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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Tuberculose: origens, diagnóstico e diabetes

Três diferentes estudos apresentam avanços sobre a doença que mata 1,3 milhão de pessoas anualmente no mundo. 
 
Por: Cássio Leite Vieira
Publicado em 21/10/2014 | Atualizado em 21/10/2014
Tuberculose: origens, diagnóstico e diabetes
A infecção de focas e leões-marinhos pode explicar como a bactéria da tuberculose teria contaminado humanos que viveram no Peru quando a América ainda estava geograficamente isolada. (foto: Ricardo Batisda.
 
Três novidades sobre a tuberculose.

  • A primeira revela como ela pode ter chegado ao continente americano. 
  • A outra promete levar a um diagnóstico para o quadro em sua forma ‘adormecida’. 
  • A terceira mostra como o crescimento do diabetes pode inflar os números da epidemia mundial de tuberculose.

A equipe do paleogeneticista Johannes Krause, da Universidade de Tübingen (Alemanha), por meio da análise de restos de DNA de bactérias da tuberculose, mostrou que a doença pode ter chegado ao continente americano por meio de focas ou leões-marinhos.

O material genético analisado por Krause e colegas foi extraído de esqueletos humanos com cerca de mil anos de idade achados no Peru.

Krause e colegas, ao analisarem os genomas de três amostras de DNA da bactéria extraídas dos esqueletos, concluíram que elas são similares à Mycobacterium pinnipedii, adaptada a focas e leões-marinhos.
 
Sabe-se que as linhagens da Mycobacterium tuberculosis (bactéria que causa a doença em humanos) encontradas hoje em habitantes do continente americano são geneticamente muito semelhantes àquelas achadas na Europa – daí se pensar que a introdução do quadro por aqui ocorreu no século 16, com a chegada dos colonizadores espanhóis.

No entanto, Krause e colegas, ao analisarem os genomas de três amostras de DNA da bactéria extraídas dos esqueletos, concluíram que elas são similares à Mycobacterium pinnipedii, adaptada a focas e leões-marinhos. Com base nisso, os autores propõem que o contágio tenha ocorrido entre esses mamíferos marinhos e humanos. E só mais tarde é que essa linhagem teria sido substituída pela M. tuberculosis europeia, mais agressiva. O artigo está em Nature.

Outro desdobramento interessante (e intrigante) do estudo: o ancestral comum mais recente da M. tuberculosis teria apenas 6 mil anos de idade. Segundo Krause e colegas, foi nessa época que focas e leões-marinhos teriam sido infectados, nas costas africanas, por algum hospedeiro da bactéria.
No entanto, esse intervalo de tempo contrasta muito com os 70 mil anos que o conhecimento atual atribui à emergência dessa doença (Nature Genetics on-line). Acredita-se também que os humanos tenham adquirido o micro-organismo ainda antes de migrar da África para outros continentes.
Críticos dizem que seria preciso encontrar mais esqueletos antigos com a bactéria – principalmente, em outras localidades do continente americano – para que as conclusões de Krause e colegas sejam corroboradas.

‘Adormecida’ diagnosticada 

O segundo artigo traz a esperança de que, com base em seus resultados, seja desenvolvido um método para diagnosticar a chamada tuberculose latente – ou seja, a pessoa tem a bactéria, mas não manifesta os sintomas da doença.

Dennis Montoya, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA), e colegas mostraram que a proteína IL-32 (interleucina-32) poderia ser a razão pela qual um paciente portador da M. tuberculosis não adoece. Segundo os autores, essa proteína (em níveis mais elevados que o normal) poderia ser a responsável por ativar o sistema de defesa do organismo contra a bactéria. O artigo está em Science Translational Medicine.
M. tuberculosis
A presença de grande quantidade da proteína IL-32 e de níveis adequados de vitamina D poderia ser a razão pela qual uma pessoa infectada com a 'Mycobacterium tuberculosis' não desenvolve a doença. (imagem: Divulgação/ Sanofi Pasteur)
Montoya e colegas mostraram ainda que o disparo da defesa contra a M. tuberculosis não depende só de altos níveis da IL-32, mas também de níveis adequados de vitamina D no organismo. Ou seja, proteína e vitamina devem agir conjuntamente (e em harmonia) para que a doença permaneça assintomática.
Isso explicaria por que populações com pele mais escura – que funciona como um filtro solar natural contra a radiação ultravioleta – seriam mais suscetíveis à tuberculose, como se vê com mais frequência na África e Ásia. A explicação é que a radiação solar é necessária para a fabricação dessa vitamina. Talvez, dizem os autores, níveis menores de vitamina D possam estar relacionados a índices mais elevados da doença. Se essas relações estiverem corretas, elas também poriam sob risco maior de desenvolver a doença pessoas com a pele muito branca que evitam tomar sol – no caso, para evitar o câncer de pele.
Os autores acreditam que medir os níveis sanguíneos da IL-32 poderia ser uma forma de diagnóstico para a presença da bactéria ou para fases ainda muito iniciais da doença. E que, talvez, a suplementação da vitamina D se mostre um modo eficaz de elevar as defesas contra o micro-organismo – trabalho anterior do mesmo grupo já havia mostrado que a vitamina D ajuda a matar a bactéria.

