Os danos escondidos na lama
Argila fina e alto teor de metais no material liberado pelo rompimento
das barragens em Minas Gerais podem alterar dinâmica ecológica e de
sedimentos da foz do rio Doce
MARIA GUIMARÃES |
ED. 239 | JANEIRO 2016
© VALÉRIA QUARESMA / UFES

A fina argila em suspensão tingiu de laranja a foz do rio Doce…
Quando Valéria Quaresma e Alex Bastos, um casal de especialistas em
oceanografia geológica, começaram a estudar os sedimentos da costa
capixaba junto à foz do rio Doce, por volta de cinco anos atrás, um dos
objetivos era ter uma base para estabelecer planos de manejo dessa
região na qual duas das principais fontes de aporte econômico estão em
oposição ecológica: a pesca e a extração de petróleo. A primeira depende
da saúde do ecossistema costeiro, que pode ser ameaçada por eventuais
acidentes resultantes da segunda. A dupla de professores da Universidade
Federal do Espírito Santo (Ufes) não imaginava que o conhecimento seria
solicitado tão rapidamente. No início de novembro, quando romperam as
barragens da mineradora Samarco, em Minas Gerais, eles integraram o
grupo de uma centena de pesquisadores organizado pela universidade e
logo se prepararam para colher amostras comparativas. “No dia 21 de
novembro a pluma que desceu o rio Doce chegou à foz e já tínhamos o
barco preparado”, conta Valéria. No dia seguinte sua equipe coletava
amostras da água marinha tingida de laranja.
A primeira caracterização de como se comportam os sedimentos que o
rio normalmente transporta está em um artigo publicado em dezembro de
2015 pelo grupo de Valéria na revista
Brazilian Journal of Geology.
Os resultados mostram que os sedimentos mais finos passam por um
processo rápido de deposição, conhecido como floculação, quando a água
doce encontra a salinidade e o pH diferentes do mar. A deposição desse
sedimento, classificado como lama terrígena, se dá principalmente em
profundidades de ao menos 10 metros, ao sul de onde o rio Doce
desemboca, para onde são empurrados pelo vento nordeste – o predominante
por ali. “Em seguida esse material pode ser ressuspendido e
redistribuído para norte, conforme a força e a direção dos ventos e das
ondas”, explica Valéria, que mapeou a deposição desses sedimentos não só
no trabalho resultante das amostras que seu grupo coletou, como em
dados compilados no artigo de revisão publicado em novembro de 2015 na
revista
Journal of South American Earth Sciences. Na região ao norte do rio Doce, junto à linha costeira, predominam partículas maiores e menos argilosas.
Mesmo com conhecimento da região e com todo o preparo para receber a
onda de lama que percorreu parte de Minas Gerais e do Espírito Santo,
causando grandes danos às cidades adjacentes e à ecologia do rio e seus
arredores, a avaliação do impacto do material oriundo dos rejeitos de
mineração não é imediata. O que deu para ver logo de cara é que se trata
de um volume espantoso de material argiloso com partículas muito finas,
que não se depositam facilmente. “Não conhecemos esse tipo de sedimento
que integra os rejeitos”, conta Valéria, “não sabemos como ele se
comporta”. Ela pretende acompanhar sua trajetória em uma série de
futuras viagens de campo. “Precisamos entre um e dois meses para ver
como ficou o fundo.”
A preocupação gerada pela mudança na dinâmica de transporte de
sedimentos vai muito além de seu papel essencial para a estabilidade da
linha de costa. Nas coletas que já fizeram, os pesquisadores se
espantaram com a água completamente turva, que tornava difícil enxergar
os equipamentos submersos. Essa mudança nas características físicas da
água, segundo Valéria, pode alterar completamente o ambiente necessário à
vida dos organismos que vivem no fundo e compõem a base da cadeia
alimentar marinha: a comunidade bentônica.
© MARCOS DANIEL LEITE / UFES

… a ponto de a garrafa coletora de água ficar quase invisível quando submersa
Química
Além dos sedimentos, também preocupa os pesquisadores o conteúdo da lama
em termos químicos. Um componente cuja abundância surpreende pouco,
dada a atividade de extração de minério que deu origem ao acidente, é o
ferro. Valéria afirma que isso pode ser um problema porque seu excesso
pode causar uma proliferação excessiva dos organismos planctônicos
(seres microscópicos que flutuam na coluna d’água) e provocar grande
desequilíbrio ecológico.
O químico Renato Rodrigues Neto, coordenador do Laboratório de
Geoquímica Ambiental do Departamento de Oceanografia e Ecologia da Ufes,
está à frente do grupo que vem analisando os elementos presentes na
enxurrada de rejeitos. Por enquanto só foram analisadas amostras de
cinco pontos na desembocadura do rio Doce, mas já se nota um aumento
importante de alguns metais quando se compara antes e depois da chegada
da lama. “Aumentaram muito os teores de vanádio, alumínio, ferro,
manganês e cromo”, conta o pesquisador, que no final de dezembro
terminou de elaborar um relatório preliminar com esses resultados. Mesmo
espantado com o aumento em 50 vezes da concentração de ferro, que seu
grupo detectou, esse não é o elemento que o preocupa por ser um
nutriente naturalmente disponível.
Mais preocupante foi o teor muito aumentado de cromo, um elemento que
pode ser tóxico conforme sua apresentação. “Em geral ele ocorre na
forma menos tóxica”, explica Rodrigues Neto, “mas ainda não testamos
para saber o que existe agora”. São análises mais complexas, que
exigirão uma parceria com outros laboratórios. Também falta, de acordo
com o químico, avaliar se o cromo está numa forma biodisponível, que
pode ser absorvida pelos organismos.
A gravidade do acidente levou a uma cobrança por respostas imediatas e
à organização rápida de pesquisadores empenhados em encontrá-las. Mesmo
assim, entender como o ambiente e os organismos que vivem nele vão
reagir e ser afetados requer tempo. Nos próximos meses, deve começar a
se delinear o efeito causado nos animais e nas plantas da região.
Artigos científicos
BASTOS, A. C.
et al.
Shelf
morphology as an indicator of sedimentary regimes: a synthesis from a
mixed siliciclastic-carbonate shelf on the eastern Brazilian margin.
Journal of South American Earth Sciences. v. 63, p. 125-36. nov. 2015.
QUARESMA, V. S.
et al.
Modern sedimentary processes along the Doce river adjacent continental shelf.
Brazilian Journal of Geology. v. 45, n. 4, p. 635-44. dez. 2015