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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Biologia, Ecologia e o boi no poder

Historicamente valorizada no Brasil e cada vez mais expansiva, a pecuária gera problemas sérios ao meio ambiente. Mas traz, ao menos, retorno econômico? Jean Remy Guimarães discute o tema em sua coluna de setembro. 
 
Por: Jean Remy Davée Guimarães
Publicado em 18/09/2015 | Atualizado em 18/09/2015
O boi no poder
O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina. (foto: Secretaria de Agricultura e Abastecimento / Flickr / CC BY 2.0) 
 
Em contraponto involuntário, mas oportuno com a coluna quase otimista do mês passado, hoje abordaremos a pegada ecológica de Vossa Excelência, o Boi. Sim, Excelência e Boi, com maiúsculas. Sejamos justos, a Cesar o que é de César: desde 22 de abril de 1500, a pecuária molda as relações do Brasil com seu território e, portanto, molda também a vida politica do pais. Quem é Excelência tem boi, e quem tem boi vira Excelência. Ou Coronel. Ou ambos, sem preconceito.

A faixa presidencial no Brasil já afagou ternos, fardas e até vestidos, mas sua Excelência, o Boi, nunca perdeu a majestade.
Aliás, desde criancinha eu me perguntava como era possível criar tanto boi sem a presença de vacas. Cheguei a cogitar a hipótese de que se tratava, na verdade, de espécies diferentes. Pense bem, no restaurante a carne bovina é apresentada como de Boi. Na bolsa de valores, a cotação se refere à arroba do Boi. E fulano faz o que da vida? Ele cria Boi. Vai ver virei biólogo para isso: resolver o mistério da autoperpetuação do Boi sem a colaboração aparente de sua cara-metade. Hoje, já entendi que a questão não é biológica, e sim cultural – quem é sexista é o dono do Boi e não o inocente herbívoro.
Num fatídico dia de 1963, acompanhei meu tio paterno, veterinário e morador de Uberlândia (MG), aos confins de Goiás, onde tinha um serviço a prestar. Foi meu primeiro contato direto com o mundo real da pecuária. Eu tinha oito anos. O que guardei da experiência?

* As exuberantes fauna e flora, e o frescor das áreas de mata que não haviam sido ainda derrubadas para formação de novos pastos;
* a monotonia e o calor das pastagens;
* a desproporção brutal entre Bois e homens, com muitos dos primeiros e poucos dos segundos;
* o olhar sempre baixo dos peões, embora estivessem sobre cavalos;
* as evasivas quando eu perguntava ao meu tio ou ao seu contratante onde eles dormem, onde estão as famílias deles, onde eles ficam quando chove, quando termina o trabalho do dia; e
* (o que mais me surpreendeu e marcou) a ausência da carne nas refeições daqueles que lidam com toneladas da mesma o dia inteiro.

Naturalmente, eu ainda não havia lido Casa grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Mas foi um resumo inesquecível. Monocultura, escravidão, patriarcalismo, estava tudo ali, pulsando de contradições bem na minha cara. Conclusão: pense bem antes de levar um sobrinho ao trabalho, ele pode acabar virando colunista da CH On-line.
Pecuária e desmatamento
Quando os solos são pobres e as pastagens não se regeneram, a saída é expandir ainda mais os pastos, o que implica, claro, desmatamento. (foto: Angel / Flickr / CC BY-NC-ND 2.0)

Pecuária em solos pobres

Nada disso impediu que a pecuária fizesse do Brasil o maior exportador de carne bovina do mundo, meio século depois. Antes de cantar o hino nacional brandindo um espeto de churrasco, uma perguntinha: como foi possível?

