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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Biologia evolutiva do desenvolvimento explica origem das formas biológicas

Disciplina procura entender como ocorre a variação entre as espécies que gera toda a diversidade da vida

Integrada com biologia molecular, evolução, genética, entre outras áreas, a biologia do desenvolvimento estuda organismos como os tunicados – Foto: Wikimedia Commons
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Embora tenha surgido há aproximadamente 3,8 bilhões de anos, a vida na Terra ainda tem muito o que aprender sobre suas próprias origens. Foi somente no século 19, durante a famosa viagem do navio HMS Beagle à América do Sul, que o cientista inglês Charles Darwin esboçou o que ficaria conhecido como a teoria da evolução por meio da seleção natural.

Para o naturalista, o conceito de seleção natural envolveria entender como algumas características que são hereditárias se tornaram mais comuns em gerações sucessivas de uma população de organismos que se reproduzem e, ao mesmo tempo, que outras características tornam-se menos comuns.

Pouco mais de cem anos desde a apresentação da hipótese para cientistas do mundo todo, a teoria é uma das bases do campo que ficou conhecido como biologia evolutiva do desenvolvimento (em inglês evo-devo). A subdivisão da biologia estuda a origem e a descendência das espécies, bem como suas mudanças ao longo do tempo.
Apesar de ter começado no continente, o estudo da evolução das espécies feito nos países latino- americanos ainda busca visibilidade internacional. Não por acaso, o professor do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências (IB) da USP, Federico David Brown Almeida, especializado na área da evo-devo, foi o responsável por uma edição especial do Journal of Experimental Zoology Part B., lançada no início deste ano.

A edição, na qual Brown foi editor convidado, foi dedicada à pesquisa em biologia evolutiva do desenvolvimento na América Latina.

“A biologia do desenvolvimento é uma disciplina relativamente nova que começou nos anos 1980 como consequência do boom molecular”, explica ele. Foi somente nas últimas duas décadas do século 20 que o desenvolvimento ganhou destaque maior no campo da evolução, a partir da descoberta de genes que regulam o desenvolvimento embrionário nos chamados “organismos-modelo”. A descoberta, de acordo com o docente, permitiu aos cientistas estudar genes em vários grupos animais.

“É uma disciplina que se integra com biologia molecular, evolução, genética, entre outras áreas mais velhas da biologia”, esclarece ele, ao enfatizar que a pergunta principal da disciplina é explicar como se originam as formas biológicas. Ou seja, entender quais são suas origens do ponto de vista genético do desenvolvimento e “como ocorre a variação entre os animais para gerar toda a diversidade que a gente tem na vida”, ilustra o professor.

Visibilidade na América Latina

Foto: Reprodução
De acordo com Brown, a edição especial foi o resultado de uma conferência que aconteceu na Califórnia há pouco mais de dois anos. Durante o evento, se formou a Sociedade Pan-Americana de Biologia Evolutiva do Desenvolvimento, com pesquisadores norte- americanos e latino-americanos.
“Eu estava envolvido na formação desse novo grupo e os outros pesquisadores me convidaram para organizar um workshop da América Latina para entender por que a área está tão pouco representada na nossa região”, relembra Brown.

A partir do encontro, participantes latino- americanos solicitaram um espaço aos editores das principais publicações da área para apresentar seus trabalhos e dar maior visibilidade à pesquisa da região. Como editor associado, Brown, que na USP é líder do Laboratório de Evo-Devo do IB, foi atrás de pesquisadores no Brasil e na América Latina que compuseram um mosaico de tudo que é produzido no continente.

No volume foram incluídos revisões, artigos históricos e diversos trabalhos experimentais. “Tratamos desde a parte epistemológica, de história da ciência, até propostas novas e trabalhos experimentais com animais da nossa região”, sumariza ele.
Ao todo, seis países contribuíram com os 13 artigos do volume. Brasileiros colaboraram com um artigo introdutório e uma revisão histórica de evo-devo na América Latina, além de uma série de estudos funcionais e do desenvolvimento de uma estrutura anatômica (filamentos pélvicos) do peixe pulmonado da América do Sul (peixe amazônico) e uma análise do desenvolvimento dos olhos em castas de abelhas, feita por especialistas da USP, no campus de Ribeirão Preto.
Federico David Brown Almeida, do Instituto de Biociências (IB) da USP – Foto: Reprodução
No geral, os artigos focam em organismos característicos do continente, que são “pouco estudados, interessantes e originais por isso”, explica o professor.

“Foi bem interessante porque incluímos tanto plantas quanto animais, já que temos, na América Latina, grupos fortes nas duas áreas”, revela Brown ao salientar que não é comum na evo-devo unir botânica e zoologia em um mesmo volume. ”A biologia do desenvolvimento estava dividida e foi predominantemente dominada por modelos animais. E a comunidade de plantas, que estudava Biologia do Desenvolvimento, estava associada à áreas mais fisiológicas”, lembra ele.

No entanto, ao trazer a botânica para o volume, o professor defende que aproximar os campos provoca um enriquecimento da pesquisa na área. “Em plantas temos grupos que estão estudando a identidade das estruturas florais, a diversidade da arquitetura floral, por exemplo”, destaca. Por meio de estudos da nossa flora, especialistas perceberam que alguns modelos estabelecidos para plantas já não se mantêm mais e estão em constante mudança.

Laboratório de evo-devo

Formado por um grupo relativamente pequeno, o chamado Laboratório de Evo-Devo do IB existe faz três anos. Seu projeto principal busca entender a origem evolutiva das células-tronco. Nesse campo, pesquisadores também procuram compreender os chamados processos de regeneração. “Queremos saber como essas células evoluíram e como as mudanças nos processos de células-tronco podem estar envolvidas em processos regenerativos de alguns animais”, explica o especialista.
“Estamos usando vários invertebrados, sobretudo tunicados, um subfilo de animais marinhos”, elabora Brown. Os tunicados são animais que evolutivamente estão próximos dos vertebrados e portanto compartilham muitas similaridades em seu desenvolvimento inicial. “Neste grupo, depois do desenvolvimento larval, você tem várias espécies coloniais que evoluíram. Vários grupos dentro desse filo são coloniais, então eles conseguem se clonar formando indivíduos diferentes, como as plantas”, esclarece o professor.
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Espécie de tunicado – Foto: Wikimedia Commons
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Apesar de serem um grupo de animais que se desenvolvem como vertebrados, os tunicados conseguem ter o que os especialistas chamam de plasticidade e se reproduzem assexuadamente por brotação.

“Queremos entender como nós perdemos essas capacidades regenerativas, essas capacidades de brotar, regenerar, que tinham nossos ancestrais”, revela Brown. Alternativamente, o objetivo da pesquisa atual do laboratório é entender como evoluíram as capacidades regenerativas e de brotamento neste grupo específico de animais.
O laboratório atualmente é formado por apenas oito membros.

Uma teoria unificada

“Foram três concursos para o Departamento de Biologia do Desenvolvimento da USP até a chegada de um candidato apropriado”, recordou Brown, que veio do Equador para trabalhar no Brasil. “Somos poucos os que atuam nessa linha de pesquisa na América Latina”, pontua.
A área, que é forte tanto nos EUA quanto na Europa, possui uma grande tradição no velho continente, onde se formou a primeira sociedade de evo-devo do mundo.
Foto: Reprodução
Entretanto, “o estudo começou lá, mas o objeto foi estudado aqui na América Latina”, reforça o pesquisador, ao salientar que a proposta da edição especial é deixar claro para os demais cientistas da área que a América Latina tem contribuído com várias novas ideias sobre evolução e é um continente que pode explorar sua diversidade natural para continuar fazendo descobertas. “Os modelos de animais e plantas que temos aqui são inumeráveis e com adaptações fenomenais, coisas realmente únicas que precisam de mais visibilidade e investimento local”, aponta ele.
A área da Biologia do Desenvolvimento, por ser relativamente nova, ainda conta com poucos laboratórios já estabelecidos. E, na América Latina, os poucos locais de estudo também sofrem com a falta de comunicação.

“Estamos acostumados a colaborar e interagir com pesquisadores do chamado Primeiro Mundo, mas não entre nós. Nos falta esse tipo de interação para gerar um grupo forte”, teoriza o docente.
O Journal of Experimental Zoology Part B. publicou artigos de vários grupos da América Latina, dentre eles, as pesquisas de Augusto Flores, Gabriel Marroig, Hussam Zaher, Klaus Hartfelder, Márcia Bitondi, Miguel Rodrigues, Nanuza Luiza de Menezes, Tiana Kohlsdorf e Zilá Luz Simões, especialistas da USP
O futuro, para o professor Brown, está em formular, junto com pesquisadores da Ecologia, uma teoria de como o ambiente está envolvido nos processos do desenvolvimento, como ele pode influenciar esse desenvolvimento e como esses desenvolvimentos passam por processos adaptativos. A partir daí, especialistas em evo-devo poderão trabalhar com base em uma “teoria nova, sólida e forte”, que unirá a área e ampliará ainda mais suas possibilidades de novas descobertas

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A Evolução Biológica


Os Mecanismos da Evolução

Evolução: uma questão de adaptação

Os seres vivos da Terra atual estão adaptados ao meio em que vivem. Esta frase corriqueira revela que entre os seres vivos e o ambiente há um ajuste, uma harmonia fundamental para a sua sobrevivência. O flamingo rosa se alimenta de cabeça para baixo, adaptando-se à procura de alimento no lodo em que vive; os cactos suportam o meio desértico seco graças às adaptações nele existentes; os beija-flores, com seus longos bicos, estão adaptados à coleta do néctar contido nas flores tubulosas que visitam. Esses e numerosos outros exemplos são reveladores da perfeita sintonia que existe entre os seres e os seus ambientes de vida.

Adaptação: fixismo versus transformismo

Desde o tempo dos filósofos gregos, passando pelos pensadores do século passado, a adaptação dos seres vivos aos seus ambientes de vida é um fato incontestável. A origem da adaptação, porém, é que sempre foi discutida. Desde a Antiguidade se acreditava que essa harmonia seria o resultado de uma criação especial, a obra de um criador que teria planejado todas as espécies, adequando-as aos diferentes ambientes. Com o advento do cristianismo, ficou mais fácil admitir que as espécies, criadas por Deus, seriam fixas e imutáveis. Os defensores dessa ideia, chamados de fixistas ou criacionistas, propunham que a extinção de muitas espécies seria devida a eventos especiais como, por exemplo, muitas catástrofes que exterminaram grupos inteiros de seres vivos.
Lentamente, no entanto, a partir do século XIX, uma série de pensadores passou a admitir a ideia da substituição gradual de espécies por outras através de adaptações a ambientes em contínuo processo de mudança. Essa corrente de pensamento, transformista, que vagarosamente foi ganhando adeptos, explicava a adaptação como um processo dinâmico, ao contrário do que propunham os fixistas. Para o transformismo, a adaptação é conseguida através de mudanças. À medida que muda o meio, muda a espécie. Os adaptados ao ambiente em mudança sobrevivem. Essa ideia deu origem ao evolucionismo. Evolução biológica é a adaptação das espécies a meios continuamente em mudança. Essa mudança das espécies nem sempre implica aperfeiçoamento ou melhora. Muitas vezes leva a uma simplificação. É o caso das tênias, vermes achatados parasitas: embora nelas não exista tubo digestivo, estão perfeitamente adaptadas ao parasitismo no tubo digestivo do homem e de muitos outros vertebrados.

