Mostrando postagens com marcador Barragens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Barragens. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Como as Estradas Transformaram o Mundo Natural

Uma breve história da ecologia das estradas, a disciplina científica que nos ajuda a entender nosso impacto no meio ambiente e como diminuí-lo.



Um veado-mula atravessa uma estrada perto de Aspen, Colorado. Robert Alexander / Fotos de Arquivo / Getty Images.


Quando arqueólogos alienígenas exumam os escombros da civilização humana, podem concluir que nossa razão de ser foi construir estradas. Cerca de 40 milhões de milhas de estradas circundam a Terra, desde a Rodovia Pan-Americana que atravessa o continente até as cem mil milhas de rotas ilegais de extração de madeira que filigranam a Amazônia. 

Nosso planeta está sobrecarregado por talvez 3.000 toneladas de infraestrutura para cada humano, quase um terço de uma Torre Eiffel por pessoa. As estradas são anteriores à roda: construtores mesopotâmicos começaram a construir caminhos de tijolos de barro em 4000 a.C., séculos antes de alguém pensar em deixar cair uma carruagem sobre alguns discos de oleiro. Hoje é impossível imaginar a vida sem as artérias de asfalto que conectam mercadorias aos mercados, funcionários com empregos, famílias entre si. "Tudo na vida está em outro lugar", escreveu E.B. White, "e você chega lá de carro."

As estradas são tanto essenciais logísticos quanto artefatos culturais. Eles personificam a liberdade — a "arquitetura da nossa inquietação", segundo Rebecca Solnit, as "duas faixas [que] nos levam a qualquer lugar", segundo Bruce Springsteen. Para nós, estradas significam conexão e fuga; para outras formas de vida, significam morte e divisão. Em algum momento do século XX, cientistas escreveram que o atropelamento superou a caça como "a principal causa humana direta de mortalidade de vertebrados em terra." Cite seus problemas ambientais—barragens, caça ilegal, megaincêndios—e considere que as estradas matam mais criaturas com menos alarde do que qualquer uma delas. (Mais aves morrem nas estradas americanas toda semana do que foram mortas pelo vazamento de óleo de Deepwater Horizon, com as mortes nas estradas acompanhadas de uma fração do apreensão.) E só está piorando à medida que o trânsito aumenta. Há meio século, apenas 3% dos mamíferos terrestres encontraram seu fim em uma estrada; em 2017, o número de vítimas havia quadruplicado. Nunca foi tão perigoso colocar pata, casco ou barriga escamosa na rodovia.

As estradas distorcem o planeta de outras maneiras, mais insidiosas. Mal a Via Cassia de Roma foi concluída por volta de 100 a.C., sua superfície começou a liberar sedimentos para o Lago di Monterosi, gerando florações de algas que distorceram permanentemente o ecossistema do lago. 

Phytophthora lateralis, um fungo invasor que ataca cedros, faz carona nos padrões dos pneus de caminhão. A pequena formiga vermelha de fogo, um inseto impiedoso notório por picar os olhos dos elefantes, explorou as pegadas de extração para se espalhar pelo Gabão 60 vezes mais rápido do que teria feito de outra forma. Um estudo de 2000 descobriu que o próprio pavimento cobria menos de 1% dos Estados Unidos, mas sua influência — a "zona do efeito estrada", para usar jargão ecológico — cobria até 20%. Estacione seu carro no acostamento e explore meio quilômetro pela floresta, e ainda verá menos pássaros do que em uma área selvagem sem estrada. Caminhe mais duas milhas e ainda verá menos mamíferos. Se você é leitor de Kerouac, cresceu imerso no dogma de que estradas representam liberdade. Se você é um urso pardo, eles poderiam muito bem ser paredes de prisão.

As repercussões das estradas são tão complexas que é difícil identificar onde elas terminam. Os rebanhos de caribus da Colúmbia Britânica diminuíram para grupos furtivos, em parte porque estradas de extração e mineração permitiram a entrada de lobos — um desastre causado pelo homem disfarçado de predação natural. Quase um quinto das emissões de gases de efeito estufa dos Estados Unidos são entregues por carros e caminhões, e o setor de transporte é o contribuinte que mais cresce para as mudanças climáticas; enquanto isso, o crescimento dos veículos elétricos, cujas baterias dependem de lítio e outros metais, catalisou um boom minerador que ameaça desfigurar paisagens em lugares tão díspares quanto Chile, Zimbábue e Nevada. Até mesmo a perda de habitat, a mais completa eliminação da vida selvagem, é um problema nas estradas. Antes de poder cortar as florestas tropicais do Alasca ou converter selvas de Bornéu em monoculturas de óleo, você precisa de estradas para transportar a maquinaria para dentro e o produto para fora. Estradas são, pode-se dizer, as rotas de todo o mal.

