Antes dos dinossauros
Mais antigos que os dinossauros, os ‘pelicossauros’ chegaram
a ser os vertebrados dominantes na Terra entre 300 e 250 milhões de
anos atrás. De aspecto estranho, essas formas extintas são o tema da
coluna deste mês de Alexander Kellner.
Por:
Alexander Kellner
Publicado em 21/02/2014
|
Atualizado em 21/02/2014
O desenho reproduz a aparência de um ‘Edaphosaurus’,
‘pelicossauro’ herbívoro que viveu há cerca de 300 milhões de anos.
(imagem: Wikimedia Commons/ ДиБгд)
Muitas vezes recebo mensagens de colegas e leitores perguntando como
escolho os temas de minha coluna. Geralmente procuro destacar novidades
que acabam de ser publicadas ou tomo por base dicas que recebo de
pesquisadores. Mas também recebo sugestões de leitores sobre temas
interessantes. Esse é o caso da proposta de Jéssica Reis, que pediu para
que eu escrevesse sobre os ‘pelicossauros’.
Confesso que no início a ideia não me entusiasmou tanto. Mas isso
mudou à medida que ia preparando o texto. Além de possibilitar a
divulgação de uma obra de revisão recém-publicada sobre esses animais, o
tema permite falar de vertebrados que antecederam os dinossauros no
domínio dos ambientes terrestres e torna possível mencionar a principal
extinção em massa ocorrida no planeta. Além disso, escrever sobre os
‘pelicossauros’ acaba nos levando a falar sobre o início da carreira de
um importante pesquisador brasileiro.
A obra mencionada intitula-se
Primeiros estágios da história evolutiva dos sinapsídeos (tradução livre de
Early evolutionary history of the Synapsida).
Esse livro, o mais recente sobre os ‘pelicossauros’, foi publicado pela
editora Springer e editado por Christian Kammerer, Kenneth Angielczyk e
Jörg Fröbisch. Os capítulos abordam os principais aspectos desses
vertebrados e foram escritos pelos pesquisadores que mais os estudaram.
Mas, afinal, como eram esses animais?
Os amniotas
Para explicar o que são os ‘pelicossauros’, temos que entender
primeiro os amniotas, grupo de vertebrados que desenvolveram uma
membrana (chamada amniótica) para proteger o embrião. Tal característica
os tornou menos dependentes da água para seu desenvolvimento
embrionário e evitava que eles tivessem que passar por um estágio larvar
seguido de metamorfose, como ocorre com os anfíbios. Geralmente os
amniotas possuem ovos de casca dura que podem ser postos em terra firme e
não mais dentro de corpos aquosos. Eles podem ser divididos em dois
grandes grupos: os répteis e os sinapsídeos.
Para explicar o que são os ‘pelicossauros’, temos que entender primeiro
os amniotas, grupo de vertebrados que desenvolveram uma membrana
(chamada amniótica) para proteger o embrião
De forma simplificada, dentro do agrupamento Reptilia encontramos os
dinossauros, pterossauros e crocodilomorfos (e muitos outros), enquanto
os Synapsida reúnem os mamíferos e formas aparentadas. Não conhecemos um
ancestral direto que teria dado origem aos amniotas, mas podemos dizer
que deve ter sido um animal que estava perdendo os hábitos anfíbios e
pelo menos iniciando o desenvolvimento do ovo amniótico.
Entre os primeiros vertebrados que podem ser classificados como
Amniota, alguns têm características semelhantes aos mamíferos, como uma
abertura na parte posterior do crânio, distinta da que se observa nos
répteis (na região lateral, após a órbita). Dessa condição, denominada
sinápsida, deriva o nome do grupo. Por outro lado, a dentição mais
uniforme e o aspecto do corpo que lembra superficialmente os répteis
levaram os pesquisadores a se referir a esses vertebrados como “répteis
mamaliformes”, que foram classificados em um grupo denominado
‘Pelycosauria’.
Hoje se evita esse termo, já que é um agrupamento considerado
parafilético, isto é, incompleto, não reunindo todos os organismos que
representam a história evolutiva do grupo. Por isso usamos o termo
‘pelicossauros’, entre aspas, significando uma aplicação mais informal.

