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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Costão Rochoso

Por: Marcus V. Cabral - 01/07/15


caranguejo Pachygrapsus transversus (Praia de Cibratel, Itanhaém, SP). Foto por Fernanda Zambom
caranguejo Pachygrapsus transversus (Praia de Cibratel, Itanhaém, SP). Foto por Fernanda Zambom.
 
O costão rochoso é um ambiente costeiro formado por rochas situado na transição entre os meios terrestre e aquático (SANTOS & GOMES, 2006). É considerado muito mais uma extensão do ambiente marinho que do terrestre, uma vez que a maioria dos organismos que o habitam, estão relacionados ao mar (LITLLE & KITCHING, 2000 apud ALMEIDA, 2008). É composto por diversos micro-habitat que contribuem para a riqueza da comunidade biológica, pois apresenta superfície extra para fixação, abrigo contra predadores, refúgio e proteção contra a dessecação, favorecendo as fortes interações biológicas como consequência da limitação de substrato, ao longo do gradiente existente entre os habitat terrestre e marinho (ALMEIDA, 2008).


O costão pode ser dividido em costões expostos (batidos), formados por paredões lisos, os quais apresentam grande hidrodinamismo pelo alto impacto de ondas, menor diversidade de hábitat, elevada taxa de produtividade primária devido ao elevado fluxo de nutrientes. Porém, a riqueza de espécies nesta região é menor, devido à grande perturbação sofrida pelos organismos, requerendo adaptações fisiológicas e morfológicas, desenvolvendo estruturas eficientes de proteção e fixação, para suportar o estresse ambiental (ALMEIDA, 2008; COUTINHO, 2004, MORENO & ROCHA, 2012; MAIS & ZALMON, 2008). Já o costão protegido, caracteriza-se por ser bastante fragmentado e por apresentar baixo hidrodinamismo. Isso leva a formação de complexos habitats com muitas espécies associadas, pois não requer adaptações complexas. Entretanto, o fluxo de nutrientes é menor, limitando o crescimento das algas.


De acordo com Moreno & Rocha (2012) e Mais & Zalmon (2008), uma das características mais representativas do costão é sua zonação vertical, implicando em uma elevada variação das condições ambientais (temperatura, salinidade e teores de oxigênio dissolvido) em menor escala espacial do que nos ambientes terrestres. Assim, essa zonação determina e limita a distribuição dos organismos em locais onde a interação de fatores físicos, químicos e biológicos favorecem a sobrevivência.


Segundo Almeida (2008) diversas metodologias, como as de Stephenson & Stephenson (1949) e de Lewis (1964), buscaram classificar a zonação do costão, entretanto, independentemente da metodologia adotada, definiram-se, de modo geral, três principais zonas de distribuição. As regiões mais superiores são mais influenciadas pelos fatores físico-químicos, contudo, cada região possui sua própria fisionomia, respondendo diferente para cada fator ambiental (LEVINTON, 2001 apud ALMEIDA, 2008).


A zona supralitoral, permanentemente exposta ao ar, chegando apenas borrifos da água do mar. Seu limite inferior é caracterizado pela presença de vegetação terrestre (liquens, bromeliáceas, cactáceas, entre outras) e o limite superior pela ocorrência de cirripédios (cracas), isópodes ou gastrópodes. Nesta faixa, os fatores abióticos como temperatura e radiação solar influenciam bastante na distribuição dos organismos, os quais são muito adaptados à perda de água e à variação da temperatura (ALMEIDA, 2008; MORENO & ROCHA, 2008; MAIS & ZALMON, 2008).


Segundo Almeida (2008), a zona mesolitoral é a região sujeita às flutuações da maré, submersa durante a maré alta e exposta durante a maré baixa. Seu limite superior é caracterizado, geralmente, pela ocorrência de cirripédios e o inferior pela alga parda Sargassum sp. Os organismos sésseis desta região estão adaptados à esta variação diária e consequentemente à todas as mudanças físicas que isto implica. Nessa área se formam as "poças de maré", depressões onde a água do mar fica represada durante a maré baixa e que podem estar sujeitas a alta exposição ao calor, sofrendo grandes alterações de temperatura e salinidade.