Ainda assim, as estradas escolhem vencedores e perdedores. As rodovias do Arizona canalizam a chuva para valas e, assim, amolecem os solos do deserto para os tatugas-de-bolsa, cujos túneis paralelam o acostamento como linhas de metrô. Abutres, corvos e outros necrófagos astutos estão em ascensão, suas dietas subsidiadas por animais atropelados. Borboletas cujas pradarias foram devoradas por campos de milho encontram alívio em faixas descuidadas de algodão-do-leite à beira da estrada. Na Grã-Bretanha, esse habitat é chamado de "soft estate" — uma sugestão de que estradas são capazes de criar novos ecossistemas, mesmo ao destruírem os existentes. Um biólogo certa vez me levou por baixo de uma ponte rodoviária para me mostrar centenas de morcegos marrons pousados em suas fendas, aparentemente indiferentes ao trânsito que passava por cima.

https://www.amazon.com/dp/1324005890?tag=smithsonianco-20&linkCode=ogi&th=1&psc=1 




Travessias: Como a Ecologia Rodoviária Está Moldando o Futuro do Nosso Planeta

Um relato revelador das transformações ecológicas globais provocadas pelas estradas.

 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019


10 maiores acidentes com barragens no mundo





  • Reprodução/Timeline

    A tragédia de Banqiao e Shimantan - China

    O complexo de barragens de Banqiao e Shimatan desmoronou em 1975, provocando a maior inundação da história da China com 6 milhões de casas destruídas. 26 mil pessoas morreram afogadas e outras 145 mil morreram de fome e epidemias decorrentes da inundação, oficialmente. O número, porém, pode ter chegado a 230 mil.
  • Reprodução/India Water Portal/Twitter

    Barragem Machchu-2 - Índia

    Em agosto de 1979, a represa de Machchu-2, na Índia, desmanchou-se depois de uma tempestade. Em menos de 20 minutos, enxurradas de até nove metros de altura atingiram a cidade de Morbi, localizada a 5 quilômetros da represa. O número de mortos pode ter chegado a 25 mil pessoa.
  • Reprodução/Pochestorie

    Barragem do rio Stava - Itália

    Com os dutos de drenagem entupidos por sedimentos, a água começou a se infiltrar no solo da represa de Val di Stava, na Itália. No dia 19 de julho de 1985, cerca de 180 mil m³ de areia, água e lama varreram a cidade de Stava a uma velocidade de 90 km/h. Oficialmente, 268 pessoas morreram.
  • Reprodução/India Water Portal/Twitter

    Barragem de Kantale - Sri Lanka

    Em 1992, o rompimento da barragem de Kantale, no Sri Lanka, provocou a morte de cerca de 180 pessoas e afetou outras 8 mil. O motivo da ruptura da parede foi o excesso de tráfego de veículos pesados sobre as paredes de contençã.
  • Reprodução/ABC.es

    O desastre de Aznalcollar - Espanha

    No final de abril de 1998, uma avalanche de chumbo, zinco, cobre, cádmio e sulfetos varreu a vida dos rios Agro e Guadiamar na região da Andaluzia, na Espanha, quando a barragem de rejeitos de uma mineradora canadense ruiu. Os 40 quilômetros de material tóxico espalhados atingiram o Parque Nacional de Doñana, patrimônio histórico da Unesco, provocando uma contaminação em cadeia no meio ambiente. A região é ponto de parada para cerca de 300 espécies de pássaros raros que migram entre Europa e África
  • Reprodução/Imgur

    A lama venenosa de Martin County - EUA

    Em outubro de 2000, depois que os quase 2 bilhões de litros de lama de arsênico e mercúrio escorreram por centenas de quilômetros pelos rios Tug Fork, Big Sandy e Ohio, ficou difícil esconder o dano ambiental provocado pela mineração de carvão vegetal no sudeste dos Estados Unidos. Toda a vida aquática foi dizimada em poucos dias. Delações de funcionários indicaram que os diretores sabiam de vazamentos anteriores e esconderam a informaçã.
  • Reprodução/India today

    Koshi - Nepal

    Em agosto de 2008, parte da parede oriental da imensa represa de Koshi, na fronteira entre a Índia e o Nepal, desabou. Centenas de vilas nos dois países, além das vastas áreas de cultivo, foram soterradas por areia e lama. Três milhões de pessoas ficaram desabrigadas. O motivo: falta de manutenção.
  • Reprodução/The New York Times

