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terça-feira, 27 de setembro de 2022


 

À medida que as florestas da Europa queimam, por que os incêndios florestais estão piorando?

Autor

Michael Taylor

Fontes)
Fundação Thomson Reuters, trust.org
Um helicóptero deixa cair água em um incêndio violento
Toa55/Shutterstock

Mudanças climáticas aceleradas e eventos climáticos extremos, como secas e ondas de calor, estão alimentando incêndios florestais em todo o mundo.

  • Nações da França à Espanha lutam para conter incêndios florestais

  • Dados mostram incêndios se espalhando e destruindo mais cobertura de árvores

  • A mudança climática é um grande impulsionador da seca e das ondas de calor

Várias nações europeias como Itália, França, Grécia, Portugal

, Eslovênia e Espanha têm lutado nos últimos meses para lidar com incêndios florestais violentos - causados ​​por ondas de calor mortais e secas - que deslocaram milhares de pessoas.

Além de levar os serviços de emergência ao ponto de ruptura e causar danos ao meio ambiente e às pessoas, os incêndios florestais liberam dióxido de carbono (CO2) que aquece o planeta, alimentando ainda mais as mudanças climáticas e condições climáticas extremas.

Globalmente, os incêndios florestais estão piorando – com a temporada de incêndios de 2021 sendo a segunda pior já registrada, de acordo com a Universidade de Maryland e o serviço de monitoramento Global Forest Watch

(GFW).

Novos dados publicados na quarta-feira pela GFW - que é administrado pelo World Resources Institute, um think-tank com sede nos EUA - mostraram que os incêndios florestais estão se espalhando e queimando cerca de duas vezes mais cobertura de árvores agora do que há 20 anos.

Aqui está o que os pesquisadores da GFW descobriram sobre incêndios florestais em todo o mundo usando imagens de satélite - e por que isso é importante:

Quão ruins são os incêndios florestais hoje?

Os incêndios florestais agora causam 3 milhões de hectares a mais de perda de cobertura florestal a cada ano do que em 2001.

Esses incêndios foram responsáveis ​​por mais de um quarto de toda a perda de cobertura florestal nas últimas duas décadas. Os fatores não relacionados ao fogo variam desde a limpeza de terrenos para extração de madeira até o meandro do rio.

O ano passado foi um dos piores em incêndios florestais desde a virada do século, causando 9,3 milhões de hectares de perda de cobertura de árvores em todo o mundo – mais de um terço de todas as perdas em 2021.

A mudança climática é um dos principais impulsionadores do aumento dos incêndios, com ondas de calor extremas cinco vezes mais prováveis ​​agora do que há 150 anos e devem se tornar ainda mais frequentes à medida que o planeta continua aquecendo.

Temperaturas mais quentes secam florestas e paisagens para criar o ambiente ideal para incêndios florestais maiores e mais frequentes. Isso resulta em maiores emissões de CO2, agravando ainda mais as mudanças climáticas e, por sua vez, contribuindo para mais incêndios.

Onde ocorrem os piores incêndios florestais?

Cerca de 70% de toda a perda de cobertura florestal relacionada ao fogo nas últimas duas décadas ocorreu em florestas boreais encontradas nas regiões do extremo norte, incluindo Canadá, Rússia e Alasca.

Embora o fogo seja uma parte natural de como as florestas boreais funcionam ecologicamente, a perda de cobertura florestal relacionada ao fogo aumentou em uma taxa de cerca de 110.000 hectares (3%) por ano nos últimos 20 anos.

O aumento dos incêndios florestais boreais provavelmente se deve ao aquecimento das regiões de alta latitude do norte a um ritmo mais rápido do que o resto do planeta, segundo a nova pesquisa.

Isso leva a temporadas de incêndios mais longas, maior frequência e gravidade de incêndios e maiores áreas queimadas nessas regiões.

No ano passado, por exemplo, a Rússia teve 5,4 milhões de hectares de perda de cobertura florestal relacionada ao fogo – o maior registrado nas últimas duas décadas – e um aumento de 31% em 2020.

Isso ocorreu em grande parte por causa das ondas de calor prolongadas que não teriam acontecido se não fossem as mudanças climáticas, disseram os pesquisadores.

As florestas boreais estão entre os maiores sumidouros de carbono da Terra, com a maior parte do carbono armazenado no subsolo no solo, inclusive no permafrost.

Historicamente, esse carbono foi protegido de incêndios pouco frequentes que ocorrem naturalmente.

Mas temperaturas mais quentes e incêndios mais frequentes estão derretendo o permafrost e tornando o carbono do solo mais vulnerável à queima.

Por que os trópicos também sofrem mais incêndios florestais?

As florestas primárias tropicais são definidas como áreas de cobertura florestal tropical úmida, madura e natural que não foram desmatadas e replantadas na história recente.

Nos últimos 20 anos, a perda de cobertura arbórea relacionada ao fogo nos trópicos aumentou a uma taxa de cerca de 36.000 hectares (5%) por ano - e foi responsável por cerca de 15% do aumento global total.

Embora os incêndios sejam responsáveis ​​por menos de 10% de toda a perda de cobertura florestal nos trópicos, fatores mais comuns, como a produção de commodities e a agricultura itinerante, tornam as florestas tropicais menos resilientes e mais suscetível a incêndios.

O desmatamento e a degradação florestal ligados à expansão agrícola - que inclui óleo de palma, soja e gado - levam a temperaturas mais altas e vegetação seca.

