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segunda-feira, 25 de junho de 2018



Expedições à Amazônia revelam novas espécies de sapos, lagartos, aves e plantas Desvendar padrões evolutivos da biota neotropical e as relações que as florestas amazônica e atlântica tiveram no passado são objetivos da equipe liderada pelo zoólogo Miguel Trefaut Rodrigues, da USP (foto: divulgação)

Expedições à Amazônia revelam novas espécies de sapos, lagartos, aves e plantas

25 de junho de 2018

Karina Toledo  |  Agência FAPESP – A ideia de passar um mês rodeado pelos barulhos da floresta tropical, sem sinal de internet ou chuveiro com água quente, dormindo em redes ou em barracas e trabalhando das cinco horas da manhã à meia-noite até mesmo nos fins de semana pode parecer estressante para muitas pessoas. Mas para o zoólogo Miguel Trefaut Rodrigues esse tipo de viagem é “a coisa mais relaxante do mundo”.

Nos últimos meses, o professor do ^ (IB) da Universidade de São Paulo (USP) liderou duas expedições científicas a regiões praticamente inexploradas da Amazônia. São dois os objetivos principais: expandir o conhecimento sobre os padrões evolutivos da biota neotropical e desvendar, por meio dos estudos com esses animais e plantas, as relações que a floresta atlântica e a Amazônia tiveram no passado.

Cada viagem durou cerca de 30 dias e mobilizou ao menos 10 pesquisadores de diferentes especialidades, além da equipe de apoio logístico. O custo foi financiado pela FAPESP, por meio de projetos coordenados por Rodrigues e por sua colega do IB-USP Cristina Miyaki – ambos realizados no âmbito do Programa BIOTA-FAPESP.

“Na primeira expedição, foram coletados mais de 700 exemplares de 104 espécies diferentes, entre répteis, anfíbios, pequenos mamíferos, aves e plantas. O material ainda está sendo analisado, mas acreditamos que será possível descrever várias espécies novas. Na segunda viagem, foram coletados mais de mil espécimes de aproximadamente 110 espécies – a maioria de lagartos”, contou Rodrigues em entrevista à Agência FAPESP.

Realizada entre os meses de outubro e novembro de 2017, a primeira expedição foi concentrada na região do Pico da Neblina – o ponto mais alto do Brasil, situado a 2.995 metros acima do nível do mar em uma unidade de conservação integral da natureza perto da fronteira com a Venezuela.
Como parte do Parque Nacional do Pico da Neblina se sobrepõe ao território pertencente aos índios Yanomami, os pesquisadores necessitaram de autorização da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Exército para conduzir o trabalho de campo.

“Foi uma longa negociação. Estivemos a ponto de desistir, mas conhecer a fauna da região mais alta do Brasil era um desejo de muitos anos”, contou Rodrigues.
Ao final, decidiu-se que a expedição ocorreria sob a tutela e com o apoio logístico do Exército, que mantém um batalhão de apoio aos Yanomamis na comunidade de Maturacá, distante 150 quilômetros do município de São Gabriel da Cachoeira.

O grupo seguiu de Manaus para Maturacá, onde permaneceu durante 15 dias para as primeiras coletas. A segunda metade do trabalho de campo foi conduzida no alto do Pico da Neblina.
“Sabemos que em altitudes superiores a 1.700 metros prevalecem paisagens que não têm absolutamente nada a ver com a Amazônia atual: são campos abertos e com clima muito mais frio que o da floresta, possivelmente parecido com o que imperava na América do Sul durante os períodos mais frios do Quaternário [aproximadamente de 2,6 milhões de anos até cerca de 10 mil anos atrás]”, disse o pesquisador.

Entre os 700 espécimes coletados, o grupo identificou 12 espécies novas só de sapos e lagartos – além de uma pequena coruja nunca antes descrita pela ciência.

“Em relação às plantas, por enquanto, já foi identificada uma espécie nova. Mas acredito que haja pelo menos uma dezena. São grupos complexos e têm de ser avaliados por especialistas. Os pequenos mamíferos também ainda estão sob análise e muito possivelmente teremos boas surpresas”, disse Rodrigues.

Segundo o pesquisador, o material coletado não servirá apenas para a descrição das novas espécies. Também permitirá entender padrões evolutivos e filogeográficos da fauna sul-americana.
“Vários grupos de animais estão sendo estudados sob o ponto de vista genético, morfológico e fisiológico. Alguns desses estudos ajudarão a avaliar o risco de extinção dessas espécies caso a temperatura desses locais se eleve nos próximos anos”, disse.

Já foi possível observar, por exemplo, que as espécies presentes no Pico da Neblina não têm qualquer relação de parentesco com a biota encontrada nas demais regiões amazônicas. Na avaliação de Rodrigues, tal fato indica que a floresta ainda não estava ali quando o complexo maciço que abriga a montanha se formou.

“Isso é importante, pois sugere uma possível relação da biota do Pico da Neblina com a existente nos Andes, na floresta atlântica e outros biomas. Evidências para isso já temos. Uma das espécies de lagartos que encontramos, o papavento Anolis neblininus, faz parte de uma radiação que abrange espécies andinas e das montanhas da floresta atlântica, no Sudeste do Brasil”, disse.

A barreira fluvial

A segunda expedição amazônica foi realizada entre abril e maio de 2018, desta vez sem o apoio do Exército. “Tivemos de alugar um barco – a única maneira de se deslocar pela floresta. Passamos um mês dormindo em redes dentro do barco, onde também fazíamos todas as refeições e montamos nosso laboratório. Em cada ponto diferente do rio era necessário contratar um guia local. O Rio Negro é cheio de pedras e é muito fácil acontecer um acidente”, contou Rodrigues.

O grupo navegou de Manaus até cerca de 80 quilômetros acima do município de Santa Isabel do Rio Negro – passando pela região em que o Rio Branco desemboca suas águas barrentas no Rio Negro. Espécimes foram coletadas em diferentes pontos desse trajeto, em ambas as margens.
“Por sua baixa densidade e alta acidez, o Rio Negro é considerado pobre do ponto de vista faunístico. Queríamos estudar a influência das águas do Rio Branco na diversidade e abundância de espécies. Outro objetivo foi entender o papel do Rio Negro como barreira geográfica para a diferenciação das espécies. Por isso coletamos em ambas as margens”, explicou Rodrigues.

Armadilhas feitas com baldes e lonas de plástico foram instaladas na mata para capturar pequenos animais – sobretudo répteis e anfíbios. A linha de pesquisa coordenada por Rodrigues tem como objetivo entender a evolução de cobras, lagartos, sapos e pererecas da fauna sul-americana.
“São animais extremamente interessantes do ponto de vista ecossistêmico, pois formam a base da cadeia alimentar. E, nesta segunda expedição, conseguimos uma coleta espetacular, mais de mil exemplares”, disse o pesquisador.

O número elevado de espécimes coletado foi necessário para atender a um dos objetivos da segunda expedição: desvendar os mecanismos de origem de um complexo de espécies de lagartos partenogenéticos do gênero Loxopholis, ou seja, espécies formadas apenas por fêmeas que se reproduzem assexuadamente.

Esse projeto, conduzido por dois pós-doutorandos supervisionados por Rodrigues – Sérgio Marques de Souza e Tuliana Oliveira Brunes –, também procura compreender por que essa região da Amazônia concentra um alto número de lagartos partenogenéticos.
“Coletamos lagartos do gênero Loxopholis em muitos pontos diferentes. Em algumas dessas populações conseguimos encontrar machos. Existem populações bissexuais e outras formadas apenas por fêmeas com cariótipos diploides e triploides [formados por dois ou três conjuntos de cromossomos, diferentemente dos gametas sexuais humanos que possuem apenas um conjunto cromossômico].”

Também foram coletados lagartos arborícolas do gênero Anolis com o intuito de investigar a evolução dessas espécies na América do Sul – objetivo do projeto de pós-doutorado de Ivan Prates, que atualmente é bolsista da Smithsonian Institution, nos Estados Unidos.
Durante a viagem, o grupo descobriu em três locais diferentes do Rio Negro espécies partenogenéticas pertencentes a outro gênero de lagartos: Gymnophthalmus .
“Curiosamente, encontramos esses animais em pontos mais estreitos do rio, sobre dunas de areia que testemunham uma época em que o Rio Negro tinha um clima muito mais seco que o atual. Vamos comparar a amostragem feita em cada margem e avaliar se é a mesma espécie partenogenética ou se são clones diferentes e quando se separaram. Isso vai contribuir para compreender a história do Rio Negro”, disse Rodrigues.

Apesar de ainda ter pela frente um vasto material a ser analisado, a equipe da USP já planeja a próxima expedição à Amazônia, que deve contar novamente com apoio do Exército. Desta vez o objetivo é amostrar a fauna dos altos campos do Parque Nacional de Pacaás, em Rondônia, juntamente com o time de parasitologistas do professor Erney Plessman de Camargo, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

terça-feira, 24 de abril de 2018


Consórcio com participação da FAPESP quer sequenciar o DNA de toda a vida na Terra Projeto pretende sequenciar o genoma de 1,5 milhão de espécies de plantas, animais, fungos e outros organismos eucariontes (foto: Andreas Weith / Wikimedia)

Consórcio com participação da FAPESP quer sequenciar o DNA de toda a vida na Terra

24 de abril de 2018

Elton Alisson  |  Agência FAPESP – Estima-se que existam na Terra entre 10 milhões e 15 milhões de espécies eucarióticas, como plantas, animais, fungos e outros organismos cujas células têm um núcleo que abriga seu DNA cromossômico. Mas apenas 14% deles (2,3 milhões) são conhecidos e menos de 0,1% (15 mil) tiveram seu DNA sequenciado completamente.

O conhecimento dessa pequena fração da biodiversidade terrestre resultou em enormes avanços na agricultura, medicina e indústrias baseadas em biotecnologia, além de melhorias nas estratégias para conservação de espécies ameaçadas de extinção, avaliam pesquisadores da área.

A fim de preencher a enorme lacuna no conhecimento e explorar o potencial científico, econômico, social e ambiental da biodiversidade eucariótica terrestre, um consórcio internacional pretende sequenciar, catalogar e caracterizar o genoma de todas as espécies eucarióticas da Terra ao longo de 10 anos.
Os objetivos e os desafios da iniciativa, denominada Projeto BioGenoma da Terra (EBP, na sigla em inglês), foram descritos em um artigo publicado nesta segunda-feira (23/04) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), da Academia Norte-Americana de Ciências.
O projeto terá participação da FAPESP no âmbito dos programas de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA) e de Pesquisa em eScience e Data Science.

“A participação da FAPESP no Projeto BioGenoma da Terra abre para pesquisadores no Estado de São Paulo a possibilidade de participarem em um dos projetos de pesquisa mais ousados da atualidade. Além disso, sendo o Brasil um dos países mais biodiversos, os objetivos podem contribuir de forma muito destacada para o país”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

O projeto é considerado um dos mais ambiciosos da história da biologia e, na avaliação de seus coordenadores, só será possível realizá-lo agora em razão dos avanços na tecnologia de sequenciamento genômico, computação de alto desempenho, armazenamento de dados e bioinformática e da queda de custo do sequenciamento de genoma. E, além disso, da valorização dos biobancos – locais que armazenam a biodiversidade de forma catalogada, como museus, herbários e centros de coleção de culturas.

Com o custo atual de US$ 1 mil para sequenciar o genoma de um vertebrado de tamanho médio caindo, será possível sequenciar, ao custo aproximado de US$ 4,7 bilhões, o genoma de todo o 1,5 milhão de espécies conhecidas de eucariotos. E também de entre 10 e 15 milhões de espécies desconhecidas – a maioria deles organismos unicelulares, insetos e pequenos animais nos oceanos –, estimam os coordenadores do projeto.

O custo, que inclui gastos com instrumentos de sequenciamento, coletas de amostras, armazenamento, análise, visualização e disseminação de dados e gerenciamento de projetos, é comparável ao investido no Projeto Genoma Humano, iniciado em 1990 e concluído em 2003, que custou US$ 4,8 bilhões.

Os investimentos no Projeto Genoma Humano tiveram enormes impactos não apenas na medicina humana, mas também na medicina veterinária, biociência agrícola, biotecnologia, ciência ambiental, energia renovável, ciência forense e na biotecnologia industrial. Um relatório de 2013 do Battelle Memorial Institute estimou o benefício financeiro do projeto para a economia dos Estados Unidos em cerca de US$ 1 trilhão.

Após a conclusão do Projeto Genoma Humano, muitos organismos de importância biomédica, agrícola e industrial tiveram seus genomas sequenciados. E, em 2015, um grupo de pesquisadores das universidades da Califórnia em Davis e de Illinois e do Instituto Smithsonian, nos Estados Unidos, organizou uma reunião com representantes de universidades, instituições de pesquisa e agências de fomento de diferentes países – que deu origem ao Projeto BioGenoma da Terra – em que decidiram que um projeto ainda mais ambicioso era necessário: sequenciar o DNA de toda a vida complexa na Terra.

O professor de evolução e ecologia na Universidade da Califórnia em Davis e presidente do grupo de trabalho que originou o projeto, Harris Lewin, estima que os impactos econômicos do projeto BioGenoma da Terra poderão ser semelhantes ou até mesmo superar os do Projeto Genoma Humano. Com a diferença de que serão distribuídos globalmente e, principalmente, para países em desenvolvimento, como o Brasil, que detém grande parte da biodiversidade mundial, ponderou.
“O Projeto BioGenoma da Terra lançará as bases científicas para uma nova bioeconomia que tem o potencial de trazer soluções inovadoras para problemas de saúde, ambientais, econômicos e sociais para pessoas em todo o mundo, especialmente em países subdesenvolvidos que possuem ativos de biodiversidade significativos”, disse Lewin em comunicado à imprensa.
Em agosto de 2017, com o objetivo de envolver a comunidade científica brasileira no projeto, a FAPESP e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) organizaram o Workshop Biodiversity and Biobank. Realizado no auditório da FAPESP, o evento contou com a presença de Lewin e de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos.

Participaram do workshop curadores de diversas coleções biológicas brasileiras, que se reuniram com representantes do EBP e da Global Genome Biodiversity Network para discutir necessidades e entraves para a participação brasileira nessas iniciativas (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/26121).

Potenciais impactos

Na avaliação dos coordenadores do EBP, os resultados do sequenciamento do genoma de todas as espécies eucarióticas existentes na Terra possibilitarão o desenvolvimento de melhores ferramentas de conservação de espécies e ecossistemas ameaçados – particularmente aqueles afetados pelas mudanças climáticas – e de preservação e melhoria de serviços ecossistêmicos.
O Índice Planeta Vivo – que mede as tendências da diversidade biológica da Terra – indica que entre 1970 e 2017 ocorreu um declínio de 58% das populações de vertebrados do planeta, e a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) estima que entre 23 mil e 80 mil espécies pesquisadas hoje estão se aproximando da extinção.

Estima-se que até 50% das espécies podem se extinguir até 2050, principalmente devido ao uso intensivo de recursos naturais, destacam os autores do artigo.

“O Projeto BioGenoma da Terra nos dará uma visão sobre a história e a diversidade da vida e nos ajudará a entender melhor como conservá-la”, disse Gene Robinson, diretor do Instituto de Biologia Genômica da Universidade de Illinois e copresidente do grupo de trabalho que deu origem ao projeto.
O grupo de trabalho também avalia que o projeto será essencial para o desenvolvimento de novos medicamentos para doenças infecciosas e hereditárias, bem como para a criação de novos combustíveis biológicos sintéticos e fontes de alimentos para a população humana, que deve atingir 9,6 bilhões de pessoas até 2050.

“Estamos no meio do sexto grande evento de extinção da vida em nosso planeta, que não só ameaça as espécies selvagens, mas também representa um perigo para a oferta global de alimentos”, ressaltam os autores do artigo na PNAS.

A fim de atingir os objetivos de sequenciar o genoma da biodiversidade eucariótica da Terra e disponibilizar as informações em um repositório digital aberto, o projeto está estabelecendo uma série de parcerias com grupos de cientistas que trabalham com diferentes grupos de organismos. Entre eles, o Global Genome Biodiversity Network, o Vertebrate Genomes Project, o Plant Genome Projects e o 5000 Insect Genomes Project.
Alguns dos principais desafios do projeto serão coordenar essas iniciativas de sequenciamento genômico em andamento, desenvolver uma estratégia global para coleta e preservação adequada de exemplares para permitir a produção de conjuntos de genomas de alta qualidade e criar ferramentas de computação que possibilitem interpretar as sequências genômicas armazenadas. E, sobretudo, disponibilizá-las de modo organizado para a comunidade científica e para a sociedade.
“O sequenciamento do genoma dos organismos talvez represente a etapa mais fácil do projeto. Os maiores desafios serão ter amostras de material com a qualidade necessária e ferramentas que possibilitem interpretar a enorme quantidade de dados que serão gerados”, disse Marie-Anne Van Sluys, professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), que integra o grupo de trabalho que coordena do projeto.
Os pesquisadores estimam que o sequenciamento do genoma dos organismos deverá exigir cerca de 1 exabyte (1 bilhão de gigabytes) de capacidade de armazenamento digital e gerará desafios e oportunidades para o desenvolvimento de algoritmos computacionais que possibilitem visualizar, comparar e entender a conexão das sequências do genoma com a evolução dos organismos e com os ecossistemas. Além disso, poderá dar origem a novas tecnologias para coleta de amostras utilizando drones e veículos terrestres e aquáticos autônomos equipados com câmeras de alta resolução.
“O projeto representa uma oportunidade para nós, pesquisadores no Brasil, de criar e inovar não só em sequenciamento de genoma, mas também em análise e visualização de dados, coleta, preservação de amostras e diversos outros fatores”, avaliou Sluys.
O artigo Earth BioGenome Project: Sequencing life for the future of life (doi: 10.1073/pnas.1720115115), de Lewin e outros, pode ser lido por assinantes da revista PNAS em www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1720115115.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

IPBES lança em março novos relatórios sobre o status da biodiversidade

15 de fevereiro de 2018

Karina Toledo  |  Agência FAPESP – Cinco novos relatórios sobre o status da biodiversidade no planeta serão divulgados em março, na Colômbia, durante a 6ª Reunião Plenária da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) – entidade criada em 2012 com a missão de sistematizar o conhecimento científico sobre o tema e, assim, subsidiar decisões políticas em âmbito internacional.

O evento será realizado em Medelín de 17 a 24 de março. Entre os participantes estará Carlos Alfredo Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do programa BIOTA-FAPESP e membro do Painel Multidisciplinar de Especialistas (MEP) da IPBES. Também estará presente a pesquisadora Cristiana Simão Seixas, do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) da Unicamp.

IPBES lança em março novos relatórios sobre o status da biodiversidade Documentos terão como base o conceito-chave "Contribuições da Natureza para as Pessoas", apresentado por cientistas da plataforma intergovernamental em artigo na Science (foto: Anya / Wikimedia


“Será debatida e aprovada uma avaliação global temática sobre Degradação e Restauração de Áreas Degradadas, além de quatro avaliações regionais sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos – uma com foco nas Américas, outra na África, a terceira na região da Europa e Ásia Central e, a última, Ásia e Pacífico”, contou Joly.

Como explicou o coordenador do BIOTA, as quatro regiões do planeta não foram divididas segundo os critérios geopolíticos tradicionalmente adotados pela Organização das Nações Unidas (ONU) e sim com base na biogeografia, ou seja, nos padrões de evolução da biodiversidade de cada região geográfica.

Os relatórios regionais servirão de base para o primeiro Diagnóstico Global sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, previsto para 2019 – documento que deverá orientar a tomada de decisão em todas as convenções da área. Seixas, da Unicamp, integra a equipe que coordenou o Diagnóstico Regional das Américas.

Além dos relatórios na íntegra, também serão divulgados em março os sumários para os tomadores de decisão – tanto políticos na área pública como gestores ambientais no setor privado. Esses resumos serão elaborados com uma linguagem acessível a um público mais amplo.

Contribuições da Natureza para as Pessoas

De acordo com Joly, todos os documentos divulgados pela IPBES a partir de 2018 terão como base um novo conceito denominado Nature’s Contributions to People (Contribuições da Natureza para as Pessoas ou NCP, na sigla em inglês), detalhado por cientistas ligados à plataforma em artigo publicado em janeiro na revista Science.

Trata-se de uma evolução do conceito de “serviços ecossistêmicos”, introduzido originalmente em 2005, no relatório Millennium Ecosystem Assessment da ONU.

“Naquela ocasião, foram definidos como serviços ambientais ou ecossistêmicos todos aqueles benefícios que a humanidade obtém da natureza direta ou indiretamente, como polinização, purificação da água e do ar, fertilização dos solos e dispersão de sementes. Essa abordagem permitiu atribuir valores para esses serviços. Por exemplo, a polinização no Estado de São Paulo valeria, no mínimo, o equivalente ao ganho monetário com a produção de laranja – que depende integralmente dos polinizadores”, explicou Joly.

Os serviços ecossistêmicos foram divididos em quatro categorias: Serviços de Provisão (produtos como alimentos, água doce, fibras, compostos químicos, madeira); Serviços de Regulação (processos naturais que regulam as condições ambientais, como absorção de dióxido de carbono pela fotossíntese das florestas, controle do clima, polinização de plantas, controle de doenças e pragas); Serviços de Suporte (contribuem para a produção de outros serviços ecossistêmicos, como ciclagem de nutrientes, formação do solo, dispersão de sementes); e Serviços Culturais (relacionados com benefícios recreacionais, educacionais, estéticos e espirituais).

Com o passar dos anos, porém, os membros da IPBES avaliaram ser necessária uma nova classificação que, além de questões financeiras, considerasse os benefícios imateriais proporcionados à humanidade, como o uso tradicional de uma determinada região por populações indígenas ou a possibilidade de desfrutar uma paisagem natural preservada.

“É uma visão mais holística e que leva em consideração percepções de diferentes culturas. Por exemplo, em vez de defender a preservação de uma determinada área apenas pelo fato de ela proteger recursos hídricos, leva-se em conta que aquela região tem um valor intrínseco por ser conservada. Tem pessoas que vão pagar para ficar em uma pousada ao lado da área preservada. Ou então argumenta-se que a área é relevante para índios Guarani, que extraem o bambu nativo para sua cestaria. Atualmente, estes aspectos não são adequadamente considerados”, disse Joly.
O artigo publicado na Science foi elaborado por 30 cientistas liderados por Sandra Díaz, da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, e Unai Pascual, do Centro Basco para Mudanças Climáticas, na Espanha.

“Por mais de uma década, as políticas públicas relacionadas à natureza foram dominadas pelo conhecimento das ciências naturais e da economia”, disse Díaz. “A pesquisa vibrante desenvolvida a partir da abordagem de serviços ecossistêmicos avançou na questão da sustentabilidade, mas ignorou as evidências e as ferramentas das ciências sociais, humanidades e outras visões de mundo. A noção muito mais ampla das NCPs enfatiza que a cultura é fundamental para todos os laços entre as pessoas e a natureza e reconhece outros sistemas de conhecimento, como, por exemplo, as comunidades locais e os povos indígenas, muito mais do que antes.”

“Este novo contexto conceitual inclusivo demonstra que, embora a natureza ofereça uma recompensa de bens e serviços essenciais, como alimentos, proteção contra inundações e muito mais, possui um rico significado social, cultural, espiritual e religioso que também precisa ser avaliado na elaboração de políticas públicas”, disse Robert Watson, presidente da IPBES.

Joly ressalta, no entanto, que no Brasil a valoração dos serviços ecossistêmicos na elaboração de políticas públicas é algo ainda embrionário. “Estamos tentando fazer avançar uma legislação que reconheça a importância, por exemplo, de manter paisagens conservadas ao lado de áreas cultivadas e outras questões associadas à preservação dos serviços ecossistêmicos”, disse.

Prestes a concluir seu segundo mandato no MEP, o coordenador do BIOTA se despedirá da plataforma em março. Na 6ª Reunião Plenária da IPBES, pelo menos 12 dos 25 membros serão renovados. A escolha leva em conta especialidade, reconhecimento na comunidade científica e distribuição entre países da região. Atualmente, a plataforma conta com representantes de 124 países-membros da ONU.

Ao longo dos seis anos que representou o Brasil, Joly coordenou as ações de Capacity Building (capacitação de profissionais e instituições) da plataforma (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/19840). Além disso, coordenou o MEP nos seus primeiros anos de existência, ao lado do australiano Mark Londsdeale, da Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth (CSIRO).
A experiência adquirida na coordenação do BIOTA e na IPBES levaram Joly – ao lado de Fábio Scarano (Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável e Universidade Federal do Rio de Janeiro), Cristiana Seixas (Unicamp), Jean Paul Metzger (Universidade de São Paulo), Jean Pierre Ometto (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e Mercedes Bustamante (Universidade de Brasília) – a criar, em fevereiro de 2017, a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES). (leia mais em http://agencia.fapesp.br/24787 e http://agencia.fapesp.br/24841).

O artigo Assessing nature's contributions to people (doi: 10.1126/science.aap8826), de Sandra Díaz, Unai Pascual e colaboradores, pode ser lido em http://science.sciencemag.org/content/359/6373/270.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Pesquisa analisa dispersão de parasitas por aves nas Américas

03 de fevereiro de 2017


Peter Moon  |   Agência FAPESP – Monitorar e entender a dispersão de microrganismos com potencial patológico é uma preocupação constante das autoridades sanitárias e epidemiológicas em todo o mundo. Os riscos envolvidos são evidentes, devido à possibilidade da eclosão de surtos de doenças emergentes em humanos ou em animais domésticos e de criação.


Pesquisa analisa dispersão de parasitas por aves nas Américas Trabalho internacional analisa transmissão, a partir de aves migratórias para espécies residentes, de microrganismos com potencial de causar doenças como a malária (fotos: Wikimedia Commons)


A transferência de agentes patológicos por fronteiras pode ocorrer por meio da mobilidade humana, mas também pelo trânsito de animais silvestres. Um dos principais suspeitos a serem monitorados são as aves migratórias, que transportam parasitas por longas distâncias. Mas pouco se sabe sobre a transferência desses parasitas para as populações de aves residentes nos locais de invernagem ou de procriação das aves migratórias.

Recentemente foi publicado no Journal of Biogeography um estudo internacional pioneiro feito a partir da análise para parasitas da malária nas amostras de sangue coletadas em mais de 24 mil aves migratórias e residentes de 23 países dos dois hemisférios americanos.

“Trata-se do maior estudo já feito sobre a parasitologia de aves migratórias das Américas”, disse a bióloga Maria Svensson-Coelho, pesquisadora no Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Nascida na Suécia, Svensson-Coelho foi a responsável pelo processamento de parte das amostras e conta com apoio da FAPESP por meio de um Auxílio à Pesquisa – Jovem Pesquisador no âmbito do programa BIOTA.

“A cada ano, centenas de espécies de aves deixam as suas áreas de invernagem tropicais ou subtropicais para passar o verão nas áreas de acasalamento em altas latitudes, retornando às baixas latitudes no final da estação de acasalamento. Essas espécies estão expostas a diferentes parasitas nas suas áreas de acasalamento boreais ou temperadas e nas áreas de invernagem tropicais ou subtropicais. Potencialmente, podem espalhar parasitas nessas regiões”, disse.
Conhecer como as populações de patógenos se distribuem em vastas áreas geográficas é essencial para o entendimento da epidemiologia dos parasitas, seus padrões locais de virulência e a evolução da resistência nos portadores.

Em 2007, foi feito um levantamento entre 259 linhagens de parasitas em aves distribuídas entre a Europa e a África. Descobriu-se que 31 linhagens que infectam aves migratórias podem ser transmitidas a aves residentes locais. “O objetivo do nosso trabalho é fazer o mesmo tipo de levantamento entre as aves do Novo Mundo”, disse Svensson-Coelho.

No Brasil, a coleta de amostras de sangue das aves migratórias e residentes foi realizada na Estação Ecológica de Águas Emendadas em Brasília e, no Tocantins, no Parque Estadual do Cantão e no Parque Estadual do Lajeado. Alan Fecchio, da Universidade Federal da Bahia, foi o responsável pelas coletas no Cerrado.

Ainda na América do Sul foi investigado material da Amazônia equatoriana e do semiárido da Venezuela. Na América Central entraram o Panamá e o México.

O trabalho também foi realizado em nove estados do leste dos Estados Unidos (Alabama, Connecticut, Illinois, Indiana, Louisiana, Michigan, Missouri, Pensilvânia e Tennessee) e em todas as Antilhas, à exceção de Cuba (Antígua, Bahamas, Barbados, Barbuda, Granada, Guadalupe, Ilhas Caiman, Ilhas Virgens, Jamaica, Martinica, Montserrat, Nevis, Porto Rico, República Dominicana, Saint Kitts, Santa Lúcia, Saint Vincent, Trinidad e Tobago). Não foram estudadas as aves cujas rotas migratórias seguem ao longo da costa do Pacífico, na vertente ocidental dos Andes.

Entre as espécies de aves das quais foram extraídas amostras sanguíneas são exemplos os pardais (Passer domesticus, Passerella iliaca e Melospiza melodia), sabiás (Turdus fumigatus) e outros tordos (Hylocichla mustelinae, Turdus grayi, T. lherminieri, T. migratorius, T. nudigenis e T. plumbeus), o corrupião-laranja (Icterus galbula), a mãe-de-taoca-avermelhada (Phlegopsis erythroptera), a choquinha-de-cauda-ruiva (Epinecrophylla erythrura), a mariquita-de-mascarilha (Geothlypis trichas), as cambacicas ou mariquitas (Coereba flaveola e Setophaga caerulescens), os juncos (Junco hyemalis), as juruviaras (Vireo olivaceus), três espécies da família do bem-te-vi (T. migratorius, Melospiza melodia e Mimus polyglottis) e as toutinegras (Helmitheros vermivorus e Mniotilta varia).

Todas as amostras foram vasculhadas à procura de DNA de parasitas da malária por meio da tecnologia de reação em cadeia da polimerase (PCR). Dentre as 24 mil amostras de sangue pesquisadas, foram identificadas cerca de 4,7 mil com infecções, representando 79 parasitas da malária pertencentes às linhagens de malária aviana do gênero Plasmodium spp. (42 linhagens em 1.982 indivíduos hospedeiros) e também do parasita Haemoproteus spp. (37 linhagens em 2.022 indivíduos hospedeiros), um gênero de protozoários que parasita aves.

“Normalmente, a prevalência é baixa. Na localidade que estudamos no Equador era de 21,6% (ou 539 em 2.488 pássaros infectados) e uma localidade com muitas amostras nos Estados Unidos apresentou 37% de prevalência (ou 271 em 726 pássaros infectados)”, disse Svensson-Coelho.

Segundo a cientista, é preciso coletar muitas aves para se obter uma amostra de tamanho considerável de parasitas uma vez que, em geral, os parasitas só infectam uma fração da população de aves.
“A prevalência pode variar muito não só entre localidades, mas entre espécies dentro dessas localidades. Por exemplo, no Equador, apenas seis de 107 indivíduos (5,6%) de Pipra filicauda (Pipridae) tinham malária, enquanto que 31 de 34 indivíduos (ou 91,2%) de Formicarius colma (Formicariidae) estavam infectados. Esses dados estão no artigo publicado en 2013 no Ornithological Monographs”, disse.

Os parasitas que causam malária aviana (Plasmodium spp.) são responsáveis por sua transmissão em todos os continentes, menos o Antártico. Cerca de 60 espécies da linhagem já foram descritas, de um total estimado de mais de 500.

Nas Américas, o sistema migratório difere daquele entre a Europa e a África no sentido de que as rotas migratórias são mais curtas, especialmente nas Antilhas e América Central. As aves migratórias também são mais propensas a encontrar espécies residentes relacionadas a elas nas áreas de acasalamento e de invernagem do Novo Mundo, diferentemente do que ocorre entre a Europa e a África.

“A afinidade de famílias ou mesmo de gêneros entre as aves migratórias e residentes americanas provavelmente aumenta a probabilidade de transmissão entre portadores migrantes e residentes”, disse Svensson-Coelho.

Doenças emergentes

Uma das diferenças mais notáveis entre o levantamento feito em 2007 e esse último foi que apenas duas linhagens (entre 250 de três gêneros de parasitas) foram encontradas em aves hospedeiras da Europa e África, comparadas às 13 entre 79 linhagens de Plasmodium e Haemoproteus detectadas nas aves residentes americanas.

“O papel das aves migratórias na dispersão dessas linhagens de parasitas entre as regiões temperadas e tropicais parece ser maximizado nas Américas. Talvez isso se deva às rotas migratórias relativamente curtas de várias espécies que passam o inverno na América Central e no Caribe, ou pela afinidade taxonômica de uma grande parte das aves americanas de regiões temperadas e tropicais”, disse Svensson-Coelho.

As linhagens de malária aviana não são transmissíveis a humanos, mas as aves migratórias transportam muitos outros microrganismos. Entre os patógenos que infectam humanos, as aves migratórias foram responsáveis, por exemplo, pela rápida expansão pela América do Norte de uma doença emergente como a Febre do Oeste do Nilo, originária da África.

Outro exemplo é o vírus da gripe, que é endêmico e inofensivo nas aves aquáticas, em sua grande maioria migratórias (patos, gansos, marrecos e cisnes). São elas as responsáveis pela disseminação das novas linhagens do vírus influenza pelo planeta.

O artigo (doi: 10.1111/jbi.12928), de Robert E. Ricklefs, Maria Svensson-Coelho e outros, publicado no Journal of Biogeography, pode ser lido em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jbi.12928/abstract.

sábado, 28 de março de 2015

Livro: História Ecológica da Terra
 
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Capítulo 1 - As Bases da Paleoecologia
1. Introdução
2. Os princípios geológicos
2.1. Catasfrofismo
2.2. O princípio do Atualismo
2.3. A lei fundamental da superposição
3. O conceito de ecossistema dinâmico
4. Classificação geral dos organismos
Referências do capítulo

Capítulo 2 - O Tempo Geológico
1. Introdução
2. Datação relativa
2.1. Bioesfratigrafia
3. Datação absoluta
3.1. Datação radiométrica por isótopos de longa-vida
3.2. Método radiocarbônico
3.3. Método de Tório-Protactínio
3.4. Outros métodos radiométricos
4. Outros métodos de datação
4.1. Hidratação da obsidiana
4.2. Dendrocronologia
4.3. Varvas e ritmitos
5. A idade da Terra

6. Magnitude do Tempo Geológico
Referências do capítulo

Capítulo 3 - O Movimento dos Continentes
1. A teoria da Deriva Continental
2. A nova teoria de Deriva Continental
2.1. Evidências da união dos continentes
2.2. Evidências do deslocamento dos continentes
3. Teoria Tectônica Global
3.1. Formação de litosfera
3.2. Zonas de subducção
3.3. Placas tectônicas
3.4. O movimento das placas tectônicas
3.5. O ciclo das placas tectônicas
4. Datação paleomagnética
5. A Teoria da Terra em expansão
Referências do capítulo

Capítulo 4 - As primeiras Eras da Terra
1. Introdução
1.1. A origem dos continentes
1.2. O Arqueano
1.3. O Proterozoico
2. A Era Paleozoica
2.1. O registro fóssil do Paleozoico Inferior
2.2. Paleozoico Superior
2.3. Conclusões sobre o Paleozoico
3. A conquista dos Continentes
4. Adaptação das plantas para a vida na superfície
Referências do capítulo

Capítulo 5 - O Mesozoico
1. Introdução
2. A primeira parte do Mesozoico
3. A segunda parte do Mesozoico
4. Algumas considerações sobre o Mesozoico
4.1. O Mar de Tethys
4.2. As extinções no final do Mesozoico
5. Os processos básicos da evolução
5.1. Mutação
5.2. Recombinação de genes
5.3. Isolamento reprodutivo
5.4. Seleção natural
5.5. Outros mecanismos de especiação
Referências do capítulo

Capítulo 6 - A Era Cenozoica
1. Introdução
2. O Terciário
2.1. O período Paleógeno
2.2. O período Neógeno
2.3. A formação dos oceanos modernos
2.4. Conclusões sobre o Terciário
3. Nichos ecológicos
4. Expansão e diversificação dos mamíferos
Referências do capítulo

Capítulo 7 - O Planeta Terra
1. Introdução
2. Geometria orbital
3. A atmosfera da Terra
3.1. Composição dos gases da atmosfera
3.2. O balanço energético na Terra
3.3. O poder de filtração da atmosfera
4. A atmosfera primitiva
5. Albedo
Referências do capítulo

Capítulo 8 - O clima da Terra
1. Introdução
2. Os elementos do clima
2.1. Luz e temperatura
2.2. Ventos
2.3. Evaporação e precipitação
Referências do capítulo

Capítulo 9 - O Quaternário
1. Introdução
2. As glaciações do Quaternário
3. Causas das glaciações
3.1. Fatores que podem iniciar ou parar uma glaciação
3.2. Fatores de manutenção de uma idade de gelo
4. A extensão e duração das glaciações quaternárias
5. Os efeitos das glaciações quaternárias
5.1. Mudanças do nível do mar
5.2. Efeito sobre os continentes
5.3. Efeitos sobre a distribuição da Biota terrestre
5.4. Efeitos no mar
5.5. Outros efeitos
6. Pluviais e interpluviais
7. Teoria de Refúgios
8. O limite Pleistoceno-Holoceno
9. A borda dos continentes
Referências do capítulo

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Nova família de animais marinhos é descoberta no litoral paulista

07 de janeiro de 2015

Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Pesquisadores do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com colegas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Smithsonian Marine Station, nos Estados Unidos, descobriram 12 espécies de briozoários (animais invertebrados marinhos que vivem incrustados em substratos, como rochas e algas) na baía do Araçá, situada entre Ilhabela e São Sebastião, no litoral paulista.

Um das espécies – a Jebramella angusta n. gen. et sp. – foi classificada pelos pesquisadores como pertencente a uma nova família e gênero de briozoários, a Jebramellidae n. fam.
Os novos organismos foram identificados no âmbito do Programa BIOTA-FAPESP e de um Projeto Temático financiado pela Fundação. Foram descritos em um artigo publicado na revista Zootaxa.
“A descoberta da Jebramella angusta n. gen. et sp. foi por acaso”, disse Leandro Manzoni Vieira, professor do Centro de Ciências Biológicas da UFPE e primeiro autor do estudo, à Agência FAPESP.
“Já tínhamos observado essa nova espécie fixada em pedras e fragmentos de conchas. Ao filmá-la, descobrimos que ela apresenta estrutura e comportamento até então desconhecidos em briozoários”, afirmou Vieira, que realizou pós-doutorado no Cebimar, sob orientação do professor Alvaro Esteves Migotto, com bolsa da FAPESP.

De acordo com Vieira, os briozoários ou “musgos do mar”, como são conhecidos popularmente, formam colônias incrustadas em pedras, conchas e algas, que podem variar de milímetros até 5 centímetros de diâmetro.

Cada colônia é formada por indivíduos conhecidos como zooides, que apresentam um exoesqueleto com compartimentos internos separados, chamados zoécios, ocupados por organismos individualmente muito pequenos e com tentáculos – da ordem de 0,3 a 1,2 milímetro (mm) de comprimento –, denominados polipídeos.

Geralmente, em espécies de briozoários do grupo Ctenostomata, já conhecidas, os embriões ficam incubados internamente nos zooides.
No caso da nova família de briozoários descoberta, os pesquisadores observaram que os embriões são incubados em uma estrutura externa, em forma de capuz, que é movida com a atividade de protração e retração dos tentáculos dos polipídeos.

O compartimento externo possui um orifício que é aberto quando o tentáculo é projetado para fora e fechado pelos embriões quando é retraído pelos polipídeos.
“Não havia nenhuma descrição na literatura científica sobre esse tipo de comportamento de polipídeos e estrutura externa de incubação de briozoários”, afirmou Vieira. “Há outras famílias próximas à que descobrimos, mas nenhuma delas apresenta embriões incubados externamente.”

Animais vivos

Segundo Vieira, a descoberta das 12 novas espécies de briozoários foi possível, entre outros fatores, pela observação dos animais vivos. As espécies do grupo Ctenostomata têm sido tradicionalmente descritas com base em observações e análises microscópicas de zooides preservados em álcool.
Os estudos baseados apenas nessa metodologia, no entanto, não permitem observar com maior nível de detalhe diferenças na coloração, morfologia e comportamento, entre outras características das espécies, avaliou.
“Percebemos que existiam diferenças nos resultados das análises feitas com espécies vivas em comparação com as análises realizadas com zooides conservados em álcool. A maior parte da informação sobre a espécie é perdida ao conservá-la em álcool”, comparou.
Para realizar as análises dos animais vivos, os pesquisadores realizaram coletas de espécies em áreas ao longo ou próximas da baía do Araçá e as levararam para o Cebimar, onde foram conservadas vivas em potes contendo água corrente do mar.
Os animais foram fotogrados e filmados por meio de câmeras fotográficas acopladas a um estereomicroscópio (microscópio de visão binocular).
Dessa forma, foi possível observar detalhes da coloração, morfologia e comportamento das espécies descobertas, contou Vieira.
“Ao filmar as espécies vivas, começamos a observar algumas diferenças em relação ao seu comportamento , principalmente no que diz respeito ao movimento dos tentáculos”, disse.

Poucos estudos

As espécies de briozoários da ordem Ctenostomata, a que as 12 novas espécies descobertas pertencem, são bastante comuns em ambientes marinhos rasos – com até 200 metros de profundidade –, quentes ou estuarinos, e, tal como outras ordens de briozoários, têm sido pouco estudadas no Brasil e no mundo.
“Há poucos estudos sobre os briozoários, em geral, porque há poucos especialistas nesse grupo de animais”, disse Vieira.

“É preciso mais estudos para conhecer melhor como, por exemplo, esses animais se reproduzem, sobre o que ainda não sabemos praticamente nada”, avaliou.

O artigo “Ctenostomatous Bryozoa from São Paulo, Brazil, with descriptions of twelve new species” (doi: 10.11646/zootaxa.3889.4.2), de Vieira e outros, pode ser lido na revista Zootaxa em http://biotaxa.org/Zootaxa/article/view/zootaxa.3889.4.2.

Imagens e vídeos da nova família de briozoários estão disponíveis no banco de imagens de Biologia Marinha Cifonauta, do Cebimar, e podem ser vistos em cifonauta.cebimar.usp.br/taxon/jebramella-angusta/.

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pesquisa relaciona especiação na Mata Atlântica e na Amazônia à incidência de energia solar

12/02/2014
Por Noêmia Lopes
Agência FAPESP – Na Mata Atlântica e na Floresta Amazônica, os eventos de especiação (formação de novas espécies biológicas) ocorridos ao longo do período Quaternário (com início há 2,7 milhões de anos) coincidiu com períodos de baixa variabilidade de insolação, ou seja, incidência de energia solar.


A pesquisadora Marie-Pierre Ledru, do Institut de Recherche pour le Développement, de Montpellier, na França, apresenta resultados de estudo durante o Workshop Dimensions US-BIOTA São Paulo (foto: Samuel Iavelberg/FAPESP)


A conclusão foi apresentada no Workshop Dimensions US-BIOTA São Paulo, realizado na sede da FAPESP na segunda-feira (10/02) –, e é resultado da pesquisa “Temporal scales of climatic changes and paleodiversity patterns in the Atlantic Rainforest”, conduzida no Institut de Recherche pour le Développement (Montpellier, França) sob a coordenação de Marie-Pierre Ledru e desenvolvida no âmbito do projeto Dimensions US-BIOTA São Paulo

Ledru explicou à Agência FAPESP que os relógios moleculares – modelos matemáticos que os geneticistas utilizam para determinar as taxas das mutações genéticas de determinada espécie – não coincidem com os ciclos de precessão (ciclos pluviométricos que se repetem a cada 23 mil anos, força motriz do clima no Quaternário), nem com qualquer outro ciclo conhecido, à exceção do chamado ciclo de excentricidade.
“Trata-se de um ciclo de 400 mil anos relacionado à quantidade de energia que incide sobre a superfície da Terra. Notamos que a maioria da especiação e a diversificação de espécies na Mata Atlântica e na Floresta Amazônica acontecem justamente nos períodos de baixa variabilidade de insolação”, disse.
De acordo com Ledru, o Institut de Recherche pour le Développement focou seus estudos em análises com espécies de aves, encaminhadas por equipes da Universidade de São Paulo (USP). “Mas já sabemos que o mesmo pode funcionar com espécies vegetais e anfíbios, entre outros seres vivos”, disse.

A hipótese ainda não foi comprovada com registros fósseis, pois, segundo Ledru, os registros mais antigos a que se tem acesso datam de apenas 130 mil anos atrás. Mas a equipe da pesquisadora prevê, para 2015, perfurações na Cratera de Colônia, no extremo sul da cidade de São Paulo, para investigar mais sobre a história paleoecológica da Mata Atlântica por meio de registros fósseis de pólen, análises de isótopos, entre outros indicadores.

A relevância de estudos como esses vem do fato de que, em torno da evolução da Mata Atlântica, ainda paira a dúvida que a evolução da Floresta Amazônica suscita há pelo menos 30 anos: será que o último máximo glacial contribuiu para a especiação nesses biomas? E, durante o Quaternário, que consequências o sistema glacial e interglacial provocou em animais e plantas?

“As pesquisas realizadas até hoje apontam que as respostas fornecidas pelos ciclos glaciais e interglaciais não respondem a essas perguntas sobre especiação. Por isso, estamos buscando outras ideias e hipóteses, como esta que relaciona excentricidade e diversificação de espécies”, disse.
No sentido de aprofundar conhecimentos sobre energia solar, clima e especiação, os próximos passos de pesquisas previstos por Ledru são estudar fósseis mais antigos e de períodos contínuos; aprimorar a cronologia oferecida pelos relógios moleculares; e, quem sabe, redefinir a organização das florestas no Holoceno (período que vai desde a última era glacial, há cerca de 12 mil anos, até os dias de hoje) levando em conta as mudanças em termos de insolação.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Modelo pode ajudar a prever como espécies da Mata Atlântica responderão às mudanças climáticas

11/02/2014
Por Karina Toledo
Agência FAPESP – Compreender os processos evolutivos, geológicos, climáticos e genéticos por trás da enorme biodiversidade e do padrão de distribuição de espécies da Mata Atlântica e, com base nesse conhecimento, criar modelos que permitam prever, por exemplo, como essas espécies vão reagir às mudanças no clima e no uso do solo.

Esse é o objetivo central de um projeto que reúne pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos no âmbito de um acordo de cooperação científica entre o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Recuperação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (BIOTA-FAPESP) e o programa Dimensions of Biodiversity, da agência federal norte-americana de fomento à pesquisa National Science Foundation (NSF).

“Além de ajudar a prever o que poderá ocorrer no futuro com as espécies, os modelos ajudam a entender como está hoje distribuída a biodiversidade em áreas onde os cientistas não têm acesso. Como fazemos coletas por amostragem, seria impossível mapear todos os microambientes. Os modelos permitem extrapolar essas informações para áreas não amostradas e podem ser aplicados em qualquer tempo”, explicou Ana Carolina Carnaval, professora da The City University of New York, nos Estados Unidos, e coordenadora do projeto de pesquisa ao lado de Cristina Miyaki, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP).
A proposta, segundo Carnaval, é promover a integração de pesquisadores de diversas áreas – como ecologia, geologia, biogeografia, genética, fisiologia, climatologia, taxonomia, paleologia, geomorfologia – e unir ciência básica e aplicada em benefício da conservação da Mata Atlântica.
O bioma é considerado um dos 34 hotspots mundiais, ou seja, uma das áreas prioritárias para a conservação por causa de sua enorme biodiversidade, do alto grau de endemismo de suas espécies (ocorrência apenas naquele local) e da grande ameaça de extinção resultante da intensa atividade antrópica na região.

A empreitada coordenada por Carnaval e por Miyaki teve início no segundo semestre de 2013. A rede de pesquisadores esteve reunida pela primeira vez para apresentar suas linhas de pesquisa e seus resultados preliminares na segunda-feira (10/02), durante o “Workshop Dimensions US-BIOTA São Paulo - A multidisciplinary framework for biodiversity prediction in the Brazilian Atlantic forest hotspot”.

“Convidamos alguns colaboradores além de pesquisadores envolvidos no projeto, pois queremos críticas e sugestões que permitam aperfeiçoar os trabalhos”, contou Miyaki. “Essa reunião é um marco para conseguirmos efetivar a integração entre as diversas áreas do projeto e criarmos uma linguagem única focada em compreender a Mata Atlântica e os processos que fazem esse bioma ser tão especial”, acrescentou.
Entre os mistérios que os cientistas tentarão desvendar estão a origem da incrível diversidade existente na Mata Atlântica, possivelmente fruto de conexões existentes há milhões de anos com outros biomas, entre eles a Floresta Amazônica. Outra questão fundamental é entender a importância do sistema de transporte de umidade na região hoje e no passado e como ele permite que a Mata Atlântica se comunique com outros sistemas florestais. Também está entre as metas do grupo investigar como a atividade tectônica influenciou o curso de rios e afetou o padrão de distribuição das espécies aquáticas.
Desafios do BIOTA
Durante a abertura do workshop, o presidente da FAPESP, Celso Lafer, realçou a importância de abordagens inovadoras e multidisciplinares voltadas para a proteção da biodiversidade da Mata Atlântica. Ressaltou ainda que a iniciativa está em consonância com os esforços de internacionalização realizados pela FAPESP nos últimos anos.
“Uma das grandes preocupações da FAPESP tem sido o processo de internacionalização, que basicamente está relacionado ao esforço de juntar pesquisadores de diversas áreas para avançar no conhecimento. Este programa de hoje está relacionado a aspirações dessa natureza e tenho certeza de que os resultados serão altamente relevantes”, afirmou Lafer.

Também durante a mesa de abertura, o diretor do IB-USP, Carlos Eduardo Falavigna da Rocha, afirmou que o programa BIOTA-FAPESP tem sido um exemplo para outros estados e outras fundações de apoio à pesquisa em âmbito federal e estadual.
Carlos Alfredo Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do BIOTA-FAPESP, apresentou um histórico das atividades realizadas pelo programa desde 1999, entre elas a elaboração de um mapa de áreas prioritárias para conservação que serviu de base para mais de 20 documentos legais estaduais – entre leis, decretos e resoluções.
Joly também falou sobre os desafios a serem vencidos até 2020, como empreender esforços de restauração e de reintrodução de espécies, ampliar o entendimento sobre ecossistemas terrestres e sobre os mecanismos que mantêm a biodiversidade no Estado e intensificar as atividades voltadas à educação ambiental.

Para 2014, Joly ressaltou dois desafios na área de conservação. “Estamos iniciando uma campanha para o tombamento da Serra da Mantiqueira. Já fizemos alguns artigos de jornais, estamos lançando um website específico e vamos trabalhar para conseguir tombar regiões acima de 800 metros, áreas apontadas como de extrema prioridade para conservação no atlas do BIOTA”, disse.
Outra meta para 2014, segundo Joly, é trabalhar para que o Brasil ratifique o protocolo de Nagoya – tratado internacional que dispõe sobre a repartição de benefícios do uso da biodiversidade – até outubro, quando ocorrerá a 12ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica.
“É fundamental que um país megadiverso, que tem todo o interesse de ter sua biodiversidade protegida por esse protocolo internacional, se torne signatário do protocolo antes dessa reunião”, afirmou Joly.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Biota: biodiversidade em áreas alteradas pelo homem | 10.12.2013

Áreas destinadas à agropecuária podem esconder uma alta variedade de animais silvestres
O nono e último encontro do Ciclo de Conferências Biota-FAPESP Educação, realizado em São Paulo no dia 21 de novembro, tratou dos ambientes alterados pela ação humana, como cidades e áreas agrícolas, que embora bastante degradados ainda abrigam uma grande diversidade de espécies de plantas e animais. No campus da USP da Cidade Universitária, por exemplo, vivem dezenas de espécies de aves, a apenas oito quilômetros do centro de São Paulo. Entre elas está o jacuaçu (Penelope obscura), uma ave característica da mata atlântica que emite sons semelhantes ao cacarejo das galinhas.
 Assista aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=mMp7gwQVxRU



Hoje, no entanto, um dos grandes problemas para a sobrevivência desses animais em ambientes urbanos é que as áreas arborizadas estão cada vez menores, devido, entre outras razões, ao crescimento desordenado das cidades. No Brasil, 85% da população vive atualmente em áreas urbanas.


Já as áreas destinadas à agropecuária também podem esconder uma alta variedade de animais silvestres – mamíferos, peixes, anfíbios e aves –, geralmente não valorizados, como os da cidade. Algumas aves já estão adaptadas às matas próximas às plantações, como o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), a curicaca (Theristicus caudatus) e a maria-faceira (Syrigma sibilatrix). Estima-se que até 60% das espécies de aves originais desses ambientes vivam em paisagens agrícolas alteradas.
Para saber mais sobre esse universo biológico escondido entre prédios e plantações e os desafios relacionados a sua conservação, assista ao resumo das palestras do último encontro do Ciclo de Conferências, que contou com a participação das bióloga Elizabeth Höfling, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), e Roseli Buzanelli Torres, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), e o agrônomo Luciano Martins Verdade, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Revista Biota Neotropica passa a fazer parte da rede BHL-SciELO

13/12/2013
Por Karina Toledo
Agência FAPESP – Resultado de uma parceria firmada com o programa Scientific Electronic Library Online (SciELO), a revista Biota Neotropica passa a integrar, em 2014, a rede Biodiversity Heritage Library (BHL-SciELO) – parte de uma iniciativa internacional cujo objetivo é digitalizar, indexar e tornar acessíveis on-line as principais obras da literatura científica sobre biodiversidade.

Edição impressa será extinta e apenas trabalhos em inglês serão aceitos. Coordenador do BIOTA-FAPESP destaca ações do programa em 2014, como novo ciclo de conferências e chamada de propostas de pesquisa sobre espécies invasoras 

Todos os artigos publicados no periódico desde 2001 – quando foi lançado pelo Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (BIOTA-FAPESP) – já estão disponíveis no site www.bhlscielo.org.

Segundo Carlos Alfredo Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do BIOTA-FAPESP, a edição impressa será extinta em 2014 e apenas trabalhos em inglês serão aceitos. Além disso, o sistema eletrônico de submissão de artigos e gerenciamento está sendo reformulado.
“Uma das metas do programa em sua segunda década de existência é aumentar o fator de impacto da revista Biota Neotropica, que hoje é de 0,56. Queremos chegar a perto de 1 nos próximos três anos. As mudanças fazem parte desse planejamento. Uma das novidades é a disponibilização on-line imediata dos trabalhos assim que forem aprovados pelos assessores ad hoc, editores de área e editor-chefe. Isso diminuirá o tempo de editoração, tornando a publicação mais ágil e aumentando seu tempo de exposição”, disse Joly.

A revista foi criada em 2001 com a missão de divulgar os resultados das pesquisas realizadas no âmbito do programa e de abranger também estudos feitos em toda a região neotropical com a temática “caracterização, conservação e uso sustentável da biodiversidade”.
“Uma avaliação feita pela coordenação na época identificou que a maioria das revistas brasileiras de circulação internacional era dedicada a determinados grupos taxonômicos, como a Revista Brasileira de Botânica e a Revista Brasileira de Zoologia. Havia uma lacuna a ser preenchida”, contou Joly.
Em 2012, a publicação passou a ser indexada na base de dados Web of Science, da Thomson Reuters.
“A revista já é uma referência importante na América Latina, mas é preciso ter uma presença mais forte em outras regiões do mundo. Afinal, o país que tem o privilégio e a responsabilidade de ser o número ‘um’ entre as nações megadiversas precisa ter um periódico científico reconhecido internacionalmente como de alta qualidade nessa área”, avaliou Joly.

Novo canal

Também com o intuito dar visibilidade à produção científica do BIOTA e favorecer a interação entre seus pesquisadores, foi criado no mês de setembro um boletim eletrônico bimestral batizado de Biota Highlights.

Na avaliação da bióloga Érica Speglich, que em parceria com Paula Castro edita o novo boletim, a integração dos pesquisadores é ainda mais estratégica que a integração de dados e de conhecimentos, pois reforça os objetivos do programa, fortalece sua identidade e favorece a geração de spin-offs.
“Reuniões e simpósios são uma das formas de promover essa integração, mas a distância entre os eventos fez com que a coordenação procurasse outros mecanismos, entre eles a criação de um boletim com conteúdo inédito e personalizado sobre o BIOTA, seus projetos e pesquisadores”, afirmou Speglich.
Qualquer interessado em receber as notícias por e-mail pode se cadastrar na página do programa BIOTA. O conteúdo também está disponível no endereço: www.biota.org.br/?page_id=3126.
Conferências educativas
A ampliação do diálogo com públicos além do meio científico – especialmente professores e estudantes do ensino médio e fundamental – também tem sido uma das metas do programa BIOTA nesta segunda década de vida.
Ao longo de 2013, um ciclo de conferências educativas gratuitas reuniu mais de 750 pessoas na sede da FAPESP. Durante os nove encontros, foram abordados temas relacionados à biodiversidade dos diferentes biomas brasileiros.

Uma nova edição do ciclo será realizada em 2014, desta vez com foco nos chamados “serviços ecossistêmicos”, como a polinização, a proteção aos recursos hídricos e a ciclagem de nutrientes.
“Vamos olhar mais para processos do que para fotografias estáticas. Abordar os serviços que a biodiversidade oferece para o homem, como polinização, que é importante também para a produção de alimentos. É uma abordagem moderna que já começa a fazer parte dos livros escolares. Pretendemos melhorar o entendimento desses processos”, afirmou Joly.
O ciclo de 2014, no entanto, será realizado apenas durante o primeiro semestre. Na segunda metade do ano, os pesquisadores estarão envolvidos com os preparativos para a reunião bienal de avaliação do Programa BIOTA-FAPESP, prevista para ser realizada em Campos do Jordão, entre os dias 7 e 12 de dezembro.

“Teremos mais de 80 projetos participando da avaliação este ano; será impossível apresentar os principais resultados de cada um deles. Nossa ideia é reunir os trabalhos dentro de grandes temas, como biodiversidade marinha, microrganismos, inventários e ecologia de vertebrados, por exemplo”, disse Joly.
“Para isso, ao longo do segundo semestre, vamos reunir na FAPESP os coordenadores de projetos de cada grande tema para as apresentações individuais e elaborar uma síntese do avanço do conhecimento nessas áreas temáticas. Essa síntese será apresentada para os avaliadores internacionais em dezembro”, explicou.
Outro evento já agendado para o dia 10 de fevereiro, na sede da FAPESP, é o workshop “A multidisciplinary framework for biodiversity prediction in the Brazilian Atlantic forest hotspot”, organizado pelas professoras Cristina Miyaki, da Universidade de São Paulo (USP), e Ana Carolina Carnaval, do City College of New York, nos Estados Unidos. As duas coordenam um projeto selecionado na segunda chamada de propostas de cooperação científica dos programas BIOTA-FAPESP e Dimensions of Biodiversity-National Science Foundation (NSF), dos Estados Unidos (leia mais em http://agencia.fapesp.br/18020).

No período entre 28 e 30 de abril, o professor da USP Roberto Berlinck promove o workshop “Thinking big about small beings: recent advances on microbial diversity, ecology and biodiscovery”. No mês de agosto, a professora da Unicamp Antonia Cecilia Zacagnini Amaral realiza um workshop do Projeto Biota Araçá/São Sebastião.

Ainda sobre a programação de 2014, Joly destacou uma chamada de propostas focada em estudos sobre espécies invasoras, prevista para fevereiro, e outra com foco na área de educação em biodiversidade, ainda sem data definida.

“A coordenação do BIOTA também planeja envolver sua comunidade de pesquisadores na efetiva implementação do Programa de Trabalho da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), que está sendo discutido e aprovado esta semana em Antalya, Turquia”, comentou Joly.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Fragmentação florestal afeta biodiversidade de aves

19/11/2013
Por Samuel Antenor

Agência FAPESP – Processos de deflorestação são conhecidos como obstáculos para a manutenção dos ecossistemas em florestas, mas suas consequências, distintas para espécies da flora e da fauna, podem ser ainda piores para determinados grupos de animais. É o que indica uma pesquisa liderada pelo professor Mauro Galetti, do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro.

Segundo a pesquisa, é este o caso das aves, cuja diversidade de espécies é ameaçada não apenas em circunstâncias de desmatamento de grandes áreas verdes para, por exemplo, a produção agroindustrial, mas também quando as matas são preservadas de forma não contínua e tecnicamente sem proximidade. Ou, ainda, quando não há conservação de áreas suficientemente densas para sua sobrevivência e reprodução.
Dados que relacionam a diminuição das matas à sobrevivência de diferentes espécies de aves – e a diminuição de aves como fator de declínio na taxa de dispersão de sementes – , parte de um projeto de pesquisa mais abrangente sobre a maneira como a fragmentação das florestas afeta essa biodiversidade, foram apresentados por Galetti no dia 12 de novembro durante a FAPESP Week na Carolina do Norte, em Raleigh, Estados Unidos.

O simpósio internacional – organizado pela FAPESP, pela University of North Carolina em Chapel Hill, pela University of North Carolina-Charlotte, pela North Carolina State University (NCSU) e pelo Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars, de Washington – reuniu pesquisadores dos dois países com o objetivo de intensificar o intercâmbio e ampliar as pesquisas conjuntas realizadas nos Estados de São Paulo e da Carolina do Norte.

Os dados da pesquisa, que também foram publicados na revista Science, fazem parte do Projeto Temático “Efeitos de um gradiente de defaunação na herbivoria, predação e dispersão de sementes: uma perspectiva na Mata Atlântica”, apoiado pela FAPESP e concluído em março no Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro.

Galetti e sua equipe se concentraram na investigação do comportamento de determinadas espécies de aves e de sua capacidade de evolução em ambientes que sofrem intensa ação humana, como nos remanescentes da Mata Atlântica na região Sudeste do Brasil.
O professor da Unesp também destacou a redução de um tipo específico de palmeira, a Euterpe edulis, em decorrência direta da exploração humana, reunindo informações presentes no artigo publicado na Science. O trabalho contou com a participação de 15 pesquisadores de oito instituições de São Paulo, Paraná, Pará, Rio de Janeiro, Goiás e também do México e da Espanha.
A palmeira descrita na palestra de Galetti é uma espécie dominante na região da Mata Atlântica e seus frutos são consumidos por mais de 58 espécies de aves. Essa palmeira, porém, também fornece o palmito, o que a coloca em risco por causa da ação humana.

Ao verificar as consequências evolutivas do processo de diminuição de espécies animais como resultado dessa ação, a pesquisa obteve dados sobre o processo de defaunação que ocorre nesse bioma, buscando identificar a perda ou o declínio da população de vertebrados nativos de médio e grande portes.
A defaunação representa uma ameaça significativa não apenas para a Mata Atlântica, mas também para a biodiversidade dos diversos ecossistemas tropicais.
“Buscamos verificar como essa perda de espécies, em diferentes níveis, afeta sistemas biológicos ao longo de diferentes processos, da fisiologia e reprodutibilidade vegetal ao comportamento animal, incluindo padrões de migração, abrigo e dieta alimentar”, disse Galetti.

Determinadas mudanças nesses padrões podem levar a interrupções no funcionamento dos ecossistemas e, consequentemente, à degradação ambiental em prazos curtos ou médios. “No longo prazo, porém, as alterações podem significar alterações fenotípicas e até na estrutura genética de populações animais”, disse.
Para Galetti, os dados levantados pelo estudo indicam que é preciso identificar necessidades e apontar possíveis prognósticos, para haver tempo de adaptação a uma condição em que haja possivelmente menos espécies.
Composta em grande medida por espécies herbívoras e frugívoras, a fauna de médio e de grande porte tem animais importantes para a dispersão de sementes, que atuam no controle de plantas por meio da herbivoria e da predação de sementes.
Segundo Galetti, a caça ilegal tem reduzido consideravelmente a diversidade desses animais em distintas áreas nos trópicos, especialmente na Mata Atlântica, o que pode ter profundos efeitos na diversidade e na composição das espécies vegetais.
Com apenas 12% de floresta remanescente, a Mata Atlântica ainda possui até 8% das espécies de aves do mundo e altas taxas de endemismo.

Espécies relacionadas

Grandes migrações entre as populações de aves sugerem que a Euterpe edulis compartilha uma história evolutiva comum com essas aves, que são importantes agentes para a germinação dessa espécie de palmeira.
“Suas sementes são espalhadas por ação de regurgitação e defecação. Contudo, as evidências apontam para uma diminuição de espécies de aves com capacidade de colher grandes sementes, como tucanos, o que torna vulnerável a dispersão de sementes maiores, entre elas a da E. edulis”, disse Galetti.
Segundo os pesquisadores, a diferença entre as características de tamanho de sementes ocorre em razão de recentes mudanças causadas pelo crescente isolamento das florestas, cada vez mais fragmentadas.
O tamanho da semente estaria relacionado à perda de água e de germinação. Quanto maior a semente, menor a área de superfície exposta em proporção ao volume. Isso agravaria o problema, visto que as sementes não germinam com menos de 20% de sua superfície exposta à água.

“A defaunação cria um novo regime de seleção para a evolução de plantas no antropoceno. Essas mudanças podem até passar despercebidas, mas são capazes de levar várias espécies à extinção em cenários climáticos futuros”, disse Galetti.
A pesquisa foi apresentada no painel sobre biodiversidade, que contou também com apresentações dos pesquisadores Maritta Koch-Weser, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), Erin Sills, da North Carolina State University, e Daniel Janies, da University of North Carolina-Charlotte.

Brazilian Nature

Ainda sobre o tema biodiversidade, a FAPESP Week North Carolina contou com a exibição da exposição Brazilian Nature – Mystery and Destiny em dois locais distintos.
A primeira delas foi aberta na James B. Hunter Library, no Institute of Emerging Issues da NCSU, em Raleigh, onde ficará exposta no saguão principal até o dia 20 de novembro. A segunda mostra foi aberta no dia 13 de novembro, na Student Union da University of North Carolina-Charlotte.

Com 37 painéis, a exposição retrata o trabalho do naturalista alemão Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) e permite comparar as imagens originais feitas no século 19 com fotografias atuais de plantas e biomas, entre elas algumas feitas durante pesquisas realizadas no âmbito do projeto Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo e do Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Recuperação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (BIOTA-FAPESP). Os painéis digitalizados da exposição podem ser vistos com legendas em português, inglês, espanhol, japonês e alemão no endereço: www.fapesp.br/publicacoes/braziliannature

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Distribuição geográfica de árvores da Mata Atlântica pode cair 65% até 2100

26/08/2013
Por Noêmia Lopes
Agência FAPESP – Caso se concretizem as projeções mais otimistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e a temperatura nas áreas com remanescentes de Mata Atlântica aumentar até dois graus Celsius, a distribuição geográfica das árvores desta floresta poderá ter redução de 30% em 2100. Se as estimativas mais pessimistas vingarem e o aquecimento atingir a casa dos quatro graus Celsius, tal redução poderá chegar a 65%.


Estimativa vinculada às previsões mais pessimistas do aquecimento global foi apresentada em conferência do BIOTA Educação (Wikimedia)

O alerta foi feito por Carlos Joly, coordenador do Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (BIOTA-FAPESP) e pesquisador do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB/Unicamp), durante o sexto encontro do Ciclo de Conferências 2013 do BIOTA Educação, realizado no dia 22 de julho na FAPESP, em São Paulo.

Os números foram obtidos a partir de um levantamento que começou em herbários. “Identificamos pelo menos 30 pontos de ocorrência exata de árvores da Mata Atlântica e, com isso, fizemos um mapa de onde elas ocorrem hoje em determinadas condições de temperatura, precipitação, tipo de solo e altitude”, explicou Joly.

Considerando os 30 pontos iniciais, o passo seguinte foi usar um algoritmo para calcular em que outros lugares haveria potencial para a ocorrência das espécies, o que deu origem a um segundo mapa. De acordo com o pesquisador, “isso nos permitiu dizer que determinada espécie é capaz de ocorrer em certa localidade, sob certas condições anuais de temperatura e precipitação”.
Em seguida, as projeções do IPCC permitiram traçar o panorama de 2100, considerando cenários mais e menos otimistas. “Estimamos que a porção nordeste dos remanescentes – onde a estimativa é que também haja redução significativa de chuvas – vá diminuir. E a distribuição geográfica das espécies ficará mais restrita a áreas como a Serra do Mar, onde a precipitação é garantida e o relevo impede que a temperatura suba demais”, afirmou Joly.

Estoques de carbono

Outro tema abordado durante a conferência foi o monitoramento do carbono estocado na Floresta Atlântica paulista, em uma faixa equivalente a 14 campos de futebol entre Ubatuba e São Luiz do Paraitinga.

Desde 2005, pesquisas viabilizadas pelo BIOTA-FAPESP e pelo Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) investigam os remanescentes de Mata Atlântica na região, inclusive no que diz respeito às trocas gasosas entre as plantas e o meio ambiente.

O acompanhamento é feito por meio de cintas de aço colocadas nos troncos das árvores – a medição do diâmetro, a cada dois anos, aponta quanto carbono vem sendo fixado por elas. “Também monitoramos árvores que morrem e vão entrar em decomposição e plantas novas, que no último período verificado cresceram o bastante para entrar em nossa amostragem”, afirmou Joly. Uma torre de 60 metros de altura, equipada com um grande conjunto de sensores, também mede o fluxo de trocas gasosas, além de radiação, chuva, vento, entre outros fatores.

Os resultados obtidos até o momento apontam para a existência de grandes estoques de carbono, principalmente no solo das regiões mais altas, onde as temperaturas frias tornam o processo de decomposição mais lento e há acúmulo de serapilheira – camada fofa que se forma com folhas caídas no chão.
“Imaginamos que, em um processo de aquecimento, a serapilheira que se acumulou por milhares de anos vai se decompor mais depressa, fazendo com que a floresta libere mais gás carbônico do que pode assimilar. Ou seja, ela se tornaria uma fonte emissora e nós perderíamos o serviço ambiental de estocagem que hoje as espécies nos prestam”, explicou Joly.
Nos próximos anos, o monitoramento na Floresta Atlântica paulista será comparado a estudos na Floresta Amazônica e em florestas da Malásia, em parceria com pesquisadores britânicos. Já se sabe, por exemplo, que a Floresta Amazônica não acumula tanto carbono no solo como a Atlântica e, nas medições anuais, estabelece trocas com a atmosfera que resultam em um balanço próximo a zero.

Fauna e sensoriamento

André Victor Lucci Freitas, pesquisador do IB/Unicamp, também participou da conferência apresentando dados sobre origem, evolução e diversidade da fauna da Mata Atlântica. Ele apontou que a grande diversificação e o alto endemismo faunístico podem ser explicados por um conjunto de processos.
“A interação entre as tolerâncias ambientais dos diferentes grupos de animais, a heterogeneidade de habitats (florestas, restingas, campos) e os processos históricos (como variações climáticas no passado) explicam a grande diversidade encontrada ao longo de toda a extensão da Mata Atlântica”, disse Freitas.
O terceiro palestrante, Flávio Jorge Ponzoni, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), tratou sobre os bastidores do desenvolvimento de um atlas.

“O acompanhamento, agora anual, dos remanescentes da Mata Atlântica é feito a partir da interpretação de imagens de satélites. Fotografias aéreas resultariam em um detalhamento maior, mas essa ainda é uma técnica muito cara para a grande extensão que precisamos monitorar”, disse. Outro desafio é identificar desmatamentos menores causados pela expansão urbana.
De acordo com Ponzoni, o bioma cobre 7,9% de sua extensão original, se considerados os remanescentes acima de 100 hectares. Quando computados todos os polígonos com 100 hectares ou menos, o domínio é de 11% a 16%.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Ao menos 70% das espécies da Terra são desconhecidas

25/02/2013
Por Karina Toledo

Agência FAPESP – Embora o conhecimento sobre a biodiversidade do planeta ainda esteja muito fragmentado, estima-se que já tenham sido descritos aproximadamente 1,75 milhão de espécies diferentes de seres vivos – incluindo microrganismos, plantas e animais. O número pode impressionar os mais desavisados, mas representa, nas hipóteses mais otimistas, apenas 30% das formas de vida existentes na Terra.

Estima-se que existam outros 12 milhões de espécies ainda por serem descobertas”, disse Thomas Lewinsohn, professor do Departamento de Biologia Animal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), durante a apresentação que deu início ao Ciclo de Conferências 2013 organizado pelo programa BIOTA-FAPESP com o intuito de contribuir para o aperfeiçoamento do ensino de ciência.
 
Dando início ao Ciclo de Conferências 2013 do BIOTA-FAPESP Educação, Thomas Lewinsohn (Unicamp) falou sobre o tempo e o custo estimado para descrever todas as espécies do planeta (foto:Léo Ramos)

Mas como avaliar o tamanho do desconhecimento sobre a biodiversidade? “Para isso, fazemos extrapolações, tomando como base os grupos de organismos mais bem estudados para avaliar os menos estudados. Regiões ou países em que a biota é bem conhecida para avaliar onde é menos conhecida. Por regra de três chegamos a essas estimativas”, explicou.

Técnicas mais recentes, segundo Lewinsohn, usam fórmulas estatísticas sofisticadas e se baseiam nas taxas de descobertas e de descrição de novas espécies. Os valores são ajustados de acordo com a força de trabalho existente, ou seja, o número de taxonomistas em atividade.
“No entanto, o mais importante a dizer é: não há consenso. As estimativas podem chegar a mais de 100 milhões de espécies desconhecidas. Não sabemos nem a ordem de grandeza e isso é espantoso”, disse.
Lewinsohn avalia que, para descrever todas as espécies que se estima haver no Brasil, seriam necessários cerca de 2 mil anos. “Para descrever todas as espécies do mundo o número seria parecido. Mas não temos esse tempo”, disse.

Algumas técnicas recentes de taxonomia molecular, como código de barras de DNA, podem ajudar a acelerar o trabalho, pois permitem identificar organismos por meio da análise de seu material genético. Por esse método, cadeias diferentes de DNA diferenciam as espécies, enquanto na taxonomia clássica a classificação é baseada na morfologia dos seres vivos, o que é bem mais trabalhoso.
“Dá para fazer? Sim, mas qual é o custo?”, questionou Lewinsohn. Um artigo publicado recentemente na revista Science apontou que seriam necessários de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão por ano, durante 50 anos, para descrever a maioria das espécies do planeta.

Novamente, o número pode assustar os desavisados, mas, de acordo com Lewinsohn, o montante corresponde ao que se gasta no mundo com armamento em apenas cinco dias. “Somente em 2011 foram gastos US$ 1,7 trilhão com a compra de armas. É preciso colocar as coisas em perspectiva”, defendeu.

Definindo prioridades

Muitas dessas espécies desconhecidas, porém, podem desaparecer do planeta antes mesmo que o homem tenha tempo e dinheiro suficiente para estudá-las. Segundo dados apresentados por Jean Paul Metzger, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), mais de 50% da superfície terrestre já foi transformada pelo homem.
Essa alteração na paisagem tem muitas consequências e Metzger abordou duas delas na segunda apresentação do dia: a perda de habitat e a fragmentação.

“São conceitos diferentes, que muitas vezes se confundem. Fragmentação é a subdivisão de um habitat e pode não ocorrer quando o processo de degradação ocorre nas bordas da mata. Já a construção de uma estrada, por exemplo, cria fragmentos isolados dentro do habitat”, explicou.
Para Metzger, a fragmentação é a principal ameaça à biodiversidade, pois altera o equilíbrio entre os processos naturais de extinção de espécies e de colonização. Quanto menor e mais isolado é o fragmento, maior é a taxa de extinção e menor é a de colonização.
“Cada espécie tem uma quantidade mínima de habitat que precisa para sobreviver e se reproduzir. Não conhecemos bem esses limiares de extinção”, alertou.

Metzger acredita que esse limiar pode variar de acordo com a configuração da paisagem, ou seja, quanto mais fragmentado estiver o habitat, maior o risco de extinção de espécies. Como exemplo, ele citou as áreas remanescentes de Mata Atlântica do Estado de São Paulo, onde 95% dos fragmentos têm menos de 100 hectares.
“Estima-se que ao perder 90% do habitat, deveríamos perder 50% das espécies endêmicas. Na Mata Atlântica, há cerca de 16% de floresta remanescente. O esperado seria uma extinção em massa, mas nosso registro tem poucos casos. Ou nossa teoria está errada, ou não estamos detectando as extinções, pois as espécies nem sequer eram conhecidas”, afirmou Metzger.

Há, no entanto, um fator complicador: o período de latência entre a mudança na estrutura paisagem e mudança na estrutura da comunidade. Enquanto as espécies com ciclo curto de vida podem desaparecer rapidamente, aquelas com ciclo de vida longo podem responder à perda de habitat em escala centenária.
“Cria-se um débito de extinção e, mesmo que a alteração na paisagem seja interrompida, algumas espécies ficam fadadas a desaparecer com o tempo”, disse Metzger.
Mas a boa notícia é que as paisagens também se regeneram naturalmente e além do débito de extinção existe o crédito de recuperação. O período de latência representa, portanto, uma oportunidade de conservação.
“Hoje, temos evidências de que não adianta restaurar em qualquer lugar. É preciso definir áreas prioritárias para restauração que otimizem a conectividade e facilitem o fluxo biológico entre os fragmentos”, defendeu Metzger.

Colhendo frutos

Ao longo dos 13 anos de existência do BIOTA-FAPESP, a definição de áreas prioritárias de conservação e de recuperação no Estado de São Paulo foi uma das principais preocupações dos pesquisadores.
Os resultados desses estudos foram usados pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente para embasar políticas públicas, como lembrou o coordenador do programa e professor do Instituto de Biologia da Unicamp, Carlos Alfredo Joly, na terceira e última apresentação do dia.
“Atualmente, pelo menos 20 instrumentos legais, entre leis, decretos e resoluções, citam nominalmente os resultados do BIOTA-FAPESP”, disse Joly.

Entre 1999 e 2009, disse o coordenador, houve um investimento anual de R$ 8 milhões no programa. Isso ajudou a financiar 94 projetos de pesquisa e resultou em mais de 700 artigos publicados em 181 periódicos, entre eles Nature e Science.

A equipe do programa também publicou 16 livros e dois atlas, descreveu mais de 2 mil novas espécies, produziu e armazenou informações sobre 12 mil espécies, disponibilizou e conectou digitalmente 35 coleções biológicas paulistas.

“Desde que foi renovado o apoio da FAPESP ao programa, em 2009, a questão da educação se tornou prioridade em nosso plano estratégico. O objetivo deste ciclo de conferências é justamente ampliar a comunicação com públicos além do meio científico, especialmente professores e estudantes”, disse Joly.

A segunda etapa do ciclo de palestras está marcada para 21 de março e terá como tema o “Bioma Pampa”. No dia 18 de abril, será a vez do “Bioma Pantanal”. Em 16 de maio, o tema será “Bioma Cerrado”. Em 20 de junho, será abordado o “Bioma Caatinga”.

Em 22 de agosto, será o “Bioma Mata Atlântica”. Em 19 de setembro, é a vez do “Bioma Amazônia”. Em 24 de outubro, o tema será “Ambientes Marinhos e Costeiros”. Finalizando o ciclo, em 21 de novembro, o tema será “Biodiversidade em Ambientes Antrópicos – Urbanos e Rurais”.
Programação do ciclo: www.fapesp.br/7487