A zona infralitoral é a região que permanece submersa, caracterizada pela alga Sargassum sp em seu limite superior e pelo encontro das rochas com substrato arenoso em seu limite inferior. Como os fatores ambientais são mais estáveis nessa zona, as relações bióticas (predação, herbivoria e competição) adquirem maior importância na determinação da distribuição biológica (MORENO & ROCHA, 2012; ALMEIDA, 2008)


Segundo Coutinho (2004) é considerado um dos ecossistemas mais produtivos e importantes da zona costeira por abrigarem numerosas espécies de reconhecida importância ecológica e econômica, tais como: mexilhões, ostras, crustáceos, algas e peixes. Por ser um ambiente de transição apresentam grande quantidade de nutrientes e, consequentemente, uma elevada biomassa e produção primária de microfitobentos e de macroalgas.


Portanto, os costões rochosos são locais de alimentação, crescimento e reprodução de um grande número de espécies vinculadas por fortes interações biológicas, em função da limitação de substrato ao longo de um gradiente existente entre estes ambientes (Coutinho, 2004). Dessa forma, esse ecossistema funciona como um bioindicador das condições ambientais locais.


Para a caracterização de alguns organismos que compõem a biota, foi realizada uma visita técnica à praia de Cibratel, na cidade de Itanhaém, localizada na Baixada Santista, a 90 km da capital paulista, compondo com os municípios de Bertioga, Cubatão, Guarujá, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande, Santos e São Vicente.


Os materiais utilizados para a coleta dos organismos foram roteiros, sacos plásticos, pinças, potes escuros, oxigenador portátil, refratômetro, termômetro, luvas, GPS, elásticos, caixas de plástico, réguas e lápis. Foi realizada a medição de salinidade, temperatura e posição geográfica do local.


As coletas foram realizadas no período matutino, correspondente à vazante da maré e durante o período lunar de sigizia. Desta forma, foi possível permanecer por aproximadamente três horas.


Uma vez que o nível da maré encontrava-se na região de infralitoral, foi possível realizar as atividades entre as rochas, poças de maré e a areia. Para a coleta no costão rochoso da praia de Cibratel, Itanhaém-SP, foi escolhida a maré de sigizia, caracterizada pelo aparecimento da lua cheia ou nova. Tal evento resulta em preamares mais altas e baixa-mares mais baixas, fornecendo um tempo maior de coleta e permanência no local. Isso ocorre devido ao alinhamento da Lua, Sol e Terra, no qual as forças de atração da Lua e do Sol se somam provocando uma grande interferência. (NYBAKKEN, 2001).


O costão rochoso de Cibratel apresenta uma grande diversidade de organismos por ser protegido, caracterizado por ser uma região com baixo hidrodinamismo, o que favorece a fixação e estabelecimento de espécies. Com isso, os mesmos ainda apresentam diversas adaptações para as condições ambientais encontradas no costão. Tais adaptações estão relacionadas, principalmente, com: variações de umidade, temperatura, salinidade e concentração de oxigênio na água, proteção contra os choques das ondas, contra predadores, entre outros.

A seguir, estão relacionados alguns dos organismos encontrados ao longo do costão, apresentando algumas de suas principais características e adaptações que permitem à sobrevivência nesse ambiente, de acordo com HICKMAN et al. 2004 e NYBAKKEN, 2000.


Pepino do mar – São caracterizados por apresentarem endoesqueleto calcário, que os fornecem sustentação. A organização ou rearranjo dos ossículos calcários pode tornar o pepino mais mole ou rígido, sendo que o enrijecimento pode ser um fator contribuinte contra a predação. Alimentam-se através da presença de tentáculos cobertos por muco na região da boca, os ajudando na captura de microrganismos e suspensões. Em situações de emergência, estes tentáculos podem ser retraídos, conferindo proteção. Ainda para a proteção, algumas espécies possuem veneno na parede do corpo, ou a chamada evisceração, onde o animal expele parte de suas vísceras, como forma de distrair o predador, ou pela presença de veneno nas regiões internas do corpo, encontrado em apenas algumas espécies. A região expelida é regenerada posteriormente. Também podem se proteger por possuírem coloração semelhante ao do substrato, dificultando a visualização por parte de predadores. Locomovem-se através dos pés ambulacrais, e apresentam um sistema de bombeamento de água, do ânus até a árvore respiratória, onde ocorrem as trocas gasosas.