Nas regiões tropicais, os incêndios são comumente usados ​​para limpar a terra para novas pastagens ou culturas depois que as árvores foram derrubadas e deixadas para secar. Durante os períodos de seca, esses incêndios podem escapar acidentalmente para as florestas vizinhas.

Quase todos os incêndios que ocorrem nos trópicos são iniciados por pessoas, em vez de serem provocados por fontes naturais de ignição, como raios. Eles são então exacerbados por condições mais quentes e secas, o que pode fazer com que os incêndios fiquem fora de controle.

O risco de incêndios florestais nos trópicos é ainda mais alimentado por eventos climáticos El Niño - ciclos climáticos naturais que se repetem a cada dois a sete anos e causam chuvas abaixo da média em partes do Sudeste Asiático e da América Latina.

O que pode ser feito para reduzir os incêndios florestais?

Não há solução para reduzir a frequência de incêndios a níveis históricos sem reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, disseram os pesquisadores.

Mas a atividade humana dentro e ao redor das florestas as torna mais suscetíveis a incêndios florestais e desempenha um papel na condução de níveis mais altos de perda de cobertura florestal relacionada ao fogo nos trópicos.

Melhorar a resiliência da floresta ao interromper o desmatamento e a degradação florestal é considerado vital para prevenir futuros incêndios, assim como limitar as queimadas próximas que podem escapar facilmente para as florestas, especialmente durante as secas.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Desmatamento na Amazônia está prestes a atingir limite irreversível

21 de fevereiro de 2018


Elton Alisson  |  Agência FAPESP – O desmatamento da Amazônia está prestes a atingir um determinado limite a partir do qual regiões da floresta tropical podem passar por mudanças irreversíveis, em que suas paisagens podem se tornar semelhantes às de cerrado, mas degradadas, com vegetação rala e esparsa e baixa biodiversidade.

Desmatamento na Amazônia está prestes a atingir limite irreversível Com mudanças climáticas e uso indiscriminado do fogo, se o nível de desflorestamento atingir entre 20% e 25% o ciclo hidrológico do bioma pode ser severamente degradado, alertam cientistas (foto: Inpe) 
 
 

O alerta foi feito em um editorial publicado nesta quarta-feira (21/02) na revista Science Advances. O artigo é assinado por Thomas Lovejoy, professor da George Mason University, nos Estados Unidos, e Carlos Nobre, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas – um dos INCTs apoiados pela FAPESP no Estado de São Paulo em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – e pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“O sistema amazônico está prestes a atingir um ponto de inflexão”, disse Lovejoy à Agência FAPESP. De acordo com os autores, desde a década de 1970, quando estudos realizados pelo professor Eneas Salati demonstraram que a Amazônia gera aproximadamente metade de suas próprias chuvas, levantou-se a questão de qual seria o nível de desmatamento a partir do qual o ciclo hidrológico amazônico se degradaria ao ponto de não poder apoiar mais a existência dos ecossistemas da floresta tropical.

Os primeiros modelos elaborados para responder a essa questão mostraram que esse ponto de inflexão seria atingido se o desmatamento da floresta amazônica atingisse 40%. Nesse cenário, as regiões Central, Sul e Leste da Amazônia passariam a registrar menos chuvas e ter estação seca mais longa.

Além disso, a vegetação das regiões Sul e Leste poderiam se tornar semelhantes à de savanas.

Nas últimas décadas, outros fatores além do desmatamento começaram a impactar o ciclo hidrológico amazônico, como as mudanças climáticas e o uso indiscriminado do fogo por agropecuaristas durante períodos secos – com o objetivo de eliminar árvores derrubadas e limpar áreas para transformá-las em lavouras ou pastagens.

A combinação desses três fatores indica que o novo ponto de inflexão a partir do qual ecossistemas na Amazônia oriental, Sul e Central podem deixar de ser floresta seria atingido se o desmatamento alcançar entre 20% e 25% da floresta original, ressaltam os pesquisadores.

O cálculo é derivado de um estudo realizado por Nobre e outros pesquisadores do Inpe, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e da Universidade de Brasília (UnB), publicado em 2016 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
“Apesar de não sabermos o ponto de inflexão exato, estimamos que a Amazônia está muito próxima de atingir esse limite irreversível. A Amazônia já tem 20% de área desmatada, equivalente a 1 milhão de quilômetros quadrados, ainda que 15% dessa área [150 mil km2] esteja em recuperação”, ressaltou Nobre.

Margem de segurança

Segundo os pesquisadores, as megassecas registradas na Amazônia em 2005, 2010 e entre 2015 e 2016, podem ser os primeiros indícios de que esse ponto de inflexão está próximo de ser atingido.
Esses eventos, juntamente com as inundações severas na região em 2009, 2012 e 2014, sugerem que todo o sistema amazônico está oscilando. “A ação humana potencializa essas perturbações que temos observados no ciclo hidrológico da Amazônia”, disse Nobre.

“Se não tivesse atividade humana na Amazônia, uma megasseca causaria a perda de um determinado número de árvores, que voltariam a crescer em um ano que chove muito e, dessa forma, a floresta atingiria o equilíbrio. Mas quando se tem uma megasseca combinada com o uso generalizado do fogo, a capacidade de regeneração da floresta diminui”, explicou o pesquisador.
A fim de evitar que a Amazônia atinja um limite irreversível, os pesquisadores sugerem a necessidade de não apenar controlar o desmatamento da região, mas também construir uma margem de segurança ao reduzir a área desmatada para menos de 20%.

