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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Como as Estradas Transformaram o Mundo Natural

Uma breve história da ecologia das estradas, a disciplina científica que nos ajuda a entender nosso impacto no meio ambiente e como diminuí-lo.



Um veado-mula atravessa uma estrada perto de Aspen, Colorado. Robert Alexander / Fotos de Arquivo / Getty Images.


Quando arqueólogos alienígenas exumam os escombros da civilização humana, podem concluir que nossa razão de ser foi construir estradas. Cerca de 40 milhões de milhas de estradas circundam a Terra, desde a Rodovia Pan-Americana que atravessa o continente até as cem mil milhas de rotas ilegais de extração de madeira que filigranam a Amazônia. 

Nosso planeta está sobrecarregado por talvez 3.000 toneladas de infraestrutura para cada humano, quase um terço de uma Torre Eiffel por pessoa. As estradas são anteriores à roda: construtores mesopotâmicos começaram a construir caminhos de tijolos de barro em 4000 a.C., séculos antes de alguém pensar em deixar cair uma carruagem sobre alguns discos de oleiro. Hoje é impossível imaginar a vida sem as artérias de asfalto que conectam mercadorias aos mercados, funcionários com empregos, famílias entre si. "Tudo na vida está em outro lugar", escreveu E.B. White, "e você chega lá de carro."

As estradas são tanto essenciais logísticos quanto artefatos culturais. Eles personificam a liberdade — a "arquitetura da nossa inquietação", segundo Rebecca Solnit, as "duas faixas [que] nos levam a qualquer lugar", segundo Bruce Springsteen. Para nós, estradas significam conexão e fuga; para outras formas de vida, significam morte e divisão. Em algum momento do século XX, cientistas escreveram que o atropelamento superou a caça como "a principal causa humana direta de mortalidade de vertebrados em terra." Cite seus problemas ambientais—barragens, caça ilegal, megaincêndios—e considere que as estradas matam mais criaturas com menos alarde do que qualquer uma delas. (Mais aves morrem nas estradas americanas toda semana do que foram mortas pelo vazamento de óleo de Deepwater Horizon, com as mortes nas estradas acompanhadas de uma fração do apreensão.) E só está piorando à medida que o trânsito aumenta. Há meio século, apenas 3% dos mamíferos terrestres encontraram seu fim em uma estrada; em 2017, o número de vítimas havia quadruplicado. Nunca foi tão perigoso colocar pata, casco ou barriga escamosa na rodovia.

As estradas distorcem o planeta de outras maneiras, mais insidiosas. Mal a Via Cassia de Roma foi concluída por volta de 100 a.C., sua superfície começou a liberar sedimentos para o Lago di Monterosi, gerando florações de algas que distorceram permanentemente o ecossistema do lago. 

Phytophthora lateralis, um fungo invasor que ataca cedros, faz carona nos padrões dos pneus de caminhão. A pequena formiga vermelha de fogo, um inseto impiedoso notório por picar os olhos dos elefantes, explorou as pegadas de extração para se espalhar pelo Gabão 60 vezes mais rápido do que teria feito de outra forma. Um estudo de 2000 descobriu que o próprio pavimento cobria menos de 1% dos Estados Unidos, mas sua influência — a "zona do efeito estrada", para usar jargão ecológico — cobria até 20%. Estacione seu carro no acostamento e explore meio quilômetro pela floresta, e ainda verá menos pássaros do que em uma área selvagem sem estrada. Caminhe mais duas milhas e ainda verá menos mamíferos. Se você é leitor de Kerouac, cresceu imerso no dogma de que estradas representam liberdade. Se você é um urso pardo, eles poderiam muito bem ser paredes de prisão.

As repercussões das estradas são tão complexas que é difícil identificar onde elas terminam. Os rebanhos de caribus da Colúmbia Britânica diminuíram para grupos furtivos, em parte porque estradas de extração e mineração permitiram a entrada de lobos — um desastre causado pelo homem disfarçado de predação natural. Quase um quinto das emissões de gases de efeito estufa dos Estados Unidos são entregues por carros e caminhões, e o setor de transporte é o contribuinte que mais cresce para as mudanças climáticas; enquanto isso, o crescimento dos veículos elétricos, cujas baterias dependem de lítio e outros metais, catalisou um boom minerador que ameaça desfigurar paisagens em lugares tão díspares quanto Chile, Zimbábue e Nevada. Até mesmo a perda de habitat, a mais completa eliminação da vida selvagem, é um problema nas estradas. Antes de poder cortar as florestas tropicais do Alasca ou converter selvas de Bornéu em monoculturas de óleo, você precisa de estradas para transportar a maquinaria para dentro e o produto para fora. Estradas são, pode-se dizer, as rotas de todo o mal.

