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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

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Rochas antigas podem estar entre as mais antigas do mundo

Novas evidências aumentam o debate sobre rochas primitivas encontradas no norte do Canadá

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Uma versão desta história apareceu em Volume 103, Edição 17


 

Um canivete com cabo de madeira repousa sobre uma grande rocha coberta de espirais de cinza escuro e branco.
A análise dessas rochas de um afloramento rochoso em Nunavik, Quebec, mostra que elas têm mais de 4 bilhões de anos. O canivete indica a escala das características geológicas. Crédito: Jonathan O'Neil

Em um afloramento rochoso remoto no norte do Canadá, cientistas encontraram mais uma confirmação de que a área abriga algumas das rochas mais antigas do mundo ( Science 2025, DOI: 10.1126/science.ads8461). O estudo data rochas retiradas de uma formação bem pesquisada chamada Cinturão de Rochas Verdes de Nuvvuagittuq em cerca de 4,16 bilhões de anos.

Esta descoberta situa a formação das rochas no éon mais antigo do planeta, o Hadeano. A análise de amostras deste período proporciona aos cientistas uma melhor compreensão dos ambientes da Terra primitiva, desde a formação da crosta do planeta até quando e onde a vida pode ter surgido.

“Se as rochas de Nuvvuagittuq forem Hadeanas, isso as tornaria as únicas rochas terrestres deste éon que conhecemos”, diz Martin Guitreau, da Universidade Clermont Auvergne, que não estava envolvido no estudo.

Os cientistas responsáveis pelo novo trabalho selecionaram amostras de uma faixa rochosa chamada intrusão máfica — um tipo de rocha basáltica que se forma após a formação das rochas que a circundam. Ao selecionar uma intrusão para análise, os cientistas podem identificar uma idade mínima para a rocha circundante. Mas datar rochas antigas com precisão é complicado, e estudos anteriores da área são controversos.

O padrão-ouro para determinar a idade de rochas antigas é medir o decaimento radioativo de isótopos de urânio em chumbo em minerais conhecidos como zircões. Mas nem todas as rochas contêm zircões, então, os pesquisadores se baseiam em um conjunto de isótopos radioativos mais comuns e de vida longa, como o samário e seu produto de decaimento, o neodímio.

A nova pesquisa comparou duas proporções desses isótopos: o samário-147, de longa duração, com o neodímio-143, e o samário-146, de curta duração, com o neodímio-142. Anteriormente, as rochas da formação eram datadas em cerca de 4,3 bilhões de anos , mas as duas proporções de isótopos não coincidiam, levando alguns cientistas a contestar a idade. No entanto, no novo estudo, as idades coincidem, aumentando a confiança na precisão da idade determinada da rocha.

"Isso acrescenta mais um tijolo à nossa argumentação de que este cinturão está atingindo uma idade superior a 4 bilhões de anos", diz Jonathan O'Neil, da Universidade de Ottawa, que liderou a pesquisa. "É uma oportunidade única para podermos interpretar a infância do nosso planeta."

Mas o debate não acabou. Guitreau ainda não está convencido da idade, citando processos geofísicos que poderiam afetar as medições e grandes incertezas com as idades de samário de longa duração.

“Acredito que essas rochas não sejam Hadeanas, mas carregam a assinatura fóssil de uma crosta primitiva que se formou bem no início da história da Terra e foi posteriormente reciclada no manto”, diz Guitreau.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

  Fósseis quase soterrados pelo lixo na Alemanha

Mina de Messel: do lixo ao luxo

Por pouco um dos principais depósitos de fósseis da Europa não virou um grande aterro sanitário. Em sua coluna de outubro, Alexander Kellner conta a história de uma região na Alemanha salva pela mobilização da sociedade alemã e da comunidade científica internacional. 
 
Por: Alexander Kellner
Publicado em 17/10/2011 | Atualizado em 17/10/2011
Mina de Messel: do lixo ao luxo
Vista panorâmica da mina de Messel, na Alemanha. A tentativa de transformar a região, que abriga um importante depósito fossilífero, em um lixão sucumbiu às manifestações populares. (foto: Alexander Kellner)
Pode até parecer obra de ficção: uma região extremamente importante para o conhecimento científico sendo destruída devido a interesses econômicos de uma poderosa sociedade capitalista. E o enredo não se passa em qualquer país, mas na respeitada Alemanha, que, além de ser uma potência econômica, tem uma sociedade com elevado grau de instrução.

Isso aconteceu com a mina de Messel. Ou melhor, ‘quase’ aconteceu, graças a uma grande articulação da sociedade, que contou, inclusive, com fundamental apoio da comunidade científica internacional.
A mina de Messel situa-se 35 km a sudeste da cidade de Frankfurt e pertence à região de Darmstadt. Conhecida desde 1859, essa mina foi inicialmente explorada devido a um pequeno depósito de carvão. Posteriormente, destacou-se na economia alemã por causa da exploração de petróleo e parafinas, que aconteceu entre 1885 e 1924. Nessa época, a mina chegou a produzir perto de 40% de toda a produção de óleo da Alemanha.

Além do valor econômico, foram encontrados fósseis nas rochas. O primeiro registro data de 1876 e era formado por ossos de um crocodilomorfo.
Crocodilomorfo fóssil
Crocodilomorfo fóssil encontrado na mina de Messel. (foto: Alexander Kellner)
Estima-se que mais de 50 mil fósseis já foram coletados na mina, desde peixes e plantas (que são os mais comuns) até raridades como cavalos pré-históricos, aves, morcegos e até um primata. Alguns deles têm, inclusive, restos de tecidos moles, como membranas, pelos e penas, sem contar alguns insetos que exibem a sua coloração original.
Mas como se formou esse importante depósito fossilífero?

Um lago subtropical

Pode parecer estranho, mas essa pergunta sobre a formação do depósito de Messel somente foi respondida em 2001, por meio de uma técnica chamada furo de sondagem. De forma simplificada, o procedimento – muito utilizado na prospecção de petróleo – consiste em fazer um furo nas rochas e retirar amostras das camadas que se encontram abaixo da superfície.
A amostra recolhida (chamada de testemunho) vem em forma de um longo tubo com mais ou menos um palmo de diâmetro que permite estabelecer, por exemplo, se na região havia um rio, um lago ou um vulcão. No caso da mina de Messel, esse tubo tinha 433 metros de comprimento.
Há aproximadamente 47 milhões de anos havia um vulcão na região que entrou em erupção
Os geólogos puderam então estabelecer que há aproximadamente 47 milhões de anos havia um vulcão na região que entrou em erupção, literalmente espalhando pelos ares as rochas graníticas (e extremamente duras) da região. Formou-se, então, uma grande cratera, que foi preenchida por água e, em curto espaço de tempo, transformou-se em um lago.
Naquela época, o clima era bem mais quente que o atual, em uma região considerada subtropical. Algas começaram a povoar o lago recém-formado, levando a um grande acúmulo de matéria orgânica. O fundo era desprovido de oxigênio e armazenava gases tóxicos, alguns possivelmente oriundos de uma contínua atividade vulcânica.
De tempos em tempos, esses gases tóxicos chegavam à superfície, matando grande parte dos organismos existentes no lago e ao redor dele. Aliás, existem pesquisadores que veem similaridades entre as mortandades ocorridas há 47 milhões de anos naquela região da Alemanha com o que aconteceu, por exemplo, no lago Nyos, em Camarões, onde a liberalização de gases tóxicos causou em 1986 cerca de 1.700 mortes – sem contar os animais e plantas.

O depósito de lixo

A exploração econômica da mina de Messel deixou de ser rentável e ela parou de funcionar em 1962. Mas seu conteúdo fossilífero continuou atraindo a atenção de pesquisadores.
Escavação na mina
Escavação em andamento na mina de Messel. Atualmente a região é usada no treinamento de paleontólogos e explorada apenas para o conhecimento científico. (foto: Alexander Kellner)
Tudo ia bem até 1971, quando o governo do estado de Hessen, onde fica Darmstadt, decidiu fazer ali um depósito de lixo.
Ao saber dessa iniciativa, a população local organizou-se em diversos movimentos, que se tornaram mais oficiais a partir de 1975. Panfletagem, cartas a políticos e um apelo ao chanceler alemão da época, Helmut Schmidt, foram algumas das medidas tomadas. Também houve um importante engajamento da comunidade científica alemã e internacional na forma de abaixo-assinados e dezenas de manifestações públicas.
Quando tudo parecia sob controle, aconteceu o inesperado: as obras do ‘lixão de Messel’ foram iniciadas, contra a vontade popular, em 1981.
Protestos intensificaram-se e bons samaritanos iniciaram – custeando do próprio bolso – mais de 50 processos contra os governantes de Darmstadt. No meio de pequenos avanços e derrotas, houve de tudo, até mesmo uma tentativa de cooptar os pesquisadores, dando-lhes o direito de continuar as atividades de pesquisa em 10% da área pelos próximos 20 anos a partir de 1983. Em 1987, as obras terminaram e o depósito de lixo estava pronto para entrar em funcionamento.

Vitória da preservação

Quando tudo parecia perdido, finalmente a vitória: a Justiça determinou que, apesar dos 65 milhões de marcos (moeda corrente na época) investidos, o ‘lixão de Messel’ não poderia entrar em funcionamento.
Em 1995, a mina de Messel foi reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade
Agora o frustrante: seria pelo valor científico daquelas camadas? Ou pelos eventuais danos que pudessem acontecer ao meio ambiente ou à população local? Ou por alguma dificuldade de natureza técnica descoberta na última hora? Não. O funcionamento foi indeferido porque... houve “defeitos jurídicos” nos procedimentos que levaram à autorização do funcionamento daquele depósito de lixo.
Bom, sem entrar no mérito dos ‘porquês’ da negativa, fato é que a comunidade e os pesquisadores não perderam tempo: fizeram um pleito e conseguiram que, em 1995, a mina de Messel fosse reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade.
Depois disso, foi estabelecido um geoparque no local, o que lhe garante proteção para as gerações futuras, desde que os governos mantenham o seu compromisso de preservar a região...
Turistas na mina de Messel
Dois turistas seguram um fóssil na mina de Messel. A região é aberta ao público, que tem a possibilidade de aprender detalhes sobre esse importante jazigo fossilífero. (foto: Alexander Kellner)
Felizmente podemos destacar que isso ocorreu. Desde 2010, existe na área um centro moderno, onde toda a história – tanto do surgimento do depósito quanto da sua defesa – é apresentada ao visitante.
Quem estiver na Alemanha e puder passar por lá não perde a viagem.