Adaptação: a espécie em mudança

Dentre os exemplos que ilustram a adaptação das espécies às mudanças do meio, três se destacam por seu caráter clássico: a) a resistência de insetos ao DDT; b) a resistência de bactérias aos antibióticos; c) a coloração protetora das mariposas da espécie Biston betularia. Vamos a eles.
a) A resistência de insetos ao DDT
Considere o seguinte problema. Um fazendeiro estando às voltas com grande quantidade de moscas que infestavam seus estábulos procurou alguma droga que as exterminasse. Como dispunha de DDT, passou a pulverizar o inseticida nos locais onde eram encontrados os insetos. Os resultados, de início, foram ótimos. Desapareceram por completo os invasores. Após certo tempo, porém, verificou-se o ressurgimento das moscas, de início em pequena quantidade, o que provocou novas pulverizações dos estábulos. Notou-se, entretanto, que as moscas aumentavam em número, a despeito de se estar utilizando quantidades crescentes do inseticida.
A análise do problema em questão evidencia um grupo de indivíduos de certa espécie, moscas, existindo em duas situações diferentes: estábulos sem e com DDT. Em ambas as situações, verificou-se a existência de uma população desses insetos.
Pode-se dizer que isso resultou da existência prévia de dois tipos de moscas: as sensíveis ao DDT, numerosas de início, e as resistentes, pouco abundantes. A aplicação do inseticida favoreceu as poucas moscas resistentes, que sobreviveram e se reproduziram, fazendo que ao longo de algumas gerações, novamente aumentasse a população desses insetos nos estábulos. Evidentemente, a “resistência ao inseticida” corresponde a um caráter determinado pela existência de genes que conferem a algumas moscas a capacidade de resistir a certa droga produzida pelo homem. As sensíveis, desprovidas de tais genes, acabam morrendo. As resistentes transmitem seus genes aos seus descendentes. E, assim, a população de moscas como um todo se adapta ao ambiente que foi pulverizado com DDT. Portanto, a persistência de moscas nos estábulos, a despeito de mudanças ocorridas no ambiente com a pulverização do inseticida, mostra um ajuste do grupo com o meio permitido pela existência prévia de indivíduos resistentes.
Tudo se passa como se os organismos em questão fossem capazes de se modificar em resposta a uma mudança ambiental. Na realidade, não houve modificação dos organismos em si. O que sofreu mudança foi o grupo de indivíduos. Em outras palavras, um grupo de indivíduos não resistentes foi substituído por outro grupo de indivíduos, agora resistentes. Os dois grupos pertencem à mesma espécie, e é nesse sentido que podemos dizer que houve “adaptação” (adequação, modificação da composição do grupo em resposta a uma mudança do ambiente).
b) A resistência de bactérias aos antibióticos
O problema da resistência bacteriana a antibióticos caracteriza um caso de adaptação de um grupo de organismos frente a mudanças ambientais. À medida que antibióticos são inadequadamente utilizados no combate a infecções causadas por bactérias, o que na realidade se está fazendo é uma seleção de indivíduos resistentes a determinado antibiótico. Sendo favorecidos, os indivíduos resistentes, pouco abundantes de início, proliferam, aumentando novamente a população de micro-organismos.
c) A coloração protetora das mariposas
Em meados do século passado, a população de certo tipo de mariposa nos arredores de Londres era constituída predominantemente por indivíduos de asas claras, embora entre elas se encontrassem algumas de asas escuras. A explicação para esse fato fica lógica se lembrarmos que nessa época os troncos das árvores eram recobertos por certo tipo de vegetais, os líquenes, que conferiam-lhes uma cor acinzentada. Na medida em que a industrialização provocou aumento de resíduos poluentes gasosos, os troncos das árvores passaram a ficar escurecidos, como consequência da morte dos líquenes e do excesso de fuligem. Nessa região, passou a haver predominância de mariposas de asas escuras, o que denota outro caso de adaptação de um grupo de indivíduos frente a uma mudança ambiental. Procure entender a semelhança existente entre esses dois exemplos de adaptação e o exemplo da resistência de insetos a inseticidas.

As evidências da evolução

Durante a fase polêmica da discussão evolucionista, muitos argumentos foram utilizados. Uma das evidências mais importantes da ocorrência de Evolução biológica é dada pelos fósseis, que podem ser conceituados como “restos ou vestígios de seres vivos de épocas remotas”. Por meio deles, verifica-se que havia organismos completamente diferentes dos atuais, argumento poderoso para os defensores do transformismo. Outras evidências evolutivas podem ser citadas: a semelhança embriológica e anatômica existente entre os componentes de alguns grupos animais, notadamente os vertebrados; a existência de estruturas vestigiais, como, por exemplo, o apêndice vermiforme humano, desprovido de função quando comparado aos apêndices funcionais de outros vertebrados. Modernamente, dá-se muito valor à semelhança bioquímica existente entre diferentes animais. É o caso de certas proteínas componentes do sangue do homem e dos macacos.

Leitura: fósseis, evidências da evolução

Fósseis são restos ou vestígios de seres vivos de épocas remotas e que ficaram preservados em rochas. Podem ser ossos, dentes, conchas ou até impressões, pegadas, pistas deixadas por animais e vegetais nos lugares em que viveram. Desde a antiguidade, muitas foram as explicações sobre a sua origem. Aristóteles acreditava que eram restos de seres vivos que nasciam e cresciam nas rochas. Algumas pessoas diziam que eram formas vivas colocadas nas pedras por espíritos malignos. Já o filósofo Heródoto, em 450 a.C, ao observar restos de conchas no deserto da Líbia, supôs que o Mediterrâneo banhara aquela região em tempos antigos.
A preservação de um fóssil depende da ocorrência de uma série de eventos. Normalmente, organismos mortos são prontamente atacados por vários tipos de seres vivos, entre eles bactérias e fungos que efetuam a decomposição da matéria orgânica. Em alguns casos, porém, a preservação de restos pode ocorrer. Se o animal morrer em leitos de água, a correnteza carrega sedimentos que podem cobri-lo, dificultando o ataque de outros organismos que poderiam destruí-lo, favorecendo, assim, a sua preservação. Do mesmo modo, substâncias minerais trazidas pela água impregnam os ossos, o que ajuda a conservação da sua forma. Esses processos ocorrem comumente em oceanos e mares rasos, duas fontes notáveis de fósseis. A erupção de um vulcão pode levar à fossilização ao soterrar com cinza os animais e vegetais que viviam nas proximidades. Protegidos do ar e de outros animais, esses organismos soterrados acabam sendo preservados. Com o tempo, formam-se camadas sucessivas de sedimentos, exercendo pressão sobre as camadas inferiores e deixando os fósseis incrustados no interior da rocha. De tempo em tempos, os fósseis podem voltar a se expor, principalmente em razão de movimentos da crosta terrestre. Isso favorece a ação de rios que, ao correr por novos leitos, acabam expondo camadas contendo fósseis. Igualmente, a atividade erosiva e modeladora do vento, chuva e gelo favorece a exposição dos fósseis incluídos em rochas.
Os fósseis são importantes em biologia por ilustrarem a ocorrência do processo de evolução biológica. Pode-se fazer uma avaliação da idade de um fóssil pela observação da camada em que está incluído. Como a sedimentação ocorre pela deposição sucessiva de camadas, aquelas que se situam mais inferiormente são mais velhas e devem conter os fósseis mais antigos. Se a evolução da vida ocorreu de modo contínuo, espera-se que os fósseis encontrados espelhem a ordem de evolução de plantas e animais. De maneira geral, fósseis de organismos mais simples são encontrados nas camadas mais inferiores, mais velhas, das rochas. Em camadas mais recentes são encontrados organismos mais complexos. Esse achado é uma evidência de que a vida evoluiu de forma simples para formas mais complexas e que ela vem se modificando vagarosamente há milhões de anos. Técnicas modernas têm auxiliado a datação da idade dos fósseis. Através delas e a partir da descoberta de um fóssil de animal parecido com um “fox-terrier” e de outros fósseis, foi possível determinar a sequência que originou o cavalo atual. Muitas vezes, porém, o registro fóssil é falho e apresenta muitas lacunas. É evidente que não foram reconhecidos ainda todos os estágios que possam esclarecer, por exemplo, a origem dos répteis a partir dos anfíbios. Essa situação é parecida com a de um livro que não tivesse algumas de suas páginas. Como explicar esse fato? Para muitos cientistas, o tempo permitirá a descoberta dos elos intermediários ainda desconhecidos. Para outros, como o americano Stephen Jay Gould, esses elos simplesmente não existem. A evolução, para esse autor, teria ocorrido “aos saltos”, com o surgimento explosivo de novos grupos de tempos em tempos. Essa evolução saltatória seria devida, principalmente, ao acúmulo de mutações gênicas que repentinamente levariam ao surgimento de novas espécies.

Os evolucionistas em ação: Lamarck e Darwin

A partir do século XIX, surgiram algumas tentativas de explicação para a Evolução biológica. Jean Baptiste Lamarck, francês, e Charles Darwin, inglês, foram os que mais coerentemente elaboraram teorias sobre o mecanismo evolutivo. Foi Darwin, no entanto, o autor do monumental trabalho científico que revolucionou a Biologia e que até hoje persiste como a Teoria da Seleção Natural das espécies.

