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domingo, 27 de dezembro de 2015

PALEONTOLOGIA DO BRASIL

A floresta da água e do fogo

Fósseis em mina de carvão no Rio Grande do Sul revelam paisagem pantanosa sujeita a incêndios frequentes há 290 milhões de anos 

MARIA GUIMARÃES | ED. 234 | AGOSTO 2015
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© JOALICE DE OLIVEIRA MENDONÇA UFRJ/CC MN/IGEO / LAFO
Possível estrutura produtora de pólen ao microscópio de fluorescência
Possível estrutura produtora de pólen ao microscópio de fluorescência.

Muito mudou na paisagem da região Sul do Brasil nos últimos 290 milhões de anos. A América do Sul se separou da África e ergueu-se a serra Geral, cujas montanhas acompanham de perto o que hoje é a costa dos estados do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Registros preservados nas rochas sugerem que, antes disso, a região tinha áreas alagadas onde brotavam árvores de cerca de 15 metros de altura do grupo das pteridospermas, coníferas ancestrais que dominavam o que hoje são ambientes geradores de carvão no hemisfério Sul.

O grupo da paleobotânica Margot Guerra-Sommer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), obteve mais do que fósseis em expedições à mina de carvão de Faxinal, no município gaúcho de Arroio dos Ratos. As rochas dali preservaram informações paleoecológicas que contam uma história de incêndios recorrentes em um ambiente onde se imaginava uma umidade constante.

“No meio do carvão mineral encontramos fragmentos de troncos com cerca de 20 centímetros de diâmetro”, conta a bióloga Isabela Degani-Schmidt, doutoranda no laboratório de Margot. O achado é incomum porque a matéria orgânica vegetal queimada é extremamente delicada e costuma quebrar-se em fragmentos de no máximo 4 a 5 centímetros no caminho até o local no qual fica acumulada e encontra condições de ser preservada para a posteridade. Não foi o que aconteceu na região estudada pelo grupo de Margot. Os fósseis de dimensões incomuns indicam que as árvores da região foram queimadas em pé. Os troncos, depois de caídos, permaneceram no mesmo lugar em que seriam encontrados bem mais tarde por mineradores e pesquisadores.
© JOALICE DE OLIVEIRA MENDONÇA UFRJ/CC MN/IGEO / LAFO
Brilho indica que pólen não foi queimado
Brilho indica que pólen não foi queimado.

O material guarda registros importantes do ambiente da época (início do período geológico conhecido como Permiano) naquela região, que agora podem ser interpretados. A fossilização dos troncos e das folhas indica que eram florestas em ambiente pantanoso. “São condições propícias à fossilização porque o material vegetal que cai na água acumula-se em um ambiente ácido inóspito para as bactérias e fungos responsáveis pela decomposição”, explica Isabela. Por isso, a ideia até agora era de um pântano permanente na região. “Nessa turfeira alagada em todas as estações, não se imaginaria que ocorressem incêndios.”
Os achados recentes, publicados na edição de julho da revista International Journal of Coal Geology, pintam, porém, um quadro mais complexo. “O ambiente provavelmente nunca ficava seco”, propõe a pesquisadora, “mas haveria um período suficientemente seco para permitir incêndios naturais, que indicam nessas ocasiões uma atmosfera muito mais rica em oxigênio do que a atual”.
O estudo de amostras de troncos e pólen por microscopia de fluorescência e eletrônica de varredura revelou também que não eram incêndios avassaladores. A medula dos troncos e os pólens não foram carbonizados, revelando temperaturas relativamente baixas. Isabela interpreta o achado como indicação de que as estações secas nunca eliminavam por completo a umidade e o solo provavelmente ficava sempre recoberto por um filme d’água, favorecendo a fossilização no próprio local e pela queima incompleta.
© IS ABELA DEGANI-SCHMIDT
Vistas a olho nu...
Folhas carbonificadas…

Flora especializada
 
A hipótese mais plausível para a origem dos incêndios, segundo Isabela, é que seriam causados por raios. Outra possibilidade aventada seria vulcanismo, reforçada pela presença de uma camada de rocha de cor branca, rica em folhas fossilizadas, em meio ao carvão, interpretada como cinza vulcânica. Examinando essa camada de rocha, o grupo de Margot concluiu que as cinzas já teriam caído frias sobre a região e devem ter vindo de longe. Ainda não se sabe de onde. “Não há indícios de fontes de atividade vulcânica por ali”, afirma Isabela.

