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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Paleontologia 2015

Pulanesaura eocollum • A New Basal Sauropod from the pre-Toarcian Jurassic of South Africa: Evidence of Niche-Partitioning at the Sauropodomorph–Sauropod Boundary?

Pulanesaura eocollum 
 McPhee, Bonnan, Yates, Neveling & Choiniere, 2015
Abstract
The early evolution of sauropod dinosaurs remains poorly understood, with a paucity of unequivocal sauropod taxa known from the first twenty million years of the Jurassic. Recently, the Early Jurassic of South Africa has yielded an assemblage of dental and post-cranial remains displaying a more apomorphic character suite than any other similarly aged sauropodomorph. These remains are interpreted as a new species of basal sauropod and recovered cladistically as the sister taxon to Vulcanodon +more derived Sauropoda, underscoring its importance for our understanding of this pivotal period of sauropod evolution. Key changes in the dentition, axial skeleton and forelimb of this new species suggest a genuine functional distinction occurring at the sauropodiform-sauropod boundary. With reference to these changes, we propose a scenario in which interdependent refinements of the locomotory and feeding apparatus occurred in tandem with, or were effected by, restrictions in the amount of vertical forage initially available to the earliest sauropods. The hypothesized instance of niche-partitioning between basal sauropodan taxa and higher-browsing non-sauropodan sauropodomorphs may partially explain the rarity of true sauropods in the basal rocks of the Jurassic, while having the added corollary of couching the origins of Sauropoda in terms of an ecologically delimited ‘event’.
Figure 3: Representative bones of Pulanesaura eocollum.
(a) anterior-to-middle cervical vertebrae (BP/1/6199) in left lateral view; (b) holotypic anterior-most dorsal neural arch (BP/1/6882) in left lateral and anterior views; (c) anterior dorsal neural arch (BP/1/6984) in anterior and right lateral views; (d) anterior mid-dorsal neural arch (BP/1/6183) in anterior and right lateral views; (e) middle dorsal neural arch (BP/1/6770) in posterior view; (f) anterior caudal vertebra (BP/1/6646) in right lateral and posterior views; (g) right humerus (BP/1/6193) in anterior view; (h) left ulna (BP/1/6210) in lateral and proximal views; (i) ?left clavicle (BP/1/6752) in dorsal view; (j) left pedal ungual I (BP/1/6186) in proximal and medial views; (k) left tibia (BP/1/6200) in anterior and lateral views; (l) right ischium (reversed) (BP/1/7366) in lateral view.
Abbreviations: aidf, anterior infradiapophyseal fossa; ain, anterior incline of the neural spine; ep, epipophysis; hyp, hyposphene; mr, medial ridge; pp, parapophysis; prdl, prezygodiapophyseal lamina; prz, prezygapophyses; rf, radial fossa; spol, spinopostzygapophyseal lamina; vc, ventral convexity. Scale bars equal 5 cm in a-f and i, j; 10 cm in g, h, k, l. Silhouette drawn by BWM Photographs by BWM.

SYSTEMATIC PALAEONTOLOGY
Saurischia Seeley 1888
Sauropodomorpha von Huene 1932
Sauropodiformes Sereno 2007 (sensu)
Sauropoda Marsh 1878

Pulanesaura eocollum gen. et sp. nov.
Holotype: The neural arch of an anterior dorsal vertebra (BP/1/6882) that is missing the dorsal apex of the neural spine.
Type locality and horizon: The Pulanesaura material was obtained from a small (3 m × 3.5 m) quarry on the farm Spion Kop 932 in the Senekal District of the Free State, South Africa (Fig. 1). The quarry is located just over a kilometer East-North East of the holotype locality of Aardonyx celestae, in a higher stratigraphic position than that taxon within the early Jurassic upper Elliot Formation. The much smaller Arcusaurus pereirabalorum was recovered from the edge of the same quarry, and a detailed schematic of the excavation is figured (see also Supplementary Information Fig. S1). The upper Elliot Formation on Spion Kop consists of a series of stacked channel sandstone bodies with little intervening overbank siltstones, the quarry itself being situated in a poorly bedded, coarse to sandy siltstone lens. The two-dimensional geometry and internal facies relationships of this lens suggests that it represents the fill of a low-energy, cut-off channel. Most age estimates suggest that the upper Elliot Formation is no younger than the Pliensbachian (183–191mya), with a consensus range of late Hettangian to Sinemurian (i.e., ~200mya or younger).
Etymology: Pulane”, Sesotho, meaning “rain-maker/bringer”, in reference to the rain-soaked conditions under which the dinosaur was excavated, plus “-saura”, Latin, feminine, meaning “lizard”; “eo”, Greek, meaning “dawn”, plus “collum”, Latin, meaning “neck”, in reference to the hypothesized function of the neck presaging the sauropod condition in the new taxon.

Figure 5: Abbreviated strict consensus tree showing relationships and hypothesised stratigraphic ranges of plateosaurian dinosaurs (sensu).
Dashed lines represent uncertainty in temporal duration. 1, Plateosauridae; 2, Massopoda; 3, Massospondylidae; 4, Sauropodiformes; 5, Sauropoda (node left undesignated in order to reflect current disagreements regarding the taxonomic definition of Sauropoda).
Blair W. McPhee, Matthew F. Bonnan, Adam M. Yates, Johann Neveling and Jonah N. Choiniere. 2015. A New Basal Sauropod from the pre-Toarcian Jurassic of South Africa: Evidence of Niche-Partitioning at the Sauropodomorph–Sauropod Boundary?.
Scientific Reports. 5: 13224; doi: 10.1038/srep13224

Wits PhD student describes new SA dinosaur - the rain lizard http://www.timeslive.co.za/scitech/2015/08/19/Wits-PhD-student-describes-new-SA-dinosaur---the-rain-lizard via @TimesLIVE
Meet Pulanesaura eocollum, a new species of dinosaur http://phy.so/359276567 via @physorg_com

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Dragão (jurássico) chinês

Dinossauro com os membros anteriores muito desenvolvidos e um osso alongado na região do pulso sustentando uma membrana alar mostra uma nova maneira de voar desenvolvida por esses répteis, apresenta Alexander Kellner em sua coluna. 
 
Por: Alexander Kellner
Publicado em 10/07/2015 | Atualizado em 10/07/2015
Dragão (jurássico) chinês
Crânio do novo dinossauro 'Yi qi', encontrado na China. A espécie tinha asas membranosas e guarda semelhanças com diversos grupos de répteis pré-históricos. (foto: Zang Hailong/IVPP.
 
