quarta-feira, 18 de abril de 2012

Deserto do Irã é o lugar mais quente do mundo, revelam satélites

RIO - Nem no Rio de Janeiro, como gostamos de pensar, nem no Saara, como sugere a marchinha de carnaval. O lugar mais quente da Terra é o Deserto de Lut, no Irã, onde a temperatura chegou a 70,7 graus Celsius em 2005, segundo medições da Nasa, divulgadas ontem por uma equipe da Universidade de Montana, nos Estados Unidos. Localizado no leste do Irã, o Lut conta com uma paisagem árida repleta de grandes colinas de fragmentos de rocha esculpidas pelo vento. Sem aparelhos de ar condicionado ou qualquer proteção, um ser humano não resistiria por um dia àquele ambiente.
Foi pensando nessa limitação que o ecologista Steven Running resolveu desenvolver o estudo, que será publicado pela "Journal of Geophysical Research". O pesquisador lembra que há, distribuídas pelo planeta, 11.119 estações cadastradas na Organização Meteorológica Mundial (OMM). Isso equivale a apenas um ponto de temperatura monitorada a cada 13 mil quilômetros quadrados de superfície terrestre. Fica evidente, portanto, a existência de regiões tão remotas que são ignoradas por aquela instituição.
- Os desertos quentes do planeta, como o Saara, Gobi (entre China e Mongólia) e Sonora (EUA e México) são climaticamente rigorosos demais, e o acesso é tão remoto que uma medição de rotina da temperatura, ou a manutenção de uma estação, são impraticáveis - explica Running. - A maioria desses pontos é ignorada por equipamentos instalados em solo. Os satélites, porém, nos dão uma visão contínua da superfície, permitindo uma observação igual tanto destas áreas quanto de outras mais alcançáveis.
Imagem do deserto de Lut feita por satélite da Nasa em 1999 nas cores naturais.(Divulgação Nasa)

Imagem do deserto de Lut feita com câmera de infravermelho, os locais mais claros a supefície registrava 70°C.(Divulgação …
Hemisfério Sul menosprezado
Running usou um dispositivo em dois satélites: o Terra, lançado em 1999, e o Aqua, no espaço desde 2002. Conhecido como Modis, este instrumento passa diariamente por toda a superfície da Terra e pode detectar a energia infravermelha ali emitida. Assim, pode calcular as temperaturas e "preencher as lacunas" entre as estações meteorológicas.
A equipe americana fez as medições por sete anos, a partir de 2003; em cinco deles, o Deserto de Lut foi o que registrou temperaturas mais altas. As exceções foram 2003, quando o título ficou para a província de Queensland, no norte da Austrália (com 69,3º C) e 2008, período em que venceram os 66,8º C da Bacia de Turfan, na China.
A influência da cobertura vegetal sobre as medições ainda deve ser avaliada, segundo o estudo; por isso florestas como a do Congo podem não ter marcado presença entre os locais mais cálidos do planeta. No entanto, com o desmatamento à toda em diversas regiões tropicais, aliado a mudanças climáticas e à intensificação de eventos extremos, é provável que Lut, Queensland e Turfan tenham mais concorrentes nas próximas décadas.
Ex-chefe da Divisão de Satélites do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe, Carlos Frederico de Angelis acredita que o levantamento da Universidade de Montana pode ter minimizado a quentura de alguns endereços do Hemisfério Sul.
- Essa distribuição dos locais mais quentes deve ser mais homogênea - avalia o cientista, agora coordenador-geral de operações do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). - É fato que o nível de observação dos satélites é muito reduzido no Hemisfério Sul. A maioria dos países desenvolvidos, que tem condições financeiras e interesse para desenvolver pesquisas, está no Norte. Além disso, há muito mais terras naquele hemisfério do que no nosso.
Para a bióloga Ana Elisa Silva, também do Cemaden, temperaturas como a registradas pelo estudo "não são viáveis para a vida humana".
- Há micro-organismos que se desenvolvem em locais extremos. Alguns fungos, por exemplo, conseguem se viver a mais de 100 graus Celsius - destaca. - Nosso corpo tem mecanismos para manter a temperatura interna, que é de 36 graus, mas ele não conseguiria se ajustar naturalmente, sem recorrer a qualquer recurso, a uma condição tão radical.
Ana Elisa ressalta que há pessoas "que conseguem um controle do corpo incomum" para se adequar a ambientes inóspitos, mas tratam-se de exceções. Algumas estranham mesmo temperaturas bem mais amenas - a de um verão carioca, por exemplo.

10 fatos pouco conhecidos sobre lobos

Provavelmente nenhum outro animal terrestre foi tão importante para os seres humanos quanto o lobo. Eles eram deuses nas mitologias nórdicas, também amamentaram Rômulo e Remo, os fundadores de Roma. Mais importante ainda, o lobo foi o primeiro animal a ser domesticado pelo homem (embora certamente hoje nós preferimos seus parentes próximos, os cães, como bichinhos de estimação), um processo ainda envolto em mistério, que ocorreu mais de 10.000 anos atrás. Eles foram, ao mesmo tempo, nossos queridos amigos e inimigos mais terríveis, e ainda assim há muito que não sabemos sobre eles. Confira alguns fatos:
1 – Lobos negros não ocorrem naturalmente

Um estudo de 2008 da Universidade de Stanford descobriu que a mutação responsável pela pelagem preta ocorre somente em cães, assim lobos negros são o resultado de lobos cinzentos cruzando com caninos domésticos. A mutação é uma característica dominante, como o cabelo escuro em seres humanos, e é passada para a maioria da prole. Não é claro se o pelo preto beneficia os animais. Eles não parecem ser caçadores mais bem sucedidos, mas mostram uma acentuada melhoria na imunidade a determinadas infecções. Lobos negros são muito mais comuns na América do Norte do que no resto do mundo.
2 – Uma grande porcentagem de coiotes são na verdade híbridos de lobos

