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sexta-feira, 29 de março de 2019

Pesquisadores brasileiros e australianos avaliam efeitos do garimpo no rio Madeira

26 de março de 2019

Pesquisadores brasileiros e australianos avaliam efeitos do garimpo no rio Madeira Apesar de ter entrado em declínio, atividade ainda é responsável pelas altas concentrações de mercúrio encontradas no maior afluente do Amazonas, aponta estudo apoiado pelo SPRINT-FAPESP(foto: johnnyshwang0 / Pixabay)
Elton Alisson  |  Agência FAPESP – Apesar de ter entrado em declínio a partir de 1985, o garimpo de ouro em minas de aluvião nas margens e leito do rio Madeira tem deixado um rastro de poluição por metais tóxicos no maior afluente do rio Amazonas.

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, em parceria com colegas da Queensland University of Technology, da Austrália, encontrou um nível relativamente alto de mercúrio acumulado em sedimentos de lagos do rio Madeira – gerado pela extração artesanal de ouro.

Os resultados do trabalho, apoiado pela FAPESP no âmbito da modalidade São Paulo Researchers in International Collaboration (SPRINT), foram publicados na revista Ecotoxicology and Environmental Safety. O estudo tem a participação de pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (Unir) e da Shenzen University, na China.

“Embora tenha diminuído a intensidade da extração de ouro por mineração artesanal e de pequena escala no rio Madeira nas últimas duas décadas, essa atividade continua a ser a principal fonte de emissão de mercúrio que encontramos em sedimentos de lagos daquela bacia”, disse Daniel Marcos Bonotto, professor da Unesp de Rio Claro e primeiro autor do estudo, à Agência FAPESP.

O projeto é o segundo que Bonotto realiza com apoio do SPRINT da FAPESP. O primeiro foi em 2016, quando ele se associou a Trevor Elliot, professor da Queen’s University Belfast, da Irlanda, em um estudo sobre traçadores ambientais para a gestão de recursos hídricos.
“O SPRINT favorece a mobilidade e a identificação de projetos em colaboração com pesquisadores do exterior, mesmo que ainda não estejam formatados”, disse Bonotto.

Colaborações internacionais

A criação de novas parcerias em pesquisa é justamente um dos objetivos do SPRINT, modalidade que completa cinco anos. Lançada em abril de 2014, com o objetivo de promover o avanço da pesquisa científica por meio de colaborações entre pesquisadores vinculados a universidades e instituições de pesquisa no Estado de São Paulo e cientistas parceiros no exterior em projetos conjuntos de médio e longo prazo, essa estratégia de organização da FAPESP oferece financiamento para a fase inicial de colaborações internacionais em pesquisa – o chamado seed funding (financiamento semente).

“A expectativa da FAPESP é que o seed funding oferecido, somado aos recursos da universidade parceira, permita aos pesquisadores interagir em um projeto e, ao mesmo tempo, desenvolver uma colaboração que leve a uma proposta de pesquisa conjunta de médio ou longo prazo a ser submetida à Fundação e às agências estrangeiras acessíveis pelo pesquisador parceiro”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

Como explicou Marilda Solon Teixeira Bottesi, assessora para colaborações em pesquisa da FAPESP, os objetivos do SPRINT são consolidar parcerias de pesquisa já existentes ou estimular novas colaborações por meio do financiamento de missões científicas.
“Por meio dos projetos apoiados pelo SPRINT, os pesquisadores participantes têm a oportunidade de visitar as instituições e conhecer os laboratórios e as pesquisas conduzidas por seus parceiros e, com isso, propor projetos conjuntos”, disse.

A parceria de Bonotto com pesquisadores australianos, por exemplo, permitiu ampliar a investigação que o grupo dele na Unesp iniciou ainda na década de 1990, quando começaram a coletar sedimentos de diferentes profundidades e rochas circundantes de lagos do rio Madeira, em Porto Velho (RO), a fim de avaliar as concentrações e determinar as fontes de mercúrio.
O metal tóxico, que representa um risco para a saúde ao ser ingerido por meio do consumo de peixes, pode contaminar as águas do Madeira naturalmente ao ser transportado do solo para cursos de água, ou pelas emissões atmosféricas de erupções vulcânicas dos Andes. Além disso, também pode ser gerado pelo garimpo de ouro de aluvião, explicou Bonotto.
“Chegamos a presenciar durante estudos em campo o descarte direto de mercúrio por garimpeiros em lagos do Madeira”, disse Bonotto.

A fim de estimar a contribuição de fontes naturais e do garimpo de ouro de aluvião para as concentrações de mercúrio encontradas em lagos do rio Madeira, os pesquisadores fizeram uma análise dos dados de sedimentos e de rochas de nove lagos, baseada em redes bayesianas.
Esses modelos gráficos, que representam de forma simples as relações de causalidade das variáveis de um sistema, têm sido usados para entender redes ambientais complexas, como para a predição de abundância de espécies em função de características de hábitat.

“Nossos colegas da Austrália, especialistas nessa abordagem estatística, acharam interessante tentar usá-la para avaliar a contribuição das diferentes fontes de emissão de mercúrio em lagos do rio Madeira com base nos dados de sedimentos que coletamos”, afirmou Bonotto.

Os resultados das análises indicaram que, embora as formações geológicas e do solo dos ecossistemas amazônicos influenciem o transporte de mercúrio nos lagos do rio Madeira, o garimpo de ouro de aluvião tem uma grande parcela de contribuição na geração do metal encontrado nessa bacia.
Os pesquisadores constataram que os sedimentos de fundo dos lagos apresentavam concentrações significativamente mais elevadas de mercúrio do que as rochas circundantes – o que afasta a hipótese dessas últimas serem a fonte de emissão do metal.

