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sábado, 26 de dezembro de 2015

Retrospectiva 2015: Más notícias e esperança para o meio ambiente

Publicado em 23/12/2015
 
Espécies ameaçadas, florestas em declínio, desastres ambientais. Um ano de previsões alarmantes, mas também de reflexões sobre o que podemos fazer para evitar um futuro sombrio.
Retrospectiva 2015: Más notícias e esperança para o meio ambiente
Modelo matemático que calcula formação de grandes manchas de lixo no oceano é uma das pesquisas promissoras para a preservação da vida marinha em um futuro próximo. (foto: Algalita Foundation/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0.
 
O ano em que o mundo sentiu mais uma vez os efeitos do calor e da seca terminou com o relatório final da Cúpula do Clima, a COP-21, celebrado como um acordo histórico, embora questionável. No Brasil, além do desastre ambiental em Mariana (MG), resultados do presente e projeções para o futuro próximo apontam para uma conclusão em comum: é preciso correr contra o tempo para preservar as florestas e a biodiversidade de que tanto nos orgulhamos. Confira algumas das matérias publicadas sobre meio ambiente pela Ciência Hoje On-line ao longo de 2015.

Peixe das cavernas

Peixe das cavernas
Apesar de recém-descoberto, o peixe Ituglanis boticario, que vive exclusivamente em cavernas e foi encontrado na Gruna da Tarimba, em Mambaí (GO), já está ameaçado de extinção: tem dificuldade de encontrar alimento devido aos desmatamentos e ao uso de agrotóxicos e pesticidas no entorno de seu hábitat.

Raridade capixaba

 
Raridade capixaba
Pequena e com a maior parte do corpo de cor branca, a saíra-apunhalada apresenta, logo abaixo do bico, uma mancha vermelha que se derrama como sangue pelo seu peito. A mancha – que lhe atribui o nome popular – é fruto de um golpe fictício; o perigo de extinção da espécie, no entanto, é uma pancada cada vez mais contundente. A estimativa dos especialistas é que menos de 50 saíras-apunhaladas ainda existam. Para protegê-las, a Associação para Conservação das Aves do Brasil (Save Brasil) e o Governo do Estado do Espírito Santo pretendem criar uma área de proteção, prevista para março de 2016.

Tempo de despertar

Um bom negócioA discussão é antiga: há décadas, governos, ambientalistas, cientistas e empresas buscam alternativas para diminuir a emissão de gases de efeito estufa sem prejudicar o desenvolvimento econômico e social das nações. Entretanto, um estudo coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) indica que, ao menos no Brasil, esse impasse pode estar próximo do fim. De acordo com o relatório, a adoção de medidas para o desenvolvimento sustentável do país poderia adicionar até cerca de R$ 600 bilhões ao PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro em 2030.

Para prever o futuro

Para prever o futuro

Para compreender o que acontecerá com a costa brasileira se – ou quando – as previsões de aquecimento das águas e aumento da poluição se concretizarem, não é preciso usar uma bola de cristal. No sul da Bahia, um sistema experimental denominado mesocosmo marinho tem possibilitado a simulação de condições ambientais diversas para avaliar como a vida marinha se transformará a partir de mudanças relacionadas principalmente ao aquecimento global. Caso a temperatura dos oceanos aumente apenas dois graus Celsius, as consequências serão catastróficas para os recifes de corais.

Radiografia das florestas

Radiografia das florestasO total de árvores existentes no planeta é bem maior do que os cientistas estimavam. Segundo pesquisa publicada em setembro na revista Nature, aproximadamente 3,04 trilhões de árvores povoam a superfície terrestre. Se não houvesse interferência humana, no entanto, esse número seria ainda mais expressivo: em outra estimativa igualmente impressionante, o trabalho revela que quase metade das árvores desapareceu da Terra desde o início da nossa civilização.

O boto vai virar lenda?

Boto-cor-de-rosaO famoso mamífero amazônico corre o risco de desaparecer: ele vem sendo morto em especial para a pesca da piracatinga, uma espécie de peixe que se alimenta de carniça e gordura. De forma geral, os jacarés são os animais mais utilizados como isca, devido ao seu grande número e à facilidade de encontrá-los na região. Porém, são os botos as iscas mais valorizadas pelos pescadores. Segundo especialistas, a moratória da caça do boto-cor-de-rosa por cinco anos, iniciada em 2015, pode ser pouco para salvá-lo.

Recém-descoberta, já ameaçada

Patativa-tropeira Uma ave que sequer era conhecida já luta contra sua própria extinção. É a patativa-tropeira (Sporophila beltoni), uma espécie recém-descoberta, que vive exclusivamente no Brasil. Ela corre sério risco de desaparecer antes mesmo de ser estudada pela ciência. É durante a migração que a ave está mais exposta aos caçadores ilegais de animais silvestres. Outro problema que a espécie enfrenta é a degradação do seu local de reprodução.

No rastro do lixo marinho

No rastro do lixo marinhoA famosa grande mancha de lixo do Pacífico foi descrita pelo oceanógrafo Charles Moore como um verdadeiro lixão em mar aberto, duas vezes maior do que o estado norte-americano do Texas. No entanto, mais do que uma ilha flutuante de detritos, sua parte principal e mais perigosa é composta, na verdade, por milimétricas partículas de plástico que formam uma espécie de sopa tóxica quase invisível a olho nu, mas muito prejudicial à vida marinha. Agora, cientistas australianos desenvolveram um método matemático que rastreou em detalhes como se formam essa e outras quatro ‘manchas’ similares e que pode ser capaz de apontar ‘culpados’ pelo acúmulo de lixo no mar.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Biologia, Ecologia e o boi no poder

Historicamente valorizada no Brasil e cada vez mais expansiva, a pecuária gera problemas sérios ao meio ambiente. Mas traz, ao menos, retorno econômico? Jean Remy Guimarães discute o tema em sua coluna de setembro. 
 
Por: Jean Remy Davée Guimarães
Publicado em 18/09/2015 | Atualizado em 18/09/2015
O boi no poder
O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina. (foto: Secretaria de Agricultura e Abastecimento / Flickr / CC BY 2.0) 
 
Em contraponto involuntário, mas oportuno com a coluna quase otimista do mês passado, hoje abordaremos a pegada ecológica de Vossa Excelência, o Boi. Sim, Excelência e Boi, com maiúsculas. Sejamos justos, a Cesar o que é de César: desde 22 de abril de 1500, a pecuária molda as relações do Brasil com seu território e, portanto, molda também a vida politica do pais. Quem é Excelência tem boi, e quem tem boi vira Excelência. Ou Coronel. Ou ambos, sem preconceito.

A faixa presidencial no Brasil já afagou ternos, fardas e até vestidos, mas sua Excelência, o Boi, nunca perdeu a majestade.
Aliás, desde criancinha eu me perguntava como era possível criar tanto boi sem a presença de vacas. Cheguei a cogitar a hipótese de que se tratava, na verdade, de espécies diferentes. Pense bem, no restaurante a carne bovina é apresentada como de Boi. Na bolsa de valores, a cotação se refere à arroba do Boi. E fulano faz o que da vida? Ele cria Boi. Vai ver virei biólogo para isso: resolver o mistério da autoperpetuação do Boi sem a colaboração aparente de sua cara-metade. Hoje, já entendi que a questão não é biológica, e sim cultural – quem é sexista é o dono do Boi e não o inocente herbívoro.
Num fatídico dia de 1963, acompanhei meu tio paterno, veterinário e morador de Uberlândia (MG), aos confins de Goiás, onde tinha um serviço a prestar. Foi meu primeiro contato direto com o mundo real da pecuária. Eu tinha oito anos. O que guardei da experiência?

* As exuberantes fauna e flora, e o frescor das áreas de mata que não haviam sido ainda derrubadas para formação de novos pastos;
* a monotonia e o calor das pastagens;
* a desproporção brutal entre Bois e homens, com muitos dos primeiros e poucos dos segundos;
* o olhar sempre baixo dos peões, embora estivessem sobre cavalos;
* as evasivas quando eu perguntava ao meu tio ou ao seu contratante onde eles dormem, onde estão as famílias deles, onde eles ficam quando chove, quando termina o trabalho do dia; e
* (o que mais me surpreendeu e marcou) a ausência da carne nas refeições daqueles que lidam com toneladas da mesma o dia inteiro.

Naturalmente, eu ainda não havia lido Casa grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Mas foi um resumo inesquecível. Monocultura, escravidão, patriarcalismo, estava tudo ali, pulsando de contradições bem na minha cara. Conclusão: pense bem antes de levar um sobrinho ao trabalho, ele pode acabar virando colunista da CH On-line.
Pecuária e desmatamento
Quando os solos são pobres e as pastagens não se regeneram, a saída é expandir ainda mais os pastos, o que implica, claro, desmatamento. (foto: Angel / Flickr / CC BY-NC-ND 2.0)

Pecuária em solos pobres

Nada disso impediu que a pecuária fizesse do Brasil o maior exportador de carne bovina do mundo, meio século depois. Antes de cantar o hino nacional brandindo um espeto de churrasco, uma perguntinha: como foi possível?

