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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Egoísmo chimpanzé: anomalia evolutiva ou restrições metodológicas?


Nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, estão no centro de um debate sobre as origens evolutivas do comportamento altruísta. É sabido que nós humanos ajudamos os outros de forma espontânea, sem benefício próprio imediato. E é crescente a evidência de que o mesmo também acontece em macacos do Novo Mundo, como os macacos-pregos e saguis.

Entretanto, o caso dos chimpanzés é ambíguo. Por um lado, a observação direta de animais em vida livre e cativos indicaram a existência de inclinações altruístas, como no caso de compartilhamento de comida, consolo de animais aflitos, várias outras formas de empatia. Por outro lado, estudos controlados em laboratório não encontraram evidências altruístas consistentes.

Em nome do rigor científico, mais peso é dado para experimentos controlados de laboratório. Então, conclui-se que os chimpanzés são insensíveis ao bem-estar alheio. Isso criaria uma anomalia evolutiva. Esse desaparecimento pontual de uma propensão importante para a vida social disseminada entre os primatas seria no mínimo misterioso.

No entanto, o próprio rigor científico faz com que sejam apontados inúmeros problemas metodológicos quanto aos testes padronizados de comportamento social altruísta. Buscando resolver esse dilema, o famoso primatólogo Frans de Waal e seus colaboradores da Universidade Emory em Atlanta, na Geórgia (EUA), desenvolveram um outro teste controlado e realizaram um estudo de laboratório que mostrou concordância com as observações de campo. Ou seja, nossos parentes mais próximos também têm tendências altruístas.

Veja a reportagem que publicamos hoje explicando os detalhes da pesquisa que saiu hoje na revista científica "PNAS": "Fêmeas de chimpanzés gostam de ajudar as demais, diz estudo".

Mais uma vez vemos o exercício do pensamento crítico na ciência em ação. Suspende-se o julgamento quando não se tem provas suficientes. Conclui-se provisoriamente baseado em provas, mesmo que isso vá contra nossas primeiras impressões. E muda-se de posição com as devidas provas em contrário.

Sabemos das limitações dos estudos em laboratório para estudar as propensões naturais dos animais e sabemos das limitações dos estudos de campo para saber qual fator influi de forma decisiva em um comportamento. Ambos em conjunto, então, nos dão uma visão ampla e mais confiável da persistência e importância do altruísmo para nós todos, primatas.
(MARCO VARELLA)
Escrito por Equipe do Laboratório às 18h47

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