Mais do que uma flora carbonizada, os achados revelam uma dinâmica ecológica. A pesquisadora defende que a mata era adaptada ao fogo. “Encontramos a deposição de fósseis de pteridospermas em camadas diferentes, indicando que essas plantas permaneciam ali ao longo do tempo”, explica. Falta determinar se tinham recursos para subsistir nessas condições. “Estamos analisando estruturas nas folhas para ver se tinham especializações nesse sentido.”
© IS ABELA DEGANI-SCHMIDT
...folhas carbonificadas
…Vistas a olho nu.

Os fósseis encontrados, assim como as condições ambientais que eles permitem inferir, podem ser uma pista de que a diversidade vegetal era um tanto limitada por ali, determinada pela capacidade de resistir aos incêndios constantes. São estudos curiosos porque revelam uma paisagem da qual já não há vestígios vivos, com protagonistas completamente extintos. Antes vistas como um elo evolutivo entre as samambaias e as coníferas, as pteridospermas pertenciam a um grupo de gimnospermas ancestrais cujos parentes mais próximos atuais são, provavelmente, as cicas e o ginkgo. “Não há nada parecido hoje no local”, conta a pesquisadora, que não conhece nenhuma paisagem como a que vê desenhar-se a partir dos fósseis. “Só analisando as rochas para extrair o que está preservado.”

Artigo científico
 
DEGANI-SCHMIDT, I., et al. Charcoalified logs as evidence of hypautochthonous/autochthonous wildfire events in a peat-forming environment from the Permian of southern Paraná Basin (Brazil). International Journal of Coal Geology, v. 146, p. 55-67. 1º jul. 2015.

domingo, 30 de agosto de 2015

 PALEONTOLOGIA

A floresta da água e do fogo

Fósseis em mina de carvão no Rio Grande do Sul revelam paisagem pantanosa sujeita a incêndios frequentes há 290 milhões de anos 

MARIA GUIMARÃES | ED. 234 | AGOSTO 2015
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© JOALICE DE OLIVEIRA MENDONÇA UFRJ/CC MN/IGEO / LAFO
Possível estrutura produtora de pólen ao microscópio de fluorescência
Possível estrutura produtora de pólen ao microscópio de fluorescência

Muito mudou na paisagem da região Sul do Brasil nos últimos 290 milhões de anos. A América do Sul se separou da África e ergueu-se a serra Geral, cujas montanhas acompanham de perto o que hoje é a costa dos estados do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Registros preservados nas rochas sugerem que, antes disso, a região tinha áreas alagadas onde brotavam árvores de cerca de 15 metros de altura do grupo das pteridospermas, coníferas ancestrais que dominavam o que hoje são ambientes geradores de carvão no hemisfério Sul. O grupo da paleobotânica Margot Guerra-Sommer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), obteve mais do que fósseis em expedições à mina de carvão de Faxinal, no município gaúcho de Arroio dos Ratos. As rochas dali preservaram informações paleoecológicas que contam uma história de incêndios recorrentes em um ambiente onde se imaginava uma umidade constante.

“No meio do carvão mineral encontramos fragmentos de troncos com cerca de 20 centímetros de diâmetro”, conta a bióloga Isabela Degani-Schmidt, doutoranda no laboratório de Margot. O achado é incomum porque a matéria orgânica vegetal queimada é extremamente delicada e costuma quebrar-se em fragmentos de no máximo 4 a 5 centímetros no caminho até o local no qual fica acumulada e encontra condições de ser preservada para a posteridade. Não foi o que aconteceu na região estudada pelo grupo de Margot.

Os fósseis de dimensões incomuns indicam que as árvores da região foram queimadas em pé. Os troncos, depois de caídos, permaneceram no mesmo lugar em que seriam encontrados bem mais tarde por mineradores e pesquisadores.

© JOALICE DE OLIVEIRA MENDONÇA UFRJ/CC MN/IGEO / LAFO
Brilho indica que pólen não foi queimado
Brilho indica que pólen não foi queimado.

