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segunda-feira, 19 de setembro de 2022

 

De uma única domesticação, os burros ajudaram a construir impérios ao redor do mundo

Genomas antigos apontam para uma única origem na África, seguida por rápida disseminação e especialização.



Burros, animais de carga críticos nos Andes e em muitos outros lugares do mundo, foram domesticados uma vez na África, mostra um estudo. MMPHOTO/DIGITALVISION VIS IMAGENS GETTY.

Os burros podem não ter a popularidade e o prestígio dos cavalos, mas esses equinos diminutos desempenharam um papel descomunal na história humana. Agora, uma extensa análise dos genomas de burros modernos e antigos revela que eles foram domesticados apenas uma vez, na África Oriental por volta de 5000 aC. Logo depois, eles se espalharam rapidamente por toda a Eurásia e se tornaram populações distintas, com mistura limitada entre eles. Isso provavelmente ajudou os burros a se adaptarem para servir como animais de carga essenciais para o transporte de água, pertences e mercadorias em uma variedade de ambientes.

“Esta é a história dos burros… e os detalhes são surpreendentes”, diz Greger Larson, biólogo evolucionário da Universidade de Oxford que não esteve envolvido no trabalho. O novo trabalho esclarece um debate sobre quantas vezes os burros foram domados, diz ele, e revela que os burros nunca se tornaram consanguíneos da mesma forma que os cavalos.

Melhorias no sequenciamento do DNA moderno e antigo lançaram luz sobre a domesticação de cavalos , cães , milho , cabras e micróbios . Mas relativamente pouco trabalho foi feito sobre a domesticação de burros, em parte porque eles não são fundamentais para a vida nos países industrializados hoje, diz Fiona Marshall, antropóloga da Universidade de Washington em St. Louis, que não esteve envolvida com o trabalho. Isso é um descuido, ela diz. “A domesticação deles transformou a sociedade. Eles foram o primeiro transporte terrestre.” Em muitas partes do mundo, eles ainda cumprem esse papel.

Para entender melhor as origens dessas humildes bestas de carga, o biólogo evolucionário Ludovic Orlando, da Paul Sabatier University – que passou anos trabalhando na história da domesticação de cavalos – virou-se para burros. Trabalhando com Evelyn Todd em seu laboratório e colegas de 37 laboratórios, eles avaliaram os genomas de 207 burros modernos de todo o mundo e sequenciaram o DNA dos esqueletos de 31 burros primitivos, alguns datados de 4.000 anos. “Eles fizeram um esforço notável para sequenciar a diversidade mundial”, diz Eva-Maria Geigl, paleogeneticista da agência nacional de pesquisa francesa, CNRS, da Universidade Paris-Cité, que não esteve envolvida no trabalho.

Os genomas de jumentos ( Equus asinus) de diferentes áreas mostraram-se bastante distintos. Essas diferenças “[registram] muito sobre a domesticação, não apenas quando começou, mas também como se espalhou”, diz Orlando.  

Um estudo anterior, analisando uma quantidade relativamente pequena de DNA moderno de centenas de burros, sugeriu que os equinos haviam sido domesticados duas vezes , na Ásia e na África . Esses pesquisadores se uniram a Orlando e Todd para reanalisar suas descobertas à luz do novo conjunto de dados muito maior. 

Eles usaram modelos de computador para analisar os dados genéticos e geográficos dos burros para estimar como eles se relacionavam uns com os outros. Eles concluíram que o burro foi domesticado apenas uma vez, há mais de 7.000 anos , quando pastores no Quênia e no Chifre da África começaram a domar burros africanos selvagens, relatam os pesquisadores hoje na Science .Há 5.000 anos, a domesticação estava em pleno galope. Os primeiros burros foram comercializados para o norte e para o oeste para o Egito e o Sudão. Em 2.500 anos, eles se espalharam por toda a Europa e Ásia, onde se desenvolveram em populações regionais distintas.   

Nove dos primeiros genomas de burros vieram de um sítio arqueológico no nordeste da França que era o local de uma vila romana entre 200 e 500 dC, que parece ter abrigado um centro de criação de burros. Os novos dados genéticos mostram que os romanos cruzaram jumentos africanos e europeus para criar jumentos gigantes de 155 centímetros de altura – cerca de 25 centímetros mais altos que um burro típico.

Geigl ainda se pergunta se os burros podem ter sido domesticados mais de uma vez. Ela acha que serão necessários genomas ainda mais antigos e modernos para verificar isso e identificar positivamente o ancestral selvagem dos burros. No entanto, “Mesmo que várias questões de pesquisa permaneçam na sombra, o artigo lança luz de uma maneira sem precedentes sobre a história de um ativo social muito importante”.

E, Larson diz: “Estou feliz em ver o burro finalmente ganhando seu dia”.



sexta-feira, 26 de junho de 2015

Presentes do passado

Artigo de capa da CH de junho descreve como se deu a domesticação de plantas e paisagens culturais na Amazônia pré-histórica. Mandioca, pupunha e guaraná são apenas os exemplos mais conhecidos de culturas que mantemos até hoje. 
 
Por: Helbert Medeiros Prado e Rui Sérgio Sereni Murrieta
Publicado em 16/06/2015 | Atualizado em 16/06/2015
Presentes do passado
Há milhares de anos, os seres humanos começaram a manipular plantas e animais com o objetivo de torná-los mais apropriados para o consumo como alimentos ou como matéria-prima para artefatos. (imagem: Albert Eckhout / Wikimedia Commons.
 
Parafraseando o arqueólogo britânico Steven Mithen, em seu célebre A pré-história da mente, foram muitos os atos e as cenas que pontuaram o ‘drama’ da evolução humana ao longo de suas diversas trajetórias. Por aproximadamente 7 milhões de anos, a linhagem de primatas que culminaria nos humanos separou-se dos outros primatas, acumulando nesse vasto período importantes modificações anatômicas e comportamentais.

Nossa espécie (Homo sapiens) surge na África, há cerca de 200 mil anos, mas as mudanças comportamentais e cognitivas consideradas ‘modernas’ parecem ter emergido apenas nos últimos 50 mil anos de nossa história. A partir desse período, ocorre uma série de manifestações simbólicas em forma de ornamentos corporais, pinturas rupestres e sepultamentos ritualizados, como revelam sítios arqueológicos pelo mundo afora. Estavam lançadas as bases para a complexidade material e cultural que definiriam o papel de nossa espécie no planeta nos dias de hoje.

Dezenas de milênios mais adiante, uma forma inédita de relação com a natureza marcaria em definitivo o modo de vida das sociedades humanas: a domesticação. Podemos definir domesticação como um processo histórico/evolutivo pelo qual populações de organismos são alteradas em nível genético por meio da manipulação humana ao longo de um extenso intervalo de tempo. Como consequência, os organismos domesticados tornam-se em geral altamente dependentes da ação humana para sua sobrevivência e reprodução. Outro aspecto que define esse processo em sua essência é a natureza irreversível das mudanças induzidas nos organismos ditos domesticados.
Em algumas regiões, a domesticação culminaria no desenvolvimento da agricultura e até na emergência dos primeiros Estados e impérios
 
O fato é que, entre 10 mil e 2 mil anos antes da era cristã (a.C.), nos diferentes continentes, grupos humanos que antes viviam da caça e da coleta passaram a manipular plantas e animais de modo a torná-los fontes cada vez mais eficientes de alimentos e de artefatos para seu uso. Em algumas regiões, tal processo culminaria no desenvolvimento da agricultura e até na emergência dos primeiros Estados e impérios de que temos conhecimento.
Muitos foram os polos independentes de domesticação de plantas e animais no globo, entre os quais o mais precoce foi o chamado Crescente Fértil, região do Oriente Médio que vai do Egito à Mesopotâmia. Lá foram encontradas, por exemplo, as primeiras evidências de domesticação da cevada, do trigo e do linho, em cerca de 8.500 a.C. Outro centro relevante foi o território atual da China, onde teve início a domesticação de pelo menos três importantes cereais: dois milhetes (Setaria italica e Panicum miliaceum), por volta de 7.000 a.C., e o arroz, em cerca de 8.000 a.C.

