As rotas das suçuaranas
Felinos conseguem se movimentar em zonas de
ocupação humana, mas encontram obstáculos nas estradas
MARIA GUIMARÃES |
Edição 199 - Setembro de 2012
© EDUARDO CESAR (FOTO FEITA NA FUNDAÇÃO ZOOLÓGICO DE SÃO PAULO)

A onça-parda (Puma concolor), um dos maiores predadores das Américas, ainda é pouco conhecida pela ciência brasileira
Análises genéticas estão revelando um pouco da história e da ecologia da suçuarana, ou onça-parda (
Puma concolor),
um dos maiores felinos do Brasil, atrás apenas da onça-pintada. Esses
discretos animais são altamente adaptáveis e vivem mesmo em zonas com
pouca floresta. Mas enfrentam problemas com a caça e nas estradas,
conforme vem mostrando o
trabalho
paralelo de duas pesquisadoras que nunca se encontraram pessoalmente:
Camila Castilho, atualmente na Universidade de São Paulo (USP), e Renata
Miotto, agora na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz
(Esalq), também da USP, em Piracicaba.
As duas estudaram aspectos genéticos de populações locais de
suçuaranas, chegando em grande parte a resultados semelhantes, conforme
mostram o artigo de Renata na
Conservation Genetics em 2011, e de Camila publicado este ano na
Genetics and Molecular Biology.
O primeiro aspecto importante é que há pouca diferenciação genética nas
áreas estudadas, sinal de uma população não fragmentada. Isso indica
que esses animais conseguem percorrer grandes distâncias e manter o
fluxo de material genético, apesar de não haver continuidade de
floresta. É bem diferente do que acontece com a onça-pintada, que se
aventura pouco fora das áreas de mata e acaba ficando isolada em
fragmentos e gerando populações diferenciadas, conforme já mostraram
outros estudos.
Na prática, a onça-parda forma populações contínuas ao longo de áreas
extensas. No caso de Camila, que desenvolveu o trabalho durante o
doutorado pela Universidade
Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS), a área englobava boa parte de Santa
Catarina, uma parte do sul do Paraná e algumas amostras no extremo norte
do Rio Grande do Sul, um total de mais de 140 mil quilômetros quadrados
(km
2). O estudo de Renata, à época doutoranda na
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), era mais circunscrito, mas
nada diminuto: cerca de 1.700 km
2 do interior paulista que incluem 15 municípios, entre eles Ribeirão Preto, Rio Claro e São Carlos.
O outro achado semelhante entre os dois estudos mostra que
recentemente, em algum ponto do último século, houve uma drástica
redução nos números das suçuaranas, que os geneticistas de populações
chamam de gargalo populacional. Ao passar por um desses gargalos, a
população perde parte da sua diversidade genética, o que em certos casos
pode gerar problemas. “A perda de genes é aleatória e é possível que
nada importante se vá”, explica Camila, “mas é maior a probabilidade de
acontecer um azar”. Um azar seria o animal não poder contar com algum
gene essencial para enfrentar a alterações no ambiente. Uma coisa é
certa quando se detecta um gargalo: aconteceu algum desequilíbrio na
população, seja uma redução importante em tamanho ou, mais raramente,
uma alteração drástica na proporção entre machos e fêmeas.
Canavial
É aí que começam as diferenças entre os dois estudos. O interior de São
Paulo, onde Renata trabalha, está recoberto de cana-de-açúcar. “A maior
parte foi plantada nos anos 1960 e 1970, em razão do Proálcool [Programa
Nacional do Álcool]”, diz a pesquisadora. “Os dados genéticos indicam
que o gargalo pode ter acontecido nessa época.” Nesse caso, muitas
suçuaranas teriam morrido nesse período de intenso desmatamento, e
depois aos poucos a população teria voltado a aumentar, à medida que
suas presas se adaptaram a viver nos canaviais. “A
dieta
das onças na região consiste principalmente em tatus, cervos, capivaras
e outros roedores”, conta. São animais que aparentemente vêm se
adaptando bem à agricultura, alguns deles consumidores de
cana-de-açúcar. Com alimento abundante, as suçuaranas podem facilmente
viver na região, sem representar problemas para os donos das plantações.
O grande problema que esses animais enfrentam hoje são as estradas
movimentadas, praticamente intransponíveis para pedestres – sejam eles
humanos ou felinos –, que cortam o estado. Isso pode bloquear as rotas
das suçuaranas e, com o tempo, reduzir a variabilidade genética.
Além de limitar o trânsito das suçuaranas, atropelamentos são uma
causa importante de mortalidade. “Os machos jovens, que se dispersam
para longe da área onde nasceram, são as principais vítimas”, diz
Renata. Entre os 23 animais atropelados de sua amostragem, 16 são
machos. A suçuarana Anhanguera, apelidada em 2009 com o nome da estrada
em que foi atropelada, no interior paulista, era justamente um macho
jovem. “Essa mortalidade diferencial pode alterar a razão sexual, o que
pode ser detectado como um gargalo.” Isso acontece porque são eles os
emissários do material genético, já que se mudam para uma zona distante
onde afinal se estabelecem e acasalam.
