Fogo amigo no Cerrado
11 de agosto de 2017
Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Quase
sempre apresentado como inimigo dos ecossistemas, o fogo é, no entanto,
indispensável para a preservação das savanas, como afirmam unanimemente
os estudiosos do assunto. No Brasil, o Cerrado, que constitui a mais
biodiversa savana do mundo, encontra-se seriamente ameaçado pela
conjunção de dois fatores: a expansão da fronteira agrícola e a
proibição do uso do fogo como método de manejo. É o que sustenta o
artigo
The need for a consistent fire policy for Cerrado conservation,
publicado
por Giselda Durigan, do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, e
James Ratter, do Botanic Garden Edinburgh, de Edimburgo, Escócia, no
Journal of Applied Ecology.
Estudo defende a necessidade da
queima criteriosa para a preservação da mais rica savana do mundo,
prodígio de biodiversidade e berço de importantes rios brasileiros (foto: Arthur de Magalhães Goulart/Wikimedia Commons)
Giselda Durigan,
que é também professora em programas de pós-graduação em Ciência
Florestal na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e em Ecologia na
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estuda o Cerrado há mais de
30 anos. Participou recentemente do projeto “Impacto de fatores
antrópicos (fogo, agricultura e pastoreio) sobre a biodiversidade em
savanas”,
apoiado pela FAPESP no âmbito do
Belmont Forum.
E, entre vários estudos em andamento, integra o projeto “Efeitos do
fogo e de sua supressão sobre a estrutura, a composição e a
biodiversidade do ecossistema no gradiente fisionômico do Cerrado na
Estação Ecológica de Santa Bárbara”, parcialmente apoiado pela National
Science Foundation, dos Estados Unidos.
"Nas savanas de todo o mundo, está ocorrendo um processo de
adensamento da vegetação, com perda de biodiversidade. E a principal
causa, no Brasil, é a supressão do fogo. O Cerrado vai ficando cada vez
mais cheio de árvores e começa a virar floresta. Como quatro quintos da
biodiversidade de plantas desse bioma estão no estrato herbáceo, virar
floresta constitui uma enorme perda de biodiversidade. A maioria das
plantas do Cerrado não suporta a sombra. Então, quando o dossel formado
pelas copas das árvores se fecha e sombreia o solo, centenas de espécies
de plantas endêmicas desaparecem”, afirmou a pesquisadora à
Agência FAPESP.
“Nosso estudo na Estação Ecológica de Santa Bárbara, na região oeste
do Estado de São Paulo, mostrou que, a partir de um determinado ponto de
adensamento, a transformação do Cerrado em floresta se torna
irreversível. Então, não podemos deixar que a biomassa transponha esse
ponto. É preciso ter um programa de queima. Todo mundo acha que fogo é
‘do mal’, em se tratando de ecossistemas. Porém o entendimento de que o
fogo é necessário, mas precisa ser manejado, é um consenso entre os
pesquisadores de savanas. Temos que reaprender a manejar o fogo como os
indígenas já faziam há milhares de anos”, continuou.
É preciso deixar logo claro que, quando fala no uso do fogo, Durigan
não se refere a queimadas indiscriminadas, mas a um método de manejo
criteriosamente estabelecido, com zoneamento da área total e cronograma
de queima, em sistema de rodízio.
O zoneamento define uma estrutura em
forma de mosaico e o cronograma estabelece as épocas certas para queimar
cada parte. Desse modo, uma parte é queimada em determinada época;
outra, alguns meses depois; outra no ano seguinte; e assim por diante.
Há um rodízio nas queimas das partes, mas o mosaico entre porções
recém-queimadas, porções queimadas há algum tempo e porções que não
queimam há muito tempo se mantém. Isso garante a reposição da vegetação e
assegura rotas de fuga e
habitats para os animais. “Na Estação
Ecológica de Santa Bárbara, estamos queimando áreas contínuas de 20 a 30
hectares, sem riscos para a flora, sem nenhuma perda de fauna, e com
grandes benefícios”, afirmou a pesquisadora.
“As savanas queimam espontaneamente.
As gramíneas do tipo C4,
que são
fundamentais para a existência das savanas, evoluíram há cerca de 8
milhões de anos, na presença do fogo, muito antes do surgimento da
espécie humana no planeta. O que não queremos é o fogo descontrolado.
Por que, recentemente, 60 mil hectares da Chapada dos Veadeiros
queimaram em poucos dias? Porque vinha sendo promovida uma política de
prevenção de incêndios. E isso fez com que se acumulasse uma quantidade
enorme de material combustível. Então, quando ocorreu um incêndio, ele
se disseminou de maneira descontrolada. O exemplo mais desastroso de
incêndio descontrolado foi o do Parque de Yellowstone, nos Estados
Unidos, onde também havia sido adotada uma política de prevenção de
incêndios. O resultado foi que, quando queimou, o parque queimou
inteiro, e foi uma calamidade, porque a fauna ficou sem
habitat, sem alimento”, argumentou Durigan.
Como informou a pesquisadora, as savanas são biomas de clima tropical
formados por árvores esparsas e solo coberto por gramíneas e plantas
herbáceas e arbustivas. Essas formações surgiram devido à conjugação de
dois fatores principais: um regime de chuvas bem característico, com
precipitações concentradas no verão e seca no inverno, geralmente
associado às propriedades do solo.
Chuva sobre a areia
Quando chove sobre um solo argiloso, mais barrento, a água fica
retida por longo tempo. Mas, quando chove sobre a areia, bastam dois
dias de estiagem para que o solo fique seco de novo. Então, em uma
região de clima tropical onde exista um mosaico de florestas e savanas,
como o oeste do Estado de São Paulo, se o solo é mais argiloso, a
vegetação predominante é de tipo florestal, porque a floresta é mais
exigente em água. Se o solo é mais arenoso, os três meses de seca,
comuns nesta região, são suficientes para dificultar que a vegetação de
tipo florestal colonize a área. E, nesse caso, o Cerrado se estabelece.
