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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Plantio de eucalipto aumenta chuva em regiões altas das Serras do Mar e Mantiqueira

07 de abril de 2015

Elton Alisson | Agência FAPESP – A substituição da vegetação natural das encostas das Serras do Mar e da Mantiqueira pelo plantio de eucalipto aumenta o volume de chuva sobre as áreas mais altas e, consequentemente, os riscos de deslizamentos de terra nessas regiões serranas durante a estação chuvosa – entre dezembro e fevereiro.


 
 Substituição da vegetação natural das encostas aumenta volume de precipitações no topo de montanhas, culminando em riscos de deslizamentos de terra, aponta estudo do Inpe.


A constatação é de uma pesquisa de doutorado realizada pela tecnologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Viviane Regina Algarve, no âmbito do Projeto Temático “Assessment of impacts and vulnerability to climate change in Brazil and strategies for adaptation option”, apoiado pela FAPESP.


“Observamos que a mudança da vegetação natural por eucalipto nas encostas das Serras do Mar e da Mantiqueira altera as trocas de energia entre a superfície e a atmosfera, modificando o padrão de circulação de vento que ocorre entre o vale e a montanha e, em razão disto, o transporte de calor e umidade para o topo das serras”, disse Regina Alvalá, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e orientadora do estudo, à Agência FAPESP.
“O aumento da convergência de umidade sobre os topos das montanhas facilita a formação e alimentação de nuvens, nevoeiros e tempestades”, explicou.

De acordo com dados do Anuário Estatístico da Associação Brasileira dos Produtores de Florestas Plantadas, há mais de 6 milhões de hectares de florestas de eucalipto dos gêneros Pinnus e Eucalyptus no Brasil, em regiões com diferentes topografias e padrões de chuva.
Em São Paulo, as plantações de eucalipto estão concentradas em cidades situadas próximas das Serras do Mar e da Mantiqueira, à exceção de Ribeirão Preto.

Com o aumento da demanda por celulose e madeira, as plantações de eucalipto têm sido expandidas para encostas íngremes em municípios próximos a essas duas regiões serranas do estado.
Em razão dessa e de outras mudanças no uso e cobertura da terra – como a conversão para área de pastagem –, que têm ocorrido nas últimas décadas nas encostas das Serras do Mar e da Mantiqueira, está aumentando o volume de chuvas sobre as áreas mais altas dessas regiões serranas, o que pode resultar em riscos de deslizamentos, apontam os autores do estudo.
“Como o eucalipto é uma vegetação de porte alto, absorve muita radiação e, com isso, altera os balanços de energia e de água entre a superfície e a atmosfera. Isso acaba culminando em um aumento do volume de chuvas”, disse Alvalá.
Os pesquisadores analisaram séries históricas de dados de chuvas, referentes ao período de 1961 a 1990, de 25 estações meteorológicas distribuídas por municípios localizados próximos das Serras do Mar e da Mantiqueira.
“Observamos que, embora as alterações mais significativas no volume de chuvas tenham ocorrido sobre as áreas mais elevadas das Serras do Mar e da Mantiqueira, também houve um aumento do número de episódios de chuvas em algumas áreas na região do Vale do Paraíba”, afirmou Alvalá.

Projeções

A fim de avaliar os impactos da conversão de áreas de floresta para plantio de eucalipto ou para pastagem no regime de chuva das Serras do Mar e da Mantiqueira, os pesquisadores fizeram projeções usando o modelo climático regional ETA-CPTEC, com resolução espacial de 10 quilômetros, desenvolvido pelo Inpe.
As projeções indicaram que tanto a troca da vegetação natural por plantio de eucalipto como para área de pastagem levam ao aumento no volume diário de chuvas durante o verão, principalmente sobre as áreas mais elevadas das regiões serranas.

“A análise dos dados observacionais do período entre 1941 e 2012 e as simulações com o modelo meteorológico ETA para o período entre 1981 e 1990 indicam que as mudanças no uso e cobertura da terra observadas nas Serras do Mar e da Mantiqueira causaram o aumento no volume de chuvas em algumas áreas dessas regiões serranas”, avaliou Alvalá.
“Esse tipo de diagnóstico da evolução da mudança de uso da terra e suas implicações climáticas são essenciais para orientar tomadores de decisão de órgãos governamentais e da Defesa Civil na identificação de áreas de risco”, afirmou.

Em outro estudo, publicado no International Journal of Geo-Information, os pesquisadores avaliaram a suscetibilidade ao deslizamento de terra em áreas ocupadas por plantações de eucalipto em diferentes fases de desenvolvimento, ou convertidas em áreas de pastagem, em 16 municípios próximos das Serras do Mar e da Mantiqueira.

Os resultados do estudo indicaram que as áreas convertidas para pastagem apresentam os maiores níveis de suscetibilidade, seguidas pelas que receberam novas plantações de eucalipto e as ocupadas por moradias.
“Há uma preocupação sobre a área crescente de plantações de eucalipto em encostas íngremes no Estado de São Paulo uma vez que não há estudos específicos sobre o impacto do reflorestamento em processos de movimento de massa”, ressaltam os autores do estudo.

De acordo com os pesquisadores, o eucalipto tem diferentes fases de desenvolvimento, que podem contribuir em maior ou menor escala para a ocorrência de deslizamentos de terra.
No estágio inicial de desenvolvimento – que dura entre dois e três anos –, as árvores de eucalipto possuem uma grande quantidade de folhas, que bloqueiam a exposição do solo à luz solar, tornando-o mais úmido e vulnerável a deslizamentos.