Darwin e a seleção natural

A partir da ideia de adaptação de populações a seus ambientes, fica fácil entender as propostas de Charles Darwin (1809-1882), inglês, autor da teoria da Seleção Natural. Imaginando-se dois ratos, um cinzento e outro albino, é provável que em muitos tipos de ambientes o cinzento leve vantagem sobre o albino. Se isto realmente acontecer, é sinal de que o ambiente em questão favorece a sobrevivência de indivíduos cinzentos ao permitir que, por exemplo, eles fiquem camuflados entre as folhagens de uma mata. Os albinos, sendo mais visíveis, são mais atacados por predadores. Com o tempo, a população de ratos cinzentos, menos visada pelos atacantes, começa a aumentar, o que denota seu sucesso. É como se o ambiente tivesse escolhido, dentre os ratos, aqueles que dispunham de mais recursos para enfrentar os problemas oferecidos pelo meio. A esse processo de escolha, Darwin chamou Seleção Natural. Note que a escolha pressupõe a existência de uma variabilidade entre organismos da mesma espécie. Darwin reconhecia a existência dessa variabilidade. Sabia também que na natureza, a quantidade de indivíduos de certa espécie que nascem é maior que aquela que o ambiente pode suportar. Além disso, era conhecido o fato de que o número de indivíduos da população fica sempre em torno de uma certa quantidade ótima, estável, devido, principalmente, a altas taxas de mortalidade.
É óbvio que a mortalidade seria maior entre indivíduos menos adaptados a seu meio, pelo processo de escolha ou “seleção natural”. Perceba, então, que a ideia de Darwin parte do princípio importante de que existe variabilidade entre os indivíduos de uma mesma espécie e que essa variabilidade pode permitir que indivíduos se adaptem ao ambiente.
Assim, para Darwin, a adaptação é resultado de um processo de escolha dos que já possuem a adaptação. Essa escolha, efetuada pelo meio, é a Seleção Natural e pressupõe a existência prévia de uma diversidade específica. Então, muda o meio. Havendo o que escolher (variabilidade), a seleção natural entra em ação e promove a adaptação da espécie ao meio. Quem não se adapta, desaparece.
O Darwinismo, a conhecida teoria da “Evolução Biológica por adaptação das espécies aos meios em mudança através da Seleção Natural”, pode ser assim esquematizado:

Variabilidade
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Seleção natural –=> || <=– Seleção natural
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Adaptação
É claro que, em ambientes diferentes, variações distintas serão valorizadas. Isso explica por que duas populações da mesma espécie podem se adaptar de maneiras bastante diversificadas em ambientes diferentes.
Finalizando, vamos utilizar uma comparação que pode facilitar a compreensão da teoria darwiniana.
Analise o desenho abaixo. Ele representa um funil através do qual são jogadas bolinhas de diversos tamanhos. Somente as “ajustadas” ao tamanho do funil conseguem atravessá-lo. As outras são retidas. Com este modelo você entende a ação da Seleção Natural. O funil representa o meio ambiente, e as bolinhas correspondem às diversas formas existentes entre os seres vivos de determinada espécie. As bolinhas que passaram representam aquelas variedades dotadas de características que as ajustam ao meio e, então, permitem a adaptação da espécie ao ambiente.
variabilidade e seleção
variabilidade e seleção

Darwin: uma longa caminhada rumo à seleção natural

Desde sua infância, Darwin era fascinado por tudo o que se relacionava à natureza. Oriundo de uma família abastada, filho de médico, negava-se a seguir a carreira paterna. Acabou tendo de cursar uma faculdade destinada à formação de religiosos, porém, sempre se dedicou profundamente à história natural, acumulando conhecimentos de geologia, mineralogia, zoologia e botânica. A partir dessa formação, alguns fatos importantes da vida de Darwin facilitaram elaboração de sua teoria. Entre esses fatos, pode-se citar:
a) a viagem por ele empreendida ao redor do mundo como naturalista de bordo do navio Beagle, da armada inglesa. Entre outros aspectos que o fascinaram, como o achado de fósseis de tatus gigantes na América do Sul e conchas de moluscos em plena Cordilheira dos Andes, foi a comparação dos arquipélagos de Cabo Verde e Galápagos que o deixou convencido da ocorrência da transformação das espécies. Esses dois arquipélagos têm origem vulcânica, possuem praticamente a mesma idade geológica e situam-se quase na mesma latitude. Sendo semelhantes do ponto de vista ambiental, neles deveriam ser encontrados os mesmos tipos de seres vivos, segundo o pensamento fixista predominante na época. Mas Darwin verificou que as ilhas de cada arquipélago possuíam as suas próprias comunidades, e a maioria dos animais nelas existentes assemelhava-se aos animais que ele vira na África e na América do Sul. As espécies de pássaros fringilídeos que Darwin encontrou em Galápagos pareciam “descendentes modificados das espécies sul-americanas”.
b) as experiências de seleção artificial executadas por Darwin e por inúmeros outros criadores de plantas e animais. Há séculos o homem percebeu que a variabilidade existente entre os descendentes de animais e plantas que cria permite a seleção dos melhores, aprimorando e modificando as espécies. Se o homem pode fazer essa escolha e modificar os rumos de uma espécie em pouco tempo, o que não poderia fazer a natureza ao longo de milhões de anos e dispondo de uma ampla variabilidade entre as espécies?
c) a leitura de um livro do economista Thomas Malthus, que, em fins do século XVIII, escreveu um tratado sobre a preocupação com o tamanho da população humana, que crescia em progressão geométrica enquanto a produção de alimentos pelo homem ocorria num ritmo menor, em progressão aritmética. Haveria, assim, disputa por alimento, sobrevivendo apenas aqueles que tivessem acesso a ele. Então, pensava Darwin, se a população humana passa por um processo de seleção por causa do alimento, o mesmo deveria acontecer na natureza com os demais seres vivos.
d) Darwin conseguiu chegar a uma conclusão que o levou a elaborar a sua conhecida teoria; faltava-lhe, no entanto, a coragem necessária para enfrentar o sistema religioso e científico que, na época, era declaradamente antievolucionista. O impulso que o fez publicar sua teoria foi uma carta enviada pelo biólogo Alfred Russel Wallace, dizendo que em suas viagens chegara à conclusão de que deveria haver um processo de seleção natural das espécies que as faria adaptar-se aos seus ambientes. A partir disso, Darwin foi aconselhado por amigos a expor suas ideias, e em 1859 foi publicado o polêmico livro “The origin of species by means of natural selection”, que revolucionou a biologia.

O que Darwin não sabia: neodarwinismo

O trabalho de Darwin despertou muita atenção mas também suscitou críticas. A principal era relativa à origem da variabilidade existente entre os organismos de uma espécie. Darwin não teve recursos para entender por que os seres vivos apresentam diferenças individuais. Não chegou sequer a ter conhecimento dos trabalhos que um monge chamado Mendel realizava, cruzando plantas de ervilha. O problema só foi resolvido a partir do início do século XX, com o advento da ideia de gene. E só então ficou fácil entender que mutações e recombinação gênica são as duas importantes fontes de variabilidade entre as espécies. Assim, o darwinismo foi complementado, surgindo o que os evolucionistas modernos conhecem como Neodarwinismo ou Teoria Sintética da Evolução e que se apoia nas ideias básicas de Darwin. Veja o esquema abaixo:

Mutações genéticas –=> Variabilidade <=– Recombinação gênica
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Seleção natural –=> || <=– Seleção natural
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Adaptação
Fica fácil entender, agora, o mecanismo da resistência bacteriana aos antibióticos usados para o seu combate. Partindo do princípio da existência prévia de variabilidade, uma população bacteriana deve ser formada por dois tipos de indivíduos: os sensíveis e os resistentes. O uso inadequado de um antibiótico deve eliminar as bactérias sensíveis, favorecendo as resistentes, que são selecionadas. As bactérias resistentes proliferam e promovem a adaptação da espécie ao ambiente modificado. Qualquer outro problema de adaptação das espécies a ambientes em modificação pode ser explicado utilizando-se o raciocínio neodarwinista.

Leitura: evolução, trabalho de engenhoqueiro

autor: François Jaco
fonte: “O jogo dos possíveis”, 1981, Gradiva Publicações
“A evolução não tira do nada as suas novidades. Trabalha sobre o que já existe, quer transformando um sistema antigo para lhe dar uma nova função, quer combinando diversos sistemas para com eles arquitetar um outro mais ou menos complexo. O processo de seleção natural não se parece com nenhum aspecto do comportamento humano. Mas, se quisermos lançar mão de uma comparação, deverá afirmar-se que a seleção natural atua, não à maneira de um engenheiro mas como um engenhoqueiro. Um engenhoqueiro que ainda não sabe o que vai fazer, mas que recupera tudo o que lhe vem às mãos, pedaços de cordel, bocados de madeira, papelões velhos, tudo o que eventualmente lhe possa fornecer materiais; um engenhoqueiro que, em suma, aproveita aquilo que encontra à sua volta para tirar daí algum objeto utilizável. Como acentuou Claude Lévi-Strauss, os utensílios do engenhoqueiro, ao contrário dos do engenheiro, não pode ser definidos por nenhum programa. Os materiais de que dispõe não têm uma finalidade precisa. Cada um deles pode servir para mais de um fim. Nada têm em comum além do fato de uma pessoa deles poder dizer: …“isto pode ser sempre útil”. Para quê? Depende das circunstâncias. O processo da evolução parece-se em muitíssimos aspectos com essa maneira de agir. A evolução procede como um engenhoqueiro que, durante milhões e milhões de anos, arranjasse lentamente a sua obra, retocando-a sem cessar, cortando aqui, alongando acolá, agarrando todas as oportunidades para ajustar, transformar, criar”.

Lamarck e sua ideia cativante

Um dos primeiros adeptos do transformismo foi o biólogo francês Lamarck, que, como você verá, elaborou uma teoria da Evolução, embora totalmente desprovida de fundamento científico.
No mesmo ano em que nascia Darwin, Jean Baptiste Lamarck (1744-1829) propunha uma ideia elaborada e lógica. Segundo ele, uma grande mudança no ambiente provocaria numa espécie a necessidade de se modificar, o que a levaria a mudanças de hábitos.
Se o vento e as águas podem esculpir uma rocha, modificando consideravelmente sua forma, será que os seres vivos não poderiam ser também moldados pelo ambiente? Teria o ambiente o poder de provocar modificações adaptativas nos seres vivos?
Lamarck acreditava que sim. Considerava, por exemplo, que mudanças das circunstâncias do ambiente de um animal provocariam modificações suas necessidades, fazendo que ele passasse a adotar novos hábitos de vida para satisfazê-las. Com isso o animal passaria a utilizar mais frequentemente certas partes do corpo, que cresceriam e se desenvolveriam, enquanto outras partes não seriam solicitadas, ficando mais reduzidas, até se atrofiarem. Assim, o ambiente seria o responsável direto pelas modificações nos seres vivos, que transmitiriam essas mudanças aos seus descendentes, produzindo um aperfeiçoamento da espécie ao longo das gerações.
Com base nessa premissa, postulou duas leis. A primeira, chamada Lei do Uso e Desuso, afirmava que, se para viver em determinado ambiente fosse necessário certo órgão, os seres vivos dessa espécie tenderiam a valorizá-lo cada vez mais, utilizando-o com maior frequência, o que o levaria a hipertrofiar. Ao contrário, o não uso de determinado órgão levaria à sua atrofia e desaparecimento completo ao longo de algum tempo.
A segunda lei, Lamarck chamou de Lei da Herança dos Caracteres Adquiridos. Através dela postulou que qualquer aquisição benéfica durante a vida dos seres vivos seria transmitida aos descendentes, que passariam a tê-la, transmitindo-a, por sua vez, às gerações seguintes, até que ocorresse sua estabilização.
A partir dessas suas leis, Lamarck formulou sua teoria da evolução, apoiado apenas em alguns exemplos que observara na natureza. Por exemplo, as membranas existentes entre os dedos dos pés das aves nadadoras, ele as explicava como decorrentes da necessidade que elas tinham de nadar. Cornos e chifres teriam surgindo como consequência das cabeçadas que os animais davam em suas brigas. A forma do corpo de uma planta de deserto seria explicada pela necessidade de economizar água.