Sim, porque os solos brasileiros são pobres de marré-deci, como a maioria dos solos tropicais que não tenham um delta de rio ou um vulcão à mão para garantir fertilização natural periódica. São solos muito antigos. Enquanto o solo europeu e norte-americano dormia o sono dos justos sob espessas camadas de gelo, preservando seu precioso carbono orgânico, nutrientes etc., o solo tropical já penava sob a intempérie.
Chuvas torrenciais e calores escaldantes lavaram carbono e nutrientes por milhões de anos. A corrida só equilibrou um pouco há cerca de 10 mil anos, quando o gelo recuou para os polos, onde hoje aguarda resignado a extrema-unção, e os solos de áreas temperadas passaram a ficar expostos, eles também, aos rigores do clima e do homem. Com isso, os solos temperados passaram a perder massa e fertilidade, e os tropicais continuaram a fazer o mesmo, como vinham fazendo há tempos.

A resposta ao mistério do boi gordo em ambiente magro é simples: se a fertilidade é baixa, aumente a área. Suas pastagens estão degradadas? Desmate e faça novas pastagens, e vamos em frente que atrás vem gente. O problema é que pela frente vem gente também, fazendo o mesmo, e acabam se encontrando. Acabou o tempo da fronteira pioneira que se expande sem fim. O planeta é finito, e c’est fini. Baixa eficiência compensada com novo desmatamento já deu o que tinha que dar.

Onde havia extensões sem fim de mata atlântica com suas fontes e regatos murmurantes, índios, aves e onças, há hoje o tédio das colinas de pasto inútil e sem fim, entrecortado por um condomínio aqui, uma fábrica ali
 
Vejamos. O Brasil tem 207 milhões de cidadãos e 212 milhões de Bois (e Vacas). Se o país desistisse da pecuária e distribuísse o rebanho entre seus habitantes, cada cidadão receberia 1,024 Boi ou Vaca. De início, isso aumentaria as emissões de carbono, devido ao pico de aquisição de freezers e ao aumento insano na frequência e intensidade de churrascos na laje, na varanda e no quintal, sem falar na falência das churrascarias rodízio. Mas, a médio prazo, não seria um mau negócio.

Surpreso, caro(a) leitor(a)? Pois não devia, é física pura. Boi requer pasto, muito pasto, e água, muita água. Pasto compete com floresta. Sem floresta, há menos água e menos chuva. Com menos água, a luz fica mais cara, a vida, mais escura, sofrida e incerta. Sua Excelência, o Boi (e sua sombra, a Vaca) tem quatro patas, mas centenas de quilos. Pisoteia e compacta o solo, extingue nascentes e deixa atrás de si extensas áreas de difícil recuperação para outros usos. Basta olhar ao redor, inocente leitor(a). Onde havia extensões sem fim de mata atlântica com suas fontes e regatos murmurantes, índios, aves e onças, há hoje o tédio das colinas de pasto inútil e sem fim, entrecortado por um condomínio aqui, uma fábrica ali. Carvão, cana, café, Boi, soja e seca, os males do Brasil são. E ainda há quem ache que os índios é que eram ingênuos por trocar pau-brasil por espelhinhos e contas coloridas.
Culinária vegana
A culinária vegana e orgânica é uma opção viável em larga escala? (foto: Jennifer / Flickr / CC BY 2.0)

Contas que não fecham

Se o agronegócio brasileiro é uma máquina que avança, consumindo matas, gerando lucros de curto prazo e deixando um rastro de terras degradadas atrás de si, sua Excelência, o Boi (e família) é um dos principais responsáveis.  É assim há muito tempo. Afinal, estivessem dedicados à extração de pau-brasil, esmeraldas, ouro, açúcar, café ou soja, os senhores e os colonos da colônia, assim como os da democracia, sempre quiseram ter carne à mesa. A carne é riqueza e poder – sempre teve assento ou trono garantido nos fóruns que decidem o que importa. E o que se exporta, claro.

Carne e latifúndio sempre andaram abraçados no Brasil, ora direis, vocação inevitável destes solos pobres que requerem muita área para pouco bife, não é mesmo, foram os cientistas que disseram. Aliás, eles também disseram que áreas degradadas pela pecuária são muito mais difíceis e caras de recuperar e que provocam 22 vezes mais impacto ambiental do que receita, em reais.
Em tempos de seca persistente, cabe perguntar: já não teríamos passado da hora de nos tornarmos vegetarianos?
 
Para pensar na cama: as pastagens da pecuária brasileira ocupam 200 milhões de hectares, gerando produtos e serviços que representam 6,8% do PIB. A agricultura representa 14,56% do mesmo PIB e ocupa um terço da área da pecuária, gerando mais empregos, maior segurança alimentar e menor impacto ambiental. Em tempos de seca persistente, cabe perguntar: já não teríamos passado da hora de nos tornarmos vegetarianos?

Falando sério, andei comendo em restaurantes veganos/orgânicos apresentados por minha filha adolescente e fiquei muito surpreso com o sabor, o frescor, a beleza e leveza da comida. A proteína animal não fez a menor falta – e olha que sou um carnívoro/piscívoro assumido e contumaz. E a conta não doeu.
É mercado de nicho, frescura de hipster de boutique, não é possível expandir em escala global? Quem disse? Alguém já tentou? Aguardo ansioso os comentários dos leitores. Enquanto isso, continuo produzindo tomate-cereja na varanda de casa, sem adubo, sem veneno, sem trabalho nem praga. Docinho. Já comi uma dúzia, há mais duas a caminho. É pouco, mas é só o começo. Esse troço vicia...

Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A importância da percepção sistêmica no debate da sustentabilidade e das mudanças climáticas


A importância da percepção sistêmica no debate da sustentabilidade e das mudanças climáticas
A teoria dos sistemas introduz um dos conceitos mais poderosos e úteis quando se discute sustentabilidade na prática. Um sistema é o conjunto de partes que interagem entre si para produzir produtos que são mais do que a soma das partes sozinhas. Este entendimento das conexões entre como as partes interagem entre si é fundamental na teoria dos sistemas.

Uma árvore é um sistema de folhas e galhos, sementes, raízes, tronco, frutas, que juntos interagem em formas que, através da fotossíntese e outros processos de interação, geram produtos muito maiores que qualquer componente sozinho pode gerar. A árvore em si também faz parte de um sistema maior, como uma floresta ou ecossistema.

Um bairro é um sistema de construções e ruas e calçadas, assim como de vizinhos, inimigos, amigos, padrões comunitários durante a semana e feiras de ruas. É um sistema contendo fofocas e informação, aprendizagem e resultados eleitorais. Um bairro é também parte de um sistema maior de cidade, regiões e nações. O seu corpo é um sistema.
Note que qualquer um desses exemplos possuem quatro elementos.
1.Conjunto de partes;
2.Conjunto de conexões ou interações entre as partes;
3.Uma função ou um propósito que essas conexões geram;
4.Uma fronteira, de acordo com a nossa habilidade de entender e discutir um sistema.
Cada um desses componentes de um sistema – partes, conexões, funções, fronteiras – é mais difícil de entender do que o anterior.

A árvore também pode ser entendida como um sistema, a qual faz parte de um outro sistema maior, a floresta (Foto: Reprodução)
A árvore também pode ser entendida como um sistema, a qual faz parte de um outro sistema maior, a floresta (Foto: Reprodução)
Partes são mais fáceis de serem identificadas. Por exemplo, nós conhecemos os pulmões, nós conhecemos o fígado, mas pode ser difícil entender a conexão entre eles. Nós podemos ver o edifício de um banco, nós podemos ver uma fábrica, mas pode ser difícil entender como o empréstimo entre o banco e a fábrica funciona.
E finalmente, em um mundo de economia globalizada, pode ser ainda mais difícil entender como é delimitado o empréstimo entre o banco e a fábrica em um mundo de créditos globais e taxas de juros. Então, cada um desses é um pouco difícil de entender do que o anterior, mas também um pouco mais importante. E o que queremos dizer com isso?
Nosso corpo troca a maioria de suas células em poucas semanas, e mesmo assim nos reconhecemos como nossos próprios corpos. Então a lição que tiramos é que as conexões e as funções realmente definem a identidade do sistema muito mais do que as partes, as quais são bem mais fáceis de serem enxergadas, mas, no fim das contas, acabam sendo menos importantes.
Conexões podem ser físicas, como o fluxo de água para dentro ou fora de um reservatório, mas também podem ser não físicas ou digitais. Elas podem ser também sobre informações que fluem através das mídias sociais, por exemplo. Por isso, algumas vezes, podem ser mais difíceis de serem enxergadas do que se imagina.
Um dos maiores insights na teoria dos sistemas é a dinâmica de estoques e fluxos, na operação de um sistema.
Teoria dos sistemas, com fluxos de entrada e saída (Inputs/Outputs), estoque (stock), feedback e fronteira (Foto: Reprodução)
Teoria dos sistemas, com fluxos de entrada e saída (Inputs/Outputs), estoque (stock), feedback e fronteira (Foto: Reprodução).