    A lama vermelha de Ajka - Hungria

    Bastou uma semana para os húngaros prenderem os diretores da mineradora MAL, responsável pelo despejo de 1 milhão de m³ de lama vermelha sobre as cidades de Kolontar e Devecser. O rejeito, alcalino o bastante para provocar queimadoras químicas em pelo menos 90 pessoas, alcançou o rio Danúbio e acionou alertas na Sérvia, Croácia, Romênia, Bulgária e Ucrânia. No dia 13 de outubro, apenas nove dias após o vazamento, a empresa responsável pelo desastre foi estatizada. Dez pessoas morreram no acidente.
  • Reprodução/Márcio Fernandes/Estadão

    Mariana, Minas Gerais - Brasil

    A tarde do dia 5 de novembro de 2015 foi o marco inicial do maior desastre ambiental com barragens de rejeitos do mundo, com 60 bilhões de litros de lama tóxica vinda da barragem de Fundão, em Bento Rodrigues, das mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton. A principal bacia hidrográfica do sudeste brasileiro foi completamente poluída. Uma cidade foi soterrada, um rio morto, corais e berçários de tartarugas no Oceano Atlântico contaminados, além de territórios indígenas destruídos. Milhares de pessoas ficaram sem acesso a água potável e, oficialmente, 19 morreram. Até agora, começo de 2019, ninguém foi preso.
  • Washington Alves/Reuters

    Brumadinho, Minas Gerais - Brasil

    Em 25 de janeiro de 2019, pouco mais de três anos depois do desastre de Mariana (MG), a vida e a natureza do país são novamente destruídas pelo rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração. Cinco dias depois do acidente, as autoridades contabilizam 84 mortos e 276 desaparecidos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018


Custos sociais e ambientais de usinas hidrelétricas são subestimados, aponta estudo Trabalho mostra que desmatamento, perda da biodiversidade e prejuízos econômicos causados às comunidades que vivem no entorno de barragens não têm sido levados em conta nos projetos. Obras também ignoram os cenários de mudanças climáticas (Usina Hidrelétrica de Belo Monte / foto: Laura Castro Diaz)

Custos sociais e ambientais de usinas hidrelétricas são subestimados, aponta estudo

07 de novembro de 2018

Elton Alisson  |  Agência FAPESP – Enquanto os países mais desenvolvidos têm diminuído nas últimas décadas a construção de grandes hidrelétricas, nações em desenvolvimento começaram a construir no mesmo período barragens ainda maiores. É o caso do Brasil.

Impactos ambientais – como o desmatamento e a perda da biodiversidade – e sociais – como o deslocamento de milhares de pessoas e os prejuízos econômicos causados a elas – não têm sido levados em conta e incluídos no custo total desses projetos. Além disso, esses empreendimentos têm ignorado os cenários de mudanças climáticas, que preveem a diminuição da oferta de água e, consequentemente, da geração de energia hidroelétrica.
O alerta foi feito por pesquisadores da Michigan State University, nos Estados Unidos, em artigo publicado em 5 de novembro na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS).

O primeiro autor do estudo é Emilio Moran, professor visitante da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O pesquisador coordena um projeto, apoiado pela FAPESP na modalidade São Paulo Excellence Chair (SPEC), em que estuda os impactos sociais e ambientais da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, próxima à cidade de Altamira, no Pará.
“Argumentamos que se continuar a construção de grandes hidrelétricas nos países em desenvolvimento, precisaremos fazer uma avaliação do custo real dessas obras que inclua os impactos ambientais e sociais gerados por elas”, disse Moran à Agência FAPESP.

“Quando uma grande barragem é construída, o rio a jusante [direção em que correm as águas de uma corrente fluvial] perde grande parte de espécies de peixes que são importantes para a população ribeirinha. Aquelas comunidades terão que conviver com a diminuição de sua atividade de pesca ao longo de 15 ou 20 anos, por exemplo, e esses prejuízos econômicos e sociais não têm sido incorporados no custo desses projetos”, disse.
De acordo com os autores do estudo, a energia hidrelétrica tem sido a principal fonte de energia renovável em todo o mundo, respondendo por até 71% da oferta da energia proveniente de recursos naturais a partir de 2016.

Essa capacidade de geração de energia hidrelétrica foi iniciada na América do Norte e na Europa entre 1920 e 1970, quando milhares de barragens foram construídas. A partir do fim da década de 1960, contudo, grandes barragens deixaram de ser construídas em nações desenvolvidas. Algumas das razões foram que os melhores locais para construção de represas nessas regiões tinham sido ocupados e as crescentes preocupações ambientais e sociais tornaram esses projetos inviáveis.
O resultado disso foi que, hoje, passado seu tempo de vida útil, mais barragens estão sendo removidas do que construídas na América do Norte e na Europa. Só nos Estados Unidos, 546 represas foram removidas entre 2006 e 2014, exemplificam os pesquisadores.

