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sexta-feira, 17 de julho de 2015

Dragão (jurássico) chinês

Dinossauro com os membros anteriores muito desenvolvidos e um osso alongado na região do pulso sustentando uma membrana alar mostra uma nova maneira de voar desenvolvida por esses répteis, apresenta Alexander Kellner em sua coluna. 
 
Por: Alexander Kellner
Publicado em 10/07/2015 | Atualizado em 10/07/2015
Dragão (jurássico) chinês
Crânio do novo dinossauro 'Yi qi', encontrado na China. A espécie tinha asas membranosas e guarda semelhanças com diversos grupos de répteis pré-históricos. (foto: Zang Hailong/IVPP.
 
Novamente China. É realmente impressionante o que investimento em ciência, resultante de uma inteligente política pública de estado que privilegia o desenvolvimento da pesquisa básica, consegue alcançar. Em projeto coordenado por Xing  Xu (Institute of Vertebrate Paleontology and Paleoanthropology, Pequim), cientistas acabam de descobrir uma das mais bizarras criaturas de que se tem notícia: um verdadeiro dragão chinês! Trata-se de um dinossauro com os membros anteriores muito desenvolvidos, particularmente os dedos da mão, juntamente com um osso alongado que estava ligado a região do pulso do animal. De quebra, o exemplar conta com a preservação de tecido mole, envolvendo penas primitivas e restos de membrana alar em uma combinação jamais vista nos dinossauros. Não por acaso, a descoberta foi destaque na Nature, mais uma sobre um achado paleontológico made in China!

O animal foi encontrado na região de Mutoudeng, situado na província Hebei, região norte do  país. O fóssil foi recuperado  de  camadas denominadas Formação  Tiaojishan, que foram depositadas na transição do Jurássico médio ao superior, há aproximadamente 160 milhões de anos. Esses depósitos têm  revelado uma fauna e flora bem  interessante, incluindo restos de diversos grupos de plantas, como samambaias, coníferas, ginko e cicadáceas, até insetos e aracnídeos, sem contar com vários pterossauros (répteis alados que  foram os primeiros vertebrados a  desenvolverem o voo ativo), dinossauros e mamíferos. Destes últimos destacam-se Volaticotherium, um marsupial voador que se alimentava de insetos, e Castorocauda, espécie de protomamífero de hábitos aquáticos.
Dragão chinês 02
Reconstrução de ‘Yi qiI’, o novo "dragão chinês". (ilustração: Dinostar Co. Ltd)
Yi qi, como a nova fera foi chamada –  um nome  que pode ser  traduzido como  "asa estranha" – é um dinossauro para lá de esquisito, unindo ao mesmo tempo características típicas de vários  grupos  de  répteis. A estrutura geral da cabeça é dos dinossauros carnívoros não avianos,  mas com uma feição que vem se tornando cada vez mais comum: uma crista na parte anterior do crânio, tornando o seu bico relativamente alto. Na região da cabeça e do pescoço, existem filamentos de até três centímetros que os cientistas identificaram como penas primitivas. Entre os braços e o corpo, são encontradas diversas áreas com parte de uma membrana preservada. Os seus braços eram muito longos quando comparados a outras partes do corpo. O tamanho dos dedos também é maior do que nos demais dinossauros, sobretudo o quarto, que chega a ser maior do que o antebraço. Além disso, Yi qi tinha um osso muito longo no pulso, que certamente servia de sustentação para a membrana alar.

Sinceramente,  nesses  tempos  de  manipulação  genética, Yi  qi  seria  como  se  você pegasse um dinossauro não aviano, misturasse com uma ave, de onde viriam as penas, e com um pterossauro, de onde viriam a membrana e o osso do pulso (denominado de pteroide nesses répteis alados) em tamanho família. Só faltou o morcego!

Nova maneira de voar 

Curiosamente,  não  existiam  grandes  áreas  de  inserção  muscular  nos  membros anteriores, o que sugere a ausência de músculos possantes que seriam necessários para bater as asas, condição desenvolvida pelas aves, morcegos e pterossauros, os únicos vertebrados conhecidos a terem desenvolvido essa estratégia de voar. Também não pode ser observada a presença de um esterno, base principal da ancoragem dos músculos da região peitoral, tão necessários para o voo ativo.
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Região da China onde exemplares de ‘Yi qi’ foram encontrados. (foto cedida pela ‘Nature’).
Outra feição  que  me surpreendeu foi o tamanho  dos  ossos que formam a  região do metatarso – parte que liga os dedos do pé (não preservados nesse espécime) com os ossos do tornozelo: também são muito grandes. Isso poderia sugerir que esse animal se impulsionava com um salto para alçar voo.
Infelizmente, o fóssil de Yi qi não é completo e partes cruciais para determinar detalhes anatômicos  não  estão  preservadas.  É  certo  que  o alongado  osso  da  asa  estava,  de alguma forma, atrelado ao pulso do animal, mas não se tem detalhes de como. Não se sabe, por exemplo, se havia alguma articulação especial e, assim, não se tem uma noção exata do seu grau de movimento – o quando poderia ser elevado ou defletido, o que tem implicações diretas na maneira de voar. Também não se sabe o grau de extensão da membrana alar, que poderia ser pouco desenvolvida, estando mais próxima do corpo, ou então  bastante  extensa.  Seja  como  for,  os  cientistas  acreditam  que Yi  qi  e  era  um planador e, talvez, não teria condições de bater as asas.
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O fóssil recém-descoberto na China é, até agora, o único registro da espécie. (foto: Zang Hailong/IVPP)
Já é de conhecimento geral que os dinossauros desde cedo aprenderam a voar, o que ocorreu com as aves (que são dinossauros modificados) ao desenvolverem as penas. Também  existem os  microraptores,  que  possuíam  penas  não  apenas  nas  asas,  mas também nas pernas, que estavam ativamente integradas ao voo do animal. Agora, surge esse novo dragão chinês, que aprendeu a voar de forma totalmente diferente daquela usada por seus irmãos reptilianos. Esse é um dos aspectos mais fascinantes do estudo, quando consegue demonstrar essa variedade que os dinossauros experimentaram para dominar o céu do nosso planeta há milhões de anos.

