Desmatamento na Amazônia está prestes a atingir limite irreversível
21 de fevereiro de 2018
Elton Alisson | Agência FAPESP – O desmatamento
da Amazônia está prestes a atingir um determinado limite a partir do
qual regiões da floresta tropical podem passar por mudanças
irreversíveis, em que suas paisagens podem se tornar semelhantes às de
cerrado, mas degradadas, com vegetação rala e esparsa e baixa
biodiversidade.
Com mudanças climáticas e uso
indiscriminado do fogo, se o nível de desflorestamento atingir entre 20%
e 25% o ciclo hidrológico do bioma pode ser severamente degradado,
alertam cientistas (foto: Inpe)
O alerta foi feito em um editorial publicado nesta quarta-feira (21/02) na revista Science Advances.
O artigo é assinado por Thomas Lovejoy, professor da George Mason
University, nos Estados Unidos, e Carlos Nobre, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas
– um dos INCTs apoiados pela FAPESP no Estado de São Paulo em parceria
com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq) – e pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe).
“O sistema amazônico está prestes a atingir um ponto de inflexão”, disse Lovejoy à Agência FAPESP. De acordo com os autores, desde a década de 1970, quando estudos realizados pelo professor Eneas Salati
demonstraram que a Amazônia gera aproximadamente metade de suas
próprias chuvas, levantou-se a questão de qual seria o nível de
desmatamento a partir do qual o ciclo hidrológico amazônico se
degradaria ao ponto de não poder apoiar mais a existência dos
ecossistemas da floresta tropical.
Os primeiros modelos elaborados para responder a essa questão
mostraram que esse ponto de inflexão seria atingido se o desmatamento da
floresta amazônica atingisse 40%. Nesse cenário, as regiões Central,
Sul e Leste da Amazônia passariam a registrar menos chuvas e ter estação
seca mais longa.
Além disso, a vegetação das regiões Sul e Leste
poderiam se tornar semelhantes à de savanas.
Nas últimas décadas, outros fatores além do desmatamento começaram a
impactar o ciclo hidrológico amazônico, como as mudanças climáticas e o
uso indiscriminado do fogo por agropecuaristas durante períodos secos –
com o objetivo de eliminar árvores derrubadas e limpar áreas para
transformá-las em lavouras ou pastagens.
A combinação desses três fatores indica que o novo ponto de inflexão a
partir do qual ecossistemas na Amazônia oriental, Sul e Central podem
deixar de ser floresta seria atingido se o desmatamento alcançar entre
20% e 25% da floresta original, ressaltam os pesquisadores.
O cálculo é derivado de um estudo realizado por Nobre e outros
pesquisadores do Inpe, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de
Desastres Naturais (Cemaden) e da Universidade de Brasília (UnB),
publicado em 2016 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
“Apesar de não sabermos o ponto de inflexão exato, estimamos que a
Amazônia está muito próxima de atingir esse limite irreversível. A
Amazônia já tem 20% de área desmatada, equivalente a 1 milhão de
quilômetros quadrados, ainda que 15% dessa área [150 mil km2] esteja em recuperação”, ressaltou Nobre.
Margem de segurança
Segundo os pesquisadores, as megassecas registradas na Amazônia em
2005, 2010 e entre 2015 e 2016, podem ser os primeiros indícios de que
esse ponto de inflexão está próximo de ser atingido.
Esses eventos, juntamente com as inundações severas na região em
2009, 2012 e 2014, sugerem que todo o sistema amazônico está oscilando.
“A ação humana potencializa essas perturbações que temos observados no
ciclo hidrológico da Amazônia”, disse Nobre.
“Se não tivesse atividade humana na Amazônia, uma megasseca causaria a
perda de um determinado número de árvores, que voltariam a crescer em
um ano que chove muito e, dessa forma, a floresta atingiria o
equilíbrio. Mas quando se tem uma megasseca combinada com o uso
generalizado do fogo, a capacidade de regeneração da floresta diminui”,
explicou o pesquisador.