“O custo para remover uma barragem, passada sua vida útil, é altíssimo, e também deve ser levado em conta na avaliação do custo total de um novo projeto de hidrelétrica”, apontou Moran.
“Se esse custo de remoção fosse incluído, muitas barragens não seriam feitas, porque seria muito mais cara a geração de energia por quilowatt-hora por uma usina elétrica com vida útil estimada entre 30 e 50 anos, como a das que estão sendo construídas no Brasil”, disse.

Impactos locais

Segundo Moran, as primeiras barragens construídas na América do Norte e na Europa tinham o objetivo de prover energia para áreas rurais e possibilitar o funcionamento de sistemas de irrigação. “Esses projetos tinham um objetivo social”, disse.

Já as usinas que estão sendo construídas ao longo dos rios da bacia Amazônica, na América do Sul, do Congo, na África, e Mekong, no Sudeste Asiático, são voltadas, em grande parte, para fornecer energia para empresas siderúrgicas, por exemplo, sem beneficiar as comunidades locais.
O caso mais emblemático é o da megausina de Inga, planejada para ser construída na homônima maior cachoeira do mundo em volume, no rio Congo. A barragem, que poderia aumentar em mais de um terço o total da eletricidade atualmente produzida na África, exportará a energia gerada para a África do Sul para atender às empresas de mineração.

“As pessoas afetadas por esses projetos acabam não se beneficiando do acesso ou da diminuição do custo da energia, por exemplo. No caso da usina de Belo Monte, o linhão de transmissão de energia passa por cima das pessoas afetadas e aquela energia vai para as regiões Sul e Sudeste”, disse Moran.
Segundo o estudo, tanto em Belo Monte como em Santo Antônio e Jirau, na Amazônia brasileira, onde também foram instaladas barragens recentemente, em vez de diminuir, a conta de energia elétrica da população no entorno das obras aumentou. E os empregos prometidos aos moradores no início das obras foram ocupados principalmente por pessoas de fora e desapareceram no prazo de cinco anos.
“Em Altamira, antes do início da construção da usina de Belo Monte, os moradores apoiavam a obra pois pensavam que ela beneficiaria enormemente a cidade. Hoje em dia ninguém apoia mais, porque a usina acabou com a tranquilidade da cidade e, em vez de benefício, só trouxe problemas para a maioria das pessoas”, disse Moran.

“Belo Monte foi tão caótico e afetou tão profundamente a vida dos moradores da região que contribuiu para repensar os projetos de construção de grandes barragens na bacia Amazônica”, disse.
Além dos problemas gerados para as comunidades a jusante, as novas usinas em construção na América do Sul, África e no Sudeste Asiático têm causado graves impactos ambientais.
Na bacia Amazônica, por exemplo, onde está sendo planejada a construção ao longo de seus 6 milhões de quilômetros quadrados (km2) de 147 barragens – das quais 65 no Brasil –, a construção de hidrelétricas tem afetado as populações e a dinâmica das cerca de 2,3 mil espécies de peixes encontradas na região. Após a instalação de barragens no rio Tocantins houve uma redução de 25% no número de peixes nesse curso d’água, que deságua na foz do rio Amazonas.

Na região da barragem de Tucuruí, o pescado diminuiu quase 60% imediatamente após a construção da barragem e mais de 100 mil pessoas que vivem no entorno do rio foram afetadas pela perda da pesca, da agricultura de irrigação por inundações e outros recursos naturais, destacam os autores do estudo.
“A maioria das espécies de peixe na bacia Amazônica são endêmicas [só ocorrem naquela região]. A perda dessas espécies representa um enorme dano para a biodiversidade mundial”, disse Moran.

Impactos das mudanças climáticas

As barragens que têm sido construídas na bacia Amazônica nos últimos anos também deverão ser fortemente impactadas pelas mudanças climáticas globais, projetam os pesquisadores.
Estima-se que as barragens de Jirau e de Santo Antônio, no rio Madeira, concluídas nos últimos cinco anos, produzirão apenas uma fração dos 3 gigawatts (GW) cada que eram projetadas para gerar em razão das mudanças climáticas e da pequena capacidade de armazenamento de seus reservatórios a fio d’água – com menor acúmulo de água.

Já a usina de Belo Monte, no rio Xingu, concluída em 2016, também produzirá 4,46 GW dos 11,23 GW que foi construída para gerar, mesmo em cenários otimistas, devido à variabilidade climática, a um reservatório relativamente pequeno e a níveis insuficientes de água, afirmam os pesquisadores.
Para agravar esse cenário, a maioria dos modelos climáticos prevê maior temperatura e menor precipitação nas bacias do Xingu, Tapajós e do Madeira.