O material guarda registros importantes do ambiente da época (início do período geológico conhecido como Permiano) naquela região, que agora podem ser interpretados. A fossilização dos troncos e das folhas indica que eram florestas em ambiente pantanoso. “São condições propícias à fossilização porque o material vegetal que cai na água acumula-se em um ambiente ácido inóspito para as bactérias e fungos responsáveis pela decomposição”, explica Isabela. Por isso, a ideia até agora era de um pântano permanente na região. “Nessa turfeira alagada em todas as estações, não se imaginaria que ocorressem incêndios.”

Os achados recentes, publicados na edição de julho da revista International Journal of Coal Geology, pintam, porém, um quadro mais complexo. “O ambiente provavelmente nunca ficava seco”, propõe a pesquisadora, “mas haveria um período suficientemente seco para permitir incêndios naturais, que indicam nessas ocasiões uma atmosfera muito mais rica em oxigênio do que a atual”.

O estudo de amostras de troncos e pólen por microscopia de fluorescência e eletrônica de varredura revelou também que não eram incêndios avassaladores. A medula dos troncos e os pólens não foram carbonizados, revelando temperaturas relativamente baixas. Isabela interpreta o achado como indicação de que as estações secas nunca eliminavam por completo a umidade e o solo provavelmente ficava sempre recoberto por um filme d’água, favorecendo a fossilização no próprio local e pela queima incompleta.
© IS ABELA DEGANI-SCHMIDT
Vistas a olho nu...
Folhas carbonificadas…

Flora especializada

A hipótese mais plausível para a origem dos incêndios, segundo Isabela, é que seriam causados por raios. Outra possibilidade aventada seria vulcanismo, reforçada pela presença de uma camada de rocha de cor branca, rica em folhas fossilizadas, em meio ao carvão, interpretada como cinza vulcânica. Examinando essa camada de rocha, o grupo de Margot concluiu que as cinzas já teriam caído frias sobre a região e devem ter vindo de longe. Ainda não se sabe de onde. “Não há indícios de fontes de atividade vulcânica por ali”, afirma Isabela.
Mais do que uma flora carbonizada, os achados revelam uma dinâmica ecológica. A pesquisadora defende que a mata era adaptada ao fogo. “Encontramos a deposição de fósseis de pteridospermas em camadas diferentes, indicando que essas plantas permaneciam ali ao longo do tempo”, explica. Falta determinar se tinham recursos para subsistir nessas condições. “Estamos analisando estruturas nas folhas para ver se tinham especializações nesse sentido.”
© IS ABELA DEGANI-SCHMIDT
...folhas carbonificadas
…Vistas a olho nu
Os fósseis encontrados, assim como as condições ambientais que eles permitem inferir, podem ser uma pista de que a diversidade vegetal era um tanto limitada por ali, determinada pela capacidade de resistir aos incêndios constantes. São estudos curiosos porque revelam uma paisagem da qual já não há vestígios vivos, com protagonistas completamente extintos. Antes vistas como um elo evolutivo entre as samambaias e as coníferas, as pteridospermas pertenciam a um grupo de gimnospermas ancestrais cujos parentes mais próximos atuais são, provavelmente, as cicas e o ginkgo. “Não há nada parecido hoje no local”, conta a pesquisadora, que não conhece nenhuma paisagem como a que vê desenhar-se a partir dos fósseis. “Só analisando as rochas para extrair o que está preservado.”

Artigo científico

DEGANI-SCHMIDT, I., et al. Charcoalified logs as evidence of hypautochthonous/autochthonous wildfire events in a peat-forming environment from the Permian of southern Paraná Basin (Brazil). International Journal of Coal Geology, v. 146, p. 55-67. 1º jul. 2015.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015


A floresta da água e do fogo

Fósseis em mina de carvão no Rio Grande do Sul revelam paisagem pantanosa sujeita a incêndios frequentes há 290 milhões de anos 

MARIA GUIMARÃES | ED. 234 | AGOSTO 2015
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© JOALICE DE OLIVEIRA MENDONÇA UFRJ/CC MN/IGEO / LAFO
Possível estrutura produtora de pólen ao microscópio de fluorescência
Possível estrutura produtora de pólen ao microscópio de fluorescência.