Uma vez que a mineração de ouro diminuiu significativamente na região nos últimos anos, as emissões anteriores de mercúrio por essa atividade contribuíram para as altas concentrações do metal encontradas nos sedimentos dos lagos, apontaram os autores do estudo.
“Normalmente, os sedimentos de fundo de lagos costumam reter muitas evidências de poluição. As colunas de sedimentos que coletamos, por exemplo, de diferentes profundidades, retêm registros de poluição por mercúrio de vários anos”, disse Bonotto.

Agora, em colaboração com os colegas australianos da Queensland University of Technology, Bonotto pretende usar a mesma abordagem estatística para estimar as fontes de emissão de cromo pela indústria de calçados de Franca em rios da região.
“Também queremos avaliar a influência de nitrato no transporte de urânio em águas subterrâneas do aquífero Guarani, no Estado de São Paulo”, disse Bonotto.

O SPRINT tem quatro chamadas por ano. As propostas devem ser apresentadas sempre até a última segunda-feira dos meses de janeiro, abril, julho e outubro. A primeira chamada deste ano, com prazo final para envio de propostas até 29 de abril, bateu o recorde de instituições participantes. São 16 instituições de diversos países.

O SPRINT já apoiou mais de cem projetos de pesquisa realizados por pesquisadores vinculados a universidades públicas e privadas e a instituições de pesquisa sediadas no Estado de São Paulo em colaboração com cientistas da Inglaterra, Estados Unidos, Austrália, França, Holanda, Canadá, Irlanda, Irã, Argentina, Espanha, África do Sul, País de Gales, Escócia, Alemanha, Bélgica, China, Suécia, Chile, Japão e Dinamarca.

A chamada de propostas SPRINT 1/2019 está publicada em: www.fapesp.br/sprint/chamada12019

O artigo Assessing mercury pollution in Amazon River tributaries using a bayesian network approach (DOI: 10.1016/j.ecoenv.2018.09.099), de Daniel Marcos Bonotto, Buddhi Wijesiri, Marcelo Vergotti, Ene Glória da Silveira e Ashantha Goonetilleke, pode ser lido por assinantes da revista Ecotoxicology and Environmental Safety em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0147651318309734.

quarta-feira, 2 de março de 2016

FUNCIONÁRIOS CRIMINOSOS DO MEIO AMBIENTE

DIVULGUEM!!

Ex-executivos do Ibama denunciados por irregularidades




O Ministério Público Federal (MPF) em Brasília (DF) denunciou à Justiça dois ex-gestores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama): Roberto Messias Franco, ex-presidente do órgão, e Sebastião Custódio Pires, ex-diretor de licenciamento ambiental. Em 2008, os denunciados concederam licença para a instalação da usina hidrelétrica Jirau em desacordo com as normas ambientais e pareceres técnicos do Ibama. O empreendimento faz parte do Complexo do Rio Madeira, localizado no Rio Amazonas e que inclui a usina Santo Antônio. Para o MPF, além de expedir o licenciamento irregular, Roberto Franco ainda permitiu a supressão vegetal no local, contrariando nota técnica do Instituto que alertava sobre a proibição de qualquer corte de vegetação nativa em área de preservação permanente.

Em relação à hidrelétrica Jirau, o consórcio Energia Sustentável do Brasil (ESBR) venceu o leilão promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) que concedia a exploração da usina. Com a assinatura do contrato, a empresa apresentou ao Ibama o plano básico ambiental específico do canteiro de obra. O MPF apurou que a intenção era conseguir a concessão da licença de instalação de forma parcial e, dessa modo, dividir a implantação do empreendimento em etapas.

No entanto, a fragmentação do processo não está prevista na legislação ambiental.
Na ação penal, o Ministério Público cita, ainda, a existência de um parecer elaborado por técnicos do Ibama, que demonstraram, de forma clara, que a modalidade de licença de instalação ambiental fragmentada não era comum. No mesmo documento, foi solicitada uma analise jurídica da situação. Mesmo com essas ressalvas, Sebastião Pires recomendou a licença de instalação e Roberto Franco expediu a autorização à ESBR.
O documento enviado à Justiça também revela que, durante as investigações preliminares, a 4ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF emitiu parecer pericial sobre o caso. O órgão, que trata de questões ambientais, confirmou a irregularidade no procedimento liberado pelo Ibama. De acordo com a manifestação, a concessão da licença parcial, além de ferir a lei, também fragmentou o licenciamento em uma das mais importantes fases do processo. “Deve-se ressaltar que o licenciamento ambiental, apesar de estar dividido em três fases distintas, não deve ser realizado isoladamente, sendo necessária a concretização de um estudo comum, uma abordagem única e completa de toda a obra a ser licenciada”, expõe o procurador da República Anselmo Henrique Cordeiro Lopes em um dos trechos da ação.
Além dessa irregularidade, o MPF ainda aponta outro detalhe que foi ignorado pelos ex-gestores ao conceder a permissão. É que, no contrato firmado com a Aneel, a ESBR solicitou a mudança da localização do eixo da barragem a uma distância de 12,5 quilômetros do local licitado e originalmente previsto em dois estudos: de viabilidade e de impacto ambiental. Também nesse caso, notas técnicas do Ibama indicaram que a alteração poderia causar diversas consequências ambientais negativas.