Já na fase adulta, diminui a quantidade de folhas das árvores de eucalipto, permitindo que a luz solar atinja e reduza a vulnerabilidade do solo.

Durante a fase da colheita do eucalipto, contudo, o solo fica completamente exposto à chuva e aumenta sua taxa de erosão, o que pode deflagrar deslizamentos de terra, apontam os autores do estudo.
“A taxa de erosão de uma área de colheita de eucalipto pode ser até quatro vezes maior do que a de uma região com vegetação preservada”, destacam.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Nova estratégia de preservação

A lei brasileira reza que, na mata atlântica, propriedades rurais mantenham pelo menos 20% de floresta nativa intacta. Novo estudo, porém, afirma que esse número é insuficiente. O mínimo necessário para a saúde do bioma, na verdade, seria preservar 30% da vegetação original. 
 
Por: Henrique Kugler
Publicado em 28/08/2014 | Atualizado em 28/08/2014
Nova estratégia de preservação
O ‘Micoureus paraguayanus’ é um marsupial típico da mata atlântica encontrado na Argentina, no Paraguai e no Brasil. O aumento da área de floresta nativa pode garantir a sobrevivência da maior parte das espécies do bioma. (foto: Thomas Püttker.
 
A reforma do Código Florestal foi uma controversa novela – cujo roteiro, dos mais mal escritos, assombrou boa parte da comunidade científica. Um dos pontos sensíveis do texto, porém, permaneceu inalterado: na mata atlântica, produtores rurais continuam obrigados a manter, em suas propriedades, pelo menos 20% de floresta nativa intacta. É o mínimo necessário, afinal, para que a biodiversidade local não seja varrida do mapa.

Mas de onde veio tal número? Por que 20%, e não outro valor qualquer? Bem, esse dado foi sugerido à luz do conhecimento científico da época – vale lembrar que a versão anterior do Código Florestal era de 1965. De lá para cá, no entanto, muito avançaram as disciplinas tangentes à biologia da conservação. Hoje esse número pode – e deve – ser reconsiderado.

“Após quase uma década de coleta e análise de dados referentes a espécies de mamíferos, aves e anfíbios, concluímos que 30% são o mínimo necessário para se manter o ecossistema saudável”, diz a ecóloga brasileira Cristina Banks-Leite, do Imperial College London, na Inglaterra. O foco de seu estudo foi o estado de São Paulo, mas as conclusões podem ser estendidas aos demais locais onde há presença de mata atlântica. Os resultados foram publicados esta semana na Science, e ainda devem dar o que falar.
Saíra-sete-cores
A ‘Tangara seledon’, também chamada de saíra-sete-cores, é uma das aves mais coloridas do sudeste brasileiro. (foto: Sandro Von Matter)
“Havia uma discussão muito grande na literatura científica sobre esse dado”, contextualiza Banks-Leite. O novo número sugerido é uma espécie de média. Ele pode não ser suficiente para garantir a preservação de todas as espécies da mata atlântica – algumas fatalmente serão extintas. Mas pelo menos a maior parte delas sobreviverá caso essa meta seja atingida.

Na ponta do lápis

“Além de estabelecer esses dados mais precisos, queríamos também responder a uma segunda pergunta: quanto custaria ao país implementar esse novo parâmetro de preservação?”, diz Banks-Leite. Resposta: 200 milhões de dólares ao ano. Parece muito, mas é apenas 6,5% do que o Brasil já gasta todos os anos em subsídios para o setor agrário.
Quanto custaria ao país implementar esse novo parâmetro de preservação? Resposta: 200 milhões de dólares ao ano. Parece muito, mas é apenas 6,5% do que o Brasil já gasta todos os anos em subsídios para o setor agrário.
 
Fazendeiros até podem torcer o nariz. Mas não é necessário. Ao implementar a política, o produtor receberia um valor fixo do governo caso optasse por restaurar 30% de sua área com floresta nativa. Os custos de restauração nos três primeiros anos – que incluem o plantio das mudas nativas e os cuidados necessários nos estágios iniciais de desenvolvimento das plantas – também ficariam por conta de verbas federais.

Segundo Banks-Leite, os produtores devem considerar que muitos enfrentam instabilidade no setor agrário. Em alguns anos, as safras podem resultar em bons lucros; mas, em outros, em drásticos prejuízos. “Para as áreas restauradas, quem optasse pelo programa ganharia um valor fixo por hectare, faça chuva ou faça sol.”
“Muitas áreas agrícolas podem ser convertidas em floresta nativa sem grandes prejuízos”, garante Banks-Leite. “Calculamos que, adotando essa estratégia, cerca de 400 mil hectares de mata atlântica podem ser restaurados, com um impacto de apenas 0,61% no PIB agrícola.”
Brachycephalus crispus
A recém-descoberta ‘Brachycephalus crispus’ é uma espécie de anfíbio da mata atlântica. O tamanho de alguns indivíduos não chega a 2 mm. (foto: Thais H. Condez)
O que a pesquisadora propõe não é exatamente uma novidade. “Já existem, no Brasil, mecanismos de pagamento por serviços ambientais (PSA)”, lembra Banks-Leite. Um exemplo é o programa Bolsa Verde, do Governo Federal. O conceito de PSA, na verdade, está em pauta há algum tempo e já é reconhecido pelo próprio Ministério do Meio Ambiente.

Mas são iniciativas esparsas. “Nossa proposta é construir um projeto centralizado que possa beneficiar todo o país, com o objetivo de restaurar a mata atlântica do Rio Grande do Sul ao Ceará.”

Henrique Kugler
Ciência Hoje On-line