mantidas em estufas e um enorme pomar com plantas adultas, ali
está uma coleção com mais de 1.700 tipos de frutas cítricas. Entre elas,
quase 700 variedades de laranjas doces – aquelas adequadas para consumo
em sucos ou
in natura
– e quase 300 de tangerinas. A degustação de frutos de árvores
diferentes nesse centro de pesquisa ligado ao Instituto Agronômico de
Campinas (IAC), da Secretaria de Agricultura, revela uma riqueza
surpreendente de sabores e texturas. “Todo material que a citricultura
brasileira tem passou por aqui em algum momento”, resume o agrônomo
Marcos Machado, pesquisador do Centro de Citricultura e coordenador do
Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Genômica para Melhoramento
de Citros (INCT Citros).
Ao longo dos 85 anos de existência do centro, pesquisadores cruzaram
variedades diferentes em busca, principalmente, de produzir plantas
resistentes a doenças. Partindo de cruzamentos tradicionais, quase como
os que deram origem aos cítricos que chegam ao público desde a
domesticação dessas espécies, o centro foi enriquecendo seu arsenal de
técnicas com a disponibilidade de informações genéticas. Até agora esse
conhecimento se concentrou no uso de marcadores moleculares para
caracterizar cruzamentos, avaliando quais descendentes da mistura entre
duas variedades (ou espécies) receberam o material genético de interesse
dos pesquisadores. Mas agora a era genômica chegou ao Centro de
Citricultura, abrindo novas possibilidades.
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Cicatriz do enxerto: limão-cravo serve de cavalo para laranjeiras
O primeiro grande passo, que rendeu um artigo publicado em junho no
site da
Nature Biotechnology,
trouxe revelações inesperadas sobre a origem das laranjas e tangerinas
que hoje existem. Já se sabia que as frutas cítricas não são espécies
naturais, mas híbridos aprimorados por cruzamentos naturais ao longo dos
últimos milhares de anos. Mas não há registros dessa história da
domesticação do gênero
Citrus, que começou no Sudeste da Ásia.
“Sabíamos que havia misturas, mas não tínhamos detalhes”, conta o
biólogo Marco Takita, um dos autores.
Uma surpresa foi descobrir que algumas tangerinas, que se precisava serem variações da espécie ancestral
C. reticulata, na verdade contêm em seu genoma vários trechos de outra espécie, a toranja (
C. maxima).
Esta é como se fosse uma laranja enorme, com até um quilograma, explica
Takita, que não é consumida por aqui. É usada como fonte de diversidade
genética em programas de melhoramento e, agora se sabe, participou nos
cruzamentos que resultaram na tangerina poncã, que por seu sucesso
comercial no Brasil foi sequenciada no Centro de Citricultura, com
recursos do INCT Citros, que tem financiamento da FAPESP e do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “É
importante saber que a toranja serviu como fonte genética”, afirma o
pesquisador.
O estudo encontrou também uma espécie inesperada. A tangerina chinesa conhecida como
mangshan, que se considerava ter a mesma origem das outras tangerinas, é na verdade uma espécie distinta,
C. mangshanensis, que parece ter um parentesco distante com a
C. reticulata.
Outra surpresa para os consumidores vem da laranja doce, que nas
feiras brasileiras são vendidas como laranja-pera, baía ou lima, em suas
variedades mais comuns. Uma mistura de
C. reticulata e
C. maxima,
essas laranjas na verdade compartilham uma semelhança genética com
tangerinas como a poncã em boa parte do genoma. Os resultados revelam
uma diversidade genética muito pequena entre laranjas do tipo doce e
tangerinas a partir de uma origem comum. “O desafio agora é entender por
que elas são tão parecidas geneticamente e tão diferentes no paladar,
por exemplo”, diz Takita.
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Banco de germoplasma abriga grande diversidade de cítricos.
A laranja-azeda, usada, por exemplo, para fazer doces, é também um
híbrido das espécies ancestrais da toranja e das tangerinas. As
inferências que se podem fazer hoje a partir dos estudos genômicos,
como se o filme fosse recriado do presente para o passado, indicam que o
surgimento dessas frutas na natureza parece ter acontecido no sudeste
asiático há alguns milhares de anos, antes de serem distribuídas pelo
mundo.
O consórcio de pesquisadores em busca de genomas cítricos começou a
ser formado em 2005, com participação ativa dos pesquisadores do Centro
de Citricultura. Depois de quase 10 anos de trabalho, porém, em que se
tinha avançado com o sequenciamento de uma clementina espanhola, um tipo
de mexerica, um grupo chinês se adiantou e publicou o genoma da laranja
doce na revista
Nature. Com resultados semelhantes em mãos, o
grupo internacional decidiu ampliar o trabalho. “Sequenciamos mais seis
genomas e produzimos uma discussão mais elaborada, que chega a contestar
alguns pontos do trabalho chinês”, conta Machado.
Os resultados mostram por que, no caso dessas plantas, cada vez se
sabe menos o que é uma espécie. “Há quem diga que existem 163 espécies
de
Citrus, outros distinguem somente 16”, exemplifica o
pesquisador. “Lineu classificou seis”, completa, referindo-se ao
naturalista sueco tido como pai da classificação dos seres vivos, por
ter criado no século XVIII o sistema binomial de denominação científica
usado até hoje.