A fim de evitar que a Amazônia atinja um limite irreversível, os
pesquisadores sugerem a necessidade de não apenar controlar o
desmatamento da região, mas também construir uma margem de segurança ao
reduzir a área desmatada para menos de 20%.
Para isso, na avaliação de Nobre, será preciso zerar o desmatamento
na Amazônia e o Brasil cumprir o compromisso assumido no Acordo
Climático de Paris, em 2015, de reflorestar 12 milhões de hectares de
áreas desmatadas no país, das quais 50 mil km2 são da Amazônia.
“Se for zerado o desmatamento na Amazônia e o Brasil cumprir seu
compromisso de reflorestamento, em 2030 as áreas totalmente desmatadas
na Amazônia estariam em torno de 16% a 17%”, calculou Nobre.
“Dessa forma, estaríamos no limite, mas ainda seguro, para que o
desmatamento, por si só, não faça com que o bioma atinja um ponto
irreversível”, disse
O editorial Amazon tipping point (doi: 10.1126/sciadv.aat2340), assinado por Thomas Lovejoy e Carlos Nobre, pode ser lido na revista Science Advances em http://advances.sciencemag.org/content/4/2/eaat2340.
O artigo Land-use and climate change risks in the Amazon and the need of a novel sustainable development paradigm
(doi: 10.1073/pnas.1605516113), de Carlos Nobre, Gilvan Sampaio, Laura
Borma, Juan Carlos Castilla-Rubio, José Silva e Manoel Cardoso, pode ser
lido na revista PNAS em http://www.pnas.org/content/113/39/10759.
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Amazônia redescoberta
A geóloga Dilce de Fátima Rossetti,
pesquisadora do Inpe, afirma que terremotos, e não fatores climáticos,
modificaram a geografia, a fauna e a flora amazônica
As conclusões de Dilce são fundamentadas em pesquisas feitas há mais de 25 anos
para o Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Foto: Fabio Rubinato/AGF (Agenzia Giornalistica Fotografica BR)
Desde 1950,
pesquisadores já desconfiavam que as transformações da fauna e da flora
da Amazônia não foram provocadas apenas por mudanças climáticas, mas por
mudanças ambientais causadas por terremotos. Só não tinham como provar.
A geóloga Dilce de Fátima Rossetti, pesquisadora do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (INPE), tem despendido esforços, nos últimos 25
anos, para reunir essas provas. Os resultados coletados em várias
regiões investigadas confirmam as teses dos pioneiros. À frente de uma
equipe que reúne geólogos, paleontólogos e botânicos do Brasil e do
exterior, Dilce já esquadrinhou regiões amazônicas que, em virtude de
movimentos tectônicos, perderam floresta densa e ganharam áreas abertas
de savanas e campinaras, até recentemente explicadas somente como
herança de fases climáticas áridas do passado geológico. De acordo com
as investigações, terremotos também podem ter tido grande contribuição
na mudança do curso de rios importantes, como Madeira, Negro e Branco, e
seus afluentes.
De São José dos Campos (interior de São Paulo), onde
mora quando não está na Amazônia, Dilce, que tem um currículo
respeitável – mestrado em Geologia e Geoquímica pela Universidade
Federal do Pará (1990) e Phylosophy Doctor pela University of Colorado
at Boulder (1996), pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, entre
1988 e 2004, e atualmente pesquisadora titular do INPE – falou à Brasileiros sobre essas e outras descobertas que têm sido tema de intensos debates da comunidade científica internacional.
Brasileiros – A Amazônia é uma região sujeita a
terremotos? E o que eles têm a ver com transformações no ambiente, na
fauna e na flora?Dilce Rossetti – Essa é uma
teoria que a gente vem defendendo há bastante tempo. Desde que comecei a
trabalhar na Amazônia, fui observando evidências na paisagem e no
desenvolvimento das bacias de drenagem que sugeriam efeito tectônico.
Com o uso de imagens de satélite ou radar, conseguimos perceber feições
no terreno e interpretar que elas têm relação com eventos de tectonismo.