Sim, porque os solos brasileiros são pobres de marré-deci, como a maioria dos solos tropicais que não tenham um delta de rio ou um vulcão à mão para garantir fertilização natural periódica. São solos muito antigos. Enquanto o solo europeu e norte-americano dormia o sono dos justos sob espessas camadas de gelo, preservando seu precioso carbono orgânico, nutrientes etc., o solo tropical já penava sob a intempérie.
Chuvas torrenciais e calores escaldantes lavaram carbono e nutrientes por milhões de anos. A corrida só equilibrou um pouco há cerca de 10 mil anos, quando o gelo recuou para os polos, onde hoje aguarda resignado a extrema-unção, e os solos de áreas temperadas passaram a ficar expostos, eles também, aos rigores do clima e do homem. Com isso, os solos temperados passaram a perder massa e fertilidade, e os tropicais continuaram a fazer o mesmo, como vinham fazendo há tempos.

A resposta ao mistério do boi gordo em ambiente magro é simples: se a fertilidade é baixa, aumente a área. Suas pastagens estão degradadas? Desmate e faça novas pastagens, e vamos em frente que atrás vem gente. O problema é que pela frente vem gente também, fazendo o mesmo, e acabam se encontrando. Acabou o tempo da fronteira pioneira que se expande sem fim. O planeta é finito, e c’est fini. Baixa eficiência compensada com novo desmatamento já deu o que tinha que dar.

Onde havia extensões sem fim de mata atlântica com suas fontes e regatos murmurantes, índios, aves e onças, há hoje o tédio das colinas de pasto inútil e sem fim, entrecortado por um condomínio aqui, uma fábrica ali
 
Vejamos. O Brasil tem 207 milhões de cidadãos e 212 milhões de Bois (e Vacas). Se o país desistisse da pecuária e distribuísse o rebanho entre seus habitantes, cada cidadão receberia 1,024 Boi ou Vaca. De início, isso aumentaria as emissões de carbono, devido ao pico de aquisição de freezers e ao aumento insano na frequência e intensidade de churrascos na laje, na varanda e no quintal, sem falar na falência das churrascarias rodízio. Mas, a médio prazo, não seria um mau negócio.

Surpreso, caro(a) leitor(a)? Pois não devia, é física pura. Boi requer pasto, muito pasto, e água, muita água. Pasto compete com floresta. Sem floresta, há menos água e menos chuva. Com menos água, a luz fica mais cara, a vida, mais escura, sofrida e incerta. Sua Excelência, o Boi (e sua sombra, a Vaca) tem quatro patas, mas centenas de quilos. Pisoteia e compacta o solo, extingue nascentes e deixa atrás de si extensas áreas de difícil recuperação para outros usos. Basta olhar ao redor, inocente leitor(a). Onde havia extensões sem fim de mata atlântica com suas fontes e regatos murmurantes, índios, aves e onças, há hoje o tédio das colinas de pasto inútil e sem fim, entrecortado por um condomínio aqui, uma fábrica ali. Carvão, cana, café, Boi, soja e seca, os males do Brasil são. E ainda há quem ache que os índios é que eram ingênuos por trocar pau-brasil por espelhinhos e contas coloridas.
Culinária vegana
A culinária vegana e orgânica é uma opção viável em larga escala? (foto: Jennifer / Flickr / CC BY 2.0)

Contas que não fecham

Se o agronegócio brasileiro é uma máquina que avança, consumindo matas, gerando lucros de curto prazo e deixando um rastro de terras degradadas atrás de si, sua Excelência, o Boi (e família) é um dos principais responsáveis.  É assim há muito tempo. Afinal, estivessem dedicados à extração de pau-brasil, esmeraldas, ouro, açúcar, café ou soja, os senhores e os colonos da colônia, assim como os da democracia, sempre quiseram ter carne à mesa. A carne é riqueza e poder – sempre teve assento ou trono garantido nos fóruns que decidem o que importa. E o que se exporta, claro.

Carne e latifúndio sempre andaram abraçados no Brasil, ora direis, vocação inevitável destes solos pobres que requerem muita área para pouco bife, não é mesmo, foram os cientistas que disseram. Aliás, eles também disseram que áreas degradadas pela pecuária são muito mais difíceis e caras de recuperar e que provocam 22 vezes mais impacto ambiental do que receita, em reais.
Em tempos de seca persistente, cabe perguntar: já não teríamos passado da hora de nos tornarmos vegetarianos?
 