Ainda assim, as estradas escolhem vencedores e perdedores. As rodovias do Arizona canalizam a chuva para valas e, assim, amolecem os solos do deserto para os tatugas-de-bolsa, cujos túneis paralelam o acostamento como linhas de metrô. Abutres, corvos e outros necrófagos astutos estão em ascensão, suas dietas subsidiadas por animais atropelados. Borboletas cujas pradarias foram devoradas por campos de milho encontram alívio em faixas descuidadas de algodão-do-leite à beira da estrada. Na Grã-Bretanha, esse habitat é chamado de "soft estate" — uma sugestão de que estradas são capazes de criar novos ecossistemas, mesmo ao destruírem os existentes. Um biólogo certa vez me levou por baixo de uma ponte rodoviária para me mostrar centenas de morcegos marrons pousados em suas fendas, aparentemente indiferentes ao trânsito que passava por cima.

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Travessias: Como a Ecologia Rodoviária Está Moldando o Futuro do Nosso Planeta

Um relato revelador das transformações ecológicas globais provocadas pelas estradas.

 

terça-feira, 27 de setembro de 2022


 

À medida que as florestas da Europa queimam, por que os incêndios florestais estão piorando?

Autor

Michael Taylor

Fontes)
Fundação Thomson Reuters, trust.org
Um helicóptero deixa cair água em um incêndio violento
Toa55/Shutterstock

Mudanças climáticas aceleradas e eventos climáticos extremos, como secas e ondas de calor, estão alimentando incêndios florestais em todo o mundo.

  • Nações da França à Espanha lutam para conter incêndios florestais

  • Dados mostram incêndios se espalhando e destruindo mais cobertura de árvores

  • A mudança climática é um grande impulsionador da seca e das ondas de calor

Várias nações europeias como Itália, França, Grécia, Portugal

, Eslovênia e Espanha têm lutado nos últimos meses para lidar com incêndios florestais violentos - causados ​​por ondas de calor mortais e secas - que deslocaram milhares de pessoas.

Além de levar os serviços de emergência ao ponto de ruptura e causar danos ao meio ambiente e às pessoas, os incêndios florestais liberam dióxido de carbono (CO2) que aquece o planeta, alimentando ainda mais as mudanças climáticas e condições climáticas extremas.

Globalmente, os incêndios florestais estão piorando – com a temporada de incêndios de 2021 sendo a segunda pior já registrada, de acordo com a Universidade de Maryland e o serviço de monitoramento Global Forest Watch

(GFW).

Novos dados publicados na quarta-feira pela GFW - que é administrado pelo World Resources Institute, um think-tank com sede nos EUA - mostraram que os incêndios florestais estão se espalhando e queimando cerca de duas vezes mais cobertura de árvores agora do que há 20 anos.

Aqui está o que os pesquisadores da GFW descobriram sobre incêndios florestais em todo o mundo usando imagens de satélite - e por que isso é importante:

Quão ruins são os incêndios florestais hoje?

Os incêndios florestais agora causam 3 milhões de hectares a mais de perda de cobertura florestal a cada ano do que em 2001.

Esses incêndios foram responsáveis ​​por mais de um quarto de toda a perda de cobertura florestal nas últimas duas décadas. Os fatores não relacionados ao fogo variam desde a limpeza de terrenos para extração de madeira até o meandro do rio.

O ano passado foi um dos piores em incêndios florestais desde a virada do século, causando 9,3 milhões de hectares de perda de cobertura de árvores em todo o mundo – mais de um terço de todas as perdas em 2021.

A mudança climática é um dos principais impulsionadores do aumento dos incêndios, com ondas de calor extremas cinco vezes mais prováveis ​​agora do que há 150 anos e devem se tornar ainda mais frequentes à medida que o planeta continua aquecendo.

Temperaturas mais quentes secam florestas e paisagens para criar o ambiente ideal para incêndios florestais maiores e mais frequentes. Isso resulta em maiores emissões de CO2, agravando ainda mais as mudanças climáticas e, por sua vez, contribuindo para mais incêndios.

Onde ocorrem os piores incêndios florestais?

Cerca de 70% de toda a perda de cobertura florestal relacionada ao fogo nas últimas duas décadas ocorreu em florestas boreais encontradas nas regiões do extremo norte, incluindo Canadá, Rússia e Alasca.

Embora o fogo seja uma parte natural de como as florestas boreais funcionam ecologicamente, a perda de cobertura florestal relacionada ao fogo aumentou em uma taxa de cerca de 110.000 hectares (3%) por ano nos últimos 20 anos.

O aumento dos incêndios florestais boreais provavelmente se deve ao aquecimento das regiões de alta latitude do norte a um ritmo mais rápido do que o resto do planeta, segundo a nova pesquisa.

Isso leva a temporadas de incêndios mais longas, maior frequência e gravidade de incêndios e maiores áreas queimadas nessas regiões.

No ano passado, por exemplo, a Rússia teve 5,4 milhões de hectares de perda de cobertura florestal relacionada ao fogo – o maior registrado nas últimas duas décadas – e um aumento de 31% em 2020.

Isso ocorreu em grande parte por causa das ondas de calor prolongadas que não teriam acontecido se não fossem as mudanças climáticas, disseram os pesquisadores.

As florestas boreais estão entre os maiores sumidouros de carbono da Terra, com a maior parte do carbono armazenado no subsolo no solo, inclusive no permafrost.

Historicamente, esse carbono foi protegido de incêndios pouco frequentes que ocorrem naturalmente.

Mas temperaturas mais quentes e incêndios mais frequentes estão derretendo o permafrost e tornando o carbono do solo mais vulnerável à queima.

Por que os trópicos também sofrem mais incêndios florestais?

As florestas primárias tropicais são definidas como áreas de cobertura florestal tropical úmida, madura e natural que não foram desmatadas e replantadas na história recente.

Nos últimos 20 anos, a perda de cobertura arbórea relacionada ao fogo nos trópicos aumentou a uma taxa de cerca de 36.000 hectares (5%) por ano - e foi responsável por cerca de 15% do aumento global total.

Embora os incêndios sejam responsáveis ​​por menos de 10% de toda a perda de cobertura florestal nos trópicos, fatores mais comuns, como a produção de commodities e a agricultura itinerante, tornam as florestas tropicais menos resilientes e mais suscetível a incêndios.

O desmatamento e a degradação florestal ligados à expansão agrícola - que inclui óleo de palma, soja e gado - levam a temperaturas mais altas e vegetação seca.

Nas regiões tropicais, os incêndios são comumente usados ​​para limpar a terra para novas pastagens ou culturas depois que as árvores foram derrubadas e deixadas para secar. Durante os períodos de seca, esses incêndios podem escapar acidentalmente para as florestas vizinhas.

Quase todos os incêndios que ocorrem nos trópicos são iniciados por pessoas, em vez de serem provocados por fontes naturais de ignição, como raios. Eles são então exacerbados por condições mais quentes e secas, o que pode fazer com que os incêndios fiquem fora de controle.

O risco de incêndios florestais nos trópicos é ainda mais alimentado por eventos climáticos El Niño - ciclos climáticos naturais que se repetem a cada dois a sete anos e causam chuvas abaixo da média em partes do Sudeste Asiático e da América Latina.

O que pode ser feito para reduzir os incêndios florestais?

Não há solução para reduzir a frequência de incêndios a níveis históricos sem reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, disseram os pesquisadores.

Mas a atividade humana dentro e ao redor das florestas as torna mais suscetíveis a incêndios florestais e desempenha um papel na condução de níveis mais altos de perda de cobertura florestal relacionada ao fogo nos trópicos.

Melhorar a resiliência da floresta ao interromper o desmatamento e a degradação florestal é considerado vital para prevenir futuros incêndios, assim como limitar as queimadas próximas que podem escapar facilmente para as florestas, especialmente durante as secas.

domingo, 30 de agosto de 2015

 PALEONTOLOGIA

A floresta da água e do fogo

Fósseis em mina de carvão no Rio Grande do Sul revelam paisagem pantanosa sujeita a incêndios frequentes há 290 milhões de anos 

MARIA GUIMARÃES | ED. 234 | AGOSTO 2015
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© JOALICE DE OLIVEIRA MENDONÇA UFRJ/CC MN/IGEO / LAFO
Possível estrutura produtora de pólen ao microscópio de fluorescência
Possível estrutura produtora de pólen ao microscópio de fluorescência

Muito mudou na paisagem da região Sul do Brasil nos últimos 290 milhões de anos. A América do Sul se separou da África e ergueu-se a serra Geral, cujas montanhas acompanham de perto o que hoje é a costa dos estados do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Registros preservados nas rochas sugerem que, antes disso, a região tinha áreas alagadas onde brotavam árvores de cerca de 15 metros de altura do grupo das pteridospermas, coníferas ancestrais que dominavam o que hoje são ambientes geradores de carvão no hemisfério Sul. O grupo da paleobotânica Margot Guerra-Sommer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), obteve mais do que fósseis em expedições à mina de carvão de Faxinal, no município gaúcho de Arroio dos Ratos. As rochas dali preservaram informações paleoecológicas que contam uma história de incêndios recorrentes em um ambiente onde se imaginava uma umidade constante.

“No meio do carvão mineral encontramos fragmentos de troncos com cerca de 20 centímetros de diâmetro”, conta a bióloga Isabela Degani-Schmidt, doutoranda no laboratório de Margot. O achado é incomum porque a matéria orgânica vegetal queimada é extremamente delicada e costuma quebrar-se em fragmentos de no máximo 4 a 5 centímetros no caminho até o local no qual fica acumulada e encontra condições de ser preservada para a posteridade. Não foi o que aconteceu na região estudada pelo grupo de Margot.

Os fósseis de dimensões incomuns indicam que as árvores da região foram queimadas em pé. Os troncos, depois de caídos, permaneceram no mesmo lugar em que seriam encontrados bem mais tarde por mineradores e pesquisadores.

© JOALICE DE OLIVEIRA MENDONÇA UFRJ/CC MN/IGEO / LAFO
Brilho indica que pólen não foi queimado
Brilho indica que pólen não foi queimado.

O material guarda registros importantes do ambiente da época (início do período geológico conhecido como Permiano) naquela região, que agora podem ser interpretados. A fossilização dos troncos e das folhas indica que eram florestas em ambiente pantanoso. “São condições propícias à fossilização porque o material vegetal que cai na água acumula-se em um ambiente ácido inóspito para as bactérias e fungos responsáveis pela decomposição”, explica Isabela. Por isso, a ideia até agora era de um pântano permanente na região. “Nessa turfeira alagada em todas as estações, não se imaginaria que ocorressem incêndios.”

Os achados recentes, publicados na edição de julho da revista International Journal of Coal Geology, pintam, porém, um quadro mais complexo. “O ambiente provavelmente nunca ficava seco”, propõe a pesquisadora, “mas haveria um período suficientemente seco para permitir incêndios naturais, que indicam nessas ocasiões uma atmosfera muito mais rica em oxigênio do que a atual”.

O estudo de amostras de troncos e pólen por microscopia de fluorescência e eletrônica de varredura revelou também que não eram incêndios avassaladores. A medula dos troncos e os pólens não foram carbonizados, revelando temperaturas relativamente baixas. Isabela interpreta o achado como indicação de que as estações secas nunca eliminavam por completo a umidade e o solo provavelmente ficava sempre recoberto por um filme d’água, favorecendo a fossilização no próprio local e pela queima incompleta.
© IS ABELA DEGANI-SCHMIDT
Vistas a olho nu...
Folhas carbonificadas…