Precisamos de um exemplar mais completo de Yi qi que possa fornecer mais detalhes dessa  bizarra  criatura  jurássica  que  outrora  habitou  a  parte  do  planeta  que  hoje chamamos  de  China.  De  qualquer  forma,  essa  descoberta  mostra  como  um  país consegue destaque internacional por meio de uma política inteligente de financiamento sistemático à pesquisa, em prol do desenvolvimento da ciência. Enquanto isso, em um certo país da América do Sul...

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ Academia Brasileira de Ciências

quinta-feira, 30 de abril de 2015

[Paleontology • 2015]  

Yi qi • A Bizarre Jurassic Maniraptoran Theropod with preserved Evidence of Membranous Wings

Yi qi | ‘ee chee’
Xu, Zheng, Sullivan, Wang, Xing, Wang, Zhang, O’Connor, Zhang & Pan, 2015
A farmer first spotted the dinosaur fossil in the Tiaojishan Formation of Hebei Province, China, dating to the Middle–Upper Jurassic period, or about 160 million years ago. The dinosaur is a member of a group of theropods (mostly carnivorous dinosaurs) called Scansoriopterygidae.
photo: Zang Hailong
The wings of birds and their closest theropod relatives share a uniform fundamental architecture, with pinnate flight feathers as the key component. Here we report a new scansoriopterygid theropod, Yi qi gen. et sp. nov., based on a new specimen from the Middle–Upper Jurassic period Tiaojishan Formation of Hebei Province, China. Yi is nested phylogenetically among winged theropods but has large stiff filamentous feathers of an unusual type on both the forelimb and hindlimb. However, the filamentous feathers of Yi resemble pinnate feathers in bearing morphologically diverse melanosomes. Most surprisingly, Yi has a long rod-like bone extending from each wrist, and patches of membranous tissue preserved between the rod-like bones and the manual digits. Analogous features are unknown in any dinosaur but occur in various flying and gliding tetrapods, suggesting the intriguing possibility that Yi had membranous aerodynamic surfaces totally different from the archetypal feathered wings of birds and their closest relatives. Documentation of the unique forelimbs of Yi greatly increases the morphological disparity known to exist among dinosaurs, and highlights the extraordinary breadth and richness of the evolutionary experimentation that took place close to the origin of birds.
The dinosaur would have sported a robust skull with a short snout
photo: Zang Hailong
Theropoda Marsh, 1881
Maniraptora Gauthier, 1986
Scansoriopterygidae Czerkas et Yuan, 2002

Yi qi gen. et sp. nov.

Etymology. The generic and specific names are derived from Mandarin Yi (wing) and qi (strange), respectively, referring to the bizarre wings of this animal. The intended pronunciation of the name is roughly “ee chee”.

Holotype. STM 31-2 (housed at the Shandong Tianyu Museum of Nature), an articulated partial skeleton with associated soft tissue preserved on a slab and counter slab. The specimen was collected by a local farmer, but its provenance and authenticity have been confirmed by multiple lines of evidence including sedimentology, taphonomy and computed tomography (CT) data.

Locality and horizon. Mutoudeng, Qinglong County, Hebei Province, China. Tiaojishan Formation, Callovian–Oxfordian stage. On the basis of the provenance of the specimen, Yi qi is a member of the Daohugou (or Yanliao) Biota.

Preserved features of the "winged" dinosaur fossil reveal feathers over the neck (not shown), along the humerus (b) and along the humerus and ulna (c). The fossil also showed soft tissue and feathers along the right forelimb and hindlimb.
photo: Zang Hailong | doi:10.1038/nature14423



Xing Xu, Xiaoting Zheng, Corwin Sullivan, Xiaoli Wang, Lida Xing, Yan Wang, Xiaomei Zhang, Jingmai K. O’Connor, Fucheng Zhang and Yanhong Pan. 2015. A Bizarre Jurassic Maniraptoran Theropod with preserved Evidence of Membranous Wings.
Nature. doi: 10.1038/nature14423
In Photos: Bizarre 'Bat Dinosaur' Discovered in China https://shar.es/1pAfJo  @LiveScience
Chinese Dinosaur Had Bat-Like Wings and Feathers http://on.natgeo.com/1JC8rKd via