Para isso, na avaliação de Nobre, será preciso zerar o desmatamento na Amazônia e o Brasil cumprir o compromisso assumido no Acordo Climático de Paris, em 2015, de reflorestar 12 milhões de hectares de áreas desmatadas no país, das quais 50 mil km2 são da Amazônia.
“Se for zerado o desmatamento na Amazônia e o Brasil cumprir seu compromisso de reflorestamento, em 2030 as áreas totalmente desmatadas na Amazônia estariam em torno de 16% a 17%”, calculou Nobre.

“Dessa forma, estaríamos no limite, mas ainda seguro, para que o desmatamento, por si só, não faça com que o bioma atinja um ponto irreversível”, disse

O editorial Amazon tipping point (doi: 10.1126/sciadv.aat2340), assinado por Thomas Lovejoy e Carlos Nobre, pode ser lido na revista Science Advances em http://advances.sciencemag.org/content/4/2/eaat2340.

O artigo Land-use and climate change risks in the Amazon and the need of a novel sustainable development paradigm (doi: 10.1073/pnas.1605516113), de Carlos Nobre, Gilvan Sampaio, Laura Borma, Juan Carlos Castilla-Rubio, José Silva e Manoel Cardoso, pode ser lido na revista PNAS em http://www.pnas.org/content/113/39/10759.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Fogo amigo no Cerrado

11 de agosto de 2017


Por José Tadeu Arantes  |  Agência FAPESP – Quase sempre apresentado como inimigo dos ecossistemas, o fogo é, no entanto, indispensável para a preservação das savanas, como afirmam unanimemente os estudiosos do assunto. No Brasil, o Cerrado, que constitui a mais biodiversa savana do mundo, encontra-se seriamente ameaçado pela conjunção de dois fatores: a expansão da fronteira agrícola e a proibição do uso do fogo como método de manejo. É o que sustenta o artigo The need for a consistent fire policy for Cerrado conservation, publicado por Giselda Durigan, do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, e James Ratter, do Botanic Garden Edinburgh, de Edimburgo, Escócia, no Journal of Applied Ecology.


Fogo amigo no Cerrado Estudo defende a necessidade da queima criteriosa para a preservação da mais rica savana do mundo, prodígio de biodiversidade e berço de importantes rios brasileiros (foto: Arthur de Magalhães Goulart/Wikimedia Commons)

Giselda Durigan, que é também professora em programas de pós-graduação em Ciência Florestal na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e em Ecologia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estuda o Cerrado há mais de 30 anos. Participou recentemente do projeto “Impacto de fatores antrópicos (fogo, agricultura e pastoreio) sobre a biodiversidade em savanas”, apoiado pela FAPESP no âmbito do Belmont Forum. E, entre vários estudos em andamento, integra o projeto “Efeitos do fogo e de sua supressão sobre a estrutura, a composição e a biodiversidade do ecossistema no gradiente fisionômico do Cerrado na Estação Ecológica de Santa Bárbara”, parcialmente apoiado pela National Science Foundation, dos Estados Unidos.

 "Nas savanas de todo o mundo, está ocorrendo um processo de adensamento da vegetação, com perda de biodiversidade. E a principal causa, no Brasil, é a supressão do fogo. O Cerrado vai ficando cada vez mais cheio de árvores e começa a virar floresta. Como quatro quintos da biodiversidade de plantas desse bioma estão no estrato herbáceo, virar floresta constitui uma enorme perda de biodiversidade. A maioria das plantas do Cerrado não suporta a sombra. Então, quando o dossel formado pelas copas das árvores se fecha e sombreia o solo, centenas de espécies de plantas endêmicas desaparecem”, afirmou a pesquisadora à Agência FAPESP.

“Nosso estudo na Estação Ecológica de Santa Bárbara, na região oeste do Estado de São Paulo, mostrou que, a partir de um determinado ponto de adensamento, a transformação do Cerrado em floresta se torna irreversível. Então, não podemos deixar que a biomassa transponha esse ponto. É preciso ter um programa de queima. Todo mundo acha que fogo é ‘do mal’, em se tratando de ecossistemas. Porém o entendimento de que o fogo é necessário, mas precisa ser manejado, é um consenso entre os pesquisadores de savanas. Temos que reaprender a manejar o fogo como os indígenas já faziam há milhares de anos”, continuou.

É preciso deixar logo claro que, quando fala no uso do fogo, Durigan não se refere a queimadas indiscriminadas, mas a um método de manejo criteriosamente estabelecido, com zoneamento da área total e cronograma de queima, em sistema de rodízio. 

O zoneamento define uma estrutura em forma de mosaico e o cronograma estabelece as épocas certas para queimar cada parte. Desse modo, uma parte é queimada em determinada época; outra, alguns meses depois; outra no ano seguinte; e assim por diante. Há um rodízio nas queimas das partes, mas o mosaico entre porções recém-queimadas, porções queimadas há algum tempo e porções que não queimam há muito tempo se mantém. Isso garante a reposição da vegetação e assegura rotas de fuga e habitats para os animais. “Na Estação Ecológica de Santa Bárbara, estamos queimando áreas contínuas de 20 a 30 hectares, sem riscos para a flora, sem nenhuma perda de fauna, e com grandes benefícios”, afirmou a pesquisadora.