Muito mudou na paisagem da região Sul do Brasil nos últimos 290 milhões de anos. A América do Sul se separou da África e ergueu-se a serra Geral, cujas montanhas acompanham de perto o que hoje é a costa dos estados do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Registros preservados nas rochas sugerem que, antes disso, a região tinha áreas alagadas onde brotavam árvores de cerca de 15 metros de altura do grupo das pteridospermas, coníferas ancestrais que dominavam o que hoje são ambientes geradores de carvão no hemisfério Sul.

O grupo da paleobotânica Margot Guerra-Sommer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), obteve mais do que fósseis em expedições à mina de carvão de Faxinal, no município gaúcho de Arroio dos Ratos. As rochas dali preservaram informações paleoecológicas que contam uma história de incêndios recorrentes em um ambiente onde se imaginava uma umidade constante.

“No meio do carvão mineral encontramos fragmentos de troncos com cerca de 20 centímetros de diâmetro”, conta a bióloga Isabela Degani-Schmidt, doutoranda no laboratório de Margot. O achado é incomum porque a matéria orgânica vegetal queimada é extremamente delicada e costuma quebrar-se em fragmentos de no máximo 4 a 5 centímetros no caminho até o local no qual fica acumulada e encontra condições de ser preservada para a posteridade. Não foi o que aconteceu na região estudada pelo grupo de Margot. Os fósseis de dimensões incomuns indicam que as árvores da região foram queimadas em pé. Os troncos, depois de caídos, permaneceram no mesmo lugar em que seriam encontrados bem mais tarde por mineradores e pesquisadores.

© JOALICE DE OLIVEIRA MENDONÇA UFRJ/CC MN/IGEO / LAFO
Brilho indica que pólen não foi queimado
Brilho indica que pólen não foi queimado.

O material guarda registros importantes do ambiente da época (início do período geológico conhecido como Permiano) naquela região, que agora podem ser interpretados. A fossilização dos troncos e das folhas indica que eram florestas em ambiente pantanoso. “São condições propícias à fossilização porque o material vegetal que cai na água acumula-se em um ambiente ácido inóspito para as bactérias e fungos responsáveis pela decomposição”, explica Isabela.

Por isso, a ideia até agora era de um pântano permanente na região. “Nessa turfeira alagada em todas as estações, não se imaginaria que ocorressem incêndios.”
Os achados recentes, publicados na edição de julho da revista International Journal of Coal Geology, pintam, porém, um quadro mais complexo. “O ambiente provavelmente nunca ficava seco”, propõe a pesquisadora, “mas haveria um período suficientemente seco para permitir incêndios naturais, que indicam nessas ocasiões uma atmosfera muito mais rica em oxigênio do que a atual”.

O estudo de amostras de troncos e pólen por microscopia de fluorescência e eletrônica de varredura revelou também que não eram incêndios avassaladores. A medula dos troncos e os pólens não foram carbonizados, revelando temperaturas relativamente baixas. Isabela interpreta o achado como indicação de que as estações secas nunca eliminavam por completo a umidade e o solo provavelmente ficava sempre recoberto por um filme d’água, favorecendo a fossilização no próprio local e pela queima incompleta.
© IS ABELA DEGANI-SCHMIDT
Vistas a olho nu...
Folhas carbonificadas…
Flora especializada
A hipótese mais plausível para a origem dos incêndios, segundo Isabela, é que seriam causados por raios. Outra possibilidade aventada seria vulcanismo, reforçada pela presença de uma camada de rocha de cor branca, rica em folhas fossilizadas, em meio ao carvão, interpretada como cinza vulcânica. Examinando essa camada de rocha, o grupo de Margot concluiu que as cinzas já teriam caído frias sobre a região e devem ter vindo de longe. Ainda não se sabe de onde. “Não há indícios de fontes de atividade vulcânica por ali”, afirma Isabela.
Mais do que uma flora carbonizada, os achados revelam uma dinâmica ecológica. A pesquisadora defende que a mata era adaptada ao fogo. “Encontramos a deposição de fósseis de pteridospermas em camadas diferentes, indicando que essas plantas permaneciam ali ao longo do tempo”, explica. Falta determinar se tinham recursos para subsistir nessas condições. “Estamos analisando estruturas nas folhas para ver se tinham especializações nesse sentido.”
© IS ABELA DEGANI-SCHMIDT
...folhas carbonificadas
…Vistas a olho nu
Os fósseis encontrados, assim como as condições ambientais que eles permitem inferir, podem ser uma pista de que a diversidade vegetal era um tanto limitada por ali, determinada pela capacidade de resistir aos incêndios constantes. São estudos curiosos porque revelam uma paisagem da qual já não há vestígios vivos, com protagonistas completamente extintos. Antes vistas como um elo evolutivo entre as samambaias e as coníferas, as pteridospermas pertenciam a um grupo de gimnospermas ancestrais cujos parentes mais próximos atuais são, provavelmente, as cicas e o ginkgo. “Não há nada parecido hoje no local”, conta a pesquisadora, que não conhece nenhuma paisagem como a que vê desenhar-se a partir dos fósseis. “Só analisando as rochas para extrair o que está preservado.”

