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sexta-feira, 29 de março de 2019

A jararaca-do-rabo-branco (Bothrops leucurus) pertence ao gênero responsável por nove entre dez acidentes com serpentes peçonhentas no Brasil (foto: Ivan Sazima).
 
No mundo existem por volta de 2.930 espécies de cobras ou serpentes. 

O Brasil abriga 321 delas – aproximadamente 10% do total –, das quais apenas 36 são peçonhentas.  

As serpentes peçonhentas brasileiras são divididas em duas famílias: Viperidae e Elapidae

A família Viperidae é composta por cinco gêneros, sendo os mais conhecidos o gênero Bothrops, que inclui espécies como a jararaca, o urutu-cruzeiro e a jararacussu; o gênero Crotalus, ao qual pertence a cascavel; e o gênero Lachesis, cuja espécie mais conhecida é a surucucu-pico-de-jaca. Já a família Elapidae é composta por dois gêneros, Leptomicrurus e Micrurus, e as espécies de ambos são chamadas vulgarmente de corais verdadeiras. 

A ocorrência de acidente ofídico está geralmente relacionada a fatores climáticos e ao aumento da atividade humana no campo. O pé e a perna das pessoas são os locais mais atingidos (71% dos casos), seguidos da mão e do antebraço (13% dos casos). Segundo a Coordenação Nacional de Controle de Zoonoses e Animais Peçonhentos (CNCZAP), 90,5% dos acidentes ofídicos são causados pelo gênero Bothrops, 7,7% pelo gênero Crotalus, 1,4% pelo gênero Lachesis e 0,4% pelo gênero Micrurus. 
 
É bom lembrar que, caso uma pessoa seja picada por uma cobra, não se deve fazer torniquete, cortar ou furar a região da picada. A vítima deve ser mantida em repouso e levada com urgência para o atendimento médico.   

Por: Marcus V. Cabral

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Diferença em cobra, serpente e víbora

Pode-se dizer que todas as cobras são serpentes, mas nem todas as serpentes são cobras. Entenda melhor


Para quem não sabe, existe diferença entre cobra, serpente e víbora. No entanto, é muito comum as pessoas usarem como sinônimos essas palavras no Brasil. Aliás, cobra, serpente e víbora possuem significados distintos. Para saber como distinguir cada uma delas, leia esse artigo.
Aqui você vai entender um pouco mais sobre cada um desses termos.Também vai descobrir quais são as principais características de cobra, serpente e víbora. Além disso, pode conferir o significado de ofidismo.

Cobra, serpente e víbora: qual a diferença?

Cobras

A palavra cobra muitas das vezes é utilizada como sinônimo de serpente, porém, cientificamente a palavra cobra refere-se as serpentes da família Colubridae (colubrídeos). Fato interessante é que a maioria das serpentes fazem parte desta família, havendo cerca de 2000 espécies no mundo.
Dentre as espécies existentes, grande parte delas são cobras inofensivas, de porte médio, ou seja, não são venenosas ou não possuem uma dentição adequada para inocular o veneno.
Uma falsa coral de cor preta, branca e vermelha
Rhinobothryum lentiginosum é o nome científico de uma cobra coral falsa (Foto: Wikipedia)

Podemos chegar ao consenso que todas as cobras são serpentes, mas nem todas as serpentes são cobras. No Brasil, as cobras mais conhecidas são as Simophis rhinostoma e Rhinobothryum lentiginosum, duas espécies de falsa coral; a cobra-cipó (Chironius exoletus) e a caninana (Spilotes pullatus). São as cobras mais numerosas do Brasil em termos de gêneros e espécies.

As cobras são répteis relativamente tranquilos, não são agressivos, fáceis de manusear, reproduzir e de manter em cativeiro. Contudo, alguns gêneros, como a Philodryas, são capazes de causar acidentes nos seres humanos, embora seu veneno seja menos potente que os acidentes causados pelos gêneros Bothrops e Crotalus.