“As savanas queimam espontaneamente. As gramíneas do tipo C4, que são fundamentais para a existência das savanas, evoluíram há cerca de 8 milhões de anos, na presença do fogo, muito antes do surgimento da espécie humana no planeta. O que não queremos é o fogo descontrolado. Por que, recentemente, 60 mil hectares da Chapada dos Veadeiros queimaram em poucos dias? Porque vinha sendo promovida uma política de prevenção de incêndios. E isso fez com que se acumulasse uma quantidade enorme de material combustível. Então, quando ocorreu um incêndio, ele se disseminou de maneira descontrolada. O exemplo mais desastroso de incêndio descontrolado foi o do Parque de Yellowstone, nos Estados Unidos, onde também havia sido adotada uma política de prevenção de incêndios. O resultado foi que, quando queimou, o parque queimou inteiro, e foi uma calamidade, porque a fauna ficou sem habitat, sem alimento”, argumentou Durigan.

Como informou a pesquisadora, as savanas são biomas de clima tropical formados por árvores esparsas e solo coberto por gramíneas e plantas herbáceas e arbustivas. Essas formações surgiram devido à conjugação de dois fatores principais: um regime de chuvas bem característico, com precipitações concentradas no verão e seca no inverno, geralmente associado às propriedades do solo.

Chuva sobre a areia

Quando chove sobre um solo argiloso, mais barrento, a água fica retida por longo tempo. Mas, quando chove sobre a areia, bastam dois dias de estiagem para que o solo fique seco de novo. Então, em uma região de clima tropical onde exista um mosaico de florestas e savanas, como o oeste do Estado de São Paulo, se o solo é mais argiloso, a vegetação predominante é de tipo florestal, porque a floresta é mais exigente em água. Se o solo é mais arenoso, os três meses de seca, comuns nesta região, são suficientes para dificultar que a vegetação de tipo florestal colonize a área. E, nesse caso, o Cerrado se estabelece. Suas árvores têm raízes muito profundas e buscam a água acumulada no subsolo por chuvas ocorridas meses antes. O que manda é a disponibilidade de água no solo para as plantas, que dependem de quanto chove e de quanto o solo armazena.

Todas as savanas do mundo apresentam duas características determinantes: uma estação seca prolongada e o fogo como fator natural de seleção e pressão evolutiva. As plantas do Cerrado evoluíram na presença do fogo. E se adaptaram a isso. As árvores rústicas do Cerrado são, com frequência, revestidas por súber espesso – algo como uma manta, formada por células mortas, que envolve troncos e galhos. Quando o Cerrado queima, o súber age como isolante térmico, impedindo que as altas temperaturas atinjam os tecidos vivos internos. O súber queima externamente, mas a árvore sobrevive, e um novo súber é formado. Quanto às gramíneas, elas logo rebrotam. E bastam dois meses para que o Cerrado queimado se transforme em um exuberante jardim.

“A extraordinária resiliência do Cerrado, isto é, sua capacidade de reagir às perturbações, deve-se especialmente à estrutura subterrânea das plantas, que rebrotam inúmeras vezes. Daí o risco à sobrevivência do Cerrado constituído atualmente pela expansão agrícola. Porque, quando a pecuária foi instalada no Cerrado, houve desmatamento e mudança da paisagem, com o predomínio de fisionomias campestres, vegetação muito aberta e poucas árvores. Mas a estrutura subterrânea das plantas foi, em geral, preservada e, assim, não ocorreu perda total de biodiversidade. Com a agricultura é diferente. As estruturas subterrâneas são deliberadamente destruídas, porque é necessário eliminar toda a vegetação preexistente e sua capacidade de rebrota para tornar a área cultivável. Então, são utilizados equipamentos que cortam as raízes em profundidade e herbicidas poderosos que deixam o solo completamente limpo. Não sobra nada do Cerrado que existia antes”, explicou Durigan.

Além da perda de biodiversidade e da destruição de uma paisagem maravilhosa, a expansão agrícola, por um lado, e a incompreensão da necessidade do fogo, por outro, vêm acarretando mais uma consequência gravíssima para o Cerrado: o impacto sobre as águas. “O maior valor do Cerrado entre os biomas brasileiros, e seu maior valor comparativamente ao de outras savanas do mundo, é a produção de água. Alguns dos mais importantes rios do Brasil – o Xingu, o Tocantins, o Araguaia, o São Francisco, o Parnaíba, o Gurupi, o Jequitinhonha, o Paraná, o Paraguai, entre outros – nascem no Cerrado. Acabar com o Cerrado é comprometer a sobrevivência desses rios, não apenas como manancial de água doce, mas também potencial hidrelétrico. Vamos lembrar que 77,2% da matriz elétrica brasileira é suprida pela hidroeletricidade. O Brasil possui o terceiro maior potencial hidrelétrico tecnicamente aproveitável do mundo. E está colocando esse precioso recurso em risco”, alertou a pesquisadora.

O Cerrado é a única savana do mundo dotada de rios perenes. Nas savanas da África, da Ásia e da Oceania, os rios, em sua maioria, são sazonais: desaparecem na estação seca e causam enchentes calamitosas na estação chuvosa. Esse bioma, ainda predominante no Brasil Central, que se estende do Maranhão até o Paraguai, cobria originalmente mais de 2 milhões de quilômetros quadrados, cerca de 25% do território brasileiro. Suas paisagens agrestes, tantas vezes subestimadas no passado, e ainda hoje mal compreendidas, escondem uma biodiversidade fabulosa. “Somente agora, com o estudo de grande porte desenvolvido já há três anos na Estação Ecológica de Santa Bárbara, estamos conseguindo fazer o levantamento de todas as espécies, inclusive as do estrato herbáceo. Há trechos em que encontramos 35 espécies diferentes de plantas por metro quadrado. No conjunto da estação, já amostramos quase 500 espécies diferentes de plantas. E tem colegas estudando a fauna: cobras, lagartos, sapos, formigas etc.”, contabilizou Durigan.