Os analistas do Instituto avaliaram a solicitação e concluíram que a ESBR teria que realizar estudos complementares para que fosse possível analisar adequadamente a modificação do eixo da hidrelétrica Jirau. O Ministério Público verificou que foram apresentados estudos incompletos, deixando de atender diversos aspectos que haviam sido exigidos. Apesar de terem conhecimento dos pareceres e sem que as pendências fossem efetivamente resolvidas, Roberto Franco e Sebastião Pires concordaram com alteração da localização.

Em relação à supressão indevida de vegetação, o MPF atribui a irregularidade a Roberto Franco, responsável por permitir a intervenção ambiental em área de preservação permanente. A medida foi executada, desconsiderando uma nota técnica do Ibama que assinalava a proibição – prevista em lei – da supressão. “Importa salientar que, na qualidade de principal representante do Ibama à época, o denunciado, Roberto Messias Franco, tinha, no mínimo, o dever funcional de conhecer e proceder segundo as normas que disciplinam a outorga de licenças e autorizações ambientais”, frisa o procurador da República.
O MPF pede que os denunciados respondam com base no artigo 67 da lei de crimes ambientais (9.605/98). No caso de Roberto Franco, houve a repetição do tipo penal por duas vezes, o que pode elevar a punição. A norma determina pena de detenção de um a três anos, além de multa.
Clique aqui para ter acesso à íntegra da ação.
EcoDebate - 01/03/2016

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Amazônia redescoberta


A geóloga Dilce de Fátima Rossetti, pesquisadora do Inpe, afirma que terremotos, e não fatores climáticos, modificaram a geografia, a fauna e a flora amazônica


As conclusões de Dilce são fundamentadas em pesquisas feitas há mais de 25 anos  para o Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Foto: Fabio Rubinato/AGF (Agenzia Giornalistica Fotografica BR)
As conclusões de Dilce são fundamentadas em pesquisas feitas há mais de 25 anos
para o Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Foto: Fabio Rubinato/AGF (Agenzia Giornalistica Fotografica BR)

Desde 1950
, pesquisadores já desconfiavam que as transformações da fauna e da flora da Amazônia não foram provocadas apenas por mudanças climáticas, mas por mudanças ambientais causadas por terremotos. Só não tinham como provar. A geóloga Dilce de Fátima Rossetti, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), tem despendido esforços, nos últimos 25 anos, para reunir essas provas. Os resultados coletados em várias regiões investigadas confirmam as teses dos pioneiros. À frente de uma equipe que reúne geólogos, paleontólogos e botânicos do Brasil e do exterior, Dilce já esquadrinhou regiões amazônicas que, em virtude de movimentos tectônicos, perderam floresta densa e ganharam áreas abertas de savanas e campinaras, até recentemente explicadas somente como herança de fases climáticas áridas do passado geológico. De acordo com as investigações, terremotos também podem ter tido grande contribuição na mudança do curso de rios importantes, como Madeira, Negro e Branco, e seus afluentes. 
De São José dos Campos (interior de São Paulo), onde mora quando não está na Amazônia, Dilce, que tem um currículo respeitável – mestrado em Geologia e Geoquímica pela Universidade Federal do Pará (1990) e Phylosophy Doctor pela University of Colorado at Boulder (1996), pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, entre 1988 e 2004, e atualmente pesquisadora titular do INPE – falou à Brasileiros sobre essas e outras descobertas que têm sido tema de intensos debates da comunidade científica internacional.

Brasileiros – A Amazônia é uma região sujeita a terremotos? E o que eles têm a ver com transformações no ambiente, na fauna e na flora?Dilce Rossetti – Essa é uma teoria que a gente vem defendendo há bastante tempo. Desde que comecei a trabalhar na Amazônia, fui observando evidências na paisagem e no desenvolvimento das bacias de drenagem que sugeriam efeito tectônico. Com o uso de imagens de satélite ou radar, conseguimos perceber feições no terreno e interpretar que elas têm relação com eventos de tectonismo. Não fui a primeira a sugerir isso. Desde 1950 pesquisadores já defendiam essa teoria, ou seja, a importância das movimentações tectônicas na Amazônia, mas havia ceticismo devido à falta de estudos sistemáticos que demonstrassem isso melhor. Com o passar dos anos, fomos levantando informações que mostram o terreno amazônico com muitas evidências de estruturas tectônicas, como falhas. Os rios amazônicos têm seu curso controlado por essas falhas. Hoje, temos registros que confirmam a importância dos eventos tectônicos na Amazônia. Essas ocorrências não estão muito distantes no tempo geológico, sendo registradas até mesmo há poucos milhares de anos e, provavelmente, continuam acontecendo até hoje. A Amazônia tem várias áreas de terremoto registradas pelos sismógrafos, embora, em geral, com epicentros localizados a certa profundidade. Quando o epicentro se aproxima da superfície, dá-se um abalo maior. Eventos como esses produziram terremotos de até 5,5 graus na Amazônia Central, em 1963 e em 1983. Esses abalos resultam da reativação dessas estruturas tectônicas desenvolvidas há muito tempo e que, de tempos em tempos, se movimentam. Estamos analisando esses eventos para ver se estão relacionados com a movimentação das placas tectônicas ou com fases de soerguimento dos Andes. Os resultados têm uma implicação grande no projeto que desenvolvemos porque essas variações do ambiente, causadas pelas reativações tectônicas, podem também provocar mudanças na estrutura da vegetação. E quando muda a vegetação também há alteração na fauna, uma vez que ela subsiste em função da vegetação.