Um estoque é um inventário ou um suprimento, ou a acumulação de uma parte do sistema. Um exemplo de estoque é o armazenamento de água dentro de um reservatório. Um estoque também pode ser mais digital do que físico, como a memória gravada em um servidor, ou até mesmo o estado de atenção enquanto lê esse singelo, mas interessante, texto.

Um fluxo é a adição ou subtração de um estoque. Um exemplo é a liberação de água em um reservatório. Fluxos podem ser demográficos, como migrações, taxas de natalidade e mortalidade, ou econômicos, como depósitos e retiradas de um uma conta corrente. Podem também serem químicos, como as emissões de CO2 que fluem das termelétricas para a atmosfera, e o CO2 sequestrado fluindo da atmosfera para dentro das florestas, através da fotossíntese.

O exemplo mais conhecido para se explicar estoques e fluxos é o de uma banheira. Simples de entender e familiar a todos nós. O fluxo de entrada é a água que sai da torneira. O estoque no caso é a quantidade de água na banheira, que aumenta e diminui, sendo o dreno o fluxo de saída.
Este exemplo é o mais utilizado para representar as concentrações de carbono na atmosfera e seu fluxo, bem como as fontes de entrada e o que faz com que ele seja retirado da atmosfera. É importante notar que, ao pensar em estoques e fluxos como formas de descrever sistemas, existem outras formas de aumentar o estoque dentro do sistema além de aumentar o fluxo de entrada. Ao diminuir o fluxo de saída o mesmo efeito ocorre.
Exemplo da banheira para demonstrar a relação entre estoque e fluxo de entrada e saída (Foto: Elemental)
Exemplo da banheira para demonstrar a relação entre estoque e fluxo de entrada e saída (Foto: Elemental)
Da mesma forma, pensando na questão da concentração de CO2 na atmosfera, ao diminuir o fluxo de saída do sistema, como ocorre com os desmatamentos das florestas tropicais no Brasil, ocorrerá o mesmo efeito que aumentar o fluxo na qual o carbono entra no sistema, ou seja, através da queima de combustíveis fósseis.
Percebemos então que as mudanças climáticas representa um problema de estoque dos gases do efeito estufa na atmosfera, principalmente do CO2, e não apenas de fluxo.

Com isso em mente, existem duas conclusões importante de serem retiradas sobre dinâmica de sistemas, do comportamento de sistemas, devido a forma como estoques e fluxos funcionam.
Primeiramente, estoques tipicamente mudam de forma devagar, especialmente em comparação aos fluxos. Uma torneira completamente aberta, por exemplo, não enche uma banheira instantaneamente. Isto leva tempo. Da mesma forma que um dreno não consegue esvaziar totalmente a banheira instantaneamente.
Esse intervalo de tempo que é necessário para que o efeito possa ocorrer, geralmente levam as pessoas a frequentemente subestimar o tempo que levará para que a mudança ocorra. Elas estão prestando mais atenção à rápida taxa na qual os fluxos estão variando e menos à inércia do estoque. Os teóricos de sistemas sabem esperar, não desistir tão facilmente e antecipar o efeito tampão do intervalo de tempo que os estoques conseguem gerar.

Se levarmos esta conclusão à questão das mudanças climáticas, percebemos que mesmo se pararmos totalmente com nossas emissões, mesmo assim, nós iremos observar aumentos na temperatura média global do planeta, devido à concentração presente na atmosfera.
É necessário, não apenas reduzir drasticamente nossas emissões, mas também nosso desmatamento, para que possamos frear os efeitos das mudanças climáticas (Foto: envolverde)
É necessário, não apenas reduzir drasticamente nossas emissões, mas também nosso desmatamento, para que possamos frear os efeitos das mudanças climáticas (Foto: envolverde).

Em segundo lugar, estoques desassociam fluxos de entrada e saída por curtos espaços de tempo. Para ilustrar isso, vamos fazer uma comparação entre a forma como a indústria da gasolina opera com a forma que a indústria da eletricidade opera. A grade elétrica é algo sensacional, em sua habilidade de, instantaneamente, balancear a produção de eletricidade com o seu consumo. Eletricidade deve ser consumida o mais rápido possível depois de produzida.

Isto cria um enorme desafio para uma grade que conecta a geração de eletricidade de uma variedade de fontes, a transmissão por grandes distâncias, e os consumidores daquela eletricidade. A grade necessita constante e instantaneamente equalizar a necessidade dos consumidores com produção dos geradores. É realmente incrível e por isso é um sistema com pouco ou nenhum estoque nele. É tudo em relação à fluxos.
Agora, considere a gasolina. Se a gasolina precisa ser refinada e entregue instantaneamente, com as pessoas dirigindo às vezes mais e outras vezes menos, de acordo com o mercado, seria impossível, sob nossa atual indústria de gasolina, fazer a conexão entre necessidade e produção. O sistema certamente colapsaria.  Porém, o sistema opera, pois no meio existe um estoque. Ou seja, tanques de armazenamento.
Esses tanques de armazenamento então permitem a separação entre produção e consumo, enquanto que o estoque de gasolina aumenta e diminui. Desta forma, é possível operar independentemente um do outro, dando tempo para que o inventário aumente e diminua. É um mecanismo simples, porém engenhoso, que permite ao sistema permanecer em equilíbrio.
Na grade elétrica, não há armazenamento de estoque. Diferente do que ocorre na indústria da gasolina (Foto: Reprodução)
Na grade elétrica, não há armazenamento de estoque. Diferente do que ocorre na indústria da gasolina (Foto: Reprodução)

O último tópico importante para a compreensão da percepção sistêmica é a noção de feedback. Feedback pode ser compreendido como a forma que o sistema gerencia a si mesmo. É um loop, uma forma na qual o sistema aprende e se estabiliza. O feedback ocorre quando mudanças no nível do estoque afeta os fluxos de entrada e saída. Um exemplo clássico é um termostato em uma sala.

Você possui uma temperatura interna em uma sala, sendo essa temperatura o estoque nesse caso. Quando esta temperatura começa a crescer no verão, esse termostato envia um sinal ao ar condicionado para que possa refrigerar o local e fazer com que ele volte à temperatura inicialmente programada. O termostato então é um dispositivo de feedback, e o ar refrigerado que sai do aparelho é o fluxo.
Outro exemplo pode ser retirado das mudanças climáticas. O metano é um poderoso gás do efeito estufa, e o permafrost (gelo permanente), localizado abaixo do gelo ártico, armazena grandes quantidades de metano. Com o aumento das temperaturas globais e o derretimento do gelo ártico, o permafrost que estava escondido acaba liberando mais metano para a atmosfera. Este metano então aumenta a concentração de gases do efeito estufa na atmosfera, retendo mais energia solar, e consequentemente, a temperatura global, o que acaba liberando mais metano.

Porém, o processo não acaba por aí. Com o derretimento do gelo ártico, que por ser branco reflete grande quantidade de energia vindo do sol, mais permafrost é exposto, e por ser mais escuro, absorve mais energia ainda, acelerando ainda mais o processo de derretimento do gelo e aumento da temperatura global com o aumento das concentrações de gases do efeito estufa.

Os loops de feedback são talvez o mais importante e útil insight da teoria dos sistemas. Eles ajudam contabilizar o quanto um sistema é resiliente ou frágil, dependendo da funcionalidade do feedback. Eles nos explicam como um sistema consegue gerir a si mesmo, estabilizar, e lidar com novas condições emergentes e padrões na qual nós talvez nunca sejamos capazes de prever.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Entenda os três pilares da sustentabilidade

 
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É comum surgir, de tempos em tempos, novos paradigmas no mundo corporativo que acabam alterando significativamente a maneira como as empresas se posicionam perante seus públicos e a sociedade em geral.
 
Houve épocas em que a relação produção versus tempo era o atributo de destaque entre os concorrentes. Surgiu, posteriormente, a necessidade de humanização das marcas, dando uma maior importância à imagem e à relação com seus consumidores.
 
De alguns anos para cá, parece que a menina dos olhos das empresas tem sido a tal da sustentabilidade. E, desde então, observa-se o esforço incansável das organizações na promoção de ações e divulgação dessa poderosa palavra em anúncios, logomarcas, propagandas e embalagens de todos os produtos possíveis.
 
Mas, afinal, o que é sustentabilidade? Você também já se viu com essa dúvida? Então confira nosso post e entenda exatamente do que se trata esse tão difundido conceito:

A confusão de conceitos

Durante muito tempo se acreditou, erroneamente, que a sustentabilidade estaria diretamente relacionada ao meio ambiente. Seguindo esse princípio, as empresas começaram a fomentar projetos de preservação da flora e da fauna, de reflorestamento, de proteção a espécies ameaçadas de extinção, dentre outras ações pontuais que, por mais que sejam válidas, não representam, em si, o conceito mais amplo do desenvolvimento sustentável.

Os três pilares

Atualmente, essa ideia é dividida em três principais pilares: social, econômico e ambiental. Para se desenvolver de forma sustentável, uma empresa deve atuar de forma que esses três pilares coexistam e interajam entre si de forma plenamente harmoniosa.
Vamos então entender um pouco mais de cada um desses pilares?

Social

Trata-se de todo capital humano que está, direta ou indiretamente, relacionado às atividades desenvolvidas por uma empresa. Isso inclui, além de seus funcionários, seu público-alvo, seus fornecedores, a comunidade a seu entorno e a sociedade em geral.
Desenvolver ações socialmente sustentáveis vai muito além de, por exemplo, dar férias e benefícios aos funcionários. Deve-se proporcionar um ambiente que estimule a criação de relações de trabalho legítimas e saudáveis, além de favorecer o desenvolvimento pessoal e coletivo dos direta ou indiretamente envolvidos.

Econômico

Para que uma empresa seja economicamente sustentável, ela deve ser capaz de produzir, distribuir e oferecer seus produtos ou serviços de forma que estabeleça uma relação de competitividade justa em relação aos demais concorrentes do mercado.
Além disso, seu desenvolvimento econômico não deve existir às custas de um desequilíbrio nos ecossistemas a seu redor. Se uma empresa lucra explorando as más condições de trabalho dos funcionários ou a degradação do meio ambiente da área à sua volta, por exemplo, ela definitivamente não está tendo um desenvolvimento econômico sustentável, já que não existe harmonia nas relações estabelecidas.

Ambiental

Por fim, o desenvolvimento sustentável ambientalmente correto se refere a todas as condutas que possuam, direta ou indiretamente, algum impacto no meio ambiente, seja a curto, médio ou longo prazos.
 
É comum vermos empresas adotando medidas mitigatórias, como, por exemplo, promover ações de plantio de árvores após a emissão de gases poluidores, como se uma coisa compensasse a outra.
 
O desenvolvimento sustentável busca, em primeiro lugar, minimizar ao máximo os impactos ambientais causados pela produção industrial. Caso não seja esse o objetivo, provavelmente  estaremos falando muito mais de estratégias de marketing do que de sustentabilidade de fato.

A parte do todo

Vale ressaltar, mais uma vez, que a sustentabilidade precisa de planejamento, acompanhamento e avaliação de resultados, pois seus três pilares devem estar alinhados com os objetivos da empresa, não podendo ser definidos com base em ações pontuais ou simplesmente compensatórias.
 
O desenvolvimento sustentável é um caminho trilhado diariamente, com respeito mútuo e consciência de que todas as empresas, comunidades, pessoas e demais seres são partes integrantes de um único ecossistema. Assim, para que haja equilíbrio, é necessário que cada parte leve em consideração o todo, entendendo que é só uma pequena parte de um universo infinitamente maior, mas que pode ser afetado por suas ações.
 
E então, agora que você reviu seu conceito e descobriu a verdade por trás das poderosas campanhas tidas como sustentáveis, comente aqui e nos conte se você conhece alguma empresa que promova ações verdadeiramente sustentáveis. E a empresa onde você trabalha, é adepta dessa filosofia? Compartilhe suas opiniões e experiências conosco!

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O que são embalagens compostáveis e como elas podem ajudar no reaproveitamento de resíduos?

Embalagens_compostáveis
Pratos, copos, caixas, talheres descartáveis: basta dar uma volta na praça de alimentação de um shopping para se deparar com uma grande quantidade desse tipo de material, tão prático e comum no dia a dia. 

O que muita gente não sabe, no entanto, é que parte daqueles itens já vem sendo fabricada a partir de materiais naturais como a mandioca e a cana. Como esse tipo de produção acarreta em objetos biodegradáveis, seu descarte culmina na degradação dos resíduos por bactérias e posterior transformação em composto orgânico. A promissora ideia para reduzir a quantidade de lixo nos aterros sanitários já tem nome: trata-se da chamada embalagem compostável. Gigantes da indústria, como a Coca-Cola e a Dell, já apostam na vertente ecológica, indo de encontro à proposta de sustentabilidade vinculada ao meio corporativo e à tendência dos consumidores verdes. A primeira empresa investiu na criação de um copo de papel, enquanto a segunda já disponibiliza uma embalagem feita do material para guardar seus laptops.

Embalagens compostáveis: processo verde de fabricação

A este ponto, é importante notar que o próprio processo de fabricação de uma embalagem compostável é mais limpo do que o dos plásticos feitos à base de petróleo: no caso da produção das embalagens sustentáveis, há menos geração de gases de efeito estufa, uma vez que o bioplástico não contém uma substância química perigosa denominada besfanol (BPA). Compostos por substâncias não poluentes, os bioplásticos englobam três tipos de materiais: os polímeros feitos completa ou parcialmente de fontes renováveis, os biodegradáveis de fonte fóssil ou os polímeros de fonte renovável e biodegradável. A maioria dos bioplásticos/biopolímeros produzidos no mundo atualmente são originários de matérias-primas renováveis e certificados compostáveis. Tais materiais não precisam de carbono fóssil para sua produção, e cabe ressaltar que algumas etapas do processo vêm utilizando energias renováveis no lugar de combustíveis fósseis.

A necessidade do descarte adequado

Apesar de já representarem um produto ecológico fabricado por um processo que visa a sustentabilidade, as embalagens compostáveis demandam um descarte adequado e consciente. Caso contrário, esses produtos contam com o risco de serem depositados nos lixões, onde não há nenhum tipo de separação de materiais. O descarte correto dos itens pode ser feito por degradabilidade, oxidegradação (através de sais metálicos), hidro-degradação (por meio de hidrólise), foto-degradação (com o uso de luz) ou mesmo de forma biodegradável, através da ação natural de microrganismos.
Vale acrescentar que a deposição em aterros sanitários não é reconhecida como forma de reciclagem orgânica. O descarte irresponsável de uma embalagem compostável pode comprometer sua qualidade de reciclagem ou biodegradação, tornando-a tão nociva quanto as embalagens não biodegradáveis. Por esse motivo, é obrigatória a adoção de rotulagem ambiental tipo II (autodeclarações) como determina a ISO 14021, de forma que esteja sempre claramente indicada a melhor maneira de lidar com a embalagem após sua utilização.

Impacto ambiental positivo: a questão do reaproveitamento de resíduos e outras vantagens

O uso de embalagens compostáveis é uma alternativa complementar à reciclagem e possibilita, além dos ganhos ecológicos, a continuidade de atividades produtivas de trabalhadores que vivem dessa função, que não causa transtornos às comunidades do entorno. A utilização de tais produtos, entretanto, encontra-se ainda no início, apesar de existir atualmente uma grande demanda pelas embalagens de curto ciclo de vida (como as citadas no começo do artigo e comumente encontradas nas praças de alimentação dos shopping centers e em grandes eventos). 

É importante notar que os sistemas de compostagem dessas embalagens são, ainda, bem mais baratos do que os conhecidos sistemas de incineração. O composto gerado no processo também pode ser utilizado para aumentar o teor de carbono no solo e manter sua fertilidade para o cultivo.
Além de promoverem a reutilização de resíduos orgânicos e auxiliarem na redução do volume de rejeitos nos aterros sanitários, as embalagens compostáveis ainda apresentam excelente qualidade e resistência à absorção de água, e atuam contra o aquecimento global e o efeito estufa. Comparado ao de outros materiais similares, de fato, seu processo de fabricação promove uma redução dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera.