Para avaliar a importância de 35 espécies diferentes de plantas por metro quadrado, basta considerar que essa biodiversidade é, na microescala, superior à da floresta tropical. “A floresta tropical possui uma incrível biodiversidade na macroescala, mas não é tão diversa na microescala. Na microescala, o Cerrado só perde em biodiversidade para os Pampas, que chegam a ter mais de 50 espécies por metro quadrado”, sublinhou a pesquisadora.

O projeto em andamento está fazendo o levantamento completo da biodiversidade em um gradiente que vai do campo aberto ao cerradão – formação caracterizada por uma vegetação muito adensada, com grande predomínio de árvores. E analisando também o efeito do fogo sobre essa biodiversidade.
“Temos registros do uso do fogo pelos indígenas desde há milhares de anos. Eles queimavam por diferentes motivos e, portanto, com diferentes frequências. Alguns para facilitar a caça, outros para aumentar a produtividade de espécies vegetais utilizadas como alimento. Precisamos conjugar essa sabedoria ancestral com o conhecimento científico de vanguarda. Nosso objetivo é fornecer subsídios para uma política responsável e consistente de uso do fogo”, finalizou Durigan.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Saúde florestal em pauta

Pesquisas avaliam o estado das florestas ao redor do mundo e apontam para um possível declínio desses ecossistemas. Entender a dinâmica de mudanças pelas quais as florestas passam atualmente é fundamental para elaborar planos de conservação. 
 
Por: Valentina Leite
Publicado em 20/08/2015 | Atualizado em 20/08/2015
Saúde florestal em pauta
O desmatamento é só um dos problemas que ameaçam as florestas em todo o planeta. A construção de estradas, sobretudo nas regiões tropicais, aumenta a fragmentação das florestas, deixando-as mais suscetíveis ao fogo e aos caçadores. (foto: David Edwards).
 
Fontes de alimentos, energia e praticamente todos os produtos de que fazemos uso, as florestas suprem os humanos em muitos sentidos. Elas ocupam cerca de 30% do planeta e, mesmo assim, abusamos de sua boa vontade, devastando sua saúde. Com essa preocupação, a revista Science publica, nesta quinta-feira (20/08), uma seleção especial de artigos sobre a saúde das florestas ao redor do mundo.
Convidado pela revista para analisar, em poucas páginas, o complexo problema do declínio das florestas causado pelas mudanças globais, o brasileiro Paulo Brando, engenheiro florestal do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), explicou à CH On-line que a saúde de uma floresta pode ser definida de várias formas. A primeira é a ausência de um patógeno específico que cause alguma doença, como pragas. Outra possibilidade é a análise da quantidade de biomassa presente no ambiente – se a fauna, por exemplo, está reduzida, a floresta pode ser considerada doente.

Brando assina, com colegas da Alemanha e dos Estados Unidos, um artigo de revisão sobre estudos acerca da saúde das florestas em diferentes regiões do planeta. Para medir o quanto as florestas mudaram nos últimos tempos, grupos de pesquisa do mundo todo usam critérios tão variados quanto a biodiversidade que observam. “Alguns pesquisadores viajam até o meio das matas simplesmente para saber se as árvores estão doentes”, exemplifica Brando.

Mudanças climáticas globais têm enorme influência sobre a saúde florestal: florestas mais quentes tendem a ficar mais doentes
 
As sempre comentadas mudanças climáticas globais têm enorme influência sobre a saúde florestal: florestas mais quentes tendem a ficar mais doentes. “Isso ocorre porque a quantidade de água fica reduzida, tornando os incêndios mais intensos”, explica o cientista. Se, por um lado, é possível observar tendências globais como esta, por outro, a avaliação da saúde das florestas no globo é um desafio sem tamanho. “Se uma árvore está doente, é fácil saber. Mas como saber se uma floresta inteira está? Qual é o número exato de árvores doentes para caracterizar uma floresta adoecida?”, questiona Brando.
Para o biólogo Jean Remy Guimarães, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro e colunista da CH On-line, o trabalho é um grande avanço nesse campo de pesquisa, pois aperfeiçoa estudos já feitos. “É essencial entender a situação atual das florestas para, então, tentar prever como vai ser o futuro delas”, diz. “E o futuro delas também é o nosso, não é?”

Futuro ainda incerto

Em quatro artigos de revisão, a Science desta semana dá pistas do quão devastados estão diferentes tipos de florestas, entre eles as boreais (que cobrem regiões mais frias), as temperadas (localizadas em lugares de clima ameno) e até as plantadas (ou seja, cultivadas pelo próprio homem). Um estudo que nos toca diretamente foi publicado por Simon Lewis, da Universidade de Leeds, na Inglaterra, e visa determinar o impacto dos humanos em florestas tropicais, em termos de estoques de carbono nas árvores, além de avaliar as consequências de eventos como queimadas e incêndios.
Florestas em risco
Compreender a saúde atual das florestas, inclusive a forma como elas se recuperam após queimadas e outros eventos, é fundamental para tentar prever como essas regiões estarão no futuro. (foto: Yan Boulnager)
Os resultados mostram que são muito poucas as florestas tropicais ainda intactas, isto é, que tenham escapado dos impactos da agricultura. “A maioria das florestas que se salvaram estão na Amazônia, com poucos remanescentes na África e na Ásia”, conta Lewis à CH On-line. Ainda assim, não temos motivo para comemorar. "As mudanças climáticas terão grandes impactos nas florestas tropicais. A quantidade de carbono que as florestas vão captar no futuro é incerta, assim como a resposta das florestas ao carbono extra também é incerta", completa o autor.

