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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Fóssil de cobra com patas encontrado na Argentina confirma teoria de Darwin

Concepção artística da
 cobra cujo fóssil foi
encontrado na Argentina
Pesquisadores da Universidade de Flinders, Austrália, encontram na Argentina um esqueleto de serpente com patas traseiras, o que seria uma das melhores provas da teoria da evolução de Darwin.

A Najash rionegrina tem seu nome derivado da palavra Nahash (cobra em hebraico) e por seu esqueleto ter sido encontrado na província argentina de Río Negro.

O fóssil possui restos de patas traseiras, o que mostraria o quanto o corpo das cobras evoluiu até se tornar mais flexível como as atuais. Elas seriam uma evolução de antigos lagartos.

Durante os primeiros 70 milhões de anos de evolução, o animal ainda se movia sobre um par de patas traseiras.

De acordo com Alessandro Palci, pesquisador da Universidade de Flinders, além do desaparecimento das patas traseiras, outras mudanças na estrutura do animal teriam surgido ao longo do tempo, como indicaria o fóssil.

"A Najash tem o crânio mais completo, tridimensionalmente preservado de uma serpente antiga. Isto está nos fornecendo uma grande quantidade de novas informações sobre como a cabeça das serpentes evoluiu. Tem algumas, mas não todas as juntas flexíveis encontradas no crânio de serpentes modernas. Sua orelha é intermediária entre a dos lagartos e das cobras atuais, e diferente destas, tem o osso da face bem desenvolvido, que também é remanescente dos lagartos", afirmou Palci.

Ainda segundo Mike Lee, pesquisador do Museu do Sul da Austrália e da Universidade de Flinders, a "Najash encontrada mostra como as cobras evoluíram dos lagartos em passos evolutivos, tal como Darwin predisse".
Com informação da Science Advances, com ilustração de Raúl O. Gómez, da Universidade de Buenos Aires.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Sistemática Filogenética: conexões biológicas | Capítulo 03: As raízes históricas através do tempo

“De repente, um tubarão-branco jovem com 3 metros de comprimento (Carcharodon carcharias Linnaeus, 1758) eleva à superfície sua nadadeira dorsal em águas tranquilas na costa do Havaí. Estava sangrando e debilitado, com movimentos natatórios letárgicos. O sangue tinha criado um extenso rastro pelo Oceano Pacífico. Um perseguidor robusto e igualmente implacável (o mesmo que o atacou dois dias atrás) estava em seu encalço e se aproximando velozmente: era uma orca fêmea adulta (Orcinus orca Linnaeus, 1758). Ele tinha que pensar rápido.”

Brigas e discussões

Podemos encarar o processo de construção da sistemática ao longo dos séculos através de alguns elementos, como por exemplo a parte descritiva da caracterização dos agrupamentos, tratando-se de uma dimensão que possui menos “arranca-rabo” e menos “complicada” em opiniões entre os pesquisadores (se o é, pode ser solucionado com rapidez).
Tratando-se desse primeiro ponto, a relação descritiva serve de base para a ciência em si, para que seja feita as inferências essenciais sobre a diversidade; e os problemas ligados a isso refere-se as descrições sobre um grupo “A” ou “B” de espécies que estão sendo alvos de estudos. Ou seja, obrigatoriamente o conhecimento descritivo é importante para fomentar uma consistente base de dados para pesquisas presentes e futuras, dentro da sistemática.

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Foto 01. Os organismos dispostos em uma árvore filogenética (genealógica), onde todos os agrupamentos partindo de um possível ancestral comum. Fonte: http://www.ib.usp.br/evosite/evo101/IIAFamilytree.shtml

Até nessa parte está tudo muito bonito, tudo muito bem. Mas, como se deu a própria “ordenação dos conhecimentos descritvos” ao longo do tempo? 
Quais as raízes antigas das discussões e debates sobre a diversidade? Quando mudou o pensamento epistemológico sobre as espécies (e seu processo de criação)? E a partir daí o “pau quebra.” 

Viajando no tempo

Muitas dúvidas sobre os quatro problemas categorizados no capítulo anterior da nossa série (se não leu, pare de ler esse aqui e cria vergonha na cara e vai ler o capítulo 02), embriagaram a mente de muitos estudiosos e pesquisadores (dentre muitos você irá conhecer durante essa leitura)… mas só se tiver lido o capítulo 02!!!! Não coloque os bois na frente da carroça!
E ai? Leu? Bom, muito bom. Vamos continuar então: para começar, é preciso que você pegue uma máquina do tempo emprestado com algum amigo seu e então viaje para a Grécia Antiga. Provavelmente você irá conversar com um filósofo bem famoso que andava pelas ruas e vielas ladrilhadas e por vezes esburacadas: ‎”Ἀριστοτέλης.Ou melhor dizendo: Aristóteles.

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Foto 02. Busto do filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.). Fonte: https://www.todamateria.com.br/aristoteles/enda

Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) foi considerado o fundador da Zoologia. Ao escrever o livro Historia animalium, ele imaginou uma forma de organizar os organismos em formato de uma “escada hierárquica rumo a perfeição”, indo dos vegetais até o ser humano.
A partir dele, você verá lapsos temporais sobre toda a história por trás da sistemática e ainda terá a oportunidade de conhecer todos aqueles que contribuíram para “tentar” sanar as dúvidas circundantes da diversidade biológica.

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Foto 03. A obra Historia Animallium. Fonte: https://www.filovida.org/2015/10/a-biologia-aristotelica/

O “A, B, C” do suíço

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Foto 04. Gravura de Conrad Gesner (1516 – 1565). Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Conrad_Gessner

Em 1551, o naturalista suíço Conrad Gesner (1516 – 1565) publicou um livro de mesmo nome (Historia animalium), no qual já tinha feito algo bem parecido com que Linnaeus faria posteriormente 200 anos depois: com as informações (dados) dos organismos em mãos, Gesner conferia “certas denominações binominais”, organizando as espécies em forma alfabética e colocando-os bem próximos, julgando assim terem algum grau de parentesco.

O juiz sueco e as regras do jogo


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Foto 05. Representação artística de Carolus Linnaeus (1707-1778). Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Carolus_Linnaeus

Posteriormente, as obras Systema Naturae e o Species Plantarum deixaram Carolus Linnaeus (1707-1778), um zoólogo, botânico e médico sueco bem “famosinho” na comunidade científica, conferindo-lhe o título de “pai da taxonomia moderna.” As regras primordiais da nomenclatura em si (e que fundamentou os códigos internacionais de nomenclatura das espécies) partiram de suas ideias. Pense em um cara danado!

O Homem-Rocha


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Foto 08. Charles Lyell (1797 – 1875). Fonte: http://www.42evolution.org/charles-lyell-1797-1875/

Pra dizer que não foi citado, Charles Lyell (1797 – 1875) (um geólogo que se tornou um grande companheiro de Darwin e o influenciou em muitos dos seus estudos sobre a evolução), também teve “dedo grande” nas contribuições sobre a diversidade biológica. Com sua obra Principles of Geology, trouxe à tona a ideia do uniformitarianismo (alterações graduais da superfície terrestre por eventos naturais, como os elementos ligados ao processo de intemperismo). A ideia do escocês “bateu de frente” com o catastrofismo (um hit de sucesso da época), que colocava ações divinas em eventos catastróficos. Darwin com toda a certeza daria “um tiro no pé” se tivesse seguido as ideias catastróficas. Sabe aquela frase “quem avisa amigo é?” Bom, foi mais ou menos isso.

“Fixo” uma pinóia!!!


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Foto 10. Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829). Fonte: https://www.escritas.org/pt/estante/jean-baptiste-de-lamarck

A partir do final do século XVIII e início do século XIX, particularmente com Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829), começa aparecer claramente o conceito de que as espécies poderiam não ser entidades fixas, questionando pressupostos platônicos e aristotélicos quanto à ontologia das espécies.

Los Barbudos” da Evolução por Seleção Natural


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Foto 11. Charles Darwin (1809-1882). Fonte: UFBA

E falando no “barbudo britânico”, o naturalista inglês Charles Robert Darwin (1809 – 1882) deu uma significativa contribuição com suas ideias e estudos sobre a compreensão da evolução, ao lado de Alfred Wallace (1823 – 1913), outro barbudo, porém geógrafo – só tem barbudo aqui!), mudaram os “pinos de boliche” da sistemática, apresentando argumentos sólidos e amplos sobre as espécies e suas características biológicas, anatômicas, biogeográficas (dentre outras), assim como o mecanismo promotor dessas mudanças: a seleção natural. 

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Foto 12. Alfred Wallace (1823 – 1913). Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Alfred_Russel_Wallace

Nem é preciso falar que a obra A Origem das Espécies (1859) é o que de mais representa esse marco da ciência, mudando ao longo do tempo a cabeça de muita gente (alguns ainda permanecem incrédulos e irredutíveis). A Linnean Society, a sociedade na qual onde os dois apresentaram suas ideias, virou uma grande bagunça intelectual! Muitos a aceitaram de imediato, outros não reconheceram de prontidão a revolução científica quando se viu uma. Mas o xeque-mate para a evolução (a descendência com modificação ao longo do tempo perpetuada pelos organismos, por meio da seleção natural) já tinha sido previsto pelos dois barbudos.

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Foto 13. A famosa obra “Origem das Espécies,” apresentada por Darwin à Linnean Society. Fonte: https://mwl.wikipedia.org/wiki/La_Ourige_de_las_Speces

Aquela falta de sorte…


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Foto 14. Gregor Mendel, o “pai da Genética Clássica.” Fonte: https://www.ebiografia.com/gregor_mendel/

Só faltou os britânicos terem conhecido o Gregor Mendel (1822 – 1884)!!!! Só isso, pra colocar a cereja do bolo. Naquele tempo, Darwin não conseguiu de fato apresentar ideias consistentes de como funcionava a herediariedade dos indivíduos dentro das populações. Somente anos depois os estudos de hereditariedade descritos e organizados por Mendel deram o suporte necessário para a teoria da Evolução e… opa… mas esse não é nosso assunto principal aqui. Vamos focar, please?

O grito de “Eureka!”



Ernst Haeckel (1834 – 1919) determinou, dentre muitos, a construção de “árvores filogenéticas” para representar o compartilhamento de similaridades entre as espécies, estabeleceu os alicerces do pensamento evolutivo na morfologia e foi aquele que criou muitos termos dos termos utilizados, como por exemplo “filogenia.” Ele também ajudou a popularizar as ideias de Darwin. 

Era hora de unir as forças

A partir de 1936, o grupo científico dos Power Rangers (paleontólogos, geneticistas, naturalistas e outros figurões) agregaram e condensaram as ideias evolutivas concebidas por Charles Darwin e os estudos sobre as leis da hereditariedade propostas por Mendel, criando assim o megazord denominado “Teoria Sintética da Evolução” ou “síntese da teoria evolutiva” (e lembre-se: não é “teoria neodarwinista”, como muitos chamam…ai, ai, ai!).
Ela postula que cada população apresenta um determinado conjunto gênico, que pode ser alterado de acordo com fatores evolutivos. O conjunto gênico de uma população é o conjunto de todos os genes presentes nessa população. Assim, quanto maior for o conjunto gênico da população, maior será a variabilidade genética. Em síntese, é nesse sentido.

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Foto 16. Conceitos e postulados da teoria sintética da evolução Fonte: https://www.planetabiologico.com.br/evolucao/a-teoria-sintetica-da-evolucao/

O que aconteceu aqui foi unir o útil ao agradável: a conciliação entre as ideias darwinianas e mendelianas agregou conhecimentos e suportes suficientes para dar ênfase a uma explicação coerente de como de fato a seleção natural acontecia na natureza (geneticamente falando) e entre as populações de espécies.

Ué…e depois???


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Foto 16. O entomólogo alemão Willi Hennig (1913 –1976). Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Willi_Hennig

Mas, depois daí tudo estagnou. A sistemática não evoluiu e estava com sérios perigos de sumir completamente. “E agora quem poderá me defender?” pensou a sistemática. Então, na década de 60, apareceu o chapolim colorado – e entomólogo alemão – Willi Hennig (1913 –1976) – o salvador da pátria. Agora sim!
Ele criou uma nova escola da sistemática (cladística ou sistemática filogenética) através da sua principal obra Phylogenetic Systematics.

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Foto 17. A obra Phylogenetic Systematics (Sistemática Filogenética). Fonte: https://www.buscape.com.br/phylogenetic-systematics-willi-hennig-0252068149

E, a partir dele, o mundo da sistemática e a forma como organizamos os organismos vivos nunca mais foi o mesmo.

“A morte estava perto. O sangramento continuava. O tubarão-branco, em sua fuga, diminua cada vez mais o ritmo. Sua visão falhava e ficava embaçada, já não distinguia o que via a sua frente – e nem o que vinha por trás. Com uma mordida letal, a orca cravou os dentes próximo à nadadeira pélvica do tubarão e o puxou para baixo. As águas se agitaram. Um tingido vermelho-rubro se destacou quase que imediatamente naquela parte do oceano. O grande branco nunca mais foi visto.”

Referências:

  1. AMORIM, D. S. Fundamentos de sistemática filogenética. Ribeirão Preto: Holos, 2002. 156p.
  2. CAMPOS, A. M. Coleção pensamento e vida: Darwin e a evolução do Darwinismo. vol. 2. São Paulo: Editora Escala, 2011. 207 p.
  3. CARVALHO, L. S.; FIGUEIREDO, D. Princípios de sistemática filogenética. Teresina: EDUFPI/UAPI, 2012. 110 p.
  4. DARWIN, C. R. “A origem das espécies”: a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida. 1. ed. São Paulo, Editora Martin Claret, 2014. 573 p.
  5. SMITH, D. Phylogenetic systematics. Journey into Phylogenetic Systematics. Disponível em: < http://www.ucmp.berkeley.edu/clad/clad4.html>. Acesso em: 15 dez. 2018.
Foto de capa: tubarão-branco (Carcharodon carcharias Linnaeus) sob ataque de uma orca (Orcinus orca).

quarta-feira, 20 de março de 2019

What is Darwin's Theory of Evolution?


The theory of evolution by natural selection, first formulated in Darwin's book "On the Origin of Species" in 1859, is the process by which organisms change over time as a result of changes in heritable physical or behavioral traits. Changes that allow an organism to better adapt to its environment will help it survive and have more offspring. 

Evolution by natural selection is one of the best substantiated theories in the history of science, supported by evidence from a wide variety of scientific disciplines, including paleontology, geology, genetics and developmental biology.

The theory has two main points, said Brian Richmond, curator of human origins at the American Museum of Natural History in New York City. "All life on Earth is connected and related to each other," and this diversity of life is a product of "modifications of populations by natural selection, where some traits were favored in and environment over others," he said.

More simply put, the theory can be described as "descent with modification," said Briana Pobiner, an anthropologist and educator at the Smithsonian Institution National Museum of Natural History in Washington, D.C., who specializes in the study of human origins.

The theory is sometimes described as "survival of the fittest," but that can be misleading, Pobiner said. Here, "fitness" refers not to an organism's strength or athletic ability, but rather the ability to survive and reproduce.
For example, a study on human evolution on 1,900 students, published online in the journal Personality and Individual Differences in October 2017, found that many people may have trouble finding a mate because of rapidly changing social technological advances that are evolving faster than humans. "Nearly 1 in 2 individuals faces considerable difficulties in the domain of mating," said lead study author Menelaos Apostolou, an associate professor of social sciences at the University of Nicosia in Cyprus. "In most cases, these difficulties are not due to something wrong or broken, but due to people living in an environment which is very different from the environment they evolved to function in." [If You Suck at Dating, It's Not You — It's Evolution]
In the first edition of "On the Origin of Species" in 1859, Charles Darwin speculated about how natural selection could cause a land mammal to turn into a whale. As a hypothetical example, Darwin used North American black bears, which were known to catch insects by swimming in the water with their mouths open:
"I can see no difficulty in a race of bears being rendered, by natural selection, more aquatic in their structure and habits, with larger and larger mouths, till a creature was produced as monstrous as a whale," he speculated.
The idea didn't go over very well with the public. Darwin was so embarrassed by the ridicule he received that the swimming-bear passage was removed from later editions of the book.
Scientists now know that Darwin had the right idea but the wrong animal. Instead of looking at bears, he should have instead been looking at cows and hippopotamuses.
The story of the origin of whales is one of evolution's most fascinating tales and one of the best examples scientists have of natural selection.
The last shore-dwelling ancestor of modern whales was Sinonyx, top left, a hyena-like animal. Over 60 million years, several transitional forms evolved: from top to bottom, Indohyus, Ambulocetus, Rodhocetus, Basilosaurus, Dorudon, and finally, the modern humpback whale.