Como isso acontece?Se uma área de floresta afunda por causa de um movimento tectônico, cria-se uma depressão, uma bacia, que pode acumular água, virar um lago. Com isso, a floresta e sua fauna associada que ocorria em terra firme vai se modificar. É assim que o movimento tectônico muda o ambiente, a vegetação e a fauna.  Convencionou-se que as mudanças de floresta para savana são relacionadas com o clima. Quando o clima no planeta era mais árido, a Amazônia teria respondido com a destruição ou contração da floresta e a implantação de savana. Isso porque durante períodos de clima frio no globo, as áreas tropicais como a Amazônia teriam respondido ao aumento de aridez com desenvolvimento de savana do tipo que ocorre na África hoje. Sempre foi interpretado dessa maneira, ou seja, que toda mudança de vegetação na Amazônia ocorrida no passado tem relação com variações climáticas. E hoje o que quero demonstrar é que períodos geológicos com desenvolvimento de savana podem não ter relação com paleoclimas áridos. Então, estamos definindo quando ocorreram esses momentos em que a Amazônia apresentou vegetação mais aberta no passado geológico para ver se eles coincidem com os períodos de glaciações, por exemplo, quando houve a expansão de geleiras. O auge da grande glaciação ocorreu entre 23 mil e 18 mil anos atrás. Foi o último momento em que o planeta esteve mais frio e parte do hemisfério norte e sul ficou congelada.

A Amazônia também?

Não, mas em função do esfriamento global mudaram os padrões de circulação das águas, dos oceanos, dos ventos, da umidade no planeta. Por isso acredita-se que a Amazônia tenha ficado mais seca durante a última glaciação. Então, a floresta teria se contraído e a savana se expandido. Só que a Amazônia hoje não tem só floresta, tem grandes áreas de vegetação aberta do tipo savana ou campinara, mesmo considerando sua condição de clima equatorial quente e úmido. Vegetações desse tipo ocorrem por mais de 100 km de extensão. Então, temos áreas de savana convivendo com floresta em ambiente úmido e quente. Por que a gente não podia ter isso também no passado? Quando essas áreas se formaram? Já sabemos que em algumas áreas essas savanas existem há seis mil anos, em outras, três mil anos, e nesse período não houve glaciação. Pelo contrário, foi um período que registrou aumento de umidade crescente no mundo inteiro. Então, essas savanas se estabeleceram na Amazônia em um momento de umidade, não de ressecamento, e estão em áreas tectonicamente instáveis. A tectônica causou mudanças no ambiente, deixando morfologias abandonadas na paisagem que foram colonizadas por essas vegetações específicas. Isso tem um impacto importante porque as mudanças de vegetação do passado da Amazônia são feitas com base em hipóteses climáticas, quando na realidade outros fatores devem também ser considerados. Para prever como o clima pode mudar daqui para frente, é preciso saber como ele se comportou no passado geológico, entender o comportamento do clima antes do homem na Terra, depois entender a influência do homem como agente modificador do clima global – é preciso voltar ao passado e fazer essas reconstituições em uma escala de tempo de milhares de anos para cá. Se utilizarmos variações de vegetação como evidência exclusiva de flutuações climáticas, poderemos não obter a resposta mais precisa, a natureza pode ser mais complexa do que imaginamos. Precisamos levar em consideração fatores para decifrá-la e coletar uma base de dados mais detalhada para fornecer interpretações conclusivas. A distribuição atual da Floresta Amazônica, sua competição com áreas que não são de floresta indicam uma dinâmica que estamos tentando entender e verificar se tem relação com fatores geológicos e geomorfológicos. Em algumas áreas, já obtivemos dados bem conclusivos para explicar porque a savana está lá, qual o parâmetro ambiental que influenciou seu desenvolvimento, quando houve seu estabelecimento e se ela tem relação com fatores climáticos ou tectônicos.

Em que regiões a senhora obteve resultados conclusivos?

Já desenvolvemos alguns projetos no norte de Rondônia, entre Porto Velho e Humaitá, no sul do Amazonas. Essa é uma região boa porque tem áreas extensas de savanas que eram interpretadas como resquícios do clima árido passado. Chegamos à conclusão de que lá houve drenagens abandonadas em função de uma atividade tectônica, com rios que corriam numa direção e passaram a correr na direção contrária devido ao basculamento de terrenos que foram falhados.

Qual rio, por exemplo?

O rio Madeira. Ele tinha um curso diferente do de hoje. Vários trechos desse rio  corriam a 30 km de onde ele corre hoje. Na nossa interpretação, essa movimentação ocorreu devido à influência de falhas. No canal anterior do Madeira passou a não correr mais água e ele foi abandonado. Quando o rio é abandonado, com o tempo ele vai sendo preenchido por sedimentos. O canal vira um terreno de terra firme e esse terreno é diferenciado porque a vegetação que se desenvolve sobre ele é diferente da vegetação atual. Então, o ambiente aquoso vira substrato para o desenvolvimento de vegetação e de solo. Esses terrenos sustentam espécies diferentes, às vezes só tem gramíneas e só posteriormente ocorre a colonização por lá. 

E qual é a outra região?

