Mistério de animal inusitado descoberto por Darwin é resolvido após 180 anos
Mamífero com 'corpo de camelo e tromba no alto do crânio' tem seu lugar: ele é parente dos cavalos, rinocerontes e antas
Cientistas
conseguiram pela primeira vez analisar o DNA de uma inusitada espécie de
mamífero que viveu América do Sul durante a Era do Gelo e determinar
sua posição no reino animal - um mistério que já durava mais de 180
anos.
Em 1834, Charles Darwin descobriu, na Argentina e no Uruguai, os fósseis do animal pré-histórico que foi batizado de Macrauchenia patachonica.
Extinta há apenas 10 mil anos, a espécie foi considerada pelo
naturalista britânico como "os animais mais estranhos já descobertos".
O
'Macrauchenia patachonica' possuía várias adaptações evolutivas
notáveis, incluindo o posicionamento das narinas no alto da cabeça;
segundo os cientistas, isso indica que o animal, parente dos cavalos,
rinocerontes e antas, tinha uma tromba móvel.
Foto: Peter Schouten
Intrigado com a bizarra combinação de características do
animal - a criatura parecia ter corpo semelhante ao do camelo, cabeça de
anta, pescoço e pernas compridas e uma tromba no alto da cabeça -,
Darwin pediu ajuda ao renomado paleontólogo britânico Richar Owen para
determinar em qual grupo de mamíferos se encaixava a Macrauchenia.
Inicialmente, Owen sugeriu um parentesco do animal com a lhama,
por causa do pescoço comprido, mas a hipótese foi derrubada assim que se
encontraram novos fósseis. Depois de várias tentativas, Owen não chegou
a uma conclusão que fosse amplamente aceita e o problema persistiu por
quase dois séculos.
Agora, graças a uma nova abordagem usada para recuperar o DNA
mitocondrial de um espécime fóssil encontrado no sul do Chile,
cientistas conseguiram resolver o mistério da Macrauchenia: um
novo estudo confirmou que o animal pertencia ao grupo dos
Perissodáctilos, que inclui os cavalos, as zebras, os rinocerontes e as
antas.
O novo estudo, publicado nesta terça-feira, 27, na revista Nature Communications,
foi liderado pelo especialista em paleogenômica Michi Hofreiter, da
Universidade de Postdam (Alemanha), e pelo especialista em mamíferos
Ross MacPhee, curador do Museu Americano de História Natural (Estados
Unidos).
"O DNA mitocondrial é muito útil para avaliar o grau de
parentesco entre as espécies. Nosso estudo corrobora e amplia os
resultados de uma outra análise molecular publicada há dois anos, que
utilizou as proteínas de colágeno para inferir os parentescos. Como
naquele estudo, descobrimos que os parentes vivos mais próximos da Macrauchenia são os Perissodáctilos, grupo que inclui os cavalos, rinocerontes e antas", disse Hofreiter.
Assim, na árvore da vida, uma primeira divisão teria separado o
ramo dos Cetartiodáctilos - ao qual pertencem o camelo, a lhama, a
girafa, o veado, os bovinos e os hipotótamos - do grupo que daria origem
aos Carnívoros e aos Perissodáctilos. Os Carnívoros incluem os cães,
lobos, ursos e felinos, enquanto os Perissodáctilos incluem o
ricnoceronte, o cavalo, a anta e, agora, a Macrauchenia.
Abordagem alternativa. O DNA de animais extintos
está frequentemente danificado, por isso as análises geralmente exigem
que os cientistas completem as lacunas com materiais genéticos de
espécies com parentesco evolutivo próximo. Mas, como as "relações
familiares" da Macrauchenia eram desconhecidas, nesse caso foi preciso descobrir uma abordagem alternativa.
"Tínhamos um problema difícil de resolver, porque a Macrauchenia
não tem nenhum parente realmente próximo entre os animais vivos.
Tivemos então que usar uma abordagem que envolve o mapeamento interativo
baseado no uso de parâmetros muito rigorosos e o DNA mitocondrial de
várias espécies vivas, como referência múltipla para reconstruir as
sequências genéticas mais prováveis dos fósseis", explicou outro dos
autores, Mick Westbury, da Universidade de Postdam.
Com a nova abordagem, os cientistas conseguiram reconstituir quase 80% do genoma mitocondrial da Macrauchenia.
Isso permitiu determinar sua posição filogenética - isto é, onde o
animal se encaixa na árvore da vida - entre os Panperissodáctilos. Os
ancestrais dos atuais membros do Perissodáctilos já existiam no início
do Eoceno, há 55 milhões de anos. Os cientistas tiraram vantagem desse
fato para calibrar um relógio molecular e determinar quando ocorreram os
eventos de diferenciação evolutiva.
Assim, os cientistas determinaram que a linhagem da Macrauchenia
se separou dos Perissodáctlos modernos há cerca de 66 milhões de anos -
mais ou menos na mesma época em que um meteoro caiu na península de
Yucatán causando um dos maiores eventos de extinção de todos os tempos e
varrendo os dinossauros da Terra.
A evidência molecular corrobora a hipótese de alguns
paleontólogos, que acreditam que os ungulados da América do Sul tenham
vindo da América do Norte há mais de 60 milhões de anos, provavelmente
logo após a extinção em massa que acabou com os dinossauros não-aviários
e muitos outros vertebrados.
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