The last shore-dwelling ancestor of modern whales was Sinonyx, top left, a hyena-like animal. Over 60 million years, several transitional forms evolved: from top to bottom, Indohyus, Ambulocetus, Rodhocetus, Basilosaurus, Dorudon, and finally, the modern humpback whale.
Credit: NOAA
To understand the origin of whales, it's necessary to have a basic understanding of how natural selection works. Natural selection can change a species in small ways, causing a population to change color or size over the course of several generations. This is called "microevolution."
But natural selection is also capable of much more. Given enough time and enough accumulated changes, natural selection can create entirely new species, known as "macroevolution." It can turn dinosaurs into birds, amphibious mammals into whales and the ancestors of apes into humans.
Take the example of whales — using evolution as their guide and knowing how natural selection works, biologists knew that the transition of early whales from land to water occurred in a series of predictable steps. The evolution of the blowhole, for example, might have happened in the following way:
Random genetic changes resulted in at least one whale having its nostrils placed farther back on its head. Those animals with this adaptation would have been better suited to a marine lifestyle, since they would not have had to completely surface to breathe. Such animals would have been more successful and had more offspring. In later generations, more genetic changes occurred, moving the nose farther back on the head.
Other body parts of early whales also changed. Front legs became flippers. Back legs disappeared. Their bodies became more streamlined and they developed tail flukes to better propel themselves through water.
Darwin also described a form of natural selection that depends on an organism's success at attracting a mate, a process known as sexual selection. The colorful plumage of peacocks and the antlers of male deer are both examples of traits that evolved under this type of selection.  
But Darwin wasn't the first or only scientist to develop a theory of evolution. The French biologist Jean-Baptiste Lamarck came up with the idea that an organism could pass on traits to its offspring, though he was wrong about some of the details. Around the same time as Darwin, British biologist Alfred Russel Wallace independently came up with the theory of evolution by natural selection.
Darwin didn't know anything about genetics, Pobiner said. "He observed the pattern of evolution, but he didn't really know about the mechanism." That came later, with the discovery of how genes encode different biological or behavioral traits, and how genes are passed down from parents to offspring. The incorporation of genetics and Darwin's theory is known as "modern evolutionary synthesis."
The physical and behavioral changes that make natural selection possible happen at the level of DNA and genes. Such changes are called mutations. "Mutations are basically the raw material on which evolution acts," Pobiner said. 
Mutations can be caused by random errors in DNA replication or repair, or by chemical or radiation damage. Most times, mutations are either harmful or neutral, but in rare instances, a mutation might prove beneficial to the organism. If so, it will become more prevalent in the next generation and spread throughout the population. 
In this way, natural selection guides the evolutionary process, preserving and adding up the beneficial mutations and rejecting the bad ones. "Mutations are random, but selection for them is not random," Pobiner said.
But natural selection isn't the only mechanism by which organisms evolve, she said. For example, genes can be transferred from one population to another when organisms migrate or immigrate, a process known as gene flow. And the frequency of certain genes can also change at random, which is called genetic drift. 
Even though scientists could predict what early whales should look like, they lacked the fossil evidence to back up their claim. Creationists took this absence as proof that evolution didn't occur. They mocked the idea that there could have ever been such a thing as a walking whale. But since the early 1990s, that's exactly what scientists have been finding.
The critical piece of evidence came in 1994, when paleontologists found the fossilized remains of Ambulocetus natans, an animal whose name literally means "swimming-walking whale." Its forelimbs had fingers and small hooves but its hind feet were enormous given its size. It was clearly adapted for swimming, but it was also capable of moving clumsily on land, much like a seal.
When it swam, the ancient creature moved like an otter, pushing back with its hind feet and undulating its spine and tail.
Modern whales propel themselves through the water with powerful beats of their horizontal tail flukes, but Ambulocetus still had a whip-like tail and had to use its legs to provide most of the propulsive force needed to move through water.
In recent years, more and more of these transitional species, or "missing links," have been discovered, lending further support to Darwin's theory, Richmond said. 
Fossil "links" have also been found to support human evolution. In early 2018, a fossilized jaw and teeth found that are estimated to be up to 194,000 years old, making them at least 50,000 years older than modern human fossils previously found outside Africa. This finding provides another clue to how humans have evolved.
Despite the wealth of evidence from the fossil record, genetics and other fields of science, some people still question its validity. Some politicians and religious leaders denounce the theory of evolution, invoking a higher being as a designer to explain the complex world of living things, especially humans.
School boards debate whether the theory of evolution should be taught alongside other ideas, such as intelligent design or creationism. 
Mainstream scientists see no controversy. "A lot of people have deep religious beliefs and also accept evolution," Pobiner said, adding, "there can be real reconciliation."
Evolution is well supported by many examples of changes in various species leading to the diversity of life seen today. "If someone could really demonstrate a better explanation than evolution and natural selection, [that person] would be the new Darwin," Richmond said.
Additional reporting by Contributor Alina Bradford and Staff Writer Tanya Lewis, Follow Tanya on Twitter. Follow us @livescience, Facebook & Google+.
Additional resources
  • The National Oceanic and Atmospheric Administration has a presentation on whale evolution.
  • To read the theory in its original form, see Darwin's book, "On the Origin of Species."
  • For an overview of natural selection, check out this article.
  • To understand the difference between a theory and fact, see this National Academy of Sciences website.
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sábado, 18 de agosto de 2018

Coluna Geológica: Evolução de um homem-macaco

  The title page to Charles Darwin's "On the Origin of the Species", published in 1859. Credit: Public Domain. The title page to Charles Darwin's "On the Origin of the Species", published in 1859. Credit: Public Domain.
 
Quando eu tinha 12 anos, identifiquei o maior escritor do mundo. Seu nome era Edgar Rice Burroughs e ele escreveu histórias de aventuras sobre um homem-macaco chamado Tarzan. Burroughs descreveu-o como tendo uma "figura reta e perfeita, musculosa como o melhor dos gladiadores romanos antigos deve ter sido musculoso, e ainda com as curvas suaves e sinuosas de um deus grego." Você pode ver de relance sua "combinação maravilhosa de enorme força com flexibilidade e rapidez. ”Tarzan era humano, mas ficou órfão na África e foi criado por uma macaca na floresta.. Isso fez dele um homem-macaco, com certeza, na estimativa de qualquer criança. 

A primeira história de Tarzan apareceu em 1912, mas a data mais significativa para os homens-macaco era meio século antes, em 1859, quando Charles Darwin publicou “Sobre a Origem das Espécies”, que encorajou a busca por um verdadeiro homem-macaco. "link perdido."

O elo perdido era um suposto trampolim em nossa evolução de um ancestral parecido com um macaco. As primeiras impressões dos artistas geralmente o representavam como uma figura atarracada e cabeluda com uma mandíbula prognata e os nós dos dedos que raspavam o chão. 

O antropólogo alemão Ernst Haekel deu a ele o nome de Pithecanthropus ("homem-macaco" no grego científico) em 1866, embora um fóssil real não tenha sido encontrado até 1891, quando Eugène Dubois descobriu uma calota craniana, fêmur e alguns dentes nas Índias Orientais. 

Dubois chamou a espécie de Pithecanthropus erectus (o "homem-macaco ereto"), mas tornou-se mais conhecido como "Homem de Java" depois da ilha em que foi encontrado. Mais tarde, ele foi renomeado Homo erectus e a designação Pithecanthropus tornou-se obsoleta.

Logo, os elos perdidos estavam se espalhando por toda a Ásia, África e Europa continental, mas nada foi encontrado no mundo anglo-saxão. Em 1912, no mesmo ano em que Tarzan apareceu pela primeira vez, o arqueólogo amador Charles Dawson desenterrou o crânio de "Piltdown Man", com 500 mil anos, no sudoeste da Inglaterra. 

Infelizmente, era uma farsa, embora isso só tenha sido descoberto em 1949, quando novas técnicas de datação mostraram inequivocamente que os ossos eram modernos. Pior ainda, os ossos nem sequer eram humanos: os restos tinham sido remendados do crânio de um humano moderno e do maxilar inferior de um orangotango. Para ser justo, a descoberta de Dawson, apesar de falsa, era tecnicamente um genuíno homem-macaco!

O primeiro “achado” americano foi similarmente falso. Em 1922, apenas com base em um dente fóssil desgastado, o paleontólogo Henry Fairfield Osborn declarou a descoberta do primeiro macaco antropoide em Nebraska, onde o influente congressista e declarado anti-evolucionista William Jennings Bryan dominava. Resumidamente, Osborn brincou com a ideia de nomear o novo fóssil depois de Bryan, mas acabou se estabelecendo para o Hesperopithecus (o "macaco ocidental"), enquanto para a população era conhecido como "Homem de Nebraska". 

Infelizmente, o Homem de Nebraska nunca existiu. William King Gregory, colega de Osborn, concluiu que o dente provavelmente provinha de um queixada extinta, uma espécie de porco.

O já mencionado William Jennings Bryan passou a representar o lado vitorioso e anti-evolucionista do argumento no Scopes Monkey Trial de 1925. O julgamento condenou o professor de biologia John Scopes de violar o Butler Act do Tennessee, que proibiu o ensino da evolução humana em qualquer estado. Escola financiada. 

O veredicto foi posteriormente anulado por uma questão técnica, mas o julgamento despertou interesse em todo o país. 

William Allen White, editor do Emporia Gazette, no Kansas, decidiu verificar em sua biblioteca local se essa nova popularidade se refletia nos livros emprestados. Ele ficou surpreso ao não encontrar nenhum aumento nos pedidos de livros sobre evolução, mas descobriu que todos os seis livros de Tarzan da Burroughs, pertencentes à biblioteca, tinham sido verificados continuamente desde o início do julgamento. Os romances tinham a "maior lista de espera de qualquer livro na biblioteca", o bibliotecário lhe disse.


Na época do Julgamento Scopes, Tarzan já estava aparecendo em filmes mudos, com o incongruentemente gordinho Elmo Lincoln como o personagem-título. O filme-Tarzan que eu conheci foi o maior intérprete do papel (na minha humilde opinião), o magnífico Johnny Weissmuller. Como medalhista de ouro olímpico cinco vezes em natação, ele tinha a figura reta e perfeitamenteJohnny Weissmuller musculosa que Burroughs havia descrito.

A grande contribuição que Weissmuller trouxe ao filme foi o grito que ele inventou para Tarzan, enquanto ele passava por entre as árvores em cipós que sempre pareciam estar convenientemente à mão. O grito ainda é usado em versões modernas de filmes, e eu poderia fazer uma cópia razoável disso. Eu desisti da prática quando começou a doer minhas cordas vocais de envelhecimento. Weissmuller deve ter tido um problema semelhante quando fez a transição para a televisão no final dos anos 50, porque ficou sem grana. Pior ainda, ele já estava um pouco barrigudo, então o colocaram em uma roupa de safári e o chamaram de "Jungle Jim". É o caso mais claro de evolução retrógrada na história dos primatas.

Ward Chesworth

Ward Chesworth
Chesworth is professor emeritus at the University of Guelph, Canada, and Fellow of the Geological Society of America. He thinks, therefore, he hammers. Email: wcheswor@uoguelph.ca.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O que você não sabe sobre Darwin

Charles Darwin revolucionou a ciência ao apresentar sua teoria evolutiva pela seleção natural. O que muitos desconhecem é que o naturalista tinha um grande fascínio pelas rochas e pelas modificações na superfície do planeta.
Durante a expedição a bordo do navio H.M.S. Beagle, Charles Darwin realizou uma série de observações científicas. Ele coletava amostras de rochas, fósseis, animais e plantas. Após o seu regresso ele organizou suas anotações e produziu diversos livros, sendo "A origem das espécies" o mais conhecido.
Em seus primeiros livros, como em "Viagem de um naturalista ao redor do mundo" e "Observações geológicas em ilhas vulcânicas", o então jovem naturalista focava bastante seus estudos nas rochas e nos fósseis. Esse foco não foi em vão, pois ele passou a compreender e aceitar que o planeta possuía uma idade muito maior do que a defendida pela igreja na época.

 Da geologia para a teoria da seleção natural

 Em seus estudos sobre as ilhas vulcânicas Darwin interpretou os processos geológicos que atuaram na formação do relevo. Com isso ele passou a perceber que a superfície do planeta estava em constante modificação. Não bastasse isso, ele ainda propôs uma teoria sobre a formação dos recifes de corais e atóis, bem como os mecanismos de soerguimento das ilhas através de injeções de magma.

"Eu encontrei na Geologia um interesse que nunca acaba. Ela cria grandes ideias em relação a este mundo, da mesma forma como a Astronomia faz pelo Universo" 
Essas teorias  foram cruciais para ele compreender que as ilhas vulcânicas foram formadas isoladamente dos continentes, e que os seres vivos que nela habitam teriam que migrar por longas distâncias. A falta de acessos terrestres, inclusive no passado geológico, foi apontado por ele como uma das responsáveis pela ausência de classes inteiras de animais. A grande maioria dessas ilhas vulcânicas não possuía mamíferos terrestres e batráquios (rã, sapos e salamandras). A razão é que estes seres não sobrevivem à migração marítima, embora as ilhas sejam ambientes propícios a tais animais, contrariando portanto a teoria de criação independente.
E Darwin foi além... ele percebeu relações entre as modificações na superfície terrestre e a distribuição dos seres vivos e dos registros fósseis.

O reconhecimento na geologia


Durante a viagem, Darwin remetia as amostras de rochas e fósseis para a Inglaterra, especialmente aos cuidados do professor Henslow. E antes mesmo do seu regresso ele já era conhecido no meio geológico. Em sua autobiografia ele conta em detalhes a sensação que teve ao receber uma carta desse professor:
“Minha coleção de ossos fossilizados, enviadas a Henslow, despertou considerável atenção dos paleontólogos.
Depois de ler essa carta, enfrentei a dura subida das montanhas de Ascensão com passadas saltitantes e fiz as rochas vulcânicas ressoarem sob meu martelo geológico!”
Algo desconhecido pela maioria das pessoas é que foi pelo interesse nas rochas da Ilha de Santiago (Cabo Verde), que Darwin cogitou pela primeira vez escrever um livro. É interessante pensar que o autor do livro acadêmico mais influente do mundo tenha sua origem na geologia.
Ao regressar para a Inglaterra, o jovem naturalista foi indicado por Charles Lyell para ocupar o cargo de secretário na Geological Society of London. Um cargo muito importante que permitiu a ele se inteirar sobre as novidades do campo da geologia.

Em 1859, ano em que publicou a "Origem das espécies", Charles Darwin foi laureado com a medalha Wollaston, o prêmio de maior prestígio concedido pela Sociedade Geológica de Londres - que é a sociedade geológica mais antiga do mundo.

Darwin no Brasil


No Brasil Darwin visitou os arquipélagos de Fernando de Noronha e São Pedro e São Paulo (antigamente chamado St´s Paul Rock), a cidade de Salvador e o estado do Rio de Janeiro.
Darwin residiu no Rio de Janeiro, no bairro do Botafogo, enquanto a equipe do Beagle retornou à Bahia para refazer algumas medições topográficas.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Evolution

Postado por: Marcus Cabral - 12-10-16


Evolution: The History of Life on Earth (Genetics and Evolution) by Russ Hodge
English | 30 May 2009 | ISBN: 0816066795 | 273 Pages | PDF | 9 MB

The theory of evolution can be observed anywhere - from exotic tropical rain forests to our own backyards - and is based on three main principles: heredity, variation, and selection. In the 19th century, Charles Darwin and Alfred Russel Wallace sought to explain how these processes work together to produce new species.

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quinta-feira, 10 de março de 2016



“IMPORTÂNCIA HISTÓRICA E POTENCIAL DIDÁTICO DA ORIGEM DAS ESPÉCIES”

Marcus Vinicius Cabral

 

Resumo – A teoria da evolução foi a principal revolução científica na história da biologia e os seus impactos ainda produzem consequências. A ideia de evolução estava no ar quando Charles Darwin publicou seu livro “A origem das espécies” em 1859: um ano antes ele recebeu um artigo escrito por Alfred Russell Wallace com ideias similares. Durante os anos que se seguiram à publicação de “A origem das espécies” a maioria dos biólogos do mundo se convenceu da veracidade da evolução das espécies. Isto mostra a competência de Darwin como escritor e como cientista. A estrutura, a argumentação e o principal objetivo do autor neste livro foram convencer o leitor sobre a realidade da evolução dos seres vivos, apresentando evidências e fatos que comprovassem a teoria.Neste artigo, é discutida a importância de “A origem das espécies” na história da ciência. São também analisadas as possibilidades de uso deste livro como uma ferramenta educacional para uma melhor aprendizagem da ciência.

Abstract – The theory of evolution was the main scientific revolution in the history of biology and its impacts still produces consequences. The idea of evolution was in the air when Charles Darwin published his book “On the origin of species” in 1859: one year earlier he received a paper written by Alfred Russell Wallace with similar ideas. During the years following the publication of “On the origin of species”, most biologists of the world become converted to the evolution of species. This shows the competence of Darwin as a writer and as a scientist. The structure, the argumentation and the main objective of the author in this book were to convince the reader about the reality of the evolution of living beings, showing evidences and facts that could support the theory. In this paper the importance of “On the origin of species” in the history of science will be discussed. It is also analyzed the possibilities of using this book as an educational tool to a better learning of science.


