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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Pães de açúcar: refúgios de alta biodiversidade

O Pão de Açúcar, ícone das olimpíadas de 2016, é um dos afloramentos rochosos mais famosos do mundo. Entretanto, além do Rio de Janeiro, outras regiões do país também abrigam essas formações, denominadas inselbergs. Essas ‘ilhas terrestres’ inseridas na mata atlântica, bem como em outros biomas brasileiros, abarcam espécies botânicas raras e especializadas, com estratégias diversas para sobreviver em ambientes com condições extremas. Apesar de comuns no território brasileiro e de terem alta diversidade biológica, os pães de açúcar são raramente objeto de estudos botânicos, o que prejudica a promoção de ações para sua conservação.

 
Pão de Açúcar visto da pedra da Urca. Bondinho no topo do afloramento transporta milhares de turistas por ano, atraídos pela beleza das praias e do relevo carioca. (foto: Leo Galeno / Pixabay.com / Domínio Público).
 
Ao visitar o arquipélago de Galápagos, no oceano Pacífico, em 1835, o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) maravilhou-se com a biodiversidade local. Foram essas ilhas que o inspiraram a escrever A origem das espécies, livro que é um marco da teoria da evolução e que aborda a variação, a adaptação e o papel da seleção natural sobre a vida na Terra.

Durante muitos anos, as ilhas oceânicas chamaram a atenção de diversos pesquisadores por se tratarem de um ótimo modelo para estudos biogeográficos e evolutivos (ver ‘A regra da ilha’, em CH 336). Nas últimas décadas, sabendo desse potencial de estudo de ambientes isolados, cientistas mudaram o foco para outro tipo de ilha, as terrestres, como as montanhas e os afloramentos rochosos. De modo semelhante às ilhas oceânicas, elas também diferem da matriz onde estão inseridas e apresentam baixo intercâmbio de espécies, tanto da fauna quanto da flora.

No Brasil, não é difícil chegar a essa conclusão. Basta lembrar do Pão de Açúcar, da Pedra da Gávea, dos morros Dois Irmãos e do Corcovado para perceber que o Rio de Janeiro é dominado por ilhas terrestres (ver ‘Origem do nome’). Essas formações rochosas são elementos naturais que se destacam entre as praias mais famosas, como Copacabana e Ipanema, e, seguramente, são responsáveis por todo o encantamento da ‘cidade maravilhosa’ e por ela receber o título, em 2012, de Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco): ‘Rio de Janeiro, paisagens cariocas entre a montanha e o mar’.

Origem do nome

O nome ‘Pão de Açúcar’ dado ao famoso conjunto de morros da cidade do Rio de Janeiro data da época da colonização portuguesa, em que blocos de açúcar eram transportados do Brasil para a Europa. Durante o processo de fabricação do açúcar, os cristais aglutinados eram retirados de fôrmas cônicas em blocos, que tomavam o formato delas (veja a foto). Esse processo guardava semelhança com a produção do pão, que também era assado em fôrmas, e, assim, por analogia, passou­se a chamar de ‘pão de açúcar’ o cristal obtido.


Posteriormente, o afloramento foi batizado de Pão de Açúcar por causa da semelhança de seu formato com o dos cones de cristais de açúcar. Mais adiante, diversos geólogos, geógrafos e biólogos estenderam o uso do termo – pães de açúcar – para se referirem aos afloramentos rochosos arredondados, de composição especialmente granítica e gnáissica, inseridos no domínio da floresta atlântica.

No ano em que o mundo se volta para os jogos olímpicos no Rio de Janeiro, os autores deste artigo gostariam de sugerir um olhar biológico para os pães de açúcar da mata atlântica. Suas plantas vencem barreiras de um ambiente extremo e sobrevivem perfeitamente adaptadas nesse geossistema tão antigo. Nos jogos olímpicos da natureza, a vegetação desses afloramentos rochosos, com certeza, já está no pódio.

(foto: Leandro Cardoso)

Ícone das olimpíadas

Sem dúvida, o afloramento mais famoso no Brasil é o Pão de Açúcar, ícone das Olimpíadas deste ano, cartão postal e protagonista de várias marcas. Um complexo de rochas inseridas em matriz florestal e urbana, e uma das atrações turísticas mais procuradas no país. Desde 1912, mais de 40 milhões de pessoas já visitaram o local, atraídas pela vista espetacular da baía de Guanabara, das praias e das outras montanhas que se destacam.