Por que não podemos aceitar as teses de Lamarck?

Na verdade não podemos simplesmente achar erradas as ideias de Lamarck sem dizer exatamente o porquê do erro. É preciso saber criticá-las com argumentos que evidenciam o erro nelas contido. Assim, pode-se dizer que a lei do uso e desuso só será válida se a alteração que ela propõe estiver relacionada a alterações em órgãos de natureza muscular e, ainda, alterações que não envolvam mudanças no material genético do indivíduo. A cauda de um macaco sul-americano não cresceu porque o animal manifestou o desejo de se prender aos galhos de uma árvore. Tal mudança deveria envolver antes uma alteração nos genes encarregados da confecção da cauda.
Com relação à lei da transmissão das características adquiridas, é preciso deixar bem claro que eventos que ocorrem durante a vida de um organismo, alterando alguma sua característica, não podem ser transmissíveis à geração seguinte. O que uma geração transmite à outra são genes. E os genes transmissíveis já existem em um indivíduo desde o momento em que ele foi um zigoto. E, fatos que ocorram durante sua vida não influenciarão exatamente aqueles genes que ele deseja que sejam alterados.

Lamarck e Darwin frente a frente: o tamanho do pescoço das girafas

Lamarckismo
  1. As girafas ancestrais provavelmente tinham pescoços curtos que eram submetidos a frequentes distensões para capacitá-las a alcançar a folhagem das árvores.
  2. Os descendentes apresentavam pescoços mais longos, que eram também esticados frequentemente na procura de alimentos.
  3. Finalmente o contínuo esticamento do pescoço deu origem às modernas girafas. Os fatos conhecidos não sustentam esta teoria.
Darwinismo
  1. As girafas ancestrais provavelmente apresentavam pescoços de comprimentos variáveis. As variações eram hereditárias (Darwin não conseguiu explicar a origem das variações).
  2. Competição e seleção natural levaram à sobrevivência dos descendentes de pescoços longos, em detrimento dos de pescoços curtos.
  3. Finalmente apenas as girafas de pescoços longos sobreviveram à competição. Fatos conhecidos sustentam esta teoria.

II

A Especiação

A especiação: o surgimento de novas espécies

Especiação é o nome dado ao processo de surgimento de novas espécies a partir de uma espécie ancestral. De modo geral, para que isso ocorra é imprescindível que grupos da espécie original se separem e deixem de se cruzar. Essa separação constitui o isolamento geográfico e pode ocorrer por migração de grupos de organismos para locais diferentes e distantes, ou pelo surgimento súbito de barreiras naturais intransponíveis, como rios, vales, montanhas, etc., que impeçam o encontro dos componentes da espécie original. O isolamento geográfico, então, é a separação física de organismos da mesma espécie por barreiras geográficas intransponíveis e que impedem o seu encontro e cruzamento.
A mudança de ambiente favorece a ação da seleção natural, o que pode levar a uma mudança inicial de composição dos grupos. A ocorrência de mutações casuais do material genético ao longo do tempo leva a um aumento da variabilidade e permite a continuidade da atuação da seleção natural. Se após certo tempo de isolamento geográfico os descendentes dos grupos originais voltarem a se encontrar, pode não haver mais a possibilidade de reprodução entre eles. Nesse caso, eles constituem novas espécies. Isso pode ser evidenciado através da observação de diferenças no comportamento reprodutor, da incompatibilidade na estrutura e tamanho dos órgãos reprodutores, da inexistência de descendentes ou, ainda, da esterilidade dos descendentes, no caso de eles existirem. Acontecendo alguma dessas possibilidades, as novas espécies assim formadas estarão em isolamento reprodutivo, confirmando, desse modo, o sucesso do processo de especiação.
Nem sempre, porém, acaba havendo isolamento reprodutivo entre grupos que se separam, isto é, nem sempre ocorre a formação de novas espécies. O que aconteceria se as barreiras geográficas fossem desfeitas precocemente? Ou, o que pode acontecer se o isolamento geográfico for interrompido? Nesse caso, é possível que os componentes dos dois grupos tenham acumulado diferenças que os distinguem entre si mas que não impedem a reprodução. Isto é, os dois grupos ainda pertencem à mesma espécie. Como denominar, então, essas variedades que não chegaram a transformar-se em novas espécies? Podemos chamá-las de RAÇAS. Uma mesma espécie poderá ser formada por diversas raças, intercruzantes entre si, mas que apresentam características morfológicas distintas. Pense nas diferentes raças de cães existentes atualmente e essa ideia ficará bem clara.
 (…)

Leitura: um caso real

Um caso interessante que ilustra o que foi dito é o da rã norte-americana Rana pipiens. A distribuição geográfica dessa espécie de animal ocorre do norte ao sul da América do Norte. As diferentes populações apresentam características morfológicas distintas. Só que dificilmente uma rã do Norte se acasala com uma do Sul. Se isso for feito artificialmente, notar-se-á uma grande quantidade de descendentes defeituosos. No entanto, se os cruzamentos ocorrem entre populações vizinhas, a porcentagem de indivíduos normais será de 100%. Esse fato mostra que em Rana pipiens ocorre o chamado fluxo gênico entre populações vizinhas, desde o Norte até o Sul, de modo que todas essas populações pertencem à mesma espécie. É provável que, se as populações intermediárias forem eliminadas, as que se encontram em extremos opostos venham a constituir duas novas espécies, incapazes de trocar genes.
(…)
(FCC) O esquema abaixo representa 4 populações. Os círculos que se tangenciam correspondem a populações que se intercruzam na natureza.
esquema
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O número de espécies consideradas e o número de espécies que passaria a existir se 1 desaparecesse são, respectivamente: a) 1 e 2, b) 1 e 3, c) 3 e 2, d) 3 e 3 ou e) 4 e 3?
Através da análise do esquema, pode-se notar que I e II se intercruzam então pertencem à mesma espécie. O mesmo se pode dizer com relação às populações II e III. Embora III não se intercruze com I, pode-se dizer que III é da mesma espécie que I, já que III se intercuza com II, que, por sua vez, intercruza-se com I, pois ambas são intercruzantes. Com isso temos que, assim como foi feito no esquema, há apenas uma espécie. Nota-se que há um fluxo gênico entre as populações consideradas, mesmo que não haja contato entre todas elas. No caso de I desaparecer, o esquema ficaria:
esquema
esquema
…e, portanto, só passaria a haver cruzamento entre as populações II e III, que constituiriam uma espécie, ficando a população IV isolada das demais e constituindo uma outra espécie. Portanto a resposta é A.
Os tipos de isolamento reprodutivo
O isolamento reprodutivo corresponde a um mecanismo que bloqueia a troca de genes entre as populações das diferentes espécies existentes na natureza. Não se esqueça de que o conceito espécie se baseia justamente na possibilidade de trocas de genes entre os organismos, levando a uma descendência fértil. No caso de haver isolamento reprodutivo, ele se manifesta de dois modos: 1) através do impedimento da formação do híbrido, e nesse caso diz-se que estão atuando os mecanismos de isolamento reprodutivo pré-zigóticos, ou seja, que antecedem o zigoto, e b) através de alguma alteração que acontece após a formação do zigoto, e nesse caso fala-se na atuação de mecanismos de isolamento reprodutivos pós-zigóticos.
Os mecanismos pré-zigóticos mais usuais são:
  1. Diferenças comportamentais relativas aos processos de acasalamento entre animais, tais como cantos de aves, danças nupciais de mamíferos etc.
  2. Incompatibilidade de tamanho entre os órgãos genitais externos nos animais.
  3. Amadurecimento sexual em épocas diferentes, válido tanto para animais como vegetais.
  4. A utilização de locais de vida (habitats) diferentes de uma mesma área geográfica, o que impede o encontro de animais.
Os mecanismos pós-zigóticos mais usuais são:
  1. Inviabilidade do híbrido, com a ocorrência de morte nos estágios iniciais do desenvolvimento.
  2. Esterilidade dos híbridos. Embora nasçam, cresçam e sejam vigorosos, os híbridos são estéreis, o que revela incompatibilidade dos lotes cromossômicos herdados de pais de espécies diferentes, implicando a impossibilidade de ocorrência da meiose. Não havendo meiose, não há formação de gametas e, consequentemente, não há reprodução. É clássico o exemplo do burro ou da mula, consequência do cruzamento de égua com jumento, pertencentes a duas espécies próximas, porém diferentes. Nesse caso, burro e mula não constituem uma terceira espécie, sendo considerados apenas híbridos interespecíficos.
  3. Esterilidade e fraqueza da geração F2. Às vezes, híbridos interespecíficos acasalam-se com sucesso mas originam descendentes fracos, degenerados, que, se não morrem cedo, são totalmente estéreis.

Simpatria e alopatria

Quando duas populações vivem na mesma área geográfica elas são chamadas de simpátricas (Sin = união, pátricas = de pátria, local de vida). Necessariamente as duas populações deverão pertencer a espécies diferentes. É o caso das Zebras e Girafas encontradas em determinado local da Savana africana. Por outro lado, populações da mesma espécie, ou não, que habitem ambientes diferentes são considerados alopátricas (Aloios, do grego, significa diferente). Duas populações de lambaris que habitam represas diferentes são alopátricas. Girafas e pinguins são grupos alopátricos de organismos pertencentes a espécies diferentes.

Irradiação adaptativa

Há muitos indícios de que a evolução dos grandes grupos de seres vivos foi possível a partir de um grupo ancestral cujos componentes, através do processo de especiação, possibilitaram o surgimento de espécies relacionadas. Assim, a partir de uma espécie inicial, pequenos grupos iniciaram a conquista de novos ambientes, sofrendo uma adaptação que lhes possibilitou a sobrevivência nesses meios. Desse modo teriam surgido novas espécies que em muitas características apresentavam semelhanças com espécies relacionadas e com a ancestral. Esse fenômeno evolutivo é conhecido como Irradiação Adaptativa, e um dos melhores exemplos corresponde aos pássaros fringilídeos de Galápagos estudados por Darwin. Originários do continente sul-americano, irradiaram-se para diversas ilhas do arquipélago, cada grupo adaptando-se às condições peculiares de cada ilha e, consequentemente, originando as diferentes espécies hoje lá existentes.
Para que a irradiação possa ocorrer, é necessário em primeiro lugar que os organismos já possuam em seu equipamento genético as condições necessárias para a ocupação do novo meio. Este, por sua vez, constitui-se num segundo fator importante, já que a seleção natural adaptará a composição do grupo ao meio de vida.
Irradiação adaptativa
Irradiação adaptativa

Convergência adaptativa

A observação de um tubarão e um golfinho evidencia muitas semelhanças morfológicas, embora os dois animais pertençam a grupos distintos. O tubarão é peixe cartilaginoso, respira por brânquias, e suas nadadeiras são membranas carnosas. O golfinho é mamífero, respira ar por pulmões, e suas nadadeiras escondem ossos semelhantes aos dos nossos membros superiores. Portanto, a semelhança morfológica existente entre os dois não revela parentesco evolutivo. De que maneira, então, adquiriram essa grande semelhança externa? Foi a atuação da um mesmo meio, o aquático, que selecionou nas duas espécies a forma corporal ideal ajustada à água. Esse fenômeno é conhecido como convergência adaptativa ou evolução convergente.
Outro exemplo de evolução convergente é o da semelhança morfológica existente entre os caules de um cacto do sul dos Estados Unidos e uma outra planta da família das Euforbiáceas, habitante da África. Os dois vegetais habitam regiões áridas semelhantes e são muito parecidos. Pertencem, porém, a grupos diferentes, o que pode ser mostrado através da estrutura das flores, que não é a mesma.
Homologia e analogia
Agora que sabemos o que é irradiação adaptativa e convergência adaptativa, fica fácil entender o significado dos termos homologia e analogia. Ambos utilizados para comparar órgãos ou estruturas existentes nos seres vivos. A homologia designa a semelhança de origem entre dois órgãos pertencentes a dois seres vivos de espécies diferentes, enquanto a analogia se refere à semelhança de função executada por órgãos pertencentes a seres vivos de espécies diferentes. Dois órgãos homólogos poderão ser análogos caso executem a mesma função.
A cauda de um macaco sul-americano e a cauda de um cachorro são estruturas homólogas (os dois animais são mamíferos) e não desempenham a mesma função. Já as asas de um beija-flor (ave) e as de um morcego (mamífero) são homólogas por terem a mesma origem e análogas por desempenharem a mesma função.
Por outro lado, as asas de uma borboleta (um inseto, artrópode) são análogas às asas de um pardal (uma ave) por desempenharem a mesma função, porém não são homólogas, já que a origem destas estruturas é muito diferente.
Note que os casos de homologia revelam a atuação do processo de irradiação adaptativa e denotam um parentesco entre os animais comparados. Já os casos de analogia pura, não acompanhados de homologia, revelam a ocorrência de convergência adaptativa e não envolvem parentesco entre os animais exemplificados. Assim, as nadadeiras anteriores de um tubarão são análogas às de uma baleia e ambas são consequência de uma evolução convergente.
  • autor: Armênio Uzunian, Dan Edésio Pinseta, Sezar Sasson
  • fonte: Biologia; introdução à Biologia
  • pp. 78-85;88-95. (Livro 1). São Paulo: Gráfica e Editora Anglo, 1991.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Hidden morphological diversity among early tetrapods


Phylogenetic analysis of early tetrapod evolution has resulted in a consensus across diverse data sets1, 2, 3 in which the tetrapod stem group is a relatively homogenous collection of medium- to large-sized animals showing a progressive loss of ‘fish’ characters as they become increasingly terrestrial4, 5, whereas the crown group demonstrates marked morphological diversity and disparity6. The oldest fossil attributed to the tetrapod crown group is the highly specialized aïstopod Lethiscus stocki7, 8, which shows a small size, extreme axial elongation, loss of limbs, spool-shaped vertebral centra, and a skull with reduced centres of ossification, in common with an otherwise disparate group of small animals known as lepospondyls. Here we use micro-computed tomography of the only known specimen of Lethiscus to provide new information that strongly challenges this consensus.

Digital dissection reveals extremely primitive cranial morphology, including a spiracular notch, a large remnant of the notochord within the braincase, an open ventral cranial fissure, an anteriorly restricted parasphenoid element, and Meckelian ossifications. The braincase is elongate and lies atop a dorsally projecting septum of the parasphenoid bone, similar to stem tetrapods such as embolomeres. This morphology is consistent in a second aïstopod, Coloraderpeton, although the details differ. Phylogenetic analysis, including critical new braincase data, places aïstopods deep on the tetrapod stem, whereas another major lepospondyl lineage is displaced into the amniotes. These results show that stem group tetrapods were much more diverse in their body plans than previously thought. Our study requires a change in commonly used calibration dates for molecular analyses, and emphasizes the importance of character sampling for early tetrapod evolutionary relationships.

Tradução


Diversidade morfológica escondida entre os tetrápodes iniciais
 A análise filogenética da evolução precoce do tetrapodo resultou em um consenso em diversos conjuntos de dados1, 2, 3 em que o grupo do tetrápodo é uma coleção relativamente homogênea de animais de tamanho médio a grande que mostram uma perda progressiva de personagens de "peixe" à medida que se tornam Cada vez mais terrestre4, 5, enquanto o grupo da coroa demonstra uma marcada diversidade morfológica e disparidade6.

O fóssil mais antigo atribuído ao grupo da coroa tetrapod é o altamente especializado aïstopod Lethiscus stocki7, 8, que mostra um tamanho pequeno, alongamento axial extremo, perda de membros, centra vertebral em forma de bobina e um crânio com centros reduzidos de ossificação, em comum com um grupo diferente de animais pequenos, conhecido como lepospondyls. Aqui, usamos a tomografia computadorizada micro do único espécime conhecido de Lethiscus para fornecer novas informações que desafiam fortemente esse consenso. A dissecção digital revela uma morfologia craniana extremamente primitiva, incluindo um entalhe espiracular, um grande remanescente da notocórdia dentro da cicatrização, uma fissura craniana ventral aberta, um elemento parasfenoide anteriormente restringido e ossificações Meckelianas.

A cicatrização é alongada e situa-se sobre um septo dorsalmente projetado do osso parasfenoide, semelhante aos tetrápodes de caule, como os embolomeres. Esta morfologia é consistente em um segundo aïstopod, Coloraderpeton, embora os detalhes sejam diferentes. A análise filogenética, incluindo os novos dados críticos sobre a cicatrização, coloca os aïstopods profundamente no tetrax, enquanto que outra linhagem lepospondyl principal é deslocada para os amniotes. Esses resultados mostram que os tetrápodes do grupo do caule eram muito mais diversos nos planos corporais do que se pensava anteriormente. Nosso estudo requer uma mudança nas datas de calibração comumente utilizadas para análises moleculares e enfatiza a importância da amostragem de caracteres para o relacionamento evolutivo do tetrapod precoce

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Prehistoric crocodiles' evolution mirrored in living species

Three species of Machimosaurus are shown with a human diver for scale.
Credit: Dmitry Bogdanov
Crocodiles which roamed the world's seas millions of years ago developed in similar ways to their modern-day relatives, a study has shown.

Fresh research into a group of prehistoric marine crocs known as Machimosaurus reveals key details of how and where they lived.

Each species adapted features that enabled them to live and hunt in a range of habitats, just like modern-day crocodiles. They varied in body length, body skeleton, skull and lower jaw shape, and in their teeth.
The ancient croc group included a nine-metre long saltwater species, which was adapted for living in open seas, and fed on marine turtles. Its closest relatives, by contrast, lived in coastal, choppy environments.

The prehistoric crocs' development mirrors those of today's crocodiles, whose saltwater varieties are far bigger and suited to larger territories compared with their smaller cousins that live closer to shore or in freshwater.

A team of researchers, led by the University of Edinburgh, examined fossil specimens from museums around Europe. From detailed analysis, they were able to determine key elements of the animals' anatomy and lifestyle, and concluded that not all were of the same species.

Until now, scientists were unsure whether more than one species of Machimosaurus existed. However, their findings show that there were at least three distinct species -- one of which has been fully identified for the first time. The study is published in the journal Royal Society Open Science.

Dr Mark Young, of the University of Edinburgh's School of GeoSciences, who led the study, said: "Interesting parallels can be seen between groups of ancient crocodiles and those living today, with some able to swim out in the open sea, with others restricted to the coast. With more fossils being discovered, we look forward to learning more about this giant group of Jurassic predators."

Note : The above story is based on materials provided by University of Edinburgh.

 

domingo, 5 de julho de 2015

Evo-devo: sobre genes homeóticos e "kit de ferramentas"

Por: Marcus V. Cabral

A morfologia orientou durante um bom tempo os trabalhos de reconstrução das relações de parentesco entre as espécies a partir do reconhecimento de suas semelhanças. Neste interim, acreditava-se que quanto maior fosse a semelhança morfológica entre dois táxons terminais, maior seria a semelhança genética entre eles, e vice e versa. Porém, como podemos ver em ensaios anteriores, podem existir semelhanças genéticas entre espécies muito distintas morfologicamente. Isso porque existem alguns genes compartilhados por vários grupos – não proximamente aparentados segundo as filogenias – que são responsáveis por ativar partes do DNA que irão diferenciar partes do corpo desses animais, portanto uma espécie pode conter um gene que está desativado e desta forma não é expresso nela, mas em uma outra espécie ele está ativado. Isso as deixa morfologicamente diferentes.

Se olharmos as diferenciações que ocorrem desde o estágio de zigoto, podemos observar que de uma única célula é originado um conjunto de sistemas extremamente complexo, através de processos de especializações das células de acordo com a função que ela desempenhará no indivíduo adulto, sendo esta determinada através de ativações nos genes que farão com que haja a produção seletiva de proteínas.
As informações necessárias para entender como acontece esse mecanismo detalhadamente foram obtidas em um primeiro momento através de estudos em bactérias Escherichia coli (que possui apenas um par de cromossomos), e deram um importante embasamento nas análises do desenvolvimento e da evolução de tanto desse organismo quanto de drosófilas e até mesmo vertebrados. Um exemplo são os dados provenientes de um experimento realizado pelos cientistas François Jacob e Jacques Monod (ver Carroll, 2006, p. 61–62). A E. coli degrada principalmente glicose como fonte de energia, porém, na ausência de glicose e presença de lactose (um outro carboidrato), a bactéria libera a enzima beta-galactosidade, que quebra a lactose em glicose e galactose, que podem ser absorvidas pela bactéria. Os dois cientistas, juntamente com André Lwoff, ao pesquisarem qual mecanismo faz com que a E. coli, na ausência de glicose, começa a produzir altas quantidades de beta-galactosidade, descobriram que a indução enzimatica acontece da seguinte forma: quando não há lactose no meio, um interruptor, que seria uma proteína repressora, reconhece uma sequência gênica que se localiza próxima do gene que traduz a beta-galactosidade e liga-se a essa sequência inativando o gene. Porém, quando há lactose no meio, essa proteína inibidora solta-se da sequência de DNA deixando o gene de beta-galactosidade ativo, pronto para ser transcrito (Figura 1).
Figura 1. Esquematização do mecanismo de produção de beta-galactose em E. coli.
O uso controlado do gene através de uma proteína repressora e o fato dela reconhecer no DNA uma sequência específica próxima ao gene de trancrição são dois apectos da lógica genética que veremos se repetir inúmeras vezes. Esse processo é chamado de regulação gênica.

Uma vez entendido o funcionamento da regulação gênica, podemos passar para o próximo passo que é o descobrimento dos genes mestres, que se repetem nas diferentes espécies de animais (como citado por Carroll (2006), "da E. coli aos elefantes"), e que codificam estruturas importantes como olhos, apêndices e o próprio coração.

A descoberta destes genes começou com estudos em drosófilas no laboratório de Walter Gehring, na Universidade da Basiléia (Suíça), em que foi isolado o gene eyeless que, quando mutado, é responsável pela perda dos olhos em moscas. Gehring e sua equipe descobriram que o eyeless corresponde ao gene Aniridia, presente nos seres humanos, e ao small eye, nos camundosgos. A partir daí, concluiu-se que a maquinaria genética que expressa os olhos não surgiu 40 vezes de forma independente durante a evolução animal, como se pensava, mas apenas uma vez sendo acionado várias vezes nas diferentes espécies. Esse complexo gênico ficou conhecido como Pax 6. Depois dele, muitos outros genes homeóticos foram descobertos, tal como o Distal less, responsável pela formação de apêndices (ou de qualquer coisa que se projete para fora do corpo de um animal), e o gene Tinman, responsável pelo aparecimento de bombas circulatórias como o coração.

Os genes mestres, assim chamados por Carroll (2006), sozinhos ainda não são capazes de conseguir organizar e "construir" um animal, afinal apesar deles serem responsáveis por grande parte das estruturas vitais nos animais, não são responsáveis por sua organização. Ainda no laboratório de Gehring, foi descoberto através de estudos na drosófila que, para cada um dos genes mestres existe um homeobox (ou gene hox) responsável pelo local de surgimento da estrutura expressa. Por exemplo, o gene Tinman possui um homeobox que sinalizará o local de surgimento do coração em um camundongo, por exemplo. Além disso, foi descoberto que a disposição desses homeobox no DNA corresponde ao local de aparecimento dessas estruturas no corpo do animal adulto (Figura 2).
Figura 2. Representação dos genes Hox em drosófila com seu posicionamento no DNA e seus respectivos locais de expressão.

Desta forma, podemos dizer que cada animal possui um "Kit de ferramentas" que, quando unidos, são capazes de construir um animal. Não importa seu tamanho nem sua complexidade, todos animais são definidos a partir de um pool gênico compartilhado, com pequenas alterações, cuja expressão diferencia-se por sua ativação ou desativação em determinadas espécies, e por pequenas mutações que podem ocorrer durante a história evolutiva.

Bibliografia:

Carroll, S.B. 2006. Infinitas Formas de Grande Beleza: Como a evolução forjou a grande quantidade de criaturas que habitam nosso planeta. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 09 –81.

Gehring, W., & Hiromi, Y. (1986). Homeotic Genes and the Homeobox Annual Review of Genetics, 20 (1), 147-173 DOI: 10.1146/annurev.ge.20.120186.001051

GEHRING, W. (2001). The genetic control of eye development and its implications for the evolution of the various eye-types Zoology, 104 (3-4), 171-183 DOI: 10.1078/0944-2006-00022

Koroma BM, Yang JM, & Sundin OH (1997). The Pax-6 homeobox gene is expressed throughout the corneal and conjunctival epithelia. Investigative ophthalmology & visual science, 38 (1), 108-20 PMID: 9008636

Quiring R, Walldorf U, Kloter U, & Gehring WJ (1994). Homology of the eyeless gene of Drosophila to the Small eye gene in mice and Aniridia in humans. Science (New York, N.Y.), 265 (5173), 785-9 PMID: 7914031
Robert J. S. 2001. Interpreting the homeobox: methaphors of gene a.ction and activation in development and evolution. Evolution & Development 3:4 287-29

Zhang J, & Nei M (1996). Evolution of Antennapedia-class homeobox genes. Genetics, 142 (1), 295-303 PMID: 8770606

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Revisitando um antigo mistério não resolvido: o que determina os níveis de diversidade genética dentro das espécies

quinta-feira, novembro 08, 2012

Revisiting an Old Riddle: What Determines Genetic Diversity Levels within Species?

Ellen M. Leffler1*, Kevin Bullaughey2#, Daniel R. Matute1#, Wynn K. Meyer1#, Laure Ségurel1,3#, Aarti Venkat1#, Peter Andolfatto4, Molly Przeworski1,2,3*

1 Department of Human Genetics, University of Chicago, Chicago, Illinois, United States of America, 2 Department of Ecology and Evolution, University of Chicago, Chicago, Illinois, United States of America, 3 Howard Hughes Medical Institute, University of Chicago, Chicago, Illinois, United States of America, 4 Department of Ecology and Evolutionary Biology and the Lewis-Sigler Institute for Integrative Genomics, Princeton University, Princeton, New Jersey, United States of America

Abstract

Understanding why some species have more genetic diversity than others is central to the study of ecology and evolution, and carries potentially important implications for conservation biology. Yet not only does this question remain unresolved, it has largely fallen into disregard. With the rapid decrease in sequencing costs, we argue that it is time to revive it.

Citation: Leffler EM, Bullaughey K, Matute DR, Meyer WK, Ségurel L, et al. (2012) Revisiting an Old Riddle: What Determines Genetic Diversity Levels within Species? PLoS Biol 10(9): e1001388. doi:10.1371/journal.pbio.1001388

Published: September 11, 2012

Copyright: © Leffler et al. This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original author and source are credited.

Funding: E.M.L. was partially supported by National Institutes of Health Grant T32 GM007197. M.P. is a Howard Hughes Early Career Scientist. The funders had no role in study design, data collection and analysis, decision to publish, or preparation of the manuscript.

Competing interests: The authors have declared that no competing interests exist.

* E-mail: emleffler@uchicago.edu (EML); mfp@uchicago.edu (MP)

# These authors contributed equally to this work.

What evolutionary forces maintain genetic diversity in natural populations? How do diversity levels relate to census population sizes (Box 1)? Do low levels of diversity limit adaptation to novel selective pressures? Efforts to address such questions spurred the rise of modern population genetics and contributed to the development of the neutral theory of molecular evolution—the null hypothesis for much of evolutionary genetics and comparative genomics [1]–[3]. Yet these questions remain wide open and, for close to two decades, have been neglected [4]. Most notably, little progress has been made to resolve a riddle first pointed out 40 years ago on the basis of allozyme data: the mysteriously narrow range of genetic diversity levels seen across taxa that vary markedly in their census population sizes [5]. This gap in our understanding is glaring, and may hamper efforts at conservation (e.g., [6]).

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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O que é uma espécie?
Ainda hoje cientistas continuam a debater essa questão. Uma melhor definição poderá alterar a lista das espécies ameaçadas

por Carl Zimmer - 2011






Se você visitar o Parque Provincial de Algonquin, em Ontário, Canadá, poderá ouvir os uivos solitários dos lobos e, com um pouco de sorte, observará ao menos de relance uma alcateia correndo, ao longe, através da floresta. Mas quando chegar em casa todo contente por ter avistado aqueles animais, qual a espécie de lobo você dirá ter encontrado? Se for tirar a dúvida com dois ou três cientistas, talvez ouça diferentes respostas. Pode até acontecer de um deles ficar em dúvida e lhe dizer que se trata dessa ou daquela espécie.

No século 18 naturalistas europeus nomearam de Canis lycaon os lobos do Canadá e do leste dos Estados Unidos, porque eles pareciam diferentes de Canis lupus, o lobo- cinzento da Europa e da Ásia. No início do século 20, naturalistas americanos decidiram que os lobos de Algonquin pertenciam, na verdade, à mesma espécie do lobo-cinzento eurasiano, ou seja, Canis lupus. Mais recentemente, entretanto, pesquisadores canadenses estudaram o DNA dos lobos e trouxeram à tona a velha questão. Eles argumentaram que os verdadeiros loboscinzentos (C. lupus) seriam apenas as populações que habitam o oeste da América do Norte. Os lobos do Parque Provincial de Algonquin, de acordo com os pesquisadores, constituiriam uma espécie diferente, que eles renomearam C. lycaon.

Outros especialistas em lobos não aceitam que haja evidências suficientes para separar C. lupus em duas espécies distintas. Os dois lados, porém, concordam que a identidade dos lobos do Parque de Algonquin ficou muito mais confusa devido ao problema do intercruzamento (hibridização). Os coiotes – outra espécie do gênero Canis – vêm se expandindo a leste e intercruzando com C. lycaon. Agora, boa parte da população de coiotes do lado leste carrega o DNA do lobo, e vice-versa. C. lycaon, entretanto, está intercruzando com lobos-cinzentos na borda oeste da área de distribuição desses animais. Assim os animais do Parque de Algonquin não estão apenas misturando o DNA de C. lycaon com o DNA de C. lupus mas, também, passando adiante o DNA do coiote.

Mesmo que C. lycaon, no passado, tenha sido considerado uma espécie, poderia recuperar esse status? Muitos pesquisadores acreditam que a melhor maneira de concebermos a espécie é vê-la como uma população cujos membros cruzam principalmente entre si, tornando aquele grupo geneticamente distinto das outras espécies. No caso dos lobos e dos coiotes fica difícil dizer exatamente onde termina uma espécie e começa a outra. “Preferimos chamá-la de Canis soup”, diz Bradley White, da Universidade de Trent, em Ontário.

Esse debate vai além da mera convenção de nomear corretamente as espécies. Os lobos do sudeste dos Estados Unidos são considerados uma espécie à parte, o chamado lobo-vermelho (Canis rufus). Muito se tem feito para salvar essa espécie da extinção, com programas de reprodução em cativeiro e projetos de reintrodução ao seu hábitat natural. Cientistas canadenses, entretanto, argumentam que o lobo-vermelho é, na verdade, apenas uma população isolada de C. lycaon do lado sul. Se for assim, então o governo não está, de fato, salvando uma espécie da extinção, já que milhares de animais pertencentes à mesma espécie, C. lycaon, ainda prosperam no Canadá.

Como ficou demonstrado, no caso dos lobos do Parque de Algonquin, definir espécie pode ser muito importante para as medidas de preservação ambiental, tanto no que diz respeito às espécies ameaçadas quanto em relação a seus hábitats. “Podemos dizer que, por um lado, trata-se de assunto esotérico, de outro, de problema prático; e, talvez, de problema legal”, avalia Alan Templeton, da Washington University em St. Louis.

Definições Complicadas
É surpreendente ver o quanto os cientistas vêm debatendo para chegar a um consenso sobre algo tão simples e decidir se esse ou aquele grupo de organismos constitui ou não uma espécie. Talvez isso se deva ao latim, que deu nomes às espécies, carregados de uma certeza absoluta, levando o público a pensar que as regras são muito simples. Ou possivelmente isso se deva a 1,8 milhão de espécies que os cientistas vêm nomeando de uns séculos para cá; ou, ainda, talvez, às leis como a Endangered Species Act (lei que estabelece as regras para as espécies ameaçadas nos Estados Unidos). Mas o que sabemos, de fato, é que o debate sobre o conceito de espécie ocorre há décadas. “Não há consenso, entre os biólogos, sobre o que vem a ser uma espécie”, admite Jonathon Marshall, biólogo da Southern Utah University. De acordo com a última estimativa existem em circulação, pelo menos, 26 conceitos publicados.
O mais notável quanto a todas essas discordâncias é que, hoje, o nosso conhecimento sobre como a vida evolui em novas formas aumentou muito desde que se iniciou o debate sobre as espécies. Os taxonomistas, até pouco tempo atrás, identificavam espécies apenas pelas características visíveis, como nadadeiras, pelos e penas. Agora podem ler sequências de DNA e descobrir toda uma riqueza de diversidade biológica.

Templeton e outros especialistas consideram que o debate finalmente chegou a um ponto crítico. Eles acreditam que agora será possível combinar muitas das ideias concorrentes em um único conceito básico. A unificação se aplicaria a qualquer tipo de organismo, de sabiás a microrganismos. Esses pesquisadores esperam com isso chegar a um método mais poderoso para reconhecer novas espécies.

Muito antes do alvorecer da ciência os seres humanos já nomeavam espécies. Para obterem sucesso durante as suas atividades de caça e de coleta, os humanos de então precisavam saber que animais caçar e que plantas coletar. A taxonomia, a ciência que trata da nomeação das espécies, surgiu no século 17 e se firmou no século seguinte, graças ao trabalho de Carl Lineu. Esse naturalista sueco inventou um sistema para organizar os seres vivos em grupos, os quais abrigavam grupos cada vez menores. De acordo com o novo sistema todos os membros de um grupo particular compartilhavam determinadas características. Os seres humanos pertenciam à ordem dos mamíferos e, dentro dessa ordem, à família dos primatas, nesta família, ao gênero Homo, e gênero Homo, à espécie Homo sapiens. Lineu acreditava que cada espécie sempre havia existido desde o momento da criação. Existem tantas espécies quantas foram as formas que o Ser Infinito criou no início dos tempos., escreveu.

A nova ordem de Lineu tornou o trabalho dos taxonomistas muito mais fácil, mas a tentativa de traçar limites entre as espécies não foi bem-sucedida. Duas espécies de camundongos podem intercruzar onde as suas áreas de distribuição se sobrepõem, levando à questão do nome a dar aos híbridos formados. Dentro de uma mesma espécie, também, ainda havia muita confusão. O lagópode-escocês da Irlanda (ave galiforme da família dos fasianídeos), por exemplo, apresenta uma pequena diferença na plumagem quando comparado com o lagópode-escocês da Escócia, que também difere do lagópode-escocês da Finlândia. Os naturalistas não chegaram a um acordo sobre a possibilidade de essas aves pertencerem a espécies diferentes de lagópode-escocês, ou ser apenas variedades – subgrupos em outras palavras – de uma única espécie.

Charles Darwin se divertia com essa questão. “É engraçado ver como diferentes ideias se manifestam nas diferentes mentes dos naturalistas, quando eles falam em 'espécies'”, escreveu em 1856. “Tudo isso resulta da tentativa de definir o indefinível.” As espécies, de acordo com Darwin, nunca foram entidades fixas que surgiram quando da criação. Elas evoluíram. Cada grupo de organismos que chamamos de espécie surgiu como uma variedade a partir de espécies mais antigas. Com o passar do tempo, a seleção natural os transformou, enquanto se adaptavam ao ambiente. Entretanto outras variedades se tornaram extintas. Uma variedade antiga, no final, torna-se completamente diferente de todos os outros organismos – e isso é o que entendemos como uma espécie em si. “Eu vejo o termo 'espécie' como um conceito arbitrário, cunhado apenas por mera conveniência, para designar um grupo de indivíduos muito semelhantes entre si”, disse Darwin.

Como os taxonomistas que o precederam, Darwin só podia estudar as espécies a olho nu; por exemplo, observando a cor das penas de um pássaro, ou contando as placas de uma craca. Essa situação perdurou até o início do século 20, quando cientistas começaram a examinar as diferenças genéticas entre as espécies. As pesquisas levaram a uma nova maneira de pensar. O que definia uma espécie eram as barreiras que impediam a sua reprodução com outras. Os genes fluíam entre os membros de uma mesma espécie, quando acasalavam; mas esses indivíduos, normalmente, permaneciam no âmbito da sua espécie, graças às barreiras reprodutivas. Assim, diferentes espécies podem procriar em épocas distintas do ano; determinada espécie pode achar os sons de corte de outras espécies nada estimulantes; ou, ainda, o DNA de uma espécie pode ser incompatível com o DNA de espécies diferentes.


A maneira mais promissora para as barreiras evoluírem é pelo isolamento. Assim, alguns membros de uma espécie existente – uma população – tornam-se incapazes de cruzar com o resto da sua espécie: uma geleira poderia atravessar sua área de distribuição, isolando essa população do resto da espécie. O grupo isolado desenvolveria novos genes, e alguns desses novos genes talvez tornassem o intercruzamento difícil ou mesmo impossível. Passadas centenas de milhares de anos muitas barreiras poderiam evoluir até que a população isolada se convertesse em uma espécie distinta.

A compreensão de como as espécies evoluem levou a uma nova ideia do que vem a ser uma espécie. Ernst Mayr, ornitologista alemão, declarou corajosamente que a espécie não era apenas mera convenção, mas uma entidade real, como montanhas e pessoas. Em 1942 ele definiu espécie como um pool gênico, ou reservatório gênico (expressão que seria utilizada a partir de 1950 por Theodosius Dobzhansky), um grupo de populações que podem cruzar entre si, mas são incapazes de intercruzar com outras. O conceito biológico de espécie, como ficou conhecido, tornou-se o modelo padrão dos livros didáticos de biologia.
Consequentemente muitos cientistas ficaram insatisfeitos com esse novo conceito ao perceber que era inadequado para ajudá-los a compreender o mundo natural. Em primeiro lugar, o conceito de Mayr não dizia nada sobre o quanto reprodutivamente isolada uma espécie deveria estar para se distinguir. Os biólogos ficaram numa situação embaraçosa no caso daquelas espécies que pareciam distintas, mas intercruzavam regularmente. No México, por exemplo, os cientistas descobriram que duas espécies de macacos, separadas a partir de um ancestral comum, há cerca de 3 milhões de anos, intercruzam com frequência. Não está havendo muito sexo entre as duas para que sejam qualificadas como espécies distintas?
Embora entre algumas espécies ocorra muito intercruzamento para que sejam consideradas espécies biológicas, existem outras espécies, também biológicas, formadas por populações tão isoladas que o sexo entre elas é pouco frequente. Os girassóis, que pertencem à mesma espécie, vivem em populações extremamente isoladas por toda a América do Norte. O fluxo gênico raramente ocorre entre elas. Assim, poderíamos aplicar o conceito de Mayr para tratar cada uma dessas populações como espécies distintas.

O mais problemático são as espécies que não apresentam sexo, como no caso dos rotíferos da ordem Bdelloidea, microscópicos animais marinhos. A maioria dos rotíferos se reproduz sexualmente, mas os rotíferos bdeloideos abandonaram o sexo há cerca de 100 milhões de anos. Todos os rotíferos dessa ordem são fêmeas e desenvolvem seus embriões sem qualquer necessidade de esperma. De acordo com o conceito biológico de espécie, esses rotíferos não podem ser considerados espécie, por estranho que possa parecer.

Equação em sexo
Essa insatisfação levou alguns cientistas a delinear novos conceitos de espécie. Cada um elaborado para captar a essência daquele significado. Um dos maiores rivais do conceito biológico de espécie, o chamado conceito filogenético de espécie, substituiu o fator sexo da equação pela ideia de descendência a partir de um ancestral comum.

Organismos aparentados têm características comuns porque compartilham o mesmo ancestral. Humanos, girafas e morcegos, todos descendem de mamíferos mais antigos e, consequentemente, todos apresentam pelos e glândulas mamárias. Dentro dos mamíferos, os humanos partilham um ancestral comum com os outros primatas, do qual herdaram outras características como olhos na posição frontal. Dessa maneira podemos descobrir grupos cada vez menores até chegarmos a uma escala em que não podem mais ser subdivididos. Estes, de acordo com o conceito filogenético, são as chamadas espécies. Podemos dizer, então, que esse conceito de espécie tomou o sistema original de Lineu e o modernizou à luz do pensamento evolutivo.

O conceito filogenético de espécie é adotado por pesquisadores que necessitam identificar as espécies em vez de apenas contemplá-las. Reconhecer uma espécie é questão de identificar um grupo de organismos que compartilham certas características bem definidas. Os cientistas, nesse caso, não dependem de condições menos precisas, como isolamento reprodutivo. Recentemente, por exemplo, a pantera-nebulosa da ilha indonésia de Bornéu foi declarada espécie distinta da pantera-nebulosa do sul do continente asiático. Todas as panteras-nebulosas de Bornéu compartilham características que não aparecem nas panteras do continente, como a pelagem mais escura.

Alguns críticos avaliam que, de acordo com esse conceito, teríamos espécies em demasia. “O problema com o conceito é que ele não nos diz em que nível natural devemos suspender as subdivisões”, observa Georgina Mace, da Imperial College de Londres. Uma simples mutação pode, ao menos teoricamente, ser o bastante para conferir a um pequeno grupo de animais o status de espécie. “É bobagem querer separar espécies a esses níveis”, avalia ela. Georgina argumenta que uma população deveria ser considerada ecologicamente distinta – tal como definida pela geografia, pelo clima e pelas relações predador-presa – antes que alguém decidisse separá-la em espécies distintas.

Outros pesquisadores, entretanto, consideram que deveriam seguir o que indicam os seus dados, em vez de se preocupar com os excessos de rupturas em nível de espécies. “O argumento de que existe um limite para o número de espécies que podem surgir não parece muito científico”, propõe John Wiens, biólogo da Stony Brook University.


Muito barulho por nada
Alguns anos atrás as intermináveis discussões sobre esse tema convenceram Kevin de Queiroz, biólogo do Smithsonian Institute, de que o debate sobre a questão do conceito de espécie chegara ao seu limite. “Já está ficando fora de controle”, avalia, “essa discussão esgotou a paciência de muita gente.”

Queiroz deu um passo à frente, afirmando que esse debate tem mais a ver com confusão que com a essência. “A confusão é, na verdade, bem simples”, propõe ele. A maioria dos conceitos concorrentes de espécie concordam quanto a alguns pontos fundamentais. Todos eles estão fundamentados na noção de que a espécie é uma linhagem evolutiva distinta, por exemplo. Para Queiroz essa é a definição fundamental de espécie. A maioria das discordâncias sobre a ideia de espécie não é com relação ao conceito em si, mas sobre como reconhecer uma espécie. Ele entende que métodos diferentes deveriam ser aplicados para casos distintos. Um significativo isolamento reprodutivo, por exemplo, é uma boa evidência de que determinada população de pássaros constitui uma espécie. Mas esse não é o único critério que pode ser usado. Para os rotíferos bdeloideos, que não têm sexo, os cientistas teriam de usar outros critérios.

Muitos especialistas em espécies compartilham do otimismo de Queiroz. Em vez de tentar usar apenas um padrão ouro, eles estão testando novas espécies contra diferentes linhas de evidências. Jason Bond, biólogo da East Carolina University, e seu aluno Amy Stockman usaram essa abordagem no estudo de um enigmático gênero de aranhas, Promyrmekiaphila, descobertas na Califórnia. Os taxonomistas há muito vêm se empenhando para determinar quantas são as espécies de Promyrmekiaphila. As aranhas resistem à classificação corriqueira porque são muito parecidas entre si. Os cientistas já sabem que elas, provavelmente, formam populações isoladas, em grande parte graças ao fato de não se dispersarem para muito além de seu território.

“Uma vez que a fêmea faz uma boa toca com alçapão e teia de revestimento, é pouco provável que ela se afaste desse local”, segundo Bond. Ele vem escavando tocas de Promyrmekiaphila contendo três gerações de aranhas fêmeas que viveram ali anos e anos. Os machos deixam as tocas onde nasceram, mas não vão muito longe, antes de se acasalar com a fêmea de uma toca vizinha.

Para identificar as espécies de aranhas, Bond e Stockman adotaram métodos desenvolvidos por Templeton. Eles estudaram a história evolutiva de Promyr mekiaphila, mediram o fluxo gênico entre as populações e caracterizaram o papel ecológico dessas aranhas. Para o estudo da história evolutiva, Bond e Stockman sequenciaram partes de dois genes de 222 aranhas de 78 localidades da Califórnia. Eles examinaram o DNA para marcadores genéticos que mostravam como esses animais eram aparentados entre si. A árvore evolutiva das aranhas resultou em várias linhagens distintas.

Bond e Stockman examinaram as versões dos genes em populações diferentes para descobrir alguma evidência de fluxo gênico. Para encerrar eles registraram as condições climáticas nas quais cada grupo de aranhas vivia. No final conseguiram identificar seis espécies que satisfaziam todos os critérios utilizados. Se aceitas, essas descobertas duplicarão o número de espécies de Promyrmekiaphila.


Esse tipo de abordagem está permitindo aos cientistas estudar certos organismos que não parecem se adaptar ao conceito de espécie. Pelo fato de os rotíferos bdeloideos não terem sexo, não se adaptaram bem ao conceito biológico de espécie. Tim Barraclough, da Imperial College de Londres, e seus colegas usaram outros métodos para determinar se esses rotíferos pertenciam a grupos que poderíamos chamar de espécie. Eles sequenciaram o DNA e construíram uma árvore evolutiva. A árvore apresentava apenas algumas ramificações longas, cada uma coroada por um tufo de ramos mais curtos. Eles examinaram o corpo dos rotíferos em cada tufo e descobriram que tinham formas similares. A diversidade dos rotíferos, em outras palavras, não era apenas obscura. Os animais formam agrupamentos resultantes, provavelmente, de linhagens separadas que estão se adaptando a diferentes nichos ecológicos. Se esses agrupamentos não são espécies, são bem afins.

Microrganismos como espécies
A maioria dos trabalhos relacionados ao conceito de espécie sempre foi direcionada a animais e plantas. Essa tendência tem uma explicação histórica: animais e plantas eram as únicas coisas que Lineu e outros antigos taxonomistas podiam estudar. Hoje, porém, os cientistas sabem que a grande maioria da diversidade genética está no mundo invisível dos microrganismos, e eles são o maior desafio quando o assunto é a natureza  das espécies.
No século 19, quando começaram a nomear espécies, os microbiólogos não examinavam penas ou flores, como os zoólogos e botânicos. Os microrganismos – principalmente bactérias e archae – são em geral muito parecidos entre si. Alguns apresentam a forma de bastão, enquanto outros se mostram como pequenas esferas. Para distinguir duas bactérias com forma de bastão, os microbiólogos desenvolveram experimentos relacionados ao metabolismo delas. Um tipo de microrganismo podia se alimentar de lactose, ao passo que outros, não. A partir desses indícios descreviam-se espécies, como Escherichia coli ou Vibrio cholerae. Mas era necessário saber o que significava pertencer a uma dada espécie, em se tratando de microrganismo. Quando Mayr veio com o seu conceito biológico de espécie, parecia excluir muitos daqueles seres. Afinal, as bactérias não eram formadas por indivíduos machos e fêmeas que podiam se reproduzir sexualmente como os animais. Elas simplesmente se partiam em duas.

A confusão piorou quando os cientistas tentaram calcular a diferença entre o DNA de duas espécies. Para surpresa de todos, as diferenças podiam ser imensas. Bactérias de uma mesma espécie são capazes de apresentar modos de vida radicalmente distintos. Algumas linhagens de E. coli vivem em nosso intestino sem causar nenhum prejuízo, enquanto outras provocam doenças. “A variação genética dentro de uma mesma espécie é tão grande que o termo 'espécie' para bactéria e archae não tem o mesmo significado que para plantas e animais multicelulares”, considera Jonathan Eisen, da East Carolina  University.

Os microrganismos não são pequenas exceções a essa regra. Quando os pesquisadores começaram a estudar o mundo microbiano descobriram que a diversidade encontrada no mundo animal é, comparativamente, insignificante. “Causa muita estranheza pensar que, se Mayr estiver certo, então 90% da árvore da vida não é composta por espécies”, contrapõe John Wilkins, filósofo da ciência da Universidade de Queensland, Austrália. “Faça uma pausa e pense sobre isso.”
Alguns pesquisadores argumentam que, talvez, os microrganismos se adaptem ao conceito biológico de espécie, mas de uma maneira peculiar. As bactérias não cruzam como os animais, mas fazem intercâmbio de genes. Os vírus podem transportar genes de um hospedeiro a outro, ou, então, as bactérias podem simplesmente capturar um DNA so no meio e incorporá-lo ao seu genoma. Existem evidências de que linhagens próximas permutam mais genes que linhagens distantes – uma versão microbiana das barreiras reprodutivas entre as espécies animais.


Mas alguns críticos têm apontado certos problemas com essa analogia. Embora animais e plantas possam intercambiar genes toda vez que se reproduzem, os microrganismos raramente permutam dessa maneira. Quando trocam genes, fazem isso com promiscuidade surpreendente. Durante um período de milhões de anos esses microrganismos adquiriram novos genes não apenas de seus parentes mais próximos, mas também de outros microrganismos que pertencem a reinos totalmente diferentes. Os críticos insistem que esse fluxo de genes ajuda a minar qualquer conceito de espécie para o caso dos microrganismos. “Penso que espécie é um tipo de ilusão”, interpreta W. Ford Doolittle, da Dalhousie University, na Nova Escócia.
Pesquisadores estão considerando as espécies microbianas mais seriamente. Argumentam que os microrganismos, assim como os rotíferos, não são apenas variações indistintas, mas grupos adaptados a nichos ecológicos particulares. A seleção natural previne esses grupos de se tornarem indistintos ao favorecer novos mutantes mais bem adaptados aos seus nichos. “É uma pequena linhagem que sempre segue adiante”, segundo Frederick Cohan, da Wesleyan University. Essa pequena linhagem, ele diz, é uma espécie.
Cohan e seus colegas descobriram essas espécies microbianas nas fontes termais do Parque Nacional de Yellowstone. Cada grupo de microrganismos geneticamente aparentados vive em nicho próprio dessas fontes termais – a determinada temperatura, por exemplo, ou necessitando de certa quantidade de luz solar. Para Cohan, essa evidência é o bastante para justificar o status de espécie para um grupo de microrganismos. Ele e seus colaboradores estão desenvolvendo um conjunto de regras que, esperam, serão utilizadas por outros pesquisadores para nomear novas espécies. “Decidimos que temos de ir além de persuadir as pessoas”, Cohan insiste.

É provável que essas novas regras levem os cientistas a separar as espécies microbianas tradicionais em muitas outras. Para evitar confusão, Cohan não quer mudar completamente os nomes originais das bactérias. Apenas pretende adicionar a palavra ecovar (variante ecológica) no final do nome de cada espécie. De acordo com Cohan, a compreensão da natureza das espécies microbianas poderá ajudar profissionais da saúde a se preparar para combater novas doenças no futuro. Classificar essas espécies poderia ajudá-los a antecipar o aparecimento de uma epidemia, dando tempo suficiente para que tomem as medidas mais adequadas.
Carl Zimmer é autor de nove livros e escreve regularmente sobre ciência na New York Times, National Geographic e Discover, onde é editor colaborador. Também é autor de um novo livro eletrônico, Brain cuttings: fifteen journeys through the mind (Ed. Scott & Nix). Um capítulo desse livro pode ser encontrado em www.ScientificAmerican.com/e-zimmer .