Artigo científico

DEGANI-SCHMIDT, I., et al. Charcoalified logs as evidence of hypautochthonous/autochthonous wildfire events in a peat-forming environment from the Permian of southern Paraná Basin (Brazil). International Journal of Coal Geology, v. 146, p. 55-67. 1º jul. 2015.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A new prozostrodontian cynodont (Therapsida) from the Late Triassic Riograndia Assemblage Zone (Santa Maria Supersequence) of Southern Brazil. 

An. Acad. Bras. Ciênc. [online]. 2014, vol.86, n.4, pp. 1673-1691.  Epub Nov 28, 2014. ISSN 0001-3765.  http://dx.doi.org/10.1590/0001-3765201420140455.

Nós reportamos aqui um novo cinodonte prozostrodonte, Botucaraitherium belarminoi gen. et sp. nov., do Triássico Tardio da Zona de Assembleia (ZA) de Riograndia da Sequência Candelária (Supersequência Santa Maria), coletado no afloramento Sítio Botucaraí, no município de Candelária, Rio Grande do Sul, Brasil.

O novo táxon está baseado em um único espécime (holótipo MMACR-PV003-T) o qual inclui a mandíbula esquerda, sem os ossos pós-dentários, com a raiz do último incisivo preservada, o canino e quatro dentes pós-caninos, além de uma coroa parcial, não erupcionada, do quinto pós-canino, e dois fragmentos maxilares, um com um canino quebrado, e outro portando apenas um dente pós-canino. As feições mandibulares e dentárias assemelham-se àquelas dos cinodontes prozostrodontes Prozostrodon brasiliensis da ZAde Hyperodapedon, mais antiga, e de Brasilodon quadrangularis e Brasilitherium riograndensis da mesma ZA de Riograndia.

A inclusão de Botucaraitherium em uma ampla análise filogenética posicionou-o como um táxon mais derivado do que os tritilodontídeos, sendo o táxon-irmão de Brasilodon, Brasilitherium e mais Mammaliaformes. Apesar de o novo táxon ser baseado em poucos elementos cranianos, ele representa um componente faunístico adicional na ZA de Riograndia do Triássico sul-brasileiro, na qual os cinodontes não-mamaliaformes de pequeno tamanho, intimamente relacionados à origem dos mamíferos, foram ecologicamente bem sucedidos e taxonomicamente diversos.

Keywords : Cynodontia; Prozostrodontia; Supersequência Santa Maria; Triássico.

        · abstract in English     · text in English     · pdf in English
The sea-level highstand correlated to marine isotope stage (MIS) 7 in the coastal plain of the state of Rio Grande do Sul, Brazil. 

An. Acad. Bras. Ciênc. [online]. 2014, vol.86, n.4, pp. 1573-1595.  Epub Dec 09, 2014. ISSN 0001-3765.  http://dx.doi.org/10.1590/0001-3765201420130274.

A planície costeira do estado do Rio Grande do Sul, no sul do Brasil, inclui quatro sistemas deposicionais do tipo laguna-barreira formados por sucessivas transgressões marinhas do Quaternário, correlacionadas aos estágios isotópicos marinhos (MIS) 11, 9, 5 e 1, apesar da escassez de idades absolutas. Este estudo descreve um máximo transgressivo marinho mais antigo que o MIS 5, com base na estratigrafia, datações e fósseis encontrados na fácies marinho raso de uma barreira costeira (Barreira II).