Uma preocupação dos especialistas é que, conforme o clima esquenta, as espécies precisam encontrar novos habitats para acompanhar o ambiente em mudança. Porém, o estado fragmentado das florestas tropicais pode não permitir esse movimento, levando à extinção de muitas espécies.
De uma maneira geral, ainda é difícil prever como estará a saúde das florestas em um futuro distante. “Isso depende de como será nossa postura daqui em diante: se iremos adotar novas medidas para reverter esse cenário ou continuar com os velhos hábitos”, destaca Brando. O engenheiro aponta que, atualmente, o mais importante é compreender o complexo processo que as florestas do planeta estão passando. Apenas estudando a fundo o estado de saúde de nossas árvores será possível salvá-las. “Criar políticas de proteção a essas queridas aliadas já seria um bom começo”, arrisca.

Valentina Leite
Instituto Ciência Hoje/ RJ

domingo, 29 de setembro de 2013

Ameaças à Amazônia vão muito além das queimadas

23/09/2013
Por Elton Alisson

Agência FAPESP – Há outros tipos de ameaças à conservação da Amazônia, além do desmatamento, que ocorrem em pequena escala e em áreas de várzea da região – como a extração inadequada de madeira e o manejo inapropriado de recursos pesqueiros –, que podem gerar transformações tão importantes na floresta nas próximas décadas quanto as queimadas.
Esses fenômenos, contudo, são menos perceptíveis e não são facilmente detectáveis na paisagem por imagens aéreas, como são as próprias queimadas, por acontecerem no interior da floresta e fora do chamado “Arco do desmatamento amazônico” (região de borda do bioma que corresponde ao sul e ao leste da Amazônia Legal e abrange todos os estados da região Norte, mais Mato Grosso e uma parte do Maranhão). Por isso, podem passar despercebidos e não merecer a mesma atenção recebida pelos desmatamentos pelos órgãos fiscalizadores.

O alerta foi feito por Hélder Queiroz, pesquisador do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), durante o sétimo encontro do Ciclo de Conferências 2013 do BIOTA-FAPESP Educação, realizado no dia 19 de setembro em São Paulo.
“A diminuição do desmatamento é, sem dúvida, muito importante para a conservação da Amazônia, mas ele não representa a única ameaça ao bioma”, afirmou Queiroz.
“Também há um grupo grande de ameaças, composto por transformações de habitat em pequena escala realizadas exatamente da mesma forma nos últimos 50 anos e de difícil detecção, mas que geram mudanças importantes na composição e na estrutura da floresta e cujos efeitos serão prolongados por muitas décadas”, estimou.

A extração inadequada de madeira da Floresta Amazônica, por exemplo, pode alterar o número de espécies de animais que vivem em uma determinada área da selva. Isso porque, de acordo com o pesquisador, algumas espécies de árvore cuja madeira tem grande valor comercial – e, por isso, são mais visadas – também podem ser importantes para alimentação da fauna.
A retirada dessas espécies de árvore de forma desordenada pode alterar a composição florística e, consequentemente, de espécies de animais de uma área da floresta, ressaltou Queiroz.
“A abertura de pequenas clareiras para remoção específica dessas espécies de madeira não é detectada pelas imagens de satélite porque, geralmente, elas têm poucos metros quadrados”, disse Queiroz.
“Ao final de três décadas, todas as espécies dessas árvores e, consequentemente, a fauna que dependia delas podem desaparecer da região”, alertou.

Pesca e caça inadequadas

Outra ameaça que está se tornando um problema na Amazônia, de acordo com o pesquisador, é a pesca desordenada da piracatinga (Calophysus macropterus) – espécie de peixe sem escama, apreciada para consumo, conhecida popularmente como “urubu d´água”, por ser carnívora e se alimentar de restos de peixe e outros animais.
Para a pesca do peixe na região amazônica está sendo utilizada como isca a carne de jacaré e de boto cor-de-rosa. Por causa disso, o número de botos cor-de-rosa – também conhecidos como botos-vermelhos (Inia geofrrensis) – diminuiu em diversas regiões da Amazônia, indicam dados de monitoramento da espécie na região da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) de Mamirauá fornecidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

“A carcaça de um jacaré ou de boto cor-de-rosa vale, no máximo, R$ 100,00 na região amazônica e gera aproximadamente entre 200 e 300 quilos dessa espécie de peixe”, disse Queiroz.
“Além de uma crise pesqueira, esse problema representa um sistema de valoração da biodiversidade que está profundamente desequilibrado”, avaliou.

Já em terra, segundo o pesquisador, a caça desordenada de determinadas espécies de animais tem resultado no surgimento do que alguns autores denominaram no início da década de 1990 de “florestas vazias” – áreas de floresta em pé, mas nas quais as principais espécies de animais responsáveis pela reprodução, polinização e dispersão de sementes desaparecem em razão da caça desenfreada.
“A expressão cunhada para esse fenômeno – ‘florestas vazias’ – é romântica, mas o problema é preocupante e os efeitos dele são só percebidos ao longo de décadas”, avaliou Queiroz. “Os aviões ou satélites utilizados para monitoramento também não conseguem identificar essas regiões de floresta cujas árvores estão em pé, mas nas quais as espécies de animais estão sendo intensamente caçadas”, afirmou.