Siris – Possuem apêndices toráxicos que auxiliam na alimentação, bem como os quelipodos, um apêndice modificado com a função de manipulação do alimento e proteção. Apresentam os apêndices posteriores modificados na forma de um remo, o que lhes auxilia na natação. Os abdomes são pequenos e dobrados abaixo de uma carapaça, sustentando o corpo, além de os proteger de possíveis choques mecânicos, predação e dessecação.


Caranguejos –
Semelhantes aos siris, com abdome pequeno e dobrado abaixo de uma carapaça, fornecendo sustentação ao corpo e conferindo proteção contra predadores, choques mecânicos e dessecação. Apresentam quelípodos e apêndices toráxicos modificados para a manipulação do alimento e proteção contra predadores. Deslocam-se a fendas rochosas para evitar predação, e algumas espécies possuem coloração semelhante ao substrato, dificultando a sua visualização. Outros possuem colorações mais chamativas, com a finalidade de atrair parceiros sexuais, entre outras.


Anêmonas – Possuem tentáculos na cavidade oral para a captura de alimento e um sistema intrínseco de revestimento, evitando a dessecação. Possuem ainda um sistema de ajuste osmótico para evitar o estresse osmótico. Algumas espécies produzem toxinas para evitar a predação.


Ouriço do mar
– São caracterizados pela presença de espinhos, utilizados na locomoção, via sistema ambulacral, proteção e fixação em fendas, esta os auxiliando contra os movimentos das ondas e os protegendo de predadores. Algumas espécies podem ser venenosas. Apresentam endoesqueleto calcário para a sustentação do corpo e possuem a boca na parte inferior do corpo, onde se encontra a lanterna de Aristóteles, responsável pela raspagem do substrato, fornecendo alimentos.


Peixes – Possuem diversas adaptações morfológicas, fisiológicas e comportamentais que os conferem sobrevivência para as variações de temperatura, concentração de oxigênio e salinidade das poças formadas pela maré. Refugiam-se em fendas e buracos nas rochas e no solo para se protegerem das ondas.


Camarão
– Possuem apêndices especializados e o leque caudal com a finalidade de auxiliar na natação, e apêndices toráxicos modificados para a alimentação. Seu exoesqueleto é formado de quitina, responsável pela sustentação do corpo e proteção contra choques mecânicos. Através da mudança de pigmentação do corpo devido à ação do sistema nervoso, podem se camuflar, evitando possíveis predações.

Cracas – São encontradas fixadas a um substrato, aos quais se fixam através do processo de cimentação, evitando o arraste das ondas, ao mesmo tempo em que não se ressecam. Para evitar possíveis choques mecânicos e a dessecação, possuem uma carapaça formada por placas calcárias. Alimentam-se através da filtração de partículas suspensas na água pelos apêndices toráxicos.


Barata do mar (Lygia sp) –
São muito encontrados nas praias e apesar de não serem marinhos propriamente, são encontrados acompanhando a linha da maré e se alimentam de detritos. Podem mudar de coloração para dificultar a visualização por parte dos predadores.


Ermitões (Pagurus sp) – Possuem apêndices toráxicos modificados que os auxiliam na alimentação, bem como a presença de quelípodos, que os auxiliam na manipulação do alimento e contra a predação. Seu exoesqueleto é composto de quitina, fornecendo sustentação e proteção contra choques mecânicos. A região do abdome é vulnerável, mas são flexíveis para prender o animal dentro de conchas vazias, evitando assim que seja predado. São dependentes da água para sobreviver.


Poliquetas
– Possuem numerosas cerdas nos segmentos do tronco, a maioria com parapódios bem desenvolvidos que os auxiliam na natação.


Portanto, a partir dessas observações as possíveis conclusões são: (1) o costão é um ambiente estressante para muitas espécies, principalmente as que vivem em condições ambientais variáveis em relação à temperatura, salinidade e dessecação (ALMEIDA, 2008; COUTINHO, 2004); (2) os organismos que habitam o costão possuem muitas adaptações morfológicas, como o fechamento hermético das valvas (bivalves), coloração escura do corpo para refletir calor, estruturas de fixação e superfície corpórea arredondada; fisiológicas, como tolerância à desidratação e variações de salinidade, produção de muco e resfriamento por evaporação; e comportamentais, como a migração vertical de organismos frágeis em função da maré e refúgio em fendas ou banco de algas; (3) apesar de ser um ambiente estressante, a diversidade de espécie nesse tipo de ambiente é bastante elevada, onde podem ser encontrados diferentes grupos taxonômicos; (4) as espécies distribuem-se de acordo com a zonação vertical do costão, de acordo com as adaptações às condições do ambiente; e (5) destacando-se as espécies de crustáceos como caranguejos, siris, ermitões, camarões e cracas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALMEIDA, V. F. Importância dos costões rochosos nos ecossistemas costeiros. Cadernos de Ecologia Aquática. vol. 3, n. 2, p. 19-32, 2008. Disponível em: < http://www.ceac.furg.br/revista/artigos/26_Vivian.pdf >. Acesso em: 19 Abr. 2014.


CARVALHAL F.; BERCHEZ F. A. S. Costão Rochoso, a diversidade em microescala. Disponível em: < http://www.ib.usp.br/ecosteiros/textos_educ/costao/index2.htm >. Acesso em 19 Abr. 2014.


CARVALHO, J. P.; SAWAYA, P. Achegas ao Dicionário dos Animais do Brasil, de Rodolpho von Ihering. Bol. Inst. Oceanogr. [online]. 1952, vol.3, n.1-2, pp. 189-196.


COUTINHO, R. Programa Nacional da Biodiversidade – PRONABIO - Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira – PROBIO Sub-Projeto: Avaliação e Ações Prioritárias para a Zona Costeira e Marinha. Grupo de Ecossistemas: Costões Rochosos. In: Guia para o licenciamento ambiental, Atividades de Sísmica Marítima na Costa Brasileira, Atividades de Perfuração de Óleo e Gás, 2004.


HICKMAN, C. P.; ROBERTS, L. S.; LARSON, A. Princípios Integrados de Zoologia. 11ª Edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. 846 p.


MASI, B. P.; ZALMON, I. R. Zonação de comunidade bêntica do entremarés em molhes sob diferente hidrodinamismo na costa norte do estado do Rio de Janeiro, Brasil. Rev. Bras. Zool. 2008, vol.25, n.4, pp. 662-673, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbzool/v25n4/11.pdf . Acesso em: 19 Abr. 2014.


MORENO, T. R., ROCHA, R. M. Ecologia de costões rochosos. Estud. Biol., Ambiente Divers. v. 34, n. 83, p. 191-201. 2012.


NYBAKKEN, J. W. Marine Biology: An Ecological Approach. 5ª Edição. Califórnia: Hardcover, 2000. 516 p.


SANTOS, W.; GOMES, E.T. Importância econômica dos costões rochosos. Disponível em: < http://www.unigranrio.br/unidades_acad/ibc/sare/.../A01N02P06_R.html.
Acesso em: 22 Abr.2014

sábado, 22 de março de 2014

Sob efeito da Lua

Força gravitacional lunar causa perturbações na atmosfera da Terra, facilitando interferência na comunicação com satélites 

RICARDO ZORZETTO | Edição 217 - Março de 2014
© NASA / EARTH OBSERVATORY
Um clássico de 1968: a Terra vista pela equipe da Apollo 8, a primeira missão tripulada a orbitar a Lua
Um clássico de 1968: a Terra vista pela equipe da Apollo 8, a primeira missão tripulada a orbitar a Lua

A Lua, o maior objeto celeste próximo à Terra, influencia mais do que o nível dos oceanos. Assim como faz as águas subirem e baixarem ao longo do dia, a Lua também deforma a atmosfera do planeta – bem pouco, é verdade, cerca de 1 metro – e a deixa alongada como uma bola de futebol americano. Esse esticão sutil, decorrente da atração gravitacional lunar, gera perturbações na alta atmosfera que foram agora mapeadas em escala global por uma equipe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O grupo coordenado pelo físico Paulo Prado Batista usou dados coletados durante 10 anos por um satélite norte-americano projetado para estudar a alta atmosfera da Terra e produziu o mais detalhado levantamento das variações na temperatura a altitudes superiores a 30 quilômetros (km) – três vezes mais alto do que voam os aviões comerciais.

Os pesquisadores verificaram que na faixa que vai dos 30 km aos 110 km de altura – e envolve a estratosfera e a mesosfera, na última estão as temperaturas mais baixas da atmosfera (até 100 graus Celsius negativos) – a temperatura pode oscilar até 8 graus ao longo do dia por influência, em grande parte, da atração gravitacional lunar. A força exercida pela Lua sobre o planeta provoca vibrações nas camadas mais baixas da atmosfera que se propagam para as mais altas na forma de ondas semelhantes às que surgem quando se agita uma corda. Assim como fazem a superfície do oceano oscilar, essas ondas, conhecidas como marés lunares, fazem a atmosfera pulsar. “Nos oceanos, a força gravitacional da Lua se manifesta como uma mudança de altura, já na atmosfera ela altera a temperatura ou a velocidade dos ventos”, explica Batista. Ele e as físicas Inez Staciarini Batista, pesquisadora do Inpe, e Ana Roberta Paulino, sua ex-aluna de doutorado no Inpe, apresentaram os detalhes desse mapeamento em dezembro de 2013 no Journal of Geophysical Research.
056-059_Atm-Lunar_217-infoAs variações observadas pelo trio se tornam maiores à medida que se sobe na atmosfera – e atingem o grau máximo por volta dos 110 km de altura, onde o ar é mais rarefeito e a densidade de gases menor. Essas oscilações de temperatura ocorrem em ciclos com 12 horas e 25 minutos de duração, característicos das marés lunares. O período corresponde ao tempo que leva para o planeta dar meia volta em torno de seu eixo e o ponto de sua superfície que estava mais próximo à Lua se tornar o mais distante – tanto a rotação da Terra como a translação da Lua ocorrem no mesmo sentido, embora o movimento da Lua seja mais lento, razão por que esse tempo não coincide com 12 horas. Como a atração gravitacional entre dois corpos depende da distância entre eles, quanto mais próximo da Lua, maior a força e quanto mais distante, menor. Tanto no ponto em que a força é máxima como naquele em que é mínima a atmosfera se esgarça: no primeiro caso, por sofrer um puxão mais intenso e, no segundo, por tender a escapar onde a força é mais fraca. É por causa dessa combinação que a atmosfera ganha a aparência de bola de futebol americano.

O mapeamento do Inpe fornece as evidências mais abrangentes de que as marés lunares na atmosfera, de cuja existência já se duvidou, de fato existem e são importantes para conhecer melhor o clima de uma região do espaço habitada por satélites de pesquisa e comunicação.
Quando formulou sua lei de gravitação universal no final do século XVII, o físico e matemático inglês Isaac Newton propôs que, assim como provoca oscilações no nível dos oceanos, a Lua também poderia influenciar a atmosfera, que também se comporta como um fluido. Pierre-Simon Laplace, astrônomo e matemático francês, retomou o tema cerca de um século mais tarde, mas os dados observacionais disponíveis eram insuficientes. Só em 1846 o coronel inglês Edward Sabine publicou as primeiras medições consideradas confiáveis das marés lunares na atmosfera, feitas no observatório da ilha britânica de Santa Helena, próximo à costa ocidental da África. Mas tanto essas medições como as feitas nas primeiras décadas do século XX eram pontuais. Agora, com o auxílio do satélite Timed, se conseguiu coletar informações sobre a estratosfera e a mesosfera numa faixa que se estende da latitude 50 Norte, mais ou menos na altura do Canadá e da Rússia, até a latitude 50 Sul, onde ficam a Nova Zelândia e o sul do Chile e da Argentina.

A propagação dessas marés na atmosfera agita as moléculas dos gases, provocando a mudança na temperatura. Os dados coletados de 2002 a 2012 pelo satélite Timed mostram que as variações térmicas são maiores nos meses de dezembro e janeiro em boa parte da alta atmosfera e menores entre março e maio. Elas também ocorrem com maior intensidade de junho a setembro no hemisfério Norte e em novembro e dezembro no hemisfério Sul. Segundo Batista, essas variações dependentes da latitude já eram bem explicadas por dois fatores: a excentricidade da órbita da Lua (sua trajetória ao redor da Terra não é circular, mas elíptica); e pela influência combinada da Lua e do Sol sobre a temperatura da atmosfera (enquanto a Lua faz a temperatura mudar pela atração gravitacional, o Sol altera a temperatura pela energia que fornece diretamente na forma de radiação).