Outra região que estamos investigando é um depósito de areia de mais de 50 km de extensão, protegido, em grande parte, pelo Parque Nacional do Viruá, em Roraima, próximo à capital Boa Vista. É uma área completamente diferente de todo o resto da Amazônia, inclusive com fauna e flora diferenciadas. Em fevereiro deste ano, trabalhei na região em conjunto com o botânico Rogério Gribel, atual diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Ele ficou impressionado com as espécies que encontrou. Começamos a verificar que, no passado, aquele ambiente era diferente do de hoje, com rios que divergiam em vez de convergirem como ocorre nos sistemas fluviais. Esses rios divergentes ou distributários acabaram formando depósitos de areia em forma de leque, que serviram de substrato para o estabelecimento de um mosaico de vegetação dominado por vários tipos de campinaras. A área de confluência do Rio Negro com o Branco apresenta a maior concentração de campinaras da Amazônia.

E o Rio Amazonas?

Uma linha de pensamento sustenta que a formação da Bacia Amazônica teria ocorrido entre 14 milhões e 10 milhões de anos atrás. Antes disso, o rio corria para o oeste por meio de canais que atravessavam os Andes. Depois houve a chamada inversão do Amazonas, o rio passou a correr para leste, saindo para o Atlântico e não mais para o Pacífico. Outra linha de pensamento afirma que essa inversão ocorreu mais recentemente, há apenas alguns milhares de anos. A linha que sustenta a idade mais antiga se baseia em coletas feitas em mar aberto em frente à foz do Amazonas. Esses estudos tentam decifrar quando houve entrada desses sedimentos derivados dos Andes. Os pesquisadores que defendem que o Rio Amazonas é mais jovem estão coletando dados de proveniência de sedimentos a partir de amostras derivadas da própria região amazônica. Com base nesses dados tem sido sugerido que a mudança de fonte para a andina aconteceu mais recentemente. Mas ainda é um tema muito debatido em fóruns mundiais.

A mudança de curso do Rio Amazonas deve-se a terremotos? 

O mais provável é que esteja associado com eventos de tectonismo durante fases de soerguimento dos Andes. Há estudos mostrando que os Andes apresentaram fases importantes de soerguimento, que são potencialmente equivalentes às idades propostas para a inversão do Amazonas. O mais importante a frisar é que esse é um debate ainda aberto, até que dados mais concretos possam ser apresentados.

Como é feita a pesquisa?

Em geral, analisamos afloramentos, que são exposições naturais das rochas encontradas em falésias, costeiras, barrancos de rios, cortes de estrada. Quando não ocorrem exposições naturais nem artificiais, como minas a céu aberto, fazemos furos de sondagem. Na ilha do Marajó, fizemos furos de até 124 m. As idades variaram. Por exemplo: tivemos idades de 20 mil anos a 2 m de profundidade. Ficou provado, por estudos, que isso ocorre em função das falhas tectônicas.

Qual o registro mais antigo que a senhora encontrou na Amazônia?Depende do local. Em vários, conseguimos chegar a 120 milhões de anos. 

sábado, 31 de maio de 2014

Barragens e inundações no rio Madeira

Impactos da enchente ocorrida recentemente por evento meteorológico extremo foram agravados pelas usinas hidrelétricas instaladas ao longo do curso d’água. 
 
Por: Philip M. Fearnside
Publicado em 29/05/2014 | Atualizado em 29/05/2014
Barragens e inundações no rio Madeira
Vista aérea da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia. É provável que a usina tenha agravado a erosão da orla de Porto Velho na superenchente que castigou a região em 2014. (foto: Divulgação PAC2/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0) 
 
A inundação ocorrida recentemente no leito do rio Madeira foi provocada por um evento meteorológico extremo, com uma vazão que se estimava que acontecesse apenas uma vez a cada 100 anos. Nos últimos tempos, aliás, eventos climáticos extremos, dos mais variados tipos, têm ocorrido em diferentes partes do mundo, sugerindo indícios evidentes de mudanças climáticas – embora não se possa demonstrar que qualquer evento específico seja uma decorrência de tais mudanças.
Com o agravamento do aquecimento global, a previsão é que inevitavelmente tenhamos um número cada vez maior de eventos climáticos extremos pelo mundo afora.
 
Com o agravamento do aquecimento global, a previsão é que inevitavelmente tenhamos um número cada vez maior de eventos climáticos extremos pelo mundo afora.
Alguns dos impactos da inundação do rio Madeira foram agravados pelas usinas hidrelétricas instaladas ao longo de seu curso, embora, é evidente, essas barragens não possam ser responsabilizadas sozinhas por todos os estragos.
No caso da usina hidrelétrica de Santo Antônio, é provável que ela tenha agravado a erosão da orla de Porto Velho, cujo centro está a apenas 7 km abaixo da barragem. A canalização da água pelo vertedouro alterou a correnteza a jusante da barragem, lançando mais água contra as áreas da cidade que ficam próximas do rio.