Florestas alagadas

Em geral, a maior parte dessas ameaças “imperceptíveis” ocorre nas chamadas florestas alagadas ou de várzea – que representam quase um quarto de toda a extensão da Amazônia, ressaltou o pesquisador.
Submetidas ao regime de alagamento diário, sazonal ou imprevisível – de acordo com o regime de chuvas –, essas regiões de baixas altitudes são alagadas por águas brancas, de origem andina, escoadas, principalmente, pelos rios Solimões e Madeira.
Como são muito produtivos – por suas águas receberem grandes cargas de nutrientes e sedimentos –, os recursos naturais das florestas de várzea da Amazônia são abundantes. Por isso, são densamente ocupadas desde o período pré-colombiano.
“Praticamente 75% da população amazônica [cerca de 8 milhões de pessoas] está diretamente inserida nesses ambientes de várzea ou em suas proximidades, vivendo, trabalhando e transformando essas regiões”, disse Queiroz.
“Isso significa que esses ambientes são mais ameaçados do que os localizados no ‘arco do desmatamento’, porque recebem maior impacto diário das populações, ainda que não sejam detectados na paisagem, como o desmatamento”, comparou.
Justamente por terem grande densidade populacional, é difícil criar Áreas Prioritárias para Conservação (Arpa) nessas regiões de floresta alagada, contou Queiroz. “Existem poucas áreas protegidas e muitas propostas de criação de Arpas em florestas alagadas da Amazônia”, afirmou.
Algumas delas são as RDS de Mamirauá e Amanã, que, juntas, somam quase 3,5 milhões de hectares da Amazônia.
Criada no início dos anos de 1980 com intuito de proteger o macaco uacari-branco (Cacajao calvus), a Reserva de Mamirauá começou a ser gerida no final dos anos 1990 pelo Instituto Mamirauá, que tem o objetivo de realizar pesquisa de conservação da biodiversidade.
Os pesquisadores da instituição fazem pesquisas voltadas principalmente para o manejo sustentável dos recursos naturais. E, mais recentemente, começaram a desenvolver tecnologias sociais voltadas ao tratamento de água e ao saneamento ambiental, entre outras finalidades.
“Desde 2010 estamos expandindo nossas ações. Atualmente elas atingem 150 mil pessoas. Mas esperamos chegar, nos próximos anos, a 1,5 milhão de pessoas”, contou Queiroz.

Redução do desmatamento

O evento na FAPESP também contou com a participação de Maria Lucia Absy, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Em sua palestra, Absy destacou a queda das taxas anuais de desflorestamento da Amazônia Legal, que, no total, caíram 84% no período de 2004 a 2012, segundo dados do Projeto Prodes, do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama).

“As ações de fiscalização e redução dos índices de desmatamento da Amazônia contam com o suporte fundamental dessa ferramenta e do Deter [Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real, realizado pelo Inpe]”, ressaltou.

“Não é que seja errado desmatar uma área – desde que não seja grande – para fins produtivos. O errado é fazer isso aleatoriamente, sem metodologia e técnicas de manejo florestal”, avaliou Absy.
O próximo encontro do Ciclo de Conferências 2013 do Biota Educação será realizado no dia 24 de outubro, quando será abordado o tema “Ambientes marinhos e costeiros”.
Finalizando o ciclo, em 21 de novembro, o tema será “Biodiversidade em Ambientes Antrópicos – Urbanos e Rurais”.
Organizado pelo Programa de Pesquisa em Caracterização, Conservação, Recuperação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (BIOTA-FAPESP), o Ciclo de Conferências 2013 tem o objetivo de contribuir para o aperfeiçoamento do ensino de ciência.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Impacto das queimadas no efeito estufa

13/10/2011
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP – Um grupo de pesquisadores de diversas instituições brasileiras realizou, na última semana de setembro, uma queimada controlada para análise científica em quatro hectares de floresta na região de Rio Branco (Acre).

O estudo, que faz parte do Projeto Temático “Combustão da biomassa em florestas Tropicais”, financiado pela FAPESP, tem o objetivo de avaliar o impacto das queimadas na atmosfera, na regeneração da floresta e no solo da Amazônia.
O projeto é coordenado por João Andrade de Carvalho Junior, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Guaratinguetá (SP). O estudo foi feito em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Universidade Federal do Acre (Ufac), a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Washington, entre outras instituições.


Cientistas realizam queimada controlada em quatro hectares de floresta no Acre para estudar combustão da biomassa. Primeiros resultados mostram que 50% do material queimado é convertido em gases de efeito estufa. Estudo integra Projeto Temático da FAPESP (foto:Embrapa)