© NASA
Um perfil da atmosfera: ônibus espacial Endeavour diante da troposfera (em laranja), estratosfera (em amarelo) e mesosfera (em azul)
Um perfil da atmosfera: ônibus espacial Endeavour diante da troposfera (em laranja), estratosfera (em amarelo) e mesosfera (em azul)

Variação longitudinal

Um resultado, porém, surpreendeu os pesquisadores. Além da variação de acordo com a latitude, eles também observaram variações longitudinais (leste-oeste). Em alguns meses do ano houve picos de flutuação de temperatura nas regiões da alta atmosfera localizadas sobre a Amazônia, a África e o oceano Pacífico. Segundo o físico, algum efeito longitudinal era até esperado, mas não na intensidade observada – como a Terra gira em torno de seu eixo, todos os pontos do eixo longitudinal em algum momento são expostos à mesma força de atração da Lua, o que homogeneizaria essa influência. “Conseguimos separar a influência da componente lunar das demais perturbações na atmosfera”, conta Ana Roberta, atualmente pesquisadora na Universidade Estadual da Paraíba, em Campina Grande.

“Nossos dados indicaram, porém, que as características da superfície do planeta se refletem até alturas muito elevadas”, conta Batista. “A deformação na atmosfera decorrente da atração gravitacional da Lua sofre influência da distribuição dos mares e dos continentes no globo”, explica o físico. Além disso, continua Batista, “vimos que a flutuação no nível dos mares, a maré oceânica, afeta a atmosfera mais do que o esperado”.
As implicações desses achados não se restringem ao plano teórico. Do ponto de vista prático, conhecer melhor as variações de temperatura nessa faixa da alta atmosfera deve permitir a elaboração de modelos mais precisos de como funciona o clima em uma região ainda mais alta – a ionosfera, situada entre 100 km e 1.500 km de altitude –, onde estão os satélites de pesquisa e comunicação e é alta a concentração de partículas eletricamente carregadas. “Para modelar com precisão a ionosfera, não se pode mais ignorar fenômenos como as marés lunares”, afirma Batista.

“Esse mapeamento global do efeito das marés lunares é de grande importância para a previsão do clima espacial”, conta o engenheiro Clezio De Nardin, atual gerente do Centro de Estudo e Monitoramento Brasileiro do Clima Espacial (Embrace) do Inpe. As marés lunares são um dos três fatores que disparam a formação de bolhas na ionosfera. Os outros dois motivos são: os campos elétricos ao redor do equador e os fenômenos meteorológicos como a formação de nuvens de tempestade, o deslocamento de frentes frias ou ventos intensos na camada mais baixa da atmosfera (troposfera), onde estão 90% dos gases.

Bolhas de íons

As bolhas são regiões com menor densidade de íons. Elas começam a se formar em geral no início da noite a cerca de 250 km de altura na região do equador magnético da Terra, próximo ao equador geográfico. As marés lunares, explica De Nardin, funcionam como um peteleco que impulsiona o desenvolvimento dessas bolhas que podem alcançar milhares de quilômetros de extensão.

Como são menos densas que o ambiente ao redor, essas bolhas, à medida que crescem, sobem para regiões mais altas da atmosfera e reduzem a concentração de íons na atmosfera superior. Essa mudança na densidade de íons dificulta – e até bloqueia – a passagem das ondas de rádio emitidas pelos satélites de comunicação de baixa órbita, situados a alturas entre 400 e 600 km; pelos satélites do sistema GPS, que estão a 22 mil km de altura; e pelos satélites de comunicação geoestacionários, que orbitam a Terra a 36 mil km de altura. “Quando há bolhas, a comunicação com os satélites é extremamente degradada e até interrompida, às vezes, por horas”, conta De Nardin. Essa interrupção afeta a navegação aérea e marítima, a exploração de petróleo e a agricultura de precisão. “Se nenhuma medida é tomada, ela pode durar o suficiente para um barco em alto-mar se perder ou para romper um duto de uma empresa que faz exploração de petróleo”, exemplifica.

Segundo De Nardin, o mapeamento feito pelo grupo de Batista mostra que os períodos de marés lunares mais intensas coincidem com a temporada de bolhas na ionosfera, que vai de novembro a março. “Esse levantamento nos ajuda a prever e a explicar melhor qual o período em que é mais provável a ocorrência de bolhas”, diz De Nardin. Batista completa: “Não é possível impedir a formação das bolhas, mas se pode ajudar a evitar problemas com os satélites caso se consiga prever com maior precisão quando elas podem ocorrer”.

Artigo científico

PAULINO, A.R et al. A global view of the atmospheric lunar semidiurnal tide. Journal of Geophysical Research: Atmospheres. v. 118, p. 13.128-139. 16 dez. 2013.