Não fui a primeira a sugerir isso. Desde 1950 pesquisadores já
defendiam essa teoria, ou seja, a importância das movimentações
tectônicas na Amazônia, mas havia ceticismo devido à falta de estudos
sistemáticos que demonstrassem isso melhor. Com o passar dos anos, fomos
levantando informações que mostram o terreno amazônico com muitas
evidências de estruturas tectônicas, como falhas. Os rios amazônicos têm
seu curso controlado por essas falhas. Hoje, temos registros que
confirmam a importância dos eventos tectônicos na Amazônia. Essas
ocorrências não estão muito distantes no tempo geológico, sendo
registradas até mesmo há poucos milhares de anos e, provavelmente,
continuam acontecendo até hoje. A Amazônia tem várias áreas de terremoto
registradas pelos sismógrafos, embora, em geral, com epicentros
localizados a certa profundidade. Quando o epicentro se aproxima da
superfície, dá-se um abalo maior. Eventos como esses produziram
terremotos de até 5,5 graus na Amazônia Central, em 1963 e em 1983.
Esses abalos resultam da reativação dessas estruturas tectônicas
desenvolvidas há muito tempo e que, de tempos em tempos, se movimentam.
Estamos analisando esses eventos para ver se estão relacionados com a
movimentação das placas tectônicas ou com fases de soerguimento dos
Andes. Os resultados têm uma implicação grande no projeto que
desenvolvemos porque essas variações do ambiente, causadas pelas
reativações tectônicas, podem também provocar mudanças na estrutura da
vegetação. E quando muda a vegetação também há alteração na fauna, uma
vez que ela subsiste em função da vegetação.
Como isso acontece?Se
uma área de floresta afunda por causa de um movimento tectônico,
cria-se uma depressão, uma bacia, que pode acumular água, virar um lago.
Com isso, a floresta e sua fauna associada que ocorria em terra firme
vai se modificar. É assim que o movimento tectônico muda o ambiente, a
vegetação e a fauna. Convencionou-se que as mudanças de floresta para
savana são relacionadas com o clima. Quando o clima no planeta era mais
árido, a Amazônia teria respondido com a destruição ou contração da
floresta e a implantação de savana. Isso porque durante períodos de
clima frio no globo, as áreas tropicais como a Amazônia teriam
respondido ao aumento de aridez com desenvolvimento de savana do tipo
que ocorre na África hoje. Sempre foi interpretado dessa maneira, ou
seja, que toda mudança de vegetação na Amazônia ocorrida no passado tem
relação com variações climáticas. E hoje o que quero demonstrar é que
períodos geológicos com desenvolvimento de savana podem não ter relação
com paleoclimas áridos. Então, estamos definindo quando ocorreram esses
momentos em que a Amazônia apresentou vegetação mais aberta no passado
geológico para ver se eles coincidem com os períodos de glaciações, por
exemplo, quando houve a expansão de geleiras. O auge da grande glaciação
ocorreu entre 23 mil e 18 mil anos atrás. Foi o último momento em que o
planeta esteve mais frio e parte do hemisfério norte e sul ficou
congelada.
A Amazônia também?
Não, mas em função do esfriamento global
mudaram os padrões de circulação das águas, dos oceanos, dos ventos, da
umidade no planeta. Por isso acredita-se que a Amazônia tenha ficado
mais seca durante a última glaciação. Então, a floresta teria se
contraído e a savana se expandido. Só que a Amazônia hoje não tem só
floresta, tem grandes áreas de vegetação aberta do tipo savana ou
campinara, mesmo considerando sua condição de clima equatorial quente e
úmido. Vegetações desse tipo ocorrem por mais de 100 km de extensão.