Em áreas onde os lobos foram em grande parte eliminados, coiotes têm prosperado. Ao longo dos últimos anos nos EUA, grandes populações têm se movido para o leste, em áreas suburbanas e até mesmo grandes cidades como Nova York e Chicago. Testes genéticos em 100 coiotes capturados no Maine revelaram que 22 tinham alguma ascendência de lobo. “Coilobos” são híbridos de coiote e lobo, geralmente maiores que os coiotes regulares e menores que os lobos, e extremamente astutos. Eles exibem um destemor da civilização humana, como os coiotes, mas parecem manter o instinto de caça em grupo e alto nível de agressão dos lobos.
3 – O canibalismo é comum entre os lobos

Os lobos são carnívoros extremamente oportunistas, que não perdem a chance de uma refeição. Vivendo em alguns dos terrenos mais rigorosos do planeta, eles às vezes são obrigados a comer os membros doentes ou feridos de seu grupo. Qualquer lobo que morreu é jogo justo. Lobos capturados em armadilhas devem ser rapidamente recuperados por caçadores ou serão dilacerados por outros lobos. Quando dois grupos de lobos entram em contato, muitas vezes se envolvem em uma batalha fatal, com os machos alfas sendo mortos. Lobos são até mesmo comidos por sua própria prole.
4 – Os lobos mais pesados podem se aproximar de 90 kg

Lobos aumentam exponencialmente em tamanho quanto mais longe estão do equador. Lobos dos trópicos não são frequentemente maiores do que cães de médio porte, mas os do extremo norte (Alasca, Canadá e Rússia) podem ter mais de 55 kg. O maior lobo já morto na América do Norte, no Alasca em 1939, tinha 80 kg. Na Ucrânia, um lobo ainda mais massivo foi morto: com 86 kg. Há relatos de espécimes com mais de 90 kg, machos alfa, presumivelmente, em áreas que possuem fonte de alimento estável.
5 – Lobos raivosos são extremamente perigosos

Embora os lobos não sejam um importante vetor da raiva, eles podem pegar a doença de outras espécies, como guaxinins e raposas. Ao contrário de alguns animais, que apresentam letargia e desorientação, os lobos experimentam quase imediatamente os sintomas agressivos da raiva quando contraem a doença. Um número significativo de ataques a seres humanos estão diretamente ligados à raiva. Tais incidentes têm diminuído ao longo dos anos, mas alguns ainda ocorrem. Embora existam tratamentos disponíveis para pessoas mordidas por animais raivosos, a propensão do lobo é morder perto da cabeça e do pescoço, e muitas vezes o vírus chega ao cérebro da pessoa antes que ajuda médica possa ser procurada.
6 – Lobos nas Américas são menos propensos a atacar os seres humanos do que em outras partes do mundo

Há muito poucos registros verificáveis de ataques de lobo nos EUA e no Canadá, mas na Europa e na Ásia, os lobos são muito mais “desagradáveis”. Relatos históricos indicam que mais de 3.000 pessoas foram mortas por lobos na França entre 1580 e 1830. Na Idade Média na Europa, estruturas especiais eram construídas ao longo das estradas para os viajantes se refugiarem de grupos de lobos. A Índia e a Rússia também são particularmente bem conhecidas por terem muitas vítimas de lobos. Durante a Primeira Guerra Mundial, os soldados rivais eram ocasionalmente forçados a se unirem para lutar contra lobos famintos atraídos pelo cheiro de sangue no campo de batalha.
7 – Lobos acham os cães deliciosos

Embora eles sejam intimamente relacionados (praticamente a mesma espécie) e possam facilmente cruzar, muitos lobos consideram os cães presas. Em uma luta, até mesmo cães grandes são facilmente vencidos, já que lobos de tamanho igual têm dentes maiores e uma mordida mais devastadora. Na Rússia, onde cães vadios tornaram-se um problema sério desde a queda do império soviético, a dieta dos lobos se baseou muito neles. Um único lobo pode atrair um cão para uma emboscada pelo resto da matilha, e só cães maiores e mais ferozes, como Pastores do Cáucaso, têm uma chance se defender.
8 – A peste negra colocou os seres humanos no menu dos lobos

A Peste Negra, que devastou a Europa na Idade Média, pode explicar grande parte da dinâmica tensa entre lobos e humanos. Com cadáveres empilhando de maneira mais rápida do que podiam ser enterrados ou queimados, era natural que lobos se banqueteassem com os mortos. Ao fazer isso, gerações inteiras desenvolveram um gosto por carne humana e, provavelmente, começaram a nos ver como presas. Sem dúvida, pessoas altamente supersticiosas começaram então contos como crenças já prevalentes de lobisomens, vampiros e outros.
9 – A mesma coisa ocorreu com a varíola

A varíola trazida para as Américas pelos colonizadores europeus teve um efeito devastador sobre os nativos. Sem contato com a doença no passado, seus sistemas imunológicos eram indefesos, e daqueles que a contraíram, 80 a 90% morreram. O naturalista sueco Peter Kalm, enviado para a América em 1748, registra que no período anterior à Guerra Revolucionária a varíola estava em um ponto particularmente devastador ao longo da costa leste. Percebendo uma refeição fácil, os lobos invadiam as aldeias indígenas, devorando os corpos dos doentes. Embora muitos nativos americanos reverenciem os lobos, eles também apresentam um medo saudável dos animais, especialmente em áreas arborizadas, onde um encontro com um lobo pode não ser muito amigável.
10 – Lobos comem suas presas vivas

Conforme relatado acima, os lobos comem quase qualquer coisa, mas suas refeições preferidas são os grandes ungulados (como veados e alces). Ao contrário dos ursos ou grandes felinos, os lobos não têm uma arma anatômica capaz de rapidamente matar esses grandes animais. Sendo assim, eles matam por atrito: o grupo todo ataca e corta as ancas e períneo do animal, rasgando suas pernas e intestino, até que a vítima cai de exaustão. Eles começam a comê-la imediatamente, mesmo que a presa ainda esteja viva (e permaneça assim por algum tempo).[Listverse]

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Georges Cuvier:
do estudo dos fósseis à paleontologia,
de Felipe Faria.
Editora 34/Associação Filosófica Scientiæ Studia, 2012.
270pp.
Formato 125x205mm
ISBN: 978-85-7326-487-6
Preço: R$ 42,00


Foram necessários séculos de desenvolvimento científico para que os fósseis deixassem de ser uma mera curiosidade e passassem a integrar o conhecimento da história natural dos seres vivos. Entretanto, somente quando os trabalhos do naturalista francês Georges Cuvier (1769-1832) foram aceitos pelo mundo científico é que o estudo dos fósseis pode servir de base para a constituição da paleontologia como uma ciência autônoma. Ao dotar o estudo dos fósseis de métodos e de um programa de pesquisa, no interior de uma ampla rede de colaboração entre pesquisadores, Cuvier reuniu as condições necessárias para que os fósseis fossem tomados como fenômenos biológicos. A partir de então, eles passaram a ter um lugar central na narrativa histórica da vida na Terra.
Felipe Faria descreve essa trajetória, procurando desfazer alguns equívocos historiográficos, tal como o de que Cuvier defendia o diluvianismo ou o criacionismo. O leitor poderá assim perceber a relevância de sua contribuição não somente para a constituição da paleontologia científica, mas fundamentalmente para o estabelecimento de um corpo de dados empíricos capaz de servir de base para argumentos favoráveis às hipóteses evolucionistas.


Sobre o autor

Felipe Faria, nascido em 1964, na cidade de Santos, realizou sua graduação em biologia, em 2003, na Universidade Federal de Santa Catarina, instituição na qual também obteve os títulos de mestre na área de biologia vegetal, em 2005, e doutor em ciências humanas, em 2010, com o trabalho aqui publicado, bem como atualmente realiza um estágio de pós-doutorado na área de Filosofia, além de integrar o grupo de pesquisa “Fritz Müller-Desterro de Estudos em História e Filosofia da Biologia”. É também membro do grupo de pesquisa “Paleoinvertebrados e Icnofósseis do Brasil”, sediado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde desenvolve pesquisas sobre a história da paleontologia brasileira e as coleções geopaleontológicas do Museu Nacional. Tem publicado artigos especializados sobre a filosofia e a história da paleontologia e da geologia, discutindo temas implicados na formação e desenvolvimento dessas áreas científicas e o impacto que o conhecimento por elas produzido tem no pensamento biológico.

Site: http://www.scientiaestudia.org.br/editora/faria2011.asp

Os primeiros tetrápodes

Fósseis descobertos em depósitos de cerca de 348 milhões de anos na Escócia abrem uma janela para melhor compreender como os vertebrados conquistaram a terra firme. O achado é tema da coluna deste mês!!!
de Alexander Kellner.
Por: Alexander Kellner
Publicado em 13/04/2012 | Atualizado em 14/04/2012
Os primeiros tetrápodes
Reconstrução de um dos novos tetrápodes terrestres encontrados na Escócia. (ilustração: Michael Coates/ University of Chicago and National Museums Scotland - NMS) 
 
Descobertas da paleontologia que ganham destaque na imprensa estão geralmente vinculadas ao encontro e à descrição de novas formas de vida. Mas, desta vez, um trabalho que não propõe espécies novas despertou o interesse das pessoas, incluindo leitores desta coluna: achados de exemplares de tetrápodes (animais com os ossos das quatro patas bem diferenciados) que fornecem preciosas informações sobre a transição dos vertebrados da água para ambientes terrestres.

Conquista da terra firme

De uma forma simplificada, pesquisas apontam para a origem da vida no mar. Sim, os mares do passado eram certamente diferentes dos atuais em termos de composição, distribuição e correntes, mas o registro fossilífero demonstra que os primeiros organismos surgiram em corpos de água e, depois, conquistaram os ambientes terrestres.

Na história evolutiva dos vertebrados, essa transição do mar para a terra firme ainda está envolta em muito mistério. Às vezes ocorrem achados especiais, como o Tiktaalik roseae, um peixe que já possuía diversas adaptações encontradas nos primeiros tetrápodes e que surpreendem os pesquisadores. Em outros casos, é um conjunto de novos dados – e fósseis – que trazem avanços para a pesquisa. Essa é a situação do trabalho realizado por Timothy Smithson (University Museum of Zoology Cambridge, Inglaterra) e colaboradores que foi publicado no mês passado na prestigiosa PNAS – revista científica da Academia de Ciências dos Estados Unidos.

Devido a intensas buscas e coletas de fósseis, existe hoje ao redor do mundo uma quantidade expressiva de depósitos do Devoniano Médio a Superior (360-375 milhões de anos atrás) contendo tanto restos de tetrápodes como também de peixes, que seriam mais proximamente relacionados aos primeiros tetrápodes. No entanto, a vasta maioria dessas ocorrências é de animais aquáticos, cujo tamanho variava de um a dois metros de comprimento, com o crânio achatado e grande em relação ao seu corpo.

Já as formas tipicamente terrestres, ou seja, que podiam se locomover em terra firme, são encontradas em depósitos do Carbonífero (cerca de 330 milhões de anos atrás). Nesse período geológico, os tetrápodes já eram bastante diversificados, ocupando uma variedade relativamente grande de ambientes.
Esses animais tinham o crânio proporcionalmente menor e menos achatado do que as formas aquáticas, o que estaria relacionado ao desenvolvimento de uma respiração mais efetiva para o ambiente terrestre. E o tamanho de muitas dessas espécies é relativamente pequeno: 100 milímetros da ponta do focinha à cauda.

Mas, como e quando ocorreu essa transição da água para a terra firme?

Teoria da atmosfera com pouco oxigênio

Para responder essa pergunta, o que os paleontólogos precisavam era justamente de fósseis. No entanto, por algum motivo, estes não vinham sendo encontrados nas camadas de idade crucial para a conquista da terra firme, entre 330 e 360 milhões de anos.

Essa lacuna de informação já tinha sido registrada há bastante tempo pelo lendário paleontólogo Alfred Sherwood Romer (1894-1973), um dos principais especialistas em répteis fósseis. E apesar de ela ter sido reduzida por alguns achados realizados ao longo dos anos, os pesquisadores ainda não tinham respostas para essa ausência de tetrápodes terrestres nesse período de transição.

Uma das principais teorias levantadas para explicar essa falta de fósseis era de que eles simplesmente não existiam. Logo após a extinção ocorrida ao final do Devoniano (359 milhões de anos), a atmosfera teria sido muito pobre em oxigênio, o que impediria os tetrápodes primitivos, cujo sistema respiratório não era bem desenvolvido para um ambiente terrestre, de deixar a água.
Curiosamente, a falta de tetrápodes nesse intervalo de tempo também coincidia com a ausência de artrópodes (grupo de invertebrados que inclui, entre outros, insetos, aranhas e escorpiões), possível base da alimentação dos primeiros vertebrados terrestres.
Fósseis de artrópodes
Fósseis de artrópodes de 348 milhões de anos procedentes da Escócia. Esses invertebrados possivelmente constituíam a base da alimentação dos primeiros tetrápodes terrestres. (foto: National Museums Scotland - NMS)

Os novos achados

Por meio de uma coleta de fósseis sistemática, Timothy e colegas conseguiram encontrar em quatro localidades da Escócia depósitos contendo restos de tetrápodes – tanto terrestres como aquáticos – cuja idade gira em torno de 348 milhões de anos. Essa descoberta diminuiu a lacuna do conhecimento sobre a evolução dos vertebrados em aproximadamente 15 milhões de anos.

De quebra, os pesquisadores ainda encontraram em três desses depósitos restos de artrópodes – ou seja, o possível alimento dessas primeiras formas de tetrápodes terrestres.
Esses achados contradizem a teoria de que os níveis de oxigênio na atmosfera terrestre eram particularmente baixos durante esse período.
Mas a pesquisa ainda se encontra no início. Certamente, conforme os autores comentam, existem muitas espécies diferentes no conjunto de mais de centenas de tetrápodes encontrados. E alguns deles ainda precisam ser preparados para revelar detalhes de sua anatomia, o que levará algum tempo.
Restos de tetrápodes
Restos de diversos tetrápodes foram encontrados em rochas de 348 milhões de anos na Escócia. Em A e B, pata de um tetrápode ainda não identificado que exibe morfologia bem típica de formas terrestres modernas. Em C, arcada inferior de um tetrápode terrestre primitivo. (foto: Smithson et al./ PNAS)
Um dos achados, por exemplo, é uma pata ainda não identificada que claramente demonstra uma forma muito parecida com os tetrápodes mais derivados. Isso sem contar os diversos crânios – uns mais completos do que outros – que demonstram pertencer a tetrápodes com aspecto geral moderno.
Ou seja: em breve teremos mais novidades sobre essas fases iniciais da conquista da terra firme pelos vertebrados.

Aproveito para agradecer aos leitores Francisco Mello e Keila Koiss pela sugestão de abordar essa descoberta.

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

sábado, 14 de abril de 2012

Documentários History Channel: Lutas Jurásicas



Usando de instinto e astúcia, as criaturas que habitavam a Terra há milhões de anos transformaram o mundo pré-histórico em um campo de batalhas. De um ataque ao outro, os episódios analisarão estas incríveis batalhas e trarão à luz um mundo bem mais calculado e complexo do que se poderia imaginar.






S01E01 - Dinossauro Canibal


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Em 1998, um grupo de paleontólogos que trabalhava na Ilha de Madagascar, descobriu restos de um Majungassauro, um dos predadores mais temidos de sua época. Utilizando os últimos avanços em tecnologia criminalística para estudar várias marcas em seu corpo, os cientistas descobriram que foi atacado por outro Majungassauro, o que revela o primeiro caso autêntico de canibalismo entre dinossauros.


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S01E02 - O Caçador de Tiranossauros


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O Tiranossauro-Rex é um dos mais temíveis predadores de nosso planeta, mas para um dinossauro em particular, ela era a caça. Uma descoberta em Montana revela os ossos quebrados de um jovem T-Rex, e os dentes de seu agressor. Através das marcas dentárias os cientistas determinaram se tratar de um Nanotirano. À medida que mais ossos surgem, os paleontólogos analisam esta batalha para encontrar respostas sobre a origem do Nanotirano, o "Pequeno Tirano".


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S01E03 - Bandos de Assassinos

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O predador Deinonico era parecido com uma ave, e habitualmente atacava um tipo de dinossauro grande e herbívoro chamado Tenontosssauro. Os cientistas realizaram um estudo sem precedentes sobre como estes animais se moviam, lutavam e se comportavam.


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S01E04 - A Batalha mais Sangrenta


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O Alossauro e o Ceratosauro se enfrentam em um bebedouro, uma cavidade pré-histórica com água, no que seria uma das lutas mais sangrentas registradas na história paleontológica. Os cientistas descobriram ali mais de 15.000 ossos e o porquê de várias espécies terem lutado até a morte durante uma forte seca no período jurássico.


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S01E05 - Monstros da Era do Gelo


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O Mega-leão, um gigantesco primo de 340 quilos dos leões modernos, enfrenta cara a cara o Urso-de-face-curta, um animal aterrorizante de mais de 3 m de altura, com músculos e garras imensas. Fazendo um estudo detalhado de cada batalha, e analisando o comportamento dos ursos e leões modernos, especialistas recriam pela primeira vez, golpe por golpe, os combates mortais que travaram estes monstros da era do gelo.

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S01E06 - A Caça e o Caçador

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O Alossauro e o Ceratossauro se enfrentam... Cientistas reconstroem uma terrível batalha entre os dois predadores, em uma luta por domínio onde ambos os caçadores se transformam em caça.


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S01E07 - Assassinos das Profundezas


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O Megalodon, uma criatura de mais de 15 metros, parente do moderno Grande Tubarão Branco, enfrenta uma Brygmophyseter, uma espécie extinta de baleia Cachalote, com dentes enormes iguais aos do Tiranossauro-Rex.


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S01E08 - Os Maiores Assassinos

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Milhões de anos de evolução geraram alguns dos dinossauros mais monstruosos já imaginados. Agora daremos uma olhada em primeira mão a algumas das criaturas pré-históricas mais mortíferas já conhecidas. Desde o Utahraptor até o gigantesco Tiranossauro Rex, analisaremos seu tamanho, seu comportamento e as demais características que os fizeram tão letais.


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S01E09 - A Última Batalha do Raptor

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O Gastonia, um dinossauro recoberto com uma couraça que o fazia parecer um tanque pré-histórico, enfrenta o mais gigantesco membro da família dos “raptors” (aves de rapina) já descoberto: o Utahraptor. Utilizando a mais avançada tecnologia para recriar seus esqueletos, os especialistas são capazes de reconstituir a vida destes dois antigos rivais.


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S01E10 - Rio da Morte


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Uma manada de Paquirinossauros é atacada por um par de Albertosaurus. Encurralados entre os predadores e o rio, a manada tem que defender seu território; mas quando um dos membros rompe o cerco na tentativa de escapar, coloca em perigo todo o grupo.

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S01E11 - Raptors Versus T-Rex


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O herbívoroEdmontossauro trava uma batalha contra uma manada de Dromeossauros, membros mortíferos da família dos raptores. Utilizando seu cérebro avançado, os raptores conseguem conduzir o Edmontossauro a uma armadilha mortal em um vale do qual não terá escapatória. Mas antes que consigam executar seu plano, aparece um Tiranossauro para reclamar a presa para si próprio.


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S01E12 - Armagedom


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Há milhões de anos, os dinossauros desapareceram da face da Terra. Especialistas de diversos campos científicos se reúnem para revisar as evidências e ajudar a explicar os eventos que causaram esta extinção em massa. Todas as teorias apontam para um asteroide do tamanho do monte Everest que teria caído próximo da América do Sul. Utilizando os últimos avanços em tecnologia, especialistas reconstruirão os últimos momentos dos dinossauros na Terra.


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quarta-feira, 11 de abril de 2012

As origens da ave cigana

 

 O paleontólogo Herculano Alvarenga conta sobre sua pesquisa com as origens da ave amazônica que come folhas e tem sistema digestivo de ruminante. Saiba mais na reportagem "A longa viagem da cigana", de novembro de 2011: http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=4551&bd=1&pg=1&lg=

 Cigana, ave comedora de folhas.


Os hábitos, a dura dieta de folhas e a aparência bizarra da cigana são únicas. Com um nome que deriva da palabra mexicana "uatzin" para faisão, essas aves vivem em grupos familiares unidos, contruindo ninhos em árvore de mangue. Os mais jovens permanessem com a família durante três anos.
Não sabendo nadar, tendo dificuldade para subir em árvores e voando mal, a cigana se limita a um pequeno território. comunica por sons semelhantes a grunhidos, crocitos e assobios e vive em subgrupos familiares estáveis de duas a oito aves, que fazem parte de grupo maiores que pode chegar a uma centena de indivíduos. Depois de comer, passa três quarto do dia empoleirada em um galho pra digerir a comida, usando uma calosidade especial localizada no peito pra se equilibrar. A cigana vive em arbustos e árvores perto d'água. Muda de território durante os períodos de secas, mas não viaja mais que alguns quilômetros. As ávores satisfazem suas necessidades básicas e são usadas para se alimentar e construir o ninho. A cigana se lava abrindo as asas para tomar chuva, e depois as sacodes para secar.

A cigana se alimenta nas áreas localizadas perto da água, no começo da manhã ou no final do dia. Essa ave raramente precisa beber água, pois 70% dos seus alimentos vegetais são contituidos por água. Em muitas áreas, os jarros gigantes (erva do gênero Arum) e as árvores do mangue são seus preferidos, mas sabe-se que essa ave é capaz de comer folhas de mais de 50 plantas diferentes. Para poder digerir a comida, a cigana possui um enorme papo acima do estômago, cheio de bactérias que degradam as células vegetais e as fermentam para produzir açúcares posteriormente usados como fonte energética.

A família da cigana inclui um reprodutor e sua descendência nascida em epócas anteriores, que ajudar a criar os mais novos. Todos os membros do grupo realizam exibições de côrte que funcionam como defesa territorial. No entanto, na época de acasalamento, apenas o casal reprodutor acasala. A fêmea pôe ovos na plataforma do ninho situada acima da água. As crias nascem sem penas e desenvolvem uma penugem castanho-escura até o final do décimo dia. Ao contrário dos adultos, elas sabem nadar e mergulhar e, a partir do terceiro dia, podem se atirar na água por baixo do ninho para fugir dos predadores. As jovens ciganas têm garras nas extremidades de cada asa, o que lhes permite agarrar galhos e ir novamente para cima das árvores do seu território.
Grande parte do hábitat da cigana está sendo destruido por drenagem das águas de mangue para a utilização humana. Algumas áreas foram transformadas para uso agrícola. No entanto, na Guiana, onde os canais de irrigação construídos nos campos são rodeados por vegetação adequada, a cigana foi capaz de obter alimentos e sobreviver. Não é possívl criar a cigana em cativeiro por mais de 5 anos. Conseqüentemente, é imperativa a conservação do seu hábitat.
A cigana pode ser encontrada na região norte da América do Sul, leste dos Andes, na Venezuela, Colômbia, Suriname, Guiana Francesa, Equador, Peru e Bolívia, e no norte e centro do Brasil.


Na Guiana, a cigana é conhecida como "faisão malcheiroso" porque libera um cheiro desagradável. Acredita-se que esta proteção contra os predadores é resultado da sua dieta à base de folhas. No entanto, no Brasil, a cigana não cheira tão mal e as pessoas até comem seus ovos e a sua carne.
A cigana é o único membro de sua família. Originalmente acredita-se que ela possía algumas semelhanças com os Galliformes, que incluem as galinhas. Mas, o seu único parente está próximo dos Cuculiformes, como o anú-branco


(Guira guira). O seu único parente conhecido é um fóssil com 18 milhões de anos, o Hoazinoides magdalenae.

Fonte do Texto e Imagem
http://deoolhonanet.blogspot.com/

 

Taxonomia e conservação

Desde a sua descrição, em 1776, que a classificação das ciganas é fonte de polêmica na comunidade ornitológica. A espécie já foi considerada como pertencente aos Galliformes, depois Cuculiformes e actualmente o Congresso Ornitológico Internacional classifica-a numa ordem própria – os Opisthocomiformes[1] (a taxonomia de Sibley-Ahlquist, baseada em estudos de DNA, considera as ciganas como membro basal da ordem Cuculiformes).
A cigana não é uma espécie ameaçada de extinção, mas a caça excessiva e degradação de habitats podem vir a ser problemas no futuro.

Referências

  1. Bustards, Rails and Allies (em inglês). IOC World Bird List. Página visitada em 21 de Abril de 2011.

A milenar Amazônia capixaba

Mata atlântica do Espírito Santo guarda resquícios da floresta amazônica de 7,8 mil anos atrás 

CARLOS FIORAVANTI | Edição 194 - Abril de 2012
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Lagoa do macuco, na reserva de Sooretama: ex-manguezal

Com um tronco avermelhado de quase 2 metros de diâmetro e 25 metros de altura, com uma casca que lembra escamas de peixe, a jueirana-vermelha ou Parkia pendula é uma das espécies de árvores típicas da floresta amazônica que começaram a ser encontradas em uma reserva de mata atlântica em Linhares, norte do Espírito Santo, a 2.400 quilômetros das bordas da atual floresta amazônica, há 30 anos. No entanto, até hoje ninguém sabe muito bem por que elas estão aqui. Agora, para deixar ainda mais emocionante a dúvida, especialistas de São Paulo, com base em análises de solo e de pólen retirados dos sedimentos do fundo de uma lagoa, estão literalmente desenterrando as paisagens do passado e mostrando que as espécies amazônicas já viviam nesta região há pelo menos 7,8 mil anos.

Esse levantamento está indicando que espécies se mantiveram ou desapareceram como resultado das variações de clima e de solo ao longo de milhares de anos. Além disso, sugere possíveis interações entre ambientes hoje distantes e isolados, como a floresta litorânea e a Amazônia, e, de modo mais amplo, indica a tendência das transformações, a resistência ou a fragilidade das diversas formas de vegetação nativa do país, em resposta às variações de clima. “As matas fechadas, se não houver interferência humana nem mudanças climáticas intensas, tendem a avançar sobre as áreas abertas, ocupadas pelos campos”, diz Luiz Carlos Pessenda, pesquisador do Centro de Energia Nuclear da Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba, que coordena os levantamentos que estão refazendo a floresta submersa do norte do Espírito Santo.

Nos últimos 20 anos, Pessenda, físico de formação, fez cerca de 200 furos pelas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste em busca de pólen em sedimentos terrestres e lacustres e em amostras de solo, antes de concluir que as áreas abertas tendem a escassear, seguindo a tendência dos últimos 4 mil anos. Talvez não aqui em Linhares, ele suspeitou, ao percorrer essas matas pela primeira vez, há quatro anos, e ver os campos nativos – cerca de 20 áreas circulares com uma vegetação rasteira e raras árvores, que crescem em solo bastante arenoso e resistem em meio à mata fechada. “Há 8 mil anos havia ilhas de floresta amazônica aqui, onde o clima não mudou muito, ou então a floresta amazônica chegava até aqui.”
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Buso, Alves e Siqueira, diante de uma monumental Parkia pendula, ampliada ao lado

Com base nos dados obtidos até agora, Pessenda, com sua equipe do Cena, concluiu que o clima no norte do Espírito Santo deve ter se mantido relativamente estável nos últimos 15 mil anos. Desse modo, a área, a composição e a estrutura das matas devem ter se mantido com poucas alterações, enquanto em outras regiões do país as florestas encolhiam ou desapareciam, em resposta a variações climáticas intensas. Esse contraste sugere que as matas capixabas podem ter sido refúgios biológicos, preservando espécies de plantas e de animais que podem ter se extinguido em outros lugares ou mesmo servindo como espaço para a formação de novas espécies, à medida que se separavam de outras. O arquipélago de Fernando de Noronha, onde ele também fez levantamentos de campo, pode ter sido outro lugar sem grandes mudanças na vegetação, mas com claros registros do avanço da linha de costa. “Onde é manguezal, a 200 metros da praia”, diz ele, “já foi praia, há aproximadamente 5 mil anos.”
A possibilidade de ter sido um refúgio com florestas há milhares de anos, se confirmada por outros estudos, poderá ampliar o valor biológico dessas matas que há meio século seguiam contínuas até o sul da Bahia e ganharam o nome de hileia baiana, em razão da semelhança com a Amazônia. As florestas encolheram bastante, em razão da expansão das cidades e do desenvolvimento econômico – Linhares já foi um pujante centro de produção de móveis, com madeiras retiradas das matas nativas. Mas restou uma respeitável área de 45 mil hectares – metade preservada como área pública federal, a reserva biológica de Sooretama, e outra metade pela mineradora Vale – cercada de fazendas de café e mamão.
“A biodiversidade salvou a floresta dessa região”, diz o engenheiro florestal Gilberto Terra Ribeiro Alves, coordenador de pesquisa da Reserva Natural Vale (RNV). A mineradora começou a formar a reserva em 1955 comprando fazendas com matas nativas. De acordo com o plano inicial, as árvores seriam cortadas em regime de exploração seletiva e a madeira aproveitada para construir dormentes para a ferrovia Vitória–Minas, que transporta minério de ferro do Quadrilátero Ferrífero até o porto de Vitória. Seria necessário, porém, adaptar os métodos de produção e as máquinas de corte para cada árvore que chegasse da mata. E, por fim, foi mais simples e mais barato fazer dormentes com eucaliptos plantados na região.
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A reserva da Vale ganhou outro destino e se tornou uma área de preservação da mata atlântica peculiar dessa região, a chamada floresta de tabuleiro, mantendo atualmente cerca de 100 projetos próprios, principalmente nas áreas de silvicultura de espécies não tradicionais e restauração florestal. É também um espaço para pesquisas em botânica e ecologia. Segundo Alves, a reserva abriga hoje cerca de 60 projetos de pesquisa em andamento, executados por equipes de 17 instituições nacionais e oito estrangeiras, além de um herbário com quase 4 mil espécies e coleções de sementes, madeira e frutos que tem se mostrado valioso para completar a identificação de espécies coletadas na mata. 
Siqueira, o curador do herbário, nasceu em Linhares, mas nunca tinha entrado em uma floresta até começar a trabalhar na reserva, em 1995. No início, morria de medo de andar por ali. “Quando entrava na mata, o pelo do braço arrepiava, o coração disparava”, ele conta. “Aos poucos vi que a floresta não era tão amedrontadora quanto parecia.” De lá para cá, ele coletou 800 plantas da mata para reforçar o herbário e tem sido bastante requisitado para trabalhar na identificação das espécies ao lado de botânicos veteranos como José Rubens Pirani, da USP. Pirani visitou a reserva em fevereiro de 2011 para ver in loco a Spiranthera atlantica, uma espécie nova e a primeira ocorrência na mata atlântica de um gênero de árvore antes encontrada apenas na Amazônia e no cerrado, da qual Siqueira já tinha lhe enviado material para identificação.

Um levantamento preliminar indicou que cerca de 800 espécies de árvores e palmeiras – as mais abundantes são típicas de mata atlântica – se espalham pela reserva da Vale, incluindo algumas só encontradas nestas matas, como duas espécies de ipês. Em uma contagem de campo recém-concluída, uma equipe da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, encontrou 142 espécies de árvores que ocorrem também na Amazônia – e algumas delas também na caatinga e no cerrado. “As espécies de outros ecossistemas não são as mais importantes, em número de indivíduos, mas apresentam uma alta diversidade”, diz o engenheiro florestal Sebastião Venâncio Martins, professor da UFV e coordenador dos estudos de campo nas florestas de Linhares. Além disso, espécies como a Parkia ajudam a formar o dossel, a parte mais alta da floresta. Para Martins, a maior concentração de espécies amazônicas nos trechos mais preservados e distantes das bordas da floresta da reserva, verificada na pesquisa de doutorado de Luiz Fernando Magnago, que ele orienta, reforça a necessidade de preservação de grandes áreas de florestas nativas nesta região do Espírito Santo.
A pergunta que persiste na mente de quem vê estas matas: por que essas espécies de árvores amazônicas estão aqui? “Pode ter havido uma conexão entre a Amazônia e a mata atlântica, talvez por meio das matas próximas aos rios”, diz o biólogo Antonio Álvaro Buso Junior, que trabalha com Pessenda no Cena. “Quando? Talvez há 10 ou 20 milhões de anos. Ou mais recente, há 50 ou 100 anos. A conexão pode ter sido feita por meio das matas ciliares e foi desfeita com  o desmatamento.”
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Campos cercados pela floresta
Pirani concorda: “Vários estudos paleobotânicos têm demonstrado que, em uma época de clima mais úmido e quente, havia cordões de mata e manchas de mata úmida onde hoje é caatinga e cerrado”. Para Martins, além de prováveis ligações remotas entre tipos de vegetação hoje bastante diferenciadas, mas que antes deviam formar um tapete verde contínuo, essa floresta apresenta solo arenoso, relevo plano e um clima marcado por chuvas constantes semelhantes à Amazônia. Essas semelhanças ajudam a explicar a sobrevivência de espécies comuns nas matas nativas da Região Norte do país.
Do fundo de um lago
Equilibrando-se em barcos infláveis, Álvaro e Paulo Eduardo de Oliveira, pesquisador da Universidade São Francisco com experiência nessa área, recolheram amostras de sedimentos de até dois metros de profundidade do fundo da lagoa do Macuco, que se espalha com cerca de um quilômetro de largura e três metros de profundidade, na reserva de Sooretama. De volta ao Cena, Álvaro identificou pólen de 234 gêneros ou famílias de árvores, arbustos, ervas, samambaias e plantas aquáticas (cada grão de pólen mede de 20 a 60 micrômetros). “A identificação por pólen permite a identificação taxonômica com segurança apenas até o nível de gênero”, argumenta.
A maioria dos gêneros reconhecidos representava espécies de árvores típicas de mata atlântica, alguns, como o gênero Hydrogaster, exclusivos das matas de tabuleiro do sul da Bahia e norte do Espírito Santo. Outros gêneros são encontrados na Amazônica e na mata atlântica, como Glycydendron, Rinorea e Senefeldera. “Por que acham que vieram de lá para cá?”, indaga Domingos Folli, botânico que antecedeu Siqueira no herbário, com a autoridade de quem fez 6.800 coletas. “Podem ter ido daqui para lá.” Pode ter ocorrido, claro, um fluxo de mão dupla.
As sementes das árvores podem ter sido transportadas pelo vento, pela chuva, pelos rios ou pelos animais que circulavam nas áreas de comunicação entre florestas antes possivelmente conectadas e, elas próprias, muito mais amplas. Ainda hoje vivem por aqui onças e outras raridades, como o gavião-real e mutuns. Uma das 380 espécies de aves já identificadas que vivem nessas matas, o tropeiro ou cricrió (Lipaugus vociferans), é típica da Amazônia. Lá e aqui, dificilmente é visto por ter uma plumagem que se confunde com a vegetação, mas é um dos primeiros pássaros que se põe a cantar, como se estivesse dando um alarme, ao ver pessoas pela mata. Um dia, andando pela mata, Álvaro ouviu algo ainda mais raro: papagaios cantando Ilariê-ê-ê-ê; a música da Xuxa! Ele não acreditou, mas depois soube que um bando de papagaios criados em casas tinham sido soltos ali havia poucos dias e ainda exibiam o repertório dos tempos de cativeiro.
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Um bloco da camada compacta sob a areia: resistência

Resquícios do mar
No material colhido no fundo da lagoa, Álvaro encontrou pólen dos três gêneros de árvores típicas de manguezais, indicando que há cerca de 8 mil anos um denso manguezal deve ter ocupado as margens da lagoa e dos rios que a abastecem. As análises de carbono 14, sob o cuidado de Pessenda, reiteraram essa conclusão.
“Esta área já foi estuário e a água do mar deve ter chegado até aqui há no mínimo 8 mil anos”, diz Álvaro do alto do barranco da lagoa, a quase 30 metros de altura. Esqueletos calcificados de algas e esponjas marinhas retirados do fundo da lagoa – bem maiores que os grãos de pólen, com até meio milímetro de diâmetro – reforçam a conclusão de que há 10 mil anos a água dos rios próximos deve ter ser misturada com a do mar, hoje a 23 quilômetros de distância. “Os manguezais, que hoje vemos apenas ao norte, na divisa com a Bahia, devem ter desaparecido antes da ocupação humana, quando o nível do mar recuou”, diz Pessenda. Em colaboração com Marcelo Cohen, especialista em evolução de paleomanguezais da Universidade Federal do Pará, o grupo do Cena pretende conhecer os limites geográficos e as possíveis causas do desaparecimento dessa vegetação. Em um estudo anterior, Pessenda concluiu que há cerca de 40 mil anos uma floresta ocupava as áreas atualmente cobertas pelos manguezais na ilha do Cardoso, litoral sul paulista, porque a linha de costa estava a cerca de 100 quilômetros de onde está hoje.
Por volta de 6 mil anos atrás, o mar no litoral capixaba devia estar cerca de quatro metros acima do que está hoje, concluiu o geólogo Paulo Giannini, com sua equipe do Instituto de Geociências da USP. Sua conclusão se apoia em análises de fósseis de moluscos gastrópodes chamados vermetídeos (Petaloconchus varians), que formam colônias sobre rochas acompanhando a linha da água.
Giannini tem um pé em Linhares. “Há uns dois anos, Pessenda me pediu, ‘Paulo, descobre por que os campos nativos estão lá’”, diz ele. “A vegetação não é só resultado do clima; temos de ver também a influência do substrato, por exemplo, se há milhares de anos existiram lagos na região, que depois foram assoreados, conformando as áreas em que cresceram grupos específicos de plantas.” Os campos das matas do norte capixaba são áreas circulares, de 100 a 500 metros de diâmetro, que lembram uma área de pouso de naves espaciais. Podem ser diferentes entre si. Em um deles a camada de areia ocupa quase um metro antes de chegar a uma camada preta e compacta rica em metais e matéria orgânica, em outra a areia chega a quase dois metros de profundidade.
Sobre esse solo pobre em nutrientes crescem espécies distintas de gramíneas, mais rasteiras em um campo, mais altas em outro, às vezes com árvores isoladas, semelhante às formas mais abertas de cerrado. Em um dos campos, alojada em uma árvore isolada, exibe-se uma orquídea de flores brancas, a Sobralia liliastrum, comum nas matas da Chapada Diamantina, sul da Bahia, e já vista nas matas da serra dos Carajás, no Pará.
Os especialistas acreditam que as árvores da floresta que cerca os campos, adaptadas a um solo mais fértil, dificilmente poderiam sobreviver neste espaço pobre em nutrientes, que, além disso, permanece coberto por uma camada de água de 10 a 15 centímetros durante a época de chuvas. Uma vegetação de altura intermediária ocupa as áreas mais próximas da floresta, mas ainda ninguém arrisca dizer se os campos estão avançando sobre as matas, se estão recuando ou se simplesmente há uma oscilação anual, de acordo com a estação seca ou chuvosa. “Se o clima sazonal se mantiver”, diz Pessenda, “provavelmente as árvores de terra firme que se encontram no entorno dos campos não vão se atrever a colonizar o terreno alheio, que frequentemente se encontra encharcado. Não é o seu ambiente!”
Siqueira suspeita que os campos estejam encolhendo – e já viu muitos desaparecerem, por causa da areia fácil de ser retirada e por muitos anos bastante usada na construção de casas e prédios. “Se não houver grandes intervenções”, diz Martins, de Viçosa, “a tendência é se manterem, por causa do tipo de solo, que bloqueia o avanço das espécies florestais”. Pessenda acredita que os campos devem estar na mesma área “há pelo menos 15 mil anos”.
Em 20 anos de trabalho de campo, o que mais ele tem visto são florestas comendo os campos. Foi assim em Humaitá, no sul do estado do Amazonas, que Pessenda acompanhou durante cinco anos. Nos primeiros anos ele deixava um barbante estendido marcando os limites da mata com os campos. Ao voltar, no ano seguinte, custava a encontrar o barbante, engolido pela floresta, que tinha avançado um ou dois metros sobre os campos (ver mapa).
O Projeto
Estudos paleoambientais interdisciplinares na costa do Espírito Santo – nº 11/00995-7
Modalidade
Projeto Temático
Coordenador
Luiz Carlos Ruiz Pessenda – Cena/USP
Investimento
R$ 1.027.868,62 (FAPESP)
Pessenda conta que teve de fazer uma cirurgia no ombro por causa do esforço exigido para fazer os furos (os estudantes hoje o ajudam, claro), mas nem pensa em parar. “Estamos indo para o sul da Bahia, em busca de sinais de manguezais e campos e matas antigas”, anuncia, enquanto planeja as próximas viagens e a ampliação do laboratório de 240 para 400 metros quadrados (eram 90 em 1990). Esse campo de estudo também está se mostrando bastante fértil, e equipes do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, entre outras, estão refazendo paisagens de milhares de anos atrás – e imaginando como vão se transformar daqui para a frente – com base em análises de solo e pólen.

Outra indicação dos bons ventos desse campo de pesquisa: o navio oceanográfico alemão Maria Merian partiu do porto de Recife em 11 de fevereiro para coletar sedimentos da foz dos rios Parnaíba e Amazonas e da costa da Guiana Francesa. Outro objetivo é reconstituir a evolução do clima da região amazônica nos últimos 2 mil anos. “Neste momento [início de março] estamos na desembocadura do rio Amazonas e já coletamos testemunhos sedimentares de excelente qualidade, além de amostras da coluna de água, e pudemos mapear o delta subaquático do rio Amazonas com uma resolução espacial simplesmente impressionante”, relata o geólogo Cristiano Chiessi, da USP, um dos pesquisadores brasileiros, diretamente do navio. “Nosso destino final é Bridgetown, Barbados, aonde devemos chegar em 11 de março.”