Novamente China. É realmente impressionante o que investimento em ciência, resultante de uma inteligente política pública de estado que privilegia o desenvolvimento da pesquisa básica, consegue alcançar. Em projeto coordenado por Xing  Xu (Institute of Vertebrate Paleontology and Paleoanthropology, Pequim), cientistas acabam de descobrir uma das mais bizarras criaturas de que se tem notícia: um verdadeiro dragão chinês! Trata-se de um dinossauro com os membros anteriores muito desenvolvidos, particularmente os dedos da mão, juntamente com um osso alongado que estava ligado a região do pulso do animal. De quebra, o exemplar conta com a preservação de tecido mole, envolvendo penas primitivas e restos de membrana alar em uma combinação jamais vista nos dinossauros. Não por acaso, a descoberta foi destaque na Nature, mais uma sobre um achado paleontológico made in China!

O animal foi encontrado na região de Mutoudeng, situado na província Hebei, região norte do  país. O fóssil foi recuperado  de  camadas denominadas Formação  Tiaojishan, que foram depositadas na transição do Jurássico médio ao superior, há aproximadamente 160 milhões de anos. Esses depósitos têm  revelado uma fauna e flora bem  interessante, incluindo restos de diversos grupos de plantas, como samambaias, coníferas, ginko e cicadáceas, até insetos e aracnídeos, sem contar com vários pterossauros (répteis alados que  foram os primeiros vertebrados a  desenvolverem o voo ativo), dinossauros e mamíferos. Destes últimos destacam-se Volaticotherium, um marsupial voador que se alimentava de insetos, e Castorocauda, espécie de protomamífero de hábitos aquáticos.
Dragão chinês 02
Reconstrução de ‘Yi qiI’, o novo "dragão chinês". (ilustração: Dinostar Co. Ltd)
Yi qi, como a nova fera foi chamada –  um nome  que pode ser  traduzido como  "asa estranha" – é um dinossauro para lá de esquisito, unindo ao mesmo tempo características típicas de vários  grupos  de  répteis. A estrutura geral da cabeça é dos dinossauros carnívoros não avianos,  mas com uma feição que vem se tornando cada vez mais comum: uma crista na parte anterior do crânio, tornando o seu bico relativamente alto. Na região da cabeça e do pescoço, existem filamentos de até três centímetros que os cientistas identificaram como penas primitivas. Entre os braços e o corpo, são encontradas diversas áreas com parte de uma membrana preservada. Os seus braços eram muito longos quando comparados a outras partes do corpo. O tamanho dos dedos também é maior do que nos demais dinossauros, sobretudo o quarto, que chega a ser maior do que o antebraço. Além disso, Yi qi tinha um osso muito longo no pulso, que certamente servia de sustentação para a membrana alar.

Sinceramente,  nesses  tempos  de  manipulação  genética, Yi  qi  seria  como  se  você pegasse um dinossauro não aviano, misturasse com uma ave, de onde viriam as penas, e com um pterossauro, de onde viriam a membrana e o osso do pulso (denominado de pteroide nesses répteis alados) em tamanho família. Só faltou o morcego!

Nova maneira de voar 

Curiosamente,  não  existiam  grandes  áreas  de  inserção  muscular  nos  membros anteriores, o que sugere a ausência de músculos possantes que seriam necessários para bater as asas, condição desenvolvida pelas aves, morcegos e pterossauros, os únicos vertebrados conhecidos a terem desenvolvido essa estratégia de voar. Também não pode ser observada a presença de um esterno, base principal da ancoragem dos músculos da região peitoral, tão necessários para o voo ativo.
Dragão chinês 03
Região da China onde exemplares de ‘Yi qi’ foram encontrados. (foto cedida pela ‘Nature’).
Outra feição  que  me surpreendeu foi o tamanho  dos  ossos que formam a  região do metatarso – parte que liga os dedos do pé (não preservados nesse espécime) com os ossos do tornozelo: também são muito grandes. Isso poderia sugerir que esse animal se impulsionava com um salto para alçar voo.
Infelizmente, o fóssil de Yi qi não é completo e partes cruciais para determinar detalhes anatômicos  não  estão  preservadas.  É  certo  que  o alongado  osso  da  asa  estava,  de alguma forma, atrelado ao pulso do animal, mas não se tem detalhes de como. Não se sabe, por exemplo, se havia alguma articulação especial e, assim, não se tem uma noção exata do seu grau de movimento – o quando poderia ser elevado ou defletido, o que tem implicações diretas na maneira de voar. Também não se sabe o grau de extensão da membrana alar, que poderia ser pouco desenvolvida, estando mais próxima do corpo, ou então  bastante  extensa.  Seja  como  for,  os  cientistas  acreditam  que Yi  qi  e  era  um planador e, talvez, não teria condições de bater as asas.
dragão chinês 04
O fóssil recém-descoberto na China é, até agora, o único registro da espécie. (foto: Zang Hailong/IVPP)
Já é de conhecimento geral que os dinossauros desde cedo aprenderam a voar, o que ocorreu com as aves (que são dinossauros modificados) ao desenvolverem as penas. Também  existem os  microraptores,  que  possuíam  penas  não  apenas  nas  asas,  mas também nas pernas, que estavam ativamente integradas ao voo do animal. Agora, surge esse novo dragão chinês, que aprendeu a voar de forma totalmente diferente daquela usada por seus irmãos reptilianos. Esse é um dos aspectos mais fascinantes do estudo, quando consegue demonstrar essa variedade que os dinossauros experimentaram para dominar o céu do nosso planeta há milhões de anos.

Precisamos de um exemplar mais completo de Yi qi que possa fornecer mais detalhes dessa  bizarra  criatura  jurássica  que  outrora  habitou  a  parte  do  planeta  que  hoje chamamos  de  China.  De  qualquer  forma,  essa  descoberta  mostra  como  um  país consegue destaque internacional por meio de uma política inteligente de financiamento sistemático à pesquisa, em prol do desenvolvimento da ciência. Enquanto isso, em um certo país da América do Sul...