1.            INTRODUÇÃO

O livro “A origem das espécies” foi originalmente publicado no ano de 1859 na Inglaterra por Charles Darwin (1809-1882). O autor escreveu este livro já na sua fase intelectual madura muito tempo após – mais de duas décadas – ter viajado por 5 anos (1831-1836) no navio de pesquisa Beagle pelo mundo todo, inclusive pelo Brasil. Este perfil de Darwin como um cientista “viajante” seguramente inspirou muitos jovens cientistas ao longo da história e serviu de exemplo para muitos que queriam ao mesmo tempo aprender uma nova disciplina e conhecer lugares, povos e culturas diferentes.

                Darwin nasceu de uma família pertencente à elite social e intelectual de sua época. Seu pai, Robert Darwin (1766-1848), era médico, mas a maior influência familiar que teve foi de seu avô, Erasmus Darwin (1731-1802), que além de também ser médico, foi um inventor, um poeta e um investigador de espírito livre que por meio de seu livro “Zoonomia” antecipou muitas das ideias evolucionárias. A leitura deste livro deve ter provocado um grande impacto no jovem Darwin e suas ideias devem ter adquirido guarida na mente de Darwin de forma a amadurecerem e  florescerem anos mais tarde. Darwin, influenciado pelo seu pai, estudou na universidade inicialmente medicina e posteriormente teologia, mas sua paixão pela história natural haveria de se manifestar durante a célebre viagem no HMS Beagle. Mesmo tendo tido esta experiência eclesiástica quando jovem, a morte de sua filha mais velha, Annie – quando ela era criança – contribuiu para que Darwin se tornasse cada vez mais convictamente agnóstico.

                As primeiras formulações estruturadas da sua teria da evolução pela seleção natural ocorreram a Darwin em 1838. A contundência de suas conclusões se manifesta em seus célebres Cadernos de notas iniciados um ano antes; os dois exemplos a seguir demonstram bem isto: “A origem do homem foi demonstrada. A metafísica deve progredir. Aquele que compreender o babuíno contribuirá mais à Metafísica que  Locke” e “O diabo, sob a forma de um babuíno é nosso ancestral”.

                “A origem das espécies” é um livro que após cerca de um século e meio de seu lançamento continua sendo um divisor de águas na história da ciência e seu impacto na sociedade pode ser comparado com o trabalho realizado por Copérnico e por Galileu que lograram retirar a Terra do centro do universo. Darwin completou de certa forma o trabalho de ambos, retirando o homem do centro da história da vida na Terra! Se o antropocentrismo, na sua versão astronômica, foi derrubado por Copérnico e Galileu, na sua versão biológica foi derrubado por Darwin. Ou seja, de acordo com a evolução, a espécie humana é apenas mais uma dentre milhões de outras espécies, com uma adaptação bastante interessante (o cérebro bem desenvolvido), mas que, por exemplo, em certo sentido não pode ser considerada melhor adaptada à Terra do que as bactérias. Darwin de certa forma evidencia a nossa animalidade quando esclarece a nossa ancestralidade comum com os outros animais; ele procurou estudar e observar a natureza naquilo que poderia unificar toda a diversidade biológica existente sobre a Terra: desta forma (Mayr, 1998), ele seguiu a tradição de filósofos gregos como Tales, Anaximandro, Anaxímenes e Demócrito.

Até hoje o darwinismo continua provocando interpretações ideológicas equivocadas – haja visto o nazismo, o hiper-capitalismo selvagem e toda a sorte de tentativas de determinismos biológicos – e reações de incompreensão religiosas – como parece demonstrado pelo incômodo que provoca em algumas denominações religiosas. Thomas Kuhn (1975) em seu “A estrutura das revoluções científicas” já salientara a importância das quebras de paradigmas e das descontinuidades na história da ciência; seguramente o trabalho de Darwin pode ser encarado como a grande mudança de paradigma que ocorreu na história da biologia e ele mesmo tinha noção do caráter revolucionário de suas ideias: “quando as opiniões que expus nesta obra (...) forem geralmente aceitas pelos naturalistas, podemos prever que se produzirá na história natural uma importante revolução”. Muitos consideram a evolução a ideia científica mais importante de todo a história da ciência. Alguns livros de divulgação científica têm salientado a sua importância na história da ciência. Charles Wynn e Arthur Wiggins (2002) classificam a teoria da evolução como uma das cinco maiores ideias da ciência em todos os tempos. Na mesma linha, David Brody e Arnold Brody (1999) incluem a evolução como uma das sete maiores descobertas científicas da história.

                Particularmente, o último capítulo “Recapitulações e Conclusões” de “A origem das espécies” é bastante elucidativo do estilo e dos objetivos de Darwin (2003) e desta forma focaremos este capítulo com mais intensidade neste trabalho, sobretudo porque em um trabalho pedagógico com estudantes é bastante razoável utilizar este último capítulo como leitura por meio da qual os alunos poderão reconstruir a teoria da evolução a partir das palavras escritas pelo próprio Darwin. Todos os trechos de “A origem das espécies” citados neste trabalho foram retirados do último capítulo deste livro.
“A origem das espécies” é um documento ao mesmo tempo científico e de divulgação científica, ou seja, tem como objetivo explicar, convencer e disseminar as ideias evolucionárias de Darwin. Seu nome original foi “A origem das espécies por meio da seleção natural, ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida”, posteriormente reduzido à parte inicial deste título - em inglês “On the origin of species”. Neste presente trabalho trabalharemos com a edição realizada pela Editora Hemus, com tradução de Eduardo Fonseca.
                A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos definiu a noção de alfabetização científica da seguinte forma: “Alfabetização científica é o conhecimento e a compreensão dos conceitos e processos científicos requeridos para a tomada de decisões pessoal, para a participação em assuntos cívicos e culturais e para a produtividade econômica”. Paralelamente, nos últimos anos no mundo todo vem crescendo a importância dada à história da ciência no que diz respeito à estruturação de uma educação científica efetiva e significativa nas escolas de educação básica em geral (Solomon, 1992; Matthews, 1994). Particularmente, no que diz respeito às possibilidades de mudanças conceituais em estudantes, a História da Ciência se mostra como um terreno bastante fértil como é salientado por Jensen e Finley (1995). Assim sendo, pode-se afirmar que a história da ciência constitui-se em uma verdadeira “pedagogia da ciência” que permite tentar compreender como outras gerações construíram o conhecimento científico acumulado até hoje. Usar a história da ciência para iluminar o ensino de disciplinas científicas (Bizzo, 1991) é uma estratégia de ensino que vem se ampliado no mundo todo e, no Brasil, os Parâmetros Curriculares Nacionais enfatizam explicitamente a importância da História da Ciência na educação básica dos jovens.
                Ítalo Calvino em seu livro “Por que ler os clássicos” afirma: “Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual”. Calvino está se referindo aqui aos clássicos da literatura universal. Entretanto, o seu raciocínio vale também para alguma obras científicas clássicas como “A origem das espécies” que provocam “incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe” (Calvino, 1993). Assim sendo, é importante na formação científica dos cidadãos também ler um pouco dos clássicos da ciência.

A versão integral em inglês do livro “A origem das espécies” encontra-se a disposição de quem desejar consultá-la na internet no sítio http://pages.britishlibrary.net/charles.darwin/texts/origin1859/origin06.html. Isto demonstra que o acesso aos documentos originais está tornando-se cada vez mais fácil. Obviamente, aqui no Brasil há a dificuldade da língua, mas isto também ocorre para os livros – em papel – em geral: com o tempo, o acesso às traduções para o português dos textos originais com certeza será ampliado em nosso país.

Muitos autores têm sistematicamente salientado a importância do trabalho pedagógico com textos originais – ou seja, que foram escritos pelos próprios cientistas que estabeleceram novos paradigmas na ciência – em contraposição ao uso exclusivo dos manuais científicos e dos livros didáticos. Estes últimos, muitas vezes, de forma a simplificar um determinado conteúdo, acabam sacrificando a compreensão do contexto histórico no qual uma determinada idéia surgiu e a compreensão do processo real de construção de novas teorias por parte dos cientistas ao longo da história, processo este que quase sempre está longe da linearidade ingênua dos manuais. Nas palavras de Thomas Kuhn: “As coleções de ‘textos originais’ têm um papel limitado na educação científica. Igualmente, o estudante de ciência não é encorajado a ler os clássicos de história do seu campo - obras onde poderia encontrar outras maneiras de olhar as questões discutidas nos textos, mas onde também poderia encontrar problemas, conceitos e soluções padronizadas que a sua futura profissão há muito pôs de lado e substituiu”. (Kuhn, 1974). Compreender o contexto no qual uma idéia científica desenvolveu-se é uma necessidade se o objetivo for o de uma alfabetização científica efetiva: para isto, o contato direto com as fontes primárias – textos originais – é fundamental.

As obras de Darwin devido ao seu estilo claro de escrever são bastante acessíveis ao leitor mediano e podem desta forma ser indicadas como uma excelente introdução às suas ideias; particularmente salientamos aqui outros quatro livros de Darwin traduzidos para o português: “Viagem de um naturalista ao redor do mundo”, “A expressão das emoções no homem e nos animais”, “A origem do homem e a seleção sexual” e “Auto-biografia, 1809-1882”.

Darwin concebeu a sua teoria da evolução pela seleção e adaptação cerca de 20 anos antes da publicação de “A origem das espécies”, mas manteve-a “engavetada” temendo as reações da sociedade em geral às suas ideias –  tinha como referência o impacto que as idéias heliocêntricas de Galileu Galilei e Giordano Bruno tinham causado mais de dois séculos antes – e também receando, segundo muitos historiadores, pela reação de sua própria esposa que era muito religiosa. Somente resolveu publicar seu trabalho quando recebeu em 1958 um artigo escrito por Alfred Russel Wallace (1823-1913) e que tinha ideias muito próximas às suas – se não publicasse sua teoria, isto poderia comprometer uma futura alegação de primazia sobre a teoria da evolução, pois na ciência a publicação de um trabalho, tornando públicas as suas ideias, costuma ser o critério decisivo de consagração científica. Com certeza Darwin conhecia a polêmica sobre a invenção ou descoberta do cálculo diferencial e integral envolvendo Leibniz e Newton: este último, assim como Darwin, não publicou imediatamente suas ideias sobre o cálculo e teve que lidar posteriormente com uma contenda aguda com Leibniz sobre quem dentre os dois teria criado a primeira versão do cálculo (Hellman, 1999).

                A evolução é o eixo unificador de toda a biologia moderna, ou, como já foi mais de uma vez dito, a evolução é que transformou a biologia de uma “coleção de selos” em ciência no sentido estrito, articulando e contextualizando toda a imensa diversidade biológica existente na Terra.

                Darwin teve dois predecessores importantes: Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) e Charles Lyell (1797-1875). À idéia de Lamarck de progressão como aperfeiçoamento – a partir da transmissão dos caracteres adquiridos) – Darwin propôs a idéia de descendência com modificação; entretanto esta constatação não pode de maneira alguma desmerecer o papel justo de Lamarck de vanguardista das idéias sobre a evolução biológica. Adicionalmente, é importante salientar que outras formas de evolução, como a evolução cultural das sociedades em geral, são na sua essência lamarckianas como argumenta Stephen Jay Gould (2001): “Contudo, a mudança cultural, de maneira oposta e radical, é potencialmente lamarckiana em seu mecanismo básico. Qualquer conhecimento cultural adquirido em uma geração pode passar diretamente para a seguinte pelo que chamamos, uma palavra muito nobre, educação”. Mesmo Darwin não pode rejeitar por completo as ideias de Lamarck, pois não conhecia ainda a genética, ciência que explica a hereditariedade e a herança das características dos seres vivos e que só se estabeleceria após a divulgação dos trabalhos de Gregor Mendel (1822-1884). Darwin foi muito influenciado também pela proposta de Lyell (1997) de que a superfície terrestre está se modificando vagarosamente devido a forças que exerceram e ainda exercem uma ação constante e gradual ao longo do tempo. Ele leu a principal obra de Lyell, Princípios de Geologia, durante a viagem no HMS Beagle. A própria constatação de Darwin de que no alto da cordilheira dos Andes existiam fósseis marinhos, levou-o a refletir que se a superfície terrestre está em lenta transformação, o mesmo poderia acontecer com as formas de vida na Terra. Em seu diário da viagem no HMS Beagle – “Viagem de um naturalista ao redor do mundo” – Darwin afirma com convicção e ao mesmo tempo surpresa: “notei que em Valparaíso encontram-se conchas semelhantes numa altitude de 3900 metros: quase não é possível duvidar-se de que essa grande elevação se tivesse processado no decurso de pequenos soerguimentos sucessivos, como o que se seguiu ou causou o terremoto deste ano, ao mesmo tempo que se operara pela elevação lenta imperceptível que deve certamente estar-se processando em algumas partes desta costa [do Chile]”.

2. ANÁLISE DO CAPÍTULO “CONCLUSÕES E RECAPITULAÇÕES” DE “A ORIGEM DAS ESPÉCIES”

                O principal objetivo de Darwin nas conclusões de “A origem das espécies” é ressaltar os argumentos favoráveis e destruir aqueles desfavoráveis às suas teses. Didaticamente, ele faz o papel de promotor contra as suas próprias idéias, para poder contra-argumentar livremente: “Em primeiro lugar, nada me parece mais difícil do que acreditar no aperfeiçoamento dos órgãos e dos mais complicados instintos, não por artifícios superiores, embora semelhantes à razão humana, mas por acumulação de inúmeras e pequenas variações, todas vantajosas ao seu possuidor humano.” Mas é ao leitor comum, com os conceitos e preconceitos da época, que Darwin deve convencer e ele o faz de forma bem articulada. Para isso ele se posiciona no papel do leitor e do seu “bom senso”. A propósito, Einstein posteriormente disse de forma irônica: “bom senso é o conjunto de todos os preconceitos que adquirimos durante nossos primeiros dezoito anos de vida”; na ciência, o senso comum é algo que deve ser visto com cuidado. Mas se Darwin evidencia os argumentos contrários, é para neutralizá-los na resposta à indagação anterior: “esta dificuldade, ainda que parecendo insuportável à nossa imaginação, não poderia ser considerada válida se se admitirem as seguintes proposições: todas as partes do organismo e todos os instintos oferecem pelo menos diferenças individuais; a luta constante pela sobrevivência determina a conservação dos desvios de estrutura ou de instinto que podem ser vantajosos; e, finalmente, gradações no estado de perfeição de cada órgão, todas boas por si mesmas, podem ter existido. Não creio que se possa fazer objeção à verdade destas proposições”. Percebe-se que todo o raciocínio lógico é utilizado de forma a servir à argumentação principal do autor e sustentar da melhor forma a sua hipótese de trabalho. As tentativas de atacar a si mesmo que permeiam todo o texto, demonstram que seus interlocutores preferenciais são aqueles que ou ainda não estavam convencidos ou que não conheciam a teoria da evolução; quando Darwin afirma que “há, deve reconhecer-se, casos particulares difíceis que parecem contrários à teoria da seleção natural” ele está tentando estabelecer um diálogo com este tipo de interlocutor, ou seja, a empatia proposta é para com aqueles que ainda não estão convencidos a respeito da evolução.
Darwin evidencia a questão da cronologia das eras terrestres como fundamental para a hipótese da evolução em contraposição à visão estática das sagradas escrituras: “A crença na imutabilidade das espécies era quase inevitável, tanto que se não atribuía à história da Terra senão uma duração muito curta e agora que adquirimos algumas noções do intervalo decorrido, admitimos prontamente e sem provas, que os documentos geológicos são bastante eficientes para nos fornecer a demonstração evidente da mutação das espécies, se essa mutação realmente se realizou”. Aproximando-se de seu leitor, Darwin expõe, em seguida, a grandiosidade da quantia de um milhão de anos, incomensurável ainda hoje para muitas pessoas: “O espírito não pode conceber toda a significação deste termo: um milhão de anos, nem saberia, com efeito, adicionar nem perceber os efeitos completos de muitas variações pequenas, acumuladas durante um número quase infinito de gerações”.
Um obstáculo à teoria de Darwin (Hellman, 1999) era a previsão feita em 1846 pelo físico William Thompson – que mais tarde foi elevado à nobreza com o título de Lorde Kelvin – de que a idade da Terra, a partir de cálculos termodinâmicos sobre o seu resfriamento ao longo dos tempos, seria de cerca de 100 milhões de anos, um tempo muito exíguo para a ação da evolução. Darwin corretamente aposta na precariedade científica desta previsão: “Quanto à objeção levantada por sir William Thompson, uma das mais sérias de todas (...) muitos cientistas estão dispostos a admitir que não temos conhecimento suficiente da constituição do universo e do interior da Terra para raciocinar com precisão sobre sua idade”. Foi somente a descoberta da radioatividade no final do século XIX que permitiu corrigir o erro de Thompson e estimar a idade da Terra como sendo de cerca de 4,6 bilhões de anos.
Darwin aposta corretamente no desenvolvimento da paleontologia e da astronomia, que se realizou com grande intensidade no século XX. Ele prevê também o desenvolvimento da genética - “Um vasto campo de estudos e apenas trilhado será aberto sobre as causas e as leis da variabilidade” – e da geologia - “no decurso imenso de épocas remotas houve grandes emigrações nas diversas partes da Terra, devidas a numerosas alterações climatéricas e geológicas”. Mesmo sem conhecer os mecanismos genéticos pelos quais a hereditariedade atua, Darwin esperava que o tempo desse conta disto e chegou a argumentar, por analogia, que o próprio Newton – que postulara a Lei da Gravitação Universal – não podia mostrar realmente o que era a gravidade.
Darwin é um otimista diante do desenvolvimento científico: “Entrevejo, num futuro remoto, caminhos abertos a pesquisas muito mais importantes ainda”. Percebe-se entretanto que, na tentativa de convencer o leitor, a visão apresentada acerca da seleção natural adquire um ar “finalista”: “Como a seleção natural atua apenas para o bem de cada indivíduo, todas as qualidades corporais e intelectuais devem tender a progredir para a perfeição”. A retórica e a oratória do autor – com o objetivo de convencer o leitor – imprimem ao seu texto a tão polêmica idéia de progresso que estaria subjacente à noção de evolução de acordo com um raciocínio teleológico bastante atraente: “acreditar que existe um propósito em toda a atividade evolutiva, como se toda a criação estivesse lutando para atingir uma perfeição” (Fortey, 2000). Deve se ter um grande cuidado com este tipo de pensamento comum sobre a evolução, pois ela “não tem finalidade, não é progressiva e é materialista” (Gould, 1992).
                Percebendo bem os pontos de sua teoria que seriam postos a prova pelos críticos, Darwin resolve refutá-los em sua linha de argumentação salientando a sutileza de suas idéias e ao mesmo tempo a exigüidade das evidências experimentais na época. O estilo de argumentação ao longo de todo o texto é guiado pelo princípio da refutabilidade defendido por Karl Popper, segundo o qual qualquer hipótese que tenha a pretensão de ser científica tem que ser potencialmente refutável em termos experimentais. Este é o caso da polêmica questão das “gradações” existentes entre as diferentes espécies. Darwin apresenta o problema e contra-argumenta, apresentando casos específicos que têm uma explicação mais complexa: “porém, notamos na natureza gradações tão esquisitas, que devemos ser muito compreensivos antes de afirmar que um órgão, ou um instinto, ou mesmo toda a conformação não atingiria o seu estado atual percorrendo um grande número de fases intermediárias. Há, deve reconhecer-se, casos particulares difíceis que parecem contrários à teoria da seleção natural; um dos mais curiosos é, sem dúvida, a existência, no mesmo formigueiro, de duas ou três castas definidas de obreiras ou fêmeas estéreis. Tentei fazer compreender como se chega a explicar este gênero de dificuldades”. Em um outro trecho ele retoma a questão: “Por que é que as nossas coleções de fósseis nos não fornecem a prova evidente da gradação e das mutações das formas viventes?” Darwin responde com as limitações científicas de então: “não se explorou geologicamente mais que uma minúscula parte da Terra” e “não temos conhecimento suficiente da constituição do universo e do interior da Terra para raciocinar com precisão sobre a sua idade.” Sobre as possíveis evidências experimentais da evolução, Darwin aposta no futuro, acertadamente, como viria a ser confirmado no último século e meio de pesquisas: “Só responderei a estas questões e contornarei estas dificuldades, supondo que os arquivos geológicos sejam bem mais incompletos do que geralmente o admitem os geólogos”.
Até mesmo os títulos de alguns capítulos de “A origem das espécies” evidenciam a importância de refutar os argumentos e as possíveis evidências contrárias à evolução: “Insuficiências dos documentos geológicos”, “Dificuldades surgidas contra a hipótese de descendência com modificações” e “Contestações diversas feitas à teoria da seleção natural”.
Um outro critério que define a argumentação de Darwin é o da simplicidade das explicações, também conhecido como “navalha de Occam” (Hyman, 1973), devido ao monge franciscano William de Ockham (1285-1349), segundo o qual a pluralidade de explicações ou de causas não deve ser colocada sem necessidade ("Pluralitas non est ponenda sine neccesitate"). Darwin usando desta navalha argumenta: “Muitos cientistas afirmaram que é tão fácil acreditar na criação de centenas de milhões de seres como na criação de um só; porém em virtude do axioma filosófico de a menor ação, por Malpertuis, o espírito é levado mais voluntariamente a aceitar o menor número, e não podemos certamente crer que uma quantidade inúmera de formas da mesma classe tenha sido criada com os sinais evidentes, mas ilusórios, da sua descendência de um mesmo antepassado”. Ou seja, Deus não poderia ser um grande “enganador”.
As ideias de Thomas Malthus e de Adam Smith e o linguajar tipicamente econômico aparecem claramente em muitas partes do texto: “a luta pela sobrevivência é uma consequência inevitável da multiplicação geométrica de todos os seres organizados”; “de modo a poderem apoderar-se do maior número de lugares diferentes na economia da natureza”; “como a seleção natural atua em meio à concorrência”; “[as espécies] sejam vencidas e substituídas por produtos vindos de outras regiões.” O contexto em que Darwin viveu, com a Inglaterra – e sua visão hegemônica de mundo – em grande expansão, seguramente está fortemente relacionado à linha de argumentação adotada em suas exposições.
O diálogo que Darwin trava em seu livro se dá muitas vezes também com os velhos naturalistas de sua época, mas a esperança está sempre dirigida à nova geração de pesquisadores: “Alguns naturalistas dotados de inteligência aberta e disposta a pôr em dúvida a imutabilidade das espécies podem ser influenciados pelo conteúdo deste volume, porém tenho mais confiança no futuro dos novos naturalistas, que poderão estudar imparcialmente as duas facetas da questão”. Ele parece assim seguir a risca o dito popular de que uma idéia só morre quando morre a geração de homens que a defendia. Darwin utiliza-se das evidências experimentais colecionadas ao longo da sua vida, mas sempre cuidadosamente, pois nas suas palavras “a analogia pode ser um guia enganador”. Os exemplos dados são sempre instigantes, convincentes e plenos de detalhes: “A disposição semelhante nos ossos na mão humana, na asa do morcego, na barbatana do golfinho e na perna do cavalo; o mesmo número de vértebras no pescoço da girafa e no do elefante; todos estes fatos e um sem-número de outros semelhantes explicam-se facilmente pela teoria da descendência com modificações contínuas, lentas e ligeiras”.
                Darwin mesmo se pergunta simulando indignação: “Até onde, poderão perguntar-me, levais vós a vossa doutrina da modificação das espécies?” Após vários argumentos, ele chega à conclusão contrária obviamente a “velha crença na criação das espécies através do barro”: “devemos admitir também que todos os seres organizados que vivem ou que viveram na Terra podem originar-se de uma só forma original”. Todos nós, seres vivos terrestres, descendemos de uma forma original só: eis aqui uma das mais fortes conclusões do darwinismo e de sua concepção de mundo! E também a fonte da reação às suas ideias por parte de muitos grupos religiosos. Como evidências experimentais desta ancestralidade única, Darwin argumenta que “todas as formas de vida apresentam muitos caracteres comuns: a composição química, a estrutura celular, as leis do crescimento e a faculdade que têm de ser prejudicadas por determinadas influências nocivas”. Em seu outro livro, “A expressão das emoções no homem e nos animais” Darwin argumenta no mesmo sentido de uma ancestralidade única, mas desta vez referindo-se explicitamente ao ser humano: “Vimos que o estudo da teoria das expressões confirma até certo ponto a conclusão de que o homem descende de alguma forma animal inferior, e reforça a crença na unidade específica ou subespecífica das inúmeras raças”.
                Newton é o modelo de cientista com o qual Darwin se identifica na luta contra a Igreja: “a maior descoberta que o homem efetuou, a lei da atração universal, foi também atacada por Leibniz como subversiva da religião natural, e nestas condições da religião revelada”. Inclusive nos desafios postos pelo senso comum e pelos objeções de todo tipo, Darwin cita Newton para se defender: “Ninguém hoje, contudo, se recusa a admitir todas as conseqüências que ressaltam de um elemento desconhecido, a atração, embora Leibniz tivesse outrora censurado Newton de ter introduzido na ciência ‘propriedades ocultas e milagres’”. Mas a mensagem é também de conciliação religiosa: “Não vejo razão nenhuma para que as opiniões expostas neste volume firam o sentimento religioso de quem quer que seja (...) Um famoso eclesiástico escrevia-me um dia, que acabara por compreender que acreditar na criação de algumas formas capazes de se desenvolver por si mesmas em outras formas necessárias, é ter uma concepção bem mais elevada de Deus, do que acreditar que houvesse necessidade de novos atos de criação para preencher as lacunas causadas pela ação das leis estatuídas”. O final de seu livro, a este respeito, também é diplomático: “Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, originadas de um começo tão simples, não cessou de se desenvolver e desenvolve-se ainda!”
A cautela de Darwin em publicar “A origem das espécies” se deve ao impacto de suas conclusões evolucionárias sobre o edifício explicativo da natureza construído ao longo dos séculos pela Igreja. Por outro lado estas mesmas conclusões evolucionárias também foram (e ainda o são) interpretadas por muitos de forma a servir de legitimação para o sistema econômico capitalista ou mesmo para ideologias de extrema-direita. Existiram também tentativas de interpretação política das idéias darwinistas sob o ponto de vista de outras tendências políticas; Engels, por exemplo, na tentativa de legitimar cientificamente o marxismo, argumentou por analogia que assim como Darwin havia descoberto a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobrira a lei do desenvolvimento da história humana: a história humana, assim como a história natural, teria uma explicação científica! É conhecido, a propósito, o fato de que Marx desejou dedicar “O Capital” a Darwin. Bernard Cohen (1985) também relaciona o trabalho de Darwin ao de Marx: “We shall see that Karl Marx even foresaw an evolutionary history of technology or invention, in which Darwinian concepts introduced for animal organs would be used in analyzing the development of human tools”.
                Darwin não foi o primeiro a ter ideias evolutivas sobre a vida na Terra, como argumenta Stephen Jay Gould (1989): “Sabemos que a singularidade de Darwin não reside no seu apoio à ideia de evolução - inúmeros cientistas o precederam nesse aspecto”. O impacto de “A Origem das espécies” se deve em primeiro lugar ao detalhamento experimental dos dados científicos expostos por Darwin para fundamentar as suas teses – com o recebimento em 1864 da medalha Copley, a mais alta comenda científica da época, seguiu-se o reconhecimento quase unânime do mundo científico. A aceitação científica rápida de sua teoria esteve obviamente relacionada ao clima fértil social, política e economicamente para que tais ideias vicejassem, tanto na sociedade em geral, quanto conseqüentemente na mente das pessoas.

3.            CONCLUSÕES


                A extensão da obra, a variedade de exemplos, o estilo da escrita e o vigor dos argumentos nos mostram que “A origem das espécies” fui cuidadosamente elaborada por Darwin que sabia bem o impacto social das hipóteses subjacentes. Michael Rose (2000) ressalta o estilo didático de Darwin: “A Origem tornou-se um marco histórico: um livro que revolucionou um grande campo científico, mas que os leigos inteligentes podem ler com proveito. A Origem é notável porque expõe diretamente a estrutura de suas teses, e também pelo fato de que os pretensos adversários destas são despachados com refutações substantivas”.
A dificuldade em aceitar a evolução por parte de muitos seguramente não se deve à sua complexidade já que a base da evolução por meio da seleção natural é lógica e simples, baseando-se em duas premissas e uma conclusão (Gould, 1992): 1a premissa – os organismos variam e estas variações são herdadas pelos seus descendentes; 2a premissa – os organismos produzem uma quantidade de descendentes maior do que a quantidade de organismos que realmente pode sobreviver; conclusão – na média, os descendentes que herdaram variações que favorecem sua sobrevivência no meio ambiente em questão, sobreviverão por um maior tempo e se propagarão com maior intensidade. Em resumo: a seleção natural é o mecanismo básico que permite que a evolução de fato ocorra. Desta forma a teoria da evolução não é simplesmente uma teria do “acaso”, um mito acalentado sobretudo pelos seus críticos (Dawkins, 2001).
Aproximadamente 12 anos após o lançamento de “A origem das espécies”, Darwin publica em 1871 o seu livro “A origem do homem e a seleção sexual” abordando o “espinhoso” tema da aplicação da teoria da evolução para a nossa própria espécie humana e antecipando fatos sobre nossos ancestrais pré-humanos que só seriam comprovados no século XX. No final deste livro, mais particularmente no seu antepenúltimo parágrafo, Darwin cita seu primo Galton para sustentar ideias bastante próximas das propostas eugênicas (BIZZO, 1987): “Deveria abster-se de casar todo aquele que não tiver como sustentar os filhos, deixando-lhes um legado de abjeta pobreza (...) se o prudente evita casar-se, enquanto que o imprudente se casa, os elementos inferiores da sociedade tenderão a suplantar seus melhores representantes (...) A competição entre os homens deve ser aberta, não se justificando impedir os mais capazes, por meio de leis ou de costumes, de serem mais bem sucedidos em deixar um maior número de descendentes” (DARWIN, 2004). Ideias como estas, ao serem radicalizadas, serviram de legitimação ideológica pelas classes dominantes na sua época e posteriormente: a ideologia de que a seleção natural seria um modelo para a organização social – o darwinismo social e o hipercapitalismo – se disseminaria, infelizmente, ao longo do século XX pelo mundo afora. O nazismo bebeu também nesta fonte: basta lembrar que ao chegar ao poder, uma das primeiras decisões dos nazistas foi a de proibir casamento entre judeus e não-judeus. A propósito, o capítulo quatro de “A origem das espécies” denominado por Darwin “A seleção natural ou a perseverança do mais capaz” contém a afirmação básica – um “mantra” tantas vezes repetido – que potencializou interpretações reducionistas quando foi aplicado às sociedades humanas.
                “A origem das espécies” e todas as suas interpretações posteriores – equivocadas ou não – provocaram uma explosão de discussões e debates sobre a evolução demonstrando a característica revolucionária da hipótese darwinista de evolução pelo mecanismo da seleção natural. O fato de que até hoje estas discussões se mantém nos mostra a vitalidade e a força das idéias contidas neste livro. Bernard Cohen (1985) em seu livro “Revolution in science” afirma: “The darwinian revolution was probably the most significant revolution that ever occurred in the sciences, because its effects and influences were significant in many different areas of thought and belief”. Uma piada famosa evidencia bem o impacto da teoria da evolução no pensamento de muitas pessoas. Consta que, uma senhora inglesa do século XIX, ao dar-se conta das conseqüências da teoria da evolução teria afirmado ao seu marido: “Querido, vamos torcer para que as coisas que o senhor Darwin diz não sejam verdadeiras. Mas, se forem, vamos esperar que não caiam na boca do povo” (Zimmer, 2004). Não é sem espanto que o ensino da teoria da evolução foi, no passado, criminalizado em alguns estados dos EUA, coincidentemente nos estados de perfil mais religioso. Até hoje as críticas à evolução são provenientes especialmente de grupos fundamentalistas da maioria das religiões (Foley, 2003). Ensiná-la, como previu a senhora da piada, tornou-se de certa forma, um ato de subversão, neste contexto.

                A teoria de Darwin é a sua maneira uma perigosa ideia como sustenta Daniel Dennett (1999): “Quase ninguém é indiferente a Darwin, e nem deveria ser. A teoria darwiniana é uma teoria científica, e excelente, mas não é só isso. Os criacionistas que se opõe a ela tão acirradamente estão certos em um ponto: a perigosa ideia de Darwin vai muito mais fundo na estrutura de nossas crenças fundamentais do que muitos dos seus sofisticados apologistas já admitiram, mesmo para si próprios”. Assim sendo, Darwin até hoje causa em seus leitores as mais variadas reações e interpretações. Suas idéias evolucionárias enfrentam e enfrentaram ao mesmo tempo concepções espontâneas – como as lamarckistas –, contraposições religiosas – como as criacionistas – e distorções políticas – como as doutrinas fascistas. Para melhor fundamentar este embate, é necessário, desde cedo na educação básica das crianças e dos jovens, trabalhar o conceito de evolução como uma das ideias forças da ciência moderna de modo a formar cidadãos realmente alfabetizados cientificamente. Em termos didáticos, seus livros, e particularmente “A origem das espécies”, se configuram como excelente ferramenta pedagógica para o ensino da teoria da evolução, visto que podem esclarecer as ideias básicas desta teoria e ao mesmo tempo atingir e discutir algumas concepções equivocadas acerca do tema.


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Theodore Dobzhansky (geneticista): “Nada na biologia faz sentido a não ser sob a  luz da evolução”