No meio científico, esses afloramentos rochosos que surgem abruptamente na paisagem, de composição principalmente granítica e gnáissica, são denominados inselbergs, termo de origem alemã (insel = ilha e berg = montanha). Quando apresentam formato arredondado e estão inseridos em uma matriz florestal, são chamados ‘pães de açúcar’. Essas formações datam de mais de 550 milhões de anos e estão distribuídas em escudos cristalinos por todos os continentes, sendo, nos trópicos, centros de diversidade biológica.

No Brasil, pães de açúcar ocorrem em grande concentração nas regiões Nordeste e Sudeste, especialmente em áreas de caatinga e floresta atlântica. Entretanto, com exceção do Rio de Janeiro, diversos aglomerados magnificentes desses afloramentos são desconhecidos por grande parte da população, como ocorre no nordeste de Minas Gerais e no norte do Espírito Santo. Em termos florísticos e ecológicos, os inselbergs têm relações comuns com outros tipos de afloramentos rochosos no país, como os campos rupestres e as cangas, que enfrentam condições ambientais muito adversas (ver ‘Cangas – ilhas de ferro estratégicas para a conservação’, em CH 295).

 
Aglomerado de pães de açúcar no nordeste de Minas Gerais. No primeiro plano, se destacam populações de bromélias (do gênero Encholirium) e cactos (do gênero Coleocephalocereus) crescendo diretamente sobre a rocha.
(foto: Luiza F. A. de Paula)
Apesar de essas formações serem frequentes no território brasileiro, estudos biológicos nos pães de açúcar são escassos. Os poucos inventários florísticos disponíveis na literatura apontam para elevada diversidade de espécies vegetais, muitas delas raras e endêmicas.
Nos últimos anos, várias espécies novas para a ciência vêm sendo descobertas nessas áreas, algumas restritas a poucos afloramentos. Esse é o caso de uma gramínea (Axonopus graniticola), um antúrio (Anthurium mucuri) e duas bromélias (Alcantarea longibracteta e A. simplicisticha) encontrados recentemente na divisa dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Outros exemplos são uma espécie da família das violetas (Sinningia bragae) e uma begônia (Begonia ibitiocensis), descritas para áreas menos conhecidas do norte do estado do Rio de Janeiro.

Pães de açúcar ocorrentes no norte do Espírito Santo, região conhecida como Pontões Capixabas.
(foto: Luiza F. A. de Paula)

Estratégias de sobrevivência

De forma geral, os inselbergs apresentam condições ambientais extremas, como altas temperaturas, fina (ou nenhuma) camada de solo e baixa retenção de água. Por essas razões, é comum termos a impressão de que as encostas desses afloramentos são simplesmente rochas nuas. Entretanto, um olhar mais detalhado revela uma diversidade a que poucos estão familiarizados.
Várias espécies de cianobactérias – parte dos primeiros grupos de organismos que colonizaram os ecossistemas terrestres há mais de 400 milhões de anos – formam crostas em toda a extensão da superfície rochosa, conferindo a coloração acinzentada que visualizamos, por exemplo, no Pão de Açúcar e na Pedra da Gávea. Portanto, não existem rochas realmente nuas, mas superfícies cobertas por um manto de micro-organismos capazes de suportar temperaturas que atingem mais de 60°C!

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Plantas com diferentes adaptações conseguem crescer sobre os
pães de açúcar, como as bromélias,  cactos, palmeiras e
canelas-de-ema, formando verdadeiros tapetes sobre a rocha.
As bromélias são as que mais se destacam, crescendo geralmente
na ausência de solo, em encostas muito íngremes, como a espécie
destacada na foto de baixo, pertencente ao gênero Encholirium.
Os inselbergs são considerados um dos centros de diversidade da
família Bromeliaceae. (fotos: Luísa O. Azevedo).
 
Os seres vivos capazes de sobreviver nesses locais apresentam diferentes tipos de adaptações. É notável a presença de plantas capazes de se aderir diretamente à rocha, por meio de raízes especializadas, formando extensas populações que se assemelham a tapetes. No Brasil, principalmente na região Sudeste, bromélias, orquídeas e cactos compõem essa ‘malha’ em encostas muito íngremes, desafiando a lei da gravidade.
Diversas também são as estratégias adotadas por esses grupos de plantas para armazenar água. Bromélias pertencentes ao gênero Encholirium e orquídeas do gênero Epidendrum, por exemplo, acumulam água nos seus tecidos vegetais, apresentando folhas suculentas. Já outras bromeliáceas, como Alcantarea e Vriesea, conseguem estocar água como tanques por possuírem uma arquitetura foliar em formato de roseta, o que mantém a umidade das plantas e acaba atraindo uma fauna variada. É importante salientar que a água acumulada nos ‘tanques’ das bromélias não são redutos de larvas do mosquito transmissor da dengue, e, portanto, não devem ser vistas como uma ameaça à população.

Os cactos, por sua vez, não só acumulam água, como apresentam espinhos (folhas modificadas) e pilosidades (revestimentos de finos pelos), especialmente em suas bases, evitando o superaquecimento do contato direto com a rocha, o que pode ser visto em espécies pertencentes ao gênero Coleocephalocereus.

 
 
Espécies de cactos, como Coleocaphalocereus buxbaumianus, possuem pilosidades em suas bases para evitar as altas temperaturas da rocha exposta. (foto: Luiza F. A. de Paula).
 
Outra estratégia espetacular de algumas plantas formadoras de ‘tapetes’ é a tolerância à dessecação (secura extrema). Durante a estação seca, algumas espécies entram em um estado desidratado, como se estivessem mortas. Suas folhas tornam-se enegrecidas e enroladas, chegando a perder mais de 90% de água. Após as chuvas, elas se reidratam, ficando verdes novamente, sem qualquer prejuízo estrutural ou fisiológico. Por essa característica única são chamadas pelos botânicos de ‘plantas de ressurreição’.


 
 
A tolerância à dessecação é uma estratégia desenvolvida
por diversas espécies que habitam os pães de açúcar. Em
períodos de seca, elas perdem água e suas folhas ficam
com aspecto ressecado, mas sem perder a viabilidade, como
é possível verificar acima, na população de Barbacenia
tomentosa
, da família das velloziáceas (popularmente
conhecidas como canelas-de-ema). Após as chuvas, elas
conseguem se hidratar novamente, e retomam seu vigor
(abaixo). Por esse motivo, as plantas com essa estratégia
são conhecidas como ‘plantas de ressurreição’.
(foto: Luiza F. A. de Paula)
Muitas espécies conseguem sobreviver a esses ciclos, destacando-se as samambaias e licófitas dos gêneros Cheilanthes, Doryopteris e Selaginella. Entre as plantas com flores, as ornamentais canelas-de-ema (pertencentes aos gêneros Barbacenia e Vellozia, da família Velloziaceae) são as que, sem dúvida, mais chamam a atenção. Alguns exemplares de diferentes espécies de Vellozia atingem idades superiores a 500 anos, mostrando a eficácia dessa estratégia para sua sobrevivência.
Diante do aquecimento global, pesquisas recentes vêm dando foco aos genes dessas ‘plantas de ressureição’ envolvidos na tolerância à dessecação. Elas são usadas como modelo para melhor entender esse mecanismo, visando, posteriormente, a sua aplicação em plantas cultivadas.

Por que preservar?

O que poucos sabem é que, quando os portugueses chegaram ao Brasil, a primeira porção de terra avistada foi um inselberg, como relatou Pero Vaz de Caminha na sua famosa carta enviada ao rei de Portugal: “Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz”.
Haviam chegado a uma região exuberante da mata atlântica, que se estendia por aproximadamente 3.300 km ao longo da costa brasileira, e que à época era habitada por numerosas tribos indígenas. Tanto a floresta quanto os primeiros habitantes sucumbiram quase que inteiramente diante dessa paulatina ocupação do litoral brasileiro. Foram os ciclos do ouro, da cana e do café, além da exploração madeireira, os principais responsáveis pela destruição de uma das mais ricas formações vegetais do planeta. Restam somente 11% da cobertura vegetal original, representada por fragmentos pequenos e cada vez mais empobrecidos biologicamente.
Nesse contexto, os inselbergs se destacam por servirem de refúgio para fragmentos florestais praticamente intactos e pouco acessíveis ao ser humano, e por apresentarem plantas altamente especializadas que só ocorrem sobre a rocha exposta. O resultado são ilhas terrestres detentoras de alta diversidade biológica.

 
 
Devido ao seu isolamento, os pães de açúcar são considerados ilhas terrestres, abrigando espécies altamente especializadas e servindo de refúgio para fragmentos florestais praticamente intocados. (foto: Leandro Cardoso)
No entanto, nosso panorama atual não é animador. Em diversas regiões do Brasil, esses aforamentos, por não serem considerados áreas prioritárias para conservação, sofrem sérias ameaças. A coleta ilegal de plantas ornamentais, o fogo, as trilhas de turismo e a invasão de espécies exóticas (não originárias desses locais) têm contribuído para a destruição da vegetação natural desses ambientes.
A retirada da cobertura vegetal que ocorre sobre a rocha favorece o deslizamento de terra e enchentes nas áreas vizinhas, o que pôde ser observado em eventos recentes, nos últimos anos, no estado do Rio de Janeiro. O fator complicador é que a regeneração da flora dos inselbergs é muito lenta e ela provavelmente nunca poderá ser recuperada da mesma maneira.
Outro agravante é a crescente exploração do granito. Em diversos locais, o mineral passou a ser usado no lugar da madeira em bancadas, paredes, pisos, entre outros utensílios. Em estados como o Espirito Santo, o ciclo destrutivo de supressão das florestas capixabas foi substituído pela destruição de suas rochas, alimentando um comércio desenfreado e nada sustentável.

 
 
Mineradora de granito no estado do Espírito Santo. Grandes blocos são retirados diariamente, levando à extinção diversos pães de açúcar da região. (foto: Luiza F. A. de Paula).
 
Apesar de óbvio, o importante papel das plantas no nosso dia a dia tem sido negligenciado. Elas são fontes de alimentos, combustíveis, fibras, matérias-primas para a indústria, medicamentos, além de tornarem nossa atmosfera respirável – motivos que bastariam para dedicar mais investimentos e atenção para estudá-las e compreendê-las melhor. Um país como o Brasil, que abriga a maior diversidade de plantas do planeta, deveria ser capaz de preservar minimamente suas espécies.

Sugestões para leitura

DE PAULA, L.F.A.; FORZZA, R.C.; NERI, A.V.; BUENO, M.L.; POREMBSKI, S. Sugar Loaf land in south-eastern Brazil: a centre of diversity for mat-forming bromeliads on inselbergs. Botanical Journal of the Linnean Society, v.181, p.459-476, 2016.

DE PAULA, L.F.A.; VIANA, P.L; MOTA, N.; AUGSTEN, M.; LEITE, F. E STEHMANN, J.R. Plantas Saxícolas em Inselberg no Vale do Mucuri. In: Rapid Color Guides. Chicago: The Field Museum, 2013.

DE PAULA, L.F.A.; FORZZA, R.C.; NERI, A.V.; BUENO, M.L.; POREMBSKI, S. Sugar Loaf land in south-eastern Brazil: a centre of diversity for mat-forming bromeliads on inselbergs. Botanical Journal of the Linnean Society, 2016.

MAUAD, L.P.; BUTURI, F.O.S.; SOUZA, T.P.; NASCIMENTO, M.T. & BRAGA, J.M.A. New distribution record and implications for conservation of the endangered Wunderlichia azulensis Maguire & gm Barroso (asteraceae: Wunderlichieae). Check List, v. 10, p. 706, 2014.

POREMBSKI, S. E BARTHLOTT, W. (org.). Inselbergs – Biotic diversity of isolated rock outcrops in tropical and temperate regions. In: Ecological studies, v. 146. Berlim:Springer-Verlag, 2000.

Luiza F. A. de Paula
Stefan Porembski

Instituto de Biociências, Botânica Especial e Geral
Universidade de Rostock (Alemanha)
Luísa O. Azevedo
João Renato Stehmann

Departamento de Botânica
Instituto de Ciências Biológicas
Universidade Federal de Minas Gerais
Luana Paula Mauad
Rafaela Campostrini Forzza

Jardim Botânico do Rio de Janeiro

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Pioneirismo na restauração de florestas tropicais: a história da Floresta da Tijuca

Vicejando num perímetro de 21 km² no Maciço da Tijuca e circunscrita ao atual Parque Nacional da Tijuca, a Floresta da Tijuca continua a refletir as diferentes relações entre natureza e sociedade, passado e presente, ciência e cultura.

O maciço que a abriga constitui um conjunto de montanhas onde se situam referências da paisagem carioca, como o Morro do Corcovado, a Pedra da Gávea, a Pedra Bonita e o Morro Dois Irmãos. Desde o período colonial a população nominava essa cobertura florestal como Matas da Tijuca ou Floresta da Tijuca.

Enquanto o cultivo do café avançava sobre as altitudes em redor da cidade, o uso do solo e as inovações dele suscitadas aca­baram por circunscrever, nas vertentes ao norte do maciço, o que se sagrou como Floresta da Tijuca, intimamente ligada à história de ocupação do território fluminense, aos ciclos econômicos e à construção da identidade cul­tural e científica da população que se estabeleceu nesse espaço geográfico desde a chegada da corte portuguesa até os dias atuais.
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Plantação de café na Gávea Pequena, feita por Owen Stanley em 1847

A intricada rede de relações sociais e de poder tanto teceu, ao longo dos séculos XIX e XX, a destruição de áreas naturais quanto ensejou a busca por soluções para os problemas decorrentes.
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Obra de Rugendas retrata a experiência mal sucedida de importar chineses para plantar chá nas encostas da floresta.

Os primeiros plantios destinados ao reflorestamento, em 1862, encontraram na escassez de água para abas­tecimento da cidade do Rio de Janeiro sua explicação histórica mais emblemática e, por que não dizer, romântica. Se aos olhos do colonizador europeu a percepção das matas tropicais era como de natureza bizarra e impeditiva ao progresso, sua substituição por espécies exóticas, comercialmente viáveis e capazes de gerar uma paisagem mais homogênea, à semelhança do Velho Continente, era mais que oportuna.
Em 1860 foi criado o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura (IIFA) com o projeto inicial de modernizar, por meio de estabelecimentos de ensino agrícola e da divulgação de conhecimento, as práticas rudimentares usuais, aliando teoria à prática.

A maioria de seus membros eram proprietários rurais, porém também havia homens de ciência. Defendia‑se ali a produção de conhecimento próprio sobre os recursos do país, bem como a resistência à introdução das práticas europeias como verdade absoluta.
Major-Archer
O major Archer, que comandou o replantio da Floresta da Tijuca

Embora estabelecido por portaria o plantio regular de árvores, num sistema de mudas e sementeiras, e com arvoredos do país, em linhas retas paralelas, com distância fixa a partir das nascentes, o major Gomes Archer – primeiro administrador da Floresta Nacional da Tijuca – optou por reproduzir a fisionomia desordenada da floresta tropical, o que mais tarde foi reconhecido.
Essa atitude sugere refletir sobre as posições identitárias de construção de uma ciência nacional, dispersa entre os homens de ciência e os intelectuais à época.

As mudas vieram da Floresta das Paineiras (próxima ao Pico do Corcovado), de Guaratiba e outras mais cul­tivadas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ). As coleções botânicas provenientes do Maciço da Tijuca e depositadas no herbário do JBRJ somam três mil espécimes e podem servir de fonte informativa para o estudo histórico da paisagem.
Um embrião do que se compreende hoje por restauração ecológica pode ser encontrado nas práticas de Archer, cuja seleção de espécies – privilegiando a coleta de espécies autóctones à serrania –, bem como o arranjo espacial empírico – valendo‑se de sua experiência em campo ao observar a organização natural dos indivíduos na fisionomia local e as associações de espécies –, propiciou em longo prazo a reconstituição flo­rística e estrutural desse trecho de encosta do Maciço da Tijuca. Diferentes autores têm se ocupado de pensar o lugar do homem neste momento de grandes incertezas.
Mapa-floresta-e-parque-da-Tijuca
A imagem por satélite dá uma noção da importância da Floresta (em verde) para o resto da cidade do Rio. As quatro áreas do Parque Nacional estão destacadas: a) Floresta da Tijuca; b) Serra da Carioca; c) Pedras Bonita/Gávea; d) Covanca e Pretos Forros.