Então, temos áreas de savana convivendo com floresta em ambiente úmido e
quente. Por que a gente não podia ter isso também no passado? Quando
essas áreas se formaram? Já sabemos que em algumas áreas essas savanas
existem há seis mil anos, em outras, três mil anos, e nesse período não
houve glaciação. Pelo contrário, foi um período que registrou aumento de
umidade crescente no mundo inteiro. Então, essas savanas se
estabeleceram na Amazônia em um momento de umidade, não de ressecamento,
e estão em áreas tectonicamente instáveis. A tectônica causou mudanças
no ambiente, deixando morfologias abandonadas na paisagem que foram
colonizadas por essas vegetações específicas. Isso tem um impacto
importante porque as mudanças de vegetação do passado da Amazônia são
feitas com base em hipóteses climáticas, quando na realidade outros
fatores devem também ser considerados. Para prever como o clima pode
mudar daqui para frente, é preciso saber como ele se comportou no
passado geológico, entender o comportamento do clima antes do homem na
Terra, depois entender a influência do homem como agente modificador do
clima global – é preciso voltar ao passado e fazer essas reconstituições
em uma escala de tempo de milhares de anos para cá. Se utilizarmos
variações de vegetação como evidência exclusiva de flutuações
climáticas, poderemos não obter a resposta mais precisa, a natureza pode
ser mais complexa do que imaginamos. Precisamos levar em consideração
fatores para decifrá-la e coletar uma base de dados mais detalhada para
fornecer interpretações conclusivas. A distribuição atual da Floresta
Amazônica, sua competição com áreas que não são de floresta indicam uma
dinâmica que estamos tentando entender e verificar se tem relação com
fatores geológicos e geomorfológicos. Em algumas áreas, já obtivemos
dados bem conclusivos para explicar porque a savana está lá, qual o
parâmetro ambiental que influenciou seu desenvolvimento, quando houve
seu estabelecimento e se ela tem relação com fatores climáticos ou
tectônicos.
Em que regiões a senhora obteve resultados conclusivos?
Já
desenvolvemos alguns projetos no norte de Rondônia, entre Porto Velho e
Humaitá, no sul do Amazonas. Essa é uma região boa porque tem áreas
extensas de savanas que eram interpretadas como resquícios do clima
árido passado. Chegamos à conclusão de que lá houve drenagens
abandonadas em função de uma atividade tectônica, com rios que corriam
numa direção e passaram a correr na direção contrária devido ao
basculamento de terrenos que foram falhados.
Qual rio, por exemplo?
O rio Madeira. Ele tinha um curso diferente do de hoje. Vários trechos desse riocorriam
a 30 km de onde ele corre hoje. Na nossa interpretação, essa
movimentação ocorreu devido à influência de falhas. No canal anterior do
Madeira passou a não correr mais água e ele foi abandonado. Quando o
rio é abandonado, com o tempo ele vai sendo preenchido por sedimentos. O
canal vira um terreno de terra firme e esse terreno é diferenciado
porque a vegetação que se desenvolve sobre ele é diferente da vegetação
atual. Então, o ambiente aquoso vira substrato para o desenvolvimento de
vegetação e de solo. Esses terrenos sustentam espécies diferentes, às
vezes só tem gramíneas e só posteriormente ocorre a colonização por lá.
E qual é a outra região?
Outra
região que estamos investigando é um depósito de areia de mais de 50 km
de extensão, protegido, em grande parte, pelo Parque Nacional do Viruá,
em Roraima, próximo à capital Boa Vista. É uma área completamente
diferente de todo o resto da Amazônia, inclusive com fauna e flora
diferenciadas. Em fevereiro deste ano, trabalhei na região em conjunto
com o botânico Rogério Gribel, atual diretor do Jardim Botânico do Rio
de Janeiro. Ele ficou impressionado com as espécies que encontrou.
Começamos a verificar que, no passado, aquele ambiente era diferente do
de hoje, com rios que divergiam em vez de convergirem como ocorre nos
sistemas fluviais. Esses rios divergentes ou distributários acabaram
formando depósitos de areia em forma de leque, que serviram de substrato
para o estabelecimento de um mosaico de vegetação dominado por vários
tipos de campinaras. A área de confluência do Rio Negro com o Branco
apresenta a maior concentração de campinaras da Amazônia.
E o Rio Amazonas?