As fêmeas permanecem mais próximas ao local onde nasceram, conforme
Renata mostrou em cinco anos de monitoramento na Estação Ecológica de
Jataí, no município de Luis Antônio, perto de Ribeirão Preto. Ao longo
desse período ela percorreu trilhas e coletou fezes frescas, de onde
extraiu material genético. Os dados, publicados este ano na
Biotropica, mostram que todas as onças residentes são fêmeas.
Gado
Na Região Sul, Camila deparou com uma relação mais conflituosa entre os
seres humanos e o leão-baio, como o felino é conhecido em terras
catarinenses. Ali se criam vários tipos de gado – vacas, cabras, ovelhas
– de forma extensiva, com os animais sempre soltos no pasto. Além das
pacas, cutias e veados, os animais domésticos acabam virando boas
refeições para as suçuaranas, que em seguida precisam enfrentar o
fazendeiro armado. “Embora a caça seja ilegal, sabemos que acontece
muito nessa região”, conta Camila, que aos poucos venceu as resistências
e conseguiu que os donos das fazendas lhe cedessem amostras dos
leões-baios caçados, para extração de material genético. A zona de
estudo da pesquisadora se concentrou no sul de Santa Catarina, onde as
fazendas se estendem por campos de altitude com resquícios de floresta –
os capões – em meio ao pasto. É nesses capões, e nas matas ao longo de
rios, que as suçuaranas se refugiam e onde por vezes encontram uma cabra
ou bezerro também em busca de abrigo.
Assim como em São Paulo, os dados de Camila mostram que o gargalo
populacional aconteceu no último século, coincidindo com a ampla
derrubada da floresta de araucárias que caracterizava a região.
Atualmente, a caça parece ser responsável pela maior parte da
mortalidade por ali, e não a falta de hábitat. “Conectividade não parece
ser um problema”, comenta Camila. Por meio de modelos ecológicos que
analisam a paisagem ela sugere, em artigo de 2011 na
Mammalian Biology,
que não há impedimento para que esses animais se locomovam por toda a
sua área de estudo, que abrange boa parte da Região Sul. Um dado
genético que corrobora essa ideia é o baixo parentesco entre os
indivíduos que conseguiu analisar. “Apenas 6,6% dos indivíduos que
analisamos eram aparentados”, conta. Para ela, é preciso conscientizar
os fazendeiros da importância ecológica dos grandes predadores e buscar
soluções, como a construção de currais onde o gado possa passar a noite.
Mesmo nunca tendo conversado, as duas pesquisadoras continuam a
seguir caminhos paralelos. Ambas, atualmente no pós-doutorado, deixaram a
genética de lado para se concentrar na análise da paisagem. “São
abordagens complementares”, explica Camila. Diante das informações
fornecidas pela distribuição da variação genética, surgiram novas
perguntas que as levaram a buscar entender o ambiente por onde as
onças-pardas circulam em busca de detectar os problemas que elas
enfrentam e propor soluções para manter populações viáveis desse grande
felino encontrado em quase toda a América, exceto em boa parte da
Argentina e na metade leste da América do Norte.
Agora ambas trabalham em São Paulo: Renata está construindo um banco
de dados sobre a cobertura vegetal e a ocupação da mesma região que
examinou até o momento, incluindo um mapeamento detalhado da malha
viária e do fluxo de veículos, que em conjunto com os dados genéticos
formarão um modelo de dispersão. Ao mesmo tempo compila dados de
atropelamentos e, com ajuda da Polícia Florestal, aumenta sua coleção de
amostras genéticas. “A partir desses modelos, quero avaliar as rotas
preferenciais no deslocamento das onças para definir o que se pode fazer
em termos de manejo da paisagem”, explica. Camila concentra seu projeto
no mosaico das serras da Bocaina e da Mantiqueira, no nordeste
paulista, que inclui a região de São José dos Campos. Nessa região,
avaliará o hábitat disponível e as possibilidades de locomoção das
suçuaranas. “Vou criar valores de permeabilidade para detectar as áreas
prioritárias em termos de conservação.”
Em conjunto, os dois projetos podem contribuir para reduzir o
desequilíbrio que existe entre a América do Norte e a do Sul no que diz
respeito ao conhecimento a respeito desse imponente predador. Talvez
também cheguem a propostas de práticas pecuárias que melhorem a
convivência entre fazendeiros e predadores, e a passarelas ou túneis
para travessia de suçuaranas.
Artigos científicos
CASTILHO, C. S.
et al.
Genetic structure and conservation of Mountain Lions in the South-Brazilian Atlantic Rain Forest.
Genetics and Molecular Biology. v. 35 (1), p. 65-73. 2012.
CASTILHO, C. S.
et al.
Landscape genetics of mountain lions (Puma concolor) in southern Brazil.
Mammalian Biology. v. 76 (4), p. 476-83. 2011.
MIOTTO, R. A.
et al.
Monitoring a puma (Puma concolor) population in a fragmented landscape in Southeast Brazil.
Biotropica. v. 44 (1), p. 98-104. 2012.
MIOTTO, R. A.
et al.
Genetic diversity and population structure of pumas (Puma concolor) in southeastern Brazil: implications for conservation in a human-dominated landscape.
Conservation Genecits. v. 12 (6), p. 1.447-55. 2011.