Para pensar na cama: as pastagens da pecuária brasileira ocupam 200 milhões de hectares, gerando produtos e serviços que representam 6,8% do PIB. A agricultura representa 14,56% do mesmo PIB e ocupa um terço da área da pecuária, gerando mais empregos, maior segurança alimentar e menor impacto ambiental. Em tempos de seca persistente, cabe perguntar: já não teríamos passado da hora de nos tornarmos vegetarianos?

Falando sério, andei comendo em restaurantes veganos/orgânicos apresentados por minha filha adolescente e fiquei muito surpreso com o sabor, o frescor, a beleza e leveza da comida. A proteína animal não fez a menor falta – e olha que sou um carnívoro/piscívoro assumido e contumaz. E a conta não doeu.
É mercado de nicho, frescura de hipster de boutique, não é possível expandir em escala global? Quem disse? Alguém já tentou? Aguardo ansioso os comentários dos leitores. Enquanto isso, continuo produzindo tomate-cereja na varanda de casa, sem adubo, sem veneno, sem trabalho nem praga. Docinho. Já comi uma dúzia, há mais duas a caminho. É pouco, mas é só o começo. Esse troço vicia...

Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

sexta-feira, 29 de maio de 2015

CAATINGA E CERRADO DESAPARECENDO...PARA SEMPRE

Terra frágil

Análises de imagens de satélite indicam perda de 266 mil km2 do Cerrado e 90 mil km2 da Caatinga, aumentando riscos de falta d’água e de desertificação
CARLOS FIORAVANTI | ED. 231 | MAIO 2015
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© FÁBIO COLOMBINI
Queimada no Cerrado em 2006 no Parque Nacional das Emas, em Goiás
Queimada no Cerrado em 2006 no Parque Nacional das Emas, em Goiás

Catolé do Rocha, município do sertão da Paraíba com quase 30 mil moradores, está ficando ainda mais quente e seco, à medida que a vegetação natural se esvai. Em oito anos, de 2005 a 2013, de acordo com um estudo de pesquisadores de universidades da Paraíba e do Rio Grande do Norte, a área de caatinga rala encolheu 48% e a de caatinga densa, 13,5%, enquanto a agrícola deu um salto de 823%, de 2,45 mil para 22,64 mil hectares. Os autores desse levantamento concluíram que “a vegetação local foi suprimida indiscriminadamente” e houve “um crescimento exorbitante” das áreas ocupadas principalmente com a criação extensiva de bois.

Somando muitas situações como essa, de 1990 a 2010 a Caatinga perdeu 9 milhões de hectares – ou 90 mil quilômetros quadrados (km2), quase a área de Portugal – de vegetação nativa, em consequência do desmatamento e da expansão da agropecuária e do uso de madeiras de árvores nativas como fonte de energia (lenha) em residências e pequenas indústrias, de acordo com um levantamento mais amplo publicado em março na revista Applied Geography. Esse trabalho indica que, nesses 20 anos, a taxa de derrubada da vegetação natural aumentou na Caatinga (de 0,19% ao ano de 1990 a 2000 para 0,44% ao ano na década seguinte), embora os levantamentos do Ministério do Meio Ambiente indiquem uma queda do desmatamento nesse ecossistema. Para os autores do artigo, a divergência decorre do conceito de paisagem natural – eles preferiram não incluir as áreas cobertas puramente por gramíneas, que o governo federal considerou – e da escala temporal (duas décadas em um caso e quase uma década em outro).