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ Academia Brasileira de Ciências

quinta-feira, 30 de abril de 2015

[Paleontology • 2015]  

Yi qi • A Bizarre Jurassic Maniraptoran Theropod with preserved Evidence of Membranous Wings

Yi qi | ‘ee chee’
Xu, Zheng, Sullivan, Wang, Xing, Wang, Zhang, O’Connor, Zhang & Pan, 2015
A farmer first spotted the dinosaur fossil in the Tiaojishan Formation of Hebei Province, China, dating to the Middle–Upper Jurassic period, or about 160 million years ago. The dinosaur is a member of a group of theropods (mostly carnivorous dinosaurs) called Scansoriopterygidae.
photo: Zang Hailong
The wings of birds and their closest theropod relatives share a uniform fundamental architecture, with pinnate flight feathers as the key component. Here we report a new scansoriopterygid theropod, Yi qi gen. et sp. nov., based on a new specimen from the Middle–Upper Jurassic period Tiaojishan Formation of Hebei Province, China. Yi is nested phylogenetically among winged theropods but has large stiff filamentous feathers of an unusual type on both the forelimb and hindlimb. However, the filamentous feathers of Yi resemble pinnate feathers in bearing morphologically diverse melanosomes. Most surprisingly, Yi has a long rod-like bone extending from each wrist, and patches of membranous tissue preserved between the rod-like bones and the manual digits. Analogous features are unknown in any dinosaur but occur in various flying and gliding tetrapods, suggesting the intriguing possibility that Yi had membranous aerodynamic surfaces totally different from the archetypal feathered wings of birds and their closest relatives. Documentation of the unique forelimbs of Yi greatly increases the morphological disparity known to exist among dinosaurs, and highlights the extraordinary breadth and richness of the evolutionary experimentation that took place close to the origin of birds.
The dinosaur would have sported a robust skull with a short snout
photo: Zang Hailong
Theropoda Marsh, 1881
Maniraptora Gauthier, 1986
Scansoriopterygidae Czerkas et Yuan, 2002

Yi qi gen. et sp. nov.

Etymology. The generic and specific names are derived from Mandarin Yi (wing) and qi (strange), respectively, referring to the bizarre wings of this animal. The intended pronunciation of the name is roughly “ee chee”.

Holotype. STM 31-2 (housed at the Shandong Tianyu Museum of Nature), an articulated partial skeleton with associated soft tissue preserved on a slab and counter slab. The specimen was collected by a local farmer, but its provenance and authenticity have been confirmed by multiple lines of evidence including sedimentology, taphonomy and computed tomography (CT) data.

Locality and horizon. Mutoudeng, Qinglong County, Hebei Province, China. Tiaojishan Formation, Callovian–Oxfordian stage. On the basis of the provenance of the specimen, Yi qi is a member of the Daohugou (or Yanliao) Biota.

Preserved features of the "winged" dinosaur fossil reveal feathers over the neck (not shown), along the humerus (b) and along the humerus and ulna (c). The fossil also showed soft tissue and feathers along the right forelimb and hindlimb.
photo: Zang Hailong | doi:10.1038/nature14423



Xing Xu, Xiaoting Zheng, Corwin Sullivan, Xiaoli Wang, Lida Xing, Yan Wang, Xiaomei Zhang, Jingmai K. O’Connor, Fucheng Zhang and Yanhong Pan. 2015. A Bizarre Jurassic Maniraptoran Theropod with preserved Evidence of Membranous Wings.
Nature. doi: 10.1038/nature14423
In Photos: Bizarre 'Bat Dinosaur' Discovered in China https://shar.es/1pAfJo  @LiveScience
Chinese Dinosaur Had Bat-Like Wings and Feathers http://on.natgeo.com/1JC8rKd via

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Meet the furry Jurassic period critters that outwitted the dinosaurs

- 16 de fevereiro de 2015.
The Jurassic period was hardly an ideal time to be a tiny, fuzzy creature, what with those massive dinosaurs galumphing around the planet and swarming the skies.

That’s why two newly discovered species, the extinct ancestors of modern mammals, made their homes in treetops and underground burrows, scientists say.

Agilodocodon scansorius and Docofossor brachydactylus (try saying that five times fast), described in two papers published in the journal Science on Friday, are the earliest known examples of arboreal and subterranean mammals. Both were shrew-sized creatures, about three to four inches long, and their fossils were discovered in China.


Neither species is going to win any beauty pageants — artists’ renderings of the animals depict beady-eyed, long-snouted creatures with sharp claws and a mouth full of spiky teeth even a mother couldn’t love. But they did well for themselves in the brutal contest of evolution. Each species exhibits unique adaptations tailored to their specific, secluded habitats, which helped them survive amid giant sauropods and allosaurs.
Agilodocodon, a tree-dweller that lived about 165 million years ago, had curved horny claws to help it climb and spade-like front teeth suited for gnawing into bark. Its limb proportions and flexible joints were similar to those of modern animals that live in trees or bushes, and its teeth resembled those of some gumnivorous (sap-eating) monkeys today.
“It’s amazing that these arboreal adaptions occurred so early in the history of mammals and shows that at least some extinct mammalian relatives exploited evolutionarily significant herbivorous niches, long before true mammals,” said University of Chicago graduate student David Grossnickle, a co-author of the study on Agilodocodon, in a university press release.

The 160-million-year-old Docofossor found its niche by burrowing into the ground. A short, sprawling creature with stumpy legs and wide, shovel-like fingers, it was well suited for digging its way away from trouble. These qualities make it a “dead ringer” for the modern African golden mole (which is basically a fluff ball with a pink nose and stumpy legs), said Zhe-Xi Luo, a University of Chicago professor and author on both papers. The shared traits are so similar that researchers believe the same genes may be responsible, even though the Docofossor and the golden mole come from different branches of the mammalian family tree.

The research teams, which included scientists from the University of Chicago, the Chinese Academy of Geological Sciences and the Beijing Museum of Natural History, said their findings demonstrate early mammals’ ability to diversify to exploit biological niches — a quality modern mammals still exhibit.
“We consistently find with every new fossil that the earliest mammals were just as diverse in both feeding and locomotor adaptations as modern mammals,” Luo said in the University of Chicago press release. “The groundwork for mammalian success today appears to have been laid long ago.”

domingo, 5 de outubro de 2014

Novos mamíferos jurássicos

Encontradas na China três novas espécies desses animais, apresentadas por Alexander Kellner em sua coluna. Estudo publicado na ‘Nature’ sugere que houve grande diversificação do grupo há 160 milhões de anos.
Por: Alexander Kellner
Publicado em 03/10/2014 | Atualizado em 03/10/2014
Novos mamíferos jurássicos
Reconstrução de ‘Xianshou songae’, uma das novas espécies de mamíferos jurássicos descobertas na China. Essa forma vivia na copa das árvores das florestas da China 160 milhões de anos atrás. (imagem: Zhao Chuang) 
 
A origem dos mamíferos ainda é bastante discutida no meio acadêmico. O maior problema tem sido encontrar fósseis que permitam estabelecer os primeiros estágios da evolução do grupo, que inclui os primatas e, dentro destes, a nossa própria espécie.

Com a colaboração de colegas chineses, o paleontólogo Jin Meng, do Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque, acaba de realizar descobertas que permitem um novo olhar para a evolução dos mamíferos e suas primeiras fases de diversificação. O estudo foi publicado recentemente na revista Nature.
Sem entrar em muitos detalhes, as espécies do grupo Mammalia podem ser separadas em diversos subgrupos. O mais basal de todos são os monotremados, os únicos que põem ovos.