Melhoramento
Com esse ponto de partida, Machado acredita que o enfoque genômico
seja uma forma de “pensar alto sem tirar os pés do chão”. O grupo
brasileiro já começou a estudar a ancestralidade do limão, que tem
origem na espécie
C. medica, com o sequenciamento do limão-cravo.
A seleção não foi ao acaso: por sua capacidade de crescer em condições
mais áridas, esse tipo de limão é usado em 85% da citricultura paulista
como porta-enxerto para laranjas e tangerinas. “O norte do estado tem as
melhores características para a produção de laranja para suco, mas o
clima mais seco exigiria uma irrigação inviável”, explica. O estudo
genômico pode ajudar a identificar a base genética para essa
resistência, assim como identificar genes associados a determinadas
características para direcionar os cruzamentos e talvez até conseguir em
laboratório a transferência de genes, chamada de cisgenia pelos
especialistas (distinta da transgenia por envolver espécies de um mesmo
grupo que podem gerar híbridos naturais).
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Germinação em laboratório: variações genéticas controladas.
Com a importância econômica dos cítricos, esses estudos são
essenciais não só para atender a demandas do mercado e orientar a busca
por novas variedades e aperfeiçoamento do sabor e outras qualidades das
frutas, mas também para fazer frente a doenças. No caso das laranjas,
destacam-se a clorose variegada dos citros (CVC), causada pela bactéria
Xylella fastidiosa, e a
huanglongbing, ou
greening, que entrou no Brasil há 10 anos e ameaça os pomares.
As tangerinas são resistentes à CVC, mas suscetíveis à
huanglongbing,
além de sofrerem com a mancha marrom de alternária, uma doença causada
por fungo que provoca manchas nas folhas e frutos, e causa perda de
folhas. A homogeneidade genética destacada no estudo da
Nature Biotechnology
deixa claro por que os cítricos são presas fáceis de microrganismos que
atacam as plantações: quando uma árvore não consegue resistir a uma
doença, as outras do mesmo tipo também não conseguem, já que são muito
parecidas. Por isso, uma grande parte das atividades do Centro de
Citricultura envolve produzir variedades resistentes a essas doenças.
“Alguns cruzamentos entre tangerinas, por exemplo, produzem frutas que
não têm valor direto para consumo, mas geram variabilidade genética
importante”, explica a engenheira agrônoma Mariângela Cristofani-Yali.
Publicações recentes do grupo do Centro de Citricultura, como na revista
Journal of Agricultural Science em 2013 e deste ano na
Bragantia, expõem resultados dos esforços para a criação de novas possibilidades de porta-enxerto e de variedades produtoras de frutos.
“Primeiro introduzimos a resistência, e depois voltamos a buscar a
qualidade da fruta”, conta a pesquisadora. Para avaliar as
possibilidades dos cruzamentos para a produção de novas variedades para
suco ou consumo direto, toda a população do Centro de Citricultura –
pesquisadores, estudantes e funcionários – acaba servindo como cobaia em
experimentos de avaliação sensorial, que levam em conta o julgamento de
características como cor, sabor e facilidade de descascar, como mostra
artigo de 2013 no
Journal of Agricultural Science. Além disso, as
plantas são também classificadas quanto à sua produtividade, rendimento
de suco e época de frutificação, entre outras características.
A produção acadêmica é uma faceta da personalidade desse centro de
pesquisa no interior paulista. O outro lado de sua vocação é contribuir
para o aprimoramento dessa cultura em que o Brasil tem destaque como o
maior produtor de laranja do mundo e o terceiro em mexericas, tangerinas
e afins. A China ocupa o posto de maior produtor mundial de cítricos,
mas se concentra sobretudo em tangerinas. “Com as novas técnicas podemos
juntar o básico com o aplicado, criar uma plataforma para coisas
novas”, planeja Machado.
Mas o mercado brasileiro é também uma limitação. Grande parte das
laranjas plantadas no país se destina aos sucos concentrados, de maneira
que a indústria tem controle sobre a produção. O interesse principal é
quanto suco há nas frutas, além de um preço baixo, o que criou uma crise
entre plantadores de laranjas. Nos cálculos de Machado, na última
década cerca de 10 mil citricultores abandonaram a produção. Mas ele
avalia que essa crise pode acabar por ter consequências positivas para o
consumidor. Se os pesquisadores de Cordeirópolis tiverem razão, nos
próximos anos mais citricultores aceitarão experimentar o plantio de
variedades produzidas como resultado de seu trabalho, e os mercados e
feiras podem passar a oferecer uma diversidade maior de cítricos para
serem consumidos como frutas de mesa. Uma perspectiva que dá água na
boca.
Projetos
1. Plataforma genômica aplicada ao melhoramento de citros (
nº 08/57909-2);
Modalidade Projeto Temático;
Pesquisador responsável Marcos Antonio Machado (IAC);
Investimento R$ 3.533.624,89 (FAPESP).
2. Obtenção e avaliação de novas variedades de copas e porta-enxertos para citricultura de mesa (
nº 11/18605-0);
Modalidade Projeto Temático;
Pesquisadora responsável Mariângela Cristofani-Yaly (IAC);
Investimento R$ 859.670,11
Artigo científico
WU, G. A.
et al.
Sequencing of diverse mandarin, pummelo and orange genomes reveals complex history of admixture during citrus domestication.
Nature Biotechnology. On-line, 8 jun. 2014 (FAPESP).