Serpentes

O termo serpente deve ser utilizado quando nos referimos de modo genérico a todos os répteis rastejantes, sem patas, que apresentam o corpo alongado coberto de escamas e são pecilotérmicos.
Sendo assim, as serpentes são animais vertebrados, da classe dos répteis, da ordem squamata e subordem serpentes (ophidia). As serpentes são consideradas animais bem próximos aos lagartos, pois compartilham características em comum. Podemos concluir que as víboras e cobras são um tipo de serpente.
Uma serpente vermelha toda enrolada
Serpente é todo réptil que rasteja sem patas e que possui o corpo coberto por escamas (Foto: depositphotos)
As serpentes possuem escamas revestindo seu corpo para evitar a desidratação e também para proteger contra possíveis impactos ou choques mecânicos. Devido suas características anatômicas, as serpentes conseguem engolir suas presas sem precisar mastigá-las.
Alimentam-se de alguns répteis, aves, peixes e até de mamíferos. Possuem ampla distribuição geográfica, ou seja, são encontradas em quase todas as partes do mundo, exceto em ambientes de clima muito frio. Preferem os climas mais quentes, como o tropical e o equatorial.
Muitas serpentes são peçonhentas e injetam seu veneno através de dentições (presas inoculadoras) especializadas. No Brasil há aproximadamente 70 espécies de serpentes peçonhentas, ou seja, venenosas.
Quando uma pessoa é picada por uma serpente venenosa, os sintomas podem ser imediatos ou não, pois depende da espécie em questão. Fato é que se não tratado corretamente, com soro específico, o indivíduo pode vir a óbito.
Além da dentição específica, as serpentes peçonhentas possuem uma estrutura chamada de fosseta loreal ou lacrimal. A fosseta loreal fica localizada entre a narina e o olho do animal, sendo um órgão termorreceptor que permite a serpente identificar a variação de temperatura ambiental. As fossetas loreais são conectadas diretamente ao encéfalo da serpente, sendo de suma importância para ela detectar a presença de presas ou predadores.

Víboras

As víboras são animais vertebrados, da classe dos répteis, da subclasse lepidosauria, da ordem squamata, da subordem serpentes, da família Viperidae (viperídeos). Pode-se afirmar que as víboras são serpentes do tipo venenosas, com dentição apta para a inoculação de veneno, com formato de cabeça triangular e super ágeis.

Elas possuem grande habilidade em dar o bote em suas presas, sendo assim, são animais muito perigosos. As principais características das víboras são: presença de fosseta loreal, olhos pequenos com as pupilas em formato de fenda vertical, escamas alongadas e ásperas de igual aparência na cabeça e no corpo, cauda curta que afina bruscamente, hábitos noturnos, atacam quando se sentem ameaçadas, são ovovivíparas.
Uma cascavel camuflada na terra
Cascavel é um tipo de víbora encontrada no Brasil (Foto: depositphotos)

As víboras são consideradas os répteis mais venenosos e bem adaptados que existem. As mais conhecidas são: jararaca, cascavel, surucucu, víbora da morte, víbora cornuda, víbora do gabão e víbora de russel. Outro grupo de víboras venenosas são as da família Elapidae, que tem como principal representante a coral verdadeira.

As víboras da família viperidae, como as jararacas, surucucus e cascavéis, são encontradas no Brasil. Porém, algumas poucas espécies estão ameaçadas em extinção, tais como: jararaca de alcatrazes, jararaca ilhoa, jararacuçu tapete, urutu cruzeiro, jararaca verde e cotiara.

No Brasil, a maioria dos acidentes ofídicos é devido a víboras dos gêneros Botrópico (jararaca, urutu e jararacuçu), Crotálico (cascavel), Laquésico (surucucu) e Elapídico (coral verdadeira).
Veja também: Animais peçonhentos

O que fazer se for picado por uma víbora?

  • Procure ajuda médica imediatamente. Os primeiros 30 minutos são essenciais para salvar uma vida
  • Manter-se calmo, evite se mexer absurdamente
  • Se possível, lavar o local da picada com água corrente e sabão
  • Aplicar gelo no local
  • Se possível, identificar o tipo de serpente, seja através de foto ou descrição do animal. Isso será fundamental para a correta administração de soro no paciente.

O que não fazer se for picado por uma víbora?

  • Nunca fazer garrote ou torniquete
  • Nunca cortar ou perfurar o local da picada
  • Nunca colocar folhas de plantas ou ervas, pó de café, pasta de dente ou qualquer outra substância que contamine o local da picada
  • Nunca oferecer ao acidentado qualquer tipo de bebida alcoólica, chá ou remédio
  • Nunca realizar qualquer procedimento que atrase o devido atendimento médico.
Veja também: Sabia que as cobras já tiveram pernas e podem voltar a ter?

Ofidismo

É considerado ofidismo todos os acidentes causados por animais peçonhentos, principalmente pelas serpentes. O ofidismo é considerado um sério problema de saúde pública, principalmente se não for administrada a soroterapia de forma adequada e em tempo hábil.
No Brasil, os principais agentes são as serpentes dos gêneros Bothrops, Crotalus, Lachesis e Micrurus, que possuem cerca de 60 espécies de grande importância médica. Segundo o Ministério da Saúde, ocorrem cerca de 19 mil a 22 mil acidentes com serpentes peçonhentas por ano.
O acidente ofídico está relacionado a fatores climáticos e ao aumento da atividade humana nos trabalhos no campo. O público masculino é o mais afetado, entre a faixa etária de 15 a 49 anos. As pernas e os pés são os locais mais atingidos.

Referências

SANDRIN, Maria de Fátima Neves; PUORTO, Giuseppe; NARDI, Roberto. Serpentes e acidentes ofídicos: um estudo sobre erros conceituais em livros didáticos. Investigações em ensino de ciências, v. 10, n. 3, p. 281-298, 2016.

PINHO, F. M. O.; PEREIRA, I. D. Ofidismo. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 47, n. 1, p. 24-29, 2001.

DOS-SANTOS, Maria Cristina et al. Serpentes de interesse médico da Amazônia. UA/SESU, 1995.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Pesquisadores descrevem ação de molécula mais potente que a toxina botulínica

09 de maio de 2017

 
Pesquisadores descrevem ação de molécula mais potente que a toxina botulínica Encontrada no veneno de serpentes cascavéis, a crotoxina é capaz de paralisar músculos por tempo prolongado, além de apresentar ação anti-inflamatória, analgésica, antitumoral e imunomoduladora ( foto: cascavel/Wikimedia Commons)

  
Karina Toledo | Agência FAPESP – Encontrada no veneno de serpentes cascavéis (Crotalus durissus), a crotoxina é uma molécula que já apresentou em experimentos laboratoriais potencial para ser usada como anti-inflamatório, analgésico, antitumoral, imunomodulador e até mesmo como um paralisante muscular mais potente que a toxina botulínica.


Porém, para que esse potencial terapêutico possa ser transformado em fármacos, é preciso antes compreender em detalhes como a crotoxina interage com as células humanas. Avanços importantes nesse campo de estudo foram apresentados por pesquisadores brasileiros em artigo publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

“Nós sugerimos um novo arranjo estrutural da molécula e também um modelo para explicar seu efeito tóxico sobre o sistema nervoso. Essas informações podem ajudar outros pesquisadores a desenhar compostos sintéticos com estrutura e atividade semelhantes às das regiões da crotoxina que despertam interesse farmacológico”, afirmou Carlos Fernandes, pesquisador do Instituto de Biociências (IBB) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu.

O trabalho foi realizado durante o pós-doutorado de Fernandes, com apoio da FAPESP e supervisão do professor do IBB-Unesp Marcos Roberto de Mattos Fontes.

“A crotoxina é considerada um heterodímero, ou seja, um complexo formado por duas proteínas diferentes: a CA, que não é tóxica e não tem ação enzimática, e a CB, uma fosfolipase responsável pelo efeito neurotóxico”, explicou Fontes, que há pelo menos uma década investiga o mecanismo de ação da molécula com apoio da FAPESP.

Em 2008, o grupo descreveu na revista Proteins a estrutura tridimensional da proteína CB isolada.
Por meio de uma técnica conhecida como cristalografia por difração de raios X – que consiste em cristalizar a proteína e observar como esse cristal difrata a radiação emitida sobre ele –, os pesquisadores da Unesp descobriram que, quando não está conectada à CA, a CB tende a se aglomerar em grupos de quatro, formando o que os cientistas chamam de tetrâmeros. Nesse arranjo, entretanto, a proteína apresenta uma menor ação neurotóxica do que quando associada à CA.
Poucos anos depois, um grupo da França publicou no Journal of Molecular Biology a estrutura cristalográfica do complexo formado por CA e CB. No entanto, algumas regiões importantes de CB ficaram escondidas por CA no modelo cristalográfico, entre elas as três apontadas na literatura científica como farmacologicamente ativas: a porção N-terminal (os primeiros resíduos de aminoácido da cadeia), a C-terminal (os últimos resíduos) e o sítio catalítico (onde a reação enzimática ocorre).

“Esse trabalho refutou nossa hipótese de que a CB isolada se organizava em tetrâmeros, criando um impasse no meio acadêmico”, contou Fontes.
O grupo da Unesp decidiu então investigar o arranjo estrutural do complexo proteico em solução, ou seja, em um meio líquido. Essa condição é mais parecida com a que a molécula é encontrada na natureza.
Para isso, combinaram cinco diferentes técnicas biofísicas: calorimetria de titulação isotérmica, espectroscopia de fluorescência, dicroísmo circular, espalhamento de luz dinâmico e espalhamento de raios X a baixo ângulo.

A investigação contou com a colaboração de pesquisadores do Instituto de Física (IF) da Universidade de São Paulo (USP), da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP), do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Fundação Ezequiel Dias (Funed), de Belo Horizonte (MG).

“Pelas análises calorimétricas observamos que as moléculas de CB isoladas em um recipiente encontravam-se em tetrâmeros, mas, à medida que íamos injetando a CA no meio, os tetrâmeros se dissociavam e as duas proteínas se uniam para formar os heterodímeros”, contou Fernandes.
A observação foi confirmada usando o espalhamento de luz dinâmico e o espalhamento de raios X a baixo ângulo, técnicas que permitem medir o tamanho das moléculas, explicou Fontes. “Ao medir o diâmetro, conseguimos confirmar que a CB isolada forma um tetrâmero, a CA forma um monômero e as duas juntas, um dímero”, disse.

Já a fluorescência, como explicou Fontes, permite descobrir as partes da molécula que estão expostas ao solvente (água, no caso da pesquisa). A análise revelou que na interface entre CA e CB encontram-se quatro resíduos do aminoácido triptofano. Dois desses resíduos estão localizados bem na entrada do sítio catalítico de CB – fechando o acesso à região da proteína responsável pelo efeito biológico. Já a região N-terminal de CB fica exposta ao solvente mesmo quando a proteína está ligada à CA.

“Segundo a hipótese que montamos com base nessas análises, duas das regiões tóxicas da CB ficam praticamente bloqueadas pela CA quando estão na forma de heterodímero. Mas, ao chegar perto da membrana celular, a CB consegue se ligar ao tecido pela porção N-terminal. Isso faz com que a CA se solte do complexo, possibilitando que as outras regiões ativas de CB – o sítio catalítico e a C-terminal – também consigam se ligar à membrana, desencadeando o efeito neurotóxico”, afirmou Fernandes.

Membrana pré-sináptica

Embora seja capaz de se ligar à membrana de qualquer célula do corpo humano, a crotoxina afeta especialmente a chamada membrana pré-sináptica – localizada na junção entre os músculos e os nervos.

De acordo com Cristiano Oliveira, pesquisador do IF-USP e coautor do artigo, a molécula é considerada um dos principais agentes paralisantes do veneno da cascavel e tem sido estudada em modelos animais para o tratamento de estrabismo por apresentar efeito mais duradouro que o da toxina botulínica.

“Estudos anteriores com animais indicaram que a crotoxina tem ação anti-inflamatória, antitumoral e analgésica. Também é possível que tenha aplicação estética. Mas faltava descobrir de que forma ela atua. Nós estamos descrevendo um possível mecanismo de ação, um passo importante para chegar ao desenvolvimento de fármacos”, comentou Oliveira.

Segundo Fernandes, a descoberta também abre caminho para a busca de compostos capazes de inibir a ação da crotoxina, que seriam úteis para aumentar a eficácia do soro antiofídico.
O artigo “Biophysical studies suggest a new structural arrangement of crotoxin and provide insights into its toxic mechanism” pode ser lido em: https://www.nature.com/articles/srep43885.