Há também os Allotheria, que reúnem os multituberculados – grupo extinto de aspecto semelhante ao dos roedores, mas com dentição bastante específica – e os haramiyidos, formas bizarras com características dos multituberculados e de animais mais modernos. Por último, o grupo dos Theria, que reúne espécies modernas representadas pelos placentários e marsupiais.
Novos mamíferos
Reconstrução das novas formas de mamíferos jurássicos descobertos por Jin Meng e colegas. A descrição foi feita com base em seis indivíduos encontrados na Formação Tiaojishan, na província chinesa de Liaoning. (imagem: Zhao Chuang)
Nos últimos anos, a principal discussão tem sido sobre onde, no quadro evolutivo dos mamíferos, devem estar inseridos os Haramiyida. Uma corrente de pesquisadores acredita que devam estar dentro de Mammalia. Nesse caso, a diversificação dos mamíferos basais teria sido muito rápida e teria ocorrido já no final do Triássico, há cerca de 208 milhões de anos.

Uma segunda corrente advoga que os haramiyidos não seriam mamíferos, mas ocupariam uma posição mais basal, fora do grupo Mammalia. Essa segunda hipótese indica que o processo de diversificação dos mamíferos teria acontecido mais tarde, apenas no período Jurássico.

Formação Tiaojishan

Jin Meng e colegas apresentaram três novas espécies de mamíferos com base em seis indivíduos encontrados na China. Todos procedem de depósitos da Formação Tiaojishan, mais especificamente da região de Linglongta, na província de Liaoning. Embora não haja unanimidade, a maioria dos pesquisadores atribui a essas rochas idade jurássica, tendo se formado há aproximadamente 160 milhões de anos.
As novas espécies foram batizadas Shenshou lui, Xianshou linglong e Xianshou songae. Elas fazem parte dos haramiyidos e formam um novo agrupamento, denominado Euharamiyida.
O estudo corrobora a hipótese de que a diversificação dos primeiros mamíferos se intensificou no Jurássico e não antes
Basicamente, as novas espécies se diferenciam entre si e dos demais mamíferos por detalhes tanto na dentição como em distintas partes do esqueleto. Entre as feições que mais se destacam, estão a região posterior da cabeça, bastante larga, um focinho comprimido lateralmente, além do enorme dente incisivo que sobressai na arcada inferior.
O estudo de Jin Meng e colegas sugere que os euharamiyidos (e, assim, os haramiyidos) devem ser considerados mamíferos e classificados dentro de Mammalia. Desse modo, corrobora a hipótese de que a diversificação dos primeiros mamíferos se intensificou no Jurássico e não antes.
Holótipos
Holótipo (espécime utilizado para descrever uma espécie) de ‘Shenshou lui’ (a), ‘Xianshou linglong’ (b) e ‘Xianshou songae’ (c). Essas espécies fazem parte dos haramiyidos e formam um grupo novo, denominado Euharamiyida. (fotos: Jin Meng)
Algumas das primeiras espécies viviam exclusivamente em árvores (formas arborícolas), enquanto outras ocupavam tanto as árvores quanto a terra firme (formas escansoriais).
Esse estudo é de grande interesse e mostra novamente a importância da China para o desenvolvimento da paleontologia. Como já dito em colunas anteriores, com investimento contínuo e suporte adequado, a descoberta de fósseis importantes acaba se tornando quase um processo natural.
E vem em seguida a pergunta inevitável: será que um dia os pesquisadores brasileiros chegarão a ter condições de financiamento e infraestrutura semelhantes às dos colegas chineses e norte-americanos?

Alexander KellnerMuseu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

domingo, 1 de abril de 2012

Postado em 01/04/2012 - Por: Marcus Cabral

Jurássico na Alemanha

Europasaurus, Iguanodon, Compsognathus e Archaeopteryx
© Gerhard Boeggemann

Hoje vou levar vocês por um breve passeio imaginário pela "Era Dourada dos Dinossauros" ou a "Era dos Répteis", como também é conhecido o período Jurássico, segundo período da Era Mesozóica, situado no meio desta, começando depois do Triássico e dando origem, no seu término, ao Cretáceo. Pretendo definir de maneira simples e direta as principais características do período, incluindo fauna, flora e clima, geografia e o que mais for pertinente. Então, o que está esperando, embarque na máquina do tempo virtual do Ikessauro e leia o artigo completo!


História: de onde vem a palavra Jurássico?
Assim como qualquer nome de dinossauro, o nome dos períodos geológicos tem uma origem e significado, geralmente atribuído pelo primeiro cientista a estudar tal período, suas rochas e características. Neste caso, o sujeito que foi responsável pelo batismo do famoso período Jurássico foi o cientistas Alexander von Humboldt, notável explorador e naturalista alemão, que em 1795 ao perceber a composição rochosa calcária das montanhas de Jura, na fronteira da França com a Suíça, deu o nome de "Jura kalkstein", cuja variação "Jurakalk" originou o nome atual para a formação geológica, baseando o nome do período das rochas no nome das Montanhas de Jura.
O nome "Jura" deriva da raiz céltica "Jor", que foi latinizado formando "Juria", significando "Floresta", portanto as montanhas seriam chamadas de "Montanha Floresta". A palavra "kalkstein" vem do alemão, significando "Calcário". Podemos dizer que o nome Jurássico, em uma tradução livre (tradução minha) significa "Floresta de Calcário" ou "Calcário da Floresta". Não consigo pensar em adaptação melhor do nome, mas estou aberto à sugestões, então escreva um comentário com a sua neste artigo.
Retrato de Alexander von Humboldt
© Joseph Karl Stieler

