quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Um safári na Índia

100 tigres, 2 000 rinocerontes-indianos, 1 800 búfalos-asiáticos… No Parque Nacional de Kaziranga.

Por Douglas H. Chadwick
Foto de Steve Winter

Um safári na Índia
Quase extintos por caçadores na Índia, os tigres sobrevivem em Kaziranga.

Um rinoceronte-indiano - Rhinoceros unicornis, do tipo que parece ter placas de couraça pregadas na bunda - é tão pesado quanto uma caminhonete. Apenas o rinoceronte-branco africano é ainda maior. E apenas o rinoceronte-de-sumatra (com uma população de 350 espécimes, no máximo) e o de-java (50 ou menos espécimes restantes) estão mais ameaçados de extinção. Antes encontrados desde o Paquistão até Mianmar, o R. unicornis é uma espécie que conta menos de 2,7 mil animais. Um quarto deles está confinado em dez pequenas reservas no norte da Índia e no vizinho Nepal. Todos os outros - cerca de 2 mil na última contagem - vivem no Parque Nacional de Kaziranga, uma reserva de 860 quilômetros quadrados que inclui um trecho de 80 quilômetros do rio Brahmaputra, com suas ilhas de areia, algumas zonas ao norte e uma porção bem maior de planície aluvial ao sul. Excluindo a área do rio, dá uma média de quatro desses animais encouraçados e agressivos para cada quilômetro quadrado do parque.

Há um século, restavam menos de duas centenas deles no estado de Assam, no norte da Índia. As terras de cultivo haviam ocupado quase todos os férteis vales de rios que são essenciais para a espécie, e os sobreviventes sofriam ataques por parte de colecionadores de troféus e caçadores ilegais. Kaziranga foi demarcado em 1908, sobretudo para salvar os rinocerontes. A reserva acabou sendo ampliada, tornou-se parque nacional em 1974 e, em 1985, foi incorporada ao Patrimônio da Humanidade pela Unesco. No fim da década de 1990, teve sua área duplicada (embora até hoje ainda existam pendências jurídicas). Kaziranga é o maior e mais importante refúgio de rinocerontes da Ásia e crucial para reforçar a população de outras reservas - ou seja, o futuro do R. unicornis depende dessa reserva.

Um estrondoso e bem-sucedido exemplo de conservação, o parque também abriga quase 1,3 mil elefantes-asiáticos; 1,8 mil búfalos-asiáticos, a maior população que ainda resta no mundo; talvez 9 mil veados-porcos-da-índia; 800 barasinghas, ou cervos-do-pantanal-indianos; dezenas de veados-sambar; e centenas de javalis. No total, são milhões de quilos de presas. Mas não se veem lobos perambulando. Os ursos-beiçudos ali residentes se alimentam de cupim e vegetação, ao passo que os leopardos preferem caçar nas matas das encostas circundantes. Quando o veado-porco-da-índia guincha em alarme ou os búfalos giram ao mesmo tempo o corno semicircular na direção de um trecho do prado, talvez o predador que se aproxima tem a pele listrada e alaranjada e as patas grandes como pratos.

Foi a cauda subitamente erguida dos veados que me colocou na pista certa: era o momento do tigre. Um deles havia adentrado a clareira perto de um lago seco não muito longe de onde eu estava, embora não fosse possível vê-lo. Eu procurava perto do solo. A primeira coisa que avistei foram as pernas. Estava diante de um felino que, com seus 225 quilos e lembrando um incêndio em movimento, avançava sobre o veado mais alto. Em seguida, predador e presa sumiram.

Devido à caça ilegal e ao desmatamento, assim como ao policiamento ineficaz, os tigres desapareceram da Índia nos últimos 25 anos. No entanto, parecem estar se dando bem em Kaziranga. A estimativa oficial é que vivam por lá de 90 a 100 espécimes, formando aquela que talvez seja a mais densa população desses felinos no mundo.

O que faz com que esse parque consiga sustentar tantos tigres em área tão modesta? A resposta está no rio. Após nascer nas altitudes do Tibet, o Brahmaputra segue para leste ao longo de 1,1 mil quilômetros, recebendo afluentes do lado norte do Himalaia, antes de inverter a direção de seu curso e prosseguir por mais 800 quilômetros através da Índia e de Bangladesh. Quando a monção de verão provoca chuvas torrenciais em sua bacia hidrográfica, o rio inunda quase todo o vale. E, quando retorna ao leito normal, a planície aluvial é enriquecida de nova camada de sedimentos ricos em nutrientes. Desse terreno enlameado brota uma profusão luxuriante de ciperáceas e outros tipos de relva alta. A especialidade dessas plantas é converter a luz solar em tecidos não lenhosos repletos de amido - ou seja, em imensos campos de nutrientes calóricos, sob a forma de relvados de até 6 metros de altura.

Quando pensamos em florestas, o que nos ocorre em geral são lugares tropicais de grande biodiversidade e carentes de proteção. No entanto, os hábitats de relva alta em planícies aluviais são ricos em animais nativos de grande porte e bem mais raros. Kaziranga também possui campos de relva baixa, e as multidões de criaturas nessas savanas abertas proporcionam cenas comparáveis às dos mais famosos parques africanos.

A paisagem é toda pontilhada de canais de esgotamento que viraram lagos rasos, reabastecidos de água e peixes a cada cheia do rio. Aves aquáticas migratórias, desde gansos-indianos até patos-ferrugíneos, afluem para as áreas úmidas de Kaziranga, onde passam o inverno ao lado de pelicanos e jabirus. Enquanto as raras águias-de-pallas agarram presas nas lagoas, ali conhecidas como bils, as lontras, ocupadas em caçar, saltam para fora d’água como golfinhos. Eu avistei até mesmo golfinhos-do-ganges, com 2 metros de comprimento. Ameaçados em quase todo o seu âmbito, esses mamíferos parecem estar se mantendo no trecho do Brahmaputra que atravessa o parque, livres das pressões da pesca.

Budheswar Konwar, o guia que me acompanha, tem de parar o nosso jipe conversível a fim de remover outra criatura aquática - uma tartaruga -, parada no meio da estradinha em uma tarde escaldante. O resto do grupo desce para esticar as pernas e ver o animal. Quando me viro na direção oposta a ele, vejo algo terrível. "Rinoceronte!", grito. Mais perto que o aconselhável e movendo-se em nossa direção.

Esses tanques de guerra orgânicos podem arremeter a velocidades superiores a 40 quilômetros por hora. Os visitantes (70 mil indianos e 4 mil estrangeiros por ano) só passeiam pelo parque acompanhados de guardas-florestais armados, e tal exigência não é mera formalidade. Como não há tempo de saltarmos no jipe e fugir de lá, Ajit Hazarika faz um disparo de precaução. O projétil levanta uma nuvem de poeira a centímetros da pata dianteira do animal. Basta para que mude de rumo segundos antes de nos atingir.

Dez minutos depois estamos atravessando uma área florestada por um caminho de terra elevado quando uma fêmea de rinoceronte, recém-saída de um chafurdeiro, sobe até a trilha, acompanhada do filhote, também enlameado, com dois terços do tamanho da mãe. Um segundo animal adolescente aparece atrás deles. Em seguida, os três somem do outro lado.

Após esperar um pouco, seguimos adiante e logo notamos que a fêmea vem arremetendo entre as árvores, com a evidente intenção de nos abalroar. Hazarika, sentado ao lado do motorista, nem sequer tem tempo de disparar antes de o animal, ainda reluzente de lama e bem mais pesado que nosso veículo, o atingir lateralmente. Percebo que o rinoceronte está nos empurrando para a borda do caminho e, como o carro agora está apenas sobre duas rodas, é melhor me preparar para saltar antes que capotemos.

Ao contrário dos rinocerontes-africanos, os indianos não estripam suas presas com o corno único que trazem na cabeça. Eles as destroçam com os enormes e afiados incisivos inferiores. E os dentes daquela fêmea já estão abrindo buracos na carroceria metálica do jipe. Maldição!

Konwar havia me falado de uma regra básica em Kaziranga: "É proibido ter medo". Transgrido logo a regra enquanto ele pisa fundo no acelerador, tentando recuperar a tração. As rodas do veículo voltam ao chão e ele pode se afastar. A fêmea sai correndo atrás de nós, em meio à poeira, ao longo de uma centena de metros.

Nosso destino é um local no qual rastros de dois tigres haviam sido reconhecidos em volta de uma carcaça recente de rinoceronte. Os tigres abatem até 15% dos filhotes de rinoceronte em Kaziranga. Essa carcaça, porém, revela que também invistam contra os adultos - algo mais arriscado e raras vezes documentado.

Tal como há um século, contudo, a ameaça mais grave aos rinocerontes ainda vem dos predadores humanos. É por isso que Kaziranga dispõe de quase 600 guardas, impedindo o contato entre animais de grande porte e caçadores. Os oficiais deslocam-se em duplas ou trios, a pé, no dorso de elefantes ou em barcos. As patrulhas vespertinas só retornam à noite. No dia seguinte, os guardas despertam para outra incursão bem antes de clarear, sempre fazendo uma pausa prévia diante de um modesto altar, a fim de pedir a proteção da deusa Kakoma. Em épocas de lua cheia, as equipes ficam fora a noite toda.

É um trabalho sem fim. Aqueles que são presos pescando nos rios ou nas bils são multados e têm suas redes confiscadas. Os rebanhos que pastam no interior do parque precisam ser conduzidos de volta aos vilarejos. E, com frequência ainda maior, os guardas costumam ser chamados para capturar animais selvagens nos povoados e nos campos adjacentes e levá-los à reserva.

Todas essas são tarefas rotineiras se comparadas com o combate aos caçadores dispostos a abater rinocerontes. Seu corno - composto de fibras aglutinadas de queratina, a mesma substância de suas patas e pelo - é apreciado como cabo de adaga no Oriente Médio e valorizado em toda a Ásia por supostas virtudes medicinais. Como um único corno vale mais de 30 000 dólares no mercado negro, essa é uma mercadoria letal.

Entre 1985 e 2005, caçadores abateram 447 rinocerontes, assim como vários guardas no Kaziranga; já os policiais mataram 90 invasores e prenderam outros 663. A quantidade de rinocerontes abatidos caiu para menos de nove a partir de 1998 - mas aí, em 2007, subiu para 18 espécimes. Na quinta semana de 2008, quando lá cheguei, cinco outros haviam sido eliminados.

Uma série de prisões amainou a onda de mortes de rinocerontes, mas, a julgar pela experiência passada, cedo ou tarde os criminosos reaparecerão. Há, contudo, outro problema grave no parque - e ele não pode ser resolvido por ninguém.

Para manutenção da fauna silvestre espetacular, Kaziranga depende do que se passa em uma área bem mais ampla. Nas épocas de grandes cheias, quando a terra desaparece sob as águas pardacentas do Brahmaputra, os animais são forçados a sair da reserva. Hoje, contudo, em todos os lugares de refúgio, eles deparam com o incessante avanço da ocupação humana. Até chegar à borda sul do parque, uma pessoa pode se perder no alto relvado do Kaziranga, mas logo em seguida vai topar com porcos, cães, galinhas, cabras, e quilômetros e quilômetros de arrozais. Um pouco adiante, essa pessoa poderia chegar a um abrigo onde uma vaca agoniza e perde sangue por causa da mordida de um tigre em seu pescoço, e ficar sabendo por sua dona, Nijara Nath, como ela viu à noite o felino já no curral ao lado da casa. Na época da colheita, seu marido passa as noites à beira das plantações, tentando espantar os animais vegetarianos, de veados a rinocerontes, que abrem buracos no arrozal a cada passada.

A ocupação humana é ainda mais densa além dos limites setentrionais do parque. Do alto da torre de um dos postos de guarda consigo ver apenas animais domesticados - rebanhos de búfalas e vacas - se alimentando nos terrenos úmidos do interior da reserva. Como os rebanhos já pastavam ali antes de a área ser incorporada à reserva, na década de 1990, as autoridades permitiram que a prática continuasse. Mas é nessa região que se registram mais problemas com elefantes de quase todo o estado de Assam, pois está na rota de migração das manadas, que seguem pelos últimos resquícios de floresta entre o Kaziranga e o sopé do Himalaia mais ao norte.

Na época das cheias, os animais também migram para o sul, na direção dos montes Karbi. Pequenos mas vitais, cinco corredores de hábitat foram acrescentados ao parque para facilitar essa jornada. Ao longo do caminho, porém, os animais têm de cruzar a rodovia nacional NH37, em Assam. Por isso, os guardas são obrigados a instalar barreiras na estrada para que os caminhões reduzam a velocidade nos pontos de travessia mais usados pelos animais. Mesmo assim, todos os anos, elefantes, rinocerontes, pítons e veados em migração acabam sendo atropelados. E uma proposta de ampliar para quatro o número de pistas da rodovia vem deixando os conservacionistas indianos ainda mais preocupados.

"Se a rodovia NH37 virar autoestrada, será o fim do Kaziranga", diz Asad Rahmani, diretor da Sociedade de História Natural de Bombaim. As autoridades já estudam o cancelamento da ampliação da rodovia. Em vez disso, seria reformada uma estrada paralela, ao norte do rio. "Também precisamos controlar a ocupação humana em outros pontos", prossegue ele. "O governo deveria adquirir terras para a criação de mais corredores antes que o Kaziranga fique isolado."

Mesmo que os corredores para os montes Karbi sejam reforçados, como fica a proteção dos próprios montes? E dos contrafortes do Himalaia? A cada ano, madeireiros, exploradores de pedreiras e posseiros avançam, transformando uma cobertura arbórea contínua em um mosaico de encostas desmatadas e erodidas. Uma boa notícia é que o governo indiano criou uma reserva de elefantes, a Kaziranga-Karbi Anglong, que se estende bastante ao sul, assim como a Reserva de Tigres de Kaziranga, que avança muitos quilômetros ao norte. Todavia, elas não passam ainda de linhas traçadas em um mapa, e os trechos fora do parque continuam a ser cada vez mais ocupados por gente desesperada por terra.

O desafio é interligar os trechos de mata que restam. Se os obstáculos parecem insuperáveis, basta pensar nos dedicados guardas-florestais em seus postos solitários e na regra mencionada por Budheswar Konwar para o território dos rinocerontes. Lembra-se? "É proibido ter medo."

Fonte: National Gepgraphic

Terra nativa

Algo extraordinário está acontecendo em território índio: tribos americanas que um dia foram despojadas de suas áreas mostram agora como recuperar a natureza.

Por Charles Bowden
Foto de Jack Dykinga


Terra nativa

Reserva Red Lake
O pôr do sol flameja sobre o lago Thunder, um dos 14 da Reserva de Red Lake.

No cânion Santa Clara, no Novo México, algo novo está surgindo debaixo do sol: uma tribo de nativos americanos está restaurando sua terra ancestral. Esculpidas em um penhasco vulcânico 60 metros acima de um arroio chamado Santa Clara, as habitações que o povo Puye escavou na rocha contêm centenas de cômodos em construções entalhadas, além de pelo menos outras 700 moradias abertas no tufo vulcânico mais abaixo no despenhadeiro. Ninguém vive lá há cinco séculos. A povoação provavelmente foi criada em uma época de boas chuvas, e, por volta de 1580, a seca esvaziou esse pueblo. Os descendentes de seus habitantes vivem às margens do rio Grande, 13 quilômetros abaixo, na Reserva Indígena Pueblo de Santa Clara. A tribo trabalha para restaurar toda a vertente do arroio a seu estado natural, após décadas de abandono. No futuro, milhares de hectares recuperarão a abundância nativa de plantas,


Os índios de Santa Clara estão entre um número crescente de tribos americanas empenhadas em programas para devolver à natureza terras arruinadas por gerações de uso humano. Existem 564 tribos reconhecidas pelo Departamento de Assuntos Indígenas (Bia, na sigla em inglês), cujas reservas abrangem 22 milhões de hectares (em contraste com 34 milhões de hectares controlados pelo Serviço Nacional de Parques). A maior parte dessas terras não é administrada como área de preservação, mas algo extraordinário está emergindo no território indígena. Os que um dia tiveram suas terras tomadas, os que já foram dominados, muitas vezes brutalmente, pelo governo americano, hoje dão um exemplo de como manejar o meio ambiente.

Em 1979, as tribos confederadas Salish e Kootenai, em Montana, foram as primeiras do país a destinar terras tribais à preservação: 37 mil hectares de montanhas e pradarias da Reserva Flathead. Depois disso, o povo Nez Perce adquiriu 6 590 hectares de terras ancestrais no nordeste do Oregon que serão deixados exclusivamente para os peixes e animais selvagens. As tribos Assiniboine e Sioux de Montana dedicam-se a trazer os bisões de volta à Reserva de Fort Peck. Em Minnesota, os chippewas, ou ojibwas, recuperaram uma devastada população de peixes do lago Red. Na Reserva de Fort Apache, no Arizona, a ameaçada truta-apache está encontrando novo lar.

O programa de conservação do Pueblo de Santa Clara começou de um modo inusitado. Era noite alta em maio de 2000 quando escapou do controle uma queimada para remover o mato na reserva vizinha, chamada de Monumento Nacional Bandelier. O "Incêndio de Cerro Grande", como esse desastre veio a ser chamado, destruiu 235 construções nas cidades de Los Alamos e White Rock e devorou mais de 19 mil hectares, incluindo o norte do cânion Santa Clara. Quando a fumaça se dissipou, a tribo de Santa Clara fechou o cânion, uma atração turística de longa data, e anunciou que assumiria a administração de suas terras, que estavam sob a jurisdição do Bia.

Hoje a fragrância de pinheiros e juníperos paira no ar da manhã sob o céu azul. A tribo removeu tamariscos, elmos siberianos e oliveiras russas, que são espécies exóticas e invasivas, de 263 hectares ao longo do rio Grande e restaurou 30 hectares de terras alagadiças. Na área da queimada acima do cânion foram plantadas 1,7 milhão de mudas de espécies como pinheiro-ponderosa, abeto-de-douglas e abetoi-branco. Onde o arroio Turkey se junta ao rio, há sinais da passagem de alce por toda parte: cascas mastigadas de choupos derrubados pelo vento, fezes na neve. Há 15 anos, o último castor deixou essa região. Agora as tribos esperam que, com a restauração da vegetação ribeirinha, os castores voltem. O diretor de recreação do pueblo, Stanley Tafoya, dá uma explicação singela: "Estamos tentando restaurar nossos recursos. Os mais velhos querem que seus netos desfrutem do cânion como nós o conhecemos".

Cabe aqui uma observação: não há éden a ser restaurado. A paisagem que os invasores europeus encontraram na América do Norte não tinha nada de natureza intocada, como costumamos imaginar. No fim da Idade do Gelo, os primeiros caçadores humanos talvez tenham contribuído para dizimar mamutes e outras espécies da megafauna da época. Depois disso, por milhares de anos, os nativos americanos manipularam a terra com represas, canais e campos, conforme suas necessidades de sobreviver. Derrubaram e queimaram regularmente as florestas para plantar e caçar.

Em nossa era, algumas terras tribais estão atulhadas de lixo, e certas tribos aumentam suas receitas abrindo lixões para dejetos sólidos. No cânion Santa Clara, o desaparecimento do castor quase certamente foi apressado pelos índios - ainda hoje essas terras servem de pasto para o rebanho bovino da tribo. Mas, com a intenção de restaurar a vegetação das margens e trazer de volta os castores, a tribo começou a erigir cercas para impedir o acesso do gado às áreas alagadiças e adotou um plano de manejo das pastagens.

Muitos dos projetos de conservação que conseguem avançar estão sendo financiados com dinheiro de jogo e outros empreendimentos. O Pueblo de Santa Clara, por exemplo, possui e dirige um hotel-cassino, o Black Mesa Golf Club, além do Cinema Dreamcatcher, na vizinha Española. E é claro que alguns nativos são tão ignorantes das coisas da terra quanto um típico americano suburbano que roda por aí num utilitário esportivo grandalhão e mata o tempo à noite vendo DVD. No entanto, a cultura deles viveu próxima da terra por séculos, e seus anciões contam histórias de um tempo não alcançado pela imaginação da civilização industrial. Assim permanece entre os nativos americanos a fé de que eles podem redescobrir o ambiente no qual seus ancestrais sabiam como falar com os deuses.

Em um nevoento trecho da costa 320 quilômetros ao norte de San Francisco, menos de 2% das velhas sequoias originais sobreviveram ao incessante desmatamento de algumas décadas atrás. Tiveram mais sorte que os nativos, que foram caçados e mortos durante a imoderada era surgida na esteira da corrida do ouro, em meados do século 19. Suas terras foram entregues a companhias madeireiras. Hoje as tribos formadoras de um consórcio para proteger a terra trabalham juntas no manejo e na recuperação de 1 578 hectares de terras dos sinkyones, destinadas à preservação da Lost Coast, "Costa Perdida". Esse trecho de litoral tem tal nome porque seu terreno é tão acidentado que forçou a Highway 1, a rodovia que corta grande parte da costa californiana, a desviar seu traçado para o interior. Em Sinkyone, as tribos estabeleceram um precedente: criaram uma área intertribal de preservação onde as árvores nunca mais serão derrubadas para uso comercial.

O chão agora é um tapete marrom de folhas. As árvores são torres, e tudo é sombra. Por muito tempo, essa costa foi de fato perdida para os europeus. Os espanhóis, ao chegar, não encontraram nenhuma enseada aproveitável e foram rechaçados por tempestades. Antes da vinda dos colonizadores, os índios sinkyones pontilhavam o vale com aldeias, entalhavam canoas no tronco da sequoia e singravam as águas caçando leões-marinhos e outros animais. Para eles, aquelas árvores gigantescas eram membros de sua comunidade, e o condor, um mensageiro do céu. O povo Sinkyone "conserta o mundo" anualmente, com uma série de cerimônias. Uma de suas histórias explica que o criador fez o mundo e assentou tudo direitinho, mas "homens maus não ficaram satisfeitos e derrubaram tudo, demoliram as barrancas do oceano, cortaram as árvores, arrasaram as montanhas". Desde então, dizem os membros da tribo, "temos de cantar e dançar todo ano para repor as coisas em seu lugar".

Sally Bell tinha 10 anos há um século e meio quando homens brancos apareceram em sua casa, próxima a Needle Rock, e mataram sua família, arrancaram o coração de sua irmã ainda bebê e o jogaram no mato onde Sally se escondia. "Eu não sabia o que fazer. Meu pavor era tanto que fiquei ali escondida nem sei por quanto tempo, segurando o coração da minha irmãzinha." Só em fins dos anos 1920, as palavras de Sally finalmente foram anotadas, e o antropólogo visitante descreveu-a como "cega, senil, vê espíritos em jangadas".

O nome Sally Bell tornou-se um chamado à militância nos anos 1980, quando a madeireira Georgia-Pacific tentou derrubar algumas das últimas sequoias originais sobreviventes em um bosque de 36 hectares hoje batizado em honra a Sally. Ambientalistas acorrentaram-se às árvores, a derrubada cessou, e indícios de mudança surgiram na Costa Perdida. Em 1985, uma decisão judicial proibiu a derrubada total de 2 875 hectares de terras florestais, e cerca de metade desse trecho foi acrescentada ao Parque Estadual de Vida Selvagem dos Sinkyones. Nativos, madeireiros e ambientalistas reuniram-se para negociar um plano para a outra metade. O acordo original demarcava algumas áreas como reservas, com o restante a ser explorado após algumas décadas de descanso.

As tribos, contudo, defenderam um plano diferente. Priscilla Hunter, uma das fundadoras do conselho intertribal para preservação das terras dos sinkyones, bateu o pé e insistiu que aquelas terras não deviam ser exploradas nunca mais. Essa atitude provocou ressentimento e quase inviabilizou o acordo. Após anos de reuniões e uma forte dose de obstinação, o conselho tornou-se a principal força nas iniciativas de vários parques estaduais e ONGs para aposentar trechos de mata a fim de que as florestas históricas pudessem retornar.

Em 1997, depois de mais de um século de expropriação, o conselho adquiriu os 1 578 hectares de terras indígenas e os transformou na primeira área intertribal de preservação do país. "Chegou a hora de o nosso povo reaver a terra para protegê-la", diz Priscilla. "A costa e as florestas de sequoia são sagradas para as tribos. É onde nosso povo coleta alimento e remédio, e as montanhas são um local sagrado em que podemos sentir o poder de nossa Mãe Terra. As velhas sequoias são espiritualmente muito poderosas para nós."

Na esperança de atrair de volta um cardume de salmão, o conselho está restaurando, em conjunto com os parques estaduais da Califórnia, um arroio chamado Wolf, que atravessa Wheeler, cidade madeireira abandonada. Velhas estradas foram removidas pelo conselho e pelos parques, e a terra começa a se recobrar. Em uma serrania baixa, sequoias se retorcem com os galhos moldados pelos ventos marítimos: quase um coro florestal cantando uma música que os seres humanos modernos apenas começam a ouvir.

Do outro lado do continente, no sul da Flórida, outra tribo que já esteve à beira do extermínio faz um esforço parecido. No século 20, metade do pântano Big Cypress e do vizinho Everglades foi destruída para dar lugar a cidades e fazendas. Árvores invasivas, como a melaleuca e a aroeira, ameaçam o que ainda resta. Um projeto aprovado em 2000 acenou com um esforço para reviver as terras alagadas com a restauração de cursos d’água mais naturais; porém, até recentemente, o plano permaneceu emperrado por falta de fundos. Por isso, o povo Seminole tomou a iniciativa: em 850 hectares da Reserva de Big Cypress, os índios removem sistematicamente as plantas invasoras, restauram o pântano a níveis de água próximos aos normais e recuperam parte da natureza selvagem.

Para os membros da tribo, os pântanos Big Cypress e Everglades são relíquias da própria terra que um dia os salvou do genocídio. Quando os espanhóis desembarcam na Flórida durante a expedição de Juan Ponce de Léon, em 1513, essa área era o lar de 250 mil nativos, chamados pelos espanhóis de cimarrones, "selvagens". No século 18, esses índios eram uma pedra no caminho do poderio branco. Em 1819, os Estados Unidos compraram a Flórida da Espanha, por 5 milhões de dólares, e em seguida enterraram mais de 30 milhões nas Guerras Seminoles. Quando a carnificina terminou, cerca de 4 mil índios estavam exilados na região do atual estado de Oklahoma, e talvez uns 300 permanecessem escondidos no pântano. Durante quase todo o século 20, seus descendentes arrancaram magra sobrevivência, servindo de atração turística na área de Miami ou nos Everglades, lutando com jacarés, dançando e fabricando quinquilharias para os visitantes.

A reviravolta veio em 1988, quando o jogo foi legalizado para os índios. Hoje cada homem, mulher e criança dos 3,5 mil membros da tribo recebe uma polpuda fatia dos lucros dos cassinos. Em dezembro de 2006, a tribo fez um negócio de 965 milhões de dólares: comprou quase todos os cassinos da rede Hard Rock no mundo.

A prosperidade permite que os índios salvem um fragmento de Big Cypress que nunca foi desenvolvido porque não serve para a agricultura - o resto da reserva é ocupado por pomares, hortas e fazendas de gado. "Isso permite trazer de volta à terra o aspecto tradicional", diz Brian Zepeda, diretor da Turismo Seminole. "Os ciprestes eram tão altos e densos que pareciam um forte criado pela natureza."

Zepeda vai na frente ao pântano, abrindo caminho com um facão. Freixos, sabais e salgueiros dividem espaço com os ciprestes.
A estação seca está no começo; por isso o chão parece firme, apesar de ceder um pouco nas partes baixas e encharcadas. Cervos dardejam na orla da floresta, e algumas suçuaranas remanescentes sobrevivem na Reserva de Big Cypress - talvez 20 da possível população ameaçada, que contém uma centena desses animais em todo o estado.

Laranjas-amargas silvestres, introduzidas pelos espanhóis, também persistem. Para adocicá-las, os seminoles as preparam assadas. Em uma parte da reserva que está em recuperação há um trecho elevado no pântano onde existiu um povoado. Ali, no meio das árvores, os nativos se esconderam dos soldados quando a Guerra Seminole estava no fim. Zepeda conta que lutava com jacarés. "Mas envelheci, e os jacarés continuam jovens", lamenta.

Esta é a canção de Big Cypress e dos Everglades: a nação envelheceu, e essa terra, que agora revive ao redor da povoação abandonada, recorda um mundo que foi mais novo e primevo. O projeto abrange pouco mais de 800 hectares, em contraste com toda a área dos Everglades, que engloba mais de 1,5 milhão de hectares. E os contratados para remover as espécies exóticas são trabalhadores migrantes, não seminoles (também é assim no Pueblo de Santa Clara). Seria fácil, por isso, menosprezar a iniciativa como um gesto que não custa muito. Só que um jacaré ou um cipreste não pensariam desse modo.

Em um canal que serpenteia a área em recuperação, um jacaré aligátor salta da água à luz do sol e apanha um peixe. O canal, parte do imenso esforço de drenagem que destruiu grande área dos Everglades, é praticamente apenas uma vala industrial. No entanto, é lá que o aligátor vive, arqueado sob a luz: selvagem, pulsando de vida num mundo que se entulha de concreto, condomínios e rodovias.

Fonte: National Geographic

Réptil extinto lembra mamífero

5/8/2010

Agência FAPESP – Uma nova espécie de crocodiliano do Período Cretáceo (de cerca de 145,5 milhões a 65,5 milhões de anos atrás) foi descoberta no sudoeste da Tanzânia, com pernas mais finas e dentes que até então eram considerados exclusivos de mamíferos.

Os crocodilianos formam uma ordem de répteis aquáticos e ovíparos, que inclui os crocodilos, jacarés e o gavial, e são encontrados especialmente em regiões tropicais do mundo. Os crocodiliformes do Cretáceo, chamados de notossúquios, eram parentes distantes dos crocodilos e jacarés modernos.

Os notossúquios, que viviam nas massas terrestres do supercontinente Gondwana, tinham um nível de diversidade tanto morfológica como ecológica muito maior do que a encontrada nos atuais crocodilos. Um exemplo está na boca: em vez de fileiras de caninos cônicos e iguais, seus dentes eram divididos em tipos especializados em morder e em outros feitos para esmagar.

A descoberta da nova espécie, cujo fóssil foi encontrado em rochas de 105 milhões de anos, foi publicada na edição desta quinta-feira (5/8) da revista Nature.


Réptil extinto lembra mamífero

Espécie de crocodiliano descoberta na Tanzânia tinha diversidade morfológica e ecológica maior do que os atuais, pernas mais finas e dentes que até então eram considerados exclusivos de mamíferos (divulgação)

Segundo Patrick O’Connor, do Ohio University College of Osteopathic Medicine, e colegas, na espécie, denominada Pakasuchus kapilimai, as fileiras superior e inferior de dentes entravam em contato de modo semelhante ao que até hoje havia sido observado apenas em mamíferos.

O animal também tinha o tamanho aproximado de um gato doméstico e era mais magro do que os crocodilianos atuais. Possuía ainda um pescoço flexível. Apesar das características inusitadas para a ordem, os cientistas afirmam que se tratava de um crocodiliforme.

A dentição mais complexa indica uma capacidade de processar alimentos que os crocodilos atuais – que simplesmente mordem e engolem – não possuem, mas os mamíferos sim.

De acordo com o estudo, o Pakasuchus kapilimai e outros notossúquios podem ter ocupado nichos ecológicos na Gondwana (supercontinente ao sul) que correspondiam aos preenchidos por mamíferos no hemisfério Norte.

“Um número de características dessa nova espécie – incluindo a redução no número de dentes e uma dentição especializada e similar à divisão em caninos, premolares e molares – é muito semelhante a características que foram críticas durante o curso da evolução dos mamíferos do Mesozóico para o Cenozóico”, disse O’Connor.

O artigo The evolution of mammal-like crocodyliforms in the Cretaceous Period of Gondwana (doi:10.1038/nature09061), de Patrick M. O’Connor e outros, pode ser lido por assinantes da Nature em www.nature.com.


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Efeitos da seca na Amazônia

4/8/2010

Agência FAPESP – Pesquisas recentes sobre o impacto das secas na região amazônica têm chegado a resultados contraditórios sobre como as florestas tropicais reagem a um clima mais quente e mais seco.

Um novo estudo, feito por cientistas do Brasil e dos Estados Unidos, examina a resposta da Amazônia a variações nas condições climáticas, especificamente considerando como essas mudanças podem influenciar a produtividade da floresta.

Os resultados fornecem um possível contexto para explicar por que estudos anteriores obtiveram conclusões diferentes. A pesquisa – feita por cientistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), da Universidade da Flórida em Gainesville e do Centro de Pesquisa Woods Hole – foi publicada no site da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

“A pesquisa se baseia em estudos de campo e de sensoriamento remoto para demonstrar que florestas relativamente não mexidas são bem tolerantes à seca sazonal, diferentemente do que ocorre em outros tipos de vegetação e em florestas gravemente modificadas”, disse Paulo Brando, do Impa, autor principal do artigo.

“Nosso estudo também aponta diversos mecanismos potenciais de controle das oscilações sazonais e interanuais na produtividade da vegetação pela bacia amazônica. Até agora, discussões sobre esses mecanismos não têm ocorrido no debate científico a respeito de como a Floresta Amazônica responde às mudanças climáticas globais”, destacou.

Os pesquisadores usaram dados das estações secas no período entre 2000 e 2008, obtidos pelo Índice de Vegetação Avançada do Modis, equipamento de produção de imagens instalado nos satélites Acqua e Terra. As informações foram integradas com dados climáticos de 1996 a 2005, registrados por 280 estações meteorológicas.

Relações estatísticas entre os índices de vegetação e diversas variáveis também foram analisados para toda a bacia do Rio Amazonas e para uma área bastante estudada no Rio Tapajós.

Como as mudanças climáticas globais poderão fazer com que as secas se tornem tanto mais frequentes como mais intensas na Amazônia, o estudo reforça a importância das estratégias de conservação na região.

Mas os autores ressaltam que o estudo demonstra que a resposta da floresta à seca é muito complexo e que mais trabalhos de pesquisa são necessários para examinar as respostas da Floresta Amazônica à seca e como essas respostas serão expressas no futuro.

O artigo Seasonal and interannual variability of climate and vegetation indices across the Amazon (doi/10.1073/pnas.0908741107), de Paulo M. Brando e outros, pode ser lido por assinantes da PNAS em www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.0908741107.

Fonte: http://www.agencia.fapesp.br/materia/12575/efeitos-da-seca-na-amazonia.htm

Impactos do Código Florestal são analisados

4/8/2010

Por Fabio Reynol

Agência FAPESP – Impactos potenciais da revisão no Código Florestal, em tramitação no Congresso Nacional, na biodiversidade e nos serviços ecossistêmicos foram debatidos por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento nesta terça-feira (3/8), em evento organizado pelo programa Biota-FAPESP, na sede da Fundação.

Carlos Alfredo Joly, coordenador do Biota-FAPESP e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), abriu o encontro lamentando a falta de participação da comunidade científica nas discussões sobre as alterações no atual Código Florestal – que preveem, por exemplo, reduções significativas nas áreas de preservação permanentes (APP) e anistia a desmatamentos feitos até 2008.

“Essa nossa crítica foi destacada em uma carta assinada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), as duas maiores representantes da comunidade científica”, disse Joly. As duas entidades deverão ampliar as discussões sobre o assunto por meio de um grupo de trabalho.

Ricardo Ribeiro Rodrigues, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), que coordenou o encontro junto com Joly, ressaltou que a proposta de revisão do código ensina importantes lições à comunidade científica, entre elas a importância de tomar iniciativas de mudanças antes que outros o façam.

“O Código Florestal atual vigora desde 1965 e nós [pesquisadores] não tínhamos nos preocupado em atualizá-lo até hoje”, disse Rodrigues, ressaltando a importância da pesquisa científica para sustentar políticas públicas.

Na parte da manhã, cientistas apresentaram os impactos que grupos taxonômicos específicos poderiam sofrer no caso de ser aprovada a proposta do novo código aprovada pela Comissão Especial da Câmara dos Deputados.

Os palestrantes foram convidados a usar suas apresentações como ponto de partida para artigos científicos, que serão submetidos para publicação na próxima edição da revista Biota Neotropica.

Lilian Casatti, professora do campus de São José do Rio Preto da Universidade Estadual Paulista (Unesp), falou sobre possíveis impactos aos peixes. Um dos principais problemas da proposta de revisão do código, segundo ela, seria a redução na largura das matas ripárias – que acompanham os cursos d’água – de 30 metros para 15 metros em riachos e ribeirões com menos de 5 metros de largura.

De acordo com a pesquisadora, isso afetaria a ictiofauna em vários aspectos. Sem a cobertura vegetal ciliar os peixes estariam mais expostos à luz solar. Espécies que possuem larvas sensíveis à radiação ultravioleta seriam reduzidas. Peixes que utilizam a identificação visual para selecionar parceiros também seriam prejudicados e várias cadeias tróficas seriam irremediavelmente alteradas.

“Muitos peixes se alimentam de determinados insetos que, por sua vez, alimentam-se de certas folhas dessas matas. Há estudos apontando que, com menos matas, os peixes perdem biomassa. causando perdas genéticas e até de espécies”, disse.

A perda da cobertura vegetal ripária também causaria o aumento na turbidez dos rios devido ao assoreamento, o qual também provocaria a entrada de poluentes no curso d’água.

Um dos maiores prejuízos seria a extinção de diversas espécies de peixes. Estudos realizados no Estado de São Paulo mostram que o maior número de espécies está concentrado em pequenos córregos. No Estado, foram encontradas 344 espécies – do total de 2.587 peixes brasileiros de água doce – e 66 estão ameaçadas, sendo que 45 vivem em pequenos ambientes.

“Essas espécies vivem em apenas 10 metros quadrados, em média, durante toda a vida”, disse Lilian, para ilustrar que até perdas de pequenas porções de vegetação natural podem resultar no desaparecimento de diversos táxons.

Segundo a professora da Unesp, os pequenos cursos d’água guardam uma grande diversidade genética que estaria ameaçada após as mudanças no Código Florestal. A região de São José dos Dourados (SP), estudada por Lilian, possui 4 mil quilômetros de pequenos rios enquanto que o rio principal tem apenas 220 quilômetros.

“Nessa região, entre 61% a 78% dos córregos já estão cercados pela plantação de cana-de-açúcar, eles não podem se dar ao luxo de ter mais áreas reduzidas”, afirmou.

Problemas agravados

Felipe Toledo, do Museu de Zoologia da Unicamp, falou sobre os possíveis impactos em anfíbios. Habitantes da água, dos biomas terrestres e das áreas de transição entre ambos, os anfíbios seriam um dos grupos mais afetados pela redução das matas ripárias.

“Em todo o mundo, os anfíbios formam o grupo mais ameaçado da natureza, com 32,5% das espécies sob risco”, disse. Bastante sensíveis às alterações ambientais, os anfíbios já são afetados pelos efeitos das mudanças climáticas globais, que secam trechos de riachos e lagos,expondo ovas a predadores e intempéries.

Por respirar através da pele, o grupo também tem sentido os efeitos do uso de defensivos agrícolas, sendo registrados muitos casos de má formação de sapos e rãs que os tornam presas fáceis de predadores. Todos esses problemas seriam agravados com a aprovação das mudanças no Código Florestal, segundo Toledo.

Como agravante, muitos anfíbios dependem de espécies específicas de plantas para se reproduzir. Alguns só se acasalam em bromélias, outros em certos tipos de bambus e uma espécie de rã depende de plantas com folhas dobráveis para o acasalamento. A perda desses vegetais poderia também representar o desaparecimento dos anfíbios que deles dependem.

Os impactos potenciais nos répteis foi apresentado por Otávio Marques, pesquisador do Instituto Butantan. O grupo taxonômico tem 20% de suas espécies sob ameaça de extinção em todo o planeta e a maior causa disso seria a perda dos habitats, o que seria agravado com a aprovação da proposta que está no Congresso.

“O atual código também erra ao permitir a compensação de uma área desmatada com a preservação de outra área dentro do mesmo bioma. Uma espécie que habita um local pode não viver em outro”, afirmou.

Sob o ponto de vista econômico, o país perde com a perda da biodiversidade. Anfíbios e répteis fornecem moléculas complexas que podem ser aplicadas em fármacos. “O anti-hipertensivo desenvolvido a partir do veneno da jararaca rende US$ 5 bilhões ao laboratório que o criou”, exemplificou Marques.

A ausência de anfíbios e peixes provocaria um aumento nas populações de insetos, representando um aumento de doenças na população e de pragas na agricultura, resultando em maior necessidade de agrotóxicos.

Novas doenças surgiriam no gado originadas pela perda do habitat de cervos, segundo apontou Mauro Galetti, professor do campus de Rio Claro da Unesp, que analisou os efeitos potenciais da revisão do Código Florestal sobre os mamíferos.

A proximidade do gado com os cervos que perdem seus ambientes provoca trocas de doenças entre as duas espécies. Boa parte dos mamíferos prefere viver próximos a matas ripárias e, de acordo com Galetti, a redução dessas matas exporia os animais a predadores, a caçadores e a acidentes como atropelamentos.

O ornitólogo Pedro Ferreira Develey, da Save Brasil, apontou que muitas aves dependem de pequenas ilhas de vegetação nativa, sendo que várias espécies não saem dessas matas. “Elas tem fotofobia e estão acostumadas a viver na sombra, por isso não saem para áreas abertas”, disse.

O Brasil tem 17 de suas espécies de aves ameaçadas de extinção habitando matas ripárias, por isso, reduzir esses biomas poderia ser o golpe de misericórdia para algumas delas, destacou Develey.

Vera Fonseca, professora do Instituto de Biologia da USP, falou sobre possíveis consequências para abelhas da proposta de revisão do código . “Responsáveis pela polinização de boa parte da produção agrícola brasileira, o desaparecimento de espécies desses insetos seria um desastre para inúmeras culturas, como o maracujá, o açaí, o cupuaçu e a castanha-do-pará”, disse.

Giselda Durigan, do Instituto Florestal, falou sobre o Cerrado, onde estão localizadas as principais bacias hidrográficas do Brasil. O bioma, ao mesmo tempo, é considerado o celeiro do país, por concentrar boa parte da produção agrícola nacional. A cientista narrou os esforços de se recuperar a vegetação nativa do Cerrado, em muitos casos impossível, devido ao alto nível de degradação do solo.

José Galizia Tundisi, do campus de São Carlos da USP, falou sobre os impactos hídricos que a redução de cobertura vegetal nativa prevista no novo código poderia trazer.

“Reduzir as matas ciliares que agem como tampões de proteção atingiria diretamente a qualidade das águas, aumentaria a toxicidade, reduziria ainda mais o nível dos rios por causa de assoreamento e encheria a água de sedimentos, aumentando o custo do tratamento”, disse.

Segundo Tundisi, na região do Baixo Cotia, em São Paulo, por exemplo, o custo para tratar mil metros cúbicos de água é de cerca de R$ 300. Em comparação, o tratamento da mesma quantidade em uma cidade que possui rios com proteção de matas ciliares em seus mananciais cai para R$ 2.

A própria agricultura seria prejudicada. “Aumentar a área agrícola reduzindo a mata ciliar reduzirá a água disponível. É um tiro no próprio pé”, disse.

Conservação com expansão

Sérgius Gandolfi, da Esalq-USP, previu um apagão hídrico e citou como exemplo a usina hidrelétrica de Assis Chateaubriand, no Mato Grosso do Sul, que viu seu reservatório desaparecer por causa dos danos causados aos pequenos rios que o abasteciam.

Gandolfi também criticou vários aspectos da proposta de revisão do Código Florestal, como a previsão de concessão de incentivos aos produtores rurais à guisa de incentivo ao reflorestamento.

“Isso é o mesmo que fazer o governo pagar para que industriais instalem filtros em suas fábricas. No Estado de São Paulo são 324.601 propriedades rurais, se o governo gastar R$ 10 para cada uma, serão mais de R$ 3 milhões em dinheiro público gastos para pagar uma obrigação dos produtores”, comparou.

O pesquisador também chamou a atenção para uma alteração que reduz ainda mais a área preservada. A versão atual do Código Florestal considera a margem do rio no período de cheia, chamado de leito maior. Entre as alterações previstas na revisão está a medição das margens a partir do leito menor, quando o rio está mais baixo.

“O assoreamento atingiria principalmente os rios mais frágeis, ou seja, os menores, que são cerca de 90% dos rios do país”, disse Gandolfi.

Rodrigues apresentou o programa desenvolvido na Esalq-USP de adequação ambientais de propriedades rurais. Sua equipe encontrou diversas propriedades com possibilidade de aumentar a área agrícola sem ferir o atual Código Florestal. “Não estão usando toda a área a que têm direito para plantar”, disse.

“Esse projeto de lei [a revisão do Código Florestal] veio em um momento muito ruim, pois vários proprietários rurais já estavam se conscientizando sobre a importância de cumprir o código atual”, disse Rodrigues, ressaltando que aqueles que se comprometeram a recuperar as áreas vigentes serão punidos com as alterações no código.

Geld Sparovek, também da Esalq-USP, explicou por que a conservação ambiental não impede a expansão das fronteiras agrícolas, apresentando vários estudos que mostram possibilidades de crescimento da área plantada sem atingir a vegetação a ser preservada.

Novo debate e alternativas

Nos encaminhamentos finais do encontro, os participantes decidiram que os sumários das apresentações serão encaminhados ao grupo de trabalho, organizado pela SBPC e ABC, que vem discutindo a proposta de mudança do Código Florestal.

Os palestrantes também se comprometeram a participar de uma segunda reunião, quando será apresentado um documento executivo que proponha alternativas.

Os pesquisadores concordam que é preciso rever e atualizar o Código Florestal Brasileiro, pois nas últimas décadas aumentou consideravelmente o conhecimento científico tanto em termos da biodiversidade brasileira como em termos da biologia da conservação, ecologia da paisagem e serviços ecossistêmicos.

“Portanto, o país tem condições transformar esse conhecimento em políticas públicas, como fez o Programa Biota-FAPESP aqui no Estado de São Paulo. Na avaliação dos pesquisadores, o substitutivo aprovado pela Comissão Especial do Câmara dos Deputados vai na contra mão do avanço do conhecimento, representando um grande retrocesso na legislação ambiental brasileira caso venha a ser aprovado pelo Congresso Nacional”, afirmou Joly.

Outra proposta – que ainda será avaliada – será a organização de um debate com representantes da comunidade científica, políticos e jornalistas do país e do exterior. “O objetivo é tornar o debate público e mais acessível a toda a sociedade, pois mais de 80% da população brasileira vive em cidades e talvez não tenha condições de avaliar adequadamente as consequências das alterações propostas no Código Florestal”, disse.

“A reunião foi excelente pela qualidade das apresentações. Os pesquisadores já estavam preocupados com os aspectos salientados, eles já estavam trabalhando com essas questões há tempos. Isso demonstra uma consistência muito grande entre pesquisadores de diferentes áreas. Vamos reunir essas informações em um documento que sintetize o que foi apresentado para que, com ele, possamos abrir espaço para uma discussão mais ampla com lideranças do Congresso Nacional”, disse Joly.

Fonte: http://www.agencia.fapesp.br/


Correlação Geológica

Correlação Geológica

A partir dos fósseis e da aplicação dos princípios da sobreposição dos estratos e da continuidade pode-se fazer a datação relativa das rochas sedimentares. Certos grupos de fósseis indicam uma idade relativa das rochas onde ocorrem. Assim, todas as rochas, mesmo de diferentes tipos, que contiverem estes fósseis têm a mesma idade, independentemente do local onde afloram. A esta comparação dos fósseis e das rochas chama-se Correlação Geológica e permite-nos determinar as idades relativas das rochas.


Tipos de correlação geológica:
  • Biocorrelação - estabelece a correspondência entre duas rochas com fósseis, com base na presença de determinados fósseis e a sua posição bioestratigráfica. A biocorrelação rege-se pelos biohorizontes da primeira aparição à última presença de fósseis caracteristicos, em diferentes secções estratigráficas.
  • Litocorrelação - estabelece correspondência pelo carácter litológico e pela posição litoestragráfica de duas rochas. Neste tipo de correlação, compara-se as unidades litoestratigráficas presentes em cada uma das secções estratigráficas e os níveis específicos de litologias dentro das mesmas.
  • Cronocorrelação - correlaciona superfícies isócronas e o reconhecimento da sua posição cronoestratigráfica. Consiste na comparação temporal de duas ou mais secções estratigráficas, para o qual se selecciona os recursos estratigráficos que indiquem simultaneidade e facilitem o estabelecimento da correspondência de todas as unidades estratigráficas representadas.
Métodos de correlação
  • Métodos de autocorrelação: baseados na continuidade das superficies de estratificação, tanto no campo como em perfis sismicos;
  • Métodos litológicos (ou de litocorrelação): incluem vários subtipos que se aplicam directamente no campo ou mediante estudos laboratoriais das componentes das rochas.
  • Métodos baseados em propriedades físicas: englobam os magnetoestratigráficos e os aplicados a partir das diagrafias.
  • Métodos radiométricos: baseado na comparação das datações radiométricas de materiais de diferentes secções estratigráficas;
  • Métodos litoestratigráficos: consiste no reconhecimento das áreas especificas de estratificação, reflectindo um fenómeno comum;
  • Métodos biocronoestratigráficos

Referência:
- TORRES, J. A. V. ; Estratigrafia, Princípios y métodos, 1994

Aloestratigrafia

aloestratigrafia

Estudo de unidades estratigráficas definidas por superfícies de descontinuidade que envolvem estas unidades e que permitem o seu mapeamento geológico.

À semelhança das unidades litoestratigráficas, na aloestratigrafia, as unidades são hierarquizadas, distinguindo-se:
alogrupo,
aloformação e
alomembro.
Entretanto, enquanto na litoestratigrafia o critério principal é a identidade litológica ou de associação litológica, na aloestratigrafia pode-se ter rochas de mais de um ambiente, e portanto litologicamente diferenciadas, mas balizadas por superfíceis de não-deposição ou de erosão que as amarram lateralmente.

[Ver Article 58. -Nature of Allostratigraphic Units no site North Ameican Stratigraphic Code - AGI]