“Depender só da água como fonte de energia em um futuro em que teremos menos esse recurso natural parece ser uma estratégia pouco confiável”, avaliou Moran.
“Para diminuir sua vulnerabilidade energética, em um cenário de mudanças climáticas globais, o Brasil precisa diversificar sua matriz, que ainda é muito dependente do setor hidrelétrico. É preciso que o país aumente os investimentos em outras fontes de energia renovável, como solar, biomassa e eólica”, disse.

Os pesquisadores também ressalvam que, de maneira similar às mudanças climáticas, os projetos de construção de barragens frequentemente não consideram os efeitos da mudança do uso da terra no potencial de geração de energia hidrelétrica por uma represa.
Outro estudo estimou que na bacia do Xingu, onde está localizada a usina de Belo Monte, a energia gerada estimada poderia cair para abaixo da metade da capacidade instalada da barragem com o desmatamento em torno da bacia. Isso porque o desmatamento pode inibir a chuva e a umidade do solo nas regiões tropicais úmidas da floresta.

Estima-se que metade da precipitação na bacia Amazônica seja devido à reciclagem interna de umidade. Dessa forma, o desmatamento pode reduzir as chuvas na região, independentemente do declínio esperado com as mudanças climáticas globais, afirmam os pesquisadores.
“A hidroenergia é uma entre várias soluções para evitar apagões de energia no Brasil. A solução é procurar diversificar as fontes de energia e adotar soluções inovadoras que possam reduzir os impactos ambientais e sociais das barragens”, disse Moran.

Uma das alternativas tecnológicas às usinas hidrelétricas em estudo pelos pesquisadores é a instalação de turbinas em linha, no leito ou submersas nos rios, que dispensam a necessidade de represamento da água.

A tecnologia poderia ser útil para a geração ininterrupta de energia para as comunidades ribeirinhas, a um custo baixo, e manteria a ecologia fluvial e não envolveria o reassentamento de comunidades e outros custos sociais das barragens.

“Essa solução poderia ser aplicada no país inteiro onde há rios pequenos, com água com velocidade de mais de um metro por segundo. Além disso, as turbinas também poderiam ser instaladas próximas de barragens para complementar a produção de energia e eliminar a necessidade de construir outras usinas”, disse o pesquisador.

O artigo Sustainable hydropower in the 21st century (doi: 10.1073/pnas.1809426115), de Emilio F. Moran, Maria Claudia Lopez, Nathan Moore, Norbert Müller e David W. Hyndman, pode ser lido na revista PNAS em www.pnas.org/content/early/2018/11/02/1809426115.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Os danos escondidos na lama

Argila fina e alto teor de metais no material liberado pelo rompimento das barragens em Minas Gerais podem alterar dinâmica ecológica e de sedimentos da foz do rio Doce
MARIA GUIMARÃES | ED. 239 | JANEIRO 2016
Email this to someoneTweet about this on TwitterShare on Google+Share on FacebookShare on LinkedIn

© VALÉRIA QUARESMA / UFES
A fina argila em suspensão tingiu de laranja a foz do rio Doce...
A fina argila em suspensão tingiu de laranja a foz do rio Doce…

Quando Valéria Quaresma e Alex Bastos, um casal de especialistas em oceanografia geológica, começaram a estudar os sedimentos da costa capixaba junto à foz do rio Doce, por volta de cinco anos atrás, um dos objetivos era ter uma base para estabelecer planos de manejo dessa região na qual duas das principais fontes de aporte econômico estão em oposição ecológica: a pesca e a extração de petróleo. A primeira depende da saúde do ecossistema costeiro, que pode ser ameaçada por eventuais acidentes resultantes da segunda. A dupla de professores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) não imaginava que o conhecimento seria solicitado tão rapidamente. No início de novembro, quando romperam as barragens da mineradora Samarco, em Minas Gerais, eles integraram o grupo de uma centena de pesquisadores organizado pela universidade e logo se prepararam para colher amostras comparativas. “No dia 21 de novembro a pluma que desceu o rio Doce chegou à foz e já tínhamos o barco preparado”, conta Valéria. No dia seguinte sua equipe coletava amostras da água marinha tingida de laranja.