No Novo Mundo, povos que viviam na América Central – especificamente no território do México atual – domesticaram a abóbora por volta de 8.000 anos a.C., o milho em torno de 7.000 anos a.C. e o feijão em aproximadamente 1.000 anos a.C. Já a batata e a quinoa, ambas originárias dos altiplanos andinos, aparecem nos vestígios arqueológicos por volta de 6.000 a.C. Nas regiões costeiras do Peru, é o algodão que se destaca como o principal cultivar da região a partir de 4.000 a.C.

Outro importante centro de domesticação vem ganhando espaço nos estudos arqueológicos, ampliando esse rico e intrigante cenário: a Amazônia. Os registros mais bem estudados de domesticações promovidas por populações pré-históricas que viveram no imenso território amazônico são o tema deste artigo. Ali esses povos floresceram e deixaram seus frutos – muitos dos quais hoje tanto apreciamos, ainda que por vezes desconhecendo suas origens.

Domesticação na Amazônia

Por milênios, a grande diversidade dos ecossistemas amazônicos tem exigido de suas populações humanas, além de um conhecimento minucioso do ambiente, o domínio de ampla gama de técnicas e de tecnologias empregadas na obtenção de recursos da natureza. No extremo dessas estratégias, podemos destacar a manipulação e a domesticação de plantas, muitas das quais consumimos em grande quantidade nos dias de hoje.
Mandioca
Antes mesmo da chegada dos portugueses, os povos que habitavam a Amazônia já haviam domesticado plantas da região, entre as quais se destaca a mandioca. (imagem: Albert Eckhout / Wikimedia Commons)
Em artigo publicado em 2010, Charles R. Clement, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, estimou em 138 o número de plantas amazônicas sob algum grau de domesticação à época da chegada dos europeus nas Américas. Naquele período, uma das plantas mais importantes na dieta das populações indígenas era a mandioca. Entre as palmeiras, o fruto da pupunha, extremamente rico em óleos e amido, é o que mais se destacava. A seleção praticada sobre a mandioca resultou no desenvolvimento de raízes cada vez maiores (com mais amido) e mais tóxicas (o que parece conferir mais proteção contra a predação por herbívoros, nas roças). Já os frutos da pupunha experimentaram um aumento de tamanho na ordem de 2.000% em relação às suas populações selvagens.

Estudos arqueológicos também indicam a região do alto rio Madeira, onde hoje está situado o estado de Rondônia, como o provável centro de origem da domesticação tanto da mandioca quanto da pupunha, bem como da pimenta (da espécie Capsicum chinense) e do amendoim. As variedades de C. chinense mais conhecidas no Brasil são a pimenta-murupi, a pimenta-de-cheiro e a pimenta-de-bode. Curiosamente, essa região é também considerada o centro de origem do tronco linguístico tupi, além de ser uma das poucas áreas na Amazônia com fortes evidências de ocupação humana contínua ao longo dos últimos 10 milênios.
Estudos indicam a região do alto rio Madeira (atual Rondônia) como o provável centro de origem da domesticação da mandioca e da pupunha
 
Há cerca de 6.500 a.C., tanto a mandioca quanto o amendoim e a pimenta C. chinense já haviam sido domesticados. Com relação à pupunha, estudos genéticos e morfológicos sugerem que suas populações já estavam sendo alteradas pelos humanos há pelo menos 10 mil anos. Já o abacaxi, também originário da Amazônia, tem sua domesticação estimada em pelo menos 4.000 a.C. Outro produto com origem neste bioma é o guaraná, domesticado pelos índios sateré-maués entre o baixo rio Tapajós e o baixo rio Madeira. Estimativas sobre sua antiguidade ainda são bastante imprecisas, mas evidências genéticas e históricas têm sugerido que talvez esta tenha sido uma das domesticações mais recentes na Amazônia.

Um caso que parece ter sido especial é o do cacau. Embora seja uma espécie nativa da região, ela provavelmente foi domesticada na América Central, pelos povos maia ou zapoteca, por volta de 4.000 a.C. Por fim, temos o que parece ter sido o único animal domesticado na Amazônia, o pato-do-mato ou pato-almiscarado. Nesse caso, pesquisas ainda estão em fase muito incipiente no que se refere à antiguidade e à localização desse evento.