Por água abaixo

Isso se evidenciou na estação chuvosa de 2011-2012, a primeira após o fechamento da barragem, quando a capital de Rondônia foi surpreendida por uma erosão súbita. Cerca de 300 casas localizadas à beira do rio foram destruídas ou ficaram condenadas, e até o monumento fincado no local pelo Marechal Rondon um século atrás foi por água abaixo.
Porta-vozes da empresa alegaram que tudo não passava de um fenômeno natural de “terras caídas”. Mas, levando-se em conta a coincidência do fenômeno com a implantação da barragem, muito possivelmente essas alegações não devem ter convencido muita gente além dos próprios funcionários da empresa.
Caminhões na estrada
A inundação de vários trechos da rodovia BR-364 que beiram os lagos formados pelas usinas de Santo Antônio e Jirau também deve ter sido agravada por causa das barragens. (foto: Sérgio Vale/Secom – CC BY 2.0)
A força dessa água na superenchente que castigou a região em 2014 seria aumentada por concentrar justamente na queda da barragem toda a força da vazão recorde. O reservatório de Santo Antônio, com 117 km de comprimento, inunda não só a cachoeira de Santo Antônio, mas também a cachoeira maior, de Teotônio, e várias outras, menores, no percurso do Madeira.
No rio natural, a energia cinética da queda da água era liberada aos poucos, ao longo de todo o trajeto. Mas, com a barragem, ela se concentra em uma única queda, de grande dimensão, logo acima de Porto Velho. Portanto, a velocidade da água e o seu poder erosivo são maiores justamente ali.
A inundação de vários trechos da rodovia BR-364 que beiram os lagos formados pelas usinas de Santo Antônio e Jirau também deve ter sido agravada por causa das barragens. A cheia recorde teria causado enchente também recorde mesmo na ausência das barragens. Mas, com elas, a cheia é ainda maior na margem dos reservatórios, uma vez que o aumento tem início a partir de um nível mais alto. Se os níveis dos reservatórios tivessem sido rebaixados ao máximo para aproximar o rio de seu leito natural, a inundação lateral teria sido menor.

Impacto internacional 

No caso da usina de Jirau, situada a cerca de 120 km de Porto Velho, poderia haver uma contribuição à atual inundação na Bolívia no trecho do rio Madeira acima do distrito de Abunã, em Rondônia. As afirmações de que a barragem de Jirau não teria qualquer efeito sobre as inundações no país vizinho, repetidas diversas vezes pelos proponentes das barragens no Estudo e no Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), e em documentos elaborados posteriormente, foram contestadas em detalhe por mim em trabalho publicado em 2013 na revista Water Alternatives (uma versão desse texto em português está disponível aqui).
Os sedimentos acumulados funcionam como uma espécie de segunda barragem, represando a água no trecho do rio que está acima do que é oficialmente considerado ‘reservatório’
O problema é que os sedimentos mais grossos, como areia, tendem a migrar para o fundo do reservatório logo no seu início, onde a água entra no lago rio acima. Os sedimentos acumulados funcionam como uma espécie de segunda barragem, represando a água no trecho do rio que está acima do que é oficialmente considerado ‘reservatório’. Isso forma o chamado ‘remanso superior’, onde o nível da água é mais alto do que no rio natural.
Por ocasião de uma enchente, como a que acaba de acontecer, isso se traduz em mais inundação e estragos, inclusive em uma área protegida na margem boliviana desse trecho. O rio Madeira tem uma das maiores cargas de sedimentos do mundo, e o ‘reservatório’ oficial de Jirau termina exatamente na divisa do Brasil com a Bolívia, fornecendo, assim, todos os elementos necessários para um impacto internacional.

Philip M. Fearnside
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia

Texto originalmente publicado na CH 314 (maio de 2014). Clique aqui para acessar uma versão resumida da revista.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Anfíbio com formato de cobra é descoberto no Rio Madeira, em RO

Animal raro foi encontrado por biológos em canteiro de obras de usina.


Exemplares estão no Museu Emilio Goeldi, no Pará.

 
Marcela Ximenes Do G1 RO - 03/08/2012
 
Atretochoana eiselti foi descoberta no Rio Madeira (Foto: Juliano Tupan/Divulgação)
Atretochoana eiselti foi descoberta no Rio Madeira (Foto: Juliano Tupan/Divulgação)
 
O trabalho de um grupo de biólogos no canteiro de obras da Usina Hidrelétrica Santo Antônio, no Rio Madeira, em Porto Velho, resultou na descoberta de um anfíbio de formato parecido com uma cobra. Atretochoana eiselti é o nome científico do animal raro descoberto em Rondônia. Até então, só havia registro do anfíbio no Museu de História Natural de Viena e na Universidade de Brasília. Nenhum deles têm a descrição exata de localidade, apenas 'América do Sul'. A descoberta ocorreu em dezembro do ano passado, mas apenas agora foi divulgada.

O biólogo Juliano Tupan, analista socioambiental da Santo Antônio Energia, concessionária da usina hidrelétrica, conta que foram encontrados seis exemplares do anfíbio, que ficou conhecido como cobra mole, durante o processo de secagem de um trecho do leito do rio. Os animais estavam no fundo do Rio Madeira entre pedras que compunham as corredeiras de Santo Antonio, no leito original do rio.
“A Amazônia é uma caixa de surpresa em se tratando de anfíbios e répteis. Ainda há muita coisa para ser descoberta”, afirma o biólogo.
Anfíbio é chamado de cobra mole (Foto: Juliano Tupan/Divulgação)
Anfíbio é chamado de cobra mole
(Foto: Juliano Tupan/Divulgação)
 
Segundo Tupan, o ponto mais importante dessa descoberta é que agora se tem a noção de onde a Atretochoana eiselti pode ser encontrada. “Provavelmente em todo o Rio Madeira até a região da Bolívia”, diz.
Os primeiros exemplares do anfíbio foram encontrados pela equipe de Juliano Tupan em dezembro do ano passado. Em janeiro passado ele encontrou mais dois exemplares, mas morreram.
Juliano explica que a divulgação da descoberta foi feita somente agora porque estava em processo de validação e catalogação científica.
“Resgatar um animal tão raro como este foi uma sensação fora do comum. Procurei referências bibliográficas, entrei em contato com outros pesquisadores e vimos que se tratava de Atretochoana eiselti”, lembra Juliano Tupan.