Os que nos antecederam na experiência da Tijuca apos­taram no futuro, no desconhecido e no improvável, e talvez nós tenhamos o grande desafio científico e humano, em face da contemporaneidade, de tornarmo‑nos, a cada dia, “pessoas que façam da oposição ao pensamento consagrado uma virtude”.
Texto escrito por Rejan R. Guedes‑Bruni, Jardim Botânico do Rio de Janeiro e PUC‑Rio

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Darwin e a Mata Atlântica

Imaginar as sensações do jovem Darwin ao desembarcar no Brasil em fevereiro de 1832 não é tarefa fácil. Em seu diário a bordo do HMS Beagle, o naturalista se mostra maravilhado ao vivenciar a exuberância da fauna e flora de uma então quase intacta Mata Atlântica.

Ao chegar a Salvador, ele definiu um passeio pela Mata Atlântica como delicioso para logo depois emendar: “ Delicioso em si, entretanto, é um termo fraco para expressar os sentimentos de um naturalista, que pela primeira vez, passeou sozinho em uma floresta brasileira. A elegância da coberta do solo, a novidade das plantas parasitas, a beleza das flores, o verde brilhante da folhagem, mas, sobretudo, a vegetação luxuriante me encheram de admiração. (...) Para uma pessoa que aprecia história natural, um dia como este gera um profundo prazer que não se pode ter esperança de vivenciar outra vez.”

Mas foi no Rio de Janeiro, onde passou três meses, que Darwin teve a sua maior vivência com a natureza brasileira. Hospedado na então baía de Botafogo, o naturalista se encantou com a paisagem do Rio. Pão de Açúcar, Corcovado, o recém-criado Jardim Botânico e a até então distante Pedra da Gávea foram as trilhas perfeitas para a observação das mais variadas espécies da Mata Atlântica.

Em uma curta viagem até Cabo Frio, ao norte do estado, Darwin passou pelo o que é hoje o Parque Estadual Serra da Tiririca, uma unidade de conservação fluminense entre Niterói e Maricá. Com 2.260 hectares, o parque protege áreas de Mata Atlântica, costões rochosos, restinga, mangue e banhados, e oferece a trilha Caminho Darwin.

No entanto Darwin ficaria chocado com a situação da Mata Atlântica atual, comparada com seu estado no século XIX. Recordista mundial em biodiversidade, a floresta também é uma das regiões mais ameaçadas do planeta. Da sua cobertura original, restam apenas 7,9% resultado de uma exploração não sustentável na região mais desenvolvida e ocupada do Brasil.

Confira alguns trechos do diário de bordo de Charles Darwin durante a sua passagem pelo Rio de Janeiro:

8 de Abril de 1832
“(...) quando passamos pelos bosques, tudo parecia imóvel, exceto as grandes e brilhantes borboletas, que batiam as asas preguiçosamente”.

14 de Abril de 1832
“A floresta é abundante em belezas; entre elas, samambaias que, embora não muito grandes, eram pela verde e brilhante folhagem e elegante curvatura de suas folhas, muito dignas de admiração”.

18 de Abril de 1832

“É fácil especificar os objetos de admiração nesses cenários grandiosos, mas não é possível oferecer uma ideia adequada das emoções que sentimos, entre maravilhados, surpresos e com sublime devoção, capazes de elevar a mente.”

As citações de Darwin reproduzidas nesse texto foram retiradas de:
Entendendo Darwin – A viagem a Bordo do HMS Beagle pela América do Sul
Apresentação Marcelo Gleiser / Editora Planeta, São Paulo, 2009-08-24
 / ©: WWF-Canon / Michel GUNTHER
© WWF-Canon / Michel GUNTHER

WWF-Brasil em ação


O WWF-Brasil atua na Mata Atlântica com a missão de aliar o bem-estar humano à conservação da biodiversidade, qualidade e integridade do solo e dos recursos hídricos. Saiba mais