- Esqueleto de
‘Edaphosaurus’ montado no Museu Field, em Chicago, Estados Unidos. Sua
marca peculiar é a presença de vértebras com espinho neural alto,
formando uma espécie de vela no dorso. (imagem: Andrew Y. Huang/
Wikimedia Commons – CC BY-SA 3.0)
Dessa forma, os ‘pelicossauros’ não são répteis, mas sinapsídeos
basais. As espécies mais antigas foram encontradas em rochas da Nova
Escócia, no Canadá, cuja idade varia de 314 e 311 milhões de anos. Cabe
salientar que o réptil mais antigo que se conhece (
Hylonomus, de crânio do tipo anápsida, ou seja, desprovido de aberturas temporais) também foi encontrado nos mesmos depósitos.
A maioria desses ‘pelicossauros’ foi encontrada na Europa e América
do Norte. Eles se extinguiram durante o Permiano, alguns milhões de anos
antes da maior extinção em massa ocorrida na Terra, há cerca de 252
milhões de anos (o limite Permiano-Triássico). Estimativas sugerem que
cerca de 95% das espécies marinhas e perto de 70% da formas terrestres
se extinguiram. Esse evento foi bem mais intenso e destrutivo que a
extinção em massa ocorrida há 66-65 milhões de anos, que dizimou a
maioria dos dinossauros e diversos outros grupos de vertebrados.
Edaphosaurus e Dimetrodon
Voltemos aos sinapsídeos basais, os ‘pelicossauros’. São conhecidos
seis principais grupos (Caseidae, Edaphosauridae, Eothyrididae,
Varanopidae, Ophiacodontidae e Sphencodontia), e todos eles
desenvolveram estratégias alimentares diferentes.
Os sinapsídeos basais mais famosos talvez sejam Edaphosaurus e Dimetrodon
Os sinapsídeos basais mais famosos talvez sejam
Edaphosaurus e
Dimetrodon. Com base no exame de sua dentição,
Edaphosaurus
é tido como forma herbívora que se alimentava de plantas de folhas
espessas e resistentes. Tinha cabeça relativamente pequena se comparada
com o corpo. Mas sua característica mais peculiar é a presença de
vértebras com o espinho neural bastante alto, formando uma espécie de
vela no dorso.
E o mais curioso: havia numerosas projeções laterais, diferentes de
tudo o que se conhece hoje e cuja função é totalmente ignorada. Alguns
pesquisadores defendem que essa vela poderia ter auxiliado o animal a
controlar a temperatura de seu corpo ou ter servido para que membros de
uma mesma espécie pudessem se reconhecer mais facilmente. Há ainda os
que defendem ser esse tipo de estrutura destinada a distinguir machos e
fêmeas ou mesmo servir para a atração sexual.
Outro exemplo de sinapsídeo basal é o
Dimetrodon. Tendo vivido na mesma época que o
Edaphosaurus (há cerca de 300-270 milhões de anos), essa forma possuía um crânio bem maior e dentes que sugerem hábitos de predador.
Dimetrodon
também desenvolveu uma vela na região dorsal do esqueleto, ainda maior
que a de seu companheiro herbívoro (que talvez tenha sido sua presa).
Mas ela é diferente, por não possuir as enigmáticas projeções laterais.

- Esqueleto de
‘Dimetrodon’, sinapsídeo basal (‘pelicossauro’) predador, depositado no
Staatliches Museum für Naturkunde Karlsruhe, Alemanha. (imagem: H. Zell/
Wikimedia Commons – CC BY-SA 3.0)
É importante frisar ainda que, quando se fala nos sinapsídeos basais,
não se pode deixar de mencionar o pesquisador brasileiro Llewellyn Ivor
Price (1905-1980), que iniciou sua carreira ao lado do famoso
paleontólogo americano Alfred Sherwood Romer (1894-1973). Com este,
Price aprendeu a base da pesquisa de répteis fósseis.
Um dos primeiros trabalhos de Price, publicado em coautoria com
Romer, foi justamente uma revisão dos ‘pelicossauros’. Embora tendo
havido diversas mudanças no conhecimento desses sinapsídeos basais
graças ao desenvolvimento de novas técnicas e à descoberta de mais
exemplares, a obra de
Romer e Price, publicada em 1940, ainda é considerada um verdadeiro marco no estudo desses vertebrados.
Obrigado pela dica, Jéssica!
Alexander KellnerMuseu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências