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quinta-feira, 27 de setembro de 2018
sexta-feira, 17 de julho de 2015
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Presentes do passado
Artigo de capa da CH de junho descreve como se deu a
domesticação de plantas e paisagens culturais na Amazônia pré-histórica.
Mandioca, pupunha e guaraná são apenas os exemplos mais conhecidos de
culturas que mantemos até hoje.
Publicado em 16/06/2015
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Atualizado em 16/06/2015
Há milhares de anos, os seres humanos começaram a manipular
plantas e animais com o objetivo de torná-los mais apropriados para o
consumo como alimentos ou como matéria-prima para artefatos. (imagem:
Albert Eckhout / Wikimedia Commons.
Nossa espécie (Homo sapiens) surge na África, há cerca de 200 mil anos, mas as mudanças comportamentais e cognitivas consideradas ‘modernas’ parecem ter emergido apenas nos últimos 50 mil anos de nossa história. A partir desse período, ocorre uma série de manifestações simbólicas em forma de ornamentos corporais, pinturas rupestres e sepultamentos ritualizados, como revelam sítios arqueológicos pelo mundo afora. Estavam lançadas as bases para a complexidade material e cultural que definiriam o papel de nossa espécie no planeta nos dias de hoje.
Dezenas de milênios mais adiante, uma forma inédita de relação com a natureza marcaria em definitivo o modo de vida das sociedades humanas: a domesticação. Podemos definir domesticação como um processo histórico/evolutivo pelo qual populações de organismos são alteradas em nível genético por meio da manipulação humana ao longo de um extenso intervalo de tempo. Como consequência, os organismos domesticados tornam-se em geral altamente dependentes da ação humana para sua sobrevivência e reprodução. Outro aspecto que define esse processo em sua essência é a natureza irreversível das mudanças induzidas nos organismos ditos domesticados.
Em algumas regiões, a domesticação culminaria no desenvolvimento da
agricultura e até na emergência dos primeiros Estados e impérios
Muitos foram os polos independentes de domesticação de plantas e animais no globo, entre os quais o mais precoce foi o chamado Crescente Fértil, região do Oriente Médio que vai do Egito à Mesopotâmia. Lá foram encontradas, por exemplo, as primeiras evidências de domesticação da cevada, do trigo e do linho, em cerca de 8.500 a.C. Outro centro relevante foi o território atual da China, onde teve início a domesticação de pelo menos três importantes cereais: dois milhetes (Setaria italica e Panicum miliaceum), por volta de 7.000 a.C., e o arroz, em cerca de 8.000 a.C.
No Novo Mundo, povos que viviam na América Central – especificamente no território do México atual – domesticaram a abóbora por volta de 8.000 anos a.C., o milho em torno de 7.000 anos a.C. e o feijão em aproximadamente 1.000 anos a.C. Já a batata e a quinoa, ambas originárias dos altiplanos andinos, aparecem nos vestígios arqueológicos por volta de 6.000 a.C. Nas regiões costeiras do Peru, é o algodão que se destaca como o principal cultivar da região a partir de 4.000 a.C.
Outro importante centro de domesticação vem ganhando espaço nos estudos arqueológicos, ampliando esse rico e intrigante cenário: a Amazônia. Os registros mais bem estudados de domesticações promovidas por populações pré-históricas que viveram no imenso território amazônico são o tema deste artigo. Ali esses povos floresceram e deixaram seus frutos – muitos dos quais hoje tanto apreciamos, ainda que por vezes desconhecendo suas origens.
Domesticação na Amazônia
Por milênios, a grande diversidade dos ecossistemas amazônicos tem exigido de suas populações humanas, além de um conhecimento minucioso do ambiente, o domínio de ampla gama de técnicas e de tecnologias empregadas na obtenção de recursos da natureza. No extremo dessas estratégias, podemos destacar a manipulação e a domesticação de plantas, muitas das quais consumimos em grande quantidade nos dias de hoje.- Antes mesmo da chegada dos portugueses, os povos que habitavam a Amazônia já haviam domesticado plantas da região, entre as quais se destaca a mandioca. (imagem: Albert Eckhout / Wikimedia Commons)
Estudos arqueológicos também indicam a região do alto rio Madeira, onde hoje está situado o estado de Rondônia, como o provável centro de origem da domesticação tanto da mandioca quanto da pupunha, bem como da pimenta (da espécie Capsicum chinense) e do amendoim. As variedades de C. chinense mais conhecidas no Brasil são a pimenta-murupi, a pimenta-de-cheiro e a pimenta-de-bode. Curiosamente, essa região é também considerada o centro de origem do tronco linguístico tupi, além de ser uma das poucas áreas na Amazônia com fortes evidências de ocupação humana contínua ao longo dos últimos 10 milênios.
Estudos indicam a região do alto rio Madeira (atual Rondônia) como o provável centro de origem
da domesticação da mandioca e da pupunha
Um caso que parece ter sido especial é o do cacau. Embora seja uma espécie nativa da região, ela provavelmente foi domesticada na América Central, pelos povos maia ou zapoteca, por volta de 4.000 a.C. Por fim, temos o que parece ter sido o único animal domesticado na Amazônia, o pato-do-mato ou pato-almiscarado. Nesse caso, pesquisas ainda estão em fase muito incipiente no que se refere à antiguidade e à localização desse evento.
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Lucy discoverer on the ancestor people relate to
Donald Johanson reflects on the enduring charisma of the Australopithecus afarensis fossil he found 40 years ago.
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Rights & PermissionsWhat did scientists know about early human evolution before Lucy?
Before my discoveries at the site of Hadar in Ethiopia, we had relatively few fossil species, and only a handful that were as old as 3 million years: There was a piece of arm, a single tooth, a chunk of jaw and maybe a bit of skull. But we didn't have any idea of what early hominids looked like.What took you to Ethiopia in the early 1970s?
A young geologist by the name of Maurice Taieb [who is now director of research at the European Centre of Research and Teaching of Geosciences of the Environment in Aix-en-Provence, France] had been exploring the Afar region, and during the course of that preliminary work in the late 1960s, he encountered large areas that were very fossil-rich. He asked me to accompany him in 1972 to this region in the Afar, and we spent six weeks in the field. We were dazzled by the high concentrations of fossils, the deep sedimentary sequences, and the presence of volcanic ash, which would help determine a firm geochronological framework. In 1973 we decided to plant our flag at Hadar, which is where the Awash River turns east, and have been working on-and-off there ever since.What was the expedition like?
It was very remote. There was no paved road to this area, so it was difficult to supply. On the plus side, there was a permanent source of water — the Awash River — nearby. Temperatures were regularly 110, 115 °F (43–46 °C) and you lived in a little tent for two and a half months. I was back to the site a couple years ago, and it's not as easy for me as it was when I was 28 years old. It was a place where you had to have the drive to work.Tell me about the day of 24 November 1974.
It was a Sunday morning, and I was catching up on my field notes. I think I wrote: “I'm feeling really lucky that we're going to make a major discovery,” because we were in the process of training our eyes, training our collectors. One of our Ethiopian colleagues had found several jaws in the early days of that 1974 expedition, and I had a sense that it was going to be a very important field season.Yet I didn't want to go to the field that day, but my graduate student encouraged me to go with him, because we had to do some mapping of fossils. So we went out to survey for a couple hours. Walking back to our car, I glanced over my shoulder and spotted this funny little elbow bone that we had missed in the morning, and it immediately said hominid to me. It didn't look like a monkey, it certainly wasn't any kind of small antelope, and when I examined it more closely, I could see it was from a human ancestor. It was very small. And then, to my great surprise and reward, I looked up the slope and there were fragments of the skeleton eroding on this little hillside.
We saw a bit of leg bone and a little bit of jaw. But it was over the next two weeks that most of the skeleton was recovered. We were disappointed that the cranium had eroded out earlier, and all we had was a pretty good chunk of the occipital bone, enough to give us at least a ballpark view that this was pretty small-brained. But she was marvellous as she began to be pieced together in camp over those two weeks. You could see her coming to life.
What was the mood in camp?
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What made Lucy so important?
She told us a lot about bipedalism: that changes in the foot, the ankle, the knee and the hip happened well before Lucy, because the biomechanics of bipedalism in afarensis are virtually identical to our own. I think she was also very important because she drew attention to an entirely new segment in the Great Rift Valley, one that had been overlooked for so long because of its remoteness. She was a real catalyst for field workers.How has your understanding of Lucy changed in the last 40 years?
I think that we realized that there are certain features in her skeleton that were left over from her arboreal ancestry. While we were closed to that idea in the 1970s, we realized that probably Lucy and her species did spend some time in the trees. With the discovery of Australopithecus afarensis at other sites — her species is known by over 400 specimens now — it showed they lived in a geographically widespread area. There were probably a variety of habitats, which reflects some level of adaptability in this species that contributed to its long-term survival.Have you ever tried to imagine the life that Lucy led?
On my first visit to Gombe [Gombe Stream National Park in Tanzania, where Jane Goodall studied wild chimpanzees] about six years ago, I was on a trail by myself with a guide, and two female chimps came knuckle-walking by with babies on their backs. They were 2 feet [60 centimetres] from me. I began to think, how did Lucy carry her baby? Did she live in an environment like this? She lived in a troop maybe of 25 or 30 individuals. Did they make nests? I saw a nest that chimps make to sleep in. It all gave me a sense of the fossils coming to life.The greatest fantasy that I have is: wouldn't it be fantastic if there had been visitors to our planet who came here 3.2 million years ago on a visit and shot video of what these creatures looked like?
Why are people so interested in Lucy?
I don’t know what it is about the name Lucy, but it's easy to remember. Children really gravitate towards this affectionate name she has, and that generates the view that this was an individual, that this was some person who actually lived. Perhaps even the fact that she's a female — we've been biased for so many years talking about 'evolution of man'. And she’s a touchstone and a centrepiece for the average person who is interested in answering that question that they've asked probably since they were a child: where did I come from? Lucy is that kind of ancestor that people like to identify with.- Nature
- doi:10.1038/nature.2014.16379
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Da idade da pedra
Descoberto conjunto de lâminas fabricadas por povos que habitaram o sul do Brasil há até 9 mil anos
13/01/2015
-
Sob uma camada de cerâmica guarani, arqueólogos encontraram resquícios
do que um dia foi uma indústria de lâminas pré-históricas, forjadas por
povos da tradição umbu – grupos de caçadores-coletores que habitaram o
sul do Brasil entre 300 e 9 mil anos atrás.
As 101 ferramentas pontiagudas têm entre 3 e 9 centímetros e estavam depositadas em três sítios arqueológicos na divisa a oeste do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, às margens do rio Uruguai. Em 2010, parte da região foi inundada para a construção da represa da usina hidrelétrica Foz do Chapecó, que encomendou as escavações do entorno. A quantidade de material encontrado é inédita no Brasil, o que leva a crer que houve uma produção em série destas peças, com utilidade ainda desconhecida. Atualmente, uma pesquisa financiada pelo Ministério das Relações Exteriores da França se debruça sobre o tesouro e busca novos sítios que possam ajudar a compreender o povoamento do Brasil no período do Holoceno Antigo.
A arqueóloga Sirlei Hoeltz, da Archaeo Pesquisas Arqueológicas Ltda., foi a primeira a mexer nas lâminas recuperadas pela empresa Scientia Consultoria Ambiental, e explica que “elas têm o formato de uma faca de cozinha, com unidades transformativas [cortantes] nas duas laterais e na ponta”. Mas lembra que ainda não é possível afirmar sobre em que foram usadas, e se serviam para raspar, cortar ou perfurar. As lâminas foram esculpidas em matéria-prima encontrada próxima ao rio, como rochas, conchas e ossos.
Os resultados dos primeiros estudos, que incluem a datação dos vestígios e a descrição minuciosa das lâminas, foram publicados no final do ano passado no Journal of Anthropological Archaeology, em coautoria com Antoine Lourdeau, do Muséum National d’Histoire Naturelle, e Sibeli Viana, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Lourdeau, que hoje coordena a pesquisa "Povoamentos pré-históricos do sul do Brasil”, em parceria com a Universidade Comunitária da Região do Chapecó (Unochapecó), diz que, pela datação do carbono 14 das peças de dois dos sítios, o material aponta para a ocupação humana mais antiga já registrada na região de Santa Catarina. “Este tipo de produção é bem conhecido na Pré-história do Velho Mundo, particularmente na Europa e no Oriente Próximo, no Paleolítico superior. Mas nunca tinha sido encontrado (ou pelo menos descrito como tal) no Brasil”, conta.
Segundo o professor, mesmo sem muitos dados, as ferramentas apontam paraa existência de uma “variabilidade importante das tecnologias e das culturas dos povos pré-históricos que viviam na região que não condiz com a ideia ‘monolítica’ de uma única tradição técnica”, refutando algumas teorias anteriores a respeito dos umbus.
Tanto estas peças quanto os vestígios de cerâmica indígena encontrados na área da usina estão disponíveis para pesquisa na reserva técnica do Ceon, um dos braços do museu da Unochapecó.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Evolução dos Primeiros Animais Pré-Históricos
Ao longo de milhões e milhões de anos, o nosso mundo foi habitado por criaturas únicas, bizarras, gigantescas e magníficas. O estudo e o entendimento destes animais vai muito além da curiosidade natural, pois nelas residem as nossas origens evolutivas e foram nestes períodos pré-históricos que se formaram algumas das estruturas básicas da vida, que ainda hoje são utilizadas, inclusive por nós seres humanos.
1. Poucos animais fossilizam
Apesar de terem chegado até nós milhares de fósseis, são uma percentagem mínima de tudo o que já viveu sobre a Terra, dado que 99,9% dos organismos, após morrerem, são decompostos e reduzidos a nada. Dos restantes 0,1% também são poucos os que fossilizam. Para que cheguem até nós, é necessário que:
- O animal morra no “sítio certo” – apenas 15% das rochas preservam fósseis;
- Os processos naturais do nosso planeta não os destruam;
- Alguém encontre o fóssil, o identifique e recolha para estudo.
2. Não conhecemos o animal se não conhecermos o ambiente que o rodeia
Os ossos e as formas dizem-nos como era o animal, mas não nos dizem como vivia, o que comia, quem o comia, o que o rodeava, dados indispensáveis para conseguirmos reconstruir o ecossistema do passado e estudarmos o comportamento destes animais.
Um animal pode ter um aspecto aterrador e não ser propriamente um predador temível, como o Spinossauros, que apesar de na ficção cinematográfica fazer frente a um T-Rex, não passaria de um recatado pescador dos rios (um pouco à semelhança dos ursos atuais).
O tamanho gigante de muitos dos animais do passado também só pode ser entendido em função do ambiente: além da concentração de oxigénio na atmosfera ter sido superior à actual (quase o dobro), os animais dispunham de grandes habitats com também grandes fontes de alimento. Hoje em dia os animais estão confinados a habitats mais pequenos e onde por vezes o alimento e a água são escassos.
3. A variedade dos animais não era maior que a atual
É comum pensar-se que, antigamente, a Terra era habitada por uma muito maior variedade de animais do que atualmente. Tal acontece porque metemos os animais pré-históricos todos no “mesmo saco”. No próprio tempo dos dinossauros, que é o que conhecemos melhor na cultura geral, não houve nenhum momento em que todos os dinossauros que conhecemos, estivessem juntos. Cada período tinha as suas espécies e muitos dos dinossauros que existiram, nunca viveram em simultâneo.
Dois animais cuja datação fóssil indique que viveram há, por exemplo, 400 milhões de anos atrás, não significa que alguma vez tivessem partilhado o planeta. Em pequenos instantes geológicos, animais desaparecem e outros surgem. Por exemplo, há 15 mil anos atrás (pouquíssimo tempo em termos geológicos) haviam mamutes, tigres dente-de-sabre, rinocerontes-lanudos, gliptodontes e outros animais que o leitor nunca chegou a conhecer, no entanto, estamos todos na mesma “fatia” da linha do tempo.
4. Existem animais pré-históricos vivos
Os animais primitivos não são apenas fruto da capacidade imaginativa dos cientistas ao olharem para os esqueletos fossilizados. Os chamados fósseis vivos são animais que pouco ou nada mudaram em milhões de anos e que hoje podemos ver ao vivo.
O celacanto era um peixe considerado extinto há 65 milhões de anos (extinção que aniquilou os dinossauros), até ser encontrado um exemplar vivo em 1938 e hoje são reconhecidas populações destes peixes nas costas da África do Sul e Indonésia. Outro exemplo é o caranguejo-ferradura, um animal de características únicas em toda a fauna conhecida e que já habita o nosso mundo há mais de 400 milhões de anos (existem fósseis destes animais com 445 milhões de anos).
É possível estudar nestes animais algumas características e estruturas que seriam mais vulgares no passado e assim compreender melhor os fósseis que recolhemos. É através dos animais que conhecemos hoje, que podemos estabelecer paralelismos e descobrir como era, por exemplo, a pele e as cores dos animais pré-históricos, dados que os fósseis de um modo geral não nos dizem.
Depois de biliões de anos onde a vida não aparentava grande vontade em evoluír, no período Câmbrico deu-se uma “explosão” de diversidade sem paralelo. A ilustração acima (crédito Cold Spring Harbor Laboratory Press) representa o que poderá ter sido o cenário dos mares cambrianos, baseado nos mais de 60 mil fósseis encontrados em Burgess Shale.
Legenda: 1) Pirania, 2) Vauxia, 3) Wapkia, 4) Aysheaia, 5) Hallucigenia, 6) Anomalocaris, 7) Laggania, 8) Marrela, 9) Odaria, 10) Trilobite Olenoides, 11) Sanctacaris, 12) Sarotrocercus, 13) Ottoia, 14) Canadia, 15) Pikaia, 16) Amiskwia, 17) Dinomischus, 18) Eldonia, 19) Odontogriphus, 20) Opabinia, 21) Wiwaxia
Os Primeiros Animais
Embora os primeiros organismos multi celulares já pudessem existir há cerca de 1 bilhão de anos, os mais antigos que podemos considerar animais, Ediacaranos, surgiram há cerca de 600 milhões de anos. Eram “coisas estranhas de corpo mole” segundo o paleontólogo Richard Fortey, sem vestígios claros de terem boca para comer, ânus para expulsar ou quaisquer órgãos digestivos. É difícil classifica-los como antepassados de qualquer outro animal e crê-se que terão sido experiências falhadas da evolução dos organismos complexos, tendo estas lentas criaturas sido devoradas pelos animais que surgiram posteriormente.No final do período pré-cambriano (542 milhões de anos), sobreviveram alguns tipos simples de animais, como esponjas, anêmonas, corais, medusas e alguns anelídeos.
Seguiu-se o período Cambriano (542-488 MA), que registrou o maior impacto evolutivo da história da Terra, com uma impressionante diversidade de novos animais e grupos ainda hoje existentes. O que causou esta “explosão de vida” não é claro, embora os fatores ambientais possam ter tido grande influência, com um aumento do oxigênio, da temperatura do planeta, do nível dos mares e do aparecimento de novos habitats, que por sua vez levam ao aparecimento de novas formas de vida.
Grande parte do que conhecemos deste período provém dos fósseis de Burgess Shale, uma formação rochosa que desvendou nada menos (e talvez mais) que 60 mil animais pertencentes a 150 espécies distintas, criaturas com ou sem conchas, com vários olhos ou cegas. A variedade era tanta que, conta-se, a dado momento o paleontólogo Conway Morris abriu uma nova gaveta de fósseis e terá resmungando: “Oh, merda, outro Filo não.” A verdade é que além dos Filos hoje conhecidos, como o Chordata, muitos outros foram rejeitados pela evolução não deixando descendência – cerca de 20 animais não pertenciam a qualquer Filo conhecido atualmente, embora relatos populares aumentem este número para cima de 100.
O animal mais emblemático deste período e que resistiu durante cerca de 300 milhões de anos (mais bem sucedido que qualquer dinossauro), foi o Trilobite, cujo exosqueleto (característica que os artrópodes mantém actualmente) estimulou a fossilização e chegaram até nós os fósseis de milhares de espécies de Trilobites de diferentes períodos geológicos. Outras criaturas igualmente curiosas do Cambriano foram as Opabinias de 5 olhos ou os “gigantes” predadores Anomalocaris (na ilustração à esquerda). Também por esta altura apareceu o primeiro animal com espinha dorsal, a Pikaia. O facto das Pikaias serem tão raras no registro fóssil pode levar a crer que estes animais estiveram perto de se extinguir. A ser verdade, tudo aquilo que a espinha dorsal proporcionou nas eras seguintes até chegar a nós, sobreviveu à extinção do Cambriano por um felicíssimo acaso.
À Conquista da Terra e do Ar
A seguir ao Cambriano veio o período Ordovíciano (488-443 MA), onde novas espécies de animais marinhos, ocuparam o espaço vago deixado pelos animais que não sobreviveram ao período anterior. Apareceram os nautilóides (do qual temos hoje descendência viva, o bem conhecido Nautilus), que seriam os predadores mais temidos da época, bem como os bizarros conodontes, animais parecidos com enguias, de olhos grandes e desproporcionais. Surgiram também os primeiros lírios-do-mar, parentes das estrelas-do-mar.
Este período terminou com a segunda maior extinção de sempre da história da Terra e à qual se seguiu uma era glacial. Os habitats, a fauna e a flora levaram o seu tempo a recompor-se do desastre climático e então no período Siluriano (443-416 MA), os animais partiram à conquista de terra seca. Na verdade foram forçados a isso. Além das zonas costeiras serem menores, começavam a aparecer os primeiros grandes predadores dos oceanos, os tubarões, pelo que a concorrência tornou-se feroz e a luta pela sobrevivência bastante mais complicada. O sucesso dos tubarões foi tão grande que hoje mesmo se mantém como um dos maiores predadores existentes.
Os primeiros animais a aventurarem-se em terra eram pequenos artrópodes, semelhantes aos bichos-de-conta e algumas aranhas e centopeias primitivas. O período que se seguiu, o Devoniano (416-359 MA), é conhecido como a era dos peixes, graças à enorme diversidade de espécies marinhas, mas marcou também passos importantes na evolução da vida fora de água. Os artrópodes que se aventuraram em terra estabeleceram-se bem nos novos habitats, tendo originado alguns milípedes com 2 metros de comprimento. Com estes animais à solta, os insetos utilizaram um truque para fugir: aprenderam a voar. Uma técnica tão bem sucedida que hoje é usada por inúmeras espécies e até nós perseguimos esse sonho de forma artificial. Na água, alguns peixes tornaram-se predadores gigantescos, como o Dunkleosteus de 10 metros de comprimento (que no entanto foi varrido do planeta no final deste mesmo período).
Os Animais Pré-Históricos são fascinantes, mas temos a tendência de pensar neles como os Dinossauros e pouco mais. Neste artigo, vamos bem mais atrás. Muito mais atrás. Quando nada faria prever que, certo dia, Dinossauros habitariam o nosso planeta. Vamos olhar mais de perto para as fantásticas criaturas que os antecederam.
Dickinsonia – 600 Milhões de Anos (M.A.)
Era um ser vivo plano e ovalado, e através dos fósseis sabemos que o seu tamanho variava entre 4 e 14 cm. Tinha o corpo segmentado ou raiado e alguns investigadores pensam que seria uma planta, outros que seria semelhante aos corais, outros ainda que teria o corpo esponjoso como uma medusa.
Xenusion – 550 M.A.
Um primitivo artrópode de corpo anelado e cilíndrico. Tinha várias patas com garras nas extremidades.
Pikaia – 500 M.A.
É segundo a maioria dos investigadores o ancestral comum de todos os vertebrados. Tinha uma cabeça com duas antenas, possuía um pequeno cérebro e uma espinha dorsal ao longo do corpo. Esta característica é conhecida como céfalocordado. Tinha cerca de 5 cm de comprimento.
Trilobite – 500 M.A.
Eram invertebrados, mas viviam em ambiente marinho. Tinham um corpo composto por três lobos, um no centro e um em cada lado, dai se chamaram de trilobites. À semelhança de muitos artrópodes, as trilobites também faziam a muda de pele. A carapaça era ornamentada por espinhos e outros tipos de ornamentação. Algumas trilobites eram desprovidas de olhos, no entanto as que os possuíam tinham um sentido de visão bastante apurado, sendo os primeiros a desenvolver olhos complexos. Em média mediam cerca de 3 a 10 cm, mas alguns destes animais podiam chegar aos 80 cm.
Anomalocaris – 500 M.A.
Este ser vivo era um predador das trilobites. È conhecido também como camarão anómalo. A deslocação na água era feita através dos lóbulos flexíveis que possuíam nas laterais do seu corpo. Estes lóbulos actuavam como uma única barbatana, tornando-se mais rápidos a nadar. Tinha uma cabeça grande com um único par de olhos e uma boca em forma de disco na qual prendia o alimento com a ajuda de placas serrilhadas. O seu tamanho era aproximadamente de 60 centímetros, gigante portanto para esta período.
Opabinia – 500 M.A.
Este ser é talvez um dos mais estranhos habitantes dos oceanos no período Cambriano. Tinha 5 olhos, a cabeça era uma carapaça rígida e possuía uma espécie de tromba bifurcada com garras na extremidade. Seria usada provavelmente para caçar as presas, uma vez que este animal era um predador. Não tinha pernas e o seu comprimento seria cerca de 8 cm. Ao contrário da maioria das espécies conhecidas, não deixou descendência.
Hallucigenia – 500 M.A.
Este animal é igualmente bizarro. O investigador que o descobriu deu-lhe este nome porque assemelhava-se a uma alucinação. O corpo de forma cilíndrica, é coberto na parte superior com espinhos para evitar ser atacado por predadores. Na parte inferior tem “tentáculos” com tenazes nas extremidades que ajudavam o animal a mover-se. Junto a esses tentáculos num dos lados do corpo possuía um conjunto de 3 tentáculos mais pequenos. Tinha apenas cerca de 3mm de comprimento.
Eurypterus – 420 M.A.
Este animal era uma das muitas espécies de escorpiões marinhos existente no Paleozóico. Era um dos animais mais temidos deste período. Tinha um comprimento médio de 30 cm, mas podiam chegar até aos 2 metros, sendo o maior artrópode que alguma vez existiu. Alimentavam-se de invertebrados e pequenos peixes.
Dunkleosteus – 400 M.A.
Era um peixe cujo corpo estava coberto por duras placas que podiam chegar aos 5 cm de espessura. Estas serviam de protecção a este animal, que pelo seu tamanho (6 metros, embora pudesse chegar até aos 9 metros), peso (cerca de uma tonelada) e força da mandíbula, era um predador feroz, encontrando-se no topo da cadeia alimentar da época.
Walliserops – 375 M.A.
Descendente das trilobites, este animal tinha como característica única um apêndice em formato de tridente na parte da frente. Este era usado como arma de defesa, mas também para revolver o fundo do mar em busca de alimento. O corpo era revestido por 3 filas de espinhos paralelas, tinha olhos protuberantes também com espinhos e o seu comprimento era entre os 3 e os 4 cm.
Tiktaalik roseae – 375 M.A.
Esta espécie é um elo de ligação entre os animais marinhos e terrestres. Os investigadores pensam que este peixe foi um dos primeiros a ter barbatanas musculadas, assim como outras características que originaram os anfíbios, como cabeça achatada, indício de pescoço, ombros, cotovelos e pulso. O habitat de águas rasas potenciou esta evolução. Media pelo menos 3 metros de comprimento de acordo com fóssil mais completo encontrado.
Schinderhannes bartelsi – 375 M.A.
Pertence à familia dos anomalocarídeos, tinha cerca de 10 cm de comprimento, o seu corpo era composto por vários lóbulos, à semelhança do anomalcaris e do camarão. Tinha dois olhos e uma boca de formato radial. Era um predador pela forma como o intestino se conserva.
Pelycosaur – 275 M.A.
É um tetrapóde ou seja já possuía 4 pernas e era um ser terrestre. Mas devido à sua fisionomia não é considerado um réptil, de facto os parentes mais próximos são os mamíferos. Eram por isso animais endotérmicos, tinham necessidade de manter a mesma temperatura corporal, tal como nós seres humanos. São muitas as espécies de pelycosaur existentes.
A espécie Dimetrodon era carnívora, com uma grande cabeça, dentes fortes e aguçados, que se alimentava de vertebrados inclusive de outros pelycosaurus. Tinha cerca de 3 metros e meio e pesava entre 100 a 150 Kg. Quatro pernas curtas e fortes suportavam o peso do corpo. Este animal tinha uma aparência diferenciada dos outros pelycosaurus, nomeadamente a “vela” que tinha na parte superior do corpo. Esta servia essencialmente para manter a temperatura.
Mas nem todos os pelycosaurus eram carnívoros, duas espécies eram herbívoras Caseidae e Edaphosauridae. Esta ultima com uma “vela” semelhante ao Dimetrodon, mas com uma cabeça mais pequena e dentes maiores e mais achatados, ideais para triturar ervas e bagas.
Este animal teve grande importância, pois foi o primeiro mamífero que surgiu.
O Mistério do Primeiro Vertebrado em Terra
Os primeiros animais dos quais supostamente nós descendemos, ou seja os primeiros vertebrados em terra seca, permanecem um mistério. Acreditou-se que um animal chamado Ichthyostega fosse a chave, tratando-se de um animal com 1 metro de comprimento que teria 4 membros supostamente cada um deles com 5 dedos. Porém, algum erro e falta de altruísmo cientifico por parte de Erik Jarvik, investigador que se apoderou da sua descoberta durante 48 anos, atrasaram o nosso conhecimento nesta matéria. Afinal, o Ichthyostega tinha 8 dedos em cada membro mas a estrutura dos seus membros teria desabado com o peso do seu corpo – este animal não tinha capacidade de andar e “limitava-se” a nadar.
A procura pelo “peixe aventureiro” que tenha vindo para terra firme e desenvolvido membros musculosos com dedos continua, embora já tenha sido encontrado um possível “elo perdido”, o Tiktaalik (na ilustração em cima). Este “peixe com cara de crocodilo”, tinha barbatanas musculosas e várias características que fazem crer ser uma espécie de transição, entre os peixes da água e os animais terrestres de quatro patas (tetrápodes). Apesar do estudo do esqueleto ter provado que este animal tinha capacidade de manter o seu peso sobre os 4 membros e portanto andar, também tinha capacidade de respirar oxigeno da atmosfera, ou seja, teria reunidas as condições para se aventurar definitivamente fora de água e ser o nosso antepassado. No entanto em Janeiro deste ano (2010), foi anunciada a descoberta de pegadas de animais tetrápodes, datadas de pelo menos 10 milhões de anos antes dos primeiros Tiktaaliks conhecidos. Isto pode sugerir que o Tiktaalik seria não o primeiro mas um descendente de outro animal mais antigo, que já possuía estas características e já caminhava em solo terrestre, há cerca de 400 milhões de anos atrás.
Chegaria ao fim o período Devoniano, numa extinção que afetou em particular a vida marinha. Seguiu-se o período Carbonífero (359-299 MA), que deve o seu nome às abundantes jazidas de carvão, produzidas pela vegetação pré-histórica que não parava de se expandir, como musgo de grandes dimensões e imponentes árvores. Estas florestas contribuíram para um grande aumento do oxigênio na atmosfera, um dos factores ambientais que levou ao gigantismo verificado em várias criaturas primitivas. Centopeias, baratas e escorpiões do tamanho de seres humanos e libélulas de 75cm são exemplos disso mesmo, tendo sido comuns neste período e francamente difíceis de imaginar hoje em dia.
No decorrer do período carbonífero, os anfíbios prosperaram. Equipados com uma pele mais espessa, para não secar tão rapidamente longe da água, alguns atingiram 6 metros de comprimento e tornaram-se predadores temíveis. Surgiram também os répteis, lagartos ágeis e pequenos que viviam em tocas nas árvores. No final deste período, colisões entre as massas de terra dariam origem ao supercontinente Pangeia.
Por um Triz a Vida não Acabou!
O Permiano (299-251 MA) demonstrou ser um desafio (exemplarmente superado) para os répteis. A Pangeia era tão grande que apresentava um clima instável, com zonas secas e áridas, outras congeladas e ainda outras de calor intenso com grandes flutuações sazonais, que variavam entre a chuva e a seca de forma abrupta.Sendo animais de sangue frio, os répteis tiveram de encontrar maneiras de lidar com as grandes variações de temperatura. Animais como o Dimetrodon desenvolveram estruturas em forma de vela nas costas, para absorver e armazenar o calor solar, utilizando-o quando a temperatura descesse. Outros répteis conservaram o calor através da degradação dos alimentos – suspeita-se mesmo que se tivessem tornado de sangue quente – e dominaram o final do Permiano. Alguns destes animais tornaram-se gigantes e outros mais pequenos e peludos – deram origem aos mamíferos.
No final do período Permiano, a vida na Terra praticamente chegou ao fim, na maior extinção em massa da história do nosso planeta. 95% das espécies marinhas e 70% dos animais terrestres desapareceram sem retorno, incluindo um terço dos incestos (o único momento em que desapareceram massivamente) e todas as trilobites, que tinham resistido a todas as extinções anteriores durante quase 300 milhões de anos de existência. Mesmo no que diz respeito ás espécies de animais que sobreviveram, não é claro em que condições tal aconteceu. Caso tenha ocorrido uma devastação global, que é o mais provável, as espécies que sobreviveram podem ter tido origem em 1 ou 2 animais feridos que, resistindo aos ferimentos, conseguiram procriar e com alguma sorte à mistura, gerar descendência saudável e fértil. A diferença entre uma espécie extinta e uma sobrevivente, pode estar na existência de uma “simples” fêmea grávida ou de uma postura de ovos, que seja bem sucedida num mundo fantasma virado do avesso.
A vida demorou cerca de 30 milhões de anos (!) a recompor-se, mas fê-lo com exuberância: surgiram os primeiros dinossauros.
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quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Arte na pedra
O patrimônio arqueológico de Mato Grosso do Sul, ainda pouco
conhecido, é tema de artigo da CH de outubro. O estudo das
manifestações gráficas pré-históricas da região pode ajudar a entender o
modo de vida dos primeiros habitantes das terras do Centro-oeste.
Publicado em 30/10/2012
|
Atualizado em 30/10/2012
A diversidade ecológica de Mato Grosso do Sul é amplamente reconhecida. Em seu território, com cerca de 357 mil km2,
se entrelaçam três biomas: o Pantanal, o cerrado e ocorrências de
bolsões de mata atlântica. Essa multiplicidade de ambientes resulta em
imensa variedade biológica. Tais atributos contribuíram para a formação
de assentamentos humanos naquela região, em um passado distante,
estudado hoje pela arqueologia. Essa outra face desse estado pantaneiro é
ainda bem desconhecida da população brasileira.O Centro-oeste do país passou a ser habitado por grupos de caçadores e coletores entre 12 mil e 10 mil anos atrás. Naquele tempo, o clima da região era um pouco diferente do atual. Após a última glaciação, com temperaturas mais baixas, teve início o Holoceno, período marcado pela estabilização climática.
O Centro-oeste do país passou a ser habitado por grupos de caçadores e coletores entre 12 mil e 10 mil anos atrás
No Holoceno, ainda perambulavam pelo Brasil central animais de grande
porte, que os cientistas chamam de megafauna. Em Mato Grosso do Sul se
encontram vestígios desses animais, como ossadas de preguiças-gigantes
preservadas nas cavernas da região da serra da Bodoquena. Nesse estado,
entretanto, a paleontologia – estudo dos animais pré-históricos – é um
mundo inteiro por investigar.Os primeiros grupos humanos chegaram às terras onde hoje está Mato Grosso do Sul ainda no final do Pleistoceno, o que significa que esses grupos compartilharam espaços com espécies da megafauna. Seriam esses animais de grande porte a caça dos primeiros humanos? Ainda não há resposta definitiva para essa pergunta.
Entre 8 mil e 6 mil anos atrás começa um período de estabilização climática, até chegar às características de clima atuais. Foi a partir desse período, denominado ‘ótimo climático’, que se intensificou a ocupação humana.
- Animais em grande dimensão em um painel que representa uma possível caçada, no distrito de Taboco, no município de Corguinho. (foto: Rodrigo L. S. Aguiar)
Expressão simbólica
Os grupos humanos de caçadores e coletores que transitavam pelos espaços de transição entre as serras e a planície pantaneira encontravam por ali variadas opções de alimentação. Rios piscosos eram explorados em paralelo com a farta caça e a coleta dos muitos frutos existentes na área. Essa abundância alimentar possibilitava uma ocupação territorial por longos períodos de tempo.A paisagem regional é formada por áreas elevadas e planas (mesetas) e serras em torno da planície alagável do Pantanal. Os muitos córregos, riachos e nascentes que brotam e correm entre os maciços rochosos supriam as necessidades de água potável dos primeiros habitantes humanos. As migrações entre montes e platôs, na exploração e ocupação do espaço, eram registradas em diferentes locais por meio de pinturas e gravuras nas rochas. Os diferentes grupos humanos que habitaram essas terras deixaram suas ideias, em forma de arte, nas paredes dos abrigos e cavernas, em uma grande profusão de técnicas e estilos.
Os diferentes grupos humanos que habitaram essas terras deixaram suas
ideias, em forma de arte, nas paredes dos abrigos e cavernas, em uma
grande profusão de técnicas e estilos
Os grafismos pintados e gravados sobre superfícies rochosas, que a
arqueologia chama genericamente de ‘arte rupestre’, resultam da
expressão simbólica do homem pré-histórico. A necessidade de
materializar e dar feição ao abstrato, representando tudo o que se move
no campo das ideias, é inerente ao ser humano. Em suma, a arte rupestre
pode ser entendida como uma expressão cosmológica – uma visão de mundo –
por meio da iconografia. No entanto, o desconhecimento dos códigos
utilizados pelos ‘artistas’ nos impede de traçar uma interpretação
precisa.O primeiro passo no estudo da arte rupestre é o registro sistemático dos sítios arqueológicos dessa natureza, estabelecendo a análise e ordenamento dos elementos representados por categorias. Esse ordenamento leva em consideração variáveis como estilo, técnica de elaboração e de representação. Por fim, os elementos identificados são dispostos em tabelas de tipos com base na similaridade dos motivos. A repetição ordenada de motivos dá ao pesquisador pistas para identificar as regras que compunham os códigos usados pelos autores.
A arte rupestre do Mato Grosso do Sul ainda necessita ser inventariada. Os estudos até agora desenvolvidos são pontuais e fragmentários, em geral realizados para complementar outros estudos, cujo foco não era a arte rupestre. Para modificar esse quadro e ampliar o conhecimento a respeito da arte rupestre do estado, uma pesquisa vem sendo desenvolvida há mais de um ano pela Universidade Federal da Grande Dourados. Uma equipe de pesquisadores está levantando os sítios de arte rupestre que ocorrem nas áreas de transição entre as terras altas das serras e a planície pantaneira.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
A milenar Amazônia capixaba
Mata atlântica do Espírito Santo guarda resquícios da floresta amazônica de 7,8 mil anos atrás
CARLOS FIORAVANTI | Edição 194 - Abril de 2012
© EDUARDO CESAR
Lagoa do macuco, na reserva de Sooretama: ex-manguezal
Esse levantamento está indicando que espécies se mantiveram ou desapareceram como resultado das variações de clima e de solo ao longo de milhares de anos. Além disso, sugere possíveis interações entre ambientes hoje distantes e isolados, como a floresta litorânea e a Amazônia, e, de modo mais amplo, indica a tendência das transformações, a resistência ou a fragilidade das diversas formas de vegetação nativa do país, em resposta às variações de clima. “As matas fechadas, se não houver interferência humana nem mudanças climáticas intensas, tendem a avançar sobre as áreas abertas, ocupadas pelos campos”, diz Luiz Carlos Pessenda, pesquisador do Centro de Energia Nuclear da Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba, que coordena os levantamentos que estão refazendo a floresta submersa do norte do Espírito Santo.
Nos últimos 20 anos, Pessenda, físico de formação, fez cerca de 200 furos pelas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste em busca de pólen em sedimentos terrestres e lacustres e em amostras de solo, antes de concluir que as áreas abertas tendem a escassear, seguindo a tendência dos últimos 4 mil anos. Talvez não aqui em Linhares, ele suspeitou, ao percorrer essas matas pela primeira vez, há quatro anos, e ver os campos nativos – cerca de 20 áreas circulares com uma vegetação rasteira e raras árvores, que crescem em solo bastante arenoso e resistem em meio à mata fechada. “Há 8 mil anos havia ilhas de floresta amazônica aqui, onde o clima não mudou muito, ou então a floresta amazônica chegava até aqui.”
© EDUARDO CESAR
Buso, Alves e Siqueira, diante de uma monumental Parkia pendula, ampliada ao lado
A possibilidade de ter sido um refúgio com florestas há milhares de anos, se confirmada por outros estudos, poderá ampliar o valor biológico dessas matas que há meio século seguiam contínuas até o sul da Bahia e ganharam o nome de hileia baiana, em razão da semelhança com a Amazônia. As florestas encolheram bastante, em razão da expansão das cidades e do desenvolvimento econômico – Linhares já foi um pujante centro de produção de móveis, com madeiras retiradas das matas nativas. Mas restou uma respeitável área de 45 mil hectares – metade preservada como área pública federal, a reserva biológica de Sooretama, e outra metade pela mineradora Vale – cercada de fazendas de café e mamão.
“A biodiversidade salvou a floresta dessa região”, diz o engenheiro florestal Gilberto Terra Ribeiro Alves, coordenador de pesquisa da Reserva Natural Vale (RNV). A mineradora começou a formar a reserva em 1955 comprando fazendas com matas nativas. De acordo com o plano inicial, as árvores seriam cortadas em regime de exploração seletiva e a madeira aproveitada para construir dormentes para a ferrovia Vitória–Minas, que transporta minério de ferro do Quadrilátero Ferrífero até o porto de Vitória. Seria necessário, porém, adaptar os métodos de produção e as máquinas de corte para cada árvore que chegasse da mata. E, por fim, foi mais simples e mais barato fazer dormentes com eucaliptos plantados na região.
© EDUARDO CESAR
Siqueira, o curador do herbário, nasceu em Linhares, mas nunca tinha entrado em uma floresta até começar a trabalhar na reserva, em 1995. No início, morria de medo de andar por ali. “Quando entrava na mata, o pelo do braço arrepiava, o coração disparava”, ele conta. “Aos poucos vi que a floresta não era tão amedrontadora quanto parecia.” De lá para cá, ele coletou 800 plantas da mata para reforçar o herbário e tem sido bastante requisitado para trabalhar na identificação das espécies ao lado de botânicos veteranos como José Rubens Pirani, da USP. Pirani visitou a reserva em fevereiro de 2011 para ver in loco a Spiranthera atlantica, uma espécie nova e a primeira ocorrência na mata atlântica de um gênero de árvore antes encontrada apenas na Amazônia e no cerrado, da qual Siqueira já tinha lhe enviado material para identificação.
Um levantamento preliminar indicou que cerca de 800 espécies de árvores e palmeiras – as mais abundantes são típicas de mata atlântica – se espalham pela reserva da Vale, incluindo algumas só encontradas nestas matas, como duas espécies de ipês. Em uma contagem de campo recém-concluída, uma equipe da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, encontrou 142 espécies de árvores que ocorrem também na Amazônia – e algumas delas também na caatinga e no cerrado. “As espécies de outros ecossistemas não são as mais importantes, em número de indivíduos, mas apresentam uma alta diversidade”, diz o engenheiro florestal Sebastião Venâncio Martins, professor da UFV e coordenador dos estudos de campo nas florestas de Linhares. Além disso, espécies como a Parkia ajudam a formar o dossel, a parte mais alta da floresta. Para Martins, a maior concentração de espécies amazônicas nos trechos mais preservados e distantes das bordas da floresta da reserva, verificada na pesquisa de doutorado de Luiz Fernando Magnago, que ele orienta, reforça a necessidade de preservação de grandes áreas de florestas nativas nesta região do Espírito Santo.
A pergunta que persiste na mente de quem vê estas matas: por que essas espécies de árvores amazônicas estão aqui? “Pode ter havido uma conexão entre a Amazônia e a mata atlântica, talvez por meio das matas próximas aos rios”, diz o biólogo Antonio Álvaro Buso Junior, que trabalha com Pessenda no Cena. “Quando? Talvez há 10 ou 20 milhões de anos. Ou mais recente, há 50 ou 100 anos. A conexão pode ter sido feita por meio das matas ciliares e foi desfeita com o desmatamento.”
Pirani concorda: “Vários estudos paleobotânicos têm demonstrado que, em uma época de clima mais úmido e quente, havia cordões de mata e manchas de mata úmida onde hoje é caatinga e cerrado”. Para Martins, além de prováveis ligações remotas entre tipos de vegetação hoje bastante diferenciadas, mas que antes deviam formar um tapete verde contínuo, essa floresta apresenta solo arenoso, relevo plano e um clima marcado por chuvas constantes semelhantes à Amazônia. Essas semelhanças ajudam a explicar a sobrevivência de espécies comuns nas matas nativas da Região Norte do país.
Do fundo de um lago
Equilibrando-se em barcos infláveis, Álvaro e Paulo Eduardo de Oliveira, pesquisador da Universidade São Francisco com experiência nessa área, recolheram amostras de sedimentos de até dois metros de profundidade do fundo da lagoa do Macuco, que se espalha com cerca de um quilômetro de largura e três metros de profundidade, na reserva de Sooretama. De volta ao Cena, Álvaro identificou pólen de 234 gêneros ou famílias de árvores, arbustos, ervas, samambaias e plantas aquáticas (cada grão de pólen mede de 20 a 60 micrômetros). “A identificação por pólen permite a identificação taxonômica com segurança apenas até o nível de gênero”, argumenta.
A maioria dos gêneros reconhecidos representava espécies de árvores típicas de mata atlântica, alguns, como o gênero Hydrogaster, exclusivos das matas de tabuleiro do sul da Bahia e norte do Espírito Santo. Outros gêneros são encontrados na Amazônica e na mata atlântica, como Glycydendron, Rinorea e Senefeldera. “Por que acham que vieram de lá para cá?”, indaga Domingos Folli, botânico que antecedeu Siqueira no herbário, com a autoridade de quem fez 6.800 coletas. “Podem ter ido daqui para lá.” Pode ter ocorrido, claro, um fluxo de mão dupla.
As sementes das árvores podem ter sido transportadas pelo vento, pela chuva, pelos rios ou pelos animais que circulavam nas áreas de comunicação entre florestas antes possivelmente conectadas e, elas próprias, muito mais amplas. Ainda hoje vivem por aqui onças e outras raridades, como o gavião-real e mutuns. Uma das 380 espécies de aves já identificadas que vivem nessas matas, o tropeiro ou cricrió (Lipaugus vociferans), é típica da Amazônia. Lá e aqui, dificilmente é visto por ter uma plumagem que se confunde com a vegetação, mas é um dos primeiros pássaros que se põe a cantar, como se estivesse dando um alarme, ao ver pessoas pela mata. Um dia, andando pela mata, Álvaro ouviu algo ainda mais raro: papagaios cantando Ilariê-ê-ê-ê; a música da Xuxa! Ele não acreditou, mas depois soube que um bando de papagaios criados em casas tinham sido soltos ali havia poucos dias e ainda exibiam o repertório dos tempos de cativeiro.

Resquícios do mar
No material colhido no fundo da lagoa, Álvaro encontrou pólen dos três gêneros de árvores típicas de manguezais, indicando que há cerca de 8 mil anos um denso manguezal deve ter ocupado as margens da lagoa e dos rios que a abastecem. As análises de carbono 14, sob o cuidado de Pessenda, reiteraram essa conclusão.
“Esta área já foi estuário e a água do mar deve ter chegado até aqui há no mínimo 8 mil anos”, diz Álvaro do alto do barranco da lagoa, a quase 30 metros de altura. Esqueletos calcificados de algas e esponjas marinhas retirados do fundo da lagoa – bem maiores que os grãos de pólen, com até meio milímetro de diâmetro – reforçam a conclusão de que há 10 mil anos a água dos rios próximos deve ter ser misturada com a do mar, hoje a 23 quilômetros de distância. “Os manguezais, que hoje vemos apenas ao norte, na divisa com a Bahia, devem ter desaparecido antes da ocupação humana, quando o nível do mar recuou”, diz Pessenda. Em colaboração com Marcelo Cohen, especialista em evolução de paleomanguezais da Universidade Federal do Pará, o grupo do Cena pretende conhecer os limites geográficos e as possíveis causas do desaparecimento dessa vegetação. Em um estudo anterior, Pessenda concluiu que há cerca de 40 mil anos uma floresta ocupava as áreas atualmente cobertas pelos manguezais na ilha do Cardoso, litoral sul paulista, porque a linha de costa estava a cerca de 100 quilômetros de onde está hoje.
Por volta de 6 mil anos atrás, o mar no litoral capixaba devia estar cerca de quatro metros acima do que está hoje, concluiu o geólogo Paulo Giannini, com sua equipe do Instituto de Geociências da USP. Sua conclusão se apoia em análises de fósseis de moluscos gastrópodes chamados vermetídeos (Petaloconchus varians), que formam colônias sobre rochas acompanhando a linha da água.
Giannini tem um pé em Linhares. “Há uns dois anos, Pessenda me pediu, ‘Paulo, descobre por que os campos nativos estão lá’”, diz ele. “A vegetação não é só resultado do clima; temos de ver também a influência do substrato, por exemplo, se há milhares de anos existiram lagos na região, que depois foram assoreados, conformando as áreas em que cresceram grupos específicos de plantas.” Os campos das matas do norte capixaba são áreas circulares, de 100 a 500 metros de diâmetro, que lembram uma área de pouso de naves espaciais. Podem ser diferentes entre si. Em um deles a camada de areia ocupa quase um metro antes de chegar a uma camada preta e compacta rica em metais e matéria orgânica, em outra a areia chega a quase dois metros de profundidade.
Sobre esse solo pobre em nutrientes crescem espécies distintas de gramíneas, mais rasteiras em um campo, mais altas em outro, às vezes com árvores isoladas, semelhante às formas mais abertas de cerrado. Em um dos campos, alojada em uma árvore isolada, exibe-se uma orquídea de flores brancas, a Sobralia liliastrum, comum nas matas da Chapada Diamantina, sul da Bahia, e já vista nas matas da serra dos Carajás, no Pará.
Os especialistas acreditam que as árvores da floresta que cerca os campos, adaptadas a um solo mais fértil, dificilmente poderiam sobreviver neste espaço pobre em nutrientes, que, além disso, permanece coberto por uma camada de água de 10 a 15 centímetros durante a época de chuvas. Uma vegetação de altura intermediária ocupa as áreas mais próximas da floresta, mas ainda ninguém arrisca dizer se os campos estão avançando sobre as matas, se estão recuando ou se simplesmente há uma oscilação anual, de acordo com a estação seca ou chuvosa. “Se o clima sazonal se mantiver”, diz Pessenda, “provavelmente as árvores de terra firme que se encontram no entorno dos campos não vão se atrever a colonizar o terreno alheio, que frequentemente se encontra encharcado. Não é o seu ambiente!”
Siqueira suspeita que os campos estejam encolhendo – e já viu muitos desaparecerem, por causa da areia fácil de ser retirada e por muitos anos bastante usada na construção de casas e prédios. “Se não houver grandes intervenções”, diz Martins, de Viçosa, “a tendência é se manterem, por causa do tipo de solo, que bloqueia o avanço das espécies florestais”. Pessenda acredita que os campos devem estar na mesma área “há pelo menos 15 mil anos”.
Em 20 anos de trabalho de campo, o que mais ele tem visto são florestas comendo os campos. Foi assim em Humaitá, no sul do estado do Amazonas, que Pessenda acompanhou durante cinco anos. Nos primeiros anos ele deixava um barbante estendido marcando os limites da mata com os campos. Ao voltar, no ano seguinte, custava a encontrar o barbante, engolido pela floresta, que tinha avançado um ou dois metros sobre os campos (ver mapa).
Pessenda conta que teve de fazer uma cirurgia no ombro por causa do esforço exigido para fazer os furos (os estudantes hoje o ajudam, claro), mas nem pensa em parar. “Estamos indo para o sul da Bahia, em busca de sinais de manguezais e campos e matas antigas”, anuncia, enquanto planeja as próximas viagens e a ampliação do laboratório de 240 para 400 metros quadrados (eram 90 em 1990). Esse campo de estudo também está se mostrando bastante fértil, e equipes do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, entre outras, estão refazendo paisagens de milhares de anos atrás – e imaginando como vão se transformar daqui para a frente – com base em análises de solo e pólen.
Outra indicação dos bons ventos desse campo de pesquisa: o navio oceanográfico alemão Maria Merian partiu do porto de Recife em 11 de fevereiro para coletar sedimentos da foz dos rios Parnaíba e Amazonas e da costa da Guiana Francesa. Outro objetivo é reconstituir a evolução do clima da região amazônica nos últimos 2 mil anos. “Neste momento [início de março] estamos na desembocadura do rio Amazonas e já coletamos testemunhos sedimentares de excelente qualidade, além de amostras da coluna de água, e pudemos mapear o delta subaquático do rio Amazonas com uma resolução espacial simplesmente impressionante”, relata o geólogo Cristiano Chiessi, da USP, um dos pesquisadores brasileiros, diretamente do navio. “Nosso destino final é Bridgetown, Barbados, aonde devemos chegar em 11 de março.”
Um levantamento preliminar indicou que cerca de 800 espécies de árvores e palmeiras – as mais abundantes são típicas de mata atlântica – se espalham pela reserva da Vale, incluindo algumas só encontradas nestas matas, como duas espécies de ipês. Em uma contagem de campo recém-concluída, uma equipe da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, encontrou 142 espécies de árvores que ocorrem também na Amazônia – e algumas delas também na caatinga e no cerrado. “As espécies de outros ecossistemas não são as mais importantes, em número de indivíduos, mas apresentam uma alta diversidade”, diz o engenheiro florestal Sebastião Venâncio Martins, professor da UFV e coordenador dos estudos de campo nas florestas de Linhares. Além disso, espécies como a Parkia ajudam a formar o dossel, a parte mais alta da floresta. Para Martins, a maior concentração de espécies amazônicas nos trechos mais preservados e distantes das bordas da floresta da reserva, verificada na pesquisa de doutorado de Luiz Fernando Magnago, que ele orienta, reforça a necessidade de preservação de grandes áreas de florestas nativas nesta região do Espírito Santo.
A pergunta que persiste na mente de quem vê estas matas: por que essas espécies de árvores amazônicas estão aqui? “Pode ter havido uma conexão entre a Amazônia e a mata atlântica, talvez por meio das matas próximas aos rios”, diz o biólogo Antonio Álvaro Buso Junior, que trabalha com Pessenda no Cena. “Quando? Talvez há 10 ou 20 milhões de anos. Ou mais recente, há 50 ou 100 anos. A conexão pode ter sido feita por meio das matas ciliares e foi desfeita com o desmatamento.”
© EDUARDO CESAR
Campos cercados pela floresta
Do fundo de um lago
Equilibrando-se em barcos infláveis, Álvaro e Paulo Eduardo de Oliveira, pesquisador da Universidade São Francisco com experiência nessa área, recolheram amostras de sedimentos de até dois metros de profundidade do fundo da lagoa do Macuco, que se espalha com cerca de um quilômetro de largura e três metros de profundidade, na reserva de Sooretama. De volta ao Cena, Álvaro identificou pólen de 234 gêneros ou famílias de árvores, arbustos, ervas, samambaias e plantas aquáticas (cada grão de pólen mede de 20 a 60 micrômetros). “A identificação por pólen permite a identificação taxonômica com segurança apenas até o nível de gênero”, argumenta.
A maioria dos gêneros reconhecidos representava espécies de árvores típicas de mata atlântica, alguns, como o gênero Hydrogaster, exclusivos das matas de tabuleiro do sul da Bahia e norte do Espírito Santo. Outros gêneros são encontrados na Amazônica e na mata atlântica, como Glycydendron, Rinorea e Senefeldera. “Por que acham que vieram de lá para cá?”, indaga Domingos Folli, botânico que antecedeu Siqueira no herbário, com a autoridade de quem fez 6.800 coletas. “Podem ter ido daqui para lá.” Pode ter ocorrido, claro, um fluxo de mão dupla.
As sementes das árvores podem ter sido transportadas pelo vento, pela chuva, pelos rios ou pelos animais que circulavam nas áreas de comunicação entre florestas antes possivelmente conectadas e, elas próprias, muito mais amplas. Ainda hoje vivem por aqui onças e outras raridades, como o gavião-real e mutuns. Uma das 380 espécies de aves já identificadas que vivem nessas matas, o tropeiro ou cricrió (Lipaugus vociferans), é típica da Amazônia. Lá e aqui, dificilmente é visto por ter uma plumagem que se confunde com a vegetação, mas é um dos primeiros pássaros que se põe a cantar, como se estivesse dando um alarme, ao ver pessoas pela mata. Um dia, andando pela mata, Álvaro ouviu algo ainda mais raro: papagaios cantando Ilariê-ê-ê-ê; a música da Xuxa! Ele não acreditou, mas depois soube que um bando de papagaios criados em casas tinham sido soltos ali havia poucos dias e ainda exibiam o repertório dos tempos de cativeiro.
© EDUARDO CESAR
Um bloco da camada compacta sob a areia: resistência
No material colhido no fundo da lagoa, Álvaro encontrou pólen dos três gêneros de árvores típicas de manguezais, indicando que há cerca de 8 mil anos um denso manguezal deve ter ocupado as margens da lagoa e dos rios que a abastecem. As análises de carbono 14, sob o cuidado de Pessenda, reiteraram essa conclusão.
“Esta área já foi estuário e a água do mar deve ter chegado até aqui há no mínimo 8 mil anos”, diz Álvaro do alto do barranco da lagoa, a quase 30 metros de altura. Esqueletos calcificados de algas e esponjas marinhas retirados do fundo da lagoa – bem maiores que os grãos de pólen, com até meio milímetro de diâmetro – reforçam a conclusão de que há 10 mil anos a água dos rios próximos deve ter ser misturada com a do mar, hoje a 23 quilômetros de distância. “Os manguezais, que hoje vemos apenas ao norte, na divisa com a Bahia, devem ter desaparecido antes da ocupação humana, quando o nível do mar recuou”, diz Pessenda. Em colaboração com Marcelo Cohen, especialista em evolução de paleomanguezais da Universidade Federal do Pará, o grupo do Cena pretende conhecer os limites geográficos e as possíveis causas do desaparecimento dessa vegetação. Em um estudo anterior, Pessenda concluiu que há cerca de 40 mil anos uma floresta ocupava as áreas atualmente cobertas pelos manguezais na ilha do Cardoso, litoral sul paulista, porque a linha de costa estava a cerca de 100 quilômetros de onde está hoje.
Por volta de 6 mil anos atrás, o mar no litoral capixaba devia estar cerca de quatro metros acima do que está hoje, concluiu o geólogo Paulo Giannini, com sua equipe do Instituto de Geociências da USP. Sua conclusão se apoia em análises de fósseis de moluscos gastrópodes chamados vermetídeos (Petaloconchus varians), que formam colônias sobre rochas acompanhando a linha da água.
Sobre esse solo pobre em nutrientes crescem espécies distintas de gramíneas, mais rasteiras em um campo, mais altas em outro, às vezes com árvores isoladas, semelhante às formas mais abertas de cerrado. Em um dos campos, alojada em uma árvore isolada, exibe-se uma orquídea de flores brancas, a Sobralia liliastrum, comum nas matas da Chapada Diamantina, sul da Bahia, e já vista nas matas da serra dos Carajás, no Pará.
Os especialistas acreditam que as árvores da floresta que cerca os campos, adaptadas a um solo mais fértil, dificilmente poderiam sobreviver neste espaço pobre em nutrientes, que, além disso, permanece coberto por uma camada de água de 10 a 15 centímetros durante a época de chuvas. Uma vegetação de altura intermediária ocupa as áreas mais próximas da floresta, mas ainda ninguém arrisca dizer se os campos estão avançando sobre as matas, se estão recuando ou se simplesmente há uma oscilação anual, de acordo com a estação seca ou chuvosa. “Se o clima sazonal se mantiver”, diz Pessenda, “provavelmente as árvores de terra firme que se encontram no entorno dos campos não vão se atrever a colonizar o terreno alheio, que frequentemente se encontra encharcado. Não é o seu ambiente!”
Siqueira suspeita que os campos estejam encolhendo – e já viu muitos desaparecerem, por causa da areia fácil de ser retirada e por muitos anos bastante usada na construção de casas e prédios. “Se não houver grandes intervenções”, diz Martins, de Viçosa, “a tendência é se manterem, por causa do tipo de solo, que bloqueia o avanço das espécies florestais”. Pessenda acredita que os campos devem estar na mesma área “há pelo menos 15 mil anos”.
Em 20 anos de trabalho de campo, o que mais ele tem visto são florestas comendo os campos. Foi assim em Humaitá, no sul do estado do Amazonas, que Pessenda acompanhou durante cinco anos. Nos primeiros anos ele deixava um barbante estendido marcando os limites da mata com os campos. Ao voltar, no ano seguinte, custava a encontrar o barbante, engolido pela floresta, que tinha avançado um ou dois metros sobre os campos (ver mapa).
| O Projeto |
| Estudos paleoambientais interdisciplinares na costa do Espírito Santo – nº 11/00995-7 |
| Modalidade |
| Projeto Temático |
| Coordenador |
| Luiz Carlos Ruiz Pessenda – Cena/USP |
| Investimento |
| R$ 1.027.868,62 (FAPESP) |
Outra indicação dos bons ventos desse campo de pesquisa: o navio oceanográfico alemão Maria Merian partiu do porto de Recife em 11 de fevereiro para coletar sedimentos da foz dos rios Parnaíba e Amazonas e da costa da Guiana Francesa. Outro objetivo é reconstituir a evolução do clima da região amazônica nos últimos 2 mil anos. “Neste momento [início de março] estamos na desembocadura do rio Amazonas e já coletamos testemunhos sedimentares de excelente qualidade, além de amostras da coluna de água, e pudemos mapear o delta subaquático do rio Amazonas com uma resolução espacial simplesmente impressionante”, relata o geólogo Cristiano Chiessi, da USP, um dos pesquisadores brasileiros, diretamente do navio. “Nosso destino final é Bridgetown, Barbados, aonde devemos chegar em 11 de março.”
terça-feira, 15 de novembro de 2011
The 10 Most Essential Dinosaur Books
Ten Books No Dinosaur Lover Should Do Without
Tons of dinosaur books are written for kids, but if you want the most reliable information it's best to consult literature aimed at science-minded teenagers and adults. Here's a list of the 10 most essential, and scientifically accurate, books about dinosaurs and prehistoric life.
1. Prehistoric Life: The Definitive Visual History of Life on Earth
Dorling-Kindersley's Prehistoric Life qualifies as a coffee-table book, full of stunning illustrations (photographs of fossils, detailed depictions of prehistoric animals in their natural habitats) and voluminous text. This handsome book doesn't only focus on dinosaurs, ranging all the way from the Proterozoic age to the rise of modern humans.2. Dinosaurs: A Concise Natural History
Dinosaurs: A Concise Natural History is a genuine college textbook, complete with scholarly references and questions at the ends of chapters. It's also one of the most detailed, comprehensive, and readable overviews of dinosaurs you can buy, and its authors (David E. Fastovsky and David B. Weishampel) have an infectious sense of humor.
3. The World Encyclopedia of Dinosaurs & Prehistoric Creatures
Dougal Dixon's World Encyclopedia of Dinosaurs has been sliced and diced by its publisher into numerous, smaller books; this is the one to get, though, if you're looking for concise, illustrated profiles of over 1,000 prehistoric animals, including birds, crocodiles and megafauna mammals as well as dinosaurs.
4. Tyrannosaurus Rex: The Tyrant King
Most dinosaur books focus to a greater or lesser degree on :Tyrannosaurus Rex; Tyrannosaurus Rex: The Tyrant King goes whole hog (if you'll excuse the mammalian expression), with chapters written by some of the world's most notable paleontologists. This book covers everything from T. Rex's puny arms to its bulky, oversized skull.
5. Feathered Dinosaurs: The Origin of Birds
Feathered Dinosaurs: The Origin of Birds focuses on a growing subset of the dinosaur kingdom: the small, feathered theropods of the late Jurassic and Cretaceous periods. John Long's text is perfectly accompanied by Peter Schouten's stunning illustrations; you'll never look at a Compsognathus the same way again. Buy it now
6. Oceans of Kansas: A Natural History of the Western Interior Sea
Many people find it surprising that the fossils of so many marine reptiles have been discovered in landlocked Kansas. Oceans of Kansas, by Michael J. Everhart, is an exhaustive survey of the ichthyosaurs, plesiosaurs and mosasaurs that have been discovered in the U.S. interior, as well as the pterosaurs that flew above the sea.
7. The Complete Dinosaur
The Complete Dinosaur is getting on a bit in age--the last edition of this 750-page reference book was published in 1999--but it's still the most comprehensive, scholarly, and just plain fun dinosaur book out there, with meaty contributions from a veritable who's who of famous paleontologists.
8. Extinct Animals: Species that Have Disappeared During Human History
As its subtitle implies, Ross Piper's Extinct Animals has nothing to do with dinosaurs, focusing instead on 50 or so notable animals that have gone extinct within the last 50,000 years--ranging from the Golden Toad (a very recent casualty of human civilization) to Phorusrhacos, better known as the Terror Bird.9. Prehistoric Life: Evolution and the Fossil Record
Bruce S. Lieberman and Roger Kaesler's Prehistoric Life puts dinosaurs (and other extinct animals) in their proper natural context, with a focus on mass extinctions, plate tectonics and global climate change. This textbook demonstrates that evolution isn't a linear process, but one that zigs and zags in response to an often-hostile environment.
10. The Princeton Field Guide to Dinosaurs
The virtue of Gregory S. Paul's The Princeton Field Guide to Dinosaurs is that it lists virtually all the genera, and species, of dinosaur that have ever been discovered, making it a handy desk reference. The problem is that Paul doesn't go into much detail about these dinos, and his illustrations, though anatomically correct, can be a bit underwhelming.sexta-feira, 16 de julho de 2010
Período Triássico
17/07/2010
Triássico Superior na América do Norte: Coelophysis no centro
O Triássico é um dos 3 períodos da Era Mesozóica e o mais antigo deles, sendo que marca o surgimento dos dinossauros e é sobre este período que pretendo explicar um pouco nesta postagem. Não posso dar detalhes de todos os aspectos de um período, mas vou tentar abordar de forma abrangente o clima, fauna e flora, organização geográfica dos continentes entre outros assuntos, que você confere expandindo a postagem.
História: de onde vem a palavra Triássico?
Leia o resto do texto no Blog do Ikessauro: http://ikessauro.blogspot.com/
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