Você já havia ouvido falar das embalagens compostáveis e seu impacto positivo no meio ambiente? Diante de tantas vantagens, as Olimpíadas a serem sediadas no Rio, em 2016, contarão com fornecedores homologados desse tipo de material com o intuito de criar um evento verde.
Não deixe de comentar e nos contar sua opinião sobre essa produção sustentável!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O que é Sustentabilidade? Aprenda as bases que formam o conceito sobre ser sustentável

April 8, 2014

Fonte: 
http://elementalsolucoes.com.br - João Barata - Engenheiro Ambiental e Gerente de Projetos na Elemental Soluções
 
Afinal, o que é sustentabilidade? Como conseguiremos ser sustentáveis? Essas e outras peguntas são importantes para avançarmos no debate sobre esta importante questão. Infelizmente, o debate que há sobre o tema acaba não evoluindo por não haver uma base conceitual sólida sobre o que realmente se trata a sustentabilidade. Existe uma ideia superficial sobre o tema, mas até mesmo os próprios profissionais da área se perdem quando questionados sobre o seu conceito.
O debate sobre sustentabilidade deve inserir o campo das relações sociais (Foto: Reprodução)
O conceito de sustentabilidade não é algo simples de se estabelecer ou até mesmo de se imaginar, pois seu objetivo envolve um processo complexo envolvendo conflito e cooperação local, nacional, regional e global, e uma variedade de atores, como governos, organismos internacionais, entidades empresariais e organizações cidadãs. Afinal, vivemos em complexas sociedades que estão conectadas em escala global com outras ao redor do mundo.
Na verdade, o debate sobre sustentabilidade tem acionado diferentes eixos de reflexão, apontando para múltiplas trajetórias de elaboração coletiva da mudança. Distintos valores se destacam, entre elas:
Eficiência: Novos padrões tecnológicos que projetem a racionalidade econômica para o conjunto dos recursos planetários de modo a torna-los duradouros, assegurando os meios materiais requeridos para a continuidade do desenvolvimento econômico e social;
Equidade: Consideram-se as relações intrínsecas entre desigualdade social e degradação ambiental, remetendo a um tratamento conjunto e articulado dos propósitos de erradicação da pobreza e de proteção ambiental;
Novos Padrões de Produção e Consumo: níveis de crescimento econômico continuado voltado para a satisfação de demandas por bens de consumo não essenciais são incompatíveis com um processo de desenvolvimento ecologicamente benigno;
Autossuficiência: Aponta para os riscos que a expansão generalizada das relações de mercado representa para a preservação da estabilidade cultural e da capacidade reprodutiva da base material das comunidades tradicionais;
Consciência: são ressaltados os valores, deveres e obrigações relativos à preservação das condições de existência da vida no planeta, articulando-se a discussão sobre sustentabilidade à reflexão sobre responsabilidade social na construção e na preservação de um mundo comum.
Novos padrões de produção e consumo é um importante passo na busca pela sustentabilidade (Foto: Reprodução)
É importante entender que a discussão da sustentabilidade vai além do campo ambiental físico. Ela abrange também o campo das relações sociais, comumente esquecida pelos agentes responsáveis pelas tomadas de decisões. Afinal, a sustentabilidade tem tudo a ver com as formas sociais de apropriação e uso desses recursos e do meio ambiente.
A noção de sustentabilidade é, então, direcionada com a possibilidade de criar práticas moldadas pela sociedade que estabeleçam relações sólidas e de longo prazo entre essa sociedade e a base material de sua existência. Portanto, é algo fortemente ligado aos problemas da dinâmica social, às questões como justiça social, igualdade entre gêneros e participação política de atores sociais.
Dessa maneira, a sustentabilidade tente a ser entendida como o processo pelo qual as sociedades administram as condições materiais de sua reprodução, redefinindo os princípios éticos e sociopolíticos que orientam a distribuição de seus recursos ambientais.

Referências:
Leroy, J. P. 2010. Territórios do Futuro: Educação, meio ambiente e açã coletiva. Editora: Lamparina.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Política Nacional de Resíduos Sólidos não será prorrogada

Posted on 11/02/2014 10:22:50
PNRS
Depois de quase duas décadas de discussão e o possível adiamento de suas determinações legais, foi definido que o prazo para implantação da  Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) não será prorrogado. Na 4ª Conferência Nacional do Meio Ambiente, realizada em Brasília no dia 27 do último outubro, a Ministra do Meio Ambiente (MA), Izabella Teixeira, anunciou a primeira medida para acelerar o processo de implantação da legislação, comprometendo-se com o não adiamento do prazo de 4 anos iniciados a partir da publicação da lei nº 12.305, em 2 de agosto de 2010.
 
No evento, que aprovou e encaminhou ao governo uma pauta prioritária contendo 60 recomendações para tornar a lei uma realidade, foi criado, como primeira ação, um grupo de trabalho permanente para acompanhar a implementação da PNRS. A equipe formada conta com um representante dos catadores de produtos recicláveis e é vinculada ao gabinete da Ministra do MA.
 
Seguindo a tendência das conferências nacionais anteriores, as propostas definidas no encontro têm como objetivo transformarem-se em novas políticas públicas. As 60 prioridades definidas para otimizar o processo de implantação da PNRS recomendam ao governo a ampliação e a diversificação de suas ações no campo da educação ambiental; a desoneração da logística reversa; o estímulo às campanhas e aos recursos financeiros destinados à reciclagem; o fortalecimento da fiscalização através de medidas e leis mais rigorosas; a valorização da mão de obra dos catadores e a elaboração de leis que proíbam a inceneração de resíduos recicláveis.
 

Lei exige a participação do governo, de empresários e dos cidadãos

Aprovada em agosto de 2010 após anos de debate no Congresso Nacional, a Política Nacional de Resíduos Sólidos vem enfrentando o grande desafio de sair do papel. Trazendo a proposta de acabar com os lixões a céu aberto até o fim deste ano e implementando uma série de mudanças que envolvem a instauração da coleta seletiva, a logística reversa e a preocupação com a correta destinação dos resíduos sólidos, a lei demanda uma mudança de atitude por parte dos governos, dos empresários e também dos cidadãos.

Esta mudança, no entanto, caminha lentamente: o não adiamento da PNRS foi de fato um avanço no processo de implantação das determinações e uma vitória para gestão ambiental do país, mas muitos aspectos ainda precisam ser melhorados para que as metas sejam atingidas. Para se ter uma ideia, no final de 2013 o governo cogitava adiar as metas da legislação devido à baixa adesão dos municípios brasileiros à elaboração dos planos locais dos resíduos sólidos.
 
Os atuais problemas em relação à temática no país, atualmente, são ligados à exposição de lixo e ao seu tratamento. Muitas cidades ainda queimam ou enterram seus resíduos sólidos, principalmente no Nordeste, onde, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe), apenas 77% do lixo é coletado. Os dados do IBGE são ainda mais impressionantes: de acordo com o Instituto, somente 32,3% dos municípios brasileiros contam com alguma iniciativa de coleta seletiva em vigor. Em contraposição a estas problemáticas, como abordamos neste artigo anterior, alguns centros urbanos já consideram a destinação adequada dos seus resíduos sólidos como questão pública de grande relevância.
 
A Política Nacional de Resíduos Sólidos, em suma, engloba a participação ativa de diversos setores da sociedade e conta com a mudança de postura de empreendedores, gestores públicos e dos cidadãos em geral.
 

Compostagem: alternativa viável que vai de encontro à sustentabilidade

Infograma_Compostagem_PNRS
A PNRS considera “resíduo sólido” o lixo que tem valor e pode ser reaproveitado ou reciclado. Neste contexto, a prática da compostagem se insere como ótima alternativa para o encaminhamento destes materiais residuais.
 
Indo de encontro às demandas legislativas e a processos eficientes de tratamento, este sistema é uma excelente opção para as instituições públicas responsáveis pelo destino dos resíduos sólidos e também para empresas em geral que precisam se adequar à Política.
 
Na Tera Ambiental, o processo de compostagem promove o tratamento de resíduos orgânicos de maneira sustentável, contribuindo para o esgotamento dos aterros e propiciando, ao final das etapas, um produto de qualidade que é útil para outros segmentos (fertilizante orgânico e substrato para plantas). A opção pela prática, por parte dos empreendedores, também é positiva porque isenta seus negócios da corresponsabilidade por estes resíduos.
 
Ação importante para a implementação de estratégias que efetivamente caminhem para uma gestão responsável do meio ambiente, a não prorrogação da PNRS implica uma maior conscientização por parte de todos - neste sentido, a busca por soluções ambientais eficazes se faz, mais que nunca, imprescindível.
 
Fonte: http://www.teraambiental.com.br/blog-da-tera-ambiental/poltica-nacional-de-residuos-solidos-nao-sera-prorrogada?utm_campaign=newsletter-tera&utm_source=hs_email&utm_medium=email&utm_content=12141612&_hsenc=p2ANqtz-_sEe_MMvchbSuVcsqhDdbyGmfipEQdykgfUvCPuhb7MnCHJMKwCrlgUin4E6f5ZD5r145eRk6oHf-GNBsdjkuIdL2OXA&_hsmi=12141612

terça-feira, 31 de julho de 2012

Resíduos

O crescimento das cidades, com elevada concentração populacional e expansão das áreas urbanas, associado à industrialização e ao alto consumo de bens e serviços, são fatores que têm contribuído para a formação de um cenário urbano com muitos impactos sociais e ambientais, que estão intimamente relacionados à geração e inadequada destinação dos resíduos, conseqüência do atual modelo de produção e consumo.

Segundo o dicionário Aurélio, resíduos são remanescentes ou restos, ou seja, aquilo tudo que sobra de algum processo ou sistema. Lixo é definido como tudo o que não presta e se joga fora; coisas inúteis, velhas, sem valor; resíduos que resultam de atividades domésticas, industriais, comerciais, etc. (Fonte: Ferreira, Aurélio B. de Hollanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 3ª ed, Curitiba: Positivo, 2004)
Para tais definições, dois pontos merecem atenção: o primeiro é que resíduo e lixo nem sempre são sinônimos, já que o resto de alguma atividade ou processo pode ser reaproveitado em outro momento, deixando de ser algo sem valor, tornando-se matéria-prima. O segundo ponto é que, frente à escassez de espaço para disposição dos resíduos, cada vez mais vemo-nos inspirados a superar a idéia da existência do “jogar fora” , pois na prática, não existe o ‘fora’.