Esta fácies encontra-se exposta ao longo das barrancas do Arroio Chuí, é composto por areia quartzosa fina, bem-selecionada, com icnofósseis Ophiomorpha nodosa e Rosselia sp., e conchas de moluscos. O registro sedimentar indica agradação da costa seguida por regressão do nível do mar e progradação da linha de costa. Datações por termoluminescência (TL) e ressonância do spin do elétron (ESR) em sedimentos e conchas fósseis indicam uma idade de ∼220 ka para o final desta transgressão, correlacionando-a, portanto, ao MIS 7 (sub-estágio 7e). Dados altimétricos indicam amplitude máxima de aproximadamente 10 metros acima do nível atual do mar, mas processos tectônicos podem estar envolvidos. Condições paleoceanográficas à época da transgressão e correlações com outros depósitos da costa brasileira também são discutidos.
Keywords : Barreira II; Arroio Chuí; MIS 7; Pleistoceno; Paleoceanografia.
        · abstract in English     · text in English     · pdf in English

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Tecodonte do Rio Grande do Sul é descoberto



Exemplar descoberto em escavação na região central do RS é o mais conservado já localizado

11 de maio de 2010



A descoberta de um fóssil quase completo do superpredador tecodonte Prestosuchus chiniquensis, no município de Dona Francisca, no Rio Grande do Sul, atraiu a atenção da imprensa internacional. Após apresentação feita pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), na última segunda-feira, dia 10, veículos como os britânicos Telegraph, Daily Mirror e Fox News repercutiram a notícia da espécie que tinha aproximadamente 7 m de comprimento e pesava 900 kg. O animal viveu no período Triássico (há aproximadamente 238 milhões de anos) e é um ancestral dos dinossauros.

Praticamente intacto, um fóssil de tecodonte considerado o mais completo e conservado já encontrado foi apresentado ontem por pesquisadores da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Localizado em Dona Francisca, na região central do Estado, o Prestosuchus, que viveu na região central do Estado há 238 milhões de anos, foi mostrado pelos autores da descoberta, o paleontólogo Sérgio Furtado Cabreira, da Ulbra de Canoas, e o biólogo Lúcio Roberto da Silva, da Ulbra de Cachoeira do Sul.

Ancestral do crocodilo, o esqueleto do animal foi localizado há cerca de um mês, em uma área na localidade de Linha do Soturno, a poucos metros do trevo de acesso ao município. O sítio paleontológico é explorado pelo Projeto Ulbra Paleontologia, da Ulbra de Canoas, e Museu de Ciências Naturais, há cerca de 12 anos. Conforme os pesquisadores, trata-se de um exemplar adulto que media cerca de sets metros de comprimento e 1m60cm de altura. Apesar do peso – em torno de uma tonelada – o quadrúpede era ágil, veloz e um carnívoro feroz, sendo o predador mais temido da época.

– Ele se alimentava de tudo que se movesse – diz Cabreira.

No período Triássico Médio, quando os tecodontes habitaram o planeta (antes dos dinossauros surgirem), o local onde o animal foi achado era um lago muito procurado, em tempos de seca, por outras espécies, que acabavam se tornando presas fáceis para os predadores. Os Prestosuchus ficavam nos arredores esperando a hora certa para atacar. Para os pesquisadores, o fato de ter havido água no lugar também explicaria a conservação do esqueleto. É provável que ele tenha sido coberto pela lama, dois ou três dias após ter morrido.

– Pelo estado de conservação do crânio, será possível identificar de qual espécie este e outros fósseis já descobertos do gênero pertencem – avalia o geólogo e professor de paleontologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Átila Augusto.

Há cerca de três anos, máquinas teriam retirado terra da área para construções particulares. Para Cabreira, a ação pode ter destruído ou espalhado muitas estruturas, mas, ao mesmo tempo, deixou o fóssil do Prestosuchus mais próximo da superfície. A chuva dos primeiros meses do ano terminou o serviço, deixando à mostra parte da escápula – osso do ombro – do bicho.

O bloco de rocha onde está depositado o animal ganhou um reforço de gesso em toda a volta para resistir à remoção, que deve ocorrer na quinta-feira. O bloco será levado em um caminhão para o Museu de Ciências Naturais da Ulbra de Canoas. Até lá, está aberto à visitação por estudantes das escolas da região.

Fonte: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora