Plantio de eucalipto aumenta chuva em regiões altas das Serras do Mar e Mantiqueira
07 de abril de 2015
Elton Alisson |
Agência FAPESP – A
substituição da vegetação natural das encostas das Serras do Mar e da
Mantiqueira pelo plantio de eucalipto aumenta o volume de chuva sobre as
áreas mais altas e, consequentemente, os riscos de deslizamentos de
terra nessas regiões serranas durante a estação chuvosa – entre dezembro
e fevereiro.
Substituição da vegetação natural das encostas aumenta volume de
precipitações no topo de montanhas, culminando em riscos de
deslizamentos de terra, aponta estudo do Inpe.
A constatação é de uma pesquisa de doutorado realizada pela
tecnologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Viviane
Regina Algarve, no âmbito do Projeto Temático
“Assessment of impacts and vulnerability to climate change in Brazil and strategies for adaptation option”, apoiado pela FAPESP.
“Observamos que a mudança da vegetação natural por eucalipto nas
encostas das Serras do Mar e da Mantiqueira altera as trocas de energia
entre a superfície e a atmosfera, modificando o padrão de circulação de
vento que ocorre entre o vale e a montanha e, em razão disto, o
transporte de calor e umidade para o topo das serras”, disse Regina
Alvalá, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de
Desastres Naturais (Cemaden) e orientadora do estudo, à
Agência FAPESP.
“O aumento da convergência de umidade sobre os topos das montanhas
facilita a formação e alimentação de nuvens, nevoeiros e tempestades”,
explicou.
De acordo com dados do Anuário Estatístico da Associação Brasileira
dos Produtores de Florestas Plantadas, há mais de 6 milhões de hectares
de florestas de eucalipto dos gêneros
Pinnus e
Eucalyptus no Brasil, em regiões com diferentes topografias e padrões de chuva.
Em São Paulo, as plantações de eucalipto estão concentradas em
cidades situadas próximas das Serras do Mar e da Mantiqueira, à exceção
de Ribeirão Preto.
Com o aumento da demanda por celulose e madeira, as plantações de
eucalipto têm sido expandidas para encostas íngremes em municípios
próximos a essas duas regiões serranas do estado.
Em razão dessa e de outras mudanças no uso e cobertura da terra –
como a conversão para área de pastagem –, que têm ocorrido nas últimas
décadas nas encostas das Serras do Mar e da Mantiqueira, está aumentando
o volume de chuvas sobre as áreas mais altas dessas regiões serranas, o
que pode resultar em riscos de deslizamentos, apontam os autores do
estudo.
“Como o eucalipto é uma vegetação de porte alto, absorve muita
radiação e, com isso, altera os balanços de energia e de água entre a
superfície e a atmosfera. Isso acaba culminando em um aumento do volume
de chuvas”, disse Alvalá.
Os pesquisadores analisaram séries históricas de dados de chuvas,
referentes ao período de 1961 a 1990, de 25 estações meteorológicas
distribuídas por municípios localizados próximos das Serras do Mar e da
Mantiqueira.
“Observamos que, embora as alterações mais significativas no volume
de chuvas tenham ocorrido sobre as áreas mais elevadas das Serras do Mar
e da Mantiqueira, também houve um aumento do número de episódios de
chuvas em algumas áreas na região do Vale do Paraíba”, afirmou Alvalá.
Projeções
A fim de avaliar os impactos da conversão de áreas de floresta para
plantio de eucalipto ou para pastagem no regime de chuva das Serras do
Mar e da Mantiqueira, os pesquisadores fizeram projeções usando o modelo
climático regional ETA-CPTEC, com resolução espacial de 10 quilômetros,
desenvolvido pelo Inpe.
As projeções indicaram que tanto a troca da vegetação natural por
plantio de eucalipto como para área de pastagem levam ao aumento no
volume diário de chuvas durante o verão, principalmente sobre as áreas
mais elevadas das regiões serranas.
“A análise dos dados observacionais do período entre 1941 e 2012 e as
simulações com o modelo meteorológico ETA para o período entre 1981 e
1990 indicam que as mudanças no uso e cobertura da terra observadas nas
Serras do Mar e da Mantiqueira causaram o aumento no volume de chuvas em
algumas áreas dessas regiões serranas”, avaliou Alvalá.
“Esse tipo de diagnóstico da evolução da mudança de uso da terra e
suas implicações climáticas são essenciais para orientar tomadores de
decisão de órgãos governamentais e da Defesa Civil na identificação de
áreas de risco”, afirmou.
Em outro estudo, publicado no
International Journal of Geo-Information,
os pesquisadores avaliaram a suscetibilidade ao deslizamento de terra
em áreas ocupadas por plantações de eucalipto em diferentes fases de
desenvolvimento, ou convertidas em áreas de pastagem, em 16 municípios
próximos das Serras do Mar e da Mantiqueira.
Os resultados do estudo indicaram que as áreas convertidas para
pastagem apresentam os maiores níveis de suscetibilidade, seguidas pelas
que receberam novas plantações de eucalipto e as ocupadas por moradias.
“Há uma preocupação sobre a área crescente de plantações de eucalipto
em encostas íngremes no Estado de São Paulo uma vez que não há estudos
específicos sobre o impacto do reflorestamento em processos de movimento
de massa”, ressaltam os autores do estudo.
De acordo com os pesquisadores, o eucalipto tem diferentes fases de
desenvolvimento, que podem contribuir em maior ou menor escala para a
ocorrência de deslizamentos de terra.
No estágio inicial de desenvolvimento – que dura entre dois e três
anos –, as árvores de eucalipto possuem uma grande quantidade de folhas,
que bloqueiam a exposição do solo à luz solar, tornando-o mais úmido e
vulnerável a deslizamentos.
Já na fase adulta, diminui a quantidade de folhas das árvores de
eucalipto, permitindo que a luz solar atinja e reduza a vulnerabilidade
do solo.
Durante a fase da colheita do eucalipto, contudo, o solo fica
completamente exposto à chuva e aumenta sua taxa de erosão, o que pode
deflagrar deslizamentos de terra, apontam os autores do estudo.
“A taxa de erosão de uma área de colheita de eucalipto pode ser até
quatro vezes maior do que a de uma região com vegetação preservada”,
destacam.