Torna-se necessário, portanto, considerar que em todo ciclo de um produto (que vai da extração da matéria-prima até o descarte pós-uso) – ou de um serviço – é possível tanto REUTILIZAR quanto RECICLAR diversos materiais ou sobras, integrando-os em outros ciclos de produção e consumo. É fundamental, ainda, REDUZIR a produção de resíduos sólidos, através de simples atitudes, por exemplo, baseadas no consumo consciente ou na eficientização de processos produtivos.
Aquilo que jogamos 'fora' está, na verdade, muito próximo a nós. (Foto: Roosewelt Pinheiro/AgBr)

A Política Nacional de Resíduos Sólidos apresenta dois conceitos importantes, distinguindo resíduos e rejeitos:

RESÍDUOS SÓLIDOS: material, substância, objeto ou bem descartado resultante de atividades humanas em sociedade, a cuja destinação final se procede, se propõe proceder ou se está obrigado a proceder, nos estados sólido ou semi-sólido, bem como gases contidos em recipientes e líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou em corpos d’água, ou exijam para isso soluções técnica ou economicamente inviáveis em face da melhor tecnologia disponível.

REJEITOS: resíduos sólidos que, depois de esgotadas todas as possibilidades de tratamento e recuperação por processos tecnológicos disponíveis  e economicamente viáveis, não apresentem outra possibilidade que não a disposição final ambientalmente adequada.
De acordo com o texto da PNRS, resíduos sólidos são aqueles que se encontram também nos estados líquido e gasoso, constituídos, principalmente, pelos efluentes de diversas atividades humanas. Há, no entanto, outros tipos de resíduos em estado líquido tais como o chorume, potencial contaminante de lençóis freáticos. Cabe ressaltar, por fim, que há alguns resíduos líquidos especiais, tais como o mercúrio, que são altamente tóxicos.

Resíduos Sólidos

Conceitos e Tipos de Resíduos

Segundo a norma da ABNT, NBR 10.004:2004, resíduos sólidos são aqueles que:
“resultam de atividades de origem industrial, doméstica, hospitalar, comercial, agrícola, de serviços e de varrição. Ficam incluídos nesta definição os lodos provenientes de sistemas de tratamento de água, aqueles gerados em equipamentos e instalações de controle de poluição, bem como determinados líquidos cuja particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou corpos de água, ou exijam para isso soluções, técnica e economicamente, inviáveis em face à melhor tecnologia disponível.”
Os resíduos sólidos apresentam uma vasta diversidade e complexidade, sendo que suas características físicas, químicas e biológicas variam de acordo com a fonte ou atividade geradora, podendo ser classificados de acordo com:
  • Riscos Potenciais de Contaminação do Meio Ambiente
    • Classe I ou Perigosos
    • Classe II ou Não-Inertes
    • Classe III ou Inertes
  • Natureza ou Origem
    • Lixo Doméstico ou Residencial
    • Lixo Comercial
    • Lixo Público
    • Lixo Domiciliar especial
      • Entulho de obras
      • Pilhas e baterias
      • Lâmpadas fluorescentes
      • Pneus
    • Lixo de Fontes especiais
      • Lixo industrial
      • Lixo radioativo
      • Lixo de portos, aeroportos e terminais rodoviários
      • Lixo agrícola
      • Resíduos de serviços de saúde

Além da classificação citada,  o texto preliminar do Plano Nacional de Resíduos Sólidos propõe outra  forma para agrupar tais resíduos, que considera o local ou atividade em que a geração ocorre:
  • Resíduos Sólidos Urbanos: divididos em  materiais recicláveis (metais, aço, papel, plástico, vidro, etc.) e matéria orgânica.
  • Resíduos da Construção Civil: gerados nas construções, reformas, reparos e demolições, bem como na preparação de terrenos para obras.
  • Resíduos com Logística Reversa Obrigatória: pilhas e baterias; pneus; lâmpadas fluorescentes de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista; óleos lubrificantes, seus resíduos e embalagens; produtos eletroeletrônicos e seus componentes; entre outros a serem incluídos.
  • Resíduos Industriais: gerados nos processos produtivos e instalações industriais; normalmente, grande parte são resíduos de alta periculosidade.
  • Resíduos Sólidos do Transporte Aéreo e Aquaviário: gerados pelos serviços de transportes, de naturezas diversas, como ferragens, resíduos de cozinha, material de escritório, lâmpadas, pilhas, etc.
  • Resíduos Sólidos do Transporte Rodoviário e Ferroviário: gerados pelos serviços de transportes, acrescidos de resíduos sépticos que podem conter organismos patogênicos.
  • Resíduos de Serviços de Saúde: gerados em qualquer serviço de saúde
  • Resíduos Sólidos de Mineração: gerados em qualquer atividade de mineração
  • Resíduos Sólidos Agrossilvopastoris (orgânicos e inorgânicos): dejetos da criação de animais; resíduos associados a culturas da agroindústria, bem como da silvicultura; embalagens de agrotóxicos, fertilizantes e insumos.
Mais informações sobre conceitos podem ser encontradas em Publicacões

Gestão de Resíduos Sólidos

As características de cada tipo de resíduo exigem um modelo de gestão adequado, que não tenha como objetivo apenas a coleta e o afastamento, mas o tratamento ideal para cada um, com a finalidade de evitar problemas de saúde pública e contaminação ambiental, impactos sociais e econômicos.
Atenta com tais questões, a população de um modo geral, especialmente em centros urbanos, tem estado mais preocupada para onde seu lixo está sendo destinado, porque reconhece a proximidade dos efeitos de uma má administração e tem acesso a informações. É consenso de que a gestão dos resíduos é de interesse coletivo. Portanto, é fundamental a superação de modelos historicamente consolidados que olham de forma fragmentada para a gestão. Essa importante transformação mudaria a perspectiva de que a característica do lixo é unicamente de “indesejado” ou “inútil”, para a ótica do reaproveitamento e reciclagem, conferindo valor ao resíduo que passa a ser utilizado como matéria-prima de processos produtivos ou fonte de energia.

O gerenciamento de resíduos sólidos envolve um conjunto de ações normativas, técnicas/ operacionais, de planejamento e monitoramento, baseadas em critérios ambientais, sanitários e econômicos para destinar corretamente o lixo gerado. É também uma tomada de decisão política, além de técnica.
Como principais metas do gerenciamento, as quais aumentariam a eficiência do sistema, pode-se elencar duas principais: redução e aproveitamento dos resíduos. Na busca por atingi-las, os Municípios, competentes para selecionar as melhores estratégias e instrumentos de manejo sustentável, devem atentar-se para cada etapa da cadeia do lixo, incluindo a que precede a coleta e, portanto, exige a participação e envolvimento dos geradores (empresas e pessoas), responsáveis pela redução e separação na fonte.
Portanto, assim como garantir o bom funcionamento dos equipamentos e instalações do sistema, a integração de todos os atores envolvidos é fundamental nesse processo: população, grandes geradores, catadores, estabelecimentos da saúde, setores da Prefeitura, etc. Esse é o princípio do Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos Urbanos, instituído pela Constituição como competência do poder público, que deve evitar e suspender o envio de resíduos para lixões e aterros controlados, adotando melhores alternativas.

Cabe ainda ao Município definir, de acordo com as condições locais, as características e classificação correta dos resíduos, como fará o gerenciamento para cada uma das etapas: geração, coleta, transporte, estação de transbordo, disposição, campanhas educativas, etc.
Criação de animais: geração de resíduos (Foto: Timo Balk/sxc.hu)
Alumínio (Material Reciclável): exemplo de Resíduo Sólido Urbano (Foto: Flávio Takemoto/SXC:flavioloka)
Pneus: um exemplo de Resíduo Industrial (Foto: ©Cristian De Grandmaison Dreamstime.com)
 

Tratamento e Destinação

Abaixo estão listadas algumas formas de pré-tratamento, tratamento e destinação – práticas mais comuns – para resíduos sólidos urbanos e suas vantagens e desvantagens associadas:

1. TECNOLOGIAS DE PRÉ-TRATAMENTO

A seguir encontram-se algumas tecnologias de pré-tratamento de resíduos sólidos urbanos:
  • RECICLAGEM
Este tipo de tratamento envolve várias atividades interligadas e tem como principal objetivo a retirada de materiais diferenciados, o tratamento e o retorno destes ao ciclo produtivo, reduzindo os volumes de resíduos a serem dispostos nos aterros ou enviados a outros tipos de tratamentos finais, viabilizando, desta maneira, a redução de matéria-prima necessária aos processos produtivos industriais. Muitos materiais podem ser reciclados e os mais comuns são vidros de diferentes cores, diferentes tipos de papel, latas de ferro e alumínio, tipos de plástico, madeira e etc.
Vantagens:
Aumento da vida útil dos aterros sanitários;
Economia no consumo de energia;
Economia no gasto com transporte;
Geração de emprego e renda;
Otimização da reutilização ou coprocessamento;
Preservação de recursos naturais e insumos.
 
Desvantagens:
Transporte para coleta diferenciada;
Alteração do processo tecnológico para o beneficiamento, quando da reutilização de materiais no processo industrial.

  • LOGÍSTICA REVERSA
A Logística Reversa é um instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo de vida ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada (PNRS – Lei 12.305/2010. Capítulo II, Art. 3º: Definições).
Com a aprovação da PNRS, a necessidade da aplicação da Logística Reversa ficou ainda mais explícita e é citada em todos os planos para implementação da Política: Plano Nacional de Resíduos Sólidos, Planos Estaduais de Resíduos Sólidos,  Planos Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos e Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos – empresariais. O Artigo 33º da Lei supracitada menciona tal obrigatoriedade:
“São obrigados a estruturar e implementar sistemas de logística reversa, mediante retorno dos produtos após o uso pelo consumidor, de forma independente do serviço público de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de:
I – agrotóxicos
II – pilhas e baterias; 
III – pneus; 
IV – óleos lubrificantes, seus resíduos e embalagens; 
V – lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista; 
VI – produtos eletroeletrônicos e seus componentes”.
Vantagens:
Diminuição de materiais a serem coletados e dispostos, de maneira comum;
Retirada de produtos potencialmente perigosos da coleta e destinação tradicionais;
Economia de recurso ambiental, gerando ganhos financeiros.
 
Desvantagens:
Dependência de acordo entre os diversos setores envolvidos, representados pelo poder público e fabricantes, importadores, distribuidores ou comerciantes;
Falta de sistemas informatizados que se integrem ao sistema existente de logística.
 
 
  • TRITURAÇÃO
Após a segregação prévia, os resíduos são triturados e o produto final pode ser reutilizado ou reciclado. A trituração é uma técnica complementar à reciclagem e à compostagem, além de reduzir a granulometria do material resultante e o custo de transporte. Entretanto, o mecanismo de trituração vai depender do tipo de resíduo a ser processado. Normalmente, os resíduos que são encaminhados à trituração são vidros, pneu e resíduos de construção civil (RCC).
Vantagens:

Redução do volume de resíduos sólidos;
Oportunidade de reciclagem e reaproveitamento do material triturado;
Redução do custo de transporte.
 
Desvantagens:
Em determinados tipos de trituração, há alto custo de manutenção e operação, além de um alto consumo de eletricidade.
 
 

2. TECNOLOGIAS DE TRATAMENTO E DESTINAÇÃO

A seguir são apresentadas algumas tecnologias para tratamento de resíduos sólidos urbanos:
  • COMPOSTAGEM
A compostagem pode ser definida como um processo aeróbio e controlado de reciclagem da matéria orgânica presente nos resíduos sólidos urbanos. A decomposição biológica e estabilização da matéria  resulta em composto orgânico, cuja utilização no solo não oferece riscos ao meio ambiente.
Segundo o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, a compostagem é uma solução de tratamento e não somente de destinação final. Contudo, do total de 94.335,1 t/d de resíduos orgânicos coletados somente 1,6% é encaminhado para tratamento via compostagem.
Vantagens:
Baixa complexidade na obtenção da licença ambiental;
Diminuição da carga orgânica no material/rejeito a ser enviado ao aterro, minimizando os volumes a serem dispostos;
Facilidade de monitoramento;
Possibilidade de geração de empregos e envolvimento da comunidade do entorno;
Tecnologia conhecida e de fácil implantação;
Viabilidade comercial para venda do composto gerado.
 
Desvantagens:
Baixa qualidade do composto e consequente dificuldade na comercialização;
Geração de odores e efluentes, caso haja manipulação inadequada na produção.

  • TRATAMENTO MECÂNICO BIOLÓGICO (TMB)
O Sistema de Tratamento Mecânico Biológico (TMB) é definido como o método de tratamento de resíduos que inclui processos de triagem de inertes e tratamento biológico dos materiais orgânicos, por meio da compostagem ou digestão anaeróbia (Ministério do Meio Ambiente, 2010 apud Arcadis Tetraplan, 2011).
Vantagens:
Aceleração do processo metanogênico da decomposição dos resíduos orgânicos, em virtude da separação dos resíduos pela tecnologia;
Menor exposição dos trabalhadores com os resíduos;
Possibilidade de maior higienização do espaço de trabalho;
Redução de gases do efeito estufa (GEEs) e obtenção de créditos de carbono;
Redução de resíduos a serem enviados para disposição final de aterros;
Tecnologia conhecida, e de pouca complexidade para obtenção da licença ambiental.
 
Desvantagens:
Composto produzido pode apresentar teores elevados de metais pesados, devido à dificuldade de seleção prévia do material;
Por ser instalado em área fechada, o grande acúmulo de partículas em suspensão pode causar problemas de saúde dos trabalhadores.
 
  • INCINERAÇÃO
A incineração é uma alternativa de tratamento para redução do volume e do peso dos resíduos sólidos. O processo consiste na combustão dos resíduos à alta temperatura, por meio de excesso de oxigênio, em que os materiais à base de carbono são decompostos, gerando calor; como remanescentes têm-se gases, cinzas e escórias (IBAM, 2001 e SCHALCH et al, 2002 apud Arcadis Tetraplan, 2011). O calor gerado também pode ser aproveitado como forma de produção de energia elétrica e vapor, portanto o processo de incineração também pode ser considerado como um processo de reciclagem da energia liberada na queima de materiais (LANÇA, SILVA, 2007 apud Arcadis Tetraplan, 2011).
Vantagens:
Aplicável a diversos tipos de resíduos;
Aumento da vida útil dos locais para disposição final (ex: aterros);
Degradação completa dos resíduos e quebra das moléculas dos componentes perigosos;
Geração de calor e energia, possibilitando a cogeração;
Utilização de pequenas áreas para implantação.
 
Desvantagens:
Alto custo de implantação;
Falta de procedimentos normativos por parte das esferas governamentais para obtenção da licença ambiental;
Geração de cinzas, que devem ser corretamente dispostas de acordo com a sua composição;
Geração de emissões atmosféricas, que devem ser controladas.
 
  • PIRÓLISE
Essa tecnologia realiza a destruição térmica de materiais orgânicos, como a incineração, no entanto a diferença entre esses tratamentos é que o processo da pirólise é realizado na ausência total ou parcial de um agente oxidante e absorve calor (FIRJAN, 2006 apud Arcadis Tetraplan, 2011). Assim qualquer tipo de material orgânico se decompõe, dando origem a três fases: uma sólida, o carvão vegetal; outra gasosa; e finalmente, outra líquida, frequentemente designada de fração pirolenhosa (extrato ou bioóleo).
Vantagens:
Área reduzida para implantação dos reatores pirolíticos;
Oportunidade de trabalho em centros de triagem;
Redução substancial do volume de resíduos a ser disposto.
 
Desvantagens:
Alto consumo de água no processo;
Elevado custo de tratamento dos efluentes gasosos e líquidos;
Difícil manutenção, que exige constante limpeza no sistema de alimentação de combustível auxiliar, exceto se for utilizado gás natural;
Risco de contaminação do ar pela emissão de materiais particulados;
Tecnologia pouco difundida no Brasil.

  • COPROCESSAMENTO
O coprocessamento é uma tecnologia empregada em países europeus, Estados Unidos e Japão há quase 40 anos. No Brasil, a técnica é utilizada desde o início da década de 90, na qual é realizada a queima de resíduos e de passivos ambientais (efluentes, óleos, solo contaminado, etc.) em fornos de cimento (ABCP, 2010 apud Arcadis Tetraplan, 2011). O coprocessamento utiliza os resíduos como substituição parcial do combustível que mantém a chama do forno, transformando calcário e argila em clínquer, a matéria-prima do cimento, ou seja, essa técnica de destruição térmica envolve o aproveitamento energético dos resíduos ou o seu uso como matéria-prima na indústria cimenteira sem prejudicar a qualidade do produto final (ABCP, 2010; ESSENCIS, 2011 apud Arcadis Tetraplan, 2011).
Vantagens:
Aceitação por parte dos stakeholders;
Diminuição de custos com insumos, já que parte dos resíduos substitui a matéria-prima;
Não geração de cinzas, pois toda a matéria queimada é incorporada ao produto final;
Pouca complexidade para a obtenção de licença ambiental;
Viabilidade na instalação se próxima a uma cimenteira;
Redução significativa dos resíduos, minimizando os impactos ambientais;
Elevado potencial de reaproveitamento energético dos resíduos.
 
Desavantagens:
Inviabilidade na instalação se distantes de cimenteiras;
Inviabilidade de coprocessamento para resíduos perigosos devido à sua composição;
Necessidade de controle de emissões atmosféricas.
 