Flora especializada

A hipótese mais plausível para a origem dos incêndios, segundo Isabela, é que seriam causados por raios. Outra possibilidade aventada seria vulcanismo, reforçada pela presença de uma camada de rocha de cor branca, rica em folhas fossilizadas, em meio ao carvão, interpretada como cinza vulcânica. Examinando essa camada de rocha, o grupo de Margot concluiu que as cinzas já teriam caído frias sobre a região e devem ter vindo de longe. Ainda não se sabe de onde. “Não há indícios de fontes de atividade vulcânica por ali”, afirma Isabela.
Mais do que uma flora carbonizada, os achados revelam uma dinâmica ecológica. A pesquisadora defende que a mata era adaptada ao fogo. “Encontramos a deposição de fósseis de pteridospermas em camadas diferentes, indicando que essas plantas permaneciam ali ao longo do tempo”, explica. Falta determinar se tinham recursos para subsistir nessas condições. “Estamos analisando estruturas nas folhas para ver se tinham especializações nesse sentido.”
© IS ABELA DEGANI-SCHMIDT
...folhas carbonificadas
…Vistas a olho nu
Os fósseis encontrados, assim como as condições ambientais que eles permitem inferir, podem ser uma pista de que a diversidade vegetal era um tanto limitada por ali, determinada pela capacidade de resistir aos incêndios constantes. São estudos curiosos porque revelam uma paisagem da qual já não há vestígios vivos, com protagonistas completamente extintos. Antes vistas como um elo evolutivo entre as samambaias e as coníferas, as pteridospermas pertenciam a um grupo de gimnospermas ancestrais cujos parentes mais próximos atuais são, provavelmente, as cicas e o ginkgo. “Não há nada parecido hoje no local”, conta a pesquisadora, que não conhece nenhuma paisagem como a que vê desenhar-se a partir dos fósseis. “Só analisando as rochas para extrair o que está preservado.”

Artigo científico

DEGANI-SCHMIDT, I., et al. Charcoalified logs as evidence of hypautochthonous/autochthonous wildfire events in a peat-forming environment from the Permian of southern Paraná Basin (Brazil). International Journal of Coal Geology, v. 146, p. 55-67. 1º jul. 2015.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

CAATINGA E CERRADO DESAPARECENDO...PARA SEMPRE

Terra frágil

Análises de imagens de satélite indicam perda de 266 mil km2 do Cerrado e 90 mil km2 da Caatinga, aumentando riscos de falta d’água e de desertificação
CARLOS FIORAVANTI | ED. 231 | MAIO 2015
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© FÁBIO COLOMBINI
Queimada no Cerrado em 2006 no Parque Nacional das Emas, em Goiás
Queimada no Cerrado em 2006 no Parque Nacional das Emas, em Goiás

Catolé do Rocha, município do sertão da Paraíba com quase 30 mil moradores, está ficando ainda mais quente e seco, à medida que a vegetação natural se esvai. Em oito anos, de 2005 a 2013, de acordo com um estudo de pesquisadores de universidades da Paraíba e do Rio Grande do Norte, a área de caatinga rala encolheu 48% e a de caatinga densa, 13,5%, enquanto a agrícola deu um salto de 823%, de 2,45 mil para 22,64 mil hectares. Os autores desse levantamento concluíram que “a vegetação local foi suprimida indiscriminadamente” e houve “um crescimento exorbitante” das áreas ocupadas principalmente com a criação extensiva de bois.

Somando muitas situações como essa, de 1990 a 2010 a Caatinga perdeu 9 milhões de hectares – ou 90 mil quilômetros quadrados (km2), quase a área de Portugal – de vegetação nativa, em consequência do desmatamento e da expansão da agropecuária e do uso de madeiras de árvores nativas como fonte de energia (lenha) em residências e pequenas indústrias, de acordo com um levantamento mais amplo publicado em março na revista Applied Geography. Esse trabalho indica que, nesses 20 anos, a taxa de derrubada da vegetação natural aumentou na Caatinga (de 0,19% ao ano de 1990 a 2000 para 0,44% ao ano na década seguinte), embora os levantamentos do Ministério do Meio Ambiente indiquem uma queda do desmatamento nesse ecossistema. Para os autores do artigo, a divergência decorre do conceito de paisagem natural – eles preferiram não incluir as áreas cobertas puramente por gramíneas, que o governo federal considerou – e da escala temporal (duas décadas em um caso e quase uma década em outro).

A eliminação da vegetação nativa – ainda mais prejudicial quando feita por meio do uso do fogo, que destrói a matéria orgânica do solo – deixa a terra descoberta, com maior capacidade para absorver a radiação solar, desse modo elevando a temperatura local, acelerando a evaporação da água e diminuindo a resistência à erosão causada pelo vento e pelas chuvas, que arrastam a matéria orgânica e reduzem a fertilidade de solos pouco férteis e a capacidade de reter água. Além disso, alertam os especialistas, a erosão causada pelas chuvas – raras, mas geralmente torrenciais – promove o assoreamento de rios, aumentando o risco de inundações, e expõe as rochas antes cobertas pela terra, dificultando a volta das plantas e mesmo o uso da terra para fins agrícolas. Em Catolé do Rocha, a área exposta de rochas, os chamados afloramentos, aumentou 27%, passando de 578 para 734 hectares, em oito anos.
© FÁBIO COLOMBINI
Queimada no cerrado e buritizal de Boa Vista, Roraima, em 2014
Queimada no cerrado e buritizal de Boa Vista, Roraima, em 2014
Na Caatinga, outra ameaça, que se agrava, é a desertificação. “O que mais contribui para desencadear o processo de desertificação é o mau uso da terra, com o desmatamento e muitas vezes o uso do fogo, agravado pelas condições climáticas”, diz Iêdo Bezerra Sá, pesquisador da Embrapa Semiárido. Com sua equipe, ele examinou a região de Cabrobó, no sertão de Pernambuco, um dos núcleos de desertificação do nordeste brasileiro, a 400 km a sudoeste de Catolé do Rocha. Ali, os solos são arenosos, permeáveis e incapazes de reter as águas das chuvas. Seus levantamentos indicaram que a área com grau severo de desertificação, associado à ocupação agropecuária, era já de 100 mil hectares (1 mil km2) e com grau acentuado, em terras ocupadas pela caatinga arbórea, de 519 mil hectares (5 mil km2).

Sá está concluindo um levantamento que indica que 9 das 12 regiões de Pernambuco – ou 122 dos 185 municípios do estado –, principalmente no sertão, estão sujeitas a um risco elevado de desertificação. Um de seus estudos recentes indicou que quase toda a região de desenvolvimento do sertão do São Francisco, onde se cultivam frutas irrigadas, encontra-se sob risco de se transformar em um areal estéril (75% da área encontra-se sob risco moderado e 23% sob risco severo). Ali, ele explicou, o consumo de água para a irrigação das plantações excede a capacidade dos rios, cuja vazão diminui, prejudicando toda a área que percorrem. “A Caatinga é muito frágil”, diz ele. “Em alguns casos, o melhor seria não mexer.”
Especialistas verificaram que 94% do Nordeste brasileiro, além do norte de Minas Gerais e Espírito Santo, apresenta uma suscetibilidade que varia de moderada a alta à desertificação e indicaram as áreas com maior potencial de se tornarem areais estéreis até o ano de 2040. Nesse levantamento, as áreas mais suscetíveis expandiram-se quase 5%, o equivalente a 83 km2, de 2000 a 2010. “Esse estudo foi o primeiro no Brasil a produzir um diagnóstico a partir da análise integrada dos principais indicadores de degradação e desertificação”, diz Rita Vieira, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e principal autora desse estudo, publicado na Solid Earth. Segundo ela, os resultados foram apresentados à Comissão Nacional de Combate à Desertificação, que orienta a implementação de compromissos internacionais assumidos pelo país.

“Reduzir o risco de desertificação é um processo lento. O primeiro passo é mudar a forma de lidar com a terra e parar de desmatar”, diz Carlos Magno, um dos coordenadores do Centro Sabiá, uma organização não governamental sediada em Recife. Com financiamento do governo federal, o centro está trabalhando com 200 famílias de pequenos proprietários rurais do agreste e do sertão de Pernambuco para recuperar 100 hectares de áreas sujeitas à desertificação com os chamados sistemas agroflorestais, que consistem no plantio de plantas diferentes como milho, feijão, abóbora, batatas, forrageiras e frutas como umbu e cajá em meio à Caatinga.
“Estamos reconstruindo a ideia de que a Caatinga é uma floresta e que precisa ser preservada”, diz Magno.
© FÁBIO COLOMBINI
Xique-xique em solo rochoso da Caatinga de Caicó, Rio Grande do Norte: ambiente frágil
Xique-xique em solo rochoso da Caatinga de Caicó, Rio Grande do Norte: ambiente frágil
No dia 16 de abril, ele saiu de seu escritório em Caruaru e viajou 30 km até o município de Bezerros para visitar Maria Idalvonete Julião da Silva, dona de 3 hectares, que participa desse projeto. Motivada pela perspectiva de aumentar a produção de alimentos mesmo em tempos mais secos, Idalvonete separou 1 hectare e plantou palma forrageira e leucena, que servem de alimento para o gado, feijão guandu, mamão e abacaxi. “Além de servir aos animais e às pessoas”, ele argumenta, “os cultivos conservam o solo; a água, quando chega, fica no solo, cheio de raízes, em vez de ir embora”. Em um levantamento com 15 famílias que adotam essa estratégia há mais de 10 anos, ele verificou que “depois das grandes secas e chuvas os sistemas agroflorestais voltam a produzir alimentos mais rapidamente que os sistemas agrícolas convencionais, o que implica uma exploração excessiva do solo da Caatinga.”

Cerrado

No estudo publicado na Applied Geography, a equipe coordenada por René Beuchle, do Joint Research Centre da Comissão Europeia, da Itália, examinou também outro amplo ecossistema brasileiro, o Cerrado, que perdeu ainda mais que a Caatinga. Em 20 anos, a área de Cerrado sofreu uma redução de 26 milhões de hectares – ou 260 mil km2, o equivalente ao dobro da área da Inglaterra, também pela expansão da agropecuária. Outra conclusão é de que a taxa de derrubada da vegetação natural caiu no Cerrado (de 0,79% ao ano de 1990 a 2000 para 0,44% ao ano na década seguinte), dessa vez concordando com as conclusões do governo sobre o recuo do desmatamento.
Para ver o que se passava na Caatinga e no Cerrado, a equipe coordenada por Beuchle analisou 974 imagens do satélite Landsat, com resolução de 30 metros, que registraram as mudanças na cobertura vegetal do solo em 1990, 2000, 2005 e 2010 em 243 áreas amostrais, cada uma com 10 km por 10 km. Os dois ecossistemas cobrem 35% do território brasileiro e estão entre os ambientes naturais mais ameaçados do planeta devido à conversão de matas nativas para uso agrícola. Hoje a vegetação nativa da Caatinga ocupa 63% de sua área original e a do Cerrado, 47%, de acordo com esse estudo. Levantamentos do governo federal consideram a área remanescente de cobertura vegetal um pouco maior, nos dois casos. Há consenso, porém, de que a área de vegetação nativa preservada por meio de unidades de conservação ainda é muito limitada: 7,5% da Caatinga e 8% do Cerrado.
© FÁBIO COLOMBINI
Um sinal do avanço da pecuária em Currais Novos, Rio Grande do Norte
Um sinal do avanço da pecuária em Currais Novos, Rio Grande do Norte

s não são noticiadas tanto quanto as de outros dois biomas brasileiros, Mata Atlântica e Amazônia, porque, em parte, não é simples detectá-las. Nas imagens de satélite feitas na estação seca – e a maioria das imagens usadas são dessa época, por causa da ausência de nuvens de chuva –, “é difícil separar as árvores sem folhas do Cerrado e da Caatinga de outras coberturas da terra, incluindo as áreas agrícolas”, diz Beuchle. Em contrapartida, as imagens da Mata Atlântica e da Amazônia exibem um claro contraste entre a floresta alta e densa e as áreas desmatadas, mais baixas.
Além disso, diferentemente da Mata Atlântica e da Amazônia, a Caatinga e o Cerrado não foram reconhecidos como patrimônios naturais. O Ministério do Meio Ambiente observa, em seu site: “Devemos reconhecer que a Caatinga ainda carece de marcos regulatórios, ações e investimentos na sua conservação e uso sustentável”. Segundo o ministério, uma das medidas fundamentais nesse sentido seria a aprovação da proposta de emenda constitucional que transforma a Caatinga e o Cerrado em patrimônios nacionais, o que poderia facilitar a implantação de medidas voltadas à conservação desses ambientes.
Edson Sano, pesquisador da Embrapa Cerrados que trabalhou com Beuchle nessa análise, concluiu que a redução de áreas de vegetação nativa, principalmente no Cerrado, reflete a expansão agrícola do final da década de 1990, “quando a terra no Centro-Oeste ainda era barata e a produção no Sul e Sudeste já estava saturada”. Segundo ele, a partir do ano de 2000, porém, essa expansão desacelerou, por causa da elevação do custo da terra, do aumento da fiscalização (hoje os fazendeiros têm de obter autorização de órgãos federais ou estaduais para cortar a vegetação nativa, sob o risco de perder o direito de uso da área) e dos ganhos de produtividade proporcionados por novas tecnologias de cultivo. “Agora a tendência é de redução”, diz ele.