Uma
linha de pensamento sustenta que a formação da Bacia Amazônica teria
ocorrido entre 14 milhões e 10 milhões de anos atrás. Antes disso, o rio
corria para o oeste por meio de canais que atravessavam os Andes.
Depois houve a chamada inversão do Amazonas, o rio passou a correr para
leste, saindo para o Atlântico e não mais para o Pacífico. Outra linha
de pensamento afirma que essa inversão ocorreu mais recentemente, há
apenas alguns milhares de anos. A linha que sustenta a idade mais antiga
se baseia em coletas feitas em mar aberto em frente à foz do Amazonas.
Esses estudos tentam decifrar quando houve entrada desses sedimentos
derivados dos Andes. Os pesquisadores que defendem que o Rio Amazonas é
mais jovem estão coletando dados de proveniência de sedimentos a partir
de amostras derivadas da própria região amazônica. Com base nesses dados
tem sido sugerido que a mudança de fonte para a andina aconteceu mais
recentemente. Mas ainda é um tema muito debatido em fóruns mundiais.
A mudança de curso do Rio Amazonas deve-se a terremotos?
O mais provável é que esteja associado
com eventos de tectonismo durante fases de soerguimento dos Andes. Há
estudos mostrando que os Andes apresentaram fases importantes de
soerguimento, que são potencialmente equivalentes às idades propostas
para a inversão do Amazonas. O mais importante a frisar é que esse é um
debate ainda aberto, até que dados mais concretos possam ser
apresentados.
Como é feita a pesquisa?
Em
geral, analisamos afloramentos, que são exposições naturais das rochas
encontradas em falésias, costeiras, barrancos de rios, cortes de
estrada. Quando não ocorrem exposições naturais nem artificiais, como
minas a céu aberto, fazemos furos de sondagem. Na ilha do Marajó,
fizemos furos de até 124 m. As idades variaram. Por exemplo: tivemos
idades de 20 mil anos a 2 m de profundidade. Ficou provado, por estudos,
que isso ocorre em função das falhas tectônicas.
Qual o registro mais antigo que a senhora encontrou na Amazônia?Depende do local. Em vários, conseguimos chegar a 120 milhões de anos.
Plantio de eucalipto aumenta chuva em regiões altas das Serras do Mar e Mantiqueira
07 de abril de 2015
Elton Alisson | Agência FAPESP – A
substituição da vegetação natural das encostas das Serras do Mar e da
Mantiqueira pelo plantio de eucalipto aumenta o volume de chuva sobre as
áreas mais altas e, consequentemente, os riscos de deslizamentos de
terra nessas regiões serranas durante a estação chuvosa – entre dezembro
e fevereiro.
Substituição da vegetação natural das encostas aumenta volume de
precipitações no topo de montanhas, culminando em riscos de
deslizamentos de terra, aponta estudo do Inpe.
“Observamos que a mudança da vegetação natural por eucalipto nas
encostas das Serras do Mar e da Mantiqueira altera as trocas de energia
entre a superfície e a atmosfera, modificando o padrão de circulação de
vento que ocorre entre o vale e a montanha e, em razão disto, o
transporte de calor e umidade para o topo das serras”, disse Regina
Alvalá, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de
Desastres Naturais (Cemaden) e orientadora do estudo, à Agência FAPESP.
“O aumento da convergência de umidade sobre os topos das montanhas
facilita a formação e alimentação de nuvens, nevoeiros e tempestades”,
explicou.
De acordo com dados do Anuário Estatístico da Associação Brasileira
dos Produtores de Florestas Plantadas, há mais de 6 milhões de hectares
de florestas de eucalipto dos gêneros Pinnus e Eucalyptus no Brasil, em regiões com diferentes topografias e padrões de chuva.
Em São Paulo, as plantações de eucalipto estão concentradas em
cidades situadas próximas das Serras do Mar e da Mantiqueira, à exceção
de Ribeirão Preto.
Com o aumento da demanda por celulose e madeira, as plantações de
eucalipto têm sido expandidas para encostas íngremes em municípios
próximos a essas duas regiões serranas do estado.
Em razão dessa e de outras mudanças no uso e cobertura da terra –
como a conversão para área de pastagem –, que têm ocorrido nas últimas
décadas nas encostas das Serras do Mar e da Mantiqueira, está aumentando
o volume de chuvas sobre as áreas mais altas dessas regiões serranas, o
que pode resultar em riscos de deslizamentos, apontam os autores do
estudo.
“Como o eucalipto é uma vegetação de porte alto, absorve muita
radiação e, com isso, altera os balanços de energia e de água entre a
superfície e a atmosfera. Isso acaba culminando em um aumento do volume
de chuvas”, disse Alvalá.
Os pesquisadores analisaram séries históricas de dados de chuvas,
referentes ao período de 1961 a 1990, de 25 estações meteorológicas
distribuídas por municípios localizados próximos das Serras do Mar e da
Mantiqueira.
“Observamos que, embora as alterações mais significativas no volume
de chuvas tenham ocorrido sobre as áreas mais elevadas das Serras do Mar
e da Mantiqueira, também houve um aumento do número de episódios de
chuvas em algumas áreas na região do Vale do Paraíba”, afirmou Alvalá.
Projeções
A fim de avaliar os impactos da conversão de áreas de floresta para
plantio de eucalipto ou para pastagem no regime de chuva das Serras do
Mar e da Mantiqueira, os pesquisadores fizeram projeções usando o modelo
climático regional ETA-CPTEC, com resolução espacial de 10 quilômetros,
desenvolvido pelo Inpe.
As projeções indicaram que tanto a troca da vegetação natural por
plantio de eucalipto como para área de pastagem levam ao aumento no
volume diário de chuvas durante o verão, principalmente sobre as áreas
mais elevadas das regiões serranas.
“A análise dos dados observacionais do período entre 1941 e 2012 e as
simulações com o modelo meteorológico ETA para o período entre 1981 e
1990 indicam que as mudanças no uso e cobertura da terra observadas nas
Serras do Mar e da Mantiqueira causaram o aumento no volume de chuvas em
algumas áreas dessas regiões serranas”, avaliou Alvalá.
“Esse tipo de diagnóstico da evolução da mudança de uso da terra e
suas implicações climáticas são essenciais para orientar tomadores de
decisão de órgãos governamentais e da Defesa Civil na identificação de
áreas de risco”, afirmou.
Em outro estudo, publicado no International Journal of Geo-Information,
os pesquisadores avaliaram a suscetibilidade ao deslizamento de terra
em áreas ocupadas por plantações de eucalipto em diferentes fases de
desenvolvimento, ou convertidas em áreas de pastagem, em 16 municípios
próximos das Serras do Mar e da Mantiqueira.
Os resultados do estudo indicaram que as áreas convertidas para
pastagem apresentam os maiores níveis de suscetibilidade, seguidas pelas
que receberam novas plantações de eucalipto e as ocupadas por moradias.
“Há uma preocupação sobre a área crescente de plantações de eucalipto
em encostas íngremes no Estado de São Paulo uma vez que não há estudos
específicos sobre o impacto do reflorestamento em processos de movimento
de massa”, ressaltam os autores do estudo.
De acordo com os pesquisadores, o eucalipto tem diferentes fases de
desenvolvimento, que podem contribuir em maior ou menor escala para a
ocorrência de deslizamentos de terra.
No estágio inicial de desenvolvimento – que dura entre dois e três
anos –, as árvores de eucalipto possuem uma grande quantidade de folhas,
que bloqueiam a exposição do solo à luz solar, tornando-o mais úmido e
vulnerável a deslizamentos.
Já na fase adulta, diminui a quantidade de folhas das árvores de
eucalipto, permitindo que a luz solar atinja e reduza a vulnerabilidade
do solo.
Durante a fase da colheita do eucalipto, contudo, o solo fica
completamente exposto à chuva e aumenta sua taxa de erosão, o que pode
deflagrar deslizamentos de terra, apontam os autores do estudo.
“A taxa de erosão de uma área de colheita de eucalipto pode ser até
quatro vezes maior do que a de uma região com vegetação preservada”,
destacam.
sexta-feira, 27 de março de 2015
Inpe desenvolve metodologia para mapear risco de deslizamento de terra
27 de março de 2015
Elton Alisson | Agência FAPESP –
Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)
desenvolveram uma metodologia para mapear áreas suscetíveis a
deslizamentos de terra em municípios brasileiros a partir de dados e
softwares de domínio público.
Desenvolvida no âmbito do Projeto Temático “Assessment of impacts and vulnerability to climate change in Brazil and strategies for adaptation option”, realizado com apoio da FAPESP, a metodologia foi descrita em um artigo publicado na revista Natural Hazards and Earth System Sciences.
“A ideia de usar dados e softwares livres foi para possibilitar que a
metodologia possa ser utilizada de forma prática e confiável por
gestores públicos de municípios brasileiros que ainda não possuem
mapeamentos de áreas suscetíveis a deslizamentos de terra e que muitas
vezes sofrem com esse tipo de problema”, disse Pedro Ivo Camarinha,
doutorando no Inpe e um dos autores da metodologia, à Agência FAPESP.
A metodologia utiliza um sistema de processamento de informações georreferenciadas chamado Spring,
desenvolvido pelo Inpe e disponibilizado gratuitamente na internet,
além de um banco de dados geomorfométricos do Brasil, denominado Topodata, também criado pelo Inpe a partir de dados da missão Shuttle Radar Topography Mission (SRTM).
Realizada em fevereiro de 2000 pelo ônibus espacial Endeavour, da
agência espacial americana (Nasa), a SRTM teve o objetivo de obter a
mais completa base de dados topográficos digitais e de alta resolução da
Terra por meio de um sistema de radar.
“O Topodata conseguiu melhorar a resolução dos dados de topografia
fornecidos pela SRTM – que era de 90 metros – para toda a América do Sul
e, especialmente para o Brasil, oferecendo ao usuário uma série de
dados topográficos com resolução espacial de 30 metros”, disse
Camarinha.
“Isso colabora para elaboração de mapas de suscetibilidade a
deslizamentos de terra de municípios brasileiros com resolução
aceitável”, avaliou.
Serra do Mar
A fim de avaliar sua confiabilidade, a metodologia foi usada
inicialmente para estimar a suscetibilidade e riscos de deslizamento de
terra nos municípios de Caraguatatuba, Ubatuba, Santos e Cubatão,
situados na região da Serra do Mar, no litoral paulista.
De importância estratégica para a economia do estado e do país em
razão de concentrar portos, estradas, oleodutos e gaseodutos, além de
serem centros turísticos, os quatro municípios registram frequentemente
desastres naturais envolvendo deslizamentos de terra devido, entre
outros fatores, às características geofísicas e ao crescimento
populacional desordenado, que levou à ocupação de áreas próximas a
encostas e morros.
Por essas razões, essas quatro cidades têm sido consideradas
prioritárias nos mapeamentos de áreas de risco de deslizamentos feitos
pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) – o órgão oficial de
assessoramento dos municípios e da Defesa Civil na gestão de riscos de
desastres naturais.
“Os municípios de Caraguatatuba, Ubatuba, Santos e Cubatão já contam
com um mapeamento de áreas suscetíveis a deslizamentos de terra,
elaborado pelo CPRM, devido a seus históricos de desastres naturais
relacionados a esse tipo de processo geológico”, disse Camarinha.
Ao comparar o levantamento de suscetibilidade a deslizamento de terra
feito com a metodologia desenvolvida pelo Inpe com o levantamento de
áreas de risco de deslizamento realizado pelo CPRM nesses quatro
municípios, os pesquisadores constataram que a metodologia é bastante
eficiente.
Além de áreas de risco de deslizamentos de terra já identificadas
pelo CPRM em campo, a metodologia indicou que há regiões com
suscetibilidade alta e muito alta nos quatro municípios situadas, em sua
maioria, em áreas de expansão urbana.