 

3. DISPOSIÇÃO FINAL DE RESIDUOS SÓLIDOS URBANOS/REJEITOS

  • ATERRO SANITÁRIO
Segundo a Norma Técnica 8.419 (ABNT, 1987), aterro sanitário é uma técnica de disposição de resíduos sólidos urbanos no solo sem causar danos à saúde pública e à sua segurança, minimizando os impactos ambientais. Este método utiliza princípios de engenharia para confinar os resíduos sólidos à menor área possível e reduzi-los ao menor volume permissível, cobrindo-os com uma camada de terra na conclusão de cada jornada de trabalho, ou a intervalos menores, se for necessário.
Um aterro sanitário deve, obrigatoriamente, conter:
  • Instalações de apoio;
  • Sistema de drenagem de águas pluviais;
  • Sistema de coleta e tratamento de líquidos percolados (chorume) e de drenagem de gases formados a partir da decomposição da matéria orgânica presente no lixo;
  • Impermeabilização lateral e inferior, de modo a evitar a contaminação do solo e do lençol freático.
Vantagens:
Baixo custo operacional;
Oportunidade de associação com outras tecnologias;
Possibilidade de gestão consorciada;
Potencial de geração de empregos;
Tecnologia amplamente conhecida.
 
Desvantagens:
Geração de odores característicos;
Possibilidade de exposição e risco aos trabalhadores;
Necessidade de grandes áreas para o empreendimento;
Resistência por parte da comunidade do entorno;
Quando não bem operado pode apresentar os seguintes impactos:
- Emissão de GEE,
- Possibilidade de passivos ambientais,
- Proliferação de vetores e doenças associadas.
 
Há diversas técnicas que podem ser utilizadas para a construção de aterros sanitários, como: trincheira, vala, preenchimento de depressão e aterro para aproveitamento energético. A escolha da mais adequada depende da localização, área disponível, classe e quantidade de resíduos/rejeito, etc.

(Fonte: As informações foram extraídas do estudo técnico desenvolvido pela consultoria Arcadis Logos para o Projeto GeRes, 2011)
 

Conceitos

Os esgotos ou efluentes oriundos de uma cidade são originados, basicamente, de atividades industriais e de atividades domésticas (incluem-se aqui residências, comércios, instituições, entre outros).
A composição dos efluentes industriais varia em função do tipo de indústria de onde são provenientes, podendo conter elevada carga de compostos orgânicos, elevada carga de compostos inorgânicos ou de ambos.
A composição dos efluentes sanitários ou domésticos varia de acordo com o uso ao qual a água foi submetida. Os principais fatores que podem influenciar a composição são o clima, a situação social e econômica e os hábitos da população.
Mesmo com composição variada, os efluentes sanitários geralmente contêm cerca de 99,9% de água, sendo o restante correspondente aos sólidos orgânicos e inorgânicos, e aos microrganismos, que juntos representam toda carga poluidora. Assim, devido à fração de 0,1% de carga poluidora presente nos efluentes é necessário tratar os esgotos antes de lançá-los nos corpos d’água.
O uso do ambiente natural na gestão dos esgotos domésticos geralmente se dá em detrimento da saúde dos ecossistemas, que muitas vezes causam danos à própria saúde humana. É comum que rios e lagos sejam utilizados para o transporte e a diluição dos esgotos domésticos, o que pode resultar em grandes impactos aos habitats aquáticos.
A vazão de efluentes lançados em corpos hídricos sem tratamento adequado aumentou, nos últimos 50 anos em função do rápido crescimento das cidades brasileiras que, muitas vezes, não foi acompanhado pela provisão de infraestrutura e de serviços urbanos, tais como o de saneamento básico. Em consequência, a capacidade de autodepuração de muitos corpos d’água foi superada pela carga poluidora dos efluentes ou esgotos.
Os problemas associados ao lançamento de efluentes sem tratamento em corpos hídricos
Do total de água disponível no planeta, aproximadamente 2,5% corresponde à água doce, distribuída entre o solo, rios, lagos, atmosfera e calotas polares (Von Sperling, 2005). A questão é que apenas 0,007% desse total de água doce, de acordo com World Resources Institute (ONU), é de fácil acesso para consumo, uma porcentagem muito baixa frente à demanda, que cresce exponencialmente em função do aumento da população mundial e do consumo per capita, que tem acirrado a disputa por esse valioso recurso.
Nesse contexto mundial, de estresse hídrico e escassez, a preservação e a manutenção da qualidade das águas são essenciais. Assim, sabendo-se da relação entre a degradação da qualidade das águas por esgotos domésticos e industriais, e a escassez de água para abastecimento, especialmente em grandes centros urbanos, deve-se buscar uma gestão local integrada para melhorar o tratamento e abastecimento, evitando-se, por exemplo, a captação em pontos cada vez mais distantes das cidades, que pode ocasionar danos em outras áreas, elevação dos custos de transporte de água e o consumo de energia.
Impactos negativos para a saúde humana também estão relacionados à falta de tratamento de efluentes. Já em 1892, o médico e patologista Heinrich Koch verificou que uma epidemia de cólera que ocorria em duas cidades da Alemanha estava sendo ocasionada pelo fato de que ambas captavam água do mesmo rio para abastecimento público. Verificou-se que o esgoto das duas cidades, eram despejados sem nenhum tratamento, em diversos pontos do rio. No Brasil, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), gasta-se, aproximadamente, US$ 2,5 bilhões por ano com doenças relacionadas à água contaminada e à falta de esgotamento sanitário.
Cabe considerar, ainda, que o lançamento de esgotos sem tratamento em corpos hídricos possui como principal efeito o aumento do consumo de oxigênio dissolvido, que resulta em impactos negativos aos ecossistemas aquáticos. Isso porque a matéria orgânica presente no efluente passa a ser estabilizada por microrganismos decompositores, que utilizam o oxigênio dissolvido na água para respiração celular. Assim, quanto maior a carga de matéria orgânica, maior será o consumo de oxigênio e, portanto, maior a taxa de reprodução dos organismos. Em seguida, há um decréscimo da concentração de oxigênio dissolvido, permanecendo apenas aquelas espécies que se adaptam às novas condições ambientais. Dessa forma, em meios poluídos, é comum a ocorrência de baixa diversidade de espécies e grande número de indivíduos de cada espécie, em função da quantidade de esgoto sem tratamento lançado no meio aquático ter superado a capacidade de autodepuração deste.
A necessidade do Saneamento Básico
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), saneamento é o controle de todos os fatores do meio físico que exercem ou podem exercer efeitos nocivos sobre o bem-estar físico, mental e social.
O saneamento básico engloba o abastecimento de água às populações, que deve ser qualitativamente e quantitativamente satisfatório; a coleta, o tratamento e a disposição ambientalmente adequada e sanitariamente segura de águas residuárias; acondicionamento, coleta, transporte e/ou destino final dos resíduos sólidos; entre outras atividades.
Infelizmente, no Brasil o saneamento básico apresenta um déficit persistente no atendimento de grande parte da população. De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000, do total de 9.848 distritos brasileiros, apenas 4.097 possuem coleta de esgoto sanitário e, apenas 1.383 realizam algum tipo de tratamento.
No entanto, deve-se considerar que há medidas sendo adotadas na área que visam à melhoria do sistema de saneamento básico. Valer citar, por exemplo, a Lei Nº 11.445, de 05 de janeiro de 2007, ou Lei Federal de Saneamento Básico que aborda:
  • o conjunto de serviços de abastecimento público de água potável;
  • coleta, tratamento e disposição final adequada dos esgotos sanitários;
  • drenagem e manejo das águas pluviais urbanas, além da limpeza urbana e o manejo dos resíduos sólidos.
Por fim, em relação à elaboração dos Planos de Saneamento Básico a lei exige, além de facultar a elaboração de planos específicos por serviço, que:
  • Sejam editados pelos próprios titulares;
  • Sejam compatíveis com os planos das bacias hidrográficas em que estiverem inseridos;
  • Sejam revistos periodicamente, em prazo não superior a 4 anos e anteriormente à elaboração do Plano Plurianual; e
  • Caso haja prestação regionalizada de serviços, os planos dos titulares que se associaram devem ser compatíveis entre si.
Fonte:
ICLEI, Brasil. “Manual para aproveitamento do biogás: volume dois, efluentes urbanos”. ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade, Secretariado para América Latina e Caribe, Escritório de projetos no Brasil, São Paulo, 2010. Baixe o material aqui.
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, Secretaria de Recursos Hídricos e Meio Ambiente. “Guia para elaboração dos Planos de Gestão de Resíduos Sólidos”. Brasília, DF, 2011.
SWITCH Training Kit – Integrated Urban Water Management in the City of the Future Module 5 – WASTE WATER: Exploring the options
VON SPERLING, Marcos. “Introdução à Qualidade das Águas e ao Tratamento de Esgotos”. Belo Horizonte: Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental. Universidade Federal de Minas Gerais, 2005.