A Origem dos nomes dos Meses e do Ano Bissexto
As mudanças nos calendários ao longo da história.
por José Augusto Carvalho*
No calendário de Rômulo, o primeiro rei de Roma e seu fundador,
o ano começava em março e tinha dez meses, cujos nomes primitivos eram
Martius (em homenagem ao deus da guerra, Marte), Aprilis (nome
relacionado a Apros ou Afros, designativo de Afrodite, nome grego da
deusa Vênus, a quem
abril 
era dedicado); Majus (em homenagem à deusa Maia, uma das Atlântidas,
amada de Júpiter e mãe de Mercúrio), Junius (em homenagem à deusa Juno,
equivalente à deusa Hera dos gregos), Quintilis, Sextilis, September,
October, November e December. A relação de aprilis com aperire (abrir)
surgiu posteriormente, na vigência do calendário de Numa Pompílio, por
ser abril o mês da primavera, em que "todas as coisas se abrem".
Numa Pompílio (circa 715-circa 672 a.C.), sucessor de Rômulo,
querendo igualar a contagem do tempo romano à dos gregos e fenícios,
reformou o calendário de Rômulo, instituindo os meses de Januarius (em
homenagem ao deus Janus, protetor dos lares) e Februarius, do latim
februus, adjetivo de primeira classe que significa "o que purifica,
purificador". No mês de fevereiro, realizavam-se cerimônias de
purificação, como sacrifícios expiatórios e os ritos de purificação
chamados "lupercálias a". As
lupercálias 
eram festas em homenagem a Pã, realizadas no dia 15 de fevereiro, em
que jovens saíam nus da gruta Lupercália flagelando os transeuntes com
um cinto de pele de cabra chamado também
lupercal 
, considerado capaz de eliminar a esterilidade e provocar partos felizes.
Homenagens
Os meses Quintilis e Sextilis foram rebatizados com os nomes de
julho e agosto, em homenagem aos dois primeiros dos doze césares:
Julius (Júlio César) e Augustus. Para que julho e agosto tivessem o
mesmo número de dias, subtraíram-se dois dias do mês de fevereiro.
Repare que as festas de junho são juninas (de Juno), mas as festas de
julho são julianas (de Júlio), e não "julhinas" ou "julinas", nomes que
não existem.
O mês da mentira
A reforma que Carlos IX empreendeu na França em 1564 apenas
obrigava os franceses a seguir o calendário juliano (com o ano
começando a primeiro de janeiro). Até então, e desde Carlos Magno, era o
calendário de Rômulo (com o ano começando a primeiro de março) que
vigorava na França. O papa Gregório XIII, em 1582, realizou uma nova
reforma, ao verificar que o calendário juliano havia incorrido num erro
anual de 11 minutos e 8 segundos.
Desde o ano 44 a.C. até 1582, por causa desse erro, havia
uma diferença de dez dias. Para compensar esses 10 dias e regularizar a
contagem do tempo, o papa determinou que, ao dia 5 de outubro de 1582,
deveria seguir-se o dia 15 de outubro, e não o dia 6. A reforma
gregoriana causou confusão com as datas e as comemorações tradicionais -
além de bagunçar a astrologia. O dia 21 de março corresponderia ao fim
do signo de peixes.
A confusão de 10 dias fez crer que o dia primeiro de abril
era ainda de peixes, isto é, o signo pularia dez dias para terminar no
dia primeiro de abril. Em francês, a expressão poissons d'avril, isto é,
peixes de abril, passou a designar as mentiras de primeiro de abril,
porque até o nome abril, por engano, teria passado a ser considerado
como o primeiro dia do ano, a abrir o ano. Da França, o dia dos enganos
se estendeu ao resto do Ocidente.
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Abril
Abril vem de aprilis, nome de um dos espíritos que seguiam o carro de
Marte, deus da guerra, que deu nome ao mês de março. Assim, aprilis não
se relaciona com abrir (latim: aperire), mas com o grego Apros ou Afros,
designativo de Afrodite, nome grego da deusa Vênus, a quem abril era
dedicado, ou com o sânscrito áparah, que significa "posterior"
(aparentado com o gótico afar ou aftra, que significa "depois"), pois
abril era o segundo mês do ano, no calendário civil de Rômulo (daí os
nomes setembro, outubro, novembro e dezembro para os meses sete, oito,
nove e dez, respectivamente).
