Mais água, menos lontras
Estudos mostram que usinas hidrelétricas são responsáveis
pela queda na densidade da população do mamífero, que está ameaçado de
extinção no Brasil.
Por: Sofia Moutinho
Publicado em 15/08/2014
|
Atualizado em 15/08/2014
A lontra-gigante ou ariranha, ameaçada de extinção, teve sua
densidade populacional reduzida em mais de quatro vezes na porção do
rio Uatumã onde foi construída a usina hidrelétrica de Balbina, no
Amazonas. (foto: GraphicReality/ Flickr - CC BY-NC-SA 2.0)
Elas são fofas, carismáticas e funcionam como indicadores da
qualidade dos ambientes aquáticos – salgados e doces. As lontras não têm
predador natural, estão no topo da cadeia alimentar. A falta ou excesso
do animal aponta para um desequilíbrio no ecossistema. No mundo todo,
há 13 espécies, a maioria categorizada como ameaçada de extinção. Aqui
no Brasil, a situação também não é das melhores. Temos duas espécies
fluviais que sofrem com a caça ilegal, a poluição, os atropelamentos e a
construção de represas.
Quando uma hidrelétrica é construída, grandes áreas são alagadas, o
que em teoria seria o paraíso para as lontras, que passam a maior parte
de seu tempo nadando e pescando. No entanto, não é isso que os estudos
têm mostrado. A qualidade vale muito mais do que a quantidade, foi o que
mostrou uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
liderada pela bióloga Ana Filipa Palmeirim na usina hidrelétrica de
Balbina, localizada no rio Uatumã, no Amazonas.
Em busca de avaliar o impacto da construção da barragem sobre as já ameaçadas de extinção lontras-gigantes (
Pteronura brasiliensis),
mais conhecidas como ariranhas, a bióloga e colegas saíram à caça de
vestígios do animal que pudessem dar uma ideia do tamanho da população
25 anos depois da construção da usina, que se deu em 1989.
Palmeirim: "Onde hoje há água, havia uma floresta
com outros predadores, como a onça. Já não temos os animais terrestres,
então era para pelo menos termos os aquáticos no lugar."
Para isso, os biólogos percorreram de barco cerca de 850 quilômetros
de margem dos 4.437 quilômetros quadrados do lago da hidrelétrica,
contabilizando vestígios da passagem de ariranhas, como fezes, pegadas e
tocas. Com base nesses indícios, estimaram a população de ariranhas
após o alagamento da região. Os biólogos não tinham dados precisos dessa
população antes da existência da barragem e, para fins de comparação,
tomaram como base os números encontrados em um grupo de ariranhas do rio
Pitinga, que se assemelha à configuração anterior do rio Uatumã.
O resultado dos cálculos se mostrou alarmante. Embora a população de
ariranhas tenha dobrado depois da construção da hidrelétrica, passando
de 140 para 280 animais, a sua densidade caiu quatro vezes e meia. Isso
significa que hoje há menos ariranhas por quilômetro quadrado.
“Depois do enchimento da represa, as ariranhas passaram a contar com
nove vezes mais áreas de margem e 60 vezes mais áreas aquáticas”, pontua
Palmeirim, que apresentou seu trabalho durante o 12° Congresso
Internacional sobre Lontras, que ocorreu esta semana no Rio de
Janeiro. “Se a área é maior e o local bem conservado, a densidade
populacional teria que ser pelo menos igual ao que era antes do
represamento, mas o que vimos foi uma grande redução. Isso nos mostra
que o habitat não está com qualidade satisfatória.”
Palmeirim explica que a falta de ariranhas indica um desequilíbrio
ecológico que afeta todos os níveis da cadeia alimentar. “Se há pouca
ariranha, há falta de funções no ecossistema”, afirma. “Onde hoje há
água, antes havia uma floresta com outros predadores, como a onça. Agora
já não temos os animais terrestres, então era para pelo menos termos os
aquáticos no lugar.”

- No Paraná, a
lontra-neotropical sofre as consequências das hidrelétricas construídas
no rio Iguaçu, cinco no total. (foto: Wikimedia Commons/ Carla Antonini -
CC BY-SA 2.5 AR)
Os pesquisadores acreditam que a baixa densidade de ariranhas é
reflexo da escassez de peixes provocada pela barragem da usina. Hoje, já
não há mais no lago de Balbina peixes migratórios, que normalmente
passariam pelo rio na época de acasalamento. Por causa da barragem, eles
não conseguem chegar à represa.
As ariranhas precisam comer por dia cerca de 10% da sua massa
corporal em peixes. “Para conservar a ariranha, temos que conservar o
habitat, manter os níveis de peixe”, diz Palmeirim.
Sem comida e sem tocas
Mudanças na população e na dieta das lontras também foram observadas
na hidrelétrica Salto Caxias, no trecho final do rio Iguaçu, no Paraná.
Antes da construção da usina, finalizada em 1999, a bióloga Juliana
Quadros, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), fez uma estimativa da
população da lontra-neotropical (
Lontra logicautis) na região.
Também com base na contagem de tocas e fezes, ela calculou que havia
quatro fêmeas antes do alagamento. Depois, foram encontradas apenas
duas.
Além da redução da população pela metade, a pesquisa constatou que as
lontras mudaram seus hábitos alimentares e até a construção de suas
tocas. Com o enchimento da represa, o rio passou a ter uma profundidade
muito maior, o que alterou a disponibilidade de oxigênio na água e
impossibilitou a presença de alguns animais que antes viviam ali, como o
caranguejo-de-água-doce (
Trichodactylus petropolitanus).
Antes da hidrelétrica as lontras faziam suas
tocas ao pé de árvores na margem alagadiça do rio, depois elas passaram a
viver em cavidades entre rochas.
Pela análise das fezes das lontras, Quadros observou que esse
caranguejo constituía cerca de 35% da alimentação das lontras antes da
hidrelétrica e passou para apenas 5% logo após o alagamento.
Se antes da hidrelétrica as lontras faziam suas tocas ao pé de
árvores na margem alagadiça do rio, depois elas passaram a viver em
cavidades entre rochas. “Com o rio corrente preservado, o solo estava
constantemente enlameado e era fácil de cavar para construir as tocas”,
diz Quadros. “Hoje isso já não acontece e elas precisam procurar abrigo
em áreas mais distantes do rio e menos adequadas.”
As pesquisadoras apontam que algumas medidas poderiam reduzir o
impacto das barragens, como a criação de uma escada para peixes
migratórios durante a construção das usinas, mais restrições para a
pesca e um controle do nível de água do reservatório mais parecido com o
natural. “Infelizmente, a maioria das hidrelétricas não implementa
essas estratégias”, diz Palmeirim.

- Na hidrelétrica de Salto
Caxias, no Paraná, as lontras deixaram de construir suas tocas na raiz
de árvores das margens do rio (esq.) e passaram a viver em pedreiras
(dir.) (foto: Juliana Quadros)
Atualmente, o Brasil tem cerca de 500 hidrelétricas em funcionamento,
mais 21 em construção e 227 em planejamento. Quadros lembra que, apesar
de gerar energia elétrica, essas represas são fonte de emissão de
gases-estufa e geram grande impacto sobre a biodiversidade local, além
de muitas vezes desabrigarem centenas de pessoas para sua construção e
aumentarem o risco de disseminação de doenças como a malária,
transmitida por mosquitos que usam a água para procriar.
“O Brasil continua vendendo a ideia de que hidrelétrica é energia
verde, mas a verdade é muito longe disso e as lontras são apenas um dos
indícios”, conclui a bióloga.