O Jurássico na linha do tempo

O período Jurássico começou após o término do período Triássico, entre 213 e 199 milhões de anos atrás e como pode perceber não há maior precisão na datação da fronteira Triássico-Jurássico devido à disposição das rochas e até mesmo falta de mais rochas expostas na crosta, datando desta época. Como toda datação geológica, não podemos ter uma precisão em anos, menos ainda em dias ou meses. Há sempre uma margem de erro para mais ou para menos em milhões de anos, variando de acordo com a fonte consultada. Em algumas, estima-se o início do Jurássico em 213 milhões de anos atrás, outras fontes indicam 205 ou mesmo 199 milhões de anos atrás. Não é questão de erro, mas sim de imprecisão científica devido à falta de mais evidências e técnicas de medição mais apuradas.
A maioria das estimativas está por volta de 213 - 199 milhões de anos atrás, com o período se estendendo por volta 50 milhões de anos, acabando há 145 milhões de anos e dando início ao Cretáceo.
O Jurássico é o período "do meio" da Era Mesozóica, estando entre o Triássico e o Cretáceo e marcando o pico de evolução e da dispersão dos dinossauros pelo globo terrestre, pois foi neste período em que os primeiros dinossauros, surgidos tímidos no Triássico, atingiram seu ápice, evoluindo em formas abundantes e variadas e chegando a tamanhos impressionantes, desde minúsculos Terópodes como o Compsognathus a titãs como o Diplodocus e Brachiosaurus.
O Jurássico se divide em 3 partes, também conhecido como Sistema do Jurássico, que são chamadas de Inferior, Médio e Superior, listados do mais antigo para o mais novo respectivamente. Observando a tabela abaixo, você pode ver ao fundo a tabela completa da Era Mesozóica, com o Triássico em verde, Jurássico em amarelo e Cretáceo em laranja, com suas respectivas subdivisões em tons de cores similares. No efeito de zoom proporcionado pela imagem na parte do Jurássico, podemos ver o sistema, com cada subdivisão ainda menor e ao final de cada linha uma estimativa em milhões de anos (M.a.) de quando cada parte começou e terminou. Vale a pena conferir mais de perto, então clique na imagem para ver em tamanho maior. A separação do Jurássico em três partes remonta a Leopold von Buch (1774 - 1853).
Veja a localização do Jurássico na linha do tempo
© Patrick Król Padilha

Como eu mencionei no artigo sobre o período Triássico, que você pode ler aqui no Blog do Ikessauro, foram encontradas na África rochas que marcam o final do período e o início do Jurássico, assim demonstrando que uma extinção em massa deu início ao segundo período, considerando que a África ainda fazia parte da Pangéia na época. Obviamente a extinção não foi tão grande quanto outras. Causada por variações climáticas, possível queda de meteorito, vulcanismo entre outros fatores, a extinção devastou metade dos seres vivos, principalmente animais e seres marinhos, por isso a maioria dos dinossauros sobreviveu e deu continuidade à linhagem no período seguinte. As plantas foram pouco afetadas, tendo sido os répteis marinhos e outros animais oceânicos os mais atingidos. Vale a pena ler sobre o período anterior, para ter uma visão melhor do que foi o início da Era Mesozóica.


Quanto ao final do Jurássico, não foi marcado por uma extinção em massa, mas sim por uma mudança nas espécies e variedades de fauna e flora, mudança gradual, que só se completou no Cretáceo, mas que se tornou evidênte quando se observa a história como um todo.

Geografia do Jurássico

Durante o período Triássico os continentes terrestres estavam todos unidos em um super continente chamado pelos cientistas de Pangéia (significando "Toda a Terra"). Algumas pequenas ilhas circundavam o super continente, mas muito pequenas para serem consideradas continentes individuais. O oceano que recobria todo o resto do globo era chamado Panthalassa (significando "Todo a Mar"). O clima era seco na maior parte do continente pois só as bordas do litoral é que mantinham contato com água durante todo o ano, assim permitindo um clima mais ameno nas áreas costeiras, enquanto que no meio do continente o clima era quente, árido e seco, com poucos períodos chuvosos. Você pode e deve estar se perguntando: Se este artigo trata do Jurássico, que importância o Ikessauro pensa que há em sabermos como era o Triássico?
Bem, meu caro paleoaficcionado, tem muita importância e vou lhe dizer porque! A forma do continente interfere nas correntes oceânicas e as correntes consequentemente tem impacto no clima, que afeta por sua vez a vegetação, que definirá como será a vida animal vegetariana, esta que servirá de comida aos seres carnívoros. Enfim, tudo está interligado num grande sistema complexo, onde a mudança de um único elemento sempre tem impacto nos outros e assim sucessivamente, afetando o sistema como um todo.
Sabendo como era o clima do Triássico, podemos ver que no Jurássico Médio e Superior, o continente Pangéia começou a se modificar, dando origem a dois continentes separados, um ao norte e outro mais ao sul. O continente mais ao norte é conhecido cientificamente pelo termo Laurásia, foi originado pela junção de dois outros termos, Laurência + Eurásia. O primeiro termo se refere ao Cratão Norte Americano e o segundo se refere ao continente grande formado por Europa e Ásia no hemisfério norte. Essa nomenclatura foi escolhida porque os continentes situados hoje no hemisfério norte se originaram na maioria a partir do super continente Laurásia, depois da separação no Jurássico. Só para esclarecer, Cratão se refere a um pedaço ou porção de rochas das placas tectônicas que mesmo com o decorrer de milhões de anos de atrito, união e separação de continentes, permanecem pouco alteradas.
Jurássico Médio: observe o começo da separação
© Dr. Ron Blakey

O continente formado no hemisfério sul recebeu o nome de Gondwana, cujo nome deriva do Sânscrito, significando "Floresta dos Gondis". Os Gondis são povos da Índia, onde há uma região chamada Gondwana, ao norte do país, sendo que foi nessa área que o pesquisador Austríaco Eduard Suess estudou as rochas que permitiram entender melhor a separação dos continentes. Por isso o nome foi escolhido em homenagem ao local que proporcionou a pesquisa. O Gondwana deu origem aos continentes do hemisfério sul, incluindo a América do Sul, a África, a Antártida, a Austrália, além das hoje inúmeras ilhas menores situadas neste hemisfério. A Índia também originou-se a partir de Gondwana, mas com o passar do tempo separou-se e migrou para o norte, chocando-se contra a Laurásia, criando a Cordilheira do Himalaia, onde se fixou e permanece atualmente.
Jurássico Superior
© Dr. Ron Blakey

Foi nessa época que surgiu o Golfo do México, entre a América do Norte e a Península de Yucatán no México. O Oceano Atlântico Norte apareceu nesta época, com a divisão da Laurásia em partes menores, originando a América do Norte e Eurásia, estando o oceano recém formado entre estes dois continentes citados por último. O Atlântico Sul não existia, pois América do Sul e África ainda estavam ligadas, sendo que só no Cretáceo se dividiriam para originar este oceano. O Mar de Tethys, que antes ocupava o golfo da Pangéia, sumiu e originou a bacia do Neotethys.Nessa época, a Europa Ocidental atual não passava de um bando de ilhas isoladas no meio do Atlântico, tendo originado posteriormente bons depósitos sedimentares marinhos com fósseis indicando a existência de um mar raso na região. Alguns locais com sítios fossilíferos conhecidos são o Jurassic Coast Heritage Site e o renomado sítio fossilífero alemão Lagerstätten of Holzmaden e Solnhofen, datado do Jurássico Superior, este último tendo originado inclusive o fóssil famoso do Archaeopteryx de Berlim.
Jurassic Coast Heritage Site: Inglaterra
© Blackbeck / iStockphoto