Para se ter ideia da importância desses resultados, basta lembrar que cerca de um terço do mundo está infectado com a M. tuberculosis. Mas só de 5% a 10% desse universo manifestam a doença. No estado latente, não há contágio da doença, que, antes do advento dos antibióticos, era tratada com repouso, alimentação reforçada e, preferencialmente, em lugares de clima seco e frio. No Brasil, a cidade de Campos de Jordão (SP) se tornou famosa por seus sanatórios.

Associação perigosa 

A edição de setembro do periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology  publicou uma série de três artigos que chamam a atenção para um problema que tem se agravado nos últimos anos: a relação perigosa entre diabetes do tipo 2 e tuberculose. E esse binômio é ainda mais preocupante em países em desenvolvimento.
A relação pode parecer, à primeira vista, estranha. Mas é procedente:

i) o diabetes aumenta os riscos de o portador da M. tuberculosis passar a manifestar os sintomas – ou seja, a doença se tornar ativa;

 ii) os resultados do tratamento da tuberculose são, em geral, piores em diabéticos;

iii) estes, por sua vez, têm mais dificuldades de controlar as taxas de açúcar no sangue em relação a um diabético sem tuberculose. A chance de um diabético morrer ao longo do tratamento de tuberculose é cerca de duas vezes maior, se comparada com a de um não diabético.

O diabetes do tipo 2 é a forma da doença que leva à resistência do organismo à insulina (hormônio que ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue). A principal causa é a obesidade, e essa forma representa cerca de 90% dos casos da doença. A do tipo 1 é dita autoimune, ou seja, o sistema de defesa, por motivo ainda desconhecido, ataca o pâncreas, órgão onde a insulina é fabricada, e, assim, o hormônio deixa de ser produzido. Ambas têm impacto negativo na tuberculose, mas a principal responsável é a do tipo 2.
Um dos artigos indica que cerca de 15% dos casos de tuberculose em adultos no mundo já são associados ao diabetes, que afeta cerca de 380 milhões de pessoas no planeta atualmente
Um dos artigos indica que cerca de 15% dos casos de tuberculose em adultos no mundo já são associados ao diabetes, que afeta cerca de 380 milhões de pessoas no planeta atualmente.

Surgem cerca de 1 milhão de novos casos dessa associação por ano, mais de 40% deles na Índia e China. A África do Sul tem 70 mil casos do binômio, mas tem as taxas mais altas de tuberculose entre os países: 1 mil casos por 100 mil habitantes, três vezes maiores do que o segundo lugar, Burma (377 casos/100 mil).
Se a tendência atual se mantiver, a redução dos casos de tuberculose sofrerá um declínio entre 3% e 8% por volta de 2035, apontam os autores. A meta (ambiciosa) das autoridades de saúde mundiais é chegar àquele ano com uma redução de 90% na incidência de tuberculose no mundo. A associação com o diabetes compromete esse objetivo.

A Federação Internacional de Diabetes estima que, nos próximos 20 anos, o número de casos de diabetes possa subir 21%, o que corresponderia a uma prevalência (sem dúvida, espantosa) de aproximadamente 10% da população adulta planetária.
Em conjunto, tuberculose e diabetes têm tudo para reforçar o qualificativo ‘mal do século’, como a primeira era conhecida há cerca de 100 anos. Talvez, mais apropriado fosse ‘males do século’.

Cássio Leite Vieira
Ciência Hoje/ RJ

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