No estado de São Paulo, de acordo com o mapeamento mais recente, de 2010, o Cerrado ocupa 847,4 mil hectares, o equivalente a 8,5% da área original, de 9,9 milhões de hectares, e apenas 25,9 mil hectares estão protegidos por algum tipo de unidade de conservação. Matas desse tipo de vegetação ainda podem ser vistas nas regiões de Ribeirão Preto, Franca, São José do Rio Preto, Bauru, Sorocaba e Campinas, entre outras, acossadas pelas plantações de cana-de-açúcar (ver Pesquisa Fapesp nº 170). “Para atingir as metas de recuperação de acordos internacionais, que propõem a recuperação de 17% da área original terrestre de cada bioma, teríamos de plantar cerca de 800 mil hectares de Cerrado em São Paulo”, informa Marco Aurélio Nalon, pesquisador do Instituto Florestal e um dos coordenadores do Inventário Florestal da Cobertura Vegetal Nativa do Estado de São Paulo.

Com os números e os mapas à mão, Nalon tem se reunido com outros especialistas de órgãos ambientais do estado com o propósito de repor o que for possível das matas perdidas. Não é só São Paulo que está se mobilizando. Em janeiro deste ano, o Ministério do Meio Ambiente apresentou para debate público a versão preliminar do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, elaborado com base na Lei de Proteção da Vegetação Nativa, de 2012, para incentivar o plantio de espécies nativas, a restauração de áreas degradadas e as práticas agropecuárias que favoreçam a recuperação de pelo menos 12,5 milhões de hectares de vegetação nativa nos próximos 20 anos, por meio do plantio ou da restauração de áreas degradadas.

Já existem técnicas agrícolas que evitam o esgotamento do solo e reduzem a necessidade de outras terras para cultivo ou pastagens. Sano destaca duas. A primeira é o rodízio de plantio: uma parte da área de pastagem é ocupada com um cultivo agrícola, que nos anos seguintes ocupa outras partes da propriedade, alternadamente. A segunda é o plantio de árvores comerciais nas pastagens: as árvores oferecem sombra para o gado e depois podem ser vendidas. “Nada impede que em uma mesma fazenda exista uma integração entre lavoura, pecuária e floresta”, diz ele.

A área de vegetação nativa a ser recuperada, de acordo com a meta do plano do governo federal, corresponde a mais da metade dos 21 milhões de hectares que representam o déficit nacional de vegetação nativa no país, medido pela soma das áreas de matas nativas que os proprietários rurais devem, por lei, manter em suas terras ou nas proximidades de rios e córregos. “A recuperação da vegetação nativa é muito importante, principalmente em áreas de nascentes”, ressalta Sano. “Se não preservarmos as nascentes, em alguns anos poderemos não ter mais água nem para beber.”

Artigos científicos

OLIVEIRA, R. A. N. de et al. Dinâmica do processo de desmatamento de caatinga no município de Catolé do Rocha-PB. Agropecuária Científica no Semiárido. v. 10, n. 4, p. 1-4. 2014.

BEUCHLE, R. et al. Land cover changes in the Brazilian Cerrado and Caatinga biomes from 1990 to 2010 based on a systematic remote sensing sampling approach. Applied Geography. v. 58, p.116-27. 2015.

VIEIRA, R. M. S. P. et al. Identifying areas susceptible to desertification in the Brazilian Northeast. Solid Earth. v. 6, p. 347-60. 2015.