Parente de sapos e pererecas

O formato cilíndrico do corpo do anfíbio faz logo pensar que se trata de uma cobra meio esquisita. Mas Juliano explica que a Atretochoana eiselti não tem parentesco algum com répteis. “Esse anfíbio é parente próximo de salamandras, rãs, pererecas e sapos. Apenas se parece com uma serpente, mas não é”, afirma o biólogo.

Dois exemplares da Atretochoana eiselti descobertos no Rio Madeira estão no Museu Emilio Goeldi, em Belém, PA.
Juliano conta que cerca de dois meses após a descoberta no Rio Madeira um grupo de pescadores do Pará encontrou um exemplar na foz do Rio Amazonas, na região de Belém, PA.
Anfíbio estav ano fundo do Rio Madeira (Foto: Juliano Tupan/Divulgação)
Anfíbio estava no fundo do Rio Madeira (Foto: Juliano Tupan/Divulgação)


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ilhas de savana
Manchas de cerrado surgiram sobre leitos de antigos rios da Amazônia
Edição Impressa 179 - Janeiro 2011

© ICM-Bio
Cercada por floresta, área de cerrado cresce sobre antigo leito de rio em Roraima
Vista de longe, a Amazônia é quase sempre homogênea. Um mar verde, de floresta. O desmatamento (ainda) se concentra em suas bordas, nas áreas de fronteira agrícola, como o norte de Mato Grosso e Rondônia e o centro-sul do Pará. Nesses lugares em que antes havia uma vegetação densa e fechada surgiram pastos, plantações, cidades ou simplesmente regiões devastadas. É razoável supor que zonas desflorestadas pelo homem há poucas décadas e posteriormente abandonadas podem dar origem inicialmente a uma formação verde mais aberta, no estilo dos campos e cerrados. Mas o que explicaria a ocorrência de grandes manchas de savana – vegetação de clima bem mais seco do que da Região Norte – coladas a florestas em lugares da Amazônia onde quase não houve desflorestamento recente, como na porção leste da ilha de Marajó, em trechos às margens do rio Madeira e também do rio Branco, em Roraima?

Para a geóloga Dilce Rossetti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de São José dos Campos (SP), a resposta está intimamente relacionada à história natural que moldou as características das bacias hidrográficas e do relevo da Amazônia. Antigos leitos de rios, por onde não corre mais água há alguns milhares de anos, sofreram um processo de sedimentação, viraram paleocanais e paleorrios – e foi justamente em cima desses segmentos aterrados de rios do passado que uma vegetação mais esparsa, com predomínio de gramíneas e poucas árvores, floresceu de forma natural. E não foi só isso. De acordo com o cenário proposto pela pesquisadora, especializada na reconstituição de paisagens do passado com o auxílio de dados de sensoriamento remoto, mudanças climáticas podem não ter sido o único fator que alterou o curso dos rios de outrora. “A reativação de falhas tectônicas deve ser a responsável por esse fenômeno”, afirma Dilce. “As pessoas pensam que a Amazônia é extremamente estável, mas ela tem oito regiões de ocorrência de sismos.” Embora não costumem gerar notícias, pois seu epicentro é em geral em zonas despovoadas e de floresta, alguns terremotos na região podem ser de grande magnitude e atingir até 6 ou 7 graus na escala Richter.
Essa teoria ganhou corpo depois que Dilce coordenou entre 2005 e 2008 um amplo trabalho multidisciplinar numa área piloto da Amazônia, a região do baixo Tocantins e da ilha de Marajó, no nordeste do Pará. O projeto Marajó, como os pesquisadores denominam a iniciativa que contou com financiamento da FAPESP, reconstituiu a história geológica da área desde o período Neógeno, há 23 milhões de anos, até os dias atuais.
Vários aspectos da região foram estudados: as variações dos padrões de vegetação no tempo geológico; a ocorrência de deslocamentos de terrenos por movimentação ao longo de falhas tectônicas; os sedimentos formados dentro de antigos ambientes, como rios, lagos, planícies de inundação; a variação do nível do mar; e as mudanças climáticas. Diversas ferramentas de análise foram empregadas nos estudos. Imagens de satélite e de radar foram utilizadas para caracterizar espacialmente a área e amostras de sedimentos em profundidades de até 120 metros foram coletadas. Foram ainda usadas técnicas de datação e de análise química da matéria orgânica preservada nos sedimentos para melhor reconstituir a sucessão de paisagens ao longo do tempo.
Localizada na foz do rio Amazonas, distante alguns quilômetros do continente, a ilha de Marajó se estende por quase 50 mil quilômetros quadrados – 33 vezes a área da cidade de São Paulo – e apresenta um padrão de cobertura vegetal com disposição singular: cerca de dois terços de sua área, em especial na porção centro-oeste, são tomados por mata fechada, a típica floresta equatorial; o outro terço, na parte leste, apresenta um mosaico de matas mais abertas cortadas por campos alagados e formações no estilo da savana. Essa divisão da ilha em dois perfis distintos de vegetação tem origem em sua história geológica, segundo a pesquisadora do Inpe.
Separação do continente – Até cerca de 10 mil anos atrás, havia praticamente apenas florestas fechadas em Marajó, com exceção das áreas cortadas por sua antiga bacia hidrográfica. A ilha ainda fazia parte do continente e sua porção norte atual estava sob o mar. Braços do rio Tocantins serpenteavam por seu território. Então começou o seu processo de separação da terra firme. A reacomodação de uma falha tectônica mudou o curso do Tocantins, cujas águas trocaram o sentido noroeste pelo nordeste, e abriu caminho para cortar a ligação física de Marajó, hoje considerada a maior ilha fluviomarinha do mundo, com o resto do Pará. Uma falha que divide grosseiramente a ilha ao meio também se movimentou. “Isso fez com que a porção leste da ilha sofresse um afundamento suave e ficasse mais sujeita a alagamentos, inicialmente por invasão da água do mar e, depois que este se retirou, por inundação nos períodos de chuva”, afirma Dilce. Estavam criadas as condições naturais para que a ilha passasse a apresentar dois tipos distintos de vegetação.

À medida que o Atlântico se retirou da ilha, areia e lama foram tampando o leito de antigos estuários e rios. As cheias periódicas nesse setor inviabilizaram a permanência de matas densas e criaram as condições ambientais para que, há 6.700 anos, se desenvolvesse uma vegetação de campos abertos em determinados períodos do ano. Em paralelo, no trecho ocidental de Marajó, mais estável, a floresta permaneceu intacta. Desconectados do rio Tocantins desde o início do processo de separação da ilha do continente, boa parte dos cursos d’água dessa zona secou e, com o tempo, tornou-se sítios onde a vegetação passou a crescer, inicialmente como gramíneas e arbustos, e depois como espécies de floresta.

© Serviço Geológico Americano
Rede de paleorrios se entrelaça com leito atual de rio na ilha de Marajó
Com as imagens de satélite, sobretudo as de radar, que esquadrinham as características do terreno mesmo em dias cheios de nuvens, o esqueleto da rede de paleorrios e paleocanais pode ser divisado pelos olhos treinados dos cientistas. Vêm à tona feições que hoje se encontram encobertas e camufladas pelo solo e sua vegetação. Às vezes, o antigo leito abandonado, hoje coberto por floresta ou savana, se encontra numa área em que não sobrou mais nenhum curso d’água nos arredores. Tudo foi aterrado. Em outras ocasiões, está próximo ao que restou do velho rio, que, devido ao tectonismo, teve de alterar o caminho pelo qual suas águas cortavam o relevo. Situado na porção dominada pela savana em Marajó, o atual maior lago da ilha, o Arari, está encaixado no paleoestuário que era alimentado por um rio hoje desaparecido que se originava no continente.
Em outras partes da Amazônia, o movimento nas falhas tectônicas igualmente alterou o curso de importantes rios e deixou uma série de paleocanais interconectados como vestígios desse chacoalhão na topografia. No centro-sul de Roraima, numa região dentro do Parque Nacional do Viruá a cerca de 190 quilômetros da capital Boa Vista, foi encontrada uma rede de paleorrios próximo da margem esquerda do atual rio Branco. Nessa mesma zona há uma extensa porção de savana em meio à floresta. “Alguns desses paleocanais ainda são ativos e podem ser tomados pelas águas na época das cheias”, diz o geógrafo Hiran Zani, que estuda a área em seu trabalho de doutorado sobre sensoriamento remoto no Inpe. “Datações preliminares da matéria orgânica preservada em amostras de sedimentos indicam que houve ali uma alteração de paisagem ao longo dos últimos 20 mil anos.”

Novo e velho Madeira – Um caso semelhante é o do rio Madeira na porção mais ao sul do estado do Amazonas. Nessa área, um segmento de 200 quilômetros de extensão do rio foi deslocado para leste em razão de um rearranjo de falhas tectônicas ocorrido há alguns milhares de anos. Vários dos afluentes da margem direita do Madeira também mudaram de lugar. Sobre os antigos leitos desses rios, que foram entupidos com sedimentos arenosos, cresceu uma vegetação do tipo campo ou cerrado. Em imagens de sensoriamento remoto e em fotos aéreas, esse tipo de vegetação mais aberta contrasta fortemente com a floresta de seu entorno. “Como na ilha de Marajó, as manchas de savana nessa região coincidem exatamente com os cursos dos antigos rios, hoje abandonados na paisagem”, afirma Dilce. “Somente mudanças climáticas no passado não teriam sido capazes de produzir faixas de savana que serpenteiam dentro da floresta e mimetizam os rios.”
Atribuir em boa medida a origem desses pontos isolados de savana na Amazônia à ocorrência de paleocanais de origem tectônica é uma ideia nova e ainda não consensual. O físico Luiz Carlos Pessenda, do Centro de Energia Nuclear da Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP), que participa de alguns estudos com Dilce na ilha de Marajó e em outros pontos da Região Norte, concorda apenas em parte com a tese da pesquisadora do Inpe. “Os dados geo­lógicos são importantes, mas complementares”, afirma Pessenda. “A questão climática é sempre relevante independentemente dos dados sobre tectonismo.” Segundo o físico, as manchas de campos e cerrados surgiram devido à maior aridez do clima na região entre 9 mil e 3 mil anos atrás. Estudos isotópicos e geoquímicos em solos e sedimentos lacustres indicam que pode ter chovido bem menos na Amazônia e na Região Nordeste durante esse período, inviabilizando a manutenção da floresta tropical em certas zonas e abrindo caminho para a instalação de campos e cerrados.
Numa questão Pessenda e Dilce estão 100% de acordo: as áreas de savana natural parecem estar perdendo espaço nos últimos anos e as florestas densas e fechadas caminham para tomar seu território. Isso deve ocorrer – a menos que haja novas mudanças de fundo no relevo ou no clima da Amazônia.

O PROJETO
Integração de dados biológicos e geológicos no baixo Tocantins-ilha de Marajó: chave na análise da biodiversidade – nº 2004/15518-6