A primeira caracterização de como se comportam os sedimentos que o rio normalmente transporta está em um artigo publicado em dezembro de 2015 pelo grupo de Valéria na revista Brazilian Journal of Geology. Os resultados mostram que os sedimentos mais finos passam por um processo rápido de deposição, conhecido como floculação, quando a água doce encontra a salinidade e o pH diferentes do mar. A deposição desse sedimento, classificado como lama terrígena, se dá principalmente em profundidades de ao menos 10 metros, ao sul de onde o rio Doce desemboca, para onde são empurrados pelo vento nordeste – o predominante por ali. “Em seguida esse material pode ser ressuspendido e redistribuído para norte, conforme a força e a direção dos ventos e das ondas”, explica Valéria, que mapeou a deposição desses sedimentos não só no trabalho resultante das amostras que seu grupo coletou, como em dados compilados no artigo de revisão publicado em novembro de 2015 na revista Journal of South American Earth Sciences. Na região ao norte do rio Doce, junto à linha costeira, predominam partículas maiores e menos argilosas.

Mesmo com conhecimento da região e com todo o preparo para receber a onda de lama que percorreu parte de Minas Gerais e do Espírito Santo, causando grandes danos às cidades adjacentes e à ecologia do rio e seus arredores, a avaliação do impacto do material oriundo dos rejeitos de mineração não é imediata. O que deu para ver logo de cara é que se trata de um volume espantoso de material argiloso com partículas muito finas, que não se depositam facilmente. “Não conhecemos esse tipo de sedimento que integra os rejeitos”, conta Valéria, “não sabemos como ele se comporta”. Ela pretende acompanhar sua trajetória em uma série de futuras viagens de campo. “Precisamos entre um e dois meses para ver como ficou o fundo.”
A preocupação gerada pela mudança na dinâmica de transporte de sedimentos vai muito além de seu papel essencial para a estabilidade da linha de costa. Nas coletas que já fizeram, os pesquisadores se espantaram com a água completamente turva, que tornava difícil enxergar os equipamentos submersos. Essa mudança nas características físicas da água, segundo Valéria, pode alterar completamente o ambiente necessário à vida dos organismos que vivem no fundo e compõem a base da cadeia alimentar marinha: a comunidade bentônica.
© MARCOS DANIEL LEITE / UFES
... a ponto de a garrafa coletora de água ficar quase invisível quando submersa
… a ponto de a garrafa coletora de água ficar quase invisível quando submersa

Química
 
Além dos sedimentos, também preocupa os pesquisadores o conteúdo da lama em termos químicos. Um componente cuja abundância surpreende pouco, dada a atividade de extração de minério que deu origem ao acidente, é o ferro. Valéria afirma que isso pode ser um problema porque seu excesso pode causar uma proliferação excessiva dos organismos planctônicos (seres microscópicos que flutuam na coluna d’água) e provocar grande desequilíbrio ecológico.

O químico Renato Rodrigues Neto, coordenador do Laboratório de Geoquímica Ambiental do Departamento de Oceanografia e Ecologia da Ufes, está à frente do grupo que vem analisando os elementos presentes na enxurrada de rejeitos. Por enquanto só foram analisadas amostras de cinco pontos na desembocadura do rio Doce, mas já se nota um aumento importante de alguns metais quando se compara antes e depois da chegada da lama. “Aumentaram muito os teores de vanádio, alumínio, ferro, manganês e cromo”, conta o pesquisador, que no final de dezembro terminou de elaborar um relatório preliminar com esses resultados. Mesmo espantado com o aumento em 50 vezes da concentração de ferro, que seu grupo detectou, esse não é o elemento que o preocupa por ser um nutriente naturalmente disponível.
Mais preocupante foi o teor muito aumentado de cromo, um elemento que pode ser tóxico conforme sua apresentação. “Em geral ele ocorre na forma menos tóxica”, explica Rodrigues Neto, “mas ainda não testamos para saber o que existe agora”. São análises mais complexas, que exigirão uma parceria com outros laboratórios. Também falta, de acordo com o químico, avaliar se o cromo está numa forma biodisponível, que pode ser absorvida pelos organismos.

A gravidade do acidente levou a uma cobrança por respostas imediatas e à organização rápida de pesquisadores empenhados em encontrá-las. Mesmo assim, entender como o ambiente e os organismos que vivem nele vão reagir e ser afetados requer tempo. Nos próximos meses, deve começar a se delinear o efeito causado nos animais e nas plantas da região.

Artigos científicos
 
BASTOS, A. C. et al. Shelf morphology as an indicator of sedimentary regimes: a synthesis from a mixed siliciclastic-carbonate shelf on the eastern Brazilian margin. Journal of South American Earth Sciences. v. 63, p. 125-36. nov. 2015.

QUARESMA, V. S. et al. Modern sedimentary processes along the Doce river adjacent continental shelf. Brazilian Journal of Geology. v. 45, n. 4, p. 635-44. dez. 2015

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Geologia de barragens: tipos de materiais

vitrine2
Como material natural passível de ser utilizado em uma obra de barramento, podem ser distinguidos:
  • Material pétreo;
  • Material arenoso;
  • Material terroso.
As fontes de obtenção desses materiais são basicamente duas: escavações da própria obra e áreas de empréstimo. Muitos projetos de barragens exigem escavações consideráveis, sejam no solo ou em rocha, ora com o propósito de atingir uma fundação mais resistente, ora para alcançar níveis mais profundos para o escoamento da água, como ao longo de canais.

A abertura de túneis também propicia a obtenção de um grande volume de materiais, principalmente pétreos. Em todos esses casos, é necessário, ainda em fase de projeto, realizar os ensaios de campo e de laboratório adequados a cada tipo de material que será escavado durante a construção, a fim de pesquisar a possível aplicabilidade desses materiais na construção da obra projetada.
Essa prática encontra, entre outras, as seguintes justificativas:
  • elimina ou reduz a formação de depósitos ou bota‑fora dos materiais escavados, que representam sérios impactos ambientais;
  • elimina a recuperação de áreas degradadas pela escavação de áreas de empréstimo, o que também significa impactos ambientais significativos;
  • elimina os custos de desapropriação das áreas de empréstimo;
  • elimina os custos com a construção, manutenção e desapropriação de acessos para as áreas de empréstimo;
  • elimina os custos de transporte dos materiais provenientes de áreas de empréstimo.
É muito comum os materiais rochosos apresentarem trechos alterados e trechos de excelente sanidade. Nesses casos, pode‑se perfeitamente utilizar o material alterado no corpo da barragem “envelopado” pelo material de boa sanidade, constituindo as chamadas “zonas random”, que podem assumir variadas posições no interior do maciço barrável.

Quando, porém, a quantidade ou a qualidade dos materiais escavados não atenderem de forma alguma as necessidades previstas para a obra, apela-se para as áreas de empréstimo, seja para suprir todas essas necessidades, seja para complementar a utilização dos materiais escavados. Nesse caso, as áreas de empréstimo incluem as pedreiras para materiais pétreos ou as jazidas para materiais terrosos e arenosos.
Na pesquisa das áreas de empréstimo, deve‑ se ter em mente que o transporte do material é o fator que mais onera a sua utilização, razão pela qual deve-se inicialmente concentrar todos os esforços para não ultrapassar o raio de 2 km da obra na localização dessas áreas. Dentro desse raio, a pesquisa desses materiais deve observar atentamente as seguintes condicionantes:
  • distância da obra;
  • geologia local;
  • topografia;
  • condições de explorabilidade;
  • condições de acesso;
  • características do material;
  • volumes disponíveis;
  • custos de desapropriação;
  • aspectos ambientais.
Somente após verificada a impossibilidade de atender às necessidades da obra com empréstimos situados nesse raio de influência, deve-se partir para pesquisar áreas mais distantes, usando os mesmos critérios de pesquisa para restringir a localização dessas áreas ao raio de 5 km.
Finalmente, na impossibilidade do atendimento dessa última condição, extrapola-se a pesquisa com base em uma fotointerpretação geológica a áreas mais distantes.
Tudo a ver
capa livro 

Para entender mais sobre o assunto, leia o livro Geologia de Barragens de Walter Duarte Costa. Com 30 anos de experiência no ensino de Geologia e na consultoria geológico-geotécnica de projetos e construção de barragens, o autor apresenta de forma didática os principais conhecimentos da área relacionados a essas obras em suas fases: viabilidade, projeto básico e executivo.
Inclui investigações de campo e laboratório; estudos da bacia hidrográfica e seções hidráulicas; eixos do barramento e obras complementares; e critérios para a escolha do tipo de barragem. Mostra a importância e os tipos de tratamento das fundações; materiais naturais de construção; monitoramento; relatórios técnicos; e subsidia os estudos de meio ambiente.

sábado, 31 de maio de 2014

Barragens e inundações no rio Madeira

Impactos da enchente ocorrida recentemente por evento meteorológico extremo foram agravados pelas usinas hidrelétricas instaladas ao longo do curso d’água. 
 
Por: Philip M. Fearnside
Publicado em 29/05/2014 | Atualizado em 29/05/2014
Barragens e inundações no rio Madeira
Vista aérea da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia. É provável que a usina tenha agravado a erosão da orla de Porto Velho na superenchente que castigou a região em 2014. (foto: Divulgação PAC2/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0) 
 
A inundação ocorrida recentemente no leito do rio Madeira foi provocada por um evento meteorológico extremo, com uma vazão que se estimava que acontecesse apenas uma vez a cada 100 anos. Nos últimos tempos, aliás, eventos climáticos extremos, dos mais variados tipos, têm ocorrido em diferentes partes do mundo, sugerindo indícios evidentes de mudanças climáticas – embora não se possa demonstrar que qualquer evento específico seja uma decorrência de tais mudanças.
Com o agravamento do aquecimento global, a previsão é que inevitavelmente tenhamos um número cada vez maior de eventos climáticos extremos pelo mundo afora.
 