A eliminação da vegetação nativa – ainda mais prejudicial quando feita por meio do uso do fogo, que destrói a matéria orgânica do solo – deixa a terra descoberta, com maior capacidade para absorver a radiação solar, desse modo elevando a temperatura local, acelerando a evaporação da água e diminuindo a resistência à erosão causada pelo vento e pelas chuvas, que arrastam a matéria orgânica e reduzem a fertilidade de solos pouco férteis e a capacidade de reter água. Além disso, alertam os especialistas, a erosão causada pelas chuvas – raras, mas geralmente torrenciais – promove o assoreamento de rios, aumentando o risco de inundações, e expõe as rochas antes cobertas pela terra, dificultando a volta das plantas e mesmo o uso da terra para fins agrícolas. Em Catolé do Rocha, a área exposta de rochas, os chamados afloramentos, aumentou 27%, passando de 578 para 734 hectares, em oito anos.
© FÁBIO COLOMBINI
Queimada no cerrado e buritizal de Boa Vista, Roraima, em 2014
Queimada no cerrado e buritizal de Boa Vista, Roraima, em 2014
Na Caatinga, outra ameaça, que se agrava, é a desertificação. “O que mais contribui para desencadear o processo de desertificação é o mau uso da terra, com o desmatamento e muitas vezes o uso do fogo, agravado pelas condições climáticas”, diz Iêdo Bezerra Sá, pesquisador da Embrapa Semiárido. Com sua equipe, ele examinou a região de Cabrobó, no sertão de Pernambuco, um dos núcleos de desertificação do nordeste brasileiro, a 400 km a sudoeste de Catolé do Rocha. Ali, os solos são arenosos, permeáveis e incapazes de reter as águas das chuvas. Seus levantamentos indicaram que a área com grau severo de desertificação, associado à ocupação agropecuária, era já de 100 mil hectares (1 mil km2) e com grau acentuado, em terras ocupadas pela caatinga arbórea, de 519 mil hectares (5 mil km2).

Sá está concluindo um levantamento que indica que 9 das 12 regiões de Pernambuco – ou 122 dos 185 municípios do estado –, principalmente no sertão, estão sujeitas a um risco elevado de desertificação. Um de seus estudos recentes indicou que quase toda a região de desenvolvimento do sertão do São Francisco, onde se cultivam frutas irrigadas, encontra-se sob risco de se transformar em um areal estéril (75% da área encontra-se sob risco moderado e 23% sob risco severo). Ali, ele explicou, o consumo de água para a irrigação das plantações excede a capacidade dos rios, cuja vazão diminui, prejudicando toda a área que percorrem. “A Caatinga é muito frágil”, diz ele. “Em alguns casos, o melhor seria não mexer.”
Especialistas verificaram que 94% do Nordeste brasileiro, além do norte de Minas Gerais e Espírito Santo, apresenta uma suscetibilidade que varia de moderada a alta à desertificação e indicaram as áreas com maior potencial de se tornarem areais estéreis até o ano de 2040. Nesse levantamento, as áreas mais suscetíveis expandiram-se quase 5%, o equivalente a 83 km2, de 2000 a 2010. “Esse estudo foi o primeiro no Brasil a produzir um diagnóstico a partir da análise integrada dos principais indicadores de degradação e desertificação”, diz Rita Vieira, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e principal autora desse estudo, publicado na Solid Earth. Segundo ela, os resultados foram apresentados à Comissão Nacional de Combate à Desertificação, que orienta a implementação de compromissos internacionais assumidos pelo país.

“Reduzir o risco de desertificação é um processo lento. O primeiro passo é mudar a forma de lidar com a terra e parar de desmatar”, diz Carlos Magno, um dos coordenadores do Centro Sabiá, uma organização não governamental sediada em Recife. Com financiamento do governo federal, o centro está trabalhando com 200 famílias de pequenos proprietários rurais do agreste e do sertão de Pernambuco para recuperar 100 hectares de áreas sujeitas à desertificação com os chamados sistemas agroflorestais, que consistem no plantio de plantas diferentes como milho, feijão, abóbora, batatas, forrageiras e frutas como umbu e cajá em meio à Caatinga.
“Estamos reconstruindo a ideia de que a Caatinga é uma floresta e que precisa ser preservada”, diz Magno.
© FÁBIO COLOMBINI
Xique-xique em solo rochoso da Caatinga de Caicó, Rio Grande do Norte: ambiente frágil
Xique-xique em solo rochoso da Caatinga de Caicó, Rio Grande do Norte: ambiente frágil
No dia 16 de abril, ele saiu de seu escritório em Caruaru e viajou 30 km até o município de Bezerros para visitar Maria Idalvonete Julião da Silva, dona de 3 hectares, que participa desse projeto. Motivada pela perspectiva de aumentar a produção de alimentos mesmo em tempos mais secos, Idalvonete separou 1 hectare e plantou palma forrageira e leucena, que servem de alimento para o gado, feijão guandu, mamão e abacaxi. “Além de servir aos animais e às pessoas”, ele argumenta, “os cultivos conservam o solo; a água, quando chega, fica no solo, cheio de raízes, em vez de ir embora”. Em um levantamento com 15 famílias que adotam essa estratégia há mais de 10 anos, ele verificou que “depois das grandes secas e chuvas os sistemas agroflorestais voltam a produzir alimentos mais rapidamente que os sistemas agrícolas convencionais, o que implica uma exploração excessiva do solo da Caatinga.”

Cerrado

No estudo publicado na Applied Geography, a equipe coordenada por René Beuchle, do Joint Research Centre da Comissão Europeia, da Itália, examinou também outro amplo ecossistema brasileiro, o Cerrado, que perdeu ainda mais que a Caatinga. Em 20 anos, a área de Cerrado sofreu uma redução de 26 milhões de hectares – ou 260 mil km2, o equivalente ao dobro da área da Inglaterra, também pela expansão da agropecuária. Outra conclusão é de que a taxa de derrubada da vegetação natural caiu no Cerrado (de 0,79% ao ano de 1990 a 2000 para 0,44% ao ano na década seguinte), dessa vez concordando com as conclusões do governo sobre o recuo do desmatamento.
Para ver o que se passava na Caatinga e no Cerrado, a equipe coordenada por Beuchle analisou 974 imagens do satélite Landsat, com resolução de 30 metros, que registraram as mudanças na cobertura vegetal do solo em 1990, 2000, 2005 e 2010 em 243 áreas amostrais, cada uma com 10 km por 10 km. Os dois ecossistemas cobrem 35% do território brasileiro e estão entre os ambientes naturais mais ameaçados do planeta devido à conversão de matas nativas para uso agrícola. Hoje a vegetação nativa da Caatinga ocupa 63% de sua área original e a do Cerrado, 47%, de acordo com esse estudo. Levantamentos do governo federal consideram a área remanescente de cobertura vegetal um pouco maior, nos dois casos. Há consenso, porém, de que a área de vegetação nativa preservada por meio de unidades de conservação ainda é muito limitada: 7,5% da Caatinga e 8% do Cerrado.
© FÁBIO COLOMBINI
Um sinal do avanço da pecuária em Currais Novos, Rio Grande do Norte
Um sinal do avanço da pecuária em Currais Novos, Rio Grande do Norte

s não são noticiadas tanto quanto as de outros dois biomas brasileiros, Mata Atlântica e Amazônia, porque, em parte, não é simples detectá-las. Nas imagens de satélite feitas na estação seca – e a maioria das imagens usadas são dessa época, por causa da ausência de nuvens de chuva –, “é difícil separar as árvores sem folhas do Cerrado e da Caatinga de outras coberturas da terra, incluindo as áreas agrícolas”, diz Beuchle. Em contrapartida, as imagens da Mata Atlântica e da Amazônia exibem um claro contraste entre a floresta alta e densa e as áreas desmatadas, mais baixas.
Além disso, diferentemente da Mata Atlântica e da Amazônia, a Caatinga e o Cerrado não foram reconhecidos como patrimônios naturais. O Ministério do Meio Ambiente observa, em seu site: “Devemos reconhecer que a Caatinga ainda carece de marcos regulatórios, ações e investimentos na sua conservação e uso sustentável”. Segundo o ministério, uma das medidas fundamentais nesse sentido seria a aprovação da proposta de emenda constitucional que transforma a Caatinga e o Cerrado em patrimônios nacionais, o que poderia facilitar a implantação de medidas voltadas à conservação desses ambientes.
Edson Sano, pesquisador da Embrapa Cerrados que trabalhou com Beuchle nessa análise, concluiu que a redução de áreas de vegetação nativa, principalmente no Cerrado, reflete a expansão agrícola do final da década de 1990, “quando a terra no Centro-Oeste ainda era barata e a produção no Sul e Sudeste já estava saturada”. Segundo ele, a partir do ano de 2000, porém, essa expansão desacelerou, por causa da elevação do custo da terra, do aumento da fiscalização (hoje os fazendeiros têm de obter autorização de órgãos federais ou estaduais para cortar a vegetação nativa, sob o risco de perder o direito de uso da área) e dos ganhos de produtividade proporcionados por novas tecnologias de cultivo. “Agora a tendência é de redução”, diz ele.

No estado de São Paulo, de acordo com o mapeamento mais recente, de 2010, o Cerrado ocupa 847,4 mil hectares, o equivalente a 8,5% da área original, de 9,9 milhões de hectares, e apenas 25,9 mil hectares estão protegidos por algum tipo de unidade de conservação. Matas desse tipo de vegetação ainda podem ser vistas nas regiões de Ribeirão Preto, Franca, São José do Rio Preto, Bauru, Sorocaba e Campinas, entre outras, acossadas pelas plantações de cana-de-açúcar (ver Pesquisa Fapesp nº 170). “Para atingir as metas de recuperação de acordos internacionais, que propõem a recuperação de 17% da área original terrestre de cada bioma, teríamos de plantar cerca de 800 mil hectares de Cerrado em São Paulo”, informa Marco Aurélio Nalon, pesquisador do Instituto Florestal e um dos coordenadores do Inventário Florestal da Cobertura Vegetal Nativa do Estado de São Paulo.

Com os números e os mapas à mão, Nalon tem se reunido com outros especialistas de órgãos ambientais do estado com o propósito de repor o que for possível das matas perdidas. Não é só São Paulo que está se mobilizando. Em janeiro deste ano, o Ministério do Meio Ambiente apresentou para debate público a versão preliminar do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, elaborado com base na Lei de Proteção da Vegetação Nativa, de 2012, para incentivar o plantio de espécies nativas, a restauração de áreas degradadas e as práticas agropecuárias que favoreçam a recuperação de pelo menos 12,5 milhões de hectares de vegetação nativa nos próximos 20 anos, por meio do plantio ou da restauração de áreas degradadas.

Já existem técnicas agrícolas que evitam o esgotamento do solo e reduzem a necessidade de outras terras para cultivo ou pastagens. Sano destaca duas. A primeira é o rodízio de plantio: uma parte da área de pastagem é ocupada com um cultivo agrícola, que nos anos seguintes ocupa outras partes da propriedade, alternadamente. A segunda é o plantio de árvores comerciais nas pastagens: as árvores oferecem sombra para o gado e depois podem ser vendidas. “Nada impede que em uma mesma fazenda exista uma integração entre lavoura, pecuária e floresta”, diz ele.

A área de vegetação nativa a ser recuperada, de acordo com a meta do plano do governo federal, corresponde a mais da metade dos 21 milhões de hectares que representam o déficit nacional de vegetação nativa no país, medido pela soma das áreas de matas nativas que os proprietários rurais devem, por lei, manter em suas terras ou nas proximidades de rios e córregos. “A recuperação da vegetação nativa é muito importante, principalmente em áreas de nascentes”, ressalta Sano. “Se não preservarmos as nascentes, em alguns anos poderemos não ter mais água nem para beber.”

Artigos científicos

OLIVEIRA, R. A. N. de et al. Dinâmica do processo de desmatamento de caatinga no município de Catolé do Rocha-PB. Agropecuária Científica no Semiárido. v. 10, n. 4, p. 1-4. 2014.

BEUCHLE, R. et al. Land cover changes in the Brazilian Cerrado and Caatinga biomes from 1990 to 2010 based on a systematic remote sensing sampling approach. Applied Geography. v. 58, p.116-27. 2015.

VIEIRA, R. M. S. P. et al. Identifying areas susceptible to desertification in the Brazilian Northeast. Solid Earth. v. 6, p. 347-60. 2015.