Por outro lado na América do Norte o registro marinho do Jurássico é fraco, porém outros estratos ainda assim fazem a região ser mais rica em depósitos do Jurássico que as Américas Central e do Sul. No norte podemos encontrar alguns depósitos originados de ambientes marinhos, mas a maioria provém de sedimentações aluviais, ou seja, leitos de rios que atraiam animais e permitiam a vida mais próspera ao seu redor e cuja lama e sedimentos trazidos pela água deram origem a formações rochosas hoje visíveis na superfície, como a Formação Morrison nos Estados Unidos.
Formação Morrison
© Michael Overton

O Jurássico foi marcado por mares repletos de calcita com baixos níveis de magnésio, o material sedimentar inorgânico mais comum nos mares, que originaram depois de alguns milhões de anos depósitos de rocha de Carbonato de Cálcio que é o principal componente do calcário. Simplificando, são rochas formadas pela petrificação do fundo do oceano, que mostra uma rica fauna com esqueleto externo principalmente composto de calcita.
Analisando as rochas do Jurássico pode-se perceber vários batólitos de grande porte, que são rochas formadas pelo vazamento do magma entre camadas de sedimento. As camadas se sobrepõem em ordem homogênea, mas quando o magma vaza por entre camadas acaba infiltrando um tipo de material diferente que origina posteriormente rochas diferentes. Um exemplo desse fenômeno é a cadeia de montanhas de Nevada.
Segundo um artigo do blog "Geografia Física Online" sobre plutonismo, do qual retiro a citação seguinte, os Batólitos:
"ocorrem principalmente em regiões tectonicamente calmas, são grandes massas contínuas formadas por rochas magmáticas que cortam de forma discordante as rochas mais antigas."
Já de acordo com o Geoglossário do site do Cairo American College, um Batólito é:
"an irregular mass of coarse-grained, intrusive igneous rock that has an exposed surface of more than a hundred square kilometres. Batholiths form deep within the Earth's crust, many kilometres beneath the surface. With time, the overlying rocks erode, exposing the rock of the batholith."
Tradução: "uma massa irregular de rocha ignea intrusiva de textura granulada que tem um superfície exposta de mais de mil quilômetros quadrados. Batólitos se formam no fundo da crosta terrestre, muitos quilômetros abaixo da superfície. Com o tempo, as rochas que o cobrem sofrem erosão, expondo a rocha do batólito.
De forma simplificada, podemos visualizar a formação de um batólito da seguinte maneira. Há uma formação rochosa com várias camadas de rocha sedimentar. Cada camada de uma idade e constituição diferente. Abaixo destas camadas há fluxo de magma do núcleo da Terra. Este fluxo consegue penetrar nas camadas de baixo para cima, e no meio delas cria uma bolha de magma, que resfria e vira rocha. Com o passar de alguns milhões de anos, as camadas sedimentares que cobrem essa bolha de magma endurecido acabam sofrendo erosão pela chuva, vento e outros processos naturais, expondo a bolha, total ou parcialmente. Estas bolhas ou batólitos muias vezes são grandes ao ponto de formarem verdadeiras montanhas.
Voltando a falar do registro geológico do período aqui tratado, podemos lembrar que alguns outros países ou mesmo continentes apresentam estratos jurássicos, mas em menor quantidade e abrangência que os citados anteriormente. Entre estes incluem-se Rússia, América do Sul, Índia, Japão, Australásia e Reino Unido. Na África, estratos do Jurássico Inferior estão distribuídos de modo similar aos estratos do Triássico Superior, com mais afloramentos no sul e menos ao norte do continente.
Os estratos do Jurássico Médio da África são escassos e mal estudados, assim como do Jurássico Superior, que apresenta uma exceção, a Formação de Tendaguru - Tanzânia, que se assemelha em quesito fauna à Formação Morrison na América do Norte. Recentemente uma notícia no Brasil anunciava a descoberta de um sítio fossilifero datado do Jurássico, no nordeste do país, mas ainda não soube mais detalhes sobre tal fato.

Clima do Jurássico

O clima era quente, sem evidência de glaciação. Assim como no Triássico, não havia nenhuma massa de terra próxima dos polos e não havia cobertura de gelo. Com a mudança da forma dos continentes, mais porções de terra receberam umidade proveniente das novas regiões costeiras formadas e assim o clima quente e seco do período anterior tornou-se quente e úmido, um verdadeiro clima tropical, dando origem a enormes florestas, graças ao aumento de crescimento das plantas a partir da nova condição climática. O clima tropical abrangia o mundo todo devido à elevação do nível do mar criada por vulcanismo submerso, que depositava mais material rochoso no fundo dos mares, elevando o nível da água. Muitas regiões atuais como a Europa Ocidental eram ilhas tropicais em mares rasos. Havia vulcanismo, provavelmente gerado a partir da separação continental que deve ter ocorrido a partir de intensa atividade geológica das placas tectônicas.

Flora do Jurássico

Devido ao clima mais úmido proporcionado pela quebra continental, muitas plantas prosperaram e boa parte dos continentes durante o Jurássico era coberta por extensas florestas tropicais, repletas de árvores de porte variado e plantas rasteiras. Depósitos de carvão natural datados do Jurássico mostram o quão extensas eram as florestas do período. As gramíneas ainda não haviam surgido, mas em seu lugar, os fetos, cavalinhas e samambaias ocuparam o posto de cobertura vegetal rasteira. Os Licopódios do Triássico sobreviveram e prosperaram também, embora não tanto quanto as demais plantas.
Floresta Jurássica: observe os fetos e samambaias rasteiras
© John Sibbick

Como plantas médias haviam as cicadáceas, cuja linhagem ainda vive hoje e as cicas, árvores de médio porte muito similares às cicadáceas, mas que não eram cicadáceas verdadeiras. As cicas foram totalmente exintas, mas acredita-se que podem ser sido as primeiras plantas a desenvolver flores, embora não foram as ancestrais das plantas com flores de hoje, porque o grupo destas cicas, que também é conhecido como Cicadeóides ou Benetitáceas, foi extinto completamente.
Benetitácea
© Foto do site Han's Paleobotany Pages
Benetitáceas
© Foto do site Han's Paleobotany PagesFóssil de Benetitácea
© Wikimedia Commons

Algumas plantas do grupo das cicadáceas eram venenosas e ao contrário do que ocorre hoje, cresciam em todo o mundo pois todos os continentes tinham clima tropical e/ou sub tropical. Um exemplo de benetitácea é a Williamsonia, que tinha um tronco escamoso e produzia folhas parecidas com a das cicadáceas e estruturas parecidas com flores, embora não fossem de fato flores. Dentre estas plantas podemos citar também fetos arborescentes, sendo que haviam várias espécies e tipos, similares a atual Dicksonia.
Atual Dicksonia antarctica: plantas semelhantes eram comuns no Jurássico
© Foto retirada de gardensandplants.comDicksonia antarctica: espécie atual
© Wikimedia Commons
As cicadáceas verdadeiras também eram abundantes no Jurássico, crescendo em formas e tamanhos variados, com exemplares rasteiros e outros arborescentes. Para comparar podemos ver uma espécie atual, a africana Encephalartos transvenosus, que cresce em florestas na África, até dando um aspecto pré-histórico à paisagem.
Floresta de Cicadáceas na África
© Foto do site wild-about-you.com