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Lupercálias
O nome "Luperca" designa a loba que amamentou os gêmeos Rômulo e
Remo na gruta chamada Lupercal. Na realidade, "lupus", lobo, em latim,
primitivamente, não tinha feminino. A loba-animal era "lupus femina".
"Lupa" designava a cortesã, daí o nome "lupanar" para designar o
prostíbulo. A "lupa" que amamentou os gêmeos era, na verdade, uma
cortesã chamada Aca Laurentia ou Laurentina. Os sacerdotes romanos é que
"purificaram" a origem de Roma, atribuindo à loba-animal a amamentação
dos gêmeos que fundaram a cidade. |
| | Lupercal
Lupercus se teria originado da justaposição de lupus (lobo) com hircus
(bode), mas, como era outro nome de Pã, deus dos pastores e dos
rebanhos, presume-se que lupercus signifique também "o que afasta o
lobo".
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Fasti
A palavra fasti (latim) se refere ao calendário romano e,
especialmente, a um poema longo e provavelmente inacabado do poeta
Ovídio sobre os festivais religiosos do ano romano e suas origens
mitológicas. Na Roma Antiga, fasti era o plural do adjetivo fastus,
derivado de fas, que significa o que é imposto ou permitido pela lei
divina, em oposto a jus, a lei humana. Assim, fasti se tornou sinônimo
dos dias em que a lei podia ser cumprida sem piedade - os nossos dias
úteis; os dias opostos aos dies fasti eram os dies nefasti, nos quais,
por motivos religiosos, a corte não podia se reunir. |
A partir daqueles três nomes
O calendário romano tinha três datas com nome próprio: Kalendae
ou Calendas (o primeiro dia de cada mês), Nonae ou Nonas (o dia 5 de
todos os meses, exceto março, maio, julho e outubro, em que Nonae
designava o dia 7) e Idus ou Idos (o dia 15 para aqueles quatro meses e o
dia 13 para os outros meses). Os outros dias de cada mês eram citados a partir daqueles três nomes.
Em outras palavras, em lugar de numerar os dias em sequência
crescente, como fazemos, os romanos preferiam numerar os dias usando as
palavras Calendas, Nonas e Idos como pontos de referência. Para se ter
uma ideia, a expressão "desde 3 de junho até 31 de agosto" se dizia em
latim como "terceiro dia antes das nonas de junho até o primeiro das
calendas de setembro" ("ante diem III Nonas Junias usque ad pridie
Kalendas Septembres").
O dia 24 de fevereiro era chamado "o sexto das calendas de
março". No nosso calendário, o gregoriano, no ano bissexto, temos um dia
a mais, acrescentado ao último dia do mês de fevereiro. Mas, no
calendário juliano, o dia a mais era acrescentado ao dia 24. Ou melhor:
havia dois dias de número 24. Portanto, havia duas vezes o sextus dies
(bis sextus) antes das calendas de março. Desses dois sextos é que se
originou a expressão "ano bissexto".
Nas modificações efetuadas por Numa Pompílio no calendário de
Rômulo, o ano civil tinha um erro de dez dias em relação ao ano solar.
Ele tentou corrigir o erro acrescentando um mês de dez dias entre 23 e
24 de fevereiro. Mas essa solução trouxe tantos problemas que, em 44
a.C., Júlio César resolveu modificar novamente o calendário, dando ao
ano a duração de 12 meses, ou 365 dias, de acordo com o calendário
egípcio.
Foi um astrônomo de Alexandria, chamado Sosígenes, que descobriu
que o ano civil tinha seis horas a menos que o ano solar. Assim, Roma
instituiu que a cada quatro anos seria acrescentado um dia em fevereiro.
Como vimos, o dia 24 de fevereiro era chamado "sexto das calendas". Com
o dia adicional (acrescentado após o dia 24, com a mesma numeração),
houve dois sextos (=bissexto) das calendas.
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