Com o agravamento do aquecimento global, a previsão é que inevitavelmente tenhamos um número cada vez maior de eventos climáticos extremos pelo mundo afora.
Alguns dos impactos da inundação do rio Madeira foram agravados pelas usinas hidrelétricas instaladas ao longo de seu curso, embora, é evidente, essas barragens não possam ser responsabilizadas sozinhas por todos os estragos.
No caso da usina hidrelétrica de Santo Antônio, é provável que ela tenha agravado a erosão da orla de Porto Velho, cujo centro está a apenas 7 km abaixo da barragem. A canalização da água pelo vertedouro alterou a correnteza a jusante da barragem, lançando mais água contra as áreas da cidade que ficam próximas do rio.

Por água abaixo

Isso se evidenciou na estação chuvosa de 2011-2012, a primeira após o fechamento da barragem, quando a capital de Rondônia foi surpreendida por uma erosão súbita. Cerca de 300 casas localizadas à beira do rio foram destruídas ou ficaram condenadas, e até o monumento fincado no local pelo Marechal Rondon um século atrás foi por água abaixo.
Porta-vozes da empresa alegaram que tudo não passava de um fenômeno natural de “terras caídas”. Mas, levando-se em conta a coincidência do fenômeno com a implantação da barragem, muito possivelmente essas alegações não devem ter convencido muita gente além dos próprios funcionários da empresa.
Caminhões na estrada
A inundação de vários trechos da rodovia BR-364 que beiram os lagos formados pelas usinas de Santo Antônio e Jirau também deve ter sido agravada por causa das barragens. (foto: Sérgio Vale/Secom – CC BY 2.0)
A força dessa água na superenchente que castigou a região em 2014 seria aumentada por concentrar justamente na queda da barragem toda a força da vazão recorde. O reservatório de Santo Antônio, com 117 km de comprimento, inunda não só a cachoeira de Santo Antônio, mas também a cachoeira maior, de Teotônio, e várias outras, menores, no percurso do Madeira.
No rio natural, a energia cinética da queda da água era liberada aos poucos, ao longo de todo o trajeto. Mas, com a barragem, ela se concentra em uma única queda, de grande dimensão, logo acima de Porto Velho. Portanto, a velocidade da água e o seu poder erosivo são maiores justamente ali.
A inundação de vários trechos da rodovia BR-364 que beiram os lagos formados pelas usinas de Santo Antônio e Jirau também deve ter sido agravada por causa das barragens. A cheia recorde teria causado enchente também recorde mesmo na ausência das barragens. Mas, com elas, a cheia é ainda maior na margem dos reservatórios, uma vez que o aumento tem início a partir de um nível mais alto. Se os níveis dos reservatórios tivessem sido rebaixados ao máximo para aproximar o rio de seu leito natural, a inundação lateral teria sido menor.

Impacto internacional 

No caso da usina de Jirau, situada a cerca de 120 km de Porto Velho, poderia haver uma contribuição à atual inundação na Bolívia no trecho do rio Madeira acima do distrito de Abunã, em Rondônia. As afirmações de que a barragem de Jirau não teria qualquer efeito sobre as inundações no país vizinho, repetidas diversas vezes pelos proponentes das barragens no Estudo e no Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), e em documentos elaborados posteriormente, foram contestadas em detalhe por mim em trabalho publicado em 2013 na revista Water Alternatives (uma versão desse texto em português está disponível aqui).
Os sedimentos acumulados funcionam como uma espécie de segunda barragem, represando a água no trecho do rio que está acima do que é oficialmente considerado ‘reservatório’
O problema é que os sedimentos mais grossos, como areia, tendem a migrar para o fundo do reservatório logo no seu início, onde a água entra no lago rio acima. Os sedimentos acumulados funcionam como uma espécie de segunda barragem, represando a água no trecho do rio que está acima do que é oficialmente considerado ‘reservatório’. Isso forma o chamado ‘remanso superior’, onde o nível da água é mais alto do que no rio natural.
Por ocasião de uma enchente, como a que acaba de acontecer, isso se traduz em mais inundação e estragos, inclusive em uma área protegida na margem boliviana desse trecho. O rio Madeira tem uma das maiores cargas de sedimentos do mundo, e o ‘reservatório’ oficial de Jirau termina exatamente na divisa do Brasil com a Bolívia, fornecendo, assim, todos os elementos necessários para um impacto internacional.

Philip M. Fearnside
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia

Texto originalmente publicado na CH 314 (maio de 2014). Clique aqui para acessar uma versão resumida da revista.