De acordo com Carvalho, as queimadas controladas têm sido realizadas pelo projeto no Acre e em Mato Grosso. Estudos sobre o tema têm sido financiados pela FAPESP desde 1993 em diversos projetos sucessivos. O atual Temático, iniciado em 2009, prevê a realização de três queimadas. A primeira havia sido realizada na região de Cruzeiro do Sul (Acre), em setembro de 2010. A terceira deverá ser realizada em 2013.
“Os dados da pesquisa permitirão quantificar os teores de carbono equivalente emitidos durante a queima, avaliar como os nutrientes do solo reagem às altas temperaturas, entender a dinâmica de regeneração natural da vegetação e medir os níveis de partículas no ar que podem causar danos ao sistema respiratório humano, entre vários outros aspectos”, disse Carvalho à Agência FAPESP.
O controle da queimada realizada pelos cientistas é rigoroso, segundo Carvalho. A pesquisa conta com a autorização da Justiça Federal e Estadual e dos Ministérios Públicos Federal e Estadual e as ações obedecem a exigências legais estabelecidas pelos órgãos de controle ambiental. O corte da vegetação foi autorizada pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) e pela Secretaria de Meio Ambiente do estado.
Os resultados do projeto indicam até agora que a eficiência de combustão é de 50% na área onde foi realizada a queimada. Isto é, metade do estoque de carbono armazenado em um hectare de floresta se transforma, com a queimada, em gases de efeito estufa. Na queimada anterior, realizada também quatro hectares, mas em Cruzeiro do Sul, foram emitidas cerca de 305 toneladas de gás carbônico.
“Constatamos que aproximadamente metade do material que é queimado se transforma em gases de efeito estufa como CO2 e metano. Antes de realizar a queimada, fazemos uma caracterização de toda a biomassa do local. O sítio de Cruzeiro do Sul tinha 582 árvores acima de 10 centímetros de diâmetro”, disse Carvalho.
Uma das árvores tinha entre 95 e 100 centímetros e uma delas tinha mais de um metro de diâmetro. Só essa árvore maior tinha de 8 a 9% do total da biomassa dos quatro hectares. Verificamos que o metano corresponde a cerca de 13% do total das emissões”, disse.
Se o dado obtido em Cruzeiro do Sul pudesse ser extrapolado para toda a floresta amazônica, os níveis atuais de desmatamento, da ordem de 7 mil quilômetros quadrados anuais, provocariam uma emissão de CO2 equivalente comparável às emissões de cerca de 50 milhões de automóveis.
“Felizmente, o desmatamento caiu muito, mas já tivemos anos em que a devastação chegou a atingir 27,5 mil quilômetros quadrados. Se os dados fossem extrapolados para toda a Amazônia em um ano com desmatamento dessa magnitude, a emissão de CO2 seria comparável à poluição produzida por quase 200 milhões de automóveis”, afirmou.
O estudo é realizado em diversas fases e inclui uma série de avaliações antes, durante e depois da queima. Em Rio Branco, diversos equipamentos instalados em uma torre de 15 metros de altura, na área de pesquisa, ajudam na coleta de informações.
Dois meses antes da queima, foi realizado o inventário florestal, para identificação e medicão das árvores e a coleta de amostras de solos. A etapa seguinte foi o corte da floresta.
Os resultados das análises serão comparados e servirão para aferir a quantidade de carbono, nutrientes e microorganismos permanecem no solo após a queima. Além disso, será avaliado o que ocorre com a qualidade do ar.

Dados para o IPCC

Os resultados do Projeto Temático terão grande importância para a elaboração e estruturação de políticas públicas voltadas para o tema, de acordo com Carvalho. Segundo ele, os dados já levantados em outras etapas já são aproveitados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para calcular as emissões de gases de efeito estufa de queimadas na Amazônia.
“As queimadas controladas têm resultados diferentes em cada região. Em Cruzeiro do Sul, por exemplo, a densidade da floresta é maior. Unindo aqueles dados aos de Rio Branco, poderemos refinar os índices e definir uma média que possibilite calcular as emissões de todo o estado. Considerar as características locais é importante para reduzir as incertezas relacionadas às emissões provenientes das diferentes regiões da Amazônia e traçar políticas públicas”, disse.
Carvalho afirma que o experimento inclui medições de emissões de dióxido de carbono e de metano. “O principal gás de efeito estufa é o dióxido de carbono. Mas o metano é importante porque, embora seja emitido em menor quantidade, tem um poder de aquecimento 21 vezes maior que o CO2”, explicou.
Os pesquisadores também medem a concentração de partículas, em especial as mais finas, que têm mais impactos negativos sobre a saúde humana.

“Também estudamos a regeneração da floresta. Utilizamos um sítio de queimada controlada em Alta Floresta desde 1997, o que permite estudar como a biomassa se recupera. Estamos começando a fazer isso no Acre também”, explicou.
Segundo Carvalho, a biomassa de maior porte, como grandes troncos, queima de duas formas diferentes: o estágio de chama e o estágio de incandescência. A combustão no estágio de incandescência é muito mais lenta, mas também emite gases. “Procuramos medir a diferença de concentração das emissões nos dois tipos de queima”, afirmou.
Os cientistas também estudam a propagação de incêndio rasteiro. Dependendo do grau em que a floresta é recortada, as bordas podem ser mais secas, permitindo que qualquer chama pequena se propague rapidamente para dentro da floresta.
“Outro aspecto que procuramos estudar é a transformação de carvão em emissões. Conforme a madeira queima, parte do carvão gerado fica no chão e não colabora com o efeito estufa, podendo até ajudar a acelerar a regeneração da floresta”, disse.
A equipe, segundo Carvalho – que é engenheiro aeronáutico –, conta com engenheiros químicos, engenheiros mecânicos, biólogos, engenheiros florestais e um médico. “Algumas frentes do projeto estão se dedicando a estudar os impactos da queimada na saúde humana e suas consequências sobre as diversas espécies, como anfíbios e insetos”, disse.
“Todos os cuidados são tomados. Em primeiro lugar é construído um acero: um caminho que deixa um espaço de cerca de 25 metros em relação ao resto da mata, a fim de evitar a propagação do fogo. Além disso, a operação requer a presença de um carro tanque e de uma guarnição do corpo de bombeiro, que acompanha todo o processo”, explicou.