As árvores de grande porte dominantes eram as gimnospermas, coníferas na maioria, como Araucárias entre outros tipos de pinheiros. Grupos que ainda vivem nos dias atuais como Araucariaceae, Cephalotaxaceae, Pinaceae, Podocarpaceae, Taxaceae e Taxodiaceae se originaram no Jurássico. No Jurássico as Araucárias estavam espalhadas por quase todo o globo, enquanto que hoje só são encontradas em poucos locais no hemisfério sul. Abaixo você confere alguns exemplares de araucárias atuais.
Araucárias atuais na América do Sul: similares às do Jurássico
© Manuel Capdevila Pinha de Araucária fóssil da Argentina
© Mila Zinkova

Espécies de Ginkgos eram abundantes também, tendo sua linhagem ainda viva hoje com um único gênero, muito usado como árvore para paisagismo em jardins e calçadas. As samambaias já existiam naquele tempo, assim como árvores coníferas como alguns parentes das Sequóias e Ciprestes atuais.
Os Shunosaurus sob um exemplar de Ginkgo yimaensis
© Brian Engh

Ginkgos eram mais comuns ao norte em altas latitudes, enquanto que no sul podocarpos eram mais bem sucedidos. As algas vermelhas modernas que vemos hoje apareceram pela primeira vez nesse período. Abaixo você confere mais imagens de paleorecontrução ambiental, com várias espécies de plantas, coníferas, fetos entre outras citadas anteriormente.
Coníferas do Jurássico
© Foto do site Han's Paleobotany PagesPaisagem Jurássica
© Imagem retirada de Review of the Universe.ca
Coníferas semelhantes às atuais Sequóias eram abundantes no Jurássico
© Imagem retirada de Review of the Universe.ca

Fauna do Jurássico

À medida que o Jurássico prosseguia, mudanças ambientais proporcionaram a evolução dos dinossauros. Pequenos predadores que no Triássico não eram muito maiores que um cachorro agora tinham descendentes que chegavam a 10 metros de comprimento. Os herbívoros como os Prossaurópodes que apesar de grandes não eram tão impressionantes deram lugar aos seus parentes Saurópodes, que alcançaram tamanhos descomunais. Outros herbívoros menores surgiram, incluindo Ornitópodes e os Estegossauros, dinos couraçados de médio porte, cuja principal característica é um corpo robusto coberto por placas ósseas verticais ou espigões desde o pescoço até a cauda, apresentando cabeça pequena e pescoço curto. Pequenos ornitópodes como Driossauro viviam na sombra dos grandalhões, perseguidos por predadores de médio porte como o Ceratossauro entre outros.
Ceratosaurus caçando Dryosaurus
© Maurilio Oliveira

No mundo todo os dinossauros prosperavam em formas diferentes, alguns pequenos celurossaurídeos já davam sinais de evolução de que um dia dariam origem às aves. O Archaeopteryx, dinossauro pequeno que por muitos anos foi tido como a primeira ave é um exemplo dessa transição. Hoje o mesmo animal está classificado como dinossauro terópode, mas não deixa de ser um dos melhores exemplos de evolução encontrados no registro fóssil.
A fauna era similar em todo o planeta, devido à recente separação dos continentes. Podemos perceber claramente tal fato observando, por exemplo, a fauna da Formação Morrison (Estados Unidos) e da Formação Tendaguru (Tanzânia). Na primeira temos fósseis de Brachiosaurus, Stegosaurus, Allosaurus, Ceratosaurus entre outros. Na formação africana temos Giraffatitan, Kentrosaurus e restos de terópodes do grupo do Allosaurus e Ceratosaurídeos, embora no caso destes predadores os fósseis precários não permitam definição mais precisa.

Podemos citar, dentre os dinos mais conhecidos do Jurássico os clássicos saurópodes Apatosaurus, Brachiosaurus, Giraffatitan, Diplodocus, Barosaurus, também os predadores Dilophosaurus, Allosaurus, Ceratosaurus, Afrovenator, Torvosaurus, Ornitholestes, Anchisaurus, Cetiosaurus, Coelurus, Dinheirosaurus entre outros.
Os dinos ornitísquios (com quadril de ave) eram mais raros que saurísquios (com quadril de réptil), entrentanto alguns, como os Estegossauros e pequenos ornitópodes, desempenharam um papel importante como herbívoros de médio a grande porte.

Ceratosaurus atacando Camarasaurus
© Desconhecido: informe nos comentários se você sabe quem é o autorAfrovenator e Ornithocheirus
© Maurilio OliveiraFilhotes de Apatosaurus ajax
© Fabio Pastori

Além de dinossauros, na terra firme os crocodilos ainda tinham papel, embora menor que no período anterior e mamíferos pequenos parecidos com gambás viviam nas florestas e alguns até levando vida semi aquática. Duas espécies mais conhecidas são Megazostrodon e Morganucodon.
Megazostrodon
© Wikimedia Commons

Nos céus a falta dos pássaros não deixou um vazio, pelo contrário, deu a chance de outro grupo de animais prosperarem. Neste caso estou falando dos Pterossauros, os primeiros vertebrados a conquistar o vôo e que no Jurássico desenvolveram ainda mais, expandindo em variedade de tamanho e formatos. Espécies bem conhecidas como Pterodactylus, Dorignathus, Germanodactylys, Rhamphorhynchus, Bathrachoganthus e Anurognathus são bem representadas no registro fóssil, embora nenhuma chegasse a tamanhos extremos como aconteceu com pterossauros do Cretáceo.
Pterodactylus
© Luis Rey
Dimorphodon
© Luis Rey

Não podemos nos esquecer que além de pterossauros, o dino-ave Archaeopteryx, já apresentava sinais de vôo, pelo menos planado, assim sendo talvez um competidor por alimento no nicho em que vivia. O artista Gary Bloomfield fez uma pintura que mostra essa situação, um Archaeopteryx defendendo sua presa (um peixe) de vários pterossauros.
© Gary Bloomfield