“A metodologia que desenvolvemos foi capaz de identificar com
considerável precisão onde estão localizadas as áreas de risco de
deslizamento de terra nos quatro municípios analisados”, afirmou
Camarinha.
“Ela pode ser usada tanto em cidades que já possuem mapeamento de
suscetibilidade a deslizamento de terra para reforçar e nortear as
análises feitas in loco pelo CPRM, como também por municípios que ainda não têm esse tipo de levantamento”, afirmou. Levantamento nacional
De acordo com a The International Emergency Disasters Database
(EM-DAT) – uma base de dados de desastres ocorridos em todo o mundo
desde 1900 –, no período de 1900 a 2013 foram registrados 150 grandes
desastres naturais no Brasil, que afetaram 71 milhões de pessoas,
causaram mais de 10 mil mortes e perdas estimadas em US$ 16 bilhões.
Devido ao aumento da frequência e intensidade de desastres naturais
relacionados a deslizamentos de terra nas cidades brasileiras nas
últimas duas décadas – especialmente nas regiões Sudeste e Sul do país
–, o CPRM começou a realizar a partir de 2013, por solicitação do
governo federal, um mapeamento de suscetibilidade, perigo e risco em 821
municípios considerados prioritários por registrarem o maior número de
ocorrências.
O trabalho vem avançando nos últimos anos, mas ainda há uma série de
municípios prioritários que ainda não possuem esse tipo de mapeamento,
apontou Camarinha.
“Além desses municípios considerados prioritários, há uma série de
outros onde também ocorrem deslizamentos de terra, mas com menor
frequência e intensidade”, afirmou.
“Para esses casos, a metodologia que desenvolvemos pode auxiliar a
Defesa Civil e secretarias municipais que tratam de riscos de desastres
naturais a fazer um planejamento urbano melhor, como também identificar
áreas de risco a deslizamentos de terra”, avaliou
Além de Caraguatatuba, Ubatuba, Santos e Cubatão, após ser validada, a
metodologia também foi usada para avaliar a suscetibilidade a
deslizamento de terra em cerca de outros 60 municípios paulistas,
situados na Baixada Santista, Litoral Norte, região metropolitana de
Campinas, Serra da Mantiqueira e no Vale do Paraíba.
Os pesquisadores também estão avaliando a possibilidade de adaptar a
metodologia para analisar áreas de risco suscetíveis à inundação, que
representa o tipo de desastre natural mais frequente (58% do total) e
que causa maior número de óbitos no Brasil, seguido por deslizamentos de
terra (15,6%), segundo o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais,
elaborado pelo Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre
Desastres (Ceped) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Agência FAPESP – Dados parciais do projeto Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, referentes ao período 2008-2010, revelam que a Mata Atlântica perdeu 20.857 hectares de sua cobertura vegetal, o que equivale à metade da área do município de Curitiba (PR).
O número foi divulgado no dia 26 de maio pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em evento promovido pela Fundação SOS Mata Atlântica.
O número é parcial porque o Inpe analisou imagens feitas por satélites de 72% da Mata Atlântica, com a atualização dos mapas de nove entre os 17 Estados nos quais o bioma está presente: Goiás, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.
Minas Gerais foi o Estado que mais perdeu cobertura nativa e, ao lado do Paraná e de Santa Catarina, está entre as unidades da Federação que mais desmataram esse bioma. Cabe ressaltar que Minas Gerais teve 80% de sua área analisada, e o Paraná, 90%, o que significa que o desmatamento pode ter sido maior.
O Inpe analisou até o momento 94.912.769 hectares. Os Estados do Nordeste não foram estudados por causa da incidência de nuvens sobre a região, o que impediu a análise. O instituto prevê a conclusão dessa avaliação até o fim do ano.
O projeto Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica surgiu em 2004 por meio de uma parceria entre a Fundação SOS Mata Atlântica e a Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe.
Mais informações:www.dsr.inpe.br e www.sosma.org.br.