Suas árvores têm raízes muito profundas e buscam a água acumulada no
subsolo por chuvas ocorridas meses antes. O que manda é a
disponibilidade de água no solo para as plantas, que dependem de quanto
chove e de quanto o solo armazena.
Todas as savanas do mundo apresentam duas características
determinantes: uma estação seca prolongada e o fogo como fator natural
de seleção e pressão evolutiva. As plantas do Cerrado evoluíram na
presença do fogo. E se adaptaram a isso. As árvores rústicas do Cerrado
são, com frequência, revestidas por súber espesso – algo como uma manta,
formada por células mortas, que envolve troncos e galhos. Quando o
Cerrado queima, o súber age como isolante térmico, impedindo que as
altas temperaturas atinjam os tecidos vivos internos. O súber queima
externamente, mas a árvore sobrevive, e um novo súber é formado. Quanto
às gramíneas, elas logo rebrotam. E bastam dois meses para que o Cerrado
queimado se transforme em um exuberante jardim.
“A extraordinária resiliência do Cerrado, isto é, sua capacidade de
reagir às perturbações, deve-se especialmente à estrutura subterrânea
das plantas, que rebrotam inúmeras vezes. Daí o risco à sobrevivência do
Cerrado constituído atualmente pela expansão agrícola. Porque, quando a
pecuária foi instalada no Cerrado, houve desmatamento e mudança da
paisagem, com o predomínio de fisionomias campestres, vegetação muito
aberta e poucas árvores. Mas a estrutura subterrânea das plantas foi, em
geral, preservada e, assim, não ocorreu perda total de biodiversidade.
Com a agricultura é diferente. As estruturas subterrâneas são
deliberadamente destruídas, porque é necessário eliminar toda a
vegetação preexistente e sua capacidade de rebrota para tornar a área
cultivável. Então, são utilizados equipamentos que cortam as raízes em
profundidade e herbicidas poderosos que deixam o solo completamente
limpo. Não sobra nada do Cerrado que existia antes”, explicou Durigan.
Além da perda de biodiversidade e da destruição de uma paisagem
maravilhosa, a expansão agrícola, por um lado, e a incompreensão da
necessidade do fogo, por outro, vêm acarretando mais uma consequência
gravíssima para o Cerrado: o impacto sobre as águas. “O maior valor do
Cerrado entre os biomas brasileiros, e seu maior valor comparativamente
ao de outras savanas do mundo, é a produção de água. Alguns dos mais
importantes rios do Brasil – o Xingu, o Tocantins, o Araguaia, o São
Francisco, o Parnaíba, o Gurupi, o Jequitinhonha, o Paraná, o Paraguai,
entre outros – nascem no Cerrado. Acabar com o Cerrado é comprometer a
sobrevivência desses rios, não apenas como manancial de água doce, mas
também potencial hidrelétrico. Vamos lembrar que 77,2% da matriz
elétrica brasileira é suprida pela hidroeletricidade. O Brasil possui o
terceiro maior potencial hidrelétrico tecnicamente aproveitável do
mundo. E está colocando esse precioso recurso em risco”, alertou a
pesquisadora.
O Cerrado é a única savana do mundo dotada de rios perenes. Nas
savanas da África, da Ásia e da Oceania, os rios, em sua maioria, são
sazonais: desaparecem na estação seca e causam enchentes calamitosas na
estação chuvosa. Esse bioma, ainda predominante no Brasil Central, que
se estende do Maranhão até o Paraguai, cobria originalmente mais de 2
milhões de quilômetros quadrados, cerca de 25% do território brasileiro.
Suas paisagens agrestes, tantas vezes subestimadas no passado, e ainda
hoje mal compreendidas, escondem uma biodiversidade fabulosa. “Somente
agora, com o estudo de grande porte desenvolvido já há três anos na
Estação Ecológica de Santa Bárbara, estamos conseguindo fazer o
levantamento de todas as espécies, inclusive as do estrato herbáceo. Há
trechos em que encontramos 35 espécies diferentes de plantas por metro
quadrado. No conjunto da estação, já amostramos quase 500 espécies
diferentes de plantas. E tem colegas estudando a fauna: cobras,
lagartos, sapos, formigas etc.”, contabilizou Durigan.
Para avaliar a importância de 35 espécies diferentes de plantas por
metro quadrado, basta considerar que essa biodiversidade é, na
microescala, superior à da floresta tropical. “A floresta tropical
possui uma incrível biodiversidade na macroescala, mas não é tão diversa
na microescala. Na microescala, o Cerrado só perde em biodiversidade
para os Pampas, que chegam a ter mais de 50 espécies por metro
quadrado”, sublinhou a pesquisadora.
O projeto em andamento está fazendo o levantamento completo da
biodiversidade em um gradiente que vai do campo aberto ao cerradão –
formação caracterizada por uma vegetação muito adensada, com grande
predomínio de árvores. E analisando também o efeito do fogo sobre essa
biodiversidade.
“Temos registros do uso do fogo pelos indígenas desde há milhares de
anos. Eles queimavam por diferentes motivos e, portanto, com diferentes
frequências. Alguns para facilitar a caça, outros para aumentar a
produtividade de espécies vegetais utilizadas como alimento. Precisamos
conjugar essa sabedoria ancestral com o conhecimento científico de
vanguarda. Nosso objetivo é fornecer subsídios para uma política
responsável e consistente de uso do fogo”, finalizou Durigan.