Nos mares animais dos mais variados tipos viviam disputando comida e domínio por territórios, alguns preferindo uma vida mais estável no fundo dos mares rasos, atuando como "lixeiros" dos ecossistema, se alimentando de restos de animais ou predando por emboscadas. Entre estes animais rastejantes estavam os Caranguejos, como o Eryon arctiformis, e outros artrópodes, como camarões, lagostas e afins.
Caranguejo Eryon arctiformis
© Didier Descouens

Outros animais de fundo eram os ofiúros, animais do grupo dos equinodermos, parecidos com estrelas do mar. Espécies representantes desse grupo foram encontradas no registro fóssil, sendo que posso citar a espécie Geocoma elegans como uma delas. Outros equinodermos do jurássico incluem os ouriços do mar, como o Cidaris coronata.
Geocoma elegans
© HSU NHM 1998Cidaris coronata
© HSU NHM 1998

No entanto os mares do Jurássico tinham muito mais do que só animais de fundo, pois Peixes variados, incluindo peixes ósseos e tubarões, populavam os mares do mundo todo. Alguns gêneros conhecidos incluem Leptolepis, Leedsichthys, Lepidotes, Coelacanthus, Hybodus entre outros.
Leptolepis
© Wikimedia CommonsLeedsichthys
© BBCLepidotes
© Wikimedia Commons

Os moluscos como as ostras Gryphaea arcuata e Inoceramus mucronata já surgiam e outros moluscos chamados Amêijoas também prosperavam, como a Buchia acutistriata.
Gryphaea arcuata
© Wikimedia Commons

Os Cefalópodes eram abundantes, representados principalmente pelas Amonites, incluindo os gêneros Dactylioceras, Praeparkinsonia, e Acanthopleuroceras, além de moluscos do grupo dos Belemnites, como o Pachyteuthis. Os Brachiópodes ainda existiam, mas com menor expressão. Um exemplo de Brachiópode é a Rhynchonella.
Dactylioceras
© Nobu Tamura

Além de toda essa galera estranha os mares jurássicos eram habitados por animais que a maioria dos amantes da pré-história mais inexperientes confunde com dinos. Eles eram répteis marinhos, incluindo Crocodilos, Ictiossauros e Plesiossauros. Entre os crocodilomorfos, alguns dos quais eram bem primitivos, posso citar os gêneros, Machimosaurus, Protosuchus, Metriorhynchus, Teleosaurus, Geosaurus só para exemplificar alguns gêneros.
Metriorhynchus
© Gabriel Lio

Do grupo dos Ictiossauros, posso citar alguns gêneros que são conhecidos no registro fóssil, como Ophthalmosaurus, o próprio Ichthyosaurus, Temnodontosaurus, Brachypterygius, Stenopterygius que são os mais famosos.
Ophthalmosaurus
© Gabriel Lio
Ichthyosaurus
© Raúl MartínStenopterygius
© Dinoraul

Além dos Ictiossauros os mares do Jurássico estavam povoados pelos Plesiossauros, répteis marinhos diferentes dos já mencionados, com um corpo bem mais largo que o dos Ictiossauros e pescoços longos, por vezes descritos como uma cobra com corpo de tartaruga. Um subgrupo dos Plesiosaurus eram os Pliosaurus, que tinham pescoços grossos e musculares, cabeças enormes e dentes numerosos e fortes. Alguns gêneros conhecidos de Plesiossauros e Pliossauros são Cryptoclidus, Muraenosaurus, Rhomaleosaurus, Plesiosaurus, Pliosaurus, Liopleurodon, Attenborosaurus entre outros.
Liopleurodon, um Pliossaurídeo
© Felipe A. Elias
Cryptoclidus, um Plesiossaurídeo
© Luis Rey

Animais como o Notobatrachus, Eocaecilia e o Karaurus continuavam a linhagem dos anfíbios, começada antes mesmo dos dinossauros. Nesta época é que os sapos surgiram além de outros anfíbios avançados.
Notobatrachus
© Nobu Tamura
Eocaecilia
© Nobu TamuraKaraurus
© Nobu Tamura

Enfim, como você pôde perceber, o Jurássico foi um período muito importante e cheio de vida na Terra, um tempo de gigantes, em que a evolução mostou alguns dos mais impressionantes seres vivos que já pisaram no planeta. Só podemos estudar seus restos e imaginar como todos estes seres vivos, além de outros que provavelmente habitavam o mundo, como bactérias, vírus, fungos, parasitas variados, insetos de diversos tipos e outros bichos interagiam entre si formando um ecossistema completo e funcional. Posso dizer que é muito interessante parar e refletir por alguns minutos, imaginar e tentar ilustrar mentalmente como uma paisagem da época se pareceria.

O Fim do Período

Como já disse, o final do Jurássico não teve uma extinção em massa tão grande quanto no fim do Permiano ou do Cretáceo, pois muitas das espécies ou grupos de animais sobreviveram e passaram a viver e evoluir no Cretáceo. O paleontólogo Thomas Holtz afirma que Bakker falou sobre a extinção do Jurássico e que poucas espécies de dinossauros foram afetadas. O que acontece é que a maioria das extinções que marcam as divisões de períodos afetou em maior grau seres marinhos, sendo que no fim do Jurássico poucos animais terrestres foram realmente extintos, algumas espécies sim, mas não grupos inteiros. Por isso vemos no Cretáceo dinossauros semelhantes aos do Jurássico e outros animais como répteis marinhos, pterossauros além de uma infinidade de outros grupos.

O período Jurássico de fato seja talvez o mais conhecido dentre todos os da história geológica da terra, em parte pela publicidade do filme "Jurassic Park", baseado no livro homônimo de Michael Crichton. Apesar de que no livro, filme e respectivas sequências os animais mostrados sejam também de outros períodos, o nome "Jurassic" foi escolhido por Crichton por ser mais fácil de falar, lembrar e soar melhor. Também o mito de que dinossauros eram todos enormes e o fato de alguns dos maiores terem vivido no Jurássico, o período ficou popular como a era dos gigantescos saurópodes. Indepentente da popularidade o período é digno de admiração, pois deve ter sido belíssimo, riquíssimo em vida, como podemos perceber pelo pouco preservado em registro fóssil.
Espero que eu tenha sido claro o suficiente ao contar a você "paleo-leitor" sobre esse trecho da história do nosso planeta e que este texto tenha sido bem educativo e gostoso de ler. Se houver algo interessante que eu esqueci de escrever ou alguma correção a fazer, comenta abaixo dando sua contribuição, sempre com argumentação coerente, linguagem escrita formal e de preferência citando suas fontes. Lembre-se, o melhor pagamento ao blogueiro é a participação e reconhecimento dos leitores e se você tem um blog, sinta-se a vontade em divulgar a postagem através de links, mas por favor, respeite meu trabalho e não copie tudo, pois isso além de ser atestado de